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Projetos de vida e moralidade em adolescentes com indicios de altas habilidades/superdotacaos.

O presente estudo tem como objetivo investigar os projetos de vida de adolescentes com indicios de altas habilidades/superdotacao (AH/SD) e as justificativas para cada projecao assinalada, assim como, verificar se os motivos para os projetos possuem elementos coerentes com as perspectivas moral e etica, abordaremos tais perspectivas a seguir. Optamos pelo uso do termo 'indicios de AH/SD', visto que a perspectiva teorica utilizada acerca das AH/SD foi a de Renzulli (2004, 2005), para quem a superdotacao pode se manifestar em algumas circunstancias e em outras nao. Por isso, tal autor prefere falar em pessoa com 'comportamentos superdotados', criticando a concepcao do 'ser superdotado' (Rech e Freitas, 2005), exporemos mais sobre o assunto no final desta introducao. Alem disso, o estudo tem por finalidade investigar os projetos de vida e seus motivos em uma populacao especifica, no caso os adolescentes com indicios de AH/SD, e nao pesquisar sobre a superdotacao especificamente. Acentuamos ainda que, para facilitar a leitura e evitar repeticoes, utilizaremos as expressoes altas habilidades, superdotacao, superdotado(a) e a sigla AH/SD para fazermos referencia aos participantes com indicios de altas habilidades/superdotacao.

Isso posto, adotamos como referencial teorico-metodologico a Psicologia da Moralidade, sendo essa a "ciencia preocupada em desvendar por que processos mentais uma pessoa chega a intimamente legitimar, ou nao, regras, principios e valores morais" (La Taille, 2006, p.9). Tal ciencia tem, como pilar teorico, o estudo de Piaget (1932/1994) acerca do juizo moral infantil, para quem o desenvolvimento moral da crianca passa pela heteronomia (marcada pelo respeito unilateral a autoridade) antes de alcancar a autonomia (em que as normas morais sao entendidas a partir de sua funcao social e baseadas no respeito mutuo e na cooperacao).

Desse modo, por volta dos dez anos, a crianca teria condicoes cognitivas e afetivas de alcancar a fase da moral autonoma, no entanto, e preciso a interacao social para que isto ocorra, porque e atraves das relacoes sociais, vivenciadas pela crianca, principalmente com seus pares, que ela podera aprender e experienciar sobre respeito mutuo e cooperacao (Piaget, 1932/1994). O autor afirma que a crianca nao e completamente heteronoma ou autonoma, sendo tais termos tendencias dominantes e nao estagios, fases ou periodos fixos. Contudo, nao e possivel, do ponto de vista cognitivo e afetivo, passar-se para a autonomia sem antes se ter vivenciado a heteronomia.

As contribuicoes de Piaget sobre o juizo moral na crianca continuam a influenciar estudiosos comprometidos em conhecer, em diferentes grupos de pessoas, sobre a construcao de projetos de vida, representacoes de si, virtudes morais, entre outros assuntos (D'Aurea-Tardeli, 2011; La Taille, 2010; Tognetta; La Taille, 2008). Tais investigacoes, dentre outras, alem de utilizarem os estudos de Piaget, adotam os conceitos de moral e etica como concebidos por La Taille (2006) para embasamento teorico e analise de suas pesquisas. Assim sendo, para La Taille (2006), moral e etica possuem definicoes diferentes, porem complementares, quer dizer, a moral vincula-se aos deveres, ao sentimento de obrigatoriedade, enquanto a etica ao projeto de felicidade e procura pela 'vida boa', visando "a verdadeira vida com e para o outro em instituicoes justas" (Ricoeur, 2014, p. 197, grifos do autor). Diante disso, "os deveres morais somente serao intimamente legitimados e, portanto, inspirarao as acoes dos individuos para os quais eles sao partes integrantes de uma 'vida boa', por aqueles, portanto, que possuem uma etica" (Tognetta e La Taille, 2008, p.182).

Segundo La Taille (2006), do ponto de vista psicologico, todas as pessoas podem experimentar o sentimento de obrigatoriedade que recebe conteudos diversos, dependendo do contexto cultural. Tal sentimento esta associado a resposta ao questionamento "como devo agir?" (p.31), implicando no uso da consciencia, portanto, da dimensao intelectual quando no agir de forma moral. Por isso, o 'saber fazer' de acordo com a moral presume que o sujeito tenha conhecimento das regras, principios e valores socialmente aceitos. Todavia, a conduta moral so ocorrera se o individuo assim o desejar, sendo este 'querer fazer' relacionado a dimensao afetiva.

O plano etico corresponde as respostas existenciais a questao "que vida eu quero viver?" (La Taille, 2006, p.36), aludindo-se aos projetos de vida, dentre outros. Tal perspectiva relaciona-se ao viver uma vida que valha a pena ser vivida, que faca sentido, uma 'vida boa' que possibilite a expansao de si mesmo e a busca/manutencao de representacoes de si de valor positivo (La Taille, 2010). De acordo com La Taille (2006), o sentimento de expansao de si proprio relaciona-se as perguntas "quem eu quero ser?" (p. 46) e tambem a "que vida eu quero viver?" (p. 36), sendo significativo para o plano etico, visto que possibilita a experiencia do sentimento de bem-estar subjetivo, motiva a busca pela felicidade e sentido para a vida em que o si mesmo e o outro sao considerados no projeto da 'vida boa'.

Destarte, compreendemos, como projeto de vida, o plano, a intencao, a aspiracao, e o objetivo a ser atingido no futuro (Ferreira, 1986). Nesse sentido, Inhelder e Piaget (1976, p. 260) usam o termo plano de vida e consideram que o mesmo e, "em primeiro lugar, uma escala de valores que colocara alguns ideais como subordinados a outros e subordinara os valores meios aos [valores] fins considerados como permanentes". Os autores ao escreverem sobre o desenvolvimento do adolescente, ponderaram que este, a partir de um novo plano de pensamento e de realidade, possibilitado pela aquisicao das operacoes formais, comeca a pensar no seu futuro dentro da sociedade, assim como se propoe a reformar a sociedade (parte desta ou totalmente). Nessa perspectiva, o jovem tem condicoes afetivas e cognitivas de pensar sobre um programa de vida e um plano de reformas que "... sao, ao mesmo tempo, o motor afetivo da formacao da personalidade" (p. 260). Segundo os autores, no plano de vida ha tambem a afirmacao da autonomia, "e a autonomia moral enfim inteiramente conquistada pelo adolescente, que se considera igual aos adultos, e um outro aspecto afetivo essencial da personalidade nascente que se prepara para enfrentar a vida" (p. 260).

Expandindo o entendimento acerca de projetos de vida, Damon (2009) introduziu o conceito de projeto vital (purpose) e o definiu como "uma intencao estavel e generalizada de alcancar alguma coisa que e ao mesmo tempo significativa para o eu e gera consequencias no mundo alem do eu " (p.53--grifos do autor). Conforme esse autor, tal intencao relaciona-se com "um desejo de fazer diferenca no mundo" (p. 54), quica fazer contribuicoes para a sociedade. Atraves de sua pesquisa com jovens, Damon (2009) identificou as motivacoes, os desafios e os obstaculos para a elaboracao e o engajamento em projetos vitais, alertando para a importancia dos adultos e educadores como mentores e motivadores de projetos vitais nobres em uma sociedade competitiva e imediatista. O autor tambem apontou os beneficios psicologicos quando se tem projetos vitais e, sobre isto, afirmou que "o projeto vital pode organizar toda uma vida, concedendo-lhe nao apenas sentido e alegria, como tambem motivacao para aprendizagens e realizacoes" (p. 55).

