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Predictors of Postponement of Retirement by Federal Public Servants/Preditores do adiamento da aposentadoria por servidores publicos federais/Predictores del aplazamiento de la jubilacion por servidores publicos federales.

Introducao

O prolongamento da vida de trabalho tem se caracterizado como uma das principais respostas politicas para o envelhecimento populacional e aumento da longevidade. No ambito internacional, governos e empregadores estao buscando estrategias para persuadir os trabalhadores a trabalharem mais tempo, podendo-se citar o aumento da idade de aposentadoria, a proibicao da aposentadoria compulsoria (e.g., USA, Canada, Australia), o combate ao ageismo (estereotipos, preconceitos e discriminacao contra os mais velhos), ou mesmo politicas em prol do envelhecimento ativo (Ekerdt, 2010; Phillipson, 2013; Wood, Robertson & Wintersgill, 2010; Zappala, Depolo, Fraccaroli, Guglielmi & Sarchielli, 2008).

Em meio a essas transformacoes socioeconomicas, a transicao trabalho-aposentadoria encontra-se meio imprecisa, podendo avancar o limite estabelecido de idade cronologica ou numero de anos trabalhados, a depender de um timing pessoal. Consequentemente, ha uma repercussao no meio cientifico em compreender a decisao de estender a vida de trabalho, caracterizada pelo bridge employment (trabalho apos a aposentadoria) ou pela aposentadoria tardia (Flynn, 2010; Menezes & Franca, 2012; Zappala et al., 2008). Este artigo se insere nesta ultima tematica, com o objetivo de examinar fatores relacionados ao trabalho que sao preditores da intencao de continuar trabalhando alem do tempo obrigatorio de contribuicao.

Partimos especificamente do prolongamento do trabalho no contexto do servico publico brasileiro. O setor publico e um setor competitivo, mas atrativo para os trabalhadores por oferecer diversidade de cargos, estabilidade, boas condicoes de trabalho, perspectiva salarial e de carreira profissional (Albrecht & Krawulski, 2011). O emprego do setor publico corresponde a cerca de 11% do total de empregos no Brasil, cujos trabalhadores estao envelhecendo mais rapido (Organizacao de Cooperacao e Desenvolvimento Economicos [OCDE], 2010). Por exemplo, no ambito federal, enquanto 56,5% do total de servidores na ativa ja estao acima de 41 anos, cerca de 35% do total estao acima de 51 anos (Painel Estatistico de Pessoal [PEP], 2018). Encaminha-se para a idade minima de aposentadoria que, atualmente, e de 60 anos para homens e 55 anos para mulheres e requer tempo minimo de contribuicao de 35/30 anos, respectivamente, ressalvadas algumas categorias profissionais (Emenda Constitucional no. 41, 2003).

A politica de gestao de pessoas sugerida para fazer face ao envelhecimento inclui estrategias para manter os trabalhadores mais velhos alem da idade de aposentadoria, principalmente servidores-chave, evitando grandes perdas de memoria institucional (OCDE, 2010). A reforma da previdencia com aumento da idade minima e do periodo de contribuicao tambem e recomendada (OCDE, 2010) e encontra-se em discussao. Medidas como a alteracao do limite de idade para a aposentadoria compulsoria de 70 para 75 anos (Lei Complementar no. 152, 2015) ja foram implementadas, alem do abono de permanencia, um beneficio equivalente ao valor da contribuicao previdenciaria, pago ao servidor que tiver preenchido as exigencias para aposentadoria voluntaria e opte por permanecer em atividade (Emenda Constitucional no. 41, 2003). Schettini, Pires & Santos (2018) apontam que, um quarto dos atuais servidores estao elegiveis a aposentadoria e, dentre as razoes pelas quais esse grupo tem optado por continuar trabalhando, o abono de permanencia constitui o principal incentivo financeiro.

No Brasil, pesquisas sobre a postergacao da aposentadoria sao recentes e assinalam as razoes financeiras como um dos motivos para o adiamento (Ribeiro, 2012; Pires et al., 2013). No entanto, Menezes & Franca (2012) nao observaram relacao com financas em um estudo com 148 servidores federais, indicando a partir de analises de regressao logistica que idade, controle do trabalho (autoridade de decisao sobre o proprio trabalho), percepcao do trabalho (satisfacao e envolvimento) e flexibilidade de horario sao preditores da decisao de postergar a aposentadoria, sendo os dois ultimos tambem preditores do trabalho apos a aposentadoria.

Embora o incentivo financeiro seja apontado entre os melhores preditores da aposentadoria tardia (Tuominen, Karisalmi, Takala & Kaliva, 2012), o trabalho nao se restringe a um meio de sobrevivencia. Estudos classicos revelam que a maioria das pessoas trabalharia mesmo que nao houvesse necessidades economicas, ressaltando que essa atividade preenche outras funcoes (Harpaz, 2002; Morse & Weiss, 1955; Mow, 1987). Assim, o que torna o trabalho atrativo de forma que trabalhadores mais velhos optem por permanecer trabalhando? A literatura tem destacado uma variedade de fatores pessoais e relacionados ao trabalho que influenciam essa decisao (Flynn, 2010; Franca, Menezes, Bendassolli & Macedo, 2013), indicando ainda maior preponderancia daqueles relacionados ao trabalho (Tuominen et al., 2012).

