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Proper name and social description: Balzac's poetics of naming/Nome proprio e descricao do social: poetica da nomeacao em Balzac.

Em seu esforco para estabelecer uma analise estrutural da narrativa, a teoria literaria tomou como um de seus alvos a compreensao da personagem. Condenando a confusao entre as nocoes de "pessoa" e "personagem", ela postulou a necessidade de se compreender esse ultimo tendo como unico universo de analise a narrativa em que esta inserido e de analisa-lo do ponto de vista das acoes de que e o sujeito. No que concerne ao problema do significante do personagem, mais especificamente de seu nome proprio, chamou-se a atencao para a possibilidade de ele ser motivado, enfatizando-se sua diferenca em relacao ao nome proprio em geral (HAMON 1977; RIGOLOT 1977).

Como signo linguistico, o nome proprio singulariza-se por ser desprovido de sentido, portanto, de relacao de significacao (estabelecida entre significante e significado), a ele sendo reservada a relacao de denotacao (estabelecida entre a palavra e o objeto). Sua funcao e a identificacao pura: distinguir e individualizar uma pessoa ou coisa. Mas em literatura, destacou a teoria literaria, o nome proprio pode ser dotado de significado, isto e, ser motivado. Nesse sentido, ele entrara em relacao com a personagem designada, de maneira harmonica ou antifrastica (RIGOLOT 1977, p. 11-12).

Tal modo de abordar a onomastica literaria, se tem o merito de superar analises puramente referenciais, que se restringiam a buscar no fora-do-texto as fontes biograficas ou geo-historicas dos antroponimos literarios, por outro lado, conduz frequentemente a desconsiderar a historicidade das praticas de nomeacao das personagens. Com efeito, ao contrario do que as analises baseadas na teoria literaria tendem a sugerir--e, em todo caso, aquilo que elas esquecem -, os autores nem sempre nomearam suas personagens da maneira como o fazem atualmente. Eles nem sempre entenderam, como passaram a conceber a partir do seculo XIX, que o "nome proprio e uma coisa capital" em um romance, segundo a celebre frase de Gustave Flaubert; nem sempre praticaram a nomeacao motivada, atribuindo um significado aos nomes de suas personagens, relacionado com os caracteres que lhes deram ou o destino que lhes reservaram; nem sempre se utilizaram dos nomes correntes para batizar os filhos de sua imaginacao; e ate nem sempre os batizaram; e nem sempre puderam batiza-los livremente.

Do mesmo modo, o privilegio conferido a analise dos nomes dos personagens em uma obra especifica favorece o obscurecimento das relacoes entre a onomastica literaria e a poetica do romance. Em sua permanente luta com seu proprio estatuto, nao foi apenas o proprio genero que se modificou, mas tambem a nomeacao das personagens. Assim, no romance setecentista, a ambicao de verossimilhanca nao apenas conduziu a emergencia do romance-memoria e do romance epistolar, nesse movimento paradoxal em que o privado, ao ser exibido, tornou-se garantia de verdade do relato (GOULEMOT 1991): tal ambicao gerou igualmente um fenomeno de recusa generalizada da nomeacao, que levou, por um lado, a designacao das personagens por meios de iniciais ou de asteriscos e, por outro, a consolidacao de nomes realistas, isto e, retirados da onomastica corrente ou inventados segundo sua logica. (1) No seculo XIX, com a emergencia do romance realista e a correlativa atribuicao ao genero do poder de descrever o social, a onomastica literaria sofreu nova alteracao: passou a ter uma extensao inaudita e a ocupar um lugar central, e a motivacao se transformou em topos literario. Essa tripla modificacao e inseparavel, por sua vez, de outro nome proprio: Honore de Balzac.

Concorrencia ao registro civil

Em Balzac, a nomeacao das personagens impoe-se, em primeiro lugar, como uma questao de quantidade. Foi sob o signo do numero que elas apareceram no "Prefacio" (1842) de A comedia humana: "o drama de tres ou quatro mil personagens que a sociedade contemporanea apresenta", "as duas ou tres mil figuras salientes de uma epoca". Em 1761, Diderot (1800, p. 220) impressionara-se com a capacidade de criacao de Richardson, com as trinta ou quarenta personagens de seu mais famoso romance epistolar, Clarissa; menos de um seculo mais tarde, elas deviam elevar-se--e elevaram-se--a milhares na obra balzaquiana. Essa multiplicacao inaudita nao era o resultado natural de uma longa e proficua vida dedicada aos mais diversos generos literarios, mas sim o fruto de um proposito: ela respondia ao desejo de "fazer concorrencia ao registro civil" (BALZAC 1842, p. 13). A comedia humana pretendeu ser uma historia completa da Franca contemporanea; seu escopo foi o mesmo do registro civil: a totalidade do real.

No tempo de Balzac, como mostrou Judith Lyon-Caen (2006, p. 30), o romance deixava de se consagrar a pintura dos vicios e das virtudes (marca do genero no seculo XVIII), para se dotar de um objetivo muito mais ambicioso: retratar a sociedade contemporanea. O realismo nao foi uma invencao a posteriori da critica social ou marxista, desejosa de transformar toda e qualquer literatura em instrumento de conhecimento e representacao do mundo. Certo, nem toda literatura e realista; contudo, em um momento de sua historia, ela o foi, definindo-se como uma forma de saber do "social", pretensao que uma perspectiva historica de analise deve necessariamente levar em conta. Assim, ao inves de adotar a posicao contraria, dominante com o estruturalismo e a teoria literaria, segundo a qual toda literatura se define pela intransitividade da linguagem, e preciso considerar que o realismo foi um projeto dos proprios romancistas das decadas de 1830 e 1840 e que eles fizeram do romance nao mais um veiculo para o retrato das paixoes, e sim para a representacao dos costumes, dos tipos, do "social"--em seu duplo sentido de "sobre a sociedade" e "sobre as classes populares" (LYON-CAEN 2006, p. 30-31).

A virada em direcao ao "social" coincidiu com o triunfo do genero--tanto do ponto de vista da legitimidade quanto da predominancia editorial--e pode ser apreendida em varios planos: nos programas expostos nos prefacios das obras e nas proprias narrativas, mas tambem, e de modo mais evidente, na designacao mesma do genero (LYON-CAEN 2006, p. 29-30). Ainda uma vez, as mutacoes do romance afetaram o seu nome. Assim, se ja nao se chamava de "historia", "memoria" ou "carta", ele tampouco se chamou apenas de romance. No segundo quartel do seculo XIX, "estudos sociais" e "romance social" tornaram-se expressoes correntes, utilizadas tanto pelos editores, em seus anuncios, quanto pelos escritores, nos titulos e subtitulos de suas obras, afirmando-se desse modo "um vasto programa de 'romanceacao' da sociedade contemporanea". Isso constatou-se no caso de O judeu errante (Le Juif errant) e Martin, o enjeitado (Martin l'enfant trouve), ambos de Eugene Sue, anunciados nos jornais como "romance social", ou com A pele de onagro (La peau de chagrin), de Balzac, publicado em sua edicao de 1838 com o subtitulo "estudos sociais", so para citar alguns exemplos (LYON-CAEN 2006, p. 30). A obra de Balzac e especialmente significativa dessa mudanca na ordem da designacao: em 1834--oito anos antes da publicacao de A comedia humana-, ele reuniu seus romances sob o titulo "Estudos de costumes no seculo XIX", invertendo a logica habitual em que a indicacao generica esclarece o titulo, para fazer de cada romance parte de um projeto maior, definido em relacao a uma extensao temporal, o "seculo XIX" (LYON-CAEN 2006, p. 31). Do mesmo modo, organizou mais tarde sua obra em "Estudos" e "Cenas", compostos cada um deles por um grande numero de romances.