Em suma, do ponto de vista etico, os projetos de vida estao vinculados as respostas existenciais a questao "que vida eu quero viver?" (La Taille, 2006, p.36) e relacionam-se as aspiracoes e objetivos de viver uma vida com sentido que oportunize a expansao de si proprio e a busca e/ou manutencao de representacoes de si de valor positivo, assim como possibilite a busca da 'vida boa' em conexao com o outro, visto como alguem de valor, em uma sociedade justa e igualitaria. Em consonancia com isso, algumas pesquisas na area da Psicologia da Moralidade procuraram entender tais aspiracoes e projecoes de si em diferentes populacoes. Nesse seguimento, La Taille e Madeira (2004) estudaram os projetos de vida de jovens do ensino medio de uma escola publica em Sao Paulo. Os autores tinham como objetivo entender a legitimacao de atos de violencia na perspectiva da moralidade e constataram que 63% dos adolescentes apresentaram projecoes de si autocentradas em que o outro foi mencionado como bem a ser adquirido ou meio de se conseguir algo. Tambem verificaram que, em 51% das respostas dos participantes, nao havia elementos que condenassem claramente o emprego da violencia.

Outro estudo com populacao adolescente foi o de Miranda e Alencar (2011). Para tanto, investigaram a existencia de projetos de vida com 24 jovens com idade entre 15 e 20 anos, igualmente divididos em relacao ao sexo e classe social (media e baixa). Segundo as autoras, todos os participantes apresentaram estabelecimento de projetos de vida, sendo estes divididos em cinco categorias que abarcavam os 'bens materiais' (35,6%), 'relacionamentos afetivos' (21,8%), 'atividade profissional' (18,5%), 'formacao academica' (10,4%) e 'outros' (13,7%). As justificativas das projecoes assinaladas foram categorizadas como Conectados (quando havia inclusao de pessoas, grupos ou instituicoes de modo a conferir-lhes papeis de protagonismo) ou Desconectados (nao consideracao de pessoas, grupos ou instituicoes no estabelecimento de seus projetos de vida ou mencao ao outro de forma instrumental). As autoras verificaram que os projetos do tipo Conectado foram frequentes em mais da metade dos discursos dos participantes.

Semelhantemente, Menezes e Trevisol (2014) buscaram entender os projetos de vida de adolescentes no primeiro ano do ensino medio, bem como, se a familia, a escola e os amigos tinham alguma interferencia sobre tais projecoes. Os dados apontaram que os planos de vida mais importantes para os jovens estavam relacionados aos assuntos, em ordem de prioridade, 'estudar/formar-se', 'profissao e emprego', 'boa relacao com os amigos', 'constituir uma familia' e, 'ser independente'. Outro achado foi que 80% dos adolescentes mencionaram a familia como sendo muito importante para a determinacao de suas projecoes, uma vez que lhes proporcionava apoio, esclarecimentos de metas e foco.

Ainda dentro dessa tematica, Felckilcker e Trevisol (2016) investigaram os projetos de vida de alunos do ensino medio de escolas da regiao Meio-Oeste catarinense e a compreensao destes sobre o papel que a escola exerce em suas projecoes. Os dados coletados atraves de um questionario eletronico revelaram que os jovens consideram a escola, a epoca do ensino medio e os processos de estudo como importantes na elaboracao de seus projetos de vida. As projecoes mais assinaladas foram: 'continuidade dos estudos', 'ter um emprego' e 'dedicar-se a vida familiar'. Segundo as autoras, tais projetos foram motivados pelo desejo dos jovens terem estabilidade futura e emprego, bem como pelo anseio em contribuir para a construcao de um mundo melhor.

Os projetos de vida de participantes adolescentes tambem foram investigados por D'Aurea- Tardeli (2011) que, alem disso, verificou se a solidariedade estava presente em tais projecoes. Os achados indicaram que o outro e incluido, de algum jeito, em 82,32% dos planos futuros dos adolescentes e que as projecoes mencionadas se referiam ao desejo de nao perder contato com a familia atual, construir familia (casar e ter filhos) visando um relacionamento feliz e continuar com as amizades vigentes. Os resultados apontaram para uma imaturidade pro-social dos participantes, estes apresentaram representacoes futuras em que o outro incluido e alguem proximo ou familiar. Segundo a autora, alguns adolescentes (pequena parcela) demonstraram manifestacoes solidarias. Outrossim, Dellazzana-Zanon (2014) estudou os projetos de vida de adolescentes que cuidavam, bem como, dos que nao cuidavam de seus irmaos menores. Os resultados revelaram que os jovens que cuidavam de seus irmaos menores possuiam projetos diferentes dos que nao cuidavam, ou seja, apresentaram uma tendencia a construir projecoes de si associadas a generosidade e a carreira.

Outro publico, que teve seus projetos futuros investigados, foi o de adolescentes privados de liberdade. Por meio de um estudo de casos multiplos, Silveira, Machado, Zappe e Dias (2015) verificaram que os jovens institucionalizados possuiam projecoes relacionadas com, em ordem de prioridade, a familia, o trabalho, o estudo, a aquisicao de bens materiais, a indefinicao (projecoes sem objetivos claros) e a vinganca (projeto de futuro negativo). Constataram que a familia tem papel central na elaboracao de tais projecoes, aparecendo "tanto como fonte de apoio como fator de risco em funcao de sua propria vulnerabilidade" (p. 59). As autoras salientaram que e preciso que as instituicoes socioeducativas conhecam os projetos de vida dos jovens privados de liberdade para que possam propor intervencoes condizentes com suas projecoes, "oferecendo suporte tanto para a (re)construcao quanto para a efetivacao dos projetos futuros dos jovens institucionalizados" (p. 61).

A populacao universitaria da area da saude foi foco de investigacao de Abreu e Alencar (2013) sobre projetos de vida. Para tanto, as autoras deram enfase aos projetos profissionais dos participantes e seus motivos para as projecoes mencionadas. Abreu e Alencar (2013) concluiram que havia um numero reduzido de elementos morais nos argumentos dos participantes e alertaram para a importancia de mudancas profundas na formacao academica do profissional de saude para que se possibilite a construcao de especialistas com caracteristicas socialmente relevantes e que alicercem sua pratica no comprometimento com a saude e a vida.

Em relacao aos estudos sobre projecoes de si em populacao da educacao especial, conhecemos, atraves da investigacao de Andrade, Alencar e Salles (2018, no prelo), os projetos de vida de adultos surdos matriculados no ensino superior. Estes apresentaram projecoes relacionadas, em maior numero, com os temas 'atividade profissional', 'formacao academica' e 'relacionamento afetivo'. As justificativas para os projetos foram, na maioria, do tipo 'autocentrado com reconhecimento de si' e 'conectado', sugerindo dimensao moral e etica nas projecoes futuras dos surdos.

Continuando com os estudos com publico da educacao especial, encontramos o estudo de Bronk, Finch e Talib (2010) que pesquisaram os projetos vitais de adolescentes com superdotacao e de seus pares nao superdotados, e alegaram que tal estudo foi a primeira pesquisa empirica sobre projetos vitais de superdotados. Os autores fizeram analise e estudo comparativo dos resultados encontrados nas duas populacoes pesquisadas e afirmaram que tanto os adolescentes superdotados, quanto os nao superdotados, apresentaram projecoes na mesma proporcao. No entanto, os individuos com altas habilidades indicaram comprometimento precoce com seus objetivos de vida auto-orientados, que visavam interesses proprios e apontaram diferentes tipos de inspiracoes para seus projetos. Segundo os autores, tais diferencas em relacao aos sujeitos nao superdotados podem ser explicadas pelo fato de os adolescentes com AH/SD receberem educacao especial que, talvez, de forma implicita, os motive a pensar no seu bem-estar e nos seus interesses pessoais. Diante dos resultados, Bronk et al. (2010) ponderaram necessidade de uma educacao para os superdotados que incentive, nao somente os projetos de vida auto-orientados, mas tambem os projetos em que suas habilidades possam ser pensadas para as necessidades sociais.