Varios estudos tem associado razoes intrinsecas do trabalho a decisao trabalho-aposentadoria como, por exemplo, o grau de autonomia (Flynn, 2010), flexibilidade (Barnes, Parry & Taylor, 2004; Pengcharoen & Shultz, 2010; Shacklock, 2006; Winkelmann-Gleed, 2012), a satisfacao com o trabalho (Smeaton & McKay, 2003), identificacao com o trabalho (Barnes et al., 2004), a importancia e a centralidade do trabalho (Post, Schneer, Reitman & Ogilvie, 2013; Tuominen et al., 2012; Zappala et al, 2008) e o significado do trabalho (Shacklock, 2006; Shacklock & Brunetto, 2011).

O projeto Meaning of Work (1987) propos um modelo teorico do significado do trabalho de tres dimensoes, se tornando uma referencia-chave nessa area de pesquisa. As dimensoes sao: (1) variaveis antecedentes (situacao pessoal e familiar, historia da carreira e do emprego atual, e ambiente macro socioeconomico), (2) variaveis centrais do significado do trabalho (centralidade do trabalho como um papel da vida, normas sociais sobre o trabalho, resultados valorizados do trabalho, importancia das metas do trabalho e identificacao com o papel laboral) e (3) variaveis consequentes do significado do trabalho (resultados objetivos do trabalho e expectativas subjetivas sobre situacoes futuras de trabalho) (MOW, 1987).

Segundo a Equipe MOW (1987), os trabalhadores, em suas escolhas relativas ao trabalho, sao atraidos para diferentes direcoes por tres tipos de preferencias: a remuneracao, caracteristicas intrinsecas do trabalho (e.g., autonomia, variedade, um trabalho interessante e ajustado com as habilidades do individuo) e o tempo disponivel fora do trabalho. Para optar entre elas, fazem avaliacoes e compensacoes em termos de perdas e ganhos, elegendo preferencias e escolhas, que por sua vez, estao relacionadas aos seus valores e significado do trabalho.

Shacklock & Brunetto (2011) utilizaram a estrutura teorica do modelo de significado do trabalho desenvolvido pela equipe MOW (1987), propondo melhor esclarecimento de uma das variaveis consequentes desse modelo: as expectativas subjetivas sobre situacoes futuras de trabalho. Essa variavel diz respeito a importancia de trabalhar, as caracteristicas desejaveis do trabalho e a quantidade de tempo que deve ser dedicada ao mesmo. Desenvolveram para isso a escala Older Worker's Intention to Continue Working (OWICW), validando-a com trabalhadores de uma grande organizacao do setor publico em Queensland, Australia.

Inspirada nesse estudo, esta pesquisa busca ampliar o dialogo sobre essa tematica a partir de dados oriundos do contexto brasileiro. Examina-se que fatores relacionados ao trabalho predizem a intencao de trabalhadores do servico publico federal, em fim de carreira, continuarem trabalhando, preferindo o adiamento da aposentadoria. Estende-se ainda a investigacao explorando o papel do recebimento do abono nessa preferencia. Intenciona-se, assim, identificar o que os trabalhadores mais velhos buscam no trabalho e na acao do trabalhar, ou seja, suas expectativas e o significado que atribuem ao trabalho.

Metodo

Delineamento

Trata-se de um estudo transversal e descritivo, realizado por meio de um survey, tipo correlacional, utilizando como instrumento de coleta um questionario on-line, auto-administrado. Os pesquisadores disponibilizaram o questionario via e-mail aos servidores que atendiam aos criterios de inclusao: ser servidor ativo permanente, fazendo jus a aposentadoria ou estando ate cinco anos antes do tempo previsto. O e-mail foi fornecido por responsavel pela gestao de pessoas da instituicao. O acesso ao questionario dependia da anuencia do servidor ao termo de compromisso. O estudo foi aprovado pelo Comite de Etica, caae 08938412.6.0000.5537, seguindo a todos os aspectos eticos e diretrizes dispostas na Resolucao CNS 466/12. Ao termino, uma devolutiva da pesquisa foi encaminhada aos participantes.

Participantes

Participaram 283 servidores de uma universidade federal do nordeste brasileiro, do sexo masculino (n = 109) e feminino (n = 174), dentre os quais 36.4% eram docentes e 63.6% tecnico-administrativos (TAS). Embora a formacao da amostra tenha sido intencional e por conveniencia, a relacao encontrada entre docentes e tas representou proporcionalmente bem a distribuicao total de servidores da instituicao. A idade dos participantes variou de 48 a 69 anos (M = 56.8; DP = 5.1) e a media do tempo de contribuicao foi de 34 anos (DP = 4.4). A maior parte informou ser casado ou estar em uniao estavel (65%) e declarou receber abono de permanencia (62.5%), encontrando-se, pois, em situacao de adiamento da aposentadoria. O nivel de escolaridade foi elevado, com 71% ja tendo cursado alguma pos-graduacao.

Instrumento

O questionario on-line possuia duas partes: a escala OWICW, de Shacklock e Brunetto (2011), e uma ficha de dados socio demograficos contemplando sexo, cargo, situacao conjugal, escolaridade, tempo de contribuicao a previdencia, recebimento de abono, idade planejada para aposentadoria e auto-percepcao quanto ao proprio ajustamento na aposentadoria.

A OWICW e uma escala numerica constituida por 31 afirmativas, em formato Likert, com gradacoes de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente), sendo grande parte delas elaborada a partir do MOW (1987). Os itens se agrupam em sete fatores: vinculo com o trabalho, importancia do trabalho, relacionamentos interpessoais, autonomia, condicoes flexiveis, gestao e fatores organizacionais (aspectos do ambiente e relacao supervisor-subordinado) e interesses fora do trabalho. O estudo original ocorreu com 379 funcionarios (> 50 anos), apresentando propriedades psicometricas confiaveis ([alpha] > 0.70) (Shacklock & Brunetto, 2011). Nao foram evidenciadas informacoes sobre sua aplicacao em outras localidades.

