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Production of brandy from cassava starch industry waste/Producao de aguardente a partir de residuo de fecularia de mandioca/Produccion de aguardiente a partir de residuos de la industria de yuca.

SUMMARY

There are few studies with the use of agro-industrial waste in human food, as raw material for the production of products with higher added value. The aim of this work was to produce brandy from cassava peel, through the processes of enzymatic hydrolysis using commercial enzymes (a-amylase, amyloglucosidase and xylanase), with the aid of the alcoholic fermentation of the yeast Saccharomyces cerevisiae and distillation. The physical-chemical and sensory characteristics of the brandy produced were determined. The use of cassava waste was ad equate in all processes involved, reaching an alcohol content of 43[degrees]GL, 4.3 pH and titratable acidity of 0.0029g/100ml. These results are within the standards required by the Brazilian legislation for brandy. The scores obtained for appearance and aroma evaluation were 6.2 and 8.18, respectively. The results show that the processes involved in producing brandy from cassava waste were satisfactory for the formulation of a product with higher quality and added value.

RESUMO

Sao escassos os trabalhos com a utilizacao de residuos agroindustriais como materia prima para a obtencao de produtos com maior valor agregado na alimentacao humana. O objetivo deste trabalho foi produzir aguardente a partir da casca de mandioca, pelos processos de hidrolise enzimatica com [alpha]-amilase, amiloglucosidase e xilanase, fermentacao alcoolica com Saccharomyces cerevisiae e destilacao. Foram determinadas as caracteristicas fisico-quimicas e sensoriais da aguardente produzida. A utilizacao dos residuos da mandioca se mostrou adequada nos processos envolvidos, alcancando teor alcoolico de 43[degrees]GL, pH de 4,3 e acidez titulavel de 0,0029g/100ml. Tais resultados apresentaram-se dentro dos padroes exigidos pela legislacao brasileira para aguardentes. Os escores medios obtidos para aroma e aparencia foram 6,2 e 8,18 respectivamente. Os resultados mostram que os processos envolvidos na obtencao da aguardente de residuos de mandioca foram satisfatorios para a formulacao de um produto com maior qualidade e valor agregado.

PALAVRAS-CHAVE / Analise Sensorial / Destilacao / Fermentacao / Hidrolise Enzimatica / Manihot esculenta Crantz /

RESUMEN

Pocas son las investigaciones que buscan la utilizacion de residuos agroindustriales como materia prima para la obtecion de productos con mayor valor anadido en la alimentacion humana. El objetivo del trabajo fue producir aguardiente a partir de la cascara de la yuca por procesos de hidrolisis enzimatica con a-amilasa, amiloglucosidasa y xilanasa, fermentacion alcoholica con Saccharomyces cerevisiae y destilacion. Las caracteristicas fisicoquimicas y sensoriales del produto fueron determinadas. El uso de los residuos de la yuca como materia prima para la produccion de aguardiente se mostro adecuado en los procesos involucrados, con resultados de 43[degrees]GL, pH 4,3 y acidez titulable 0,0029g/100ml. Estos resultados estan dentro de los establecidos por la legislacion brasilena de aguardiente. Los valores medios obtenidos em La evaluacion de aroma y apariencia fueron 6,2 y 8,18 respectivamente. Los resultados muestran que los procesos involucrados en la obtencion de la aguardiente a partir de residuo de yuca fueron satisfactorios para la formulacion de un producto de mayor calidad y valor anadido.

Introducao

No Brasil sao produzidas grandes quantidades de residuos agricolas e agroindustriais. Neste contexto se enquadram as agroindustrias envolvidas na industrializacao da mandioca para obtencao de farinha ou fecula (Chiste et al., 2007). Esses residuos vem se tornando um problema ambiental, visto que a maioria deles e descartada diretamente no ambiente sem nenhum tratamento adequado, causando serio impacto ambiental.

As cascas de mandioca provenientes de residuos de fecularia sao ricas em carboidratos e fibras (Lacerda et al. 2009), podendo ser utilizadas para fins alimenticios (Rodrigues, 2010; Vilhalva et al., 2011, 2012; Fiorda et al., 2013; Souto, 2011; Souza et al., 2013). O amido e o principal constituinte da raiz. Na fecula de mandioca aproximadamente 18-19% dos granulos de amido se constituem de amilose e 81-82% de amilopectina. A estrutura dos granulos de amido, quando submetida a aquecimento acima de 60[degrees]C em excesso de agua, sofre uma transicao chamada de gelatinizacao. O inchamento dos granulos e a concomitante solubilizacao da amilose e amilopectina induzem a gradual perda da integridade granular com a geracao de uma pasta viscosa (Franco et al., 2002).

