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Preface and reader-model(s): instructions on a lazy machine/ Prefacio e leitor(es)-modelo(s): instrucoes para uma maquina preguicosa.

Introducao

Identifica-se crescimento do interesse nos estudos literarios a partir da segunda metade do seculo XX. Assim atestam diversas obras, seja nas de pesquisadores da area, como na coletanea do Grupo de Pesquisa sobre Leitura (GREL) da Universidade do Quebec em Montreal, organizada por Bertrand Gervais e Rachel Bouvet; * seja nas de obras de cunho mais geral, cujo objeto e constituir panorama dos estudos literarios, como nas obras de Antoine Compagnon * Ainda que, como nos lembra a pesquisadora Regina Zilberman, * seja possivel identificar, ja na Antiguidade Classica, no conceito de catarse da Poetica de Aristoteles, um interesse pelos efeitos da tragedia no publico.

A autora mostra como o interesse pela recepcao e pela leitura vai se desenvolvendo ate chegar aos trabalhos da Estetica da Recepcao associada a Escola de Constanca, nas figuras dos pesquisadores de Hans Robert Jauss e Wolfang Iser na decada de 1970. Enquanto o primeiro se interessou pelos fenomenos de recepcao, ou seja, os fenomenos de ordem coletiva, ao refletir sobre a mudanca de normas e valores no comportamento dos leitores nos sistemas literarios na historia, o segundo esteve efetivamente detido na atividade, individual, de leitura, no sentido de que buscou descrever a maneira como se da o ato da leitura.

Concomitantemente aos trabalhos de Iser na Alemanha, Umberto Eco, na Italia, interessava-se tambem pelo processo de construcao de sentido no ato da leitura. O autor publicara Obra aberta * no inicio dos anos 1960 na Italia, na qual se questionava sobre os modos de interpretacao da obra de arte, sobre os dispositivos que permitem ao seu destinatario entregar-se as diversas interpretacoes, e em que medida as caracteristicas estruturais a obra autorizam e regulam essas interpretacoes. Ja no final dos anos 1970, Eco publica na Italia Lector in Fabula, * coletanea de trabalhos na qual se concentra e aprofunda-se na questao da relacao estabelecida entre leitor e texto no ato da leitura.

No horizonte das pesquisas sobre leitura literaria, pois, os conceitos de Leitor-Modelo desenvolvido por Umberto Eco e o de leitor implicito, de Wolfgang Iser, * permitem que se reflita sobre as formas como sao configuradas no texto as condicoes para sua recepcao. Nas duas obras referidas, os autores refletem sobre o modo de construcao do Leitor-Modelo para Eco e leitor implicito para Iser como estrategias de cooperacao textual em textos narrativos. Iser ilustra sua discussao acerca da leitura e sobre o modo como a nocao de indeterminacao e de "espaco vazio" *, por meio de um romance do seculo XVIII, Joseph Andrews, de Henry Fielding, * constituem o proprio da leitura literaria na apreensao--pelo leitor--do efeito que ja esta potencialmente na estrutura da obra, mas que se realiza pelo modo como esse leitor o atualiza em funcao de seu horizonte de expectativas. Eco, por sua vez, oferece, a titulo de aplicacao de suas propostas, a analise de um romance do seculo XIX, Un drame bien parisien, de Alphonse Allais. * Em ambas as obras analisadas, discutem-se os mecanismos textuais de legibilidade que fazem emergir os conhecimentos de mundo do leitor (empirico); ambos postulam, pois, a constituicao dessa configuracao de leitor que cumpriria as condicoes ideais de atualizacao da obra lida.

Esse Leitor-Modelo, vale lembrar, e, pois, uma instancia textual, um "conjunto de condicoes de exito, textualmente estabelecidas, que devem ser satisfeitas para que um texto seja plenamente atualizado no seu conteudo potencial". * Estamos, em ambas as propostas, na analise das potencialidades, condicoes, limites, espectros, indeterminacoes de leitura a serem realizadas. Esse e, alias, um dos limites que se apontam em seus trabalhos; mas se lembrarmos, com Eco, que o "o texto e um produto cujo destino interpretativo deve fazer parte do proprio mecanismo gerativo. Gerar um texto significa executar uma estrategia de que fazem parte as previsoes dos movimentos de outros", * e que por "outros" entendem-se os leitores, e possivel partir da analise das configuracoes desse Leitor-Modelo--designado no singular por representar um conjunto de estrategias, mas que traduz uma pluralidade--refletir e observar como leitores empiricos dialogariam com o Leitor-Modelo.