O autor de Ilusoes perdidas encarnou, melhor do que ninguem, essa ambicao de sua epoca, ao tentar escrever sozinho uma historia normalmente tomada como o feito do romance como genero ou como o produto de varios romances diferentes (LYON-CAEN 2006, p. 31). Naquele momento, era uma pretensao bastante escandalosa para um romancista e, por ela, Balzac tornou-se objeto de insultos e de escarnio. Isso explica seu empenho em justificar e explicar seu projeto--em curso de elaboracao--nos varios prefacios das primeiras edicoes de suas obras (LYON-CAEN 2006, p. 34). Destinados ao desaparecimento, eles foram efetivamente suprimidos quando da edicao de A comedia humana (1842) e substituidos por um unico paratexto inicial.

A comedia humana foi o novo nome de um projeto que vinha sendo gestado desde o final dos anos 1820 e que sofreu modificacoes importantes ao longo da decada de 1830 (BALZAC 2000b, p. 82-84). As primeiras tentativas de Balzac no sentido de pensar um conjunto articulado de obras datam de 1824, quando ele estabeleceu o plano de uma Histoire de France pittoresque. O jovem escritor planejava entao uma serie de romances historicos que tomariam por tema um acontecimento emblematico de cada um dos seculos da historia nacional (VACHON 2000, p. 17). Walter Scott ja emergia como a grande referencia de Balzac, que o elogiou por sua capacidade de exibir o espirito de um seculo, exprimir em apenas uma cena o genio e a fisionomia de uma epoca. Com Scott, em palavras do romancista, "a historia se torna domestica" (BALZAC 2000a, p. 63). Assumindo-o como seu modelo, Balzac anunciou seu proposito de fazer da historia mais do que um "esqueleto cronologico", num projeto inseparavel de sua propria transformacao em "historiador". Contada pelo romance, ela se apresentaria em "quadros de genero", retratando os fatos ignorados dos costumes e usos nacionais (BALZAC 2000a, p. 66). Ao longo da decada de 1830, o romancista abandonou a ideia de estudar os seculos passados em prol de um enquadramento contemporaneo de seu projeto literario: seus Estudos sociais deveriam contar a historia dos costumes no seculo XIX (BALZAC 2000b, p. 82). Balzac (sob seu proprio nome ou por intermedio de Philarete Chasles e de Felix Davin) (2) elaborou e reelaborou os contornos dessa historia nos prefacios de varias obras da decada de 1830, usados para apresenta-los, defender-se das criticas e solicitar condescendencia com uma obra em curso, cujo sentido so seria plenamente compreensivel uma vez que estivesse completa. Em lugar de seguir um encadeamento cronologico, a obra foi apresentada a partir de entao como um monumento, um edificio composto por tres planos: os "Estudos de costumes", os "Estudos filosoficos" e os "Estudos analiticos" (BALZAC 1842, p. 28). A "historia geral da Sociedade" seria contada nos primeiros, por meio de seis tipos de "cenas". Elas deveriam permitir o conhecimento da realidade apresentando uma pintura das diferentes epocas da vida humana ("Cenas da vida privada") e por meio de uma oposicao entre Paris e a provincia ("Cenas da vida provinciana" e "Cenas da vida parisiense"). Alem desses quadros da vida social, as "Cenas da vida politica" retratariam "as existencias excepcionais que resumem os interesses de varios", enquanto as "Cenas da vida militar" tratariam dessa sociedade em guerras de defesa e de conquista, apos as quais viria o entardecer do drama social nas "Cenas da vida rural". Todas essas cenas constituiam os "cenarios" ou as "galerias" em que apareciam as "duas ou tres mil figuras salientes de uma epoca" (BALZAC 1842, p. 27).

Em relacao ao projeto balzaquiano, importa perceber, por outro lado, que o registro civil nao e apenas o arquivo de todas as existencias reais. Ele e aquele no qual a existencia passa pela atribuicao do nome proprio--donde sua importancia para o problema da onomastica romanesca. No uso dessa figura especifica, desvenda-se o desejo balzaquiano de chamar a atencao para o poder supremo que ele se arroga: nomear. Para o historiador-romancista, apenas o assentamento real de todos os nomes oferecia um termo de comparacao com sua atividade onomaturgica.

De fato, embora Balzac, segundo sua irma Laure Surville (1858, p. 181-182), tenha lancado mao de nomes existentes, pois "pretendia que os nomes inventados nao conferiam vida aos seres imaginarios, ao passo que aqueles que foram realmente usados dotavam-nos de realidade", (3) o romancista foi principalmente um "fazedor de nomes". (4) Naquele que foi provavelmente um dos primeiros textos sobre a nomeacao em Balzac, Spoelberch de Lovenjoul sugeriu inclusive a existencia, na Franca do seculo XIX, de uma relacao intrinseca entre a invencao de personagens e a de seus antroponimos. Para ele, a utilizacao de nomes verdadeiros para batizar seres ficcionais so poderia se explicar por um esgotamento do estoque de nomes inventaveis--ou porque os escritores se mostrassem menos habeis para inventar nomes, ou porque o numero de romances publicados nos ultimos anos havia sido excessivo. Fosse como fosse, o fato era para Lovenjoul incontestavel, dados os embaracos causados pela necessidade de alterar os nomes das personagens em obras em curso de impressao ou quando de sua reimpressao e ate mesmo em pecas em cartaz, porque seus portadores verdadeiros teriam se queixado e exigido a substituicao. Seriam tantos os problemas causados pela incapacidade de criar "qualificativos imaginarios" que um escritor teria aventado a hipotese de suprimir os nomes proprios, designando suas personagens por numeros (LOVENJOUL 1973, p. 113-115). (5)

Essa seria uma incapacidade desconhecida para Balzac, sugeriu Lovenjoul sem (precisar) dize-lo; com efeito, o autor de Eugenia Grandet engendrou ainda mais nomes do que aqueles que aparecem em A comedia humana. Ele tinha o habito de anotar os que poderia vir a empregar em suas narrativas, e, entre eles, identificaram-se varios nunca utilizados (LOVENJOUL 1973, p. 129). Esses antroponimos balzaquianos nao surgiram do nada. Uma de suas principais fontes foi o Armorial de families nobles de la France, no qual o romancista selecionou sobrenomes dessuetos, alterando ligeiramente sua ortografia. Outro procedimento consistia na conversao de nomes de lugares em sobrenomes: Langeais, nome da heroina do segundo episodio de Historia dos Treze (Histoire des Treize), denominara originalmente um solar da regiao de Tours; Negrepellise, de Anais, de Ilusoes perdidas era o nome de uma cidade do departamento de Tarn-et-Garonne (LOVENJOUL 1973, p. 121-122); Saint-Herem e Morillon, que figuram na "Advertencia" ao Gars, (6) designariam uma cruz e um monte na regiao entre Fontainebleau e Nemours--mas Morillon poderia ter sido aproveitado a partir do sobrenome de um professor de gramatica do Colegio Vendome, o que o enquadraria em outra categoria de nomes e desvela o carater um tanto conjectural desse tipo de exercicio (POMMIER 1953, p. 225). Identificou-se igualmente a manipulacao de nomes verdadeiros: do bispo de Pamiers, Henry de Sponde (1568-1643), originaram-se o vidama de Pamiers e o abade de Sponde (LOVENJOUL 1973, p. 124). Balzac nao costumava usar os nomes correntes sem introduzir alguma alteracao: de Gambaro, o escritor fez Gambara; de Merville, Derville; de Lebas, Lepas; de Dutacq, Dutocq (POMMIER 1953, p. 227).

