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Produtividade e exportacao de nutrientes em beterraba cultivada com cobertura morta e adubacao organica.

Yield and nutrient export of sugar beet under mulching and organic fertilization

INTRODUCAO

A beterraba (Beta vulgaris) e uma hortalica que vem ganhando espaco e importancia economica no Brasil sendo, atualmente, uma das dez principais olericolas produzidas no Pais. As raizes se caracterizam pelo sabor adocicado e coloracao vermelha, devido a presenca de betalainas, substancia antioxidante imprescindivel na dieta humana (Kanner et al., 2001), alem do alto valor nutricional e conteudo de vitaminas e minerais, como K, Na, Fe, Cu e Zn (Ferreira & Tivelli, 1990). Ela se destaca como uma das hortalicas mais ricas em ferro, tanto nas raizes quanto nas folhas. As plantas apresentam alto potencial de producao, atingindo rendimentos entre 25 a 40 t [ha.sup.-1] de raizes (Horta et al., 2004; Grangeiro et al., 2007; Carvalho & Guzzo, 2008).

Em areas de horticultura o solo e constantemente preparado para permitir o estabelecimento rapido das plantas e reduzir a competicao de plantas daninhas. O uso da cobertura morta envolvendo diferentes residuos organicos traz varios beneficios aos sistemas de producao, especialmente no que diz respeito ao manejo do solo e das plantas (Pereira et al., 2000; Resende et al., 2005). Dentre as vantagens decorrentes de sua utilizacao pode-se destacar: retencao de umidade, melhoria da estrutura e menor compactacao do solo (Correa, 2002), prevencao a erosao (Smolikowski et al., 2001) e aporte de materia organica e nutrientes (Cadavid et al., 1998). Na cultura da beterraba a cobertura morta e pouco estudada; entretanto, e uma pratica promissora, sobretudo em sistemas de cultivo organico, como forma de controlar a emergencia de plantas daninhas, em razao das restricoes de uso de produtos quimicos (Resende et al., 2005). Entre os materiais organicos usados pode-se citar a palha de cafe (Sediyama et al., 2010), palha de arroz (Resende et al., 2005), bagaco de cana-de-acucar triturado (Sediyama et al., 2010), capim gordura seco e serragem (Tozani et al., 2006) considerada pratica de baixo custo e de facil execucao (Resende et al., 2005).

Considerando-se o potencial da atividade suinicola e a grande disponibilidade de dejeto de suinos na regiao do Vale do Piranga, na Zona da Mata mineira, formas de utilizacao desses residuos tem sido investigadas como alternativa economica para o produtor rural, na melhoria dos sistemas de producao, sem comprometer o meio ambiente, especialmente quando esses sao devidamente tratados (Sediyama et al., 2008). Uma das maneiras de se tratar a agua residuaria, em especial nas pequenas suinoculturas, e por meio de lagoas de decantacao que se separam as fases solida e liquida. A fase solida (lodo) se acumula no fundo da lagoa mesmo que, apos longo tempo de permanencia seja retirado; depois de secado ou compostado pode ser usado como fertilizante organico. A fase liquida e tratada em sistema de lagoas em serie, para reducao da carga e retorno aos mananciais de agua.

A beterraba e considerada cultura esgotante do solo em razao da consideravel remocao de massa verde do campo por ocasiao das colheitas, visto que parte da producao e comercializada em macos com folhas, o que valoriza o produto mas retira da area todo o resto da cultura. Outra parte das raizes e embalada em caixas tipo K, sem a folhagem. Assim, o conhecimento do balanco de nutrientes, traduzido pela diferenca entre a entrada dos elementos via adubacao e a sua exportacao nos produtos colhidos, e essencial para se manejar a adubacao ao longo dos anos (Salgado et al., 1998).

Sao raras, na literatura, informacoes sobre a exigencia nutricional da beterraba, sendo oportuno o conhecimento quanto ao total de nutrientes extraidos pela cultura, para definicao de programas de adubacao. Haag & Minami (1987) verificaram, trabalhando com a cultivar Early Wonder, aumentos na producao de massa seca de parte aerea e raizes, ate o final do ciclo, 80 dias apos a semeadura. Para uma populacao de 330.000 plantas [ha.sup.-1] a quantidade total extraida de nutrientes, em kg [ha.sup.-1], foi de 30 de N; 8 de P; 75 de K; 2 de Ca e 4 de Mg, enquanto Grangeiro et al. (2007) constataram, para a mesma cultivar e populacao semelhante, as quantidades totais em kg [ha.sup.-1]: 88 de N; 6,1 de P; 93,2 de K; 12,1 de Ca e 16,8 de Mg.