Mas e o leitor?

Com efeito, e possivel identificar no final do seculo XX e na primeira decada dos anos 2000, interesse crescente na pesquisa sobre os desdobramentos das teorias da leitura acima elencadas que pudessem contemplar um aspecto empirico, sobretudo por alguns grupos de pesquisadores da area do ensino da literatura; mas tambem por pesquisadores que buscam integrar a "resposta do leitor" a reflexao teorica nos estudos literarios. Dentre os primeiros, destacamos os trabalhos desenvolvidos, na Franca, por Annie Rouxel e Gerard Langlade; * dentre os segundos, o norte-americano David S. Miall, * alem dos trabalhos desenvolvidos pelo grupo GREL (citados acima) coordenado por Bertrand Gervais da UQUAM.

Em seu artigo "Mutations epistemologiques et enseignement de la litterature: l'avenement du sujet lecteur"1 (inedito), Annie Rouxel identifica, na Franca, um momento de crise da leitura--literaria--escolar atribuida a forma como se didatizaram os estudos literarios, em outras palavras, na forma como os trabalhos desenvolvidos na teoria e critica literaria transformaram-se em objetos de aprendizagem:
   O desinteresse dos jovens pela leitura ocorre no ensino medio, no
   momento em que se torna um exercicio academico, avaliado em obras
   complexas--classicos entre outros. A leitura obrigatoria com base
   em uma serie de observacoes formais impede qualquer investimento
   pessoal do leitor. O texto e quase sempre um pretexto para a
   implementacao de ferramentas de analise. Portanto, rotina sem alma.

   Na universidade, um formalismo excessivo gera uma leitura erudita e
   eficaz, mas sem corpo. Picard * e J.-M. Delacomptee * denunciam a
   seca deste tecnicismo brilhante, "decodificacao racionalizante",
   que transformam os alunos em "macacos sabios" ... "Um pouco menos
   de ciencia, um pouco mais de consciencia" conclama J.-M.
   Delacomptee.


E possivel, mapear, na Franca, uma serie de titulo de autores importantes que convidam a refletir sobre essa crise. No inicio dos anos 2000, Compagnon publica sua aula inaugural como professor do College de France, intitulada "A literatura, para que?"; * Tzvetan Todorov, alarmadado com os (maus) resultados dos adolescentes nas provas de conclusao do ensino medio, publica o ensaio com o alarmante titulo "A literatura em perigo" * e Pierre Bayard, que se tornou um improvavel best-seller, com o promissor titulo "Como falar dos livros que nao lemos", entendido por varios como um manual de sobrevivencia mundana. * Cada um desses autores envereda por debates distintos, aquele que efetivamente encampa a critica anunciada por Rouxel e Todorov, critica esta que pode ser identificada tambem em uma sequencia de ensaios publicados no Brasil por Leyla Perrone-Moises na primeira decada dos anos 2000. * Ainda que o ensino da literatura nao seja o objeto de nossa discussao aqui, um dos aspectos que essa onda de publicacoes parece poder suscitar como reflexao e que a impossibilidade de se constituir uma teoria do leitor empirico parece implicar sua exclusao como variavel da atividade que, paradoxalmente, so pode se realizar quando da sua atualizacao, que e, contudo, neutralizada na analise. Nao se trata, pois, de fazer teoria da(s) leitura(s) empirica(s), mas reconhecer as possibilidades de abrir as vias de pesquisa a incorporacao dessa variavel para reflexao sobre o ato da leitura.

Tantos Leitores-Modelos quantos leitores empiricos houver?

Se existe aparente interesse pelos trabalhos teoricos na area da leitura literaria na ultima decada de maneira mais acentuada no ponto de vista dos processos dessas leituras, os estudos da linguistica aplicada e da didatica de linguas, (2) ainda que seus objetos sejam distintos, contribuem no sentido de oferecer modelos descritivos das operacoes em jogo no ato da leitura. Nesse sentido, para se tratar de leitura e preciso que se integre a variavel leitor (e seus processos para tratamento da informacao) ao modelo.