Este fato facilita a hidrolise enzimatica do amido (sacarificacao), um processo biologico que se da pela acao de enzimas, principalmente as amiloliticas. As [alpha]-amilases (endoamilases) rompem as ligacoes [alpha]-1,4, no interior do substrato; no final da acao, essa enzima libera unidades de glicose, oligossacarideos de diferentes pesos moleculares e dextrinas. A amiloglicosidase (EC 3.2.1.3) e uma exoenzima que libera unidades de glicose a partir da extremidade nao redutora da amilose, amilopectina e glicogenio. E a unica enzima amilolitica com capacidade para hidrolisar ao mesmo tempo as ligacoes [alpha]-1,4 e [alpha]-1,6 (Pandey et al., 2000). Esta enzima e um importante biocatalisador industrial empregado na producao de xaropes de glicose a partir de materias-primas amilaceas. Elas sao depois das proteases, as enzimas de maior venda e distribuicao mundial (Chen et al., 2005). O pH otimo da amiloglucosidase esta entre 3,0 e 5,0 e a temperatura otima da enzima se encontra entre 50 e 60[degrees]C (Pandey et al., 2005).

As xilanases hidrolisam as moleculas de xilanas por mecanismos de acao endo e exo-xilanases. As endo-[beta],1-4xilanases hidrolisam as ligacoes glicosidicas [beta],1-4 internas das moleculas de xilanas liberando xilooligossacarideos, enquanto que as exo-[beta]-xilanases liberam xilose a partir das extremidades nao redutoras das xilanas, as [beta]-xilosidases liberam xilose a partir da xilobiose ou xilooligossacarideos curtos (Gomes et al., 2007). Normalmente as xilanases apresentam atividade otima em temperaturas de 40-60[degrees]C e pH otimo de 4 a 7 (Carvalho, 2008). O pH otimo para a [alpha]-amilase situa-se entre 5,0 e 6,0 e a sua atividade diminui rapidamente acima de 50[degrees]C (Harger et al., 1982).

Com a acao das enzimas [alpha]-amilase, amiloglicosidase e da xilanase, o amido e a hemicelulose infermentesciveis se transformam em acucares fermentesciveis, o qual pode ser convertido em diversos produtos de interesse, tal como o etanol. O processo de transformacao de acucar em alcool etilico e chamado de fermentacao alcoolica e e conduzido por leveduras, principalmente a Saccharomyces cerevisiae. Essas leveduras sao aerobias facultativas e mesofilas, apresentando temperaturas otimas para a producao de etanol na faixa de 26 a 35[degrees]C e pH na faixa de 4 a 5 (Lima, 2001).

Desse modo, as cascas de mandioca podem ser utilizadas na producao de aguardente, principalmente no Brasil, onde a aguardente de cana-de-acucar e uma bebida muito apreciada (Barcelos et al., 2007). A cachaca e um produto puramente brasileiro, que alem de seu valor cultural, ja constitui o terceiro destilado mais consumido no mundo, ficando atras apenas da vodka e uisque. Nacionalmente, a cachaca fica em segundo lugar no consumo de bebidas alcoolicas, perdendo apenas para a cerveja (Silva et al., 2011). A materia-prima utilizada na producao de destilados (cachaca ou aguardente) no Brasil e quase totalmente a cana-de-acucar, no entanto outras materias-primas, tais como mandioca, milho, cevada, uva, laranja, manga, jabuticaba, etc., podem ser utilizadas (Cardoso, 2003).

Por outro lado, sao escassos os trabalhos com relacao a utilizacao de residuos como as cascas de mandioca, como materia-prima para a obtencao de produtos com maior valor agregado. O objetivo deste trabalho foi produzir aguardente de casca de mandioca, atraves dos processos de hidrolise enzimatica utilizando enzimas comerciais ([alpha]-amilase, amiloglicosidase e xilanase), seguido da fermentacao alcoolica com auxilio da levedura Saccharomyces cerevisiae e da destilacao. Foram determinadas caracteristicas fisico-quimicas e sensoriais da aguardente obtida.

