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Prevalencia de carie nao tratada na denticao decidua em areas urbanas e rurais do Estado de Sao Paulo, Brasil.

RESUMO

Objetivo. Descrever os diferenciais urbano-rurais da prevalencia de carie dentaria em criancas com denticao decidua no Estado de Sao Paulo e identificar fatores associados.

Metodos. Participaram do estudo 24 744 criancas de 5 a 7 anos examinadas no Levantamento Epidemiologico de Saude Bucal do Estado de Sao Paulo. Utilizou-se a analise multinivel para verificar se havia associacao entre a prevalencia de carie nao tratada e as caracteristicas sociodemograficas das criancas examinadas ou os aspectos socioeconomicos das cidades participantes.

Resultados. Ser negro ou pardo (razao de chances, ou OR, ajustada = 1,27), estudar na area rural (OR ajustada = 1,88) e frequentar a escola publica (OR ajustada = 3,41) foram identificados como determinantes individuais de chance mais elevada de apresentar um ou mais dentes deciduos com carie nao tratada. Ser do sexo feminino (OR ajustada = 0.83) foi identificado como fator de protecao para essa condicao. Os coeficientes negativos obtidos para as variaveis independentes de segundo nivel indicaram que o perfil de saude bucal das cidades participantes se beneficiou de valores mais elevados de indice de desenvolvimento humano municipal ([beta] = -0,47) e da adicao de fluor a rede de aguas ([beta] = -0,32).

Conclusoes. A prevalencia de carie nao tratada e influenciada por fatores sociodemograficos de ordem individual e contextual. O presente estudo apresenta informacoes epidemiologicas das areas rurais do Estado de Sao Paulo, oferecendo subsidios para o planejamento estrategico e normativo das acoes de saude bucal nos sistemas locais de saude, com o intuito de contribuir para a promocao de equidade em saude bucal.

Palavras-chave

Carie dentaria, servicos de saude bucal, populacao rural, fatores socioeconomicos, Brasil.

Prevalence of untreated caries in deciduous teeth in urban and rurual areas in the state of Sao Paulo, Brazil

ABSTRACT

Objectives. To describe the prevalence of dental caries in children with deciduous teeth in urban and rural areas in the state of Sao Paulo, Brazil, and to identify associated factors.

Methods. The study included 24 744 children (5-7 years of age) examined as part of an epidemiological survey on oral health carried out in the state of Sao Paulo (Levantamento Epidemiologico de Saude Bucal do Estado de Sao Paulo). Multilevel analysis was used to investigate whether the prevalence of untreated caries was associated with the sociodemographic characteristics of the children examined or with the socioeconomic aspects of the participating cities.

Results. Being black or brown (adjusted odds ratio (OR) = 1.27), attending school in rural areas (adjusted OR = 1.88), and attending public school (adjusted OR = 3.41) were identified as determinants for an increased probability of presenting deciduous teeth with untreated caries. Being a female (adjusted OR = 0.83) was identified as a protective factor. The negative coefficients obtained for second-level independent variables indicate that the oral health profile of the cities included in the study were positively impacted by a higher municipal human development index ([beta] = -0.47) and fluoridated drinking water ([beta] = -0.32).

Conclusions. The prevalence of untreated caries is influenced by individual and sociodemographic factors. The present study provides epidemiological information concerning the rural areas in the state of Sao Paulo. This information is useful for strategic planning and for establishing guidelines for oral health actions in local health systems, thereby contributing to oral health equity.

Key words

Dental caries, dental health services, rural population, socioeconomic factors,

**********

Nos ultimos anos, os levantamentos epidemiologicos de saude bucal tem mostrado uma tendencia ao declinio na prevalencia de carie em muitos paises do mundo. Em escolares brasileiros, a fluoracao da agua de abastecimento publico, a adicao de fluor aos dentifricios e a descentralizacao do sistema de saude foram os fatores apontados como associados a esse declinio (1). Entretanto, a reducao da prevalencia de carie dentaria foi acompanhada pelo fenomeno conhecido como polarizacao da doenca, caracterizado pela concentracao de indices de carie mais elevados em grupos populacionais mais submetidos a privacao material dentro de um mesmo pais ou regiao (2).