Dentre os pesquisadores da area da leitura na area do ensino, * ha relativo consenso quanto a um modelo interativo de compreensao escrita, que entende a leitura como um processo construido sempre por tres variaveis: texto, leitor e contexto. Destacamos aqui, segundo descricao de Giasson, * a variavel leitor. (3) Este trata a informacao em duas instancias, em funcao das estruturas afetivas (percepcao do ato da leitura, projeto de leitura, interesses, etc.) e das estruturas cognitivas (conhecimentos de ordem linguistica e conhecimentos de mundo). O interesse de partir do modelo interativo de compreensao escrita e que devemos, como pesquisadores, considerar as tres variaveis que compoem o modelo para a reflexao. Logo, toda leitura deve ser pensada de acordo com o contexto, a materialidade espacial do lugar onde se le (a sala, luz, pagina, tela) e com sua dimensao social (suas praticas de letramento e o lugar social daquela leitura em particular). Alem disso, ha de se levar em conta o leitor em suas dimensoes afetivas e cognitivas, bem como a especificidade dos textos e dos leitores em questao.

Parece-nos, pois, que o processo da leitura so pode ser considerado se consideradas as estruturas afetivas e cognitivas do leitor, o que implica considerar que toda leitura e social e historicamente inscrita e que a nocao de Leitor-Modelo, altamente dependente da atualizacao realizada por leitores empiricos, nao pode ser uma imanencia no texto, mas sim um espectro que comporta uma gama de Leitor(es)-Modelo(s) de determinado texto.

Propomos aqui a reflexao a proposito da relacao entre leitores empiricos e Leitor(es)-Modelo(s) em um genero textual onde ha investimento textual, em outras palavras, em um genero em que o ponto de vista do leitor seja investido por uma pessoa do discurso, um "tu, leitor" a quem se dirige o "eu, autor", como nos prefacios de autor.

E possivel identificar, nesses textos, um jogo entre a projecao do leitor a quem o texto se dirige, seu destinatario, o Leitor-Modelo (estrategia textual que e constituida pela configuracao desse destinatario), e o leitor empirico, que reconhece, na leitura do prefacio, um destinatario (com quem se identifica ou nao) e um Leitor-Modelo (como repertorio de saberes necessarios e previsiveis para a atualizacao do texto). E importante observar, entretanto, que a representacao do Leitor-Modelo feita pelo do leitor empirico e, em si, uma atividade de leitura e de projecao, pois diferentes leitores empiricos configurarao diferentes Leitores-Modelos em um mesmo texto. Existe, sem duvida, uma materialidade daquilo que e estavel no texto, as configuracoes do Leitor-Modelo, mas elas sao inferencias dos diferentes leitores empiricos.

Bebados muito ilustres, e vos, sifiliticos muito preciosos

Podemos retomar um ilustre exemplo na historia dos prefacios, o prologo do autor de Francois Rabelais a obra Gargantua: * "Bebados muito ilustres, e vos, sifiliticos muito preciosos, pois e a vos, e nao aos outros, que eu dedico meus escritos [...]". (4) O "vos" do prologo e seu destinatario, sim, mas o leitor empirico desse prologo, por sua vez, pode ou encarnar o papel desse destinatario, ou compreender o "vos" como outro (assim como quando se le uma carta da qual nao se e destinatario), um bebado sifilitico a quem o autor se destina, mas que ele, leitor empirico, nao encarna por diferentes razoes: seja pelo intervalo historico que separa a producao e a recepcao da obra Gargantua, se pensarmos em uma leitura atual; seja pela nao identificacao com a imagem de leitor construida pelo texto, por exemplo. Postulamos, com efeito, a hipotese de que o leitor empirico encarne esse "vos" do prologo--uma vez que e, concretamente, seu leitor--, mas que guarde relativo distanciamento em relacao a esse papel. A atualizacao do texto e configuracao do Leitor-Modelo pelo leitor empirico vai ser constituida pela "enciclopedia" * deste, bem como pelos frames, * ou seja, pela forma como esta armazenada sua experiencia de mundo, e tanto a enciclopedia (conjunto de conhecimentos de mundo de que dispoe o leitor) quanto os frames variam em funcao da inscricao socio-historica dos diferentes leitores. E nesse intervalo entre o destinatario construido no prologo e sua atualizacao pelo leitor que se configura o delineamento do Leitor-Modelo. Chamamos, aqui, esse intervalo de texto-tela a partir do conceito de "livros-tela", (5) * "carater projetivo da obra, que se torna receptaculo de fantasmas", "ilusao compartilhada". Nesse sentido, em um genero textual como esses e possivel observar esse fenomeno de forma mais evidenciada, em razao do proprio papel exercido pelos prefacios como paratexto das obras que apresentam.