E importante considerar que a elevacao dos teores de metais pesados nos alimentos vem sendo associada a aplicacao de corretivos e fertilizantes, uso de agua contaminada ou de produtos como lodo de esgoto, compostos de lixo urbano e residuos diversos de industria ou mineracao. Uma vez nos solos agricolas, esses elementos podem ser absorvidos pelas plantas, que fazem parte da alimentacao humana ou animal. A legislacao brasileira, seja a ambiental ou a referente aos aspectos sanitarios alimentares, e pouco contundente com relacao aos limites permitidos de metais pesados em solos, aguas e alimentos. Existe grande carencia de dados nacionais que subsidiem os legisladores e orgaos ambientais sendo, muitas vezes, utilizados valores limites verificados e utilizados em outros paises (Fernandes et al., 2007).

Sampaio et al. (2008) verificaram aumento nos teores de Zn e Cu com a quantidade de argila do solo e na massa fresca e seca de raizes de beterraba com incremento na dose de composto de lixo urbano, que atingiu valores maximos com 90 t [ha.sup.-1]. Os teores de metais pesados nas raizes diminuiram com o aumento das doses de composto aplicadas devido, possivelmente, ao incremento de materia organica do solo que atua como imobilizador e regulador da disponibilidade de metais pesados para as plantas.

Considerando o sistema de sucessao das hortalicas devido aos ciclos relativamente curtos e a demanda por grandes quantidades de fertilizantes organicos, tornam-se importantes estudos que contemplem a qualidade e a quantidade de adubos organicos aplicados. Objetivou-se, com este trabalho, avaliar o efeito da cobertura do solo com palha de cafe ou bagaco de cana-de-acucar e doses de lodo de lagoa de decantacao de agua residuaria de suinocultura na produtividade e na exportacao de nutrientes, pela parte aerea e raizes de beterraba.

MATERIAL E METODOS

O experimento foi conduzido na Fazenda Experimental Vale do Piranga pertencente a EPAMIG, Zona da Mata, em Oratorios, MG, no periodo de 07 de agosto a 09 de novembro de 2008. As coordenadas geograficas do local de execucao do experimento sao: latitude 20[grados] 30'S, 43[grados]00'O e altitude 500 m. As variaveis metereologicas sao: temperatura media maxima anual de 21,8[grados]C e minima anual de 19,5[grados]C e a precipitacao media anual de 1.250 mm. Segundo Koppen, o clima da regiao varia do tipo Cwa, tropical umido a Aw, semi-umido de veroes quentes e vegetacao natural de floresta tropical semidecidual ou ombrofila mista (Cunha et al., 2000).

O Argissolo Vermelho-Amarelo cambico, fase terraco apresentou, na camada de 0 a 20 cm, as seguintes caracteristicas: pH (agua 1:2,5) = 6,0; materia organica = 16 g [kg.sup.-1]; P = 17,2 mg [dm.sup.-3]; K = 178 mg [dm.sup.-3] e expressos em cmolc [dm.sup.-3], [Ca.sup.2+] = 2,9; [Mg.sup.2+] = 0,9; [Al.sup.3+] = 0,0; CTC(t) = 4,26; CTC(T) = 6,90, V = 62% e P-rem = 35,6 mg [L.sup.-1].

O delineamento experimental adotado foi em blocos casualizados e os tratamentos foram distribuidos em parcelas subdivididas com quatro repeticoes e 400 plantas por parcela. Nas parcelas foram dispostos tres tipos de cobertura de solo: bagaco de cana-de-acucar, palha de cafe e sem cobertura. Nas subparcelas foram aplicadas cinco doses (0; 10; 20; 40 e 60 t [ha.sup.-1]) de lodo de lagoa de decantacao de aguas residuarias de suinocultura. As parcelas foram constituidas de canteiros com 1 m de largura e 10 m de comprimento. Cada subparcela (2 x 1 m) foi composta de quatro fileiras de plantas no espacamento de 0,25 x 0,10 m, sendo a area util de 0,8 [m.sup.2] central. Apos o preparo dos canteiros as doses de lodo foram aplicadas a lanco, em area total, e incorporadas, com enxada, na profundidade de 0 a 15 cm; depois, a superficie do canteiro foi coberta com uma camada de aproximadamente 2 cm de espessura, equivalente a 10 t [ha.sup.-1] de bagaco de cana-de-acucar triturado ou palha de cafe. As caracteristicas dos residuos organicos e do lodo se encontram na Tabela 1.