A OWICW foi disponibilizada pelas autoras, sendo submetida previamente a adaptacao transcultural e avaliacao da estrutura fatorial para atender aos objetivos deste estudo. Por se tratar da primeira aplicacao em contexto brasileiro, foi realizada uma analise fatorial exploratoria (AFE) com o metodo de fatoracao dos eixos principais (direct oblimin), suprimindo os itens com carga fatorial inferior a 0.4. A fatorabilidade dos dados disponiveis foi confirmada (KMO = 0.83; Teste de esfericidade de Bartlett = 3882.826;p < 0.001).

A versao adaptada apresentou estrutura fatorial relativamente similar para cinco dos sete fatores da estrutura original, havendo como diferencial a subdivisao do fator Interesses Fora do Trabalho em dois, formando um fator separado denominado de influencia familiar. A escala com 24 itens (carga fatorial de 0.43 a 0.87) ficou agrupada em seis fatores explicando 58.5% da variancia total. O [alpha] de Cronbach total da escala foi de 0.87.

Os fatores encontrados foram: (1) Autonomia ([alpha] = 0.83), sobre a percepcao de liberdade na efetivacao das proprias ideias e decisao de como fazer o seu trabalho; (2) Interacao Interpessoal ([alpha] = 0.89), avaliando beneficios relativos aos contatos sociais no trabalho; (3) Interesses Fora do Trabalho ([alpha] = 0.83), se ha um relacionamento opositor entre outras areas da vida (desenvolvimento espiritual, interesses comunitarios, lazer, hobbies, amigos) e a continuidade do trabalho; (4) Flexibilidade ([alpha] = 0.80), acerca da possibilidade de trabalhar meio periodo ou ocasionalmente, poder controlar e escolher as horas de trabalho sem dar satisfacao a outros; (5) Influencia Familiar ([alpha] = 0.84), sobre a influencia do conjuge ou de interesses familiares; e por fim, (6) Vinculo com o Trabalho ([alpha] = 0.69), investigando sobre a importancia e a identificacao do sujeito com o trabalho.

Variavel criterio. A principal variavel criterio, a intencao de continuar trabalhando, foi medida pela afirmativa "eu quero continuar no trabalho remunerado". Para melhor elucidar essa intencao, duas afirmativas foram acrescentadas na versao brasileira: "eu vou querer adiar a aposentadoria e permanecer no emprego atual", e "eu vou querer me aposentar do emprego atual e trabalhar em outro lugar".

Adicionalmente, tambem foi mensurada a intencao de aposentar-se utilizando quatro afirmativas que relacionavam a intencao de parar o trabalho remunerado ao desejo de: passar mais tempo com o conjuge e com a familia, ter menos pressao e prazos a cumprir, e ter mais escolhas e maior flexibilidade. Neste estudo, o [alpha] de Cronbach destes itens foi de 0.79. Com os escores estimados pela media de pontos atribuidos a essas questoes foi originada uma quarta variavel-resultado: "eu vou querer parar o trabalho remunerado".

Procedimentos de analise dos dados

Dos 320 questionarios obtidos foram considerados validos apenas os sem missings, ou seja 283, sendo analisados com o auxilio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). A ocorrencia de problemas de normalidade na distribuicao dos dados, verificada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov (p < 0.05), conduziu a escolha de analises nao parametricas.

Para examinar os preditores da intencao de continuar trabalhando foram construidos modelos de regressao logistica multipla entre os fatores e as variaveis de saida. A regressao logistica e uma tecnica mais flexivel por nao considerar a hipotese de normalidade e linearidade entre as variaveis. Seus resultados sao interpretados a partir do valor Exp b das variaveis preditoras, que indica que quando

0 previsor aumenta uma unidade, as chances de a variavel de saida ocorrer tambem aumentam (Exp b > 1) ou diminuem (Exp b < 1). Apresenta ainda, a estatistica Nagelkerke [R.sup.2] que e semelhante ao [R.sup.2] do modelo de regressao multipla linear. O metodo de regressao empregado foi o Stepwise Backward Likelihood Ratio (Tabachnick & Fidell, 2006; Field, 2009).

Os escores dos participantes para cada fator foram estimados com base na media dos pontos atribuidos aos itens que o constituiam. Como as variaveis de saida eram afirmativas em formato Likert de sete pontos, cada uma delas foi transformada em uma variavel binaria (discordo vs. concordo) na planilha de dados. Os participantes que declararam algum grau de concordancia (valores de 5 a 7) tiveram o escore computado como "1", e os que nao declararam essa opiniao (valores de 1 a 4) foram considerados como "0".

Os dados socios demograficos foram utilizados para caracterizar a amostra e segmenta-la, explorando diferencas entre grupos (teste U, de Mann-Whitney). O tamanho do efeito relatado se baseia na classificacao de Cohen (1988, 1992, citado por Field, 2009) onde: r = 0.10 (efeito pe queno), r = 0.30 (efeito medio), e r = 0.50 (efeito grande). Para todas as analises realizadas, considerou-se como nivel de significanciap < 0.05.

Resultados

Nesta secao, apresenta-se os resultados concernentes ao topico desse estudo: a identificacao de fatores relacionados ao trabalho que sao atrativos e explicam a intencao de continuar trabalhando alem do tempo obrigatorio de contribuicao. Essa intencao foi investigada em duas direcoes: do adiamento da aposentadoria e permanencia no emprego atual, ou do trabalho apos a aposentadoria. Complementarmente, explora-se a relacao entre esses fatores e a intencao de aposentar-se. Por ultimo, situa-se os resultados descritivos e de diferenca entre medias das intencoes, relacionados aos dados socios demograficos dos participantes.