Alem das pesquisas anteriormente apresentadas, na area da moralidade ha investigacoes que contemplam as possiveis diferencas entre os sexos masculino e feminino quanto ao desenvolvimento psicologico e moral. Pioneira em tal estudo foi Gilligan (1982/2003) que apresentou, atraves de seu livro "In a Different Voice: Psycological Theory and Women's Development", tres estudos fruto de pesquisas feitas com universitarios, mulheres gravidas que consideravam o aborto, e com 144 pessoas do sexo feminino e masculino, com idades que variaram entre 6 a 60 anos, sobre direitos e responsabilidades. Os dados foram coletados atraves de entrevistas com questoes e dilemas morais que consideraram as concepcoes de si e a moralidade. Segundo a autora os dados revelaram que ha diferencas entre os sexos no que diz respeito aos relacionamentos, empatia, compaixao e nocao de justica, ou seja, as mulheres teriam uma voz moral diferente dos homens, visto que apresentariam uma preponderancia a etica voltada para o cuidado enquanto os homens uma inclinacao a etica voltada para a justica. Gilligan (1982/2003) sugere que tal diferenca ocorre devido ao contexto afetivo e cultural em que vivem as meninas/mulheres e ao papel que a sociedade confere ao feminino e ao masculino. A autora alerta para a necessidade de pesquisas na area da moralidade que levem em consideracao as diferentes vozes morais de homens e mulheres, e o contexto democratico, mas patriarcal em que coexistem (Gilligan, 2014).

Igualmente aos estudos supracitados, a presente pesquisa objetivou conhecer os projetos de vida e seus motivos em uma populacao especifica, no caso, a de adolescentes superdotados. No que tange tal publico, os alunos superdotados sao amparados pela Politica Nacional de Educacao Especial na Perspectiva da Educacao Inclusiva [Ministerio da Educacao (MEC), 2008], que lhes garante educacao inclusiva e atendimento especializado suplementar. Nesse sentido, o MEC (2008) considera como superdotado o individuo que apresenta potencial elevado na area "intelectual, academica, lideranca, psicomotricidade e artes" (p. 15), podendo essas areas estarem isoladas ou combinadas, alem de apresentar as caracteristicas de "elevada criatividade, grande envolvimento na aprendizagem e realizacao de tarefas em areas de seu interesse" (p. 15). Sendo assim, as pessoas com AH/SD podem ser identificadas como tais, considerando-se as seguintes habilidades: intelectual geral; pensamento criativo; lideranca, psicomotoras e/ou talento especial para as artes: plasticas, musicais, dramaticas, literarias ou cenicas (Virgolim, 2007).

A definicao supracitada possui elementos teoricos desenvolvidos por Renzulli (2005) em seu 'Modelo dos Tres Aneis', isto e, segundo tal modelo, interagindo de forma dinamica, as caracteristicas de habilidade superior (acima da media), motivacao com a tarefa e criatividade resultam nos comportamentos de superdotacao (que se desenvolvem em certas pessoas, e de acordo com algumas circunstancias e momentos de suas vidas). Renzulli (2004, p. 85) pondera que nao e necessario que os educandos apresentem todos os tres tracos para que sejam candidatos ao atendimento especial, bastando somente "serem identificados como capazes de desenvolver essas caracteristicas".

Outra contribuicao de Renzulli (2004, 2005) para o entendimento das altas habilidades e a divisao destas em duas categorias diversas e abrangentes: a superdotacao escolar e a criativo-produtiva. Segundo Renzulli (2004), a superdotacao escolar (tambem chamada de habilidade do teste ou da licao de aprendizagem) e aquela facilmente identificada por meio dos testes de inteligencia que apontam capacidades apreciadas pela educacao tradicional, isto e, as habilidades analiticas. Ja a superdotacao criativo-produtiva "descreve aqueles aspectos da atividade e do envolvimento humanos nos quais se incentiva o desenvolvimento de ideias, produtos, expressoes artisticas originais e areas do conhecimento que sao propositalmente concebidas para ter impacto sobre uma ou mais plateias-alvo" (p. 83). De acordo com Renzulli (2005), nem sempre os testes de inteligencia conseguem identificar pessoas com superdotacao criativo-produtiva, e e possivel um individuo apresentar os dois tipos das AH/SD.

Isso posto, verificamos, por meio da revisao bibliografica para esta pesquisa, que nao ha estudos que analisem, especificamente, os projetos de vida de adolescentes superdotados no Brasil, com enfoque nas perspectivas moral e etica (como concebidas nesta introducao), e esta situacao, dentre outros fatores, despertou nosso interesse em investigar essa populacao. Assim sendo, apos introducao dos principais modelos teoricos e pesquisas norteadoras deste estudo, passaremos a explanacao acerca dos metodos, resultados e discussao, e terminaremos com as consideracoes finais.

Metodo

Participantes

Entrevistamos 40 adolescentes com indicios das AH/SD, residentes na Grande Vitoria--Espirito Santo, igualmente divididos quanto ao sexo e tipo de superdotacao (escolar ou criativo-produtiva), com idades que variavam entre 14 e 18 anos (media de 16,02 anos). Os entrevistados eram alunos de escolas publicas, sendo que 4 cursavam o ultimo ano do ensino fundamental e 36 cursavam o ensino medio, bem como frequentavam o nucleo de atendimento ao superdotado ou recebiam atendimento educacional especializado em suas escolas. Os jovens foram selecionados, por conveniencia, a partir de um banco de dados com informacoes sobre os adolescentes em tais instituicoes.

Tambem consideramos o referencial teorico de Renzulli (2004, 2005), apresentado na introducao, para selecionar os superdotados nos grupos escolar e criativo-produtivo, para isso tivemos o apoio da equipe pedagogica das instituicoes mencionadas. As variaveis sexo e tipo de superdotacao nao foram objetos de estudo da presente investigacao, no entanto, dividimos igualmente os participantes quanto ao sexo e tipo de superdotacao no intuito de anular possiveis efeitos de tais variaveis. Contudo, sera mencionado qualquer dado que aponte qualquer diferenca relevante entre os sexos.

Medidas

Fizemos entrevista semiestruturada utilizando o metodo clinico de Piaget (1932/1994). Para tanto, convidamos o participante a imaginar-se no futuro e responder a questao: 'Quais os seus projetos de vida?' Depois, solicitamos que o superdotado justificasse cada projeto listado. Todas as entrevistas foram realizadas individualmente em uma sala do nucleo de atendimento ao superdotado ou da escola do participante ou do projeto/oficina que frequentavam (localizado em uma instituicao de nivel superior), gravadas em audio e transcritas na integra para posterior categorizacao e analise dos dados. Todos os participantes, maiores de 18 anos, consentiram sua participacao por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para Participacao em Pesquisa e os ate 17 anos assinaram o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido para Participacao em Pesquisa e seus responsareis o Termo de Consentimento. Esses termos tambem explicaram os objetivos e a natureza da pesquisa aos participantes e seus pais/responsaveis. As instituicoes sobreditas deram sua anuencia para uso de seu espaco fisico e entrevistas com seus alunos por meio da assinatura do Termo de Consentimento Institucional para Realizacao de Pesquisa.

Procedimento

A permissao para a gravacao das entrevistas foi solicitada aos adolescentes e seus pais/responsaveis atraves dos termos citados. As identidades dos jovens, seus responsaveis e instituicoes que fazem parte estao devidamente resguardadas de acordo com os padroes eticos do Codigo de Etica Profissional do Psicologo [Conselho Federal de Psicologia (CFP), 2005] e Resolucao No 466 (Conselho Nacional de Saude, 2012). Portanto, utilizaremos nomes ficticios quando nos referirmos aos participantes durante a discussao dos resultados. Os arquivos com os formularios de assentimentos/consentimentos e outros registros preenchidos, bem como gravacoes e transcricoes das entrevistas estao armazenados e mantidos de acordo com o referido codigo. Finalmente, a presente investigacao faz parte de um projeto de pesquisa aceito pelo Comite de Etica em Pesquisa com seres humanos da Universidade Federal do Espirito Santo (UFES), campus Goiabeiras, o numero do parecer e 1.145.384.