Muitos outros nomes imaginarios e ineditos foram identificados em folhas nas quais Balzac anotara tambem os titulos das obras as quais os destinava-pratica cuja descoberta corrobora o juizo de Lovenjoul (1973, p. 116): "Ninguem, em nosso seculo, preocupou-se tanto com a questao dos nomes quanto Honore de Balzac". De tal preocupacao, entretanto, talvez nao fosse necessario qualquer outro testemunho senao a propria obra monumental do escritor.

Com efeito, o nome proprio encontra-se no centro de A comedia humana. Parte fundamental do empreendimento de descricao do social, de construcao de uma "sociedade ficcional que ser[ia] como um mundo completo", o nome das personagens foi reinvestido de importancia quando Balzac rompeu com o romance como unidade fechada, ao inventar um procedimento que teria fortuna importante nao so na literatura francesa--e ao qual se associaram nomes como Emile Zola (7) ou Marcel Proust-, mas cujas repercussoes puderam tambem ser identificadas em Machado de Assis (PASSOS 2006): o chamado retorno das personagens, experimentado pela primeira vez em O pai Goriot (1836). Cada nome proprio libertava-se do quadro de uma narrativa para reaparecer em outros romances, outras "cenas", reforcando a poetica contrastiva que o escritor adotou (DAVID 2010, p. 62). Tambem esse procedimento foi por ele justificado em termos realistas:

Os personagens de cada historia movimentam-se em uma esfera que nao tem outra circunscricao senao a da propria sociedade. Quando uma dessas personagens se encontra, como M. de Rastignac no PAI GORIOT (PERE GORIOT), suspenso no decurso de sua existencia, e que deveis reencontra-lo em Perfil de marquesa (Profil de marquise), em A interdicao (L'Interdiction), em O alto banco (La haute banque) e, enfim, em A pele de onagro, agindo em sua epoca segundo a posicao que assumiu e participando de todos os acontecimentos dos quais participam, na realidade, os homens dotados de um alto valor. Essa observacao aplica-se a quase todas as personagens que figuram nessa longa historia da sociedade: as personagens eminentes de uma epoca nao sao assim tao numerosas quanto se poderia acreditar, e nao havera menos de mil nesta obra que, em um primeiro esboco, deve ter vinte e cinco volumes--em sua parte mais descritiva, e verdade; sob esse ponto de vista, ela sera fiel (BALZAC 1837, p. VI-VII, traducao nossa). (8)

Ora, ainda que um nome nao designe necessariamente uma so personagem, o retorno das personagens nao pode ser outro senao o retorno do nome. As reescritas e discussoes suscitadas pelo romance que viria a se chamar A mulher de trinta anos (La femme de trente ans) oferecem bem a medida do caso. Em 1834, Balzac reuniu, sob o titulo Mesma historia (Meme histoire), a inedita Sofrimentos desconhecios (Souffrances inconnues) e as cinco novelas Encontro (Rendez-vous), A mulher de trinta anos, O dedo do Deus (Le Doigt de Dieu), Dois encontros (Deux rencontres) e Expiacao (Expiation), parte das quais ja havia sido publicada e republicada em revistas e livros e havia sido revisada e aumentada para aquela edicao. Dois anos antes, elas haviam saido na segunda edicao de Cenas da vida privada, sem titulo comum, numeradas como "Cenas" 11, 12, 13, 14 e 15 e antecedidas por uma "Nota do editor" assinada por Mame-Delaunay, na qual ele as apresentava como o "esboco de uma vida de mulher [...], uma mesma personagem disfarcada sob cinco nomes diferentes" (MILLER). Alem de dar um titulo comum a obra, adotado para aquela terceira edicao de Cenas da vida privada (1834), Balzac (1834, p. 7-9) substituiu a "Nota do editor" por um "Prefacio"--os Estudos de costumes no seculo XIX saiam entao pela casa Madame Charles-Bechet, o que explica a necessidade de suprimir a nota de Mame-Delaunay. A relacao entre nome e personagem permanecia inescapavel, ja que as heroinas das novelas continuavam tendo nomes diferentes e uma delas era anonima. Balzac nao se esquivou do problema, abordando essa questao logo de saida. O decidido conselho de leitura da edicao anterior foi trocado por uma interrogacao indireta: "Muitas pessoas me perguntaram se a heroina de ENCONTRO, de A MULHER DE TRINTA ANOS, de DEDO DE DEUS, dos DOIS ENCONTROS e de A EXPIACAO nao era, sob diversos nomes, a mesma personagem". Se Balzac reconhecia, assim, a atribuicao ao autor da responsabilidade de decidir, ele negou-se a responder, transferindo o encargo ao titulo: "O autor nao pode dar nenhuma resposta a essas questoes. Mas talvez meu pensamento seja expresso no titulo que reune essas diferentes cenas". Em seguida, ao suspender o estatuto habitual da personagem, revelou a relacao intrinseca entre o nome e o pessoal romanesco:

O personagem que atravessa, por assim dizer, esses seis quadros dos quais se compoe MESMA HISTORIA nao e uma figura; e um pensamento. Quanto mais esse pensamento se reveste de costumes dessemelhantes, melhor expressa ele as intencoes do autor. Sua ambicao e comunicar a alma a vaga de um devaneio em que possam ser despertadas algumas das mais vivas impressoes que as mulheres conservaram, reanimadas as lembrancas espalhadas pela vida, para delas fazer surgir alguns ensinamentos (BALZAC 1834, p. 7-9, traducao nossa). (9)

Na "Introducao" que escreveu aos Estudos de costumes do seculo XIX (1835), Felix Davin (1835, p. 22-23) tratou desse singular procedimento de seu prefaciado. Apos dar noticia de sua ma recepcao (ou seria argumento retorico desse prefaciador escrevendo sob as orientacoes de Balzac?)--"algumas pessoas lamentaram que as cenas [...] nao tenham entre si outra ligacao senao um pensamento filosofico" -, ele afirmou concordar, ao menos parcialmente, com as restricoes feitas. A argumentacao de Davin passou por estabelecer a singularidade das "obras de imaginacao" face "as obras de espirito", porquanto aquelas, por mais elevadas que fossem, nao poderiam interessar recorrendo simplesmente a "uma sucessao bem logica de ideias, uma fraternidade bem sentida de principios"; era preciso falar tambem ao coracao e a imaginacao. E so o feitico de uma personagem seria capaz de seduzir esses ultimos; substitui-la a cada capitulo ou obrigar a ler o livro todo para entao reconhecer sua heroina era, para ele, uma escolha perigosa. "O autor arrisca-se a ser mal compreendido", concluiu.

Expressasse Davin ou nao duvidas do proprio romancista, o fato e que, nos anos seguintes, Balzac voltou a revisar aquelas novelas. Na edicao Werdet das Cenas da vida privada (1837), o titulo comum e o prefacio foram suprimidos, e o sistema de retorno de personagens foi adotado para as personagens secundarias, o que significou alterar o nome de algumas e eliminar outras, sem contar outras alteracoes nos textos. Apos uma reedicao do texto de 1834 na publicacao in-18 que Charpentier fez das Cenas da vida privada (1839), a opcao pela coincidencia entre nome e personagem se impos no momento chave que foi a organizacao de A comedia humana (1842). Julie d'Aiglemont tornou-se a unica heroina de todas as narrativas, que, comandadas destarte pelo nome, transformaram-se em capitulos de um novo romance, A mulher de trinta anos (MILLER).