Intencao de continuar trabalhando

Para examinar que fatores relacionados ao trabalho poderiam melhor explicar a intencao de continuar trabalhando, foi conduzida uma analise de regressao logistica com a variavel criterio "eu quero continuar no trabalho remunerado". Os resultados dessa analise sao apresentados na tabela 1.

Explorando os relacionamentos entre as variaveis, somente quatro fatores (autonomia, interacao interpessoal, interesses fora do trabalho e vinculo com o trabalho) apresentaram escores significativos (p < 0.01) com potencialidade de contribuicao para o modelo. Porem, verificou-se a inclusao do fator Flexibilidade como preditor no modelo construido sem que o mesmo fosse correlacionado diretamente com a intencao de continuar trabalhando (p = 0.72).

Detectando que a remocao desse fator afetaria negativamente a habilidade preditiva do modelo (p = 0.004), e descartada sua permanencia como resultado de multicolinearidade entre as variaveis previsoras, foi observado que seu surgimento ocorria apenas em interacao com o fator Autonomia, aumentando significativamente (p = 0.019) a variancia de explicacao de 12% para 15% (Nagelkerke [R.sup.2]). Assim sendo, identificou-se que o fator Flexibilidade atuava com um efeito moderador no modelo de predicao em interacao com o fator Autonomia.

Na analise executada, associando o fator Flexibilidade aos quatro fatores que apresentaram escores significativos, dois modelos de predicao foram construidos. O Modelo 2, com a estatistica da razao de verossimilhanca apresentando [chi square] (4) = 44.21; p < 0.001, foi o que melhor identificou os fatores relacionados a intencao de continuar trabalhando explicando 20.3% (Nagelkerke [R.sup.2]) da variancia. O modelo encontrado classificou corretamente 72% dos participantes (destes, 89.6% que concordaram e 34.4% dos que discordaram), explicando melhor os que manifestaram a intencao de continuidade. O teste de Hosmer & Lemeshow nao significativo (p > 0.05) indicou bom ajuste do modelo.

Em sintese, os resultados do Modelo 2 (tabela 1) indicaram que uma maior percepcao de autonomia no trabalho (p < 0.001), de beneficios da interacao interpessoal (p = 0.022), e interesses fora do trabalho (p = 0.013), tornam os individuos de 30 a 52% mais propensos a decidir por continuar no trabalho remunerado, dado certo nivel de flexibilidade (p = 0.006). O fator Vinculo com o Trabalho nao se mostrou um previsor significativo no contexto da analise multivariada, mas isoladamente torna 34% mais provavel a intencao de continuar no trabalho remunerado com [beta] = 0.296 (EP = 0.112), p = 0.008; Exp b = 1.34; IC 95% [1.08; 1.68].

Adiar a aposentadoria e/ou trabalhar apos a aposentadoria. Para esclarecer sobre os fatores preditivos da intencao do adiamento, foi conduzida uma analise de regressao logistica com a variavel criterio "eu vou querer adiar a aposentadoria e permanecer no emprego atual". Os resultados dessa analise sao apresentados na tabela 2.

Inicialmente, apenas dois fatores apresentaram escores com potencialidade de contribuicao para o modelo: autonomia (p < 0.05) e interacao interpessoal (p < 0.01). Diante da potencialidade do conjunto de variaveis, atestado pelo valor da estatistica global (p < 0.01), utilizou-se como criterio de inclusao nesta analise as variaveis cujo valor descritivo de significancia do teste fosse menor que 0.20 (Hosmer & Lemeshow, 2000, citado por Tabachnick & Fidell, 2006). Com esse procedimento, mais dois fatores foram incluidos (flexibilidade e vinculo com o trabalho) mantendo a significancia de p da estatistica global.

Com a combinacao desses quatro fatores, dois modelos de predicao foram construidos. O Modelo 2, com a estatistica da razao de verossimilhanca [chi square] (3) = 16.41; p = 0.001, foi o que melhor identificou os previsores da intencao de adiar a aposentadoria e permanecer no emprego atual, explicando 7.6% (Nagelkerke [R.sup.2]) da variancia dessa intencao.

O Modelo 2 obteve bom ajuste (Hosmer & Lemeshow comp > 0.05) nao apresentando nenhum outlier, e classificou corretamente 64.7% da amostra. Destes, previu 89,1% com intencao de adiamento e 25.7% dos que nao manifestaram essa intencao. Os resultados indicaram que a combinacao das variaveis autonomia (p = 0.033) e flexibilidade (p = 0.006) (tabela 2) torna o individuo 24% mais propenso a adiar a aposentadoria e permanecer na organizacao, a depender do nivel de flexibilidade percebida. A aspiracao por maior flexibilidade (media > 5) reduz as chances de ocorrencia do adiamento em 22%.

Embora o fator Interacao Interpessoal no Trabalho tenha isoladamente sido apresentado como preditor com [beta] = 0.248 (EP = 0.092), p = 0.007; Exp b = 1.28; IC 95% [1.07; 1.54], nao alcancou significancia estatistica na analise multivariada (p = 0.52). O fator Vinculo com o Trabalho nao contribuiu para este modelo.

