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Psychological assessment: Its role in the multidisciplinary team in a Children's and Adolescents' Psychiatric Unit of a general hospital/ O psicodiagnostico no trabalho em equipe multiprofissional em unidade de internacao psiquiatrica de criancas e adolescentes em hospital geral.

Introducao

O psicodiagnostico, ferramenta de uso exclusivo do psicologo, e um procedimento sistematico para obtencao de amostra de comportamento que permite o acesso a aspectos do funcionamento cognitivo e emocional do individuo de forma relativamente rapida e padronizada e considerando determinados padroes da populacao em questao (Stenzel, Paranhos & Ferreira, 2012). Segundo o Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2003), a Avaliacao Psicologica e um procedimento tecnico-cientifico realizado atraves de tecnicas e instrumentos validados, com o intuito de coletar dados que tragam informacoes sobre os fenomenos psicologicos, compreendidos como resultantes da relacao do sujeito com a sociedade. Dessa forma, essa avaliacao permite um conhecimento das caracteristicas do individuo, considerando nao so suas dificuldades, mas tambem os recursos que dispoe para lidar com conflitos e situacoes adversas.

Ha tres finalidades basicas para avaliacao psicologica: diagnostico, avaliacao de tratamento e meio de comunicacao (Stenzel et al, 2012). Com o objetivo de diagnostico, esta avaliacao permite explicar processos e funcionamento mentais que se traduzem em comportamentos e atitudes que, muitas vezes, o individuo nao tem acesso conscientemente, nao conseguindo, desta forma, verbalizar. Com a finalidade de avaliacao de tratamento, os resultados padronizados permitem que se tenha nocao sobre progresso no tratamento, assim como evolucao da doenca. A terceira finalidade, meio de comunicacao, refere-se tanto ao paciente, que por vezes nao consegue verbalizar sobre suas angustias e sofrimento, como a equipe multidisciplinar, sendo os achados dos instrumentos, integrados na historia de vida passada e atual do individuo, uma contribuicao exclusiva do psicologo. Alem disso, cabe ressaltar que informacoes objetivas e quantificaveis sao, por vezes, melhor compreendidas e aceitas por outros membros da equipe.

Pensando nestas tres finalidades, fica claro o impacto e potencial do psicodiagnostico na avaliacao e tratamento de um individuo. Ao se tratar de criancas e adolescentes, ha de se ter um cuidado extra visto que sao individuos em fase de desenvolvimento, com personalidade em formacao e significativamente suscetiveis ao meio. Conforme Gauy e Guimaraes (2006), a avaliacao dessa populacao e complexa devido a caracteristicas intrinsecas ao desenvolvimento, alem da dificuldade de criancas e adolescentes em expressar e reconhecer suas emocoes. Borsa e Muniz (2016) reforcam esta ideia referindo que este periodo do desenvolvimento, especialmente das criancas, pode limitar a maneira como percebem e lidam com os problemas emocionais, o que deve ser considerado em uma avaliacao psicologica.

Diante disso, a avaliacao psicologica com criancas e adolescentes mostra-se um processo complexo. Sao necessarios ajustamentos na aplicacao dos testes, iniciando pelas instrucoes que devem adaptar-se a compreensao da crianca, passando pelo estabelecimento de um bom rapport, ate o envolvimento da crianca em um clima de jogo, que torne a avaliacao parte de uma situacao ludica (Krug, Bandeira & Trentini, 2016). Alem de adaptar a tecnica, e necessario lancar um olhar cuidadoso para os resultados, visto que a interpretacao dos dados deve considerar as diferentes fases do processo de desenvolvimento e a influencia do meio, representado por referencias externas, como familia, escola e pares. Nesse sentido, ressalta-se a escassez de instrumentos padronizados e validados para essa populacao como um fator dificultador desse processo (Borsa & Muniz, 2016).

Segundo a resolucao 07/2003, do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2003), que versa sobre a elaboracao de documentos escritos por psicologos, o laudo ou relatorio psicologico, fruto do psicodiagnostico, deve atentar para o local, objetivo e forma que se da o processo de avaliacao. Sabe-se que a subjetivacao e um processo dinamico que e influenciado por fontes sociais, economicas, politicas e historicas, estando atrelado ao tempo e local onde ocorre a avaliacao. Nesse sentido, Borsa e Muniz (2016) reiteram a importancia de considerarmos o contexto na interpretacao dos dados obtidos. Assim, a avaliacao no contexto hospitalar tem suas peculiaridades, as quais devem ser integradas na interpretacao e integracao dos resultados.