Mas a enfase balzaquiana em seu poder de nomear compreende-se, ainda, para alem das duas propriedades da multiplicacao e do retorno, que fazem do nome proprio peca fundamental do esforco de descricao exaustiva das "especies sociais" da Franca contemporanea e garantia da unidade da obra, de sua existencia como sistema--Balzac considerava que a unica restricao possivel a Walter Scott era o fato de ele nao ter buscado "ligar suas composicoes umas as outras a fim de fazer uma historia completa" (BALZAC 1842, p. 10; 14).

Cognomologia

No seculo XVIII, um discurso sobre os nomes das personagens tomou o paratexto dos romances a fim de contribuir para a verossimilhanca de uma narrativa dada como texto nao ficcional, cujas personagens estariam vivas ou teriam morrido havia pouco. Ao longo do seculo, esse discurso refluiu para apenas ficarem os nomes inventados e realistas que nao convocavam nenhuma decifracao, nenhum leitor mais competente. (10) Com Balzac, os nomes voltaram a ser assunto, mas ja entao no interior mesmo dos romances. A atencao do narrador balzaquiano voltou-se para eles antes mesmo da adocao do retorno das personagens. Em A pele de onagro, Rafael, enfeiticado pelo nome de Foedera, pos-se a imaginar a que tipo de mulher ele deveria corresponder:

Como explicar o fascinio de um nome? Foedera me perseguiu como um mau pensamento que procuramos transigir. Uma voz me dizia: voce ira a casa de Foedera. Era inutil debater-me com ela e gritar-lhe que mentia, ela esmagava todos os meus argumentos com esse nome: Foedera. Mas esse nome, essa mulher nao seriam eles o simbolo de todos os meus desejos e o tema da minha vida? O nome despertava as poesias artificiais do mundo, fazia brilhar as festas da grande Paris e os ouropeis da vaidade; a mulher me aparecia com todos os problemas de paixao que me enlouqueciam. Talvez nao fosse nem a mulher nem o nome, mas todos os meus vicios que se levantavam em minha alma para novamente me tentar. A condessa Foedera, rica e sem amante, resistente as seducoes parisienses, nao seria a encarnacao das minhas esperancas, das minhas visoes? Eu me inventava uma mulher, desenhava-a em meu pensamento, sonhava com ela. Durante a noite, nao dormi, tornei-me seu amante, fabriquei em poucas horas toda uma vida, uma vida de amor; saboreei suas fecundas, brilhantes delicias (BALZAC 1845, p. 84, traducao nossa). (11)

Em outros romances da decada de 1830, a questao do nome das personagens apareceu associada a outro nome proprio, um nome de autor: Laurence Sterne. Assim, em Gobseck, o narrador assinalou, a respeito da personagem eponima: "Enfim, por uma singularidade que Sterne chamaria uma predestinacao, esse homem denominava-se Gobseck" (BALZAC 1842, p. 379, traducao nossa). (12) Em A procura do absoluto, Balthazar de Claes disse a sua filha Marguerite, em quem depositava as esperancas de reconstrucao da fortuna da familia:

--Va, disse-lhe ele, em seis meses encheremos isso de ouro e de maravilhas. Voce sera como uma rainha. Bah! Toda a natureza nos pertencera, nos estaremos acima de tudo ... e por voce ... minha Marguerite. Margarita? repetiu ele, sorrindo, seu nome e uma profecia. Margarita quer dizer uma perola. Sterne disse-o em algum lugar. Voce leu Sterne? Querera voce um Sterne? Ele a divertira (BALZAC 1845, p. 431, traducao nossa). (13)

E em O cura de Tours, a narracao sobre a conversa que se seguiu a entrevista de Cesar Birotteau com o advogado da senhorita Gamard, no salao da Senhora de Listomere, e interrompida por esta observacao:

Aqui, o historiador teria o direito de delinear o retrato dessa senhora. Pensou, porem, que mesmo aqueles que ignoram o sistema da cognomologia de Sterne nao poderiam pronunciar estas tres palavras:

SENHORA DE LISTOMERE sem retrata-la nobre, digna, temperando os rigores da devocao pela antiga elegancia dos costumes monarquicos e classicos, por maneiras corteses; boa, mas um pouco aspera; levemente fanhosa; permitindo-se a leitura da Nova Heloisa, o teatro e preocupando-se ainda com o penteado (BALZAC 1990a, p. 530). (14)

A referencia se manteve na decada de 1840, quando Balzac escreveu Ursula Mirouet, uma das cenas da vida provinciana. Ali, apos tracar longamente o retrato fisico do chefe da posta de Nemours, o narrador voltou-se para seu carater:

Filho da Revolucao e espectador do Imperio, Minoret-Levrault nunca se imiscuira na politica. Quanto as suas opinioes religiosas, nunca pusera os pes na igreja, a nao ser para casar-se. Seus principios na vida privada estavam fixados no Codigo Civil: tudo o que a lei nao proibia ou nao podia atingir, ele julgava realizavel. Nunca havia lido mais que o jornal do departamento de Seine-et-Oise ou algumas instrucoes relativas a sua profissao. Passava por um agricultor habil, mas sua ciencia era puramente pratica. Assim, em Minoret-Levrault, o moral nao desmentia o fisico. Falava raramente; e, antes de dizer qualquer coisa, tomava sempre uma pitada de rape para ter tempo de procurar, nao ideias, mas palavras. Conversador, vos o acharieis imperfeito. Considerando que aquela especie de elefante sem tromba e sem inteligencia chamava-se Minoret-Levrault, nao se devia reconhecer, como Sterne, o oculto poder dos nomes, que ora ridicularizam e ora predizem os caracteres? (BALZAC 1990b, p. 21-22). (15)

Por meio da mencao a Sterne, Balzac pretendia remeter ao decimo nono capitulo do primeiro livro de A vida e as opinioes do cavalheiro Tristram Shandy (1759). Nele, o narrador em primeira pessoa expoe uma das ideias "fora do comum" de seu pai. Essa dizia respeito a escolha e imposicao de nomes de batismo: "Sua opiniao [...] era de que ha uma especie de influencia magica que os nomes bons ou maus, conforme os chamava, irresistivelmente imprimem em nosso carater e em nossa conduta". Segundo Walter Shandy, nomes como Trismegisto e Arquimedes, Cesar e Pompeu inspirariam seus portadores a buscar e a alcancar a grandeza, ao passo que Nily, Sinkin e Nicodemos conduziriam ao abatimento da vontade e ao fracasso. Batizar uma crianca de Judas seria condena-la a ser "um miseravel e um biltre", a despeito de todos os bons exemplos que os pais pudessem oferecer-lhe. Haveria igualmente nomes neutros, como Jack, Dick e Tom, cujos poderes negativos ou positivos teriam sido destruidos pelo fato de terem existindo "pelo menos tantos patifes e tolos quanto homens dignos e sabios, desde o comeco do mundo, que os havia indiferentemente ostentado". Na opiniao de Walter, o mais maligno de todos os nomes nao era outro senao Tristram, com o qual seu segundo filho fora batizado, para seu maior e continuo tormento (STERNE 1998, p. 84-88).