Expandindo essa investigacao a fim de explorar o impacto do incentivo financeiro (abono de permanencia) para a decisao do adiamento, realizou-se uma nova analise de regressao, adicionando uma variavel categorica sobre o recebimento do abono (0 = nao; 1 = sim). Em comparacao com a analise anterior, o novo modelo, que apresentou [chi square] (4) = 37.87; p < 0.001, aumentou o poder de explicacao da variancia da decisao de adiamento de 7.6% para 17% (Nagelkerke [R.sup.2]). Classificou corretamente 66.4% dos participantes, sendo 81% dos que tinham a intencao de adiamento, aumentando a previsao dos que nao manifestaram essa intencao para 43.1%. Tendo igualmente apontado a autonomia e flexibilidade como preditores, essa analise acrescentou que o recebimento do abono de permanencia, com [beta] = 1.22 (EP = 0.27), p < 0.001; Exp b = 3.39; IC 95% [2.00; 5.74], torna os participantes 3.39 vezes mais provaveis de adiar a aposentadoria, enquanto que o nao recebimento reduz aproximadamente em 70% as chances de adiamento.

Para esclarecer sobre os fatores preditivos da intencao de trabalhar apos a aposentadoria, foi utilizada a variavel criterio "eu vou querer me aposentar do emprego atual e trabalhar em outro lugar". Embora cinco fatores (autonomia, interacao interpessoal, interesses fora do trabalho, flexibilidade e influencia familiar) tenham apresentado escores com significancia menor que 0.20 (Hosmer & Lemeshow, 2000, citado por Tabachnick & Fidell, 2006), a estatistica qui-quadrado dos residuos (p > 0.05) informou a impossibilidade de um modelo significativo de previsao. Selecionando apenas tres fatores (interesses fora do trabalho, influencia familiar e autonomia), que apresentaram valor de p de 0.01 a 0.07, se tornou possivel a construcao de um modelo (p = 0.038).

Entretanto, como a analise considera como referencia o evento com maior numero de participantes, em vez de se obter os preditores da intencao de trabalhar apos a aposentadoria (n = 94), obteve-se os preditores da intencao de nao trabalhar apos a aposentadoria (n = 189). Os resultados das analises foram semelhantes ao utilizar o metodo Backward ou Forward, optando-se por relatar esse ultimo pela simplicidade da descricao.

Apenas um unico modelo foi construido com bom ajuste (Hosmer & Lemeshow comp > 0.05) e sem outliers, apresentando estatistica da razao de verossimilhanca [chisquare] (1) = 6.88;p < 0.01. O fator Interesses Fora do Trabalho, isoladamente, explica 3.3% (Nagelkerke [R.sup.2]) da variancia dessa intencao com [beta] = 0.223 (EP = 0.086), p = 0.01; Exp b = 1.25; IC 95% [1.06; 1.48]. Esse dado indica que, a cada aumento desse previsor em uma unidade, a chance de nao trabalhar apos a aposentadoria aumenta em 25%.

Aposentar-se e parar o trabalho remunerado

Complementarmente, a existencia de previsores da intencao de parar o trabalho remunerado foi explorada realizando-se uma regressao logistica com uma quarta variavel criterio "eu vou querer parar o trabalho remunerado para...". Tal medida explora razoes que justificariam a intencao de aposentar-se relacionada ao desejo de ter mais tempo para os relacionamentos familiares, ter mais escolhas, maior flexibilidade e liberdade do trabalho (pressao e prazos), permitindo verificar a congruencia de outras respostas dos participantes. Os resultados dessa analise sao apresentados na tabela 3.

Todos os seis fatores foram incluidos no modelo de investigacao por apresentarem nivel de significancia entre 0.001 e 0.076 e estatistica global com p < 0.001 (Hosmer & Lemeshow, 2000, citado por Tabachnick & Fidell, 2006). Durante a analise, foram construidos dois modelos de predicao (tabela 3), sendo o Modelo 2, com a estatistica da razao de verossimilhanca apresentando [chi square] (5) = 48.34; p < 0.001, o que melhor identificou os previsores influentes da decisao de parar o trabalho remunerado, explicando 20.9% (Nagelkerke R Square) da variacao dessa intencao.

O Modelo 2 classificou corretamente 66.4% do total de predicoes, sendo destas 72.1% dos que declararam intencao de parar o trabalho re munerado e 60.3% dos que nao declararam essa intencao. Apresentando um bom ajuste (Hosmer & Lemeshow com p > 0.05), os resultados mostraram que a influencia familiar (p = 0.002) torna 28% mais provavel a intencao de parar o trabalho remunerado. Semelhantemente, a flexibilidade (p = 0.001), intensificada pela aposentadoria, tambem aumenta a chance dessa intencao em 36%. Coerentemente com o modelo construido sobre a intencao de continuar trabalhando, os beneficios dos relacionamentos interpessoais no trabalho e uma maior percepcao de autonomia reduzem a intencao de aposentar-se em 19% e 31%, respectivamente.

O fator interesses fora do trabalho apresentou um potencial de relacionamento positivo para essa decisao, mas nao alcancou a significancia estatistica (p = 0.85) na analise multivariada. Os intervalos de confianca desse fator cruzam a unidade (1) indicando certa instabilidade da direcao desse relacionamento na populacao, podendo tanto ser negativa (Exp b < 1) quanto positiva (Exp b > 1).

Variaveis socio demograficas e a intencao de continuar trabalhando

Do ponto de vista descritivo, a maioria dos participantes desta pesquisa (68.2%) declararam intencao de continuar no trabalho remunerado alem do tempo obrigatorio de contribuicao. Porem, esta intencao tende mais ao adiamento da aposentadoria e permanencia na propria organizacao (61.5%) do que a trabalhar em outro lugar apos a aposentadoria (33.2%).

Analises bivariadas com o teste U de Mann-Whitney revelaram diferencas significativas quanto a intencao de continuar ou parar de trabalhar. Individuos que discordaram quanto a um facil ajustamento na aposentadoria apresentaram maior intencao de continuar trabalhando (U = 6847.50; r = -0.21) e maior intencao de adiar a aposentadoria (U = 6033.50; r = -0.28) do que os que acreditavam em um facil ajustamento. Esses efeitos foram relatados como significativos a p [less than or equal to] 0.001 (bicaudal).