Internacao psiquiatrica de criancas e adolescentes

Com o advento da Reforma Psiquiatrica no Brasil, a partir da decada de 1970, e a publicacao da Lei 10.216 (Brasil, 2001), a qual dispoe sobre os direitos e a protecao da pessoa portadora de transtorno mental, preconiza-se que a internacao psiquiatrica em hospital geral seja indicada apenas quando recursos extra-hospitalares mostrarem-se insuficientes, estando associada, portanto, a momentos de crise aguda. A construcao de politicas publicas especificas para criancas e adolescentes e recente, de forma que as principais contribuicoes nesse cenario dao-se atraves da promulgacao do Estatuto da Crianca e do Adolescente--ECA (Brasil, 1990) e a Portaria 1.608 (Brasil, 2004) que institui o Forum Nacional sobre Saude Mental de Criancas e Adolescentes, a qual busca oferecer subsidios para a criacao de novas politicas a fim de qualificar o atendimento a esta populacao.

Psicodiagnostico na internacao psiquiatrica de criancas e adolescentes

No ambiente hospitalar, o psicodiagnostico possibilita conhecimento do paciente de forma relativamente breve, consistente e aprofundada, fornecendo subsidios tanto para fins diagnosticos, como tambem para orientar encaminhamentos e outras intervencoes multidisciplinares. Cabe destacar que o psicodiagnostico neste contexto vai alem da busca por uma psicopatologia, buscando elucidar o funcionamento psiquico, atraves da identificacao de forcas e fraquezas do funcionamento emocional, entendendo comportamento, crencas e atitudes dos individuos (Schneider, Gomes, Lichtenstein & Oliveira, 2014). Nesse sentido, a avaliacao psicologica em criancas contribui para auxiliar no planejamento terapeutico considerando caracteristicas de organizacao do sujeito, suas facilidades e dificuldades, desejos e necessidades, assim como potenciais e entraves do contexto em que esta inserido (Saullo, 2012).

O trabalho em questao tem como objetivo apresentar dados referentes a realizacao de psicodiagnostico junto a equipe multidisciplinar em leitos de internacao psiquiatrica da infancia e adolescencia de um hospital geral no ano de 2015. Alem disso, busca-se possibilitar uma reflexao sobre os dados apresentados a fim de suscitar questionamentos e repensar a pratica nesse cenario.

Metodo

Os dados retratados neste trabalho referem-se seis leitos destinados a infancia e adolescencia de internacao psiquiatrica em hospital geral, sendo quatro leitos para adolescentes e dois para criancas. Trata-se de um hospital escola, integrante da rede hospitais universitarios do Ministerio da Educacao, o qual, alem de oferecer servicos assistenciais a comunidade, configura-se como area de ensino e busca promover a realizacao de pesquisas cientificas e tecnologicas.

A internacao de criancas e adolescentes na especialidade da psiquiatria da-se, basicamente, pelo risco de auto e/ou heteroagressao, alem de tentativa de suicidio e/ou sofrimento emocional intenso. E indicada quando recursos extra hospitalares mostram-se insuficientes para lidar com as demandas e necessidades daquele individuo e sua familia. Um responsavel, geralmente um familiar, acompanha a crianca ou adolescente ao longo do periodo de internacao, sendo este um fator de seguranca e conforto emocional para o menor, alem de uma possibilidade de observacao e intervencao para a equipe assistente, que atua nao somente focada na crianca/adolescente mas tambem em seu contexto familiar.

Os dados apresentados neste estudo foram obtidos atraves do sistema de tecnologia da informacao do hospital, em que campos do prontuario do paciente sao resgatados e transpostos para uma planilha do programa Excel. Desta forma, foi possivel realizar um levantamento do numero de avaliacoes psicologicas realizadas e caracteriza-las de acordo com idade, genero, tipo de convenio na internacao, diagnostico na alta, alem de obter-se o tempo, em dias, entre internacao e solicitacao de exame de psicodiagnostico e entre solicitacao deste exame e liberacao dos resultados no sistema. Neste levantamento foram utilizados os filtros do periodo de 01/01/2015 a 31/12/2015 e da idade entre 2 anos e 17 anos e 11 meses, sendo estes os balizadores da busca.