As mudas de beterraba, cultivar Early Wonder, foram produzidas em bandejas de poliestireno expandido com 200 celulas, preenchidas com substrato produzido a base de vermicomposto de esterco bovino e transplantadas com 20 dias de idade e 21 dias apos a aplicacao do lodo. A irrigacao foi realizada por microaspersao, com turno de rega de dois dias; logo apos o transplante das mudas observou-se o ataque da lagarta-rosca (Agrotis ipsilon), em alguns tratamentos, cujo controle foi feito com aplicacao do inseticida biologico Dipel.

A colheita foi realizada manualmente aos 70 dias apos o transplantio das mudas, quando a maioria das raizes tuberosas apresentava, visualmente, o tamanho preferido para o mercado, ou seja, raizes entre 200 a 300 g. Quando da colheita avaliouse, na area util, a altura media de 10 plantas, contou-se o numero de plantas por subparcela e se pesou a massa fresca total das raizes e da parte aerea. As raizes foram classificadas, quanto ao calibre, em comercial (classes 50, 90 e 120 mm) e nao comercial (refugo, raizes com defeitos graves e ocorrencia de praga), de acordo com Hortbrasil (2006). As classes comerciais: classe 50 (maior ou igual a 50 e < 90 mm); classe 90 (maior ou igual a 90 e < 120 mm) e classe 120 (> 120 mm) e refugo (< 50 mm); calculouse, tambem, a massa fresca unitaria de raizes comerciais.

Amostras de raizes comerciais de cada tratamento foram lavadas e secadas ao ar, cortadas ao meio e raladas em ralador inox, para determinacao do teor de solidos soluveis (Brix) no extrato, por meio de um refratometro digital, Atago, modelo PR101 (escala 0-45%), ajustado, em temperatura de 25[grados]C. Amostras da parte aerea e das raizes foram coletadas, pesadas, colocadas em sacos de papel e levadas para secagem em estufa com circulacao de ar forcada, a temperatura de 65[grados]C, por 72 h. As amostras de raiz foram lavadas previamente, secadas ao ar e cortadas em cubos para facilitar a moagem do material seco. Apos a determinacao da massa seca da parte aerea (peciolo e limbo das folhas) e das raizes, os materiais foram moidos em moinho tipo Willey, colocados em saquinhos de papel e levados ao laboratorio para analise de N, P, K, Ca, Mg, S, Fe, Cu, Zn, Mn e B. A quantificacao dos nutrientes foi feita nos extratos obtidos pela digestao nitrico-perclorica (P, K, Ca, Mg, S, Fe, Cu, Zn e Mn), sendo o P pelo metodo da vitamina C; o K, pela fotometria de chama; Ca, Mg, Fe, Cu, Zn e Mn por espectrofotometria de absorcao atomica; o N foi quantificado pelo metodo semimicro Kjeldahl e o boro por digestao seca, por meio de incineracao da amostra em mufla eletrica a 550[grados]C, utilizando-se o metodo da azometina-H, conforme descrito em Malavolta et al. (1997). Com base na massa seca da parte aerea e das raizes das plantas por hectare e nos teores de nutrientes, calculou-se seu acumulo nessas fracoes.

Os dados obtidos foram submetidos a analise de variancia (teste de F) e de regressao, quando significativos; a comparacao entre medias foi feita pelo teste de Tukey (P < 0,05) utilizandose o software SAEG.