Por sua vez, os participantes que concordaram com um facil ajustamento na aposentadoria apresentaram maior intencao de parar o trabalho remunerado do que aqueles que discordaram (U = 7075; r = -0.18). Semelhantemente, os participantes casados ou que se encontravam em uniao estavel apresentaram maior intencao de parar o trabalho remunerado, diferindo dos que nao possuiam parceiros (U = 7086; r = -0.18). Esses efeitos foram relatados como significativos a p < 0.01 (bicaudal).

Ja os servidores que recebem o abono de permanencia tem maior intencao de adiar a aposentadoria do que os que nao recebem (U = 6941; p < 0.001 bicaudal; r = -0.22). Com relacao ao sexo, os dados apontam que os servidores homens apresentaram maior intencao de trabalhar apos a aposentadoria, diferindo estatisticamente das mulheres (U = 7615.50; p < 0.01 bicaudal; r = -0.17).

Tambem foi observado que os docentes (Md = 65) planejam se aposentar com mais idade do que os TA (Md = 60) (U = 5397; r = -0.34) e planejam parar de trabalhar em qualquer trabalho remunerado com mais idade (Md = 70) do que os TA (Md = 65) (U = 5332.50; r = -0.32), sendo esses efeitos relatados ao nivelp < 0.001 (bicaudal).

Discussao

Os resultados revelam que a maioria dos participantes tem a intencao de continuar no trabalho remunerado alem do periodo de contribuicao obrigatoria. Mas, para a populacao estudada, a tendencia de prolongamento da vida laboral se refere mais ao adiamento da aposentadoria e permanencia na instituicao atual do que ao trabalho apos a aposentadoria. Como a maioria dos participantes ja se encontram em situacao de adiamento, trata-se de uma decisao concretizada e nao apenas de uma intencao. Para facilitar a compreensao do leitor, os modelos construidos pela regressao logistica foram sintetizados em uma figura identificando os preditores encontrados.

A constatacao do abono de permanencia como um preditor importante vem reforcar a influencia financeira sobre as escolhas relativas ao trabalho, ja apontada na literatura (e.g., Barnes et al., 2004; Flynn, 2010). MOW (1987) igualmente destaca o "papel da remuneracao como um reforco condicionado generalizado" (p. 156). Percebemos assim, correspondentemente ao encontrado por Tuominen et al. (2012), que o incentivo financeiro tem se mostrado uma politica eficaz a aposentadoria tardia.

Mesmo assim, caracteristicas desejaveis do trabalho devem ser possibilitadas. Para os trabalhadores mais velhos, os valores que tornam o trabalho atrativo, interessante e gratificante nessa etapa de vida, fazendo parte de suas expectativas subjetivas, sao um trabalho que permita a autonomia pessoal, oportunize a interacao interpessoal, ofereca uma flexibilidade razoavel e esteja atrelado a outros interesses fora do trabalho. Ao apontar essas caracteristicas intrinsecas como desejadas, eles evidenciam que consideram o trabalho uma das vias de acesso a satisfacao dessas necessidades.

Os dois fatores iniciais, a autonomia e a interacao interpessoal, aparecem aumentando significativamente a chance de continuar trabalhando, e congruentemente, reduzindo as chances de parar o trabalho remunerado. A autonomia se refere a liberdade de tomar decisoes relativas ao exercicio das funcoes e na realizacao de tarefas. Particularmente, foi o aspecto atrativo que mostrou maior associacao, sendo consistente como preditor da intencao de continuar no trabalho remunerado e da decisao de adiamento e permanencia no vinculo atual. A importancia desse fator ja foi observada por outros autores (Harpaz, 2002; Morin, 2001; Shacklock, 2006), sendo ate considerada um dos valores universais do trabalho diante da proporcao de pessoas que preferem essa caracteristica (Mow, 1987).

O segundo fator corrobora que relacionamentos interpessoais positivos no trabalho tornam mais provavel a intencao de continuar trabalhando. A oportunidade de manter contato com pessoas no trabalho e apontada como uma das perdas na aposentadoria e uma das razoes de continuidade laboral (Barnes et al., 2004; Franca & Vaughan, 2008; Morin, 2001; Morse & Weiss, 1955; Mow, 1987; Pires et al., 2013; Winkelmann-Gleed, 2012), enquanto o baixo nivel de relacoes interpessoais no trabalho prediz a descontinuidade (Harpaz, 2002).

A importancia desse fator pode estar relacionada ao fato que, para alguns, a necessidade de contatos e relacionamentos interpessoais sao mais preenchidas no ambiente de trabalho do que no ambiente externo, como sugerido por Harpaz (2002). Outra consideracao a esse respeito e levantada no estudo de Morin (2001), que indica as experiencias satisfatorias de interacao humana no trabalho como uma das caracteristicas de um trabalho que tem sentido, contribuindo nao somente para o desenvolvimento da identidade pessoal e social, como tambem para a transposicao de questoes existenciais referentes a solidao e morte.

O terceiro fator que contribuiu com o modelo e o da flexibilidade (trabalhar meio periodo, poder escolher e controlar as horas de trabalho). Embora seja apontada na literatura como um aspecto desejavel (Barnes et al., 2004; Menezes & Franca, 2012; Pengcharoen & Shultz, 2010; Shacklock, 2006; Shacklock & Brunetto, 2011; Winkelmann-Gleed, 2012), conforme os achados, a flexibilidade isoladamente nao prediz a intencao de continuar trabalhando. No entanto, no contexto da analise multivariada, esse fator se mostrou uma variavel moderadora associada a autonomia, podendo aumentar ou diminuir a relacao desta com a intencao de continuar, a depender do nivel de flexibilidade percebida.