O atendimento as criancas e adolescentes internadas em unidade psiquiatrica ocorre de forma multidisciplinar, contando com a participacao de profissionais da psiquiatria, psicologia, enfermagem, pedagogia, servico social, nutricao e educacao fisica. Essas reunioes ocorrem semanalmente e tem a duracao de aproximadamente uma hora e meia, sendo que em torno de 45 minutos destinam-se a discussao entre a equipe assistente, enquanto a outra parte desse processo tem a participacao do paciente e seus familiares, juntamente com equipe assistente. Atraves destes encontros, e possivel integrar diferentes pontos de vista e percepcoes do paciente, assim como cada especialidade pode fazer apontamentos e sugestoes considerando seu nicho profissional.

Atraves destas reunioes, elabora-se o Plano Terapeutico Singular--PTS. Segundo a Politica Nacional de Humanizacao do Sistema Unico de Saude, o PTS e um instrumento de trabalho que possibilita a participacao, reinsercao social e construcao de autonomia para o usuario e seus familiares (Brasil, 2007). Dessa forma, equipe, paciente e familiares identificam facilidades e dificuldades, assim como necessidades e desejos, do individuo e sua rede, podendo articular encaminhamentos desde a internacao.

Durante o ano de 2015, nesta instituicao, o psicodiagnostico fazia parte do fluxo de atendimento dos pacientes internados, sendo esta a principal contribuicao da psicologia nestas equipes. E atraves do psicodiagnostico que o profissional da psicologia vai conhecer de forma mais aprofundada o paciente e seu contexto e, assim, contribuir para o diagnostico e planejamento terapeutico. As avaliacoes psicologicas sao realizadas por estagiarios ou alunos de especializacao em psicologia, sendo supervisionados por psicologa contratada do hospital, a qual mantem contato frequente com equipe. Cada encontro com paciente gera material a ser supervisionado e discutido, seja em forma de relato, entrevista dialogada ou levantamento de testes.

Sendo assim, o processo de psicodiagnostico pode ser descrito da seguinte maneira: ao receber a consultoria, a psicologa contratada contata o aluno que ira realizar a avaliacao. Apos discussao com a equipe multiprofissional que acompanha o caso, e feita revisao detalhada do prontuario. De forma conjunta, em supervisao, o caso e discutido e a bateria de testes e selecionada. Apesar de haver uma bateria de testes predeterminada, durante o processo, e possivel acrescentar ou retirar instrumentos de acordo com a demanda observada. No primeiro contrato com paciente e familiar, sao explicados objetivo e processo do psicodiagnostico, alem de ressaltar limites de confidencialidade, considerando que os resultados que forem relevantes para o tratamento serao compartilhados em equipe. Apos consentimento de paciente e resoponsavel, e iniciado o processo propriamente dito. Cabe ressaltar que esse processo demanda certa flexibilidade, pois se baseia nas necessidades do paciente, familiares e equipe, assim como pode requerer algumas adaptacoes por conta da rotina hospitalar.

Inicia-se com entrevista de anamnese com responsaveis pelo paciente, seguido por entrevista clinica ou hora do jogo diagnostica, dependendo da idade. Entao, sao aplicados instrumentos psicologicos, com vistas a esclarecer aspectos do funcionamento emocional e cognitivo. De forma geral, e utilizado algum instrumento da escala Wechsler (WISC-IV, WAIS-III ou WASI) para avaliacao de aspectos cognitivos. Para questoes de personalidade, de acordo com faixa etaria, utiliza-se HTP, Rorschach, Piramides Coloridas de Pfister-versao infantil e CAT-A. Ao final, realiza-se a integracao dos resultados dos instrumentos com observacoes e dados advindos de entrevistas e hora de jogo, alem de informacoes do prontuario e das discussoes em round. Essa integracao e traduzida em forma de laudo psicologico, sendo este o produto final da avaliacao psicologica, que fica disponivel no prontuario eletronico do paciente. A devolucao dos resultados faz parte do processo, sendo realizada em tres momentos: para paciente, familiares e equipe.