Tratamento dos dados

Os dados foram tratados de forma qualitativa devido a riqueza de informacoes possibilitadas atraves do metodo clinico piagetiano. Referente a este, Queiroz e Lima (2010, pp. 113-114) pontuaram que tal metodo permite a inclusao de diversas situacoes na entrevista, tornando-o um instrumento de avaliacao "dinamico, criativo, reflexivo e interessante" para os envolvidos no processo da entrevista (entrevistador e entrevistado). Os autores afirmaram que, para Piaget, "os sujeitos tem uma estrutura de pensamento coerente, constroem representacoes da realidade a sua volta e revelam isto nas respostas as entrevistas ou em suas acoes se for esta a proposta do metodo no momento.

Isso posto, todos os protocolos das entrevistas transcritas foram lidos com o objetivo de estabelecermos as categorias das respostas e justificativas dos participantes. Depois disso, analisamos as categorias elaboradas, que foram estabelecidas considerando-se os discursos dos participantes e o referencial teorico apresentado na introducao. Posteriormente, as respostas e justificativas foram relidas e conduzidas para as categorias pertinentes por nos, de forma independente. Solicitamos o apoio de um terceiro juiz quando houve discordancia. Por fim, adotaremos o percentual de 20% ou mais para apontarmos as diferencas relevantes encontradas nos sexos. Esclarecemos que analisamos a quantidade e tipos de respostas e justificativas dos participantes categorizadas por nos, e que um mesmo entrevistado pode ter mencionado mais de uma resposta e justificativa para os seus projetos de vida.

Resultados e discussao

Os adolescentes deste estudo apresentaram uma diversidade de projecoes de si (N= 229), sendo as mais relevantes com os temas 'formacao academica' (N=57; 24,9%), 'atividade profissional' (N=56; 24,5%) e 'relacionamentos afetivos' (N=36; 15,7%). Os demais compreendem 'bens materiais' (N=26; 11,4%), 'viajar' (N=15; 6,5%), 'morar em outro pais/cidade e/ou sozinho' (N=12; 5,2%), 'contribuicoes para sociedade' (N=11; 4,8%), 'qualidade de vida' (N= 10; 4,4%) e 'hobby' (N=6; 2,6%). Os achados aproximam-se dos de Menezes e Trevisol (2014), em que os adolescentes estabeleceram, em ordem de prioridade, projetos de vida de estudar/formar-se, possuir profissao e emprego, ter boa relacao com os amigos, constituir uma familia e, ser independente.

Em nosso estudo, um total de 363 justificativas para os projetos de vida foi mencionado, estas foram agrupadas segundo as seguintes categorias: 'autocentrado' (citacao de caracteristicas e/ou interesses pessoais em que nao ha alusao ao outro semelhante, que nao apontam para a expansao de si proprio no mundo e que estao associadas a satisfacao pessoal e/ou bem-estar proprio); 'autocentrado com a possibilidade de expansao de si' (referencia as aspiracoes, buscas e necessidades de atuar no mundo e de sentido para a vida, corresponde ao sentimento de expansao de si proprio); 'conectado' (o outro e mencionado como protagonista e nao de forma instrumental, os argumentos revelam conexao com pessoas proximas, sociedade e animais), e 'sociedade desconectada dos artistas' (mencao a desvalorizacao profissional dos artistas pelo meio social), ver Tabela 1.

Os argumentos do tipo 'autocentrado' foram os mais presentes nas justificativas dos_participantes, expressando a busca por um ganho relacionado a posse de objetos materiais, dinheiro e/ou pessoas; ao reconhecimento pessoal; a beleza fisica; ao prazer; a viagens de lazer ou turismo; a viver em outro lugar, visando melhorar sua vida; ao bem-estar fisico e/ou psicologico; ao interesse/gosto pelo estudo em geral ou determinada area academica, pelas artes e/ou area profissional; ao sucesso particular, e a ambicao profissional. O foco esta no individual sem qualquer mencao ao outro semelhante e de forma a favorecer a reciprocidade e a articular o individual com o coletivo.

Corroboram com os resultados ora discorridos, o estudo de La Taille e Madeira (2004) que constataram que 63% dos adolescentes pesquisados apresentaram projecoes autocentradas em que o outro, quando mencionado, o foi com a intencao de posse ou como meio para se adquirir o pretendido. Semelhantemente, Bronk et al. (2010) quando investigaram os projetos vitais de adolescentes superdotados nos Estados Unidos, verificaram que a maioria dos participantes indicou projetos com objetivos auto-orientados, que visavam interesses proprios e o bem-estar pessoal. Os projetos de vida com explicacoes centradas em si nao sao entendidos como eticos pela Psicologia da Moralidade (Abreu & Alencar, 2013; D'Aurea-Tardeli, 2011; La Taille, 2006, 2010; La Taille & Madeira, 2004; Miranda & Alencar, 2011), pois nao primam pela coletividade, pela equidade e pelo convivio social em instituicoes justas (La Taille, 2006; Ricoeur, 2014), elementos importantes para o plano etico, entendido como perspectiva da 'vida boa' (La Taille, 2006, 2010).

No que tange a relacao entre projetos e justificativas do tipo 'autocentrado', verificamos que o maior numero de argumentos se vincula aos projetos de 'formacao academica' (N= 77; 30%), 'atividade profissional' (N= 76; 30%) e 'relacionamentos afetivos' (N= 34; 13%). Portanto, as explanacoes para a 'formacao academica' englobam o interesse e/ou o gosto pelo estudo em geral ou por determinada area academica, sendo as areas de exatas e tecnologicas as mais citadas, bem como apontam para o aperfeicoamento e/ou continuidade dos estudos por meio de pos-graduacoes. Muitos participantes assinalaram o estudo como forma de alcancar uma profissao/emprego rentavel. Para exemplificar essas explicacoes, citamos:
Porque sempre quis ser astronauta desde crianca, [...]. Sempre gostei
de coisas que envolvessem o espaco, as galaxias, tanto que estudo
astronomia em casa, leio livros. E quando comecei a ter aulas de
fisica, que foi uma das poucas materias que vi motivo, eu me dei muito
bem com fisica, tanto que na sala as pessoas sempre falam que sou muito
inteligente em fisica. Quando soube que existe astrofisica, que mistura
astronomia fisica, comecei a ver aulas no YouTube, percebi que e uma
coisa muito facil [...]. Astrofisica e uma coisa que quero, [...].
Todos falam que quem faz faculdade na USP ja tem a vida ganha, e
pesquisei muito e vi que a USP e a melhor. A maioria das pessoas que
faz astrofisica la, sempre consegue as coisas que quer (Jose, 17 anos,
justificativa para o projeto de fazer faculdade de astrofisica na USP).


Similar a esses achados, Menezes e Trevisol (2014) verificaram que os adolescentes de sua pesquisa escolheram o estudo como primeira opcao para os projetos de vida quando indagados sobre o que esperavam da vida. Embora os autores nao utilizem o termo 'autocentrado', entendemos que as justificativas dos participantes eram centradas em si, pois abarcavam o estudo como possibilidade de, no futuro, conseguir uma estabilidade financeira e uma profissao, assim como alcancar qualificacao, "sucesso na carreira profissional; atender as exigencias do mercado de trabalho; adequar-se em relacao a evolucao da tecnologia e a informatizacao" (p. 17).