Uma possivel explicacao para isso e que, ate certo ponto, condicoes flexiveis quanto aos horarios de trabalho e na escolha de quando completar suas tarefas contribui para a percepcao de liberdade e o sentimento de responsabilidade no exercicio da atividade, aumentando o grau de autonomia percebida. No entanto, o desejo por uma maior flexibilidade, ao ponto de trabalhar ocasionalmente e nao precisar dar satisfacoes a outros, por ser dificil de ser concretizada no ambito da instituicao, atuaria como redutor da intencao de continuar e potencializador das chances de aposentar-se.

O quarto fator se refere aos interesses fora do trabalho (hobbies, amigos, desenvolvimento espiritual, lazer e os interesses comunitarios). Semelhantemente ao estudo de Shacklock & Brunetto (2011), esse fator se revelou como um preditor da intencao de continuar trabalhando, embora outros estudos indiquem uma relacao positiva desses interesses com a aposentadoria (Franca, 2009; Franca & Vaughan, 2008; Phillipson & Smith, 2005). Esse dado sugere uma fronteira mais fragil entre o trabalho e o nao-trabalho, sinalizando que, quando o lugar ocupado pelo trabalho intermedia outros espacos da vida pessoal, este se torna mais atrativo.

Mas, os resultados deste estudo diferem em parte do encontrado por Shacklock & Brunetto (2011). Na amostra australiana, os preditores da intencao de continuar no trabalho remunerado encontrados sao: condicoes flexiveis de trabalho, interesses fora do trabalho, gestao e fatores organizacionais e importancia do trabalho para o individuo. Porem, na adaptacao brasileira, esses dois ultimos fatores nao apresentaram bom desempenho.

No que diz respeito a intencao de aposentar-se do emprego atual e trabalhar em outro lugar, nao foi possivel investigar os fatores preditivos nesta direcao. Diante da estabilidade que caracteriza o servico publico, a opcao do adiamento pareceu ser mais atrativa do que o trabalho apos a aposentadoria, o que pode ser devido aos custos emocionais envolvidos com a quebra de vinculo pela aposentadoria e a inseguranca em construir novas alternativas de carreira. Os resultados apontam apenas que os servidores homens tem maior intencao de trabalhar apos a aposentadoria do que as mulheres, condizente com o encontrado por Tuominen et al. (2012).

Por fim, com relacao a intencao de se aposentar, surgiram a combinacao de quatro fatores preditivos e concorrentes. Como o papel preditivo da autonomia e interacao interpessoal reduzindo a chance de aposentar-se e coerente com os resultados ja discutidos inicialmente, restringe-se agora a discutir o papel dos outros dois fatores.

A influencia familiar, representada pelo desejo de passar mais tempo com familiares e conjuge, surge em oposicao aos relacionamentos proporcionados pelo trabalho. Seu impacto, aumentando as chances de aposentar-se, encontra suporte na literatura (Franca, 2009; Smeaton & McKay, 2003), particularmente para os que possuem vinculos familiares fortes (Szinovacz, deViney & Davey, 2001), condizendo com os que tem situacao conjugal estavel.

O papel do fator Flexibilidade neste modelo nao fica de todo claro, pois aqui ele possui um papel preditivo proprio e nao como moderador. Por um lado, a percepcao de autonomia no trabalho, tendo liberdade de decisao em sua atividade, reduz a chance de aposentar-se. Por outro, a flexibilidade intensificada pela aposentadoria, de ter menos pressao e prazos a cumprir, de poder escolher quando e como se dedicar as atividades (e dentre elas o trabalho, se assim o desejar), tornam a aposentadoria mais provavel. Uma possivel explicacao para isto e que a atracao por condicoes mais flexiveis e a impossibilidade de sua satisfacao no ambito da instituicao, somado a um contexto de pressao e intensificacao do trabalho, remeta a liberdade proposta pela aposentadoria aumentando as chances dessa decisao, como tambem observado por Winkelmann-Gleed (2012).

Diante do exposto, e importante sinalizar que este estudo apresenta algumas limitacoes, o que fomenta possibilidade de pesquisas futuras. Primeiramente, limita-se quanto a sua generalizacao por incidir apenas sobre servidores de uma universidade, com seus resultados se aplicando a uma populacao especifica. Estudos com outros tipos de trabalhadores mais velhos poderiam esclarecer melhor sobre as expectativas subjetivas a respeito do trabalho nessa fase da vida.

Em segundo lugar, por se tratar de uma pesquisa de levantamento descritiva e transversal, verificando opinioes em um determinado espaco de tempo, pode estar expressando uma visao que nao sera, obrigatoriamente, a realidade pratica acerca das preferencias de trabalho e aposentadoria daqui a alguns anos. Outros fatores, alem do trabalho, influenciam as decisoes. Um exemplo disso foi o aumento expressivo de pedidos de aposentadoria de servidores federais no ano de 2017 (42.40%), quando comparado ao ano de 2016 (PEP, 2018). Esse fato parece ser um efeito das discussoes sobre a reforma da previdencia na epoca e ameacas de extincao do abono de permanencia como medida para reducao de gastos publicos (e.g., a pec 139/15). Conforme Boas & Souza (2015), analistas apontam que o fim do abono provocaria um comportamento massivo de aposentadoria. Um estudo de seguimento poderia trazer mais esclarecimentos a esse respeito.