Sao escassos os estudos de prevalencia de carie dentaria em populacoes residentes em areas rurais; alem disso, esses estudos geralmente tratam apenas dos indicadores de carie em dentes permanentes. Em uma provincia rural no sudoeste de Zimbabue, na Africa, a prevalencia de carie aos 5 e 6 anos foi de 25,2%, com indice de dentes cariados, com extracao indicada e obturados (ceod) de 0,6. Os autores atribuiram essa prevalencia, considerada baixa, a dois fatores: 1) aproximadamente 40% das escolas incluidas no estudo tinham acesso a agua com concentracao de fluor de 0,8 ppm, nivel considerado ideal para paises tropicais; e 2) a provincia estudada era pouco urbanizada, tendo os seus moradores habitos alimentares tradicionais, considerados mais saudaveis (3). No contexto brasileiro, por sua vez, a prevalencia de necessidade de tratamento odontologico em criancas com denticao decidua foi de 70% em areas rurais brasileiras no periodo de 2002 a 2003 (4).

No Estado de Sao Paulo, as areas rurais apresentam indicadores de renda, escolaridade e saneamento piores do que as areas urbanas. A proporcao de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais na area urbana representa quase o dobro dos valores encontrados na area rural (5). Com piores condicoes socioeconomicas, as areas rurais podem configurar um polo de concentracao para os agravos a saude bucal.

O presente estudo teve por objetivo descrever possiveis diferenciais urbanorurais e identificar fatores associados a prevalencia de carie dentaria em criancas com denticao decidua no Estado de Sao Paulo, fornecendo subsidios para o planejamento de acoes preventivas e assistenciais do sistema de saude.

MATERIAIS E METODOS

Os dados utilizados neste estudo foram obtidos do banco de dados disponibilizado pelo Levantamento Epidemiologico de Saude Bucal realizado por meio de convenio de cooperacao tecnica entre a Secretaria de Estado de Saude (SES) e a Faculdade de Saude Publica da Universidade de Sao Paulo (FSP-USP) de outubro de 1997 a outubro de 1999 (6). No total, 89 114 pessoas foram examinadas de acordo com as normas da Organizacao Mundial da Saude (OMS) (7). Para o estudo da denticao decidua, todas as criancas da faixa etaria de 5 a 7 anos selecionadas e que efetivamente participaram do Levantamento Epidemiologico de Saude Bucal (6) foram incluidas neste estudo, totalizando uma amostra global de 25 012 escolares.

Para avaliar a prevalencia e a severidade do ataque de carie de acordo com as recomendacoes da OMS, o levantamento utilizou o indice ceod. Esse indice contabiliza os dentes deciduos de algum modo afetados por carie (cariados, extraidos ou restaurados) (7). Com base nessas informacoes, foi possivel estimar a prevalencia de carie nao tratada. Para avaliacoes em nivel individual, a variavel e definida pela manifestacao de ao menos um dente deciduo com carie nao tratada (isto e, o componente "c" do indice ceod [mayor que o igual a] 1); e para avaliacoes em nivel agregado, a variavel e definida pela proporcao de criancas apresentando essa condicao em cada area. Assim definida, a variavel congrega informacoes sobre a prevalencia de carie e a falta de acesso a tratamento odontologico, e e especialmente interessante para avaliacoes em criancas, em funcao de uma relativamente baixa incorporacao de tratamentos de restauracao na denticao decidua (8).