RESULTADOS E DISCUSSAO

Nao houve interacao para cobertura morta nem doses de lodo para as caracteristicas avaliadas, mas ocorreu efeito para tipos de cobertura morta. A cobertura com palha de cafe apresentou menor numero de plantas de beterraba (26,05) na subparcela (0,8 [m.sup.2]), em relacao ao tratamento sem cobertura morta (28,65), porem ambos nao diferiram do tratamento com bagaco de cana-de-acucar (Tabela 2). Este fato pode estar relacionado com o dano causado pela lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) no tratamento com palha de cafe, logo apos o transplantio das mudas, com perda de plantas e necessidade de replantio devido, provavelmente, a umidade no solo, condicao preferida pela lagarta rosca, alem de maior protecao dos insetos pela barreira fisica ao inseticida Dipel. Reducao significativa no estande de plantas em razao da ocorrencia de lagarta rosca, tambem foi constatada no sistema de plantio direto, em regioes produtoras de feijao, em virtude da maior cobertura do solo pela palhada (Quintela, 2005).

A cobertura com bagaco de cana-de-acucar proporcionou menor altura de plantas em relacao a cobertura com palha de cafe e ausencia de cobertura do solo devido, sem duvida, a lenta decomposicao do material e a menor quantidade de nutrientes disponiveis para a cultura. A cobertura morta com materiais organicos com alta relacao C/N pode prejudicar o desenvolvimento das plantas quanto a deficiencia de N no solo. A baixa concentracao de N dos residuos vegetais (relacao C/N alta) promove a imobilizacao do N mineral disponivel no solo para atender a demanda dos micro-organismos no processo de decomposicao, comprometendo a nutricao nitrogenada das lavouras (Robinson, 1988; Calvo et al., 2010).

Maior producao de massa fresca da parte aerea foi obtida no tratamento com palha de cafe em relacao ao bagaco de cana-de-acucar e solo sem cobertura, enquanto a porcentagem de massa seca de parte aerea nao diferiu entre os tipos de cobertura morta (Tabela 2).

A maior massa unitaria media de raiz (293,85 g) ocorreu no tratamento com palha de cafe em relacao ao tratamento sem cobertura, porem sem diferir do tratamento com bagaco de canade-acucar (Tabela 2). Nao houve diferenca estatistica entre tratamentos para as diferentes classes de raiz. Maior concentracao de raizes comerciais ocorreu na classe compreendida entre 50 a 90 mm (85,4%), seguida da classe 90 a 120 mm (14,6%) e nao houve producao de raizes maiores que 120 mm.

Obteve-se maior produtividade de raizes comerciais (38,66 t [ha.sup.-1]) com palha de cafe, diferindo significativamente da cobertura com bagaco de cana-de-acucar e do tratamento sem cobertura (Tabela 2). Esses resultados podem ser atribuidos ao maior fornecimento de nutrientes pela palha de cafe em decorrencia de sua composicao quimica, maior facilidade de decomposicao pela menor relacao C/N (Tabela 1). Tal hipotese pode ser sustentada pela maior producao de massa fresca da parte aerea, maior massa unitaria de raiz e pela maior produtividade de raizes comerciais nos tratamentos com palha de cafe em relacao aos tratamentos sem cobertura morta e cobertura com bagaco de cana-de-acucar. A maior porcentagem de massa seca de raizes comerciais foi obtida no tratamento sem cobertura morta, ou seja, no tratamento com menor massa unitaria de raizes (Tabela 2); assim, raizes menores apresentaram mais massa seca.

As produtividades obtidas se mantiveram entre 30 a 40 t [ha.sup.-1], em que todos os tipos de cobertura apresentaram altas producoes de raizes com qualidade comercial e dentro da media brasileira (20 a 35 t [ha.sup.-1]). Esses resultados se diferenciam daqueles obtidos por Tozani et al. (2006), que avaliaram o controle de plantas daninhas em beterraba com cobertura morta de capim gordura e Jaragua, nas quantidades de 2, 4 e 6 kg [m.sup.-2] aplicadas apos a emergencia, capim gordura (4 kg [m.sup.-2]) apos a semeadura, alem do plastico preto, controle quimico (herbicida EPTC) e testemunhas com e sem capina, e verificaram que todos os tratamentos reduziram o peso unitario e a producao de raizes em relacao a testemunha com capina manual, que produziu 15,1 t [ha.sup.-1]. A baixa produtividade de raizes encontrada por Tozani et al. (2006), pode ser atribuida as condicoes do solo e do local de plantio.

