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Prefacio.

Na universidade, muitas vozes se cruzam. Vozes dissonantes, concordantes, enunciadas desde perspectivas diversas ou comuns, que partem de principios e procedimentos teorico-metodologicos afins ou que debatem e disputam entre si, considerando diferentes modos de produzir o conhecimento. O discurso que insiste na necessidade da abordagem multidisciplinar, um dos muitos que se cruzam nesse ambiente, e daqueles se enunciam mais facilmente do que se praticam.

Neste livro, temos abordagens a partir da Arqueologia, da Historia, da Arquitetura e da Educacao, todas elas convergindo para um objeto e um objetivo comum. Estamos assim, diante do enfrentamento concreto da pratica da multidisciplinaridade. Alguns anos de trabalho em orgaos do patrimonio historico deram-me a certeza de que so se pode atuar de forma eficaz nesse campo se o fizermos em equipe e a partir de abordagens disciplinares diversas, todas elas contribuindo para a elaboracao de politicas e acoes de planejamento, conservacao, preservacao, restauro, divulgacao e empoderamento. Enfim, de tudo aquilo que envolve as acoes voltadas ao patrimonio historico e seus agentes, desde os tecnicos ate os colegiados decisorios, passando pelos cidadaos, aqueles para quem devem estar voltadas todas as acoes do poder publico, universidade incluida.

Nao ha politica publica ou acao na area de patrimonio historico sem a producao de conhecimento. E o ponto de partida para a producao do conhecimento e a pesquisa, que nesse campo costuma ser tradicionalmente apresentada sob a forma de inventario. Delimita-se uma area, estabelece-se um metodo, debruca-se sobre o espaco e suas variadas camadas de tempo. Para tanto, utilizam-se desde os recursos tradicionais ate os mais sofisticados aparatos tecnologicos. Temos aqui, portanto, um modelo de atuacao: um projeto consistente, uma equipe multidisciplinar, a producao de um inventario e a ref lexao a partir de seus resultados, subsidiando possiveis acoes do poder publico que, ao fim e ao cabo, deve ser pressionado sempre que for preciso a agir em defesa da preservacao dos vestigios do passado e da memoria da sociedade que os produziu --que, afinal, somos todos nos, os humanos, em nossa passagem pelo planeta.

Se fosse visto apenas um modelo, o dossie que o leitor tem em maos ja seria de imensa valia. Trata-se de um metodo de producao do conhecimento, passivel de apropriacao por outros academicos e tecnicos. Estes, por sua vez, podem replicar ou adaptar o metodo em outros espacos a serem alvos de outras pesquisas. Para o bem e para o mal, o Brasil e um pais onde quase tudo esta por fazer, e no campo do patrimonio historico tal constatacao e ainda mais sensivel. Mas o fato e que o livro tem outras virtudes, e e hora de enumera-las.

A primeira virtude que quero destacar e a escolha do recorte espacial. Ter em Guarulhos seu objeto e quase uma ousadia. De ocupacao ancestral, a area hoje ocupada pelo municipio costuma ser esquecida, embora estejamos a falar do segundo municipio em numero de habitantes e em arrecadacao de impostos no Estado de Sao Paulo. Mas essa posicao no ranking demografico e economico nao desfaz a imagem de Guarulhos, para os brasileiros em geral e talvez mesmo para os guarulhenses, como um lugar pobre, violento, cidade-dormitorio da grande metropole paulistana --para onde milhares de trabalhadores se dirigem todos os dias em jornadas dantescas--e que sedia o aeroporto internacional. Enfim, um municipio funcional, cuja funcao encontra-se fora dos seus limites geograficos, fora de si mesmo. Se nos deixarmos levar pelo senso comum e pelo pauperrimo noticiario cotidiano, a imagem de Guarulhos estara selada para sempre. Por isso, chamo de ousada a escolha desse municipio como objeto, ao buscar patrimonio historico em um lugar quase esquecido quando se trata de estudos academicos e de politicas publicas.