Material e Metodos

Material

Cascas de mandioca da cultivar IAPAR-12, foram doadas pela Febela--Fecularia de Bela Vista Ltda., municipio de Bela Vista de Goias, GO, Brasil. As enzimas (Summer Xylan 66.000 UXI G/g, Spring Alfa 100.000 SKB/g, e Spring AG BR 800 AGU/g) utilizadas na sacarificacao do amido foram doadas pela industria Granotec do Brasil, municipio de Curitiba-PR.

Metodos

A producao da aguardente foi realizada em quatro etapas: 1) hidrolise enzimatica, a qual converte materiais celulosicos e amido em acucares fermentaveis; 2) fermentacao alcoolica, que converte o acucar fermentavel a etanol por S. cerevisiae-, 3) destilacao, metodo utilizado para separacao da aguardente do vinho e das fracoes cabeca, coracao e cauda; e 4) analise fisico-quimica e sensorial da aguardente de casca de mandioca para verificar a qualidade da mesma. Entretanto, antes de iniciar o processo de hidrolise enzimatica do amido das cascas de mandioca foram verificadas as atividades enzimaticas das enzimas [alpha]-amilase, amiloglicosidase e xilanase, a fim de verificar qual a dosagem de cada enzima a ser utilizada no processo de hidrolise.

Determinacao da atividade das enzimas

Para a dosagem da atividade xilanolitica foi utilizado como substrato a xilana 'oat-spelt' (xilana extraida de aveia, Sigma[R]). A determinacao da atividade enzimatica da xilanase foi realizada pelo metodo de DNS (Miller, 1959). O ensaio para determinacao da atividade da [alpha]-amilase foi realizado atraves do Teste de DNS: acido 3,5-dinitrosalicilico para [alpha]-amilase de acordo com Pascoal et al. (2010). A determinacao da atividade da amiloglicosidase foi realizado atraves do metodo de glicose oxidase conforme descrito por Silva et al. (2005).

Hidrolise enzimatica

Para a realizacao da hidrolise enzimatica, o amido foi gelatinizado, incubando a farinha de casca de mandioca, suficiente para uma concentracao final de 10% (m/v) de amido em 10ml de agua destilada. A concentracao de amido utilizada neste trabalho se baseou em dados da literatura, levando em consideracao a concentracao maxima de 10%, ja que concentracoes maiores para a casca de mandioca inviabilizam o processo devido a alta viscosidade adquirida principalmente durante a gelatinizacao (Ferreira et al., 2005; Souto, 2011).

A gelatinizacao foi entao realizada em frascos de roscas (tubo Falcon[R]) de 50ml de capacidade em banho-maria tipo Dubnoff (Tecnal TE-053) a 70[degrees]C durante 30min. Adicionaram-se as enzimas xilanase e [alpha]-amilase na concentracao definida em cada experimento e incubou-se os frascos em agitador (Tecnal TE-421) a 38[degrees]C e 180rpm, por 2h. Apos esse periodo elevou-se a temperatura do shaker a 60[degrees]C e adicionou-se a enzima amiloglicosidase, na qual foi mantida na mesma rotacao por 16h. Apos essa etapa foi verificado para cada amostra do experimento o teor de solidos soluveis ([degrees]Brix) e a quantidade de acucares redutores (AR), determinados pelo metodo de DNS (Miller, 1959).

A metodologia de superficie de resposta (Rodrigues e lemma, 2005) foi utilizada na otimizacao da hidrolise enzimatica. Foi utilizado o planejamento experimental central rotacional composto, com 18 experimentos e variacao simultanea da concentracao de xilanase (2-18 U/ml), amilase (2-70 U/ ml) e amiloglucosidase (2-60 U/ml) durante a hidrolise.

