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Prefacio.

Ja ha muitos anos que vem crescendo em mim a conviccao de que e no jogo e pelo jogo que a civilizacao surge e se desenvolve

Huizinga, 2004(1938): v *

A realizacao, a cada quatro anos, de "Jogos Olimpicos" na modernidade e sempre uma oportunidade de refletir sobre a origem e o sentido desse tipo de competicao. O fato de as Olimpiadas terem se realizado no Brasil em 2016 fortalece para nos, brasileiros, a curiosidade sobre esses jogos.

Na verdade, o jogo, em si, tem um estatuto importante na pesquisa historica no Ocidente. Muitos estudiosos entendem o esporte como meio necessario ao desenvolvimento fisico dos seres humanos, vendo, portanto, razoes de cunho biologico e/ou educacionais na realizacao das diversas modalidades esportivas; outros preferem abordar o lado estetico nessas competicoes esportivas, enxergando-as como meio de expressao artistica inerente a condicao humana. Tambem ha aqueles que veem no jogo um elemento essencial do desenvolvimento do pensamento logico.

Ja o grande historiador holandes Johan Huizinga entendia que o jogo, que em muitas versoes inclui a competicao entre individuos ou entre equipes e a assistencia de um publico, e um elemento cultural que permeia todas as sociedades humanas desde as mais primitivas(2004: 7). Para este historiador, o jogo e a competicao preenchem uma funcao inerente a nossa vida, e defini-los em termos biologicos, esteticos ou logicos nao nos permite compreender toda a extensao desta funcao (2004: 10). Para Huizinga, "a vida social revestese de formas suprabiologicas, que lhe conferem uma dignidade superior sob a forma de jogo, e e atraves deste ultimo que a sociedade exprime sua interpretacao da vida e do mundo (2004: 53). E, ainda, "a cultura surge sob a forma de jogo, que ela e, desde seus primeiros passos, como 'jogada'" (2004: 53). Como exemplo que melhor esclarece a nossa compreensao, Huizinga pontua: "mesmo as atividades que visam a satisfacao imediata das necessidades vitais, como a caca, tendem a assumir nas sociedades primitivas uma forma ludica" e competitiva (2004: 53).

Diante de um posicionamento como esse, cabem perguntas importantes sobre especificamente a origem dos Jogos Olimpicos e sobre o porque, hoje em nossa sociedade contemporanea, adotamos esse formato de competicao. Ja o nome nos indica que nesses jogos se expressa a heranca da Grecia Antiga. A antiguidade Greco-romana, com efeito, foi atribuido pela Europa desde o Renascimento o papel de berco da "civilizacao ocidental". E era em Olimpia--local onde os antigos helenos veneravam seu deus maximo, Zeusque os gregos vindos de tantas polis diferentes construiam uma identidade helenica unica. Ja no seculo XX, os gregos que haviam conseguido libertar-se do dominio turco foram justamente recuperar os simbolos de um passado que eles e a Europa reconheciam como glorioso, e os Jogos Olimpicos eram um desses simbolos.

Os estudos apresentados neste volume mostram justamente como a politica e o poder, a religiao e a identidade cultural expressavamse nos jogos e na atividade competitiva, e nao apenas na Grecia de epoca classica dos seculo V e IV a. C., a que mais comumente conhecemos, como tambem na Grecia de periodos mais recuados e entre civilizacoes que se desenvolveram independentemente no Mediterraneo. E um volume que nos traz um pedaco da Antiguidade no Mediterraneo, nos apresentando a oportunidade de enriquecer nosso conhecimento sobre o papel dos jogos nessas sociedades antigas e, assim, dandonos tambem a oportunidade de situar nossa experiencia contemporanea em uma cadeia muito mais ampla de experiencias culturais humanas. Os caminhos de reflexao que este volume nos proporciona, acredito, dao razao as afirmacoes de Huizinga sobre a maneira como, por meio dos jogos, as diferentes sociedades humanas criam uma visao de seu mundo, energizam sua identidade, fazendo dos jogos uma forma poderosa de expressao cultural.

Maria Beatriz Borba Florenzano Julho de 2018

* Huizinga, J. 2004 (1938). Homo Ludens. Perspectiva. Sao Paulo.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Florenzano, Maria Beatriz Borba
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jul 1, 2017
Words:631
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