Em Sterne, a tese do poder magico do nome sobre o carater dos individuos apareceu como mais um entre os varios disparates sustentados pelo pai de Tristram. Logo no inicio do capitulo, o narrador chega a prever as varias reacoes, todas igualmente negativas, dos diferentes leitores a exposicao que faria a seguir (STERNE 1998, p. 84). Seja por retirar seu enquadramento negativo, seja por designa-la pelo neologismo de "cognomologia", Balzac estava na verdade utilizando-se da referencia ao romancista ingles para elaborar sua propria teoria dos nomes. (16) Com efeito, suas diversas formulacoes nos trechos supracitados conduzem a afirmacao de uma necessaria correspondencia entre o nome e a personagem. Longe de serem signos arbitrarios reduzidos a funcao de individualizacao, os nomes proprios em Balzac sao "falantes", eles exprimem algo a respeito dos seres que nomeiam.

Como mostram os trechos citados, a correspondencia incidia, seja sobre o ser fisico, seja sobre o ser moral da personagem, seja sobre ambos. Fundamentalmente, contudo--e dai a referencia preferencial a Sterne -, o nome proprio balzaquiano predestina. A historia de uma personagem sera a historia do destino previsto pelo nome--principio cuja enunciacao se encontra na mais longa reflexao de um narrador balzaquiano a esse respeito:

Nunca vi ninguem, mesmo incluindo os homens notaveis da epoca, cujo aspecto fosse mais impressionante do que o daquele homem. O estudo de sua fisionomia despertava uma vaga sensacao de piedade, e acabava por provocar uma melancolia quase dolorosa. Existia certa harmonia entre a pessoa e o nome. Aquele Z. que precedia Marcas, que se via no endereco de suas cartas, e que ele nunca esquecia na sua assinatura, essa ultima letra do alfabeto, oferecia ao espirito um nao sei que de fatal.

MARCAS! Repitam esse nome composto de duas silabas, e digam se nao acham nele uma sinistra ressonancia? Nao lhes parece que o homem que o porta deva ser martirizado? Conquanto estranho e selvagem, esse nome tem, entretanto, direito a alcancar a posteridade; e de boa composicao, pronuncia-se facilmente, tem a brevidade desejada para os nomes celebres. Nao e ele tao suave quanto singular? Mas lhes parece tambem inacabado? Nao me atreveria a afirmar que os nomes nao exercem nenhuma influencia sobre o destino. Entre os fatos da vida e o nome dos homens, existem concordancias secretas e inexplicaveis, ou se nao desacordos visiveis que surpreendem; revelaram-se com frequencia, neste particular, correlacoes longinquas, porem eficazes. Nosso globo e macico, nao existem solucoes de continuidade, tudo nele tem ligacoes. E bem possivel que nos voltemos qualquer dia para as ciencias ocultas.

Nao veem, na construcao do Z, uma tendencia contrariada? Nao representa ele o ziguezague aleatorio e caprichoso de uma vida atormentada? Que vento soprou sobre essa letra, que em qualquer lingua em que e admitida, encabeca somente cinquenta palavras? Marcas chamava-se Zeferino. Sao Zeferino era muito venerado na Bretanha. Marcas era bretao.

Examinem ainda esse nome: Z. Marcas! Toda a vida do homem esta na reuniao fantastica dessas sete letras. Sete! o mais significativo dos numeros cabalisticos. O homem morreu aos trinta e cinco anos, de modo que sua vida se compos de sete lustros. Marcas! Nao lhes da esse nome a ideia de qualquer coisa preciosa que se quebra numa queda, com ou sem ruido? (BALZAC 1991, p. 319-320). (17)

Fiel a seu nome, como significante sonoro e grafico, como nome de santo, Z. Marcas se viu duas vezes apeado do brilhante destino politico que almejava, reduzido inicialmente a pobreza e depois a mais infame das mortes, enterrado que foi em uma cova comum.

O romancista referiu-se diretamente a essa caracteristica de sua onomastica no "Prefacio" a Uma filha de Eva (1839). Unica mencao, em paratextos, ao problema da nomeacao das personagens, ela emerge ai nos quadros da habitual mistura de explicitacao de pressupostos e autoelogio, corrente em um escritor tao certo de seus feitos. Mais rara era a indicacao do respaldo que sua obra merecera junto a um publico especial. Nesse prefacio, Balzac afirma que, ao contrario do que sempre pensara, seus esforcos artisticos e cientificos nao lhe proporcionavam apenas a recompensa pessoal pela consciencia de um trabalho escrupulosamente realizado, mas sua obra mereceria tambem o reconhecimento dos eruditos, que teriam expressado satisfacao por encontrar nela suas proprias ciencias: um medico ilustre ter-se-ia impressionado com a adequada construcao do perfil medico das personagens, cujas paixoes corresponderiam as respectivas aparencias fisicas; um erudito teria apontado o estudo serio de questoes graves. E outro estudioso teria "observado o cuidado com que os nomes sao adaptados as personagens" (BALZAC 1839, p. 31).

Para o autor, a questao da nomeacao nao remetia, em primeiro lugar, a logica do nome proprio real. Ela nao se destinava expressamente a promocao da verossimilhanca da narrativa, nao era signo de que o romance fosse mera imitacao da realidade. A exemplo da fisiognomonia, a nomeacao integrava, para Balzac, o arsenal, a certos titulos cientifico, que ele mobilizou para construir o mundo ficcional que deveria contar a historia da sociedade francesa oitocentista. Assim como as personagens nao foram apresentadas como copias do real, mas como tipos compostos "pela reuniao dos tracos de multiplos caracteres homogeneos" (BALZAC 1842, p. 15), seres propriamente ficcionais dotados de baixo mas nao menos efetivo grau de generalizacao frente a concretude do mundo--em suma, como producao do romancista que, para copiar, deve inventar a realidade que reproduz -, (18) o nome proprio participou do esforco de descricao do social na medida em que sua logica desobedecia aquela do registro civil, no qual um antroponimo nao autoriza grandes deducoes sobre a pessoa por ele designada. Em Balzac, a nomeacao nao se reduz a etiqueta designativa, ela e motivada.

Em linguistica, conforme assinalado, o nome proprio e descrito como um tipo particular de signo, composto apenas por significante (o som ou a grafia da palavra) e referente, destituido de sentido, logo, de significado. Em literatura, contudo, o nome proprio pode assumir uma significacao--ser motivado. A motivacao do nome proprio da personagem ficcional nao e uma novidade do romance balzaquiano; a invencao dos nomes a antiga nas comedias e nos romances do seculo XVII levava mormente em consideracao o significado dos radicais utilizados--em Moliere, para ficar apenas com este exemplo, Geronte designa o tipo do homem velho. No romance setecentista, a pratica de se inventar nomes realistas reduziu a nomeacao motivada a fenomeno marginal (DEMORIS). Ao reconduzi-la ao centro do romance, Balzac nao deixou de escrever um capitulo inedito da onomastica romanesca; associando realismo e motivacao, o nome proprio tornou-se, com ele, ilusao de verdade da personagem romanesca:

Tratado como um signo espesso, pleno de sentido, o nome proprio balzaquiano torna-se a garantia da plenitude substantiva de uma personagem. Seguindo-a ao longo de todo seu trajeto narrativo, envolvendo-a, saturando-a em todas as ocasioes de sua opaca muralha de letras e de sons, ele e como sua carne de linguagem, seu corpo de palavras. Munido de um tal tesouro onomastico, o portador do nome romanesco encontra-se magicamente dotado de uma espessura previa de vida que depende do silogismo sobre o qual todo realismo apoia-se, que quer que a todo significante onomastico feito segundo as normas corresponda um individuo de carne e osso (DIAZ 1981, p. 46, traducao nossa). (19)

Um topos literario

Nada evidencia melhor a ruptura introduzida por Balzac na onomastica romanesca do que a separacao entre o destino da obra balzaquiana e o destino do nome proprio no romance oitocentista. De seus mais duros criticos aos mais complacentes herdeiros, passando por aqueles que alimentaram uma atitude ambigua face ao seu projeto literario e a sua literatura, os mais diferentes romancistas do seculo XIX tanto deram provas de que o nome proprio havia se tornado uma questao fundamental do genero quanto praticaram uma nomeacao motivada.