Tendo em vista este processo, o trabalho em questao apresenta um levantamento dos psicodiagnosticos executados pelo Servico de Psicologia no ano de 2015, solicitados pela equipe da Psiquiatria da Infancia e Adolescencia. Cabe ressaltar que, como os resultados aqui apresentados e as discussoes feitas sao baseadas nos registros e observacoes dos profissionais, e desenvolvidas dentro das atividades de assistencia, a tramitacao desta proposta em Comite de Etica nao foi cabivel. Entretanto, todos os principios eticos do sigilo foram respeitados.

Resultados

Conforme descrito anteriormente, em 2015, o psicodiagnostico fazia parte do fluxo de atendimento das criancas e adolescentes internados na psiquiatria, sendo solicitado para todos os que possuiam condicoes de executa-lo e que nao tinham realizado no ultimo ano. As condicoes resumem-se, basicamente, a ser capaz de comunicar-se com profissional, seja de forma verbal ou nao verbal, o que exclui, essencialmente, casos graves de Retardo Mental. Individuos que realizaram esta avaliacao no periodo de um ano nao a realizam novamente devido a efeitos de aprendizagem e validade dos instrumentos.

Dessa forma, ao longo do ano de 2015, do total de 41 internacoes na especialidade da Psiquiatria da Infancia e Adolescencia, o Servico de Psicologia recebeu 34 solicitacoes de avaliacoes. Destas, 32 foram concluidas e liberadas no sistema com exito, o que corresponde a aproximadamente 94% das solicitacoes realizadas. Duas solicitacoes foram canceladas devido a alta hospitalar antes do termino da avaliacao. Metade das avaliacoes concluidas era de pacientes internados por convenio SUS, enquanto a outra metade diz respeito a internacoes atraves de convenios privados.

Dos pacientes avaliados, quase 60% eram do sexo masculino, enquanto um pouco mais de 40% era do sexo feminino. Com relacao a idade, mais da metade tinha entre 13 e 16 anos, sendo que 22% estavam na adolescencia inicial (13 e 14 anos) e 39% estavam na adolescencia intermediaria (15 ou 16 anos). Nao foi realizada nenhuma avaliacao com individuos menores de 7 anos e havia entre 10 e 15% para cada uma das faixas de 7 e 8 anos, 9 e 10 anos, e 11 e 12 anos (Figura 1).

Com relacao ao diagnostico na alta, foi possivel perceber heterogeneidade considerando transtornos especificos. Entretanto, quase metade (47%) das criancas e adolescentes possuia diagnostico de Transtornos do Humor (F30-F39), sendo 25% na linha do transtorno afetivo bipolar e 22% dentro do espectro das depressoes (episodio depressivo grave com sintomas psicoticos, episodio depressivo grave sem sintomas psicoticos, episodio depressivo moderado, transtorno depressivo recorrente). Quase um quinto (19,4%) dos individuos receberam diagnostico na linha da conduta (F90F98), enquanto 8,3% na linha da ansiedade (F40-48), sendo a mesma porcentagem para transtornos da linha da esquizofrenia (F20-F29). Alem destes, em menor quantidade, tambem havia diagnosticos de transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de cannabis, anorexia nervosa, transtorno de identidade sexual na infancia (1 individuo cada) e retardo mental moderado (dois pacientes) (Figura 2).

A media de tempo de internacao dos pacientes na Unidade de Psiquiatria da Infancia e Adolescencia foi de 45 dias, sendo o minimo de 4 dias e o maximo de 115 dias. Em media, o exame de psicodiagnostico foi solicitado pela equipe medica na primeira semana de internacao do paciente, sendo o resultado liberado no sistema, em media, um mes apos a solicitacao.

Discussao

O psicodiagnostico no ambiente hospitalar apresenta algumas peculiaridades. O fato de caracterizar-se como um espaco de internacao influencia a dinamica da avaliacao psicologica. Nesta experiencia, o numero de solicitacoes canceladas frente ao processo desenvolvido nao foi significativo, o que possivelmente e um reflexo do trabalho junto a equipe multiprofissional e da participacao efetiva da psicologia nos espacos de discussao.