Os motivos do tipo 'autocentrado' relacionados a 'atividade profissional' referem-se ao desejo de possuir um emprego confortavel e que proporcione estabilidade financeira, bem como esteja associado a formacao academica de nivel superior, que possibilite sucesso profissional, bens materiais e emancipacao dos pais. Os adolescentes tambem justificaram suas escolhas baseados no gosto e/ou interesse em determinada profissao que geralmente estava ligada a suas altas habilidades. Neste sentido, como exemplos, mencionamos:
Porque acho a arte bonita. Sao as nossas manifestacoes, as variadas
formas de manifestacoes. A gente existe e faz alguma coisa, alem de ser
como profissao, para ganhar dinheiro, uma coisa que voce se expresse.
Nao uma coisa que ja esta determinada, tipo trabalhar em loja de sapato
que voce tem uma funcao e dessa funcao nao passa. Com a arte nao, a
arte amplia mais as coisas. Por isso que queria passar mais por esse
lado. Nao que nao passasse pelo outro, mas voltaria mais para o lado
artistico (Suely, 18 anos, justificativa para o projeto de seguir a
area artistica profissionalmente).

Acho que a engenharia e uma boa area para se trabalhar hoje em dia, ou
ate no futuro, tem um salario bom e nao exige muito esforco fisico
[...] Bom rendimento e salario [...] Salario nao e baixo e tipo de
trabalho nao exige esforco fisico (Daniel, 14 anos, justificativa para
o projeto de trabalhar na area de engenharia).


Assim como os adolescentes deste estudo, os participantes da pesquisa de Menezes e Trevisol (2014) apontaram elementos centrados em si para as justificativas dos projetos relacionados ao emprego, correlacionando-os ao desejo de "ter seu proprio dinheiro, estabilidade, seguranca e, sobretudo, lutar para obter sustentabilidade [...]; saber administrar financas, direcionando a busca da autonomia [...]" (p. 18). Ja os adolescentes privados de liberdade do estudo de Silveira et al. (2015) explicaram a opcao pelo tema do 'trabalho' nas projecoes futuras como forma de se distanciarem da criminalidade, e tambem apresentaram justificativas que apontavam para seus interesses proprios, relacionadas ao 'trabalho' e as habilidades que possuiam, ao gosto e/ou interesse por determinada profissao, no entanto, ao contrario dos participantes desta investigacao, mencionaram "atividades que requerem pouco estudo ou qualificacao, e provavelmente nao sao atividades com potencial de levalos a superar sua condicao de exclusao social" (p. 58).

Referente ao supracitado, Damon (2009) salienta que, na sociedade capitalista, competitiva e imediatista em que se vive, pensar na profissao e algo que se tem incentivado nos jovens, mas apenas tendo em vista o preparo para o mercado competitivo e o alcance de "sucesso material rapido" (p. 125). Segundo o autor, muitos jovens, hoje, quando pensam em sua futura profissao, levam em consideracao somente os elementos superficiais da vocacao, "sem considerar o que estao tentando conquistar e como suas aptidoes podem ser uteis para o mundo" (p. 66-67).

No que concerne aos argumentos do tipo 'autocentrado' para as projecoes referentes aos 'relacionamentos afetivos', os adolescentes assinalaram o desejo de ter alguem, filhos ou uma familia pelo prazer de possuir o outro, para nao ficarem sozinhos, receberem amor, terem alguem para cuidar deles quando idosos, darem continuidade a sua geracao e deixarem o seu legado. Portanto, a relacao com o outro aparece como unilateral, e esse outro so e mencionado pelo motivo de posse ou como meio de se adquirir o pretendido. Explicacoes desse tipo podem ser entendidas atraves dos seguintes relatos: "Porque nao quero morrer sozinha e gostaria de deixar meu legado para alguem" (Monica, 16 anos, justificativa para o projeto de "formar uma familia"); e, "Acho que e essencial. Objetivo maior que as pessoas tem, e crescer e perpetuar a especie. Seria no sentido de nao me sentir bem me imaginando de passar a vida sozinho" (Lucas, 16 anos, justificativa para o projeto de "ter uma familia").

Os adolescentes do estudo de La Taille e Madeira (2004) tambem apresentaram projetos autocentrados em que o outro foi mencionado como algo a ser possuido ou forma de se conseguir o almejado. Os motivos que falam de relacionamento unilateral em que o outro nao e mencionado de forma que sua alteridade e humanidade sejam considerados, nao sao eticos (La Taille, 2006). Relacoes desprovidas de cooperacao, equidade e reciprocidade sao sintomas de uma sociedade competitiva, consumista, imediatista, de relacionamentos frageis e descartaveis, em que o outro e entendido como mercadoria por um 'sujeito liquido' vivendo em uma 'modernidade liquida' (Bauman, 1925/2001).

Continuando com a analise, a categoria 'conectado' foi a segunda com maior soma de justificativas. As explicacoes para as projecoes destacam conexoes com a sociedade (das 85 explanacoes conectadas, 43, isto e, 51%, referiam-se a sociedade), em que o outro e/ou grupo de pessoas nao tem contato imediato e afetivo com o participante, sendo, muitas vezes, um desconhecido e necessitado em varias esferas. As explicacoes referem-se a querer ajudar psicologicamente, socialmente, fisicamente, juridicamente e financeiramente o semelhante (individualmente ou em grupo), bem como motiva-lo para a vida, buscando melhor comunicacao com o que e diferente, falando em respeito, boa interacao e optando pela especializacao em nivel superior (principalmente na area da saude, da educacao e da arte) como forma de contribuir com a sociedade. Nesse sentido, houve mencao a criacao de projetos sociais, organizacoes nao-governamentais (ONGs), software aplicativo gratuito para auxilio na area da saude, ajuda a humanidade em questoes de locomocao, seguranca, transito e poluicao.

Alem das justificativas que indicavam conexoes com a sociedade, os superdotados apresentaram argumentos conectados com pessoas proximas (N= 39; 46%), que expressavam o objetivo de retribuir amor, cuidado e ajuda financeira, principalmente aos pais (familia existente); dividir a vida com alguem, ter filhos, oferecer-lhes qualidade de vida, boas condicoes financeiras e boa educacao (familia futura), bem como compartilhar momentos agradaveis e de ajuda com os amigos; e, com elementos de conexao com os animais (N= 3; 3%), indicando o desejo de oferecer amor, de especializar-se em nivel superior para melhor atende-los, mostrando consciencia da necessidade de acolhimento, cuidado e preservacao dos animais.

Assim como os participantes deste estudo, os adolescentes da pesquisa de Miranda e Alencar (2011, p. 518) tambem apontaram justificativas do tipo 'Conectada com a sociedade' e com pessoas proximas (familia, filhos ou grupo de pessoas com papeis centrais para os participantes, no caso, a categoria foi nomeada como 'Conectada com um grupo'), assinalando que fatores sociais ou dos grupos, nos quais os adolescentes estao inseridos, sao levados em conta quando da escolha e importancia de suas projecoes. Logo, projetos de vida, com argumentos de conexao com o outro, sao considerados eticos dentro do corpo teorico da Psicologia da Moralidade, pois o semelhante e pensado levando em consideracao suas necessidades, sua condicao humana e alteridade; em que a busca pela felicidade e 'vida boa', plano etico, inclui o outro em instituicoes justas (Abreu & Alencar, 2013; D'Aurea-Tardeli, 2011; La Taille, 2006, 2010; La Taille & Madeira, 2004; Miranda & Alencar, 2011). Os motivos do tipo 'conectado' parecem responder a pergunta etica "que vida eu quero viver?" (La Taille, 2006, p.36), sugerindo consciencia e importancia do papel dos participantes na relacao consigo mesmos, com os outros e com o mundo, neste, inclusos os animais.

No que diz respeito a correspondencia entre projetos e justificativas conectadas, notamos que o maior numero de motivos tem ligacao com os projetos de 'relacionamentos afetivos' (N=25; 29%), 'contribuicoes para a sociedade' (N=14; 16%) e 'atividade profissional' (N=13; 15%). Desse modo, os argumentos do tipo 'conectado', para os projetos de 'relacionamentos afetivos', vinculam-se, em similar proporcao, a familia existente (principalmente pais/maes, mas tambem irmas/irmaos e sobrinhos) e a familia futura (esposo/esposa ou companheiro/companheira e filhos); em menor numero, houve argumentos com mencao aos amigos (expressando desejo de compartilhar momentos de lazer e oferecer amizade em circunstancias dificeis).