Para estimar a associacao em nivel individual, as criancas foram examinadas em termos de sexo, cor da pele e localizacao e tipo de escola. A classificacao por cor da pele, definida pelo cirurgiao-dentista que efetuou o exame bucal, foi estudada em duas categorias: negros (isto e, criancas de descendencia africana, incluindo as que foram classificadas como pardas) e nao negros (isto e, criancas brancas de descendencia europeia). A amostra continha um pequeno numero de criancas amarelas (0,69%), isto e, de descendencia asiatica, que nao foram incluidas no estudo. Nenhuma crianca da amostra foi classificada em outra categoria de cor da pele. A localizacao da escola diz respeito a area urbana ou rural, e o tipo se refere ao carater publico ou privado. Os estudos de epidemiologia da saude bucal tem presumido que as criancas matriculadas em estabelecimentos privados de ensino no contexto brasileiro apresentam melhores condicoes socioeconomicas do que as criancas das escolas publicas, que sao gratuitas (9, 10). Para 0,38% das criancas, nao foi informado o tipo de escola, e essas criancas tambem foram excluidas do estudo. Com a exclusao dos escolares de descendencia asiatica e daqueles sem informacao quanto ao tipo de escola, a populacao de estudo incluiu 24 744 escolares.

As caracteristicas socioeconomicas de cada municipio participante na amostra foram obtidas atraves do Indice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), disponibilizado pelo escritorio regional no Brasil do Programa das Nacoes Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O IDH-M e medido atraves de indicadores de educacao (taxa de alfabetizacao de pessoas acima de 15 anos de idade e taxa bruta de frequencia a escola), longevidade (expectativa de vida ao nascer) e renda (renda municipal per capita). O levantamento epidemiologico (6) forneceu dados sobre a presenca ou nao de fluor na agua de abastecimento publico. Essas variaveis foram utilizadas para avaliar a associacao em nivel agregado, ou seja, das cidades participantes do levantamento.

Analise de dados

As variaveis do estudo foram organizadas em um banco de dados informatizado e a analise estatistica foi efetuada atraves dos programas Epi Info 6.04d 2001 e Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) 8.0.

Na primeira etapa, foram obtidos os indicadores globais de saude bucal do Estado de Sao Paulo, segundo a estratificacao urbano-rural. Apos o calculo dos indices apresentados anteriormente, os diferenciais entre esses dois segmentos foram estimados atraves da razao desses indicadores, ou seja, o indicador de prevalencia do grupo 1 (rural) em relacao ao grupo 2 (urbano). Atraves dessa razao, obteve-se um indicador do diferencial entre essas areas. O indicador de carie nao tratada (c [mayor que o igual a] 1) foi utilizado como variavel dependente para cada estrato (urbano e rural). As razoes de chances (odds ratio, OR) foram calculadas de acordo com as caracteristicas sociodemograficas das criancas. Num primeiro momento, tambem foram calculadas OR nao ajustadas para as demais variaveis do estudo.

Empregou-se a analise multinivel para o posterior ajuste de determinantes individuais e contextuais que podem interferir no agravo a saude bucal estudado com controle de colinearidade para as variaveis independentes em cada nivel da analise. A avaliacao da qualidade do ajuste do modelo empregou o teste -2 log-probabilidade. A analise multinivel utilizou o esquema de efeitos fixos/interseccao randomica (11) para ajustar os indicadores de saude bucal estudados as variaveis independentes das criancas examinadas (primeiro nivel) e das cidades participantes (segundo nivel). O teste de razao de probabilidade (likelihood ratio) foi utilizado para comparar a qualidade de ajuste dos diferentes modelos delineados (12).

No primeiro nivel, uma analise multivariada de regressao logistica convencional compreendendo todas as criancas examinadas permitiu avaliar o efeito das caracteristicas sociodemograficas sobre a condicao considerada. No segundo nivel, uma analise multivariada de regressao logistica convencional foi executada para cada cidade. Essas equacoes tiveram seus coeficientes fixados para coincidir com os previamente determinados pela equacao, compreendendo o banco de dados completo, pois este modelo nao admite variacao de segundo nivel nos efeitos das variaveis independentes de primeiro nivel. Desse modo, toda a variacao de segundo nivel foi atribuida a interseccao, e uma analise de regressao linear avaliou a variacao da interseccao. Uma indicacao esquematica desse procedimento analitico foi descrita na literatura (13).

O protocolo da pesquisa foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa da Faculdade de Saude Publica da Universidade de Sao Paulo (parecer no. 1096, 2005), autorizando o acesso as fichas originais dos exames dentarios das criancas participantes do levantamento.