Em relacao a Balzac, Flaubert passou de uma admiracao quase sem restricoes para uma critica cada vez mais severa. Em suas cartas, afirmou mais de uma vez que o autor de Eugenia Grandet nao sabia escrever, que nao tinha estilo; ironizou a admiracao dele por Walter Scott; tracou a imagem de um autor obcecado com o Dinheiro e a Gloria e pouco preocupado com a Arte e o Belo; e chegou a sentenciar: "um imenso sujeito, mas de segunda ordem" (GUINOT 2010, p. 53). Alem disso, Bouvard e Pecuchet, as duas encarnacoes romanescas da tolice, maravilharam-se com a obra de Balzac, ao mesmo tempo em que ironizaram seus excessos:

Aspectos novos surgiram nas coisas mais banais. Eles nao haviam suspeitado que a vida moderna fosse tao profunda.

--Que observador!, exclamava Bouvard.

--Ja eu, acho-o quimerico, acabou dizendo Pecuchet. Ele acredita nas ciencias ocultas, na monarquia, na nobreza, fascina-se com os velhacos, remexe-vos os milhoes como se fossem centavos, e seus burgueses nao sao burgueses, mas colossos. Por que inflar o que e raso e descrever tantas tolices? Ele fez um romance sobre a quimica, um outro sobre o Banco, um outro sobre as maquinas de impressao. [...]. Teremos outros sobre todas as profissoes e sobre todas as provincias, depois sobre todas as cidades e os andares de cada casa e cada individuo, o que ja nao sera literatura, mas estatistica ou etnografia (GUINOT 2010, p. 53-54). (20)

Valores e posicoes ideologicas do autor, modo de construcao das personagens e ate a caracteristica numero um do projeto literario balzaquiano -sua exaustividade--foram submetidos a derrisao.

Esse mesmo Flaubert deu provas de uma preocupacao autenticamente balzaquiana com os nomes de suas personagens. Em carta a Louis Bonenfant, em 1868, ajuizou que "o nome proprio e uma coisa extremamente importante em um romance, uma coisa capital. Assim como nao se pode mudar a cor da pele, nao se pode mudar o nome de um personagem. E desejar embranquecer um negro" (GUINOT 2010, p. 505). (21) Em outra ocasiao, o autor deu provas de um alvoroco digno de um comentario ironico de Pecuchet diante da possibilidade de ter de abrir mao de um antroponimo romanesco. A anedota foi narrada por Zola, em um texto publicado no Le Messager de l'Europe pouco depois da morte do romancista, ocorrida em maio de 1880. Como almocassem na casa do editor Georges Charpentier e a conversa recaisse nos nomes, Zola contou aos convivas o nome excelente que encontrara para uma personagem de Sua excelencia Eugenio Rougon (Son Excellence Eugene Rougon) (1876), em curso de redacao naquele momento. Ele nao era outro senao Bouvard! Tomado de subito de um ar bizarro, Flaubert, apenas deixaram a mesa, levou Zola ate o fundo do jardim, onde, "fortemente emocionado", suplicou-lhe que lhe cedesse aquele nome. "Eu o cedi rindo--contou o escritor. Mas ele permanecia serio, muito sensibilizado, e repetia que nao teria continuado seu livro se eu tivesse mantido o nome. Para ele, toda a obra estava nesses dois nomes: Bouvard e Pecuchet. Ele ja nao a via sem ambos" (GUINOT 2010, p. 505-506). (22) Dois anos mais tarde, Zola ofereceria em sua carta a Elie de Cyon o principio que se pode depreender daquela anedota. Entao, ele afirmou que "Gustave Flaubert levava assim a religiao do nome ao ponto de dizer que, se nome deixasse de existir, tambem o romance deixava de existir" (GUINOT 2000, p. 506). (23)

O pai do naturalismo, por sua vez, inseriu na boca de duas de suas personagens de O regabofe (La Curee) (1871) uma reflexao sobre os nomes cujo sabor nao nos e menos familiar:

--Tenho a intencao de mudar de nome, disse ele finalmente; voce deveria fazer o mesmo ... Teriamos menos incomodos.

--Como voce quiser, respondeu tranquilamente Aristide.

--Voce nao precisara se preocupar com nada, eu me encarrego das formalidades ... Voce quer se chamar Sicardot, como sua mulher?

Aristide levou os olhos ao teto, repetindo, escutando a musica das silabas:

"Sicardot ..., Aristide Sicardot ... Pelo amor de Deus, nao; e mandriao e soa a falencia.

--Procure outra coisa entao, disse Eugene.

--Eu preferiria Sicard muito simplesmente, replicou o outro depois de um silencio; Aristide Sicard ..., nao esta mal ... nao e? talvez um pouco alegre ...

Ele devaneou ainda um momento e, com um ar triunfante:

--Consegui, encontrei, exclamou ele ... Saccard, Aristide Saccard!... com dois "c"... Hein! Tem dinheiro nesse nome; dir-se-ia que se contam moedas de cinco francos. (24)

Eugene era um gozador implacavel; despediu seu irmao dizendo-lhe, com um sorriso:

--Sim, um nome para ir para as gales ou para ganhar milhoes (MITERRAND 2012, p. 575-576, traducao nossa). (25)

Sim, um nome para ganhar milhoes. Funcionario da prefeitura de Paris gracas justamente a seu irmao Eugene Rougon, ministro sob o Segundo Imperio, Aristide Saccard usaria informacoes privilegiadas sobre a reforma urbana de Haussman para enriquecer por meio da especulacao imobiliaria.

Pouco conhecido do publico brasileiro atual, o romancista Jules Barbey d'Aurevilly (1808-1889), dandi convertido ao catolicismo reacionario e ao absolutismo, foi um romancista de destaque na Franca da segunda metade do seculo XIX. Inimigo declarado de Flaubert, sobre quem escreveu que "soube fazer um livro, mas nao dois" (GUINOT 2010, p. 56-57), e pouco apreciado por Zola, ele nutriu grande admiracao por Balzac. Como na obra desse ultimo autor, os nomes em Barbey chamam de imediato a atencao, de tal modo sao inventados de proposito para dizer o ser e o destino de suas personagens. Entre elas, encontram-se Martyre, prenome da Madame de Mendoze (Une vieille maftresse, 1851), que sera martirizada por Rino; Jeanne de Feuardent (L'ensorcellee, 1854), queimada em seu braseiro; o tortuoso doutor Torty; a bela e impetuosa Hauteclaire Stassin, que se rebaixou na obscuridade; Rochefort, que e duplamente forte (nas novelas de Les Diaboliques, 1874), etc. Verdadeiro "amante dos nomes", Barbey d'Aurevilly tambem os colecionava. Em sua correspondencia com Trebutien, melhor amigo, primeiro leitor e editor, o romancista pediu insistentemente que ele lhe fornecesse listas de nomes normandos--Barbey d'Aurevilly desejava fazer da Normandia, sua terra natal, o cenario de suas obras:

Envie-me "alguns belos nomes de homens e de mulheres normandos (nomes de batismo que possuam bem o carater do pais)"; Se voce puder encontrar para mim, no meio de alguma papelada, alguns belos sobrenomes, sobrenomes desaparecidos, separe-os sempre para mim (DODILLE 1981, p. 41). (26)

Flaubert, Zola, Barbey d'Aurevilly ... Os exemplos poderiam ser multiplicados, a tal ponto a motivacao do nome proprio tornou-se um "topos literario" (DODILLE 1981, p. 38). Esse "lugar-comum do nome" na poetica do romance oitocentista recobre, nao obstante, poeticas romanescas e onomasticas muito singulares, como no Brasil se poderia ver a proposito do romance de Jose de Alencar ou do de Machado de Assis, um escritor consciente o bastante da forca desse topos para manipula-lo de maneira absolutamente original.

Recebido em: 3/8/2014

Aprovado em: 11/9/2014

doi: 10.15848/hh.voi16.828

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Raquel Campos

raquelmgcampos@gmail.com

Pos-doutoranda

Universidade Federal de Goias

Campus Samambaia--Caixa Postal 131

74001-970--Goiania--GO

Brasil

* Esta pesquisa contou com o financiamento da Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior (CAPES).

(1) Para uma discussao mais pormenorizada da onomastica romanesca no seculo XVIII, permito-me remeter ao segundo capitulo de minha tese de doutorado, "Os nomes (im)proprios do romance" (CAMPOS 2014, p. 67-122).

(2) Escritores e amigos de Balzac, Philarete Chasles e Felix Davin assinaram prefacios para obras balzaquianas. O primeiro escreveu a "Introducao" para a segunda edicao de A pele de onagro, que saiu em 1831 como parte dos Romances e contos filosoficos. Davin foi o autor, notadamente, das introducoes para os Estudos filosoficos (1834) e para os Estudos de costumes (1835). Ha indicios fortes de que Balzac tenha intervido diretamente nesses textos, em especial naqueles assinados por Davin. Ver, a esse respeito, VACHON (2000).

(3) No original: "Il avait une singuliere theorie sur les noms; il pretendait que les noms inventes ne donnent pas la vie aux etres imaginaires, tandis que ceux qui ont reellement ete portes les douent de realite".

(4) Do titulo do artigo de Claude Duchet (1999). Devo esta e outras referencias sobre o problema do nome proprio em Balzac a Jerome David, a quem endereco meus agradecimentos.

(5) O conde Spoelberch de Lovenjoul (1836-1907) foi um grande colecionador de romances, revistas, jornais, manuscristos, correspondencias, etc. ligados a literatura francesa oitocentista. Ele conseguiu reunir a maior parte dos manuscritos e provas corrigidas de Balzac, dispersados quando da morte da viuva, Madame Hanska. Em 1905, doou sua colecao para o Institut de France, onde ela se encontra atualmente.

(6) Titulo de um romance projetado, mas nunca redigido por Balzac, que apenas elaborou seu prefacio, a "Advertencia", na qual Le Gars foi atribuido a Victor Morillon. O manuscrito desse texto foi encontrado entre os esbocos e fragmentos conservados da Histoire de France pittoresque (VACHON 2000, p. 48-49).

(7) Cabe observar que, em Os Rougon-Macquart, Zola nao praticou rigorosamente o retorno balzaquiano das personagens, pois contou a historia de uma unica familia sob o Segundo Imperio, desdobrada em vinte romances diferentes (LEONARD 1980, p. 85).

(8) No original : "Les personnages de chaque histoire se meuvent dans une sphere qui n'a d'autre circonscription que celle meme de la societe. Quand un de ces personnages se trouvent como M. de Rastignac dans le PERE GORIOT, arrete au milieu de sa carriere, c'est que vous devez le retrouver dans Profil de marquise, dans l'Interdiction, dans La haute banque, et enfin dans la Peau de Chagrin, agissant dans son epoque suivant le rang qu'il a pris et touchant a tous les evenements auxquels les hommes qui ont une haute valeur participent en realite. Cette observation s'applique a presque tous les personnages qui figurent dans cette longue histoire de la societe: les personnages eminents d'une epoque ne sont pas aussi nombreux qu'on peut le croire, et il n'y aura pas moins de mille dans cette oeuvre qui, au premier apercu, doit avoir vingt-cinq volumes,dans sa partie la plus descriptive il est vrai; sous ce rapport, elle sera fidele". Profil de marquise foi o novo titulo dado por Balzac para Estudo de Mulher [Etude de femme], quando de sua segunda edicao, nos Estudos de costumes do seculo XIX, em maio de 1835. Em sua quarta edicao, ao integrar-se a Comedia Humana, o romance recuperou seu titulo original. Ja La haute banque era o titulo original de A Casa Nucingen [La Maison Nucingen], uma das Cenas da vida parisiense.

(9) No original: "Plusieurs personnes m'ont demande si l'heroine du RENDEZ-VOUS, de LA FEMME DE TRENTE ANS, du DOIGT DE DIEU, des DEUX RENCONTRES et de L'EXPIATION, n'etait pas, sous divers noms, le meme personnage. L'auteur n'a pu faire aucune reponse a ces questions. Mais peut-etre sa pensee sera-t-elle exprimee dans le titre qui reunit ces differentes scenes. Le personnage qui traverse pour ainsi dire les six tableaux don se compose MEME HISTOIRE n'est pas une figure; c'est une pensee. Plus cette pensee y revet des costumes dissemblables, mieux elle rend les intentions de l'auteur. Son ambition est de communiquer a l'ame le vague d'une reverie ou les femmes puissent reveiller quelques unes des vives impressions qu'elles ont conservees, de ranimer les souvernirs epars dans la vie pour en faire surgir quelques enseignements".

(10) Para uma discussao do problema do nome proprio no romance setecentista, permito-me remeter ao segundo capitulo de minha tese de doutorado, "Os nomes (im)proprios do romance". Cf. CAMPOS 2014.

(11) No original: "Comment expliquer la fascination d'un nom ? Foedera me poursuivit comme une mauvaise pensee avec laquelle on cherche a transiger. Une voix me disait : Tu iras chez Foedora. J'avais beau me debattre avec cette voix et lui crier qu'elle mentait, elle ecrasait tous mes raisonnements avec ce nom : Foedora. Mais ce nom, cette femme n'etaient-ils pas le symbole de tous mes desirs et le theme de ma vie ? Le nom reveillait les poesies artificielles du monde, faisait briller les fetes du haut Paris et les clinquants de la vanite ; la femme m'apparaissait avec tous les problemes de passion dont je m'etais affole. Ce n'etait peutetre ni la femme ni le nom, mais tous mes vices qui se dressaient debout dans mon ame pour me tenter de nouveau. La comtesse Foedora, riche et sans amant, resistant a des seductions parisiennes, n'etait-ce pas l'incarnation de mes esperances, de mes visions ? Je me creai une femme, je la dessinai dans ma pensee, je la revai. Pendant la nuit je ne dormis pas, je devins son amant, je fis tenir en peu d'heures une vie entiere, une vie d'amour ; j'en savourai les fecondes, les brulantes delices". Essa edicao baseia-se na chamada "edicao Furne", que vem a ser a original de A Comedia Humana, publicada entre 1842 e 1855. Nela, A pele de onagro ocupa o volume 14, o primeiro dos "Estudos filosoficos", publicado em 1845. O trecho em questao possui poucas diferencas em relacao aquele da primeira versao do romance, publicado em 1831 com o subtitulo "Romance filosofico" (TOURNIER).