Em relacao aos motivos com alusao a familia existente, as justificativas estavam associadas a retribuicao do amor recebido, com destaque para os pais/maes, anseio de ajudar financeiramente e providenciar amparo nos momentos de necessidades e velhice, assim como, contribuir com a compra de bens materiais, sobretudo casa/apartamento, compartilhar momentos de alegria e lazer, e estar por perto diante de situacoes importantes da vida dos familiares. Ja no tocante a familia futura, a maioria dos argumentos dos participantes referiam-se a vontade de casar para compartilhar amor, cuidado, dificuldades e alegrias com o outro, alem de ter filhos biologicos ou adotados com este outro; alguns participantes mencionaram o objetivo de ter filhos com o intuito de formar cidadaos, oferecer boa educacao formal e qualidade de vida. Para ilustrar, apresentamos os seguintes depoimentos: "Porque eles fazem por mim, penso em ajuda-los futuramente, no caso, eles me dao muita coisa e tambem muito amor, e quero retribuir" (Carla, 16 anos, justificativa para o projeto de "ajudar os pais financeiramente').
[...] quero compartilhar minha vida com alguem e ter filhos com essa
pessoa, construir uma familia e compartilharmos amor e enfrentarmos os
momentos dificeis juntos, tipo, enfermidade, desemprego ou alguma
dificuldade financeira, isso juntos, com companheirismo e amor (Paulo,
18 anos, justificativa para o projeto de ter uma familia).


Os achados de D'Aurea-Tardeli (2011), concernentes as justificativas conectadas para os projetos de vida de adolescentes, aproximam-se dos deste estudo no que diz respeito a familia futura, ou seja, a autora afirmou que grande parte dos argumentos de seus participantes eram expressoes de desejo de construir familia (casar e ter filhos). Ja os dados sobre a familia existente e os amigos apareceram em menor proporcao. Outrossim, os adolescentes pesquisados por Menezes e Trevisol (2014) elegeram 'constituir familia' como quarta prioridade quando questionados sobre o que esperavam da vida, e os motivos conectados para isso concernem a amizade e ao compartilhar momentos da vida. Tais participantes tambem assinalaram a interferencia que a familia existente tem sobre suas projecoes, ou seja, 80% dos adolescentes indicaram como muito importante a influencia da familia para a elaboracao de seus projetos futuros, uma vez que ela proporciona apoio nas dificuldades, incentivo para o melhoramento pessoal, foco e esclarecimentos de metas.

Por conseguinte, Menezes e Trevisol (2014, p. 14-15) afirmaram que, inicialmente, e na familia existente, atraves da relacao domestica, "que se vinculam os primeiros passos de uma educacao moral e dos valores, de exemplos de convivencia social e de amizade, que estarao na base do convivio com outros individuos". Destarte, os estudos em questao sugerem que a afetividade marcada por elementos de reciprocidade, companheirismo, cuidado, amor e retribuicao, esta presente nos juizos de adolescentes, bem como parece responder ao questionamento existencial "que vida eu quero viver?" (La Taille, 2006, p.36) e apontam para a dimensao moral e etica de seus projetos de vida.

Ainda dentro da categoria do tipo 'conectado', as justificativas para os projetos de vida com a tematica 'contribuicoes para sociedade' estavam vinculadas ao anseio de criar projetos sociais e artisticos para jovens e criancas em situacao de risco pessoal e social; ONGs para pessoas com algum tipo de necessidade; software aplicativo para promocao de saude; colaborar para a solucao de problemas de transito e poluicao nas cidades; e, contribuir com a humanidade atraves de uma invencao que proporcionasse conforto, melhor locomocao e utilizacao do tempo, seguranca e bem-estar para as pessoas. Nessa acepcao, destacamos as seguintes consideracoes: "Criar alguma coisa que pudesse estar no dia a dia das pessoas, alguma coisa que facilitasse a locomocao, alguma coisa que desse mais seguranca para as pessoas, entao isso ia ajudar realmente a humanidade" (Heitor, 17 anos, justificativa para o projeto de "fazer algo para a humanidade, uma invencao que proporcionasse uma vida melhor para as pessoas").
Porque a gente sabe que violencia, que droga, tudo isso acaba com os
adolescentes, mas ai com essas ONG's, com esses projetos, sempre esta
ajudando a manter um equilibrio nas coisas. Tem coisa ruim? Tem, mas a
gente tambem esta ajudando. Entao vai melhorando, vai dando opcao para
a pessoa realmente escolher, porque a gente sabe que tem muita gente
que esta no crime, que esta em uma coisa ruim porque nao teve opcao.
(Michele, 17 anos, justificativa para o projeto de ter um trabalho
voluntario ou participar de uma ONG).


Assim como neste estudo, os jovens da pesquisa de Felckilcker e Trevisol (2016) tambem assinalaram como importantes a construcao de um mundo melhor (nomeados 'projetos sociais') em suas projecoes. Nessa perspectiva, dos 103 adolescentes estudados, mais da metade assinalou como extremamente importante ou muito importante "fazer algo para construir um mundo melhor" (p. 43) e "lutar contra o preconceito e a discriminacao" (p. 43), enquanto cerca de 42 jovens apontaram "dedicar-se a servicos voluntarios" (p. 43) com tais niveis de importancia.

Os projetos de vida, dentro do assunto 'contribuicoes para sociedade' ou 'projetos sociais', bem como seus motivos do tipo 'conectado', podem ser considerados como projetos vitais nobres, complexos e ambiciosos (Damon, 2009), uma vez que estao para alem do mundo do eu, embora ainda significativo para este eu (Damon, 2009), e perpassam o ambito das relacoes familiares e de amizade, expressando "um desejo de fazer diferenca no mundo, de realizar algo de sua autoria que possa contribuir para a sociedade" (Damon, 2009, p. 14). Segundo Damon (2009), o projeto vital capacita a pessoa com resiliencia para enfrentar os momentos ruins da vida e com alegria para os bons. O autor afirma ainda que "uma juventude motivada por projetos vitais nao apenas evita os riscos do comportamento autodestrutivo como tambem demonstra uma atitude notavelmente positiva que desperta a avidez por conhecer o mundo" (p. 52).

Outro tema frequente, nos projetos vitais com argumentos conectados, foi 'atividade profissional', em que a maioria das justificativas relaciona-se com o anseio de utilizar a profissao para melhor acolher e ajudar o outro psicologica, fisica e juridicamente, ja as demais associam-se a vontade de amparar financeiramente os pais, proporcionar qualidade de vida aos filhos que ainda virao, bem como, fazem mencao ao gosto pelo respeito ao proximo e querer o bem-estar/felicidade do semelhante. Como exemplo desses tipos de argumentos, citamos:
[...] vejo certos livros, certos escritores que passaram ou passam por
situacoes parecidas assim como a minha e vejo que eu poderia de alguma
forma estar mostrando para aquela pessoa que ela nao e a unica que
pensa daquele jeito, abrindo a mente dela para novas ideias, ate para
ajudar ela em alguma questao da vida dela, essas coisas... (Angelica,
17 anos, justificativa para o projeto de ser escritora).


Semelhantemente a esses dados, os adolescentes cuidadores de seus irmaos menores da pesquisa de Dellazzana-Zanon (2014), tambem apontaram como motivacao para seus projetos de vida, a vontade de ajudar outras pessoas atraves da profissao que almejam praticar no futuro. Neste sentido, Damon (2009, p. 20) pondera que
"No mundo real da competicao, dos requisitos de emprego e das
responsabilidades sociais, "de que jeito--pensa o jovem--posso
encontrar algo que seja tao gratificante quanto significativo? Como
posso ir atras dos meus sonhos e evitar 'me vender' sem diminuir minhas
chances de sustentar a mim mesmo e a familia que gostaria de ter? Como
posso ganhar a vida como um membro valorizado da sociedade e fazer
diferenca no mundo?" Essas sao questoes que cedo ou tarde todo jovem
deve confrontar afim de fazer escolhas mais cruciais" (Damon, 2009, p.
20).