Apesar de praticamente nao haver pesquisas envolvendo cobertura de solo no cultivo de beterraba, de acordo com os resultados obtidos neste trabalho e em outros, como na cenoura (Resende et al., 2005) e na alface (Carvalho et al., 2005), o uso da cobertura morta pode ser uma estrategia interessante para a producao da cultura, especialmente na agricultura familiar, porem se deve atentar para a espessura da camada, sobretudo quando se faz semeadura diretamente nos canteiros, e pelo tipo de cobertura morta, pois materiais organicos de alta relacao C/N podem prejudicar a cultura se nao forem tomados alguns cuidados, como adicao de N, por via organica ou mineral. Puiatti et al. (1992) estudaram, no taro 'Chines', a viabilidade do uso de bagaco de cana-de-acucar e capim gordura, empregados em diferentes sistemas (em cobertura, sulco de plantio e sulco mais cobertura) associados ou nao ao N, e concluiram que o uso desses residuos proporcionou aumento significativo na producao de rizomas, quando associados a aplicacao de N.

Cobertura morta com residuo organico de alta relacao C/N pode causar imobilizacao temporaria durante o processo de decomposicao (Calvo et al., 2010). Acredita-se que, neste contexto, resultados mais promissores quanto ao controle de plantas daninhas e produtividade de raizes de beterraba, poderiam ser conseguidos com a mistura da palha de cafe e bagaco de cana-de-acucar (Sediyama et al., 2010). Resende et al. (2005) tambem verificaram vantagem na cobertura morta para o cultivo de verao da cenoura, reduzindo a temperatura em ate 3,5[grados]C e aumentando a retencao de umidade do solo em ate 2,3% em relacao ao controle, com melhor desenvolvimento das plantas.

Constatou-se correlacao positiva entre massa fresca de parte aerea e massa fresca de raizes (comercial + refugo) para os tratamentos sem cobertura (r = 0,82), palha de cafe (r = 0,95) e bagaco de cana-de-acucar (r = 0,89). A maior correlacao massa fresca de parte aerea e massa fresca de raizes obtida no tratamento com palha de cafe se deve a maior altura das plantas e a maior producao de massa fresca de plantas, ou seja, maior parte aerea implica em maior area foliar e producao de fotoassimilados, consequencia da melhor nutricao das plantas neste tratamento.

Nao houve efeito de tratamentos para o teor de solidos soluveis, obtendo-se valor medio de 8,61[grados]Brix, valor este semelhante aqueles normalmente encontrados para a cultivar Early Wonder (Sanches et al., 2008; Marques et al., 2010). De modo geral, o potassio influencia os teores de solidos soluveis, com o aumento nos teores de acucar nas raizes de beterraba. Apesar do teor de K estar relativamente alto no solo e tambem na palha de cafe (Tabela 1) ele nao foi suficiente para aumentar a concentracao de solidos soluveis nas raizes. De acordo com Sanches et al. (2008), nem sempre maior disponibilidade de K vai promover mudancas no teor de solidos soluveis nas raizes de beterraba, seja pelo tipo de solo, clima ou cultivar, seja pela capacidade de utilizacao deste nutriente pelas plantas. Deste modo, o teor de solidos soluveis parece ser uma caracteristica inerente a cada cultivar, uma vez que Marques et al. (2010) nao encontraram diferencas no teor de solidos soluveis nem no pH das raizes de beterraba cultivada com diferentes doses de esterco bovino.

Houve interacao entre tipos de cobertura e doses de lodo de lagoa para a producao de raizes nao comercial. A cobertura com bagaco de cana-de-acucar apresentou maior producao na dose de 20 t [ha.sup.-1] de lodo e, no tratamento com palha de cafe, as maiores producoes de raizes nao comerciais ocorreram nas doses de 40 e 60 t [ha.sup.-1] de lodo de lagoa. Nos demais tratamentos nao houve diferencas para dose de lodo nem tipo de cobertura (Tabela 3). Apesar de nao haver diferencas para doses de lodo, a cobertura do solo com palha de cafe proporcionou maior massa fresca de parte aerea e de raizes comerciais (Tabela 2); assim, a maior producao de raizes nao comerciais (refugo) pode estar relacionada a maior producao total de raizes, inclusive de raizes com defeitos graves ou pragas, que tambem foram incluidas no refugo.