Assim, textos como os prefacios de autores, em que uma forma mais explicitamente dialogica esta prevista--um "eu, autor" se dirige a um "tu, leitor"--, constituem-se em um espaco interessante para a reflexao a proposito maneira como se articulam as nocoes de destinatario, Leitor-Modelo e leitor empirico.

Com efeito, desde que Gerard Genette publicou seu livro intitulado Seuils * que pode ser traduzido por "Umbrais", "Limiares" ou simplesmente "Paratextos editoriais", e dificil pensar na leitura de um livro sem considerar os elementos conhecidos como paratextuais. Segundo Philippe Lejeune, * e este conjunto que, "na realidade, comanda toda a leitura"; conjunto este, ainda segundo Lejeune, que vai desde o nome de autor, do titulo e subtitulo, passando pelo nome de colecao e nome de editor, ate o que chama de "o jogo ambiguo dos prefacios". E esse jogo presente nos prefacios que faz destes um tipo bastante especifico de paratexto, motivo pelo qual Genette, na obra em questao, dedica a eles, nao apenas um, mas tres dos trezes capitulos que compoem a obra. (6) No capitulo em que define o que chama de "instancia prefacial", Genette, faz inicialmente a seguinte consideracao:
   Chamarei aqui de prefacio, por generalizacao do termo mais
   frequentemente empregado em frances, toda especie de texto liminar
   (preliminar ou pos-liminar) [...], que consiste num discurso
   produzido a proposito do texto que segue ou precede. O "posfacio"
   sera, pois, considerado como uma variedade de prefacio, cujos
   tracos especificos, incontestaveis, parecem-me menos importantes do
   que aquilo que tem em comum com o tipo geral. (7) *


Mais a frente, Genette elenca alguns do que chama de "parasinonimos" do prefacio, onde se encontram termos como "introducao, "noticia", "aviso", "apresentacao", "exame", "preambulo", "anuncio", "preludio", "discurso preliminar", "exordio", e, para o posfacio, "apres-propos", "apres-dire", "post-scriptum" e outros. Essa lista tambem inclui o "prologo", nome que Rabelais da ao texto com que introduz Gargantua. Os prefacios desse autor sao, alias, considerados um marco na historia dos prefacios, como afirma Genette, ao concluir sua "pre-historia" do prefacio:
   Parece-me adequado concluir este sobrevoo sobre o que, ja em plena
   idade do livro impresso, proclama de maneira mais brilhante e mais
   representativa o advento do prefacio moderno: os prologos de
   Rabelais. O de Pantagruel nao passa de uma especie de contrato de
   continuacao em relacao as Grandes Cronicas medievais, perante as
   quais nos oferece "outro livro do mesmo tipo, sendo, contudo, um
   pouco mais justo digno de fe". O de Gargantua e muito mais
   ambicioso, ainda que ambiguo (voltarei a isso): e, como se sabe, o
   convite semi-bufao a uma leitura interpretativa, ao "mais alto
   sentido". Apos esse lance brilhante, a sequencia seria mais dificil
   de negociar, pois seria necessario indefinidamente renovar esse
   convite. (8) *


As consideracoes de Genette nao se atem apenas aos dois primeiros prologos, mas avanca ainda sobre os do Terceiro Livro e o do Quarto Livro, vendo o que cada um dos quatro textos introdutorios de Rabelais tem de especifico. Citamos, aqui, os dois primeiros, sobretudo o de Gargantua, que Genette considera um "lance brilhante" da parte de Rabelais, sobretudo por sua ambiguidade.