(12) No original: "Enfin, par une singularite que Sterne appellerait une predestination, cet homme se nommait Gobseck". Entre 1830, data de sua aparicao nas Cenas da vida privada, e 1842, quando foi publicado no segundo volume de A comedia humana, o texto sofreu algumas alteracoes; a referencia a Sterne, por sua vez, ja aparecia na edicao original, cujo titulo era Les dangers de l'inconduite (MALEUVRE).

(13) No original: "-Va, lui dit-il, dans six mois, nous remplirons ca d'or et de merveilles. Tu seras comme une reine. Bah ! la nature entiere nous appartiendra, nous serons au-dessus de tout ... et par toi ... ma Marguerite. Margarita ? reprit-il en souriant, ton nom est une prophetie. Margarita veut dire une perle. Sterne a dit cela quelque part. As-tu lu Sterne ? veux-tu un Sterne ? ca t'amusera". O romance foi originalmente publicado em setembro de 1834, no terceiro volume dos Estudos de costumes no seculo XIX, como uma das "Cenas da vida privada". Balzac efetuou poucas intervencoes no texto ate sua publicacao no quadro de A comedia humana--o dialogo de Claes com sua filha Marguerite permaneceu intacto (FRAPPIER-MAZUR).

(14) Originalmente intitulada Les Celibataires, a narrativa foi publicada em 1832 no terceiro tomo das Cenas da vida privada e ja contava com o trecho citado. No ano seguinte, foi reclassificada como uma das Cenas da vida provinciana. Somente quando integrada em A comedia humana, onde apareceu em 1843, e que ela recebeu seu titulo definitivo (MOZET).

(15) Depois de sair em Le Messager em 1841, Ursula Mirouet foi publicada em livro em maio de 1842, com inumeras modificacoes. No ano seguinte, sua edicao no quinto volume de A comedia humana fez-se sem importantes alteracoes no texto (MAHIEU).

(16) Ver resumo da comunicacao oral de Ada Smaniotto, cuja tese de doutorado, em andamento, tem por tema a poetica da nomeacao em Balzac, em Balzaciales: les rencontres des doctorants sur Balzac. Disponivel em: http://www.balzacorama.univ-paris-diderot.fr/balzaciales.html. Acesso em: 24 dez. 2013.

(17) Publicado originalmente em 1840, na Revue Parisienne, Z. Marcas reapareceu no ano seguinte na coletanea coletiva Le fruit defendu, sob o titulo Mort d'un ambitieux; em 1846, readquiriu o titulo original ao ser integrado a A comedia humana, entre as "Cenas da vida politica" do volume XII. O texto nao sofreu alteracoes ao longo desse periodo (LAFORGUE).

(18) Embora devedora da interpretacao de Jerome David (2010, especialmente os tres primeiros capitulos), essa abordagem da questao do nome proprio balzaquiano nao leva em conta, por desnecessarias a problematica, as diferencas na formulacao e nos usos que Balzac fez da nocao de tipicidade, enfatizadas e brilhantemente analisadas por David; o ponto essencial consiste, conforme se nota, na critica da tese de um realismo ingenuo em Balzac.

(19) No original: "Traite comme un signe epais, plein de sens, le nom propre balzacien se fait le garant de la plenitude substantive d'un personnage. Le suivant tout au long de son trajet narratif, l'entourant, le lestant en toutes occasions de son opaque rempart de lettres et de sons, il est comme sa chair de langue, son corps de mots. Doue d'un tel tresor onomastique, le porte-nom romanesque se trouve magiquement pourvu d'une epaisseur prealable de vie qui tient au syllogisme implicite sur lequel tout realisme s'appuie, qui veut qu'a tout signifiant onomastique fait selon les normes corresponde un individu de chair et d'os".

(20) No original: "Dans les choses les plus banales, des aspects nouveaux surgirent. Ils n'avaient pas soupconne la vie moderne aussi profonde. /--Quel observateur! s'ecriait Bouvard. /--Moi je le trouve chimerique, finit par dire Pecuchet. Il croit aux sciences occultes, a la monarchie, a la noblesse, est ebloui par les coquins, vous remue les millions comme des centimes, et ses bourgeois ne son pas des bourgeois, mais des colosses. Pourquoi gonfler ce qui est plat, et decrire tant de sottises? Il a fait un roman sur la chimie, un autre sur la Banque, un autre sur les machines a imprimer. [...]. Nous en aurons sur tous les metiers et sur toutes les provinces, puis sur toutes les villes et les etages de chaque maison et chaque individu, ce qui ne sera plus de la litterature, mais de la statistique ou de l'ethnographie".

(21) No original:"Un nom propre est une chose extremement important dans un roman, une chose capitale. On ne peut pas plus changer un personnage de nom que de peau. C'est vouloir blanchir un negre".

(22) "Je le lui abandonnai en riant. Mais il restait serieux, tres touche, et il repetait qu'il n'aurait pas continue son livre, si j'avais garde le nom. Pour lui, toute l'oeuvre etait dans ces deux noms: Bouvard et Pecuchet. Il ne la voyait plus sans eux".

(23) "Gustave Flaubert poussait ainsi la religion du nom au point de dire que, le nom n'existant plus, le roman n'existait plus".

(24) O termo original e "cent sous". O "sou" era equivalente a cinco centavos de franco.

(25) No original: "-Je compte changer de nom, dit-il enfin, tu devrais en faire autant ... Nous nous generions moins. /-Comme tu voudras, repondit tranquilement Aristide/--Tu n'auras a t'occuper de rien, je me charge des formalites ... Veux-tu t'appeler Sicardot, du nom de ta femme? / Aristide leva les yeux au plafond, repetant, ecoutant la musique des syllabes: / 'Sicardot ..., Aristide Sicardot ... Ma foi, non; c'est ganache et ca sent la faillite. /--Cherche autre chose alors, dit Eugene. /--J'aimerais mieux Sicard tout court, reprit l'autre apres un silence; Aristide Sicard., pas trop mal. n'est-ce pas? peut-etre un peu gai ... / Il reva un instant encore, et, d'un air triomphant: /--J'y suis, j'ai trouve, cria-t-il... Saccard, Aristide Saccard! ... avec deux c ... Hein! Il y a de l'argent dans ce nom-la; on dirait que l'on compte des pieces de cent sous. / Eugene avait la plaisanterie feroce. Il congedia son frere en lui disant, avec un sourire: /--Oui, un nom a aller au bagne ou a gagner des millions".

(26) "Envoyez-moi 'quelques noms d'hommes et de femmes Normands (noms de bapteme ayant bien le caractere du pays)'. Si vous trouverez en paperassant pour moi quelques beaux noms de familles, de famille eteinte, mettez-les moi toujours de cote'". Na "Introducao" ao volume organizado por ela e recentemente publicado na colecao Quarto, Judith Lyon-Caen (2013) tambem abordou o problema do nome proprio em Barbey d'Aurevilly.
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Campos, Raquel
Publication:Historia da Historiografia
Article Type:Ensayo
Date:Dec 1, 2014
Words:10248
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