Comumente, a falta de resposta para doses de lodo pode estar relacionada a baixa concentracao de N no lodo (Tabela 1) e ao teor de materia organica no solo. Por ocasiao da colheita, 70 dias apos o transplante, o acumulo de massa seca das raizes correspondeu a 74,9% da massa seca da planta.

Visto que nao houve diferencas entre doses de lodo para produtividade de massa fresca de parte aerea e de raizes de beterraba, as analises de nutrientes em tecidos de parte aerea e raizes e o estudo de exportacao foram realizados e quantificados apenas na maior dose do lodo (60 t [ha.sup.-1]). Neste tratamento observou-se maior acumulo de Ca, Mg e S na parte aerea das plantas enquanto N, P e K se acumularam, preferencialmente, nas raizes. O acumulo de Fe e Mn foi maior na parte aerea e Zn, Cu e B foi maior nas raizes (Tabela 4).

Ressalta-se a concentracao de Cu e Zn nos residuos organicos e nas plantas (folhas e raizes), pelo fato de serem micronutrientes do grupo dos metais, com importante papel na nutricao das plantas mas que, em altas concentracoes, sao considerados nocivos e cujas concentracoes sao influenciadas pela textura e pelo teor de materia organica do solo (Sampaio et al., 2008). Quando o solo e fertilizado com adubos organicos ricos em Cu e Zn, a liberacao desses nutrientes ocorre a medida em que a materia organica e decomposta e as plantas podem absorver esses nutrientes alem do limite permitido para o consumo, especialmente se doses maiores de adubo organico forem utilizadas ou aplicacoes sucessivas forem feitas (Mesquita Filho et al., 2002).

No Brasil nao existe, ainda, uma legislacao federal que regulamenta a aplicacao de lodo de esgoto ou lodo de lagoa de aguas residuarias na agricultura. Os estados de Sao Paulo e Parana definiram legislacoes para orientar o uso do lodo de esgoto, para as condicoes brasileiras (CETESB, 1999), cujas concentracoes maximas de Cu e Zn permitidas para uso agricola nesses Estados sao, respectivamente, 4300 e 7500 mg [kg.sup.-1] e 1000 e 2500 mg [kg.sup.-1] na materia seca. De acordo com a legislacao, os teores de Cu (573 mg [kg.sup.-1]) e Zn (1359 mg [kg.sup.-1]) encontrados no lodo da lagoa de agua residuaria da suinocultura, estao abaixo do limite tolerado.

Considerando a taxa anual maxima de aplicacao do lodo de esgoto ao solo em funcao do conteudo em metais pesados, e a carga maxima de acumulo de metais ao solo em funcao de alocacoes sucessivas do residuo a CETESB (1999) preveem-se os seguintes limites 75 e 140 kg [ha.sup.-1] [ano.sup.-1] e 1500 e 2800 kg [ha.sup.-1], para Cu e Zn, respectivamente. Desta forma, e importante controlar a dosagem e a frequencia de aplicacao, para nao exceder a quantidade acumulada no solo uma vez que, nas condicoes deste estudo, a maior dose utilizada foi 60 t [ha.sup.-1] do lodo, que forneceu cerca de 34,4 kg [ha.sup.-1] de Cu e 81,5 kg [ha.sup.-1] de Zn.

Em geral, o lodo de lagoa de decantacao de aguas residuarias da suinocultura nao e usado na producao de hortalicas. Verificou-se, no entanto, que com uma unica aplicacao de 60 t [ha.sup.-1] do lodo os teores de nutrientes encontrados nas folhas e raizes de beterraba nao extrapolaram os limites permitidos para consumo humano, especialmente para Cu (14,3 mg [kg.sup.-1]) e Zn (107,1 mg [kg.sup.-1]) nas folhas e Cu (9,3 mg [kg.sup.-1]) e Zn (46 mg [kg.sup.-1]) nas raizes, conforme estabelecido pela legislacao brasileira (ABIA, 1985). Os sistemas de producao que visam ao uso de residuos organicos, como palhada e esterco de animais, podem economizar fertilizantes como P, K, Ca, Mg e micronutrientes, presentes nesses materiais; porem, considerando-se o ciclo relativamente curto das olericolas e a frequencia das aplicacoes, doses seguras ou adequadas devem ser recomendadas para evitar acumulo de metais pesados nos solos, nos alimentos e na agua.