RESULTADOS

As criancas de areas rurais do Estado de Sao Paulo apresentaram indicadores de experiencia de carie e de acesso a tratamento odontologico na denticao decidua piores do que as criancas de areas urbanas (P < 0,01). Na area rural, apenas 19,55% das criancas examinadas estavam livres de carie e o indice de cuidado foi de 21,20%, resultados significativamente mais baixos do que daqueles obtidos para o grupo de criancas de areas urbanas (P < 0,01) (tabela 1).

Foram analisadas as condicoes sociodemograficas que poderiam estar associadas a prevalencia de carie nao tratada na denticao decidua. Apresentaram maior prevalencia de carie as criancas negras e pardas (em relacao as brancas) e as criancas matriculadas em escolas publicas (em relacao as matriculadas em escolas privadas), tanto em areas urbanas como rurais. Ser do sexo feminino associou-se a menor prevalencia de cavidade de carie nao tratada nas duas areas estudadas, mas essa associacao mostrou-se limitrofe para a area rural (IC95%: 0,68 a 1,02) (tabela 2).

O modelo multinivel de analise multivariada de regressao logistica ajustou as variaveis explicativas para a prevalencia de carie nao tratada na denticao decidua (tabela 3). As variaveis, independentemente das demais, que se mostraram associadas a carie dentaria nao tratada em dentes deciduos foram: ser negro ou pardo (OR ajustada = 1,27), estudar na area rural (OR ajustada = 1,88) e em escola publica (OR ajustada = 3,41) e ser do sexo feminino (OR ajustada = 0,83). A idade foi incluida no modelo como fator de ajuste porque a amostra reunia criancas de 5 a 7 anos e as criancas com idade mais elevada apresentaram maior chance de carie nao tratada (P < 0,001). Os coeficientes negativos obtidos para as variaveis independentes do segundo nivel indicaram que o perfil de saude bucal das cidades participantes se beneficiou de valores mais elevados de IDH-M ([beta]= -0,47) e da adicao de fluor a rede de aguas ([beta] = -0,32). Assim, essas condicoes foram reconhecidas como determinantes contextuais da prevalencia de carie nao tratada na denticao decidua no Estado de Sao Paulo. Como o modelo completo apresentou medida de qualidade do ajuste (-2 log-probabilidade) significativamente menos elevada do que a medida correspondente para o primeiro nivel, considerou-se o modelo final (compreendendo todo o conjunto de variaveis explicativas) como sendo o mais efetivo para explicar a variacao da condicao estudada.

DISCUSSAO

Neste estudo, foram analisados dados secundarios de carie dentaria provenientes originalmente do banco de dados gerado pelo Levantamento Epidemiologico de Saude Bucal: Estado de Sao Paulo, 1998 (6). Esse levantamento foi o mais abrangente ja realizado no Estado no que diz respeito ao numero de pessoas examinadas, o que representa um importante diferencial para o estudo de desigualdades de saude bucal em areas urbanas e rurais. Apesar de um levantamento epidemiologico de saude bucal mais recente (2002 e 2003) ter indicado o declinio da experiencia de carie em escolares brasileiros (14), os indicadores epidemiologicos da doenca continuam associados a fatores contextuais de desenvolvimento social (13), o que motivou a analise comparativa da prevalencia de carie em populacoes urbanas e rurais. Espera-se com isso ter valorizado o esforco despendido na realizacao desse extenso levantamento epidemiologico e suprido, ao menos em parte, a escassez de trabalhos avaliando as condicoes de saude bucal das populacoes rurais brasileiras.

De acordo com o relatorio final do Levantamento Epidemiologico de Saude Bucal de 1998 (6), as informacoes obtidas permitem estratificar a amostra segundo a localidade onde se encontra a escola (urbana ou rural). No entanto, o delineamento da amostra nao foi programado para garantir a inferencia probabilistica de resultados relativos a essa estratificacao. Alem disso, a classificacao dos escolares como sendo de area urbana ou rural refere-se a localizacao da escola que frequentavam e, nesse sentido, essa informacao nao reflete obrigatoriamente a area de residencia. Tambem nao podem ser inferidas informacoes para as areas rurais que nao participaram do levantamento. Apesar dessas limitacoes, o elevado numero de individuos examinados, combinado com a dispersao dos pontos de coleta dos dados, tanto no Estado como em cada cidade, encorajou os autores a explorar as diferencas na experiencia de carie e sua associacao com os indicadores de desenvolvimento social em areas urbanas e rurais do Estado.