Antes, contudo, de se ater as funcoes do prefacio, aspecto para o qual da maior destaque, Genette * comenta aspectos comuns ao genero textual: a forma, geralmente em prosa; o lugar, geralmente no inicio (o que faz do posfacio uma forma mais discreta); o momento em que funcionalmente se exerce sobre o leitor coincide com o momento da publicacao; os destinadores, que podem ser reais ou nao; e ainda os destinatarios, instancia especialmente relevante aqui, pois trata do leitor.

Sobre este destinatario, Genette * comenta que este e o leitor do texto de facto porque, acredita Genette, "o leitor de prefacio ja e necessariamente detentor do livro (le-se menos facilmente um prefacio do que um release numa livraria)". Apesar de essa afirmacao poder ser facilmente contestada, ela faz com que se atente para aspecto de grande relevancia: a materialidade do livro, ou do texto. Basta que o prefacio esteja em outro lugar, como numa antologia ou numa fotocopia em sala de aula, para que esse destinatario se defina de outra forma. De todo modo, o que se anuncia e que a compreensao do prefacio passa, sobretudo, pelo estudo de suas funcoes.

Genette * destaca, logo de inicio, o fato de que cada prefacio, na maioria das vezes, "preenche diversas funcoes sucessivas ou simultaneas", que estariam ligadas a dois grandes temas: o tema do porque--ao qual se ligam as funcoes da importancia, da novidade, da unidade e da veracidade--e o tema do como--ao qual ele vincula as funcoes de genese, escolha de um publico, comentario do titulo, contratos de ficcao, ordem de leitura, indicacoes de contexto, declaracoes de intencao, definicoes genericas e esquivas. Nao se trata aqui de retomar todas as funcoes uma a uma, mas sim de ver em que medida elas iluminam a especificidade do prefacio de autor na maneira como esse configura seu Leitor-Modelo. *

Se, de acordo com Genette (Op. cit.), o leitor do prefacio e o leitor do texto, isso implica dizer que ele encarna, no ato da leitura, o papel do "tu/vos" a quem se dirige o autor, como lemos no prefacio de Rabelais ao Gargantua. Nesse sentido, chama a atencao assertiva de Genette em que declara:
   O prefacio original tem por funcao cardinal garantir ao texto uma
   boa leitura. Essa formula tola e mais complexa do que pode parecer,
   pois compreende duas acoes. A primeira condiciona, sem garantir de
   modo algum, a segunda, como uma condicao necessaria e nao
   suficiente: 1) obter uma leitura e 2) fazer com que essa leitura
   seja boa? *


O que se destaca aqui e, por um lado, certo carater persuasivo do prefacio, que quer, em principio, convencer o leitor a empreender a leitura; e, por outro, um carater, se nao prescritivo, ao menos valorativo, daquilo que deve ser considerado uma boa leitura. Para Genette, contudo, a motivacao a qual se vincula a valoracao nao predomina. Com efeito, ele identifica
   relativo apagamento, desde o seculo XIX, das funcoes de valorizacao
   (argumentos do porque, que alias encontraram, nesse meio tempo,
   outros suportes que nao o prefacio) em beneficio das funcoes de
   informacao e de guia da leitura: temas do como, que apresentam a
   vantagem de pressupor o porque e, portanto, pela virtude bem
   conhecida da pressuposicao, de impor de uma maneira imperceptivel.
   Quando um autor explica com cortesia como voce deve ler seu livro,
   voce ja esta em ma situacao para replicar. (10) *


A questao das indicacoes do como ler sao, portanto, centrais no prefacio, trata-se de, em meio de epor meio desse jogo ambiguo,
   colocar o leitor--definitivamente suposto--em posse de
   informacoes julgadas, pelo autor, necessarias a essa boa leitura. E
   os proprios conselhos tem todo o interesse de se apresentar sob o
   aspecto de informacoes: informacoes, por exemplo--caso possa
   interessar--, sobre a maneira pela qual o autor deseja ser
   lido. (11) *


A questao do "suposto leitor" e aqui central, pois o desafio e ver em que medida o leitor empirico corresponde a esse leitor projetado na e pela obra e, com frequencia, de modo impar nos prefacios, como se pode notar aqui, pois, como afirma Iser a proposito do fenomeno de apreensao de um texto, sua singularidade esta relacionada ao fato de: "sermos pontos de vista movendo-nos por dentro do que devemos apreender"; * mas, como observado, esta nao e sempre uma relacao clara e direta. Ao comentar a "escolha de um publico" por parte do autor, Genette * declara que "os autores tem frequentemente uma ideia bastante precisa do tipo de leitor que desejam e que sabem poder tocar; mas tambem daquele que desejam evitar" e cita, entre outros exemplos, o prologo de Gargantua, enderecado "aos bebados e sifiliticos", como se estes fossem o publico ao qual Rabelais destina seu livro.