Para a producao do hidrolisado em maior escala, apos a escolha do melhor ponto da hidrolise, o que obteve a maior concentracao de AR, foi utilizado Erlenmeyer com capacidade de 1000ml, contendo 450ml de cascas gelatinizadas. O material hidrolisado obtido foi centrifugado por 15min a 3000rpm para separacao das fracoes solidas e liquidas. Foi necessario fazer a concentracao de solidos soluveis, pois o hidrolisado estava com concentracao em torno de 8[degrees]Brix. Para a concentracao do hidrolisado se elevar ate 14[degrees]Brix, o teor de solidos soluveis necessario para realizacao da fermentacao para a producao de aguardente, o material foi mantido em estufa com circulacao de ar a 70[degrees]C por 24h. Apos a concentracao a 14[degrees]Brix, o material foi submetido ao processo de fermentacao alcoolica.

Fermentacao alcoolica

A fermentacao alcoolica foi realizada em Erlenmeyer de 1000ml de capacidade. Esse processo foi realizado em tres repeticoes, onde em cada recipiente, adicionou-se 450ml de hidrolisado na presenca de 1% (m/v) de fermento biologico comercial (Fleichmann). Os recipientes foram colocados em incubadora (Tecnal TE-421) a 33[degrees]C sem rotacao. O tempo final da fermentacao foi definido pela estabilizacao da quantidade de solidos soluveis do fermentado.

Destilacao

Um pequeno destilador foi montado no laboratorio de Bebidas da Escola de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal de Goias, com os seguintes equipamentos: manta aquecedora com capacidade para acoplar balao de 500ml, conector de vidro que acopla o balao ao condensador (condensador do tipo horizontal), termometro a laser para controle da temperatura (mantida ~80[degrees]C). Foram colocados para destilar 400ml de material fermentado, sendo a destilacao separada em tres fracoes: a primeira fracao, denominada de 'cabeca' e que correspondia a 10% da destilacao, foi desprezada; depois se coletou o 'coracao', que correspondia a 80% da destilacao; e encerrou a destilacao desprezando os 10% finais que correspondia a 'cauda'. A aguardente de casca de mandioca utilizada na sequencia do experimento foi somente a fracao que correspondia ao 'coracao' da destilacao.

Analise fisico-quimica e sensorial da aguardente

As amostras de aguardente de casca de mandioca foram caracterizadas em relacao a acidez titulavel, ao pH e ao grau alcoolico ([degrees]GL), conforme a metodologia descrita pelo MAPA (Brasil, 2005). Todas as analises foram realizadas em triplicata. A aguardente destilada foi submetida a teste de aceitacao do aroma e aparencia: Para a realizacao da analise sensorial foram escolhidos 50 julgadores, consumidores de aguardente, maiores de 18 anos e nao fumantes. Na analise sensorial da aguardente de casca de mandioca, 58% dos julgadores eram do sexo masculino e 42% do sexo feminino. Sendo que 88% deles consumiam aguardente menos que 10 vezes por mes e 12% consumiam entre 10-15 vezes por mes. Foi utilizada uma ficha de avaliacao, com escala hedonica estruturada de nove pontos (Stone e Sidel, 1993), onde cada provador avaliou a amostra de acordo com a aparencia e o aroma, anotando quanto gostou ou desgostou da aguardente de casca de mandioca.

Analise estatistica

Os dados obtidos foram avaliados por analise de variancia, assim como os coeficientes do modelo de regressao. Para visualizacao do efeito das variaveis-respostas foram elaborados graficos de superficie de resposta e curvas de contorno, utilizando o programa Statistica 5.0.

Resultados e Discussao

Para realizar a otimizacao da hidrolise enzimatica da farinha de casca de mandioca, foi necessario analisar a atividade enzimatica das enzimas comerciais Summer Xylan 66.000 UXI G/g, Spring Alfa 100.000 SKB/g e Spring Ag BR 800 AGU/g, a fim de dosa-las com base na unidade enzimatica durante o experimento da hidrolise. Os resultados obtidos da atividade enzimatica foram: 18, 70 e 60 U/ml para xilanase, [alpha]-amilase e amiloglicosidase respectivamente.