A media de 4,64 do indice ceod observada para a area rural do Estado reflete um nivel elevado de prevalencia de carie, de acordo com a escala proposta pela OMS (15), ao passo que as criancas residentes em areas urbanas apresentaram melhores indicadores de saude bucal. Um pior perfil de saude bucal para criancas em areas rurais tambem foi registrado para Itapetininga (Sao Paulo) (16), Itauna (Minas Gerais) (17) e em paises africanos (18, 19). Alem disso, esse resultado e consistente com o que foi encontrado na analise dos dados do levantamento epidemiologico "Condicoes de Saude Bucal da Populacao Brasileira 2002-03", tambem conhecido como SB-Brasil 2003, realizado em diferentes regioes brasileiras (4). Naquele estudo, as discrepancias urbano-rurais foram ainda mais intensas nas regioes Norte e Nordeste em comparacao com as regioes Sul e Sudeste, sugerindo que a desigualdade no perfil epidemiologico da carie foi mais marcante nas regioes mais submetidas a privacao material. Situacao oposta, entretanto, foi observada em estudos realizados em areas rurais africanas consideradas isoladas e mantenedoras de habitos alimentares tradicionais (18, 19).

A baixa incorporacao de tratamento odontologico restaurador para as criancas tanto em areas urbanas como rurais pode refletir fatores culturais e a falta de conhecimento dos pais sobre a importancia da denticao decidua (20, 21). Porem, a situacao e ainda mais preocupante nas areas rurais do Estado, visto que o componente c (cariado) e responsavel por 75% do valor do indice ceod. No continente africano, os pais que moravam em areas rurais nunca haviam informado os filhos quanto a importancia de visitar o cirurgiao-dentista, pois, naquela comunidade carente, havia-se priorizado o enfrentamento de outras condicoes, como a situacao social de extrema miseria e a elevada prevalencia de desnutricao infantil (18).

Utilizando o individuo como unidade de analise, observou-se que, em areas rurais do Estado, nao houve diferenca entre os sexos para a prevalencia de carie nao tratada, em observacao semelhante a efetuada na area rural de Itauna, Estado de Minas Gerais (17). Apesar da ausencia de disparidade entre os sexos para essa condicao, reitera-se que isso foi verificado em um contexto de baixo acesso a tratamento odontologico tanto para meninos como para meninas de areas rurais do Estado.

Tambem foi observada uma prevalencia de carie nao tratada desigual na comparacao entre as criancas brancas e as negras ou pardas. Essa observacao representa uma indicacao adicional de desigualdade sociodemografica afetando essa condicao. Estudos anteriores sobre o tema atribuem essas diferencas a discrepante insercao socioeconomica desses segmentos da populacao e ao grau distinto de acesso a bens e servicos no Brasil (2, 22).

Tanto em areas urbanas como rurais do Estado, os estudantes de escolas publicas apresentaram maior prevalencia de carie nao tratada em relacao aos estudantes de escolas particulares. Isso pode ser explicado pelo fato de que frequentar a escola publica pode ser um marcador de nivel socioeconomico mais baixo. No contexto brasileiro, os estudantes de escolas publicas tem mais chance de ter pais com nivel de instrucao mais baixo e menor renda per capita do que os estudantes de escolas particulares (23). Tambem ja foi observado que pessoas com maior grau de educacao formal tendem a escovar os seus dentes mais vezes, e que os seus filhos adotam habitos bucais saudaveis mais facilmente (24).