Consciente, contudo, da complexidade envolvida nos prologos de Rabelais, Genette, ao comentar as declaracoes de intencao presentes nos prefacios, lembra, primeiramente, que "a mais importante, talvez, das funcoes do prefacio original consiste numa interpretacao do texto pelo autor, ou, caso se preferira, numa declaracao de intencao". * Esta declaracao de intencao, por sua vez, pode ser bastante equivoca. Ao comentar as possiveis intencoes do autor contidas no que chama de "o primeiro prefacio moderno no sentido amplo do termo", isto e, o prologo de Gargantua, Genette declara:
   Lembro somente que Rabelais, apos ter convidado seu leitor a
   superar as promessas alegres do titulo em beneficio de uma
   interpretacao "no mais alto sentido" e de uma "doutrina mais
   dificil de entender", acrescenta imediatamente que essas
   profundezas hermeneuticas correm o risco, como em Homero ou Ovidio,
   de terem escapado ao autor. Que exista ai uma satira aos excessos
   interpretativos da escolastica, e tambem uma manobra para atrair um
   novo publico mais exigente do que aquele de Pantagruel,
   prometendo-lhe tesouros escondidos com os quais ele mesmo, como o
   lavrador de La Fontaine, nao se preocupava de modo algum, nada muda
   na estrategia de conjunto, que consiste em sugerir ao leitor uma
   abordagem interpretativa convidando-o, seja totalmente por acaso, a
   "quebrar o osso". (12) *


O interessante e que, no caso desse texto, que o proprio Genette, na pagina citada, chama de "deliberadamente ambiguo", o convite e para a adocao de uma abordagem interpretativa que, por ser polissemica, faz, como desenvolvido a seguir, com que tanto a imagem do leitor quanto as camadas de sentido a serem reveladas sejam tao moventes e escorregadias a ponto de Genette tomar este prologo como o extremo de uma postura "equivoca" por parte do autor do prologo. E, um texto sem margens precisas, em que o equivoco possa levar o leitor a errar, pode permitir que o leitor de hoje se pense diante do texto.

A ambiguidade construida, as instrucoes de leitura, as expectativas quanto a recepcao, o publico a que se destina e o publico que se rejeita sao todos aspectos que remetem, pois, a situacao de construcao de sentido no texto escrito. Fazer com que leitores discutam esses aspectos implica refletir sobre a constituicao do leitor. Fazer com que essa reflexao se concentre em um prologo no qual impera a ambiguidade, a plasticidade semantica, exige ainda maior investimento interpretativo dos leitores, que sao mais do que convidados a fazer funcionar essa "maquina preguicosa", * mecanismo que depende da atualizacao realizada no ato da leitura.

Os leitores atuais de Rabelais estao diante do que chamo aqui de prologo preguicoso. Mais do que uma maquina, Rabelais oferece uma engenhoca com o manual de instrucoes acoplado ao mecanismo: os sentidos atualizados oferecem indicios daquelas que podem ser as instrucoes. A primeira vista, nao levar a serio um texto que convida a ensinar nada alem do que algo sobre o riso; mas, que fique atento o leitor para tudo de serio que nele esta contido, respaldando seus argumentos em Homero, Socrates e Platao. Como se comportar diante das instrucoes?

As expectativas nesse sentido sao, e a leitura do prologo conduz a essa reacao, de valorizar as referencias a cultura classica como forma de se resolver as charadas construidas, estaria o leitor empirico a altura do Leitor-Modelo projetado pelo texto? Pode ele investir-se, pois, do papel de destinatario de um texto que, tudo indica, nao foi escrito para ele? Seguira, o fiel discipulo, as orientacoes ali contidas? As expectativas sao de ver como operam os maquinistas atuais.