A aplicacao do lodo, sabidamente rico em Cu (573 mg [kg.sup.-1]) e Zn (1359 mg [kg.sup.-1]) proporcionou, na maior dose aplicada (60 t [ha.sup.-1]), exportacao media de 74,3 e 371,32 g [kg.sup.-1] nas raizes de beterraba, respectivamente (Tabela 4). A quantidade total de nutrientes exportados pela parte aerea e raizes de beterraba foi maior nos tratamentos com cobertura morta, a excecao do Fe, que foi maior na testemunha sem cobertura (Tabela 4), devido, talvez, as melhores condicoes do solo com cobertura morta, favorecendo a absorcao dos nutrientes pelas raizes.

O Fe foi o micronutriente mais exportado, sobretudo pela parte aerea (folhas + peciolos), em consequencia da alta concentracao no lodo aliado ao fato da beterraba ser uma das hortalicas mais acumuladoras de Fe, tanto nas raizes quanto nas folhas (Ferreira & Tivelli, 1990). Normalmente, as folhas apresentam maior concentracao em relacao as raizes; desta forma, folhas e peciolos devem ser aproveitados na alimentacao pois, alem de conter vitamina A, possui otima quantidade de fibras e minerais.

Em relacao a media dos tres tipos de cobertura do solo, populacao de 400.000 plantas [ha.sup.-1] e produtividade media de 34,22 t [ha.sup.-1], as quantidades de N, P, K, Ca, Mg e S exportadas pelas raizes foram 140; 24; 180; 8, 17 e 5 kg [ha.sup.-1] e para Zn, Fe, Mn, Cu e B foram 371, 435, 320, 74 e 250 g [ha.sup.-1], respectivamente. Os valores medios de N, P e K exportados pelas raizes de beterraba foram superiores aos encontrados por Grangeiro et al. (2007) para a mesma cultivar e populacao de plantas (88 de N, 6,1 de P, 93,2 de K, 12,1 de Ca e 16,8 de Mg, em kg [ha.sup.-1] exportados pelas raizes). Apesar dessas diferencas os resultados fornecem informacoes importantes para o manejo da adubacao, em termos dos nutrientes requeridos pelas plantas, uma vez que alguns fatores, como solo, variedade, clima e populacao de plantas, entre outros, podem alterar a absorcao e a exportacao de nutrientes.

CONCLUSOES

1. A cobertura morta com palha de cafe proporcionou maior massa unitaria de raiz e maior produtividade de raizes comerciais.

2. Os nutrientes mais exportados pela parte aerea das plantas, foram Ca, Mg e S e, pelas raizes, N, P e K.

3. A ordem de exportacao dos macronutrientes foi K > N > Ca > Mg > P > S e dos micronutrientes, Fe > Mn > Zn > B > Cu.

AGRADECIMENTOS

A Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMiG) pelo auxilio financeiro do Programa Pesquisador Mineiro -- PPM, e pelas bolsas BIPDT e PDJ e ao CNPq, pela bolsa de produtividade em pesquisa.

LITERATURA CITADA

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Maria A. N. Sediyama (1), Marlei R. Santos (1), Sanzio M. Vidigal (1) & Luis T. Salgado (1)

(1) EPAMIG, Zona da Mata, Vila Gianetti, casa 46, Campus da UFV, CP 216, CEP 36570-000, Vicosa, MG. Fone: (31) 3899-5223, Fax: (31) 3899-5224.

E-mail: marians@epamig.ufv.br; marleirs@yahoo.com.br; sanziomv@epamig.br; lsalgado@epamig.ufv.br
Tabela 1. Caracteristicas quimicas e fisicas da palha de
cafe, do bagaco de cana-de-acucar e do lodo de lagoa de
decantacao de aguas residuarias de suinocultura

Caracteristicas               Palha      Bagaco de        Lodo
                             de cafe   cana-de-acucar   de lagoa

N (g [kg.sup.-1])             23,50          2,00          9,00
P "                            1,30          0,40         42,00
K "                           48,00          1,60          2,40
Ca "                          10,80          1,70        132,00
Mg "                           1,20          0,20          4,20
S "                            1,20          0,10          4,40
Zn (mg [kg.sup.-1])           31,00          9,00       1359,00
Fe "                         925,00       1082,00       6187,00
Mn "                         139,00         73,00       1364,00
Cu "                          27,00          1,00        573,00
B "                           22,40         13,10         12,00
Densidade (kg [dm.sup.-3])     0,12          0,05          0,82
Umidade (%)                   10,00          9,80         38,20
C/N                           11,50        132,00          2,42
pH                             6,70          5,90          7,00