A analise de regressao logistica multivariada indicou que todas as variaveis sociodemograficas descritas anteriormente se mantiveram associadas com a prevalencia de carie nao tratada. O modelo multinivel explicativo de prevalencia de carie nao tratada permitiu indicar o IDH-M e o acesso a agua fluoretada como sendo condicoes contextuais significativamente associadas a essa condicao, apos ajuste para as caracteristicas sociodemograficas dos escolares examinados. Observou-se uma correlacao negativa entre a prevalencia de carie nao tratada e essas variaveis. A associacao contextual entre as condicoes de saude e as condicoes socioeconomicas esta bem estabelecida na literatura mundial, e sugere para a denticao decidua os mesmos determinantes da experiencia de carie da denticao permanente (25).

Estudos no contexto internacional sobre o fluor tem indicado que esse recurso, alem de contribuir para a reducao de prevalencia da carie, seria efetivo para reduzir a desigualdade da distribuicao da carie (26, 27). Nao obstante, essa consideracao e limitada pelo contexto brasileiro, em funcao dos intensos contrastes na implementacao da medida. Muitos municipios nao efetuam a adicao de fluor a agua de abastecimento publico, e muitos dos que o fazem apresentam ponderavel proporcao de domicilios nao ligados a rede de aguas. Essa observacao sugere que a agua fluoretada nao vem beneficiando a populacao de modo homogeneo (28) e que ha espaco para uma reducao ainda mais intensa dos indicadores epidemiologicos da carie no Pais atraves da implementacao desse recurso nas cidades que ainda nao o oferecem e atraves da ampliacao de cobertura do sistema de abastecimento de agua para as cidades que ja disponibilizam o beneficio. Em Itauna, Estado de Minas Gerais, apenas 28,3% das familias de areas rurais utilizavam a agua tratada fornecida pelo sistema de abastecimento de agua e esgoto local (17). Em areas rurais que apresentam concentracao natural desse ion na agua, as condicoes de saude bucal sao melhores (29).

As diferencas na distribuicao dos agravos a saude bucal em individuos e populacoes com caracteristicas sociais, economicas e demograficas distintas encontradas neste estudo sao consistentes com outros achados relatados na literatura. Porem, sao escassos os estudos estimando a prevalencia das principais doencas bucais em populacoes rurais, o que dificulta o planejamento das intervencoes em saude. A inexistencia de informacoes anteriores sobre essa condicao na populacao rural do Estado impede a avaliacao de tendencias na distribuicao dos agravos.

O presente estudo apresenta informacoes epidemiologicas das areas rurais do Estado, oferecendo subsidios para o planejamento de intervencoes de saude bucal nos sistemas locais de saude, com o intuito de contribuir para a promocao de equidade em saude. O monitoramento continuo da experiencia de carie no Pais pode instruir o direcionamento de recursos adicionais para as areas com maiores necessidades, contribuindo, desse modo, para a implementacao de um servico de saude socialmente apropriado.

Agradecimentos. Projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq).

Manuscrito recebido em 8 de marco de 2007. Aceito em versao revisada em 12 de septembro de 2007.

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Tatiana Ribeiro de Campos Mello, (1) Jose Leopoldo Ferreira Antunes (2) e Eliseu Alves Waldman (3)

(1) Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), Mestrado em Saude Coletiva. Correspondencia: Rua Jose Firmo Bernade 1591, Bairro Flor da Serra, CEP 89600-000, Joacaba, SC, Brasil. Fone: +55-49-3551.2112; fax: +55-49-3551.2004; e-mail: tatmello@usp.br, tatiana.mello@unoesc. edu.br

(2) Universidade de Sao Paulo, Faculdade de Odontologia, Sao Paulo (SP), Brasil.

(3) Universidade de Sao Paulo, Faculdade de Saude Publica, Departamento de Epidemiologia, Sao Paulo (SP), Brasil.
TABELA 1. Indicadores de carie dentaria em dentes deciduos e acesso
a tratamento odontologico pelas criancas de 5 a 7 anos de areas
urbanas e rurais do Estado de Sao Paulo, Brasil, 1998 (a)

                     Area      Area     Razao area
Indices             urbana    rural    rural/urbana   P (b)

Dentes cariados      2,14      3,49        1,63       <0,01
Dentes perdidos      0,12      0,17        1,42       <0,01
Dentes obturados     1,11      0,98        0,88        0,05
ceod (c)             3,37      4,64        1,38       <0,01
Livres de carie
  (ceod = 0) (c)    30,92%    19,55%       0,63       <0,01
Indice de cuidado   32,89%    21,20%       0,64       <0,01

(a) n = 22 733 para area urbana e n = 2011 para area rural.