Todo texto quer que alguem o ajude a funcionar

UMBERTO ECO

Rita Jover-Faleiros

UnB

Brasilia, DF, Brasil

(1) "Mutacoes epistemologicas e ensino da literatura: o advento do sujeito leitor".

(2) Em funcao da lingua estrangeira (ou da filiacao teorica a qual se associa o pesquisador), ha tendencia a adocao de uma nomenclatura em detrimento de outra. Assim, parte expressiva das pesquisas relacionadas ao ensino do Frances Lingua Estrangeira (FLE) esta associada a Didatica de Linguas Estrangeiras, enquanto a quase totalidades das publicacoes de mesmo cunho em lingua inglesa esta associada a rubrica "Linguistica Aplicada".

(3) Permitimo-nos, aqui, destacar de forma bastante breve apenas um aspecto do modelo. Para uma descricao completa, consultar http://www.teses.usp.br/teses/ disponiveis/8/8l46/tde-10082007-l60046/pt-br.php

(4) No original: "Buveurs tres illustres, et vous, veroles tresprecieux--car cest a vous, non aux autres, que je dedie mes ecrits [...]".

(5) "[...] livres-ecrans [...] caractereprojectif de Voeuvre, qui devient le receptacle des fantasmes [...]"

(6) O primeiro dos tres capitulos chama-se "A instancia prefacial", no qual faz, alem de uma breve historia das origens do prefacio, uma descricao da forma, do lugar, do momento, dos destinadores e dos destinatarios. O segundo, intitulado "As funcoes do prefacio original", e dedicado aos temas e funcoes desse tipo de prefacio que e o caso do de Gargantua. No terceiro, sobre "Outros prefacios, outras funcoes", discute outras formas de prefacio, que nao dizem respeito aquelas tratadas aqui.

(7) No original: "Je nommerai ici preface, par generalisation du terme le plus frequemment employe en francais, toute espece de texte liminaire (preliminaire oupostliminaire) [...], consistant en un discours produit a propos tu texte qui suit ou qui precede. la << postface >> sera dons considere comme une variante de la preface, dont les traits specifiques, incontestables, meparaissent moins importants que ceux quelle partage avec le type general>>.

(8) No original: "Il me semble que juste clore ce survol sur ce qui, deja en plein age du livre imprime, proclame de la maniere la plus eclatante et la plus representative de l*avenement de la preface moderne: les prologues de Rabelais. Celui de Pantagruel nest quune sorte de contrat de continuation par rapport au Grandes Chroniques, dont il nous ofre "un autre livre du meme billon, sinon quil est un peuplus equitable et digne de foi". Celui de Gargantua est beaucoupplus ambitieux, quoique ambigu (jy reviendrai) cest, comme nul nen ignore, linvitation semi-bouffonne a une lecture interpretative a "plus haut sens". Apres coup d'eclat, la suite sera lus difficile a negocier, car il faudra indefiniment renouveler cette invitation".

(9) No original: "La preface originale a pour fonction cardinale ?'assurer au texte une bonne lecture. Cette formule simplette est plus complexe quil ny peut sembler, car elle se laisse analyser en deux actions, dont la premiere conditionne, sans nullement la garantir, la seconde, comme une condition necessaire et non suffisante: 1. obtenir une lecture et, obtenir que cette lecture soit bonne".

(10) No original: "Un relatif effacement depuis le XIXe siecle, des fonctions de valorisation (arguments du pourquoi, qui ont d>ailleurs, entre-temps, trouve d>autres supports que la preface) au profit des fonctions d'information et de guidage de la lecture: themes du comment, qui presentent l*avantage de presupposer le pourquoi, et donc, para la vertu bien connue de lapresupposition, de limposer d'une maniere imperceptible. Quand un auteur vous explique avec obligeance comment vous devez lire son livre, vous etes deja en mauvaiseposition pour lui repliquer".

(11) No original: "Mettre le lecteur--definitivement suppose--en possession d'informations jugees, par l'auteur, necessaires a cette bonne lecture. Et les conseils eux-memes ont tout interet a sepresenter sous l'aspect d'informations: informations, par exemple--au cas ou cela pourrait vous interesser--, sur la maniere dont lauteur souhaite etre lu".