Na literatura nao ha uma padronizacao para determinar a atividade de enzimas, existindo uma variedade de metodologias e adaptacoes. Esse fato dificulta a comparacao dos resultados obtidos neste trabalho com outros dados disponiveis na literatura (Souto, 2011; Ferreira, 2011). Alem disso, a atividade enzimatica das preparacoes e especifica de cada fabricante das enzimas, o que tambem impede a comparacao a partir das fichas tecnicas dos fabricantes. As atividades das enzimas utilizadas neste trabalho foram muito menores que a indicada no rotulo pelo fabricante. Cada enzima exige temperatura e pH diferentes, e neste trabalho foi realizado um experimento a fim de constatar qual a melhor temperatura para cada enzima. O pH nao foi verificado, pois foi decidido que as enzimas seriam adicionadas para reacao em agua, a fim de tornar a producao da aguardente de residuos o mais simples possivel e de facil aplicacao ao produtor. Os resultados da otimizacao das temperaturas para as enzimas [alpha]-amilase com variacao entre 25 e 38[degrees]C e amiloglicosidase com variacao de 50 a 80[degrees]C, podem ser observados na Figura 1.

Antes de iniciar a hidrolise das cascas de mandioca utilizando todas as enzimas ([alpha]-amilase, amiloglicosidase e xilanase), outro experimento (Figura 2) foi realizado, no qual determinou-se a atividade enzimatica da xilanase apenas para 38 e 60[degrees]C, temperaturas otimas para a [alpha]-amilase e amiloglicosidase. Esse experimento foi realizado, a fim de averiguar qual a melhor opcao de temperatura em conjunto com outra enzima para adicionar a xilanase. Foi verificado que a xilanase se manteve mais termoestavel na temperatura de 38[degrees]C (Figura 2a), que na temperatura de 60[degrees]C (Figura 2b). Assim, foi determinado que no experimento de hidrolise as enzimas [alpha]-amilase e xilanase seriam adicionadas a 38[degrees]C e a amiloglicosidase a 60[degrees]C. O delineamento experimental com variaveis codificadas, valores reais e teores de acucares redutores obtidos da hidrolise encontram-se na Tabela I.

O modelo ajustado foi significativo e nao mostrou falta de ajuste significativa (Eq. 1).

y= 64,51 +2,08[X.sub.1] -3,22[X.sub.2] -1,90[X.sub.3.sup.2] -2,13[X.sub.1][X.sub.3] -2,42[X.sub.2][X.sub.3] (1)

O coeficiente de determinacao do modelo ajustado explicou 69% das respostas. Os efeitos lineares da concentracao de xilanase e de [alpha]-amilase foram significativos ao nivel de 5% de probabilidade. O efeito quadratico da concentracao de amiloglicosidase, assim como o das interacoes entre as concentracoes de xilanase e amiloglicosidade, e [alpha]-amilase e amiloglicosidase, apresentaram niveis de significancia proximos de 5% e foram mantidos nos modelos ajustados (Tabela II).

O grafico de superficie de resposta da producao de acucares redutores em funcao das concentracoes de xilanase e [alpha]-amilase na reacao hidrolitica indicou que quanto maiores as concentracoes de xilanase e [alpha]-amilase, maior e a hidrolise, com consequente maior teor de acucares redutores (Figura 3). A area do grafico com producao de acucares redutor >70g x [ml.sup.-1] e durante a hidrolise da casca de mandioca foi observada em concentracoes acima de 10 U/ ml de xilanase e 56 U/ml de [alpha]-amilase (Figura 3). A validacao do modelo foi feita a partir de tres repeticoes experimentais das condicoes do ponto 11, encontrando valores de 83,9g x [ml.sup.-1] de acucares redutores e 10,8[degrees]Brix. A diferenca de 16,5% maior que o indicado pelo modelo, provavelmente pode ser explicada pelo baixo coeficiente de determinacao obtido no modelo matematico ajustado.

Assim, apos a realizacao do experimento de hidrolise verificou-se que o ponto otimo da hidrolise foi o ponto 11 (10:2:31 U/ml de xilanase, [alpha]-amilase e amiloglicosidase, respectivamente) pois este apresentou o menor gasto de amiloglicosidase e [alpha]-amilase, quando comparado as demais combinacoes da area de maximo teor de acucar redutor obtido (Figura 3). Por isso, o ponto 11 foi utilizado para a producao do hidrolisado em maior escala, e posterior producao da aguardente de casca de mandioca.

A fermentacao do hidrolisado de cascas de mandioca se comportou semelhante a fermentacao alcoolica de caldo de cana-de-acucar, o tempo medio de fermentacao foi de 24h a 33[degrees]C, sendo que no inicio da fermentacao o hidrolisado estava com 14[degrees]Brix e apos 24h de fermentacao se estabilizou em 4,6[degrees]Brix. Apos obtencao do mosto fermentado (vinho) iniciou-se a destilacao para obtencao da aguardente de casca de mandioca.