Referente ao exposto por Damon (2009), alguns adolescentes desta investigacao e da de Dellazzana-Zanon (2014), parecem lidar com suas possiveis inquietacoes juvenis associadas a profissao e a responsabilidade social, desejando, atraves da atividade profissional, nao so adquirir recursos para o sustento proprio, mas tambem fazer sua parte no mundo, ajudando o semelhante por meio da profissao que anseiam no futuro, indicando planos de 'vida boa' com o outro em instituicoes justas (La Taille, 2006).

Prosseguindo com a exposicao dos resultados e a discussao, outra categoria presente nas justificativas dos participantes foi a do tipo 'autocentrado com a possibilidade de expansao de si', em que o desejo de agregar conhecimento cultural e pessoal foi manifestado pelos jovens, assim como a busca pela felicidade, sabedoria e o anseio de viver uma vida com sentido, elementos que indicam o sentimento de expansao de si. Embora tal categoria tambem seja centrada em si, seus motivos sao qualitativamente diferentes dos puramente do tipo 'autocentrado', uma vez que suas justificativas se relacionam com os questionamentos "quem eu quero ser?" (La Taille, 2006, p. 46) e "que vida eu quero viver?" (p. 36).

Projetos de vida ligados ao desejo de viver uma vida que valha a pena e que possibilite a expansao de si proprio sao eticos, visto que estao relacionados a busca e pretensao de viver uma 'vida boa' que possibilite a expansao de si proprio, apontando para o reconhecimento de si, ou seja, autorrespeito e a potencialidade de inclusao do outro na busca de uma vida com sentido, pois so respeita o outro quem assim o faz consigo mesmo (La Taille, 2006). As explicacoes que apontam para o sentimento de expansao de si foram pouco frequentes nos argumentos dos superdotados desta pesquisa, mas apareceram em todos os grupos e com similar percentagem. Contrapoem-se a este dado, o estudo de Andrade et al. (2018, no prelo) com participantes surdos, em que estes manifestaram numero relevante de explicacoes com o reconhecimento de si para seus projetos, tal achado, agregado aos motivos com conexao com o outro, sugeriram que os adultos surdos exibiram, em sua maioria, projetos de vida na perspectiva da moral e etica.

Mais da metade dos motivos centrados em si com potencialidade de expansao propria relacionam-se aos projetos de 'viajar' (N= 12; 52%), como pode ser depreendido na fala de Cristovao (16 anos, justificativa para o projeto de "viajar para o exterior'): "Acho interessante, acho produtivo... no sentido de agregar conhecimento o fato de voce conhecer um pouco de cada pais, cada cultura"; e de Erica (16 anos, justificativa para o projeto de "viajarpelo Brasil'):
Porque o Brasil e muito grande e muito bonito, a gente precisa conhecer
essas coisas. E importante viajar. Quando voce viaja, voce tem uma
perspectiva totalmente diferente, voce ve outra cultura, outras
pessoas... Nao que tem que ser assim, mas viagem boa e a que te mostra
que voce pode ser uma pessoa melhor... melhor com os outros, melhor com
voce mesma, melhorar todas as suas qualidades, rever alguns defeitos.


Assim como os adolescentes com comportamentos de superdotacao desta investigacao, os participantes do estudo de Miranda e Alencar (2011) apresentaram projetos de 'viajar' que juntamente com outros projetos de menor numero, compuseram a categoria 'Outros Projetos', porem, nao se encontrou na exposicao dos resultados pelas autoras, elementos que apontassem para a expansao de si nos projetos de viajar. Miranda e Alencar (2011) mencionaram que uma participante considerou como menos importante 'viajar', demonstrando que a pouca frequencia ou ausencia de tal projecao nao teria grandes impactos para o seu ser. Embora nao tao relevantes em numero como os motivos autocentrados e conectados, as justificativas do tipo 'autocentrado com a possibilidade de expansao de si' sugerem que alguns adolescentes desta pesquisa reconhecem a necessidade de atuar no mundo, agregando conhecimento para si e para entender o outro, buscando autoconhecimento e expansao de si no mundo com potencialidade de inclusao do outro.

Apesar do exposto acima, os resultados da presente investigacao evidenciam forte presenca de explicacoes do tipo 'autocentrado'. Esse dado indica que grande parte dos projetos de vida dos adolescentes com altas habilidades desta pesquisa nao possuem a perspectiva etica. Ainda assim, existem conteudos eticos e morais nos argumentos do tipo 'conectado' e 'autocentrado com a possibilidade de expansao de si' (N= 108; 29,7%), fato que indica que os jovens deste estudo, ainda que auto-orientados e focados em seus interesses proprios e bem-estar pessoal quando falam sobre suas projecoes futuras [como os superdotados da pesquisa de Bronk et al. (2010)], possuem elementos que apontam para a potencialidade de expansao de si no mundo e de inclusao do outro em seus projetos de vida, isso com vistas a convivencia em sociedade de instituicoes justas.

No que concerne aos possiveis motivos para a predominancia de projetos de vida do tipo 'autocentrado' em jovens superdotados, Bronk et al. (2010) sugerem que tal achado pode estar relacionado ao fato de receberem educacao especializada que, implicitamente, os incentive a pensar no bem-estar e interesses pessoais. Ampliando tal visao, podemos encontrar uma das possiveis respostas sobre tal fenomeno nos estudos de Damon (2009) que afirma que o grande empecilho na busca de projetos vitais entre os jovens e a cultura imediatista. Nesse sentido, "mesclando busca de status, consumismo, inseguranca, autopromocao e valores superficiais, os agentes da atual cultura pressionam os jovens a perseguir vitorias imediatistas, em detrimento de aspiracoes duradouras" (p. 123). O autor enfatiza ainda que, no mundo competitivo de hoje, os jovens estao direcionados ao "desejo bitolado de ganho material e seguranca financeira" (p. 124).

Para encerrar esta secao, mencionamos que, na categoria do tipo 'Sociedade desconectada dos artistas', a justificativa relacionava-se ao projeto de 'contribuicoes para a sociedade', em que uma adolescente almejava, atraves da arte, contribuir para que o talento artistico fosse valorizado pela maioria das pessoas. A explicacao para tal projecao pode ser lida no trecho a seguir:
Nao digo so o meu, digo de todos no meio artistico porque conheco
pessoas que tentam vender seu desenho, tentam vender sua arte, tentam
mostrar, e as pessoas nao valorizam. Tem pessoas que fazem pintura na
tela, que as pessoas descrevem como rabiscos, e dizem que aquilo nao e
arte. Ha pessoas que sabem valorizar, mas muitas pessoas, muitas
pessoas mesmo assim, que nao sabem valorizar aquilo, acham que aquilo e
apenas para olhar, nao compensa pagar, nao compensa valorizar o
sentimento da pessoa que ela usou naquele quadro, o talento que ela
teve (Kelly, 16 anos).


Semelhantemente, alguns participantes da pesquisa de Andrade et al. (2018, no prelo) tambem indicaram explicacoes do tipo 'Sociedade desconectada' para alguns projetos de vida, porem tal desconexao estava vinculada a segregacao social sofrida pelo surdo devido sua singularidade linguistica. Justificativas desse tipo sugerem indignacao com o modo como algumas pessoas sao percebidas e tratadas pela sociedade atual, que nao acolhe e aceita aqueles com condicoes linguisticas que sao diferentes da perspectiva oralista e outros cuja profissao nao e valorizada pelo mercado de trabalho pos-moderno. Sao pessoas/profissoes com diferencas que vao de encontro com a visao imediatista, individualista, de relacionamentos frageis e descartaveis do mundo atual. Esses jovens alertam para a importancia de a sociedade respeitar a dignidade humana e a alteridade em todos os seus segmentos sociais, tendo em vista a manutencao do sujeito de direito e a boa convivencia em sociedade, elementos essenciais na busca pela 'vida boa' (La Taille, 2006).