(12) No original: "Je rappelle seulement que Rabelais, apres avoir invite son lecteur a depasser lespromesses folatres du titre auprofit d'une interpretation 'aplus haut sens' et 'd'une doctrine plus absconse', ajoute aussitot que ces profondeurs hermeneutiques risquent fort, comme celles qu'on veut trouver chez Homere ou Ovide, d'avoir echappe a leur auteur. Qu'il ait la une satire des exces interpretatif de la scolastique, et aussi une manmuvre pour attirer un nouveau public plus exigeant que celui de Pantagruel en luipromettant des tresors caches dont lui-meme, comme le laboureur de La Fontaine, ne se souciait guere, ne change rien a la strategie d'ensemble, qui consiste a suggerer au lecteur une demarche interpretative en l'invitant, fut-ce a tout hasard, a rompre l'os'."

* (GERVAIS, Bertrand e BOUVET, Rachel. Theories et pratiques de la lecture !itteraire. PUQ: Quebec, 2007.)

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* (EcO, Umberto. Lector in fabula. Trad. de Attilio cancian. Sao Paulo: Perspectiva, 1985.)

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* (PERRONE-MOISES, Leyla. Inutil poesia. Sao Paulo: companhia das Letras, 2000: 345; "Literatura para todos". Literatura e Sociedade, n. 9. Sao Paulo: Universidade de Sao Paulo/ Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas/ Departamento de Teoria Literaria e Literatura Comparada, 2006; "O ensino da literatura". In: NITRINI, Sandra et al. Literatura, artes e saberes. Sao Paulo: Abralic/ Hucitec, 2008.)

* (DUMORTIER, Jean-Louis. Lire le recit de fiction. Bruxelles: De Boeck, 2001.)

* (GIASSON, Jocelyne. La comprehension en lecture. Bruxelas: De Boeck, 1990.)

* (RABELAIS, Francois. Gargantua. Paris: Pockets classiques, 1992 [1534]: 35.)

* (EcO, op. cit.: 39.)

* (Idem.)

* (BAYARD, op. cit.: 52-53.)

* (GENETTE, Gerard. Seuils. Paris: Seuil, 1987.)

* (LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique. Paris: Seuil, 1975:45.)

* (GENETTE, op.cit.: 164)

* (Ibidem:172)

* (Op. cit.)

* (Ibidem: 197.)

* (Ibidem: 200.)

* (ECO, op.cit.)

* (GENETTE, op. cit.: 200)

* (GENETTE, op. cit.: 212. Grifo do autor.)

* GENETTE, op. cit.: 200.

* (ISER, Wolfgang. O ato da !eitura. Trad. de Johannes Kreschmer. Sao Paulo: Editora 34, 1999: 12.)

* (GENETTE, op. cit.: 216.)

* (Ibidem: 224.)

* (Ibidem: 225.)

* (ECO, op. cit.: 37.)

Rita Jover-Faleiros, bacharel, mestre e doutora em Lingua e Literatura Francesa pela Universidade de Sao Paulo, e professora adjunta de Lingua Francesa na Universidade de Brasilia, onde desenvolve pesquisa na area da leitura e do ensino leitura literaria em contexto de formacao em Frances Lingua Estrangeira (FLE). Publicacoes recentes: JOVER-FALEIROS, Rita. "Leitura Literaria e Ensino do Frances Lingua Estrangeira: consenso teorico, ausencia na pratica?" Fragmentos (UFSC), v. 1, p. 163-177, 2012. JOVER-FALEIROS, Rita. "Problemas de leitura e problemas com a leitura: nocoes para a abordagem da leitura em contexto de ensino/aprendizagem de FLE". In: Cristina Pietraroias; Heloisa Albuquerque-Costa. (Org.). O ensino da lingua francesa em contexto(s). O ensino da lingua francesa em contexto(s). Sao Paulo: Editora Paulistana, 2012, v. 1 JOVERFALEIROS, Rita. Paratextos em dialogo com o leitor: o prefacio como construcao dos parametros de recepcao do texto. In: IV Simposio Internacional de Linguistica da Cruzeiro do Sul, 2011, Sao Paulo. Anais do IV Seminario Internacional de Linguistica: Discurso, Genero e Memoria. Sao Paulo: Terracota, 2011. v. 1. joverfaleiros@unb.br
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Jover-Faleiros, Rita
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:Jul 1, 2012
Words:5170
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