Ao mesmo tempo em que e ousada, a escolha demonstrou seus acertos, a julgar pelos resultados contidos no dossie. A arqueologa Claudia Plens, organizadora e autora de varios textos da obra, deixa clara a antiguidade da ocupacao do atual territorio guarulhense com um olho na ancestralidade e outro na discussao sobre a ocupacao europeia, ao mesmo tempo em que deixa entrever que a natureza nao e um ambiente isento da acao humana--da cultura, portanto. A discussao nao e nova, mas sempre e preciso revisita-la e insistir na acao humana como foco central das investigacoes em Historia e Arqueologia, mais ainda quando os campos sao observados nos seus pontos de interseccao. Se a Historia Natural e um dado ou um condicionante, somente a presenca dos seres humanos transforma o potencial natural em Historia. Em Guarulhos nao foi diferente: a esperanca do ouro, tao ao gosto do colonizador portugues, introduziu relacoes de trabalho comuns a outras areas de exploracao na America e promoveu as relacoes sociais entre europeus, indigenas e africanos e seus descendentes. Foi assim em muitos lugares do Novo Mundo, mas nao importa saber apenas o que aconteceu no passado, mas como aconteceu. Em poucas palavras, lidar com o processo historico e suas especificidades em diferentes tempos e espacos.

Enumero apenas esta e algumas das outras questoes que o livro nao se furta a enfrentar, somando-se a outros autores e estudos de monta. E preciso conhecer melhor a exploracao do trabalho dos indigenas em Guarulhos, como de resto em todo o mundo colonial e nos seculos XIX e XX, sob pena de fazer dos indios serem com validade historica, como se eles desaparecessem fisicamente depois da epoca colonial. Tambem e preciso deslindar todas as outras formas de trabalho compulsorio ou nao, envolvendo diferentes sujeitos coletivos. Se concordarmos com o pressuposto de que e a acao humana que move o processo historico, o trabalho pode ser encarado como a acao humana por excelencia. E por meio dele que se produz a mercadoria; e ele que modifica a paisagem; e dele que provem a riqueza, que nao existe em estado bruto e natural. Instituir a propriedade e definir seus limites, outro produto das relacoes sociais (e nao naturais), tambem nos diz muito sobre as relacoes sociais, do mesmo modo que uma leitura acurada das edificacoes e de outros vestigios da cultura material informa nossa visao sobre o presente. Mais do que conhecer o passado para uma simples satisfacao erudita, o conhecimento historico e capaz de desnaturalizar nosso dia a dia e ser um vetor da transformacao social, sobretudo quando conjugado a divulgacao cientifica e a educacao para o patrimonio. Observando Guarulhos podemos ver o mundo, sem exageros. Do micro ao macro, analisando a legislacao e enfrentando o exercicio da critica aos modos de (con)viver em diferentes temporalidades e fazendo isso retrospectivamente, a partir dos vestigios materiais do passado encobertos por camadas de terra e de poeira dos arquivos, este livro e um belo exemplo de trabalho colaborativo que nem sempre brota na universidade. Todos os temas mencionados aqui foram colhidos na leitura da obra, e o leitor atento sabera encontrar outros pontos de interesse e, quem sabe, seus proprios temas e caminhos de pesquisa.

Para terminar, quero chamar a atencao para o envolvimento dos estudantes no processo de desenvolvimento da pesquisa ora transformada em livro. Alem de documentar o vigor intelectual do curso de Historia da Universidade Federal de Sao Paulo, o projeto do qual este dossie e resultado tambem qualificou um grupo numeroso de estudantes de graduacao, hoje historiadores formados, a atuar em acoes voltadas ao patrimonio historico, somando-se a formacao oferecida em disciplinas especificas (Arqueologia Historica, Arquivos, Museus e Cultura Material, Memoria e Patrimonio Historico, Patrimonio Imaterial, Educacao Patrimonial) ministradas por professores que, em parte, sao tambem autores deste dossie. Tal resultado e o cumprimento de um projeto pedagogico que, no decorrer dos anos, vem se mostrando viavel e acertado, em que pesem todas as dificuldades, sobretudo as burocraticas e politicas, para mante-lo. Aos autores, meus cumprimentos; aos leitores, meus votos de boa leitura!

Jaime Rodrigues *

(*) Historiador, Professor do Departamento de Historia da UNIFESR
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Author:Rodrigues, Jaime
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jan 1, 2016
Words:1294
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