De acordo com os resultados supramencionados, a maioria (em torno de 60%) das criancas e adolescentes avaliados era do sexo masculino. Essa realidade e semelhante em um centro hospitalar em Lisboa, Portugal, como mostrado pelo estudo de Encarnacao, Moura, Gomes, e da Silva (2011). Trata-se de um estudo retrospectivo que buscou descrever a populacao atendida por uma equipe de psiquiatria da infancia e adolescencia vinculada a um centro hospitalar de Lisboa, entre os anos de 2004 e 2007. Esta pesquisa apontou que pouco menos de 70% dos pacientes eram meninos.

No presente estudo, os resultados mostraram que, em relacao a idade, a maior parte das avaliacoes destinavam-se a pacientes adolescentes na fase inicial e intermediaria. Neste periodo da vida, o sujeito se depara com uma serie de conflitos, perdas e conquistas a elaborar. Na fase inicial da adolescencia, vivenciam-se as primeiras ressignificacoes das etapas do desenvolvimento psicossexual experimentadas na infancia, tal situacao soma-se as mudancas corporais da puberdade que se iniciam na pre-adolescencia e convocam o sujeito a elaborar uma serie de transformacoes e redirecionar seus investimentos. Ja na fase intermediaria da adolescencia, as contradicoes instauradas na fase inicial sao experimentadas de forma mais intensa e aprofundada. Nesta fase, o jovem tende a investir em novos objetos de amor e gradualmente abandonar as figuras paternas, neste momento ja internalizadas. Esta vivencia visa possibilitar a construcao da identidade e o reconhecimento de si mesmo enquanto sujeito de desejo, separado dos pais. Assim, espera-se que esta fase, apesar de marcada por sentimentos geradores de medo e angustia, desperte, concomitantemente, esperanca e possibilidade de novos investimentos (Macedo, Azevedo & Castan, 2009).

Dessa forma, percebe-se o quanto esta epoca de mudancas tanto corporais como psiquicas, em que a personalidade esta se consolidando, e propicia para o surgimento de conflitos e angustia. Soma-se a isso o contexto e situacao de vida individual e familiar, com aspectos de suporte e/ou vulnerabilidades sociais, o que, por vezes, pode agravar questoes inerentes ao desenvolvimento. Assim, ainda sem recursos adequadamente desenvolvidos para lidar com angustia, conflitos e sentimentos contraditorios, as criancas e adolescentes podem demonstrar sintomas por vezes incapacitantes ou que coloquem sua vida ou de outros em risco, necessitando internacao psiquiatrica.

Diagnostico psiquiatrico na infancia e adolescencia e um tema gerador de controversias entre profissionais. Assim, questoes desenvolvimentais desse periodo, variaveis contextuais e receio de estigmatizacao do individuo colocam-se como pontos que podem justificar a preocupacao dos profissionais em realizar um diagnostico psiquiatrico nesta fase. Entretanto, quando o diagnostico psiquiatrico e realizado com responsabilidade e atraves de exaustiva investigacao sobre os diferentes aspectos da vida do sujeito pode associar-se a possibilidade de tratamento adequado e, assim, melhora da condicao de vida e bem-estar (D'Abreu, 2012).

No levantamento desta pesquisa, praticamente metade (47%) das criancas e adolescentes possuia diagnostico de Transtornos do Humor enquanto quase um quinto (19,4%) dos individuos receberam diagnostico na linha da conduta. Em estudo para avaliar incidencia dos disturbios mentais em servicos ambulatoriais de saude mental do interior do Rio Grande do Sul (RS), realizado entre os anos de 1997 e 2001, foram consultados cinco servicos publicos para criancas e adolescentes. O diagnostico com maior prevalencia foi Reacao a estresse grave e Transtornos de ajustamento (F 43), seguido de Transtorno de conduta (F91) (Miranda, Tarasconi & Scortegagna, 2008). Em outro estudo, realizado em um ambulatorio de saude mental de um municipio no interior do RS, apenas 17,54% das criancas e adolescentes possuiam diagnostico definido, sendo o diagnostico de Transtorno de Deficit de Atencao e Hiperatividade (TDAH) correspondente a 75% destes. (Duarte, Santos, Madeira, Lazzari & Lasta, 2015).