(b) Teste do qui-quadrado.

(c) ceod = dentes deciduos cariados, perdidos e obturados.

TABELA 2. Analise bivariada para fatores associados a carie nao
tratada em escolares de 5 a 7 anos de areas urbanas e rurais segundo
caracteristicas sociodemograficas, Estado de Sao Paulo, Brasil, 1998

                                     Zona urbana
                                     (n = 22 733)

Variavel             c (a)        c (a) = 0    OR bruta (b)       P
                   [mayor que                     (IC95%)
                  o igual a] 1
Sexo
  Masculino           6 804         4 740          1,00
  Feminino            6 081         5 108          0,83         0,001
                                                (0,79 a 0,87)
Cor da pele
  Nao negra           6 515         5 726          1,00
  Negra e parda       6 370         4 122          1,36         0,001
                                                (1,29 a 1,43)
Tipo de escola
  Privada               421         1 078          1,00
  Publica            12 464         8 770          3,64         0,001
                                                (3,24 a 4,09)

                                     Zona rural
                                     (n = 2 011)

Variavel             c (a)        c (a) = 0    OR bruta (b)     P (c)
                   [mayor que                     (IC95%)
                  o igual a] 1

Sexo
  Masculino            776           255           1,00
  Feminino             703           277           0,83         0,073
                                                (0,68 a 1,02)
Cor da pele
  Nao negra            634           263           1,00
  Negra e parda        845           269           1,30         0,009
                                                (1,06 a 1,60)

Tipo de escola
  Privada              19             19           1,00
  Publica           1 479            513           2,88         0,001
                                                (1,45 a 5,74)

(a) c = cavidade de carie.

(b) OR = razao de chances.

(c) Teste do qui-quadrado.

TABELA 3. Modelo multinivel de analise multivariada de regressao
logistica para fatores associados a prevalencia de carie nao
tratada em criancas de 5 a 7 anos de idade do Estado de Sao
Paulo, Brasil, 1998

                                           Erro          OR
Primeiro nivel: pessoas    Estimativa     padrao    ajustada (a)

Sexo feminino                -0,19         0,03         0,83
Pele negra e parda            0,24         0,03         1,27
Area rural                    0,63         0,05         1,88
Escola publica                1,23         0,06         3,41
Idade controle                0,24         0,02          --
-2 log-probabilidade
(primeiro nivel)           32 542,22

Primeiro nivel: pessoas      IC95%        P (b)

Sexo feminino             0,78 a 0,87    < 0,001
Pele negra e parda        1,21 a 1,34    < 0,001
Area rural                1,69 a 2,08    < 0,001
Escola publica            3,04 a 3,82    < 0,001
Idade controle                 --        < 0,001
-2 log-probabilidade
(primeiro nivel)

                                               Erro
Segundo nivel: cidades          Estimativa    padrao

Constante (parte fixa)             1,27        0,18
Indice de desenvolvimento
  humano municipal                -1,54        0,23
Fluoracao do sistema de agua      -0,09        0,02
-2 log-probabilidade
  (modelo completo)             31 828,57

Segundo nivel: cidades          [beta] [c]    P (d)

Constante (parte fixa)              --       < 0,001
Indice de desenvolvimento
  humano municipal                -0,47      < 0,001
Fluoracao do sistema de agua      -0,32      < 0,001
-2 log-probabilidade
  (modelo completo)

(a) OR = razao de chances.

(b) Teste de Wald.

(c) [beta] = coeficiente ajustado.

(d) Teste t de Student.
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Title Annotation:Investigacion original
Author:de Campos Mello, Tatiana Ribeiro; Ferreira Antunes, Jose Leopoldo; Alves Waldman, Eliseu
Publication:Revista Panamericana de Salud Publica
Date:Feb 1, 2008
Words:5937
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