No processo de destilacao aproveitou-se apenas a porcao denominada de 'coracao', pois nesta porcao nao se encontram os componentes toxicos. Dessa maneira descartaram-se as porcoes denominadas 'cauda' e 'cabeca'. A cauda e pobre em etanol e a cabeca e rica em aldeidos e outros compostos toxicos (Novaes, 1994). O teor de etanol na porcao referente ao 'coracao' do destilado foi medida em um alcoometro e obteve-se um destilado com 43% (v/v). Este valor esta dentro dos limites impostos para graduacao alcoolica da aguardente, pois de acordo com a legislacao brasileira (Brasil, 2005), a aguardente deve apresentar graduacao alcoolica de 38-54% em volume, obtida de destilado alcoolico simples ou pela destilacao do mosto fermentado de cana-de-acucar, podendo ser adicionada de acucares ate 6g x [1.sup.-1].

Atualmente podem ser encontradas varias bebidas destiladas, principalmente as aguardentes, tais como as de frutas (laranja, maracuja, jabuticaba, banana e uva), as de cereais (cevada, milho e arroz), as de raizes e tuberculos (beterraba, mandioca e batata) e as de colmos, como as de cana-de-acucar e bambu (Farias et al., 2009; Silva et al., 2009, 2011). No entanto, apenas um registro foi encontrado na literatura quanto a producao de aguardente proveniente de residuos de cascas de mandioca (Oliveira et al., 2008), sendo verificada por esses autores uma grande concentracao de cianeto e metanol, mesmo apos a secagem das cascas em estufa a 100[degrees]C por 30h. Esses compostos nao foram determinados neste trabalho, assim, na analise sensorial a aguardente foi apenas avaliada quanto ao aroma e aparencia. Novos estudos sao necessarios para elucidacao desta questao. Os resultados da analise fisico-quimica da aguardente foram: grau alcoolico 43% v/v, pH 4,3 e acidez titulavel 0,0029g/100g, sendo compativeis com os padroes exigidos para aguardente (Brasil, 2005).

Os escores medios obtidos para aroma e aparencia foram de 6,2 (que corresponde entre gostei pouco e gostei moderadamente) e 8,18 (que esta na escala de gostei muito a gostei muitissimo), respectivamente. O baixo resultado apresentado ao aroma de 6,2 esta justificado ao fato da aguardente ser recem-destilada (15 dias apos a destilacao), e nao ser envelhecida, o que acrescentaria notas diferenciadas de aroma. O processo de envelhecimento transfere compostos existentes na estrutura da madeira a bebida, melhorando a qualidade sensorial da mesma (Freitas, 2011). Sendo o envelhecimento do produto uma das principais sugestoes anotadas pelos provadores durante a realizacao da analise sensorial.

Conclusao

A utilizacao da casca oriunda de fecularia de mandioca como fonte de acucares fermentesciveis, por meio da hidrolise enzimatica otimizada (10 U/ml xilanase, 2 U/ml [alpha]-amilase e 31 U/ml amiloglicosidase) seguida de concentracao, se mostrou adequada para a realizacao da fermentacao alcoolica.

A fermentacao do hidrolisado de cascas de mandioca se comportou semelhante a fermentacao alcoolica de caldo de cana-de-acucar, com tempo medio de fermentacao de 24h.

A aguardente produzida obteve teor alcoolico de 43[degrees]GL, pH de 4,3 e acidez de 0,0029/100ml, ficando dentro do padrao exigido pela legislacao brasileira.

A aparencia translucida e aroma caracteristico de aguardente foram observados pelos provadores, que avaliaram o produto positivamente.

Novos estudos mais detalhados sobre a qualidade da aguardente do residuo de casca de mandioca proveniente de fecularia devem ser realizados.

Recebido: 17/11/2012. Modificado: 27/04/2013. Aceito: 28/11/2013.

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Vilhalva DAA, Soares Junior MS, Moura CMA, Caliari M, Souza TAC, Silva FA (2011) Aproveitamento da farinha de casca de mandioca na elaboracao de pao de forma. Rev. Inst. Adolfo Lutz 70: 514-521.