Apesar dos tres estudos envolverem criancas e adolescentes com questoes psiquiatricas em atendimento em insituticoes publicas do Rio Grande do Sul, servicos ambulatoriais tendem a atender uma populacao menos grave do que aquela que necessita de internacao psiquiatrica, o que pode auxiliar a explicar a diferenca entre os dados. Ja o estudo de Encarnacao et al. (2011) aponta para uma realidade semelhante a observada no presente estudo, visto que 56% da populacao atendida tinha diagnostico psicodinamico na linha da Depressao. Entretanto, considerando o DSM-IV-TR, 30% possuia diagnostico de Disordem Emocional e praticamente 25% Transtorno de Conduta e/ou TDAH.

Destaca-se que, para atender aos propositos da demanda do paciente e da equipe multidisciplinar, e fundamental ir alem do diagnostico nosologico, considerando a compreensao dinamica do funcionamento do paciente, sua personalidade em formacao, historia familiar, contexto e situacao atual, entre outros. Cunha (2000) identifica a avaliacao compreensiva como capaz de discriminar nivel de funcionamento da personalidade, possibilitando o reconhecimento de relacoes entre funcoes do ego, defesas e capacidade de insight, aspectos importantes na indicacao terapeutica.

Cabe ressaltar o cuidado necessario na integracao dos resultados e na elaboracao de um laudo, considerando as especificidades dessa faixa etaria, com suas mudancas e estruturacao da identidade. Assim, o laudo deve enfatizar que os resultados do psicodiagnostico nao devem ser vistos de forma cristalizada, destacando sua natureza dinamica e circunstancial. Considerando este aspecto e a experiencia advinda do trabalho com esse publico, cabe destacar como um fator dificultador do processo a baixa quantidade de instrumentos de avaliacao de personalidade validada para essa populacao no Brasil (Borsa & Muniz, 2016). Na Alemanha, em pesquisa realizada em 92 clinicas psiquiatricas de internacao e ambulatoriais para criancas e adolescentes (BolteAdam-Schwebe, Englert, Schmeck & Poustka, 2000), todas mantem ao menos um inventario ou teste psicologico para auxilio diagnostico e metade possui bateria invidual como rotina na admissao. Essa realidade reforca a crenca nos instrumentos como ferramentas para acesso ao funcionamento emocional e mensuracao de habilidades individuais, aspectos essenciais no planejamneto terapeutico.

Assim, ao considerarmos as complexidades e diversidade desta faixa etaria, a avaliacao da psicologia auxilia o acesso a diferentes campos de interesse do individuo, possibilitando a expressao de suas habilidades e desejos. Essas informacoes servem de subsidio para equipe, paciente, familiares e rede elaborarem o PTS, reorganizando a vida do individuo, considerando encaminhamentos em seu contexto. Novamente, o papel da equipe multidisciplinar mostra-se relevante quando os interesses levantados pela psicologia e as habilidades exploradas pela educacao fisica podem ser integrados com a realidade da crianca ou adolescente, conforme avaliacao do servico social. Dessa forma, alem das medicacoes e tratamento medico, o paciente e sua familia tem suas necessidades abarcadas de forma integral.

Considerando o objetivo principal de uma internacao psiquiatrica, a saber, protecao em caso de auto e/ou heteroagressividade, esbatimento dos sintomas e esclarecimento diagnostico, o psicodiagnostico mostra seu valor ao possibilitar o acesso a conteudos latentes de forma relativamente rapida. Entretanto, em um hospital escola, em que a assistencia e o ensino se conjugam, os processos se desdobram. Dessa forma, cada intervencao do aluno exige supervisao do material gerado por parte do profissional contratado. Isso possibilita que as necessidades do paciente e familiar sejam atendidas de forma etica, efetiva e competente, ao mesmo tempo em que o aluno desenvolve suas habilidades profissionais. Apesar de um pouco mais prolongado, o tempo para a realizacao de um psicodiagnostico em uma internacao psiquiatrica em hospital universitario mostrase valido, visto que permite o acesso a diversas facetas do desenvolvimento e da vida do individuo.