No que diz respeito as diferencas relevantes entre os sexos em nosso estudo, encontramos que o grupo das adolescentes apresentou 59% de suas explanacoes como autocentradas, enquanto os rapazes exibiram um percentual de 80.5%, e que o grupo feminino apresentou maior porcentagem de explicacoes conectadas com o outro em seus argumentos (33%), enquanto o masculino exibiu um percentual de 13,3%. Similar aos nossos achados, D'Aurea-Tardeli (2011) em seu estudo sobre solidariedade e projeto de vida com adolescentes, encontrou que 8.11% das jovens de seu estudo e 29.89% dos meninos apontaram projetos de vida sem consideracao pelo outro, ja no quesito projetos de vida conectados, 91.89% das adolescentes e 70.11% dos rapazes pesquisados incluiram o outro em seus projetos de vida.

Quando consideramos o total de justificativas eticas (motivos conectados e do tipo 'autocentrado com a possibilidade de expansao de si) e nao eticas (explanacoes do tipo 'autocentrado') nos argumentos dos superdotados, encontramos tambem diferencas relevantes quanto aos sexos, sendo que as adolescentes apresentaram 40% de explanacoes eticas e 59% nao eticas contra 19% de motivos eticos e 80% nao eticos dos rapazes. De acordo com a pesquisa de Gilligan (1982/2003), que apontou diferencas na consideracao do outro e julgamentos morais entre os sexos, as mulheres sao mais empaticas, ligadas a sentimentos de compaixao, bem como priorizam os relacionamentos interpessoais e o cuidado com o outro.

Fato que fez a autora afirmar que homens e mulheres possuem vozes morais diferentes, sendo os primeiros voltados, principalmente, para a nocao de justica e as mulheres a etica do cuidado. No entanto, Gilligan (1982/2003, 2014) pondera que o contexto afetivo e cultural em que vivem pessoas do sexo feminino e o papel 'feminino' e 'masculino' defendido pela sociedade democratica, mas ainda patriarcal, sao os responsaveis pelas diferencas mencionadas em seus estudos. Isso posto, passaremos as consideracoes finais.

Consideracoes finais

Os resultados do presente estudo evidenciam forte presenca de projetos de vida com motivos do tipo 'autocentrado', fato que sugere que a maioria das projecoes dos participantes superdotados nao possuem a perspectiva etica, revelando projetos auto-orientados, vinculados, principalmente, a busca por um ganho material e/ou por pessoas; sucesso/ambicao profissional, ao bem-estar pessoal e ao interesse/gosto pelo estudo em geral ou determinada area academica, pelas artes e/ou pela area profissional. Os resultados podem estar relacionados com a cultura imediatista, consumista, competitiva e de valores superficiais da sociedade atual que influencia os jovens a desejarem o ganho material, sucesso pessoal e seguranca financeira (Damon, 2009).

Os conteudos eticos e morais apareceram nos projetos com justificativas do tipo 'conectado' e 'autocentrado com a possibilidade de expansao de si', mas em menor porcentagem. Apesar disso, a presenca de tais categorias nas explanacoes dos jovens deste estudo, sugere potencialidade destes de possuirem representacoes de si positivas e de se relacionarem com o outro, considerando uma sociedade mais igualitaria e com equidade.

No que diz respeito as diferencas relevantes entre os sexos, os achados indicam que o grupo feminino apresentou maior numero de justificativas eticas e menor numero de explanacoes nao eticas quando comparado com o grupo masculino. A literatura da suporte a tal achado atraves dos estudos de Gilligan (1982/2003, 2014) que apontam para diferencas na conexao com o outro e julgamentos morais entre homens e mulheres, sendo que estas ultimas tem uma preponderancia a etica do cuidado, em que sentimentos de compaixao, empatia e consideracao do outro nos relacionamentos estao presentes, e os homens vinculados, principalmente, a etica da justica. No entanto, sugerimos pesquisas futuras com maior numero de participantes, de ambos os sexos, para verificar se os nossos achados e os de Gilligan quanto as diferencas relevantes entre os sexos se mantem. Tal sugestao quanto ao numero maior de participantes aponta uma das limitacoes de nosso estudo.

Outra limitacao da nossa pesquisa foi a nao conducao da investigacao em dois diferentes periodos, com intervalo de pelo menos um ano, por causa disso, nao foi possivel conhecer possiveis mudancas, ou nao, dos tipos de projetos de vida dos superdotados e se as justificativas para tais projecoes manteriam, ou nao, em sua maioria, a perspectiva nao etica. Apesar disso, nossa investigacao, com os devidos ajustes, pode ser reproduzida com outros publicos da educacao especial, como deficientes visuais, e tambem com adolescentes indigenas, de comunidades quilombola ou jovens em tratamento de doencas cronicas (diabetes tipo 1 ou epilepsia, entre outras). Por fim, esperamos que o estudo coopere com acoes psicopedagogicas que contemplem particularidades do desenvolvimento de adolescentes, principalmente o moral, motivem a criacao de projetos de vida eticos, e considerem as virtudes morais para uma educacao pautada na moral e na etica.

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Andreia Mansk Boone Salles (2), Heloisa Moulin de Alencar (3)

Universidade Federal do Espirito Santo, Brasil

(1) Agradecemos a Fundacao de Amparo a Pesquisa e Inovacao do Espirito Santo (FAPES) e a Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior (CAPES), pelo apoio financeiro. Tambem agradecemos a Mayara Gama de Lima pelo apoio na categorizacao dos dados deste artigo.

(2) Doutora em Psicologia pelo Programa de Pos-Graduacao em Psicologia (PPGP) da Universidade Federal do Espirito Santo (UFES) e membro do Laboratorio de Psicologia da Moralidade (LAPSIM) da UFES. O presente artigo e fruto de um dos tres estudos conduzidos durante o doutoramento da primeira autora e foi orientado pela segunda autora. Endereco: Universidade Federal do Espirito Santo, Centro de Ciencias Humanas e Naturais/Programa de Pos-graduacao em Psicologia, Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitoria/ES. Brasil. CEP 29075-910. Email: andreiambsalles@gmail.com

(3) Pos-Doutora pela University of California, Berkeley. Doutora em Psicologia pela Universidade de Sao Paulo. Professora titular do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento e do Programa de Pos-graduacao em Psicologia da Universidade Federal do Espirito Santo (UFES). Coordenadora do Laboratorio de Psicologia da Moralidade (LAPSIM) da UFES. Bolsista Pesquisadora Capixaba da Fundacao de Amparo a Pesquisa e Inovacao do Espirito Santo (Fapes). Endereco: Universidade Federal do Espirito Santo, Centro de Ciencias Humanas e Naturais/Programa de Pos-graduacao em Psicologia, Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitoria/ES. Brasil. CEP 29075-910. Email: heloisa.alencar@ufes.br

Recibido: 10 de julio, 2017

Revisado: 21 de marzo, 2018

Aceptado: 26 de marzo, 2018

https://doi.org/10.18800/psico.201802.004
Tabela 1
Categorias das justificativas para os projetos de vida dos adolescentes
superdotados

Categorias                                             Geral
                                                     N     %

Autocentrado                                         253     69,7
Conectado                                             85     23,4
Autocentrado com a possibilidade de expansao de si    23      6,3
Sociedade desconectada dos artistas                    1      0,3
Dado perdido                                           1      0,3
Total                                                363    100
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Author:Salles, Andreia Mansk Boone; Moulin de Alencar, Heloisa
Publication:Psicologia
Date:Jul 1, 2018
Words:11394
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