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Divina Aparecida Anunciacao Vilhalva. Biologa, Mestra e Doutora em Biologia Vegetal, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil. Pos-doutoranda, Universidade Federal de Goias (UFG), Brasil, e-mail: divinavilhalva@yahoo.com.br

Manoel Soares Soares Junior. Engenheiro Agronomo, Mestre e Doutor em Tecnologia de Alimentos, Professor, UFG, Brasil, e-mail: mssoaresjr@hotmail.com

Fabricia Paula de Faria. Biologa e Mestra em Microbiologia e Imunologia, Universidade Federal de Sao Paulo, Brasil. Doutora em Ciencias Biologicas, Universidade de Brasilia, Brasil e Macquarie University, Australia. Professora, UFG, Brasil, e-mail: fabriciapfaria@hotmail.com

Gabriel Luis Castiglioni. Engenheiro de Alimentos, Mestre e Doutor em Engenharia de Alimentos, Unicamp, Brasil. Professor, UFG, Brasil, e-mail: g_ castigli@yahoo.com.br

Marcio Caliari. Engenheiro Quimico, Mestre e Doutor em Tecnologia de Alimentos, Unicamp, Brasil. Professor, UFG, Brasil, e-mail: macaliari@ig.com.br

Flavio Alves da Silva. Engenheiro de Alimentos, Mestre e Doutor em Engenharia de Alimentos, Unicamp, Brasil. Professor, UFG, Brasil.. Endereco: Escola de Agronomia e Engenharia de Alimentos. UFG. Rodovia Goiania/Nova Veneza, Km 0, Caixa Postal 131, CEP 74690-900, Goiania, GO, Brasil, e-mail: flaviocamp@gmail.com

TABELA I
PLANEJAMENTO EXPERIMENTAL DA HIDROLISE ENZIMATICA

Exp.         Variaveis codificadas

       [X.sub.1]   [X.sub.2]   [X.sub.3]

1      -1          -1          -1
2       1          -1          -1
3      -1           1          -1
4       1           1          -1
5      -1          -1           1
6       1          -1           1
7      -1           1           1
8       1           1           1
9      -1,68        0           0
10      1,68        0           0
11      0          -1,68        0
12      0           1,68        0
13      0           0          -1,68
14      0           0           1,68
15      0           0           0
16      0           0           0
17      0           0           0
18      0           0           0

Exp.             Valores reais (U/ml)                   Acucares
                                                        redutores
       Xilanase  [alpha]-amilase  Amiloglicosidase  (g x [ml.sup.-1])

1       5,24     15,76            13,74                  54,443
2      14,76     15,76            13,74                  69,070
3       5,24     56,24            13,74                  54,386
4      14,76     56,24            13,74                  63,758
5       5,24     15,76            48,26                  68,827
6      14,76     15,76            48,26                  68,434
7       5,24     56,24            48,26                  52,591
8      14,76     56,24            48,26                  59,961
9       2        36               31                     64,226
10     18        36               31                     62,673
11     10         2               31                     72,007
12     10        70               31                     63,795
13     10        36                2                     60,129
14     10        36               60                     62,318
15     10        36               31                     64,544
16     10        36               31                     65,105
17     10        36               31                     65,479
18     --        36               31                     64,731

TABELA II
ANALISE DE VARIANCIA DA PRODUCAO DE ACUCARES REDUTORES DURANTE A
HIDROLISE DO AMIDO E DAS FIBRAS DA CASCA DA MANDIOCA CATALISADAS POR
DIFERENTES NIVEIS DE XILANASE, A-AMILASE E AMILOGLICOSIDASE

Fator    Soma dos    Graus de    Quadrado        F          P
         quadrados   liberdade     medio

XI (L)    55,9737        1        58,9737     4,82613    0,048410
X2 (L)   141,0751        1       141,0751    11,54492    0,005291
X3 (Q)    43,9416        1        43,9415     3,59597    0,082248
Xl.x3     36,2186        1        36,2186     2,96396    0,110792
X2.x3     46,7544        1        46,7544     3,82616    0,074141
Erro     146,6361       12        12,2197
Total    473,5995       17
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Author:Vilhalva, Divina Aparecida Anunciacao; Soares, Manoel Soares, Jr.; de Faria, Fabricia Paula; Castigl
Publication:Interciencia
Date:Nov 1, 2013
Words:5037
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