Conclusao

Considerando as mudancas desenvolvimentais e a necessidade de um olhar amplo para o sujeito, o psicodiagnostico mostra seu valor em uma internacao psiquiatrica na especialidade de criancas e adolescentes, ao possibilitar o acesso nao so a deficits e dificuldades, mas tambem a facilidades, interesses e desejos, aspectos que devem ser considerados ao formular uma hipotese do funcionamento emocional do individuo assim como na elaboracao de um Plano de Tratamento Singular. Alem disso, compreendendo a gravidade e possivel cronicidade de transtornos mentais de inicio na infancia e adolescencia, o psicodiagnostico tem importante valor no acompanhamento do tratamento, visto que fornece medidas psicometricas, que possibilitam perceber a evolucao do quadro e/ou do tratamento ao longo do tempo.

Assim, o psicodiagnostico configura-se como instrumento que visa assegurar uma avaliacao que contemple os diferentes aspectos da vida do individuo, relacionando os efeitos e caracteristicas daquele sujeito de forma ampla e singular. Dessa forma, mostra-se como uma ferramenta fundamental na construcao de hipoteses quanto ao funcionamento dinamico e no planejamento terapeutico, atraves da contribuicao no PTS.

Entretanto, cabe ressaltar que um dificultador desse processo e a escassez de instrumentos validados e disponiveis para a avaliacao desse publico (Borsa & Muniz, 2016). Assim, a avaliacao conta com menos recursos que o desejavel para avaliar um periodo importante e marcante da vida do individuo, onde descobertas estao sendo vivenciadas e planos para o futuro tracados. Percebe-se a necessidade de divulgacao deste trabalho, para que outros profissionais e instituicoes da area da saude possam usufruir do potencial de um exame aprofundado e conciso realizado por psicologos especializados. Soma-se a isso a escassez de estudos considerando a avaliacao psicodiagnostica no contexto da internacao psiquiatrica de criancas e adolescentes, area que deve receber incentivo para pesquisa.

Referencias

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Conselho Federal de Psicologia. (2003) Resolucao 007/2003. Institui o Manual de Elaboracao de Documentos Escritos produzidos pelo psicologo, decorrentes de avaliacao psicologica. Acessado em: 25 de julho de 2016. Disponivel em: <http:// site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2003/06/resolucao2003_7.pdf>

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Stenzel, G. Q. de L., Paranhos, M. E., & Ferreira V R. T. (2012). A psicologia no cenario hospitalar: encontros possiveis. Porto Alegre, RS: Edipucrs.

Recebido em: setembro de 2016

Aceito em: maio de 2017

Juliana Unis Castan: Mestre em Rehabilitation Counseling pela University of Maryland, EUA; Psicologa Contratada do Hospital de Clinicas de Porto Alegre.

Nilve Junges: Psicologa Residente em Saude Mental; Hospital de Clinicas de Porto Alegre.

Fernanda Rohrsetzer Cunegatto: Estagiaria de Psicologia no HCPA; Academica de Psicologia da Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul

Endereco para contato: jcastan@hcpa.edu.br
Figura 1--Idade dos pacientes que realizaram avaliacao psicologica na
Unidade de Psiquiatria da Infancia e Adolescencia.

7 e 8 anos     11%
9 e 10 anos    14%
11 e 12 anos   11%
13 e 14 anos   22%
15 e 16 anos   39%
17 anos         3%

Fonte: base de dados do sistema de tecnologia da informacao
do hospital.

Nota: Tabla derivada de grafico segmentado.

Figura 2--Diagnostico Medico de acordo com CID 10.

F10-F19     2.80%
F20-F29     8.30%
F30-F39    47.20%
F40-F48     8.30%
F50-F59     2.80%
F60-F69     2.80%
F70-F79     5.60%
F80-F89     0.00%
F90-F98    19.40%
Outros      2.80%

Fonte: base de dados do sistema de tecnologia da informacao
do hospital.

Nota: Tabla derivada de grafico segmentado.
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Author:Castan, Juliana Unis; Junges, Nilve; Cunegatto, Fernanda Rohrsetzer
Publication:Revista Aletheia
Date:May 1, 2015
Words:4615
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