Tabela 2. Numero de plantas por subparcela (NP) *, altura media de
plantas (AP), massa fresca por planta por subparcela (MFPA), massa
seca da parte aerea (MSPA), massa unitaria da raiz (MUR),
produtividade de raizes comerciais (PRC) e massa seca de raizes (MSR)
de beterraba cultivada com tres tipos de cobertura do solo e cinco
doses de lodo de lagoa de decantacao de aguas residuarias de
suinocultura

Cobertura           NP        AP             MF PA           MSPA
                   (ud)      (cm)     (g [planta.sup.-1])    (%)

Sem cobertura    28,65 a    50,13 a         80,89 b         8,52 a
Palha de cafe    26,05 b    50,08 a        102,90 a         8,11 a
Bagaco de cana   27,00 ab   46,19 b         84,59 b         8,49 a
Medias           27,23      48,80           89,46           8,37

CV (%)           10,02       5,59           17,33           6,55

Cobertura           MUR            PRC           MSR
                    (g)      (t [ha,sup.-1])     (%)

Sem cobertura    207,33 b        32,15 b       14,18 a
Palha de cafe    293,85 a        38,66 a       12,61 b
Bagaco de cana   233,85 ab       31,84 b       13,13 b
Medias           245,01          34,22         13,30

CV (%)            34,47          19,70         8,80

Me dias seguidas da mesma letra minuscula nao diferem entre si a 5%
de probabilidade, pelo teste Tukey.

* A area util da subparcela e 0,8 [m.sup.2]

Tabela 3. Producao de raizes nao comerciais de beterraba cultivada em
tres tipos de cobertura do solo e cinco doses de lodo de lagoa de
decantacao de aguas residuarias de suinocultura

                       Doses de lodo (t [ha.sup.-1])

Cobertura          0       10        20        40       60     Medias

Sem cobertura   5,19 aA  4,47 aA   6,25 bA   4,14 bA  2,94 bA   4,60
Palha de cafe   6,38 aB  5,78 aB   3,02 bB  13,84 aA  6,92 aB   7,20
Bagaco de cana  4,30 aB  4,30 aB  10,09 aA   3,06 bB  4,80 bB   5,31

Medias           5,29     4,85      6,45      7,03     4,89

C.V. (%)                           63, 84

Medias seguidas da mesma letra, maiuscula nas linhas e minuscula na
coluna, nao diferem entre si a 5% de probabilidade, pelo teste Tukey

Tabela 4. Exportacao de nutrientes pela parte aerea e raiz de
beterraba com aplicacao da dose de 60 t [ha.sup.-1] de lodo de lagoa
de decantacao de agua residuaria de suinocultura e tres tipos de
cobertura do solo, palha de cafe (PC), bagaco de cana-de-acucar (BC)
e sem cobertura morta (SC)

                     Parte Aerea                     Raiz

Nutrientes     PC        BC        SC        PC       BC       SC

                                 kg [ha.sup.-1]

N              73,86     77,94     67,60   149,46   143,63   125,78
P               9,90     11,02      9,66    25,45    24,68    21,54
K             108,60    100,79     90,89   182,17   202,61   156,92
Ca             43,22     37,39     28,43     8,04     7,72     8,13
Mg             23,14     20,88     16,35    18,14    17,97    14,74
S               7,16      7,15      6,28     5,66     5,09     3,47

                                  g [ha.sup.-1]

Zn            271,65    309,71    260,26   384,99   357,61   371,38
Fe           2465,56   2112,17   3135,66   423,01   528,50   353,66
Mn            679,34    598,28    522,13   336,65   304,54   317,77
Cu             36,30     36,47     39,74    81,18    70,24    71,48
B             143,24    121,43    132,48   288,54   246,40   213,63
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Author:Sediyama, Maria A.N.; Santos, Marlei R.; Vidigal, Sanzio M.; Salgado, Luis T.
Publication:Revista Brasileira de Engenharia Agricola e Ambiental
Date:Sep 1, 2011
Words:6830
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