Em terceiro, observamos que os fatores preditivos encontrados, relacionados ao trabalho, alcancaram baixo poder explicativo da variancia da intencao de continuar trabalhando (17 a 20%) e explicam melhor os que concordam com a continuidade. Tal fato indica que outras variaveis nao contempladas poderiam ter um papel igualmente influente ou complementar, respondendo pelos 80% restantes da variancia. Por exemplo, a idade em que se planeja continuar no trabalho remunerado pode ser uma influencia. A constatacao de que os docentes planejam permanecer mais tempo no mercado de trabalho do que os TAS, tambem sugere haver alguma relacao entre a atividade da docencia em si e a continuidade do trabalho. Teriamos os mesmos preditores com trabalhadores de instituicoes/organizacoes privadas, com outras atividades que incluem desde tarefas extremamente repetitivas, ate outras que exigem intenso desgaste fisico? Essas sao questoes que, a nosso ver, podem enriquecer, ao ampliar, as dimensoes que constituem o significado do trabalho e suas relacoes com a intencao de trabalhar ou aposentar-se. Novos estudos poderiam explorar a influencia do tipo de atividade e seu contexto sobre variaveis preditoras da continuidade do trabalho, notadamente, variaveis relativas ao sentido do trabalho.

Diante do crescente interesse mundial de investigar maneiras eficientes de incentivar e aumentar a participacao de trabalhadores mais velhos no mercado de trabalho, implicacoes eticas e praticas precisam ser consideradas. O estimulo ao adiamento da aposentadoria exige politicas de gestao de pessoas voltadas para esta continuidade laboral, com atencao especial ao ageismo e a maior possibilidade de doencas ocupacionais e cronicas com o envelhecimento.

Outra questao e que, a relacao encontrada entre a intencao de continuar trabalhando e a percepcao de um dificil ajustamento a aposentadoria reforca o desafio e a importancia da atuacao dos programas de preparacao para a aposentadoria (PPA). As estrategias para que os trabalhadores adiem sua aposentadoria nao eximem o governo de sua atribuicao de criar e estimular a manutencao de ppas, fornecendo o apoio necessario a tomada dessa decisao.

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Recebido: 06 de fevereiro de 2016 nprouado: 27 de setembro de 2018

Luciani Soares Silva Macedo *

Pedro F. Bendassolli *

Tatiana de Lucena Torres *

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Doi: http://dx.doi.org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.4556

* Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Contato principal para correspondencia editorial: Luciani Soares Silva Macedo, Psicologa e Tecnica-administrativa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutoranda no Programa de Pos-Graduacao em Psicologia da UFRN e membro do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Trabalho (GEPET/UFRN). Correio eletronico: lucianissm@gmail.com

Caption: Figura 1. Fatores preditivos da intencao de continuar ou parar de trabalhar
Tabela 1.
Regressao logistica multipla: preditores da intencao de
continuar trabalhando

          Preditores          [beta]       EP      Exp b [IC 95%]

          Autonomia           0.42 ***     0.11    1.52 [1.23; 1.89]

          Interacao           0.22         0.12    1.25 [0.98; 1.60]
          interpessoal

Passo 1   Interesses fora     0.26 *       0.11    1.30 [1.06; 1.60]
          do trabalho

          Flexibilidade       -0.28 **     0.10    0.75 [0.62; 0.92]

          Vinculo             0.09         0.14    1.10 [0.84; 1.43]

          Constante           -2.52        0.73

          Autonomia           0.42 ***     0.11    1.52 [1.23; 1.88]

          Interacao           0.26 *       0.11    1.30 [1.04; 1.62]
          interpessoal

Passo 2   Interesses fora     0.26 *       0.11    1.30 [1.06; 1.60]
          do trabalho

          Flexibilidade       -0.28 **     0.10    0.75 [0.62; 0.92]

          Constante           -2.25        0.62

Nota. [R.sup.2] % = 20.3% (Nagelkerke [R.sup.2])

* p < 0.05; ** p < 0.01; *** p < 0.001

Tabela 2.
Regressao logistica multipla: preditores da intencao de
adiar a aposentadoria

          Preditores          [beta]       EP      Exp b [IC 95%]

          Autonomia           0.21 *       0.10    1.24 [1.02; 1.50]

          Interacao           0.20         0.12    1.22 [0.97; 1.52]
          interpessoal

Passo 1   Flexibilidade       -0.24 **     0.09    0.78 [0.66; 0.93]

          Vinculo             0.01         0.12    1.01 [0.80; 1.30]

          Constante           -0.64        0.63

          Autonomia           0.21 *       0.10    1.24 [1.02; 1.50]

Passo 2   Interacao           0.20         0.10    1.22 [1.00; 1.49]
          interpessoal

          Flexibilidade       -0.24 **     0.09    0.78 [0.66; 0.93]

          Constante           -0.60        0.53

Nota. [R.sup.2] % = 7.6% (Nagelkerke [R.sup.2])

* p < 0.05; **p < 0.01; *** p < 0.001

Tabela 3.
Regressao logistica multipla: preditores da intencao de
aposentar-se

          Preditores          [beta]       EP      Exp b [IC 95%]

          Autonomia           -0 37 ***    0.11    0.69 [0.56; 0.86]

Passo 1   Interacao           -0.17        0.12    0.84 [0.66; 1.06]
          interpessoal

          Interesses for do   0.18         0.10    1.20 [0.98; 1.47]
          trabalho

          Flexibilidade       0.31 ***     0.10    1.36 [1.13; 1.64]

          Influencia          0.24 **      0.08    1.28 [1.09; 1.50]
          familiar

          Vinculo             -0.09        0.13    0.91 [0.71; 1.18]

          Constante           0.64         0.67

          Autonomia           -0.37 ***    0.11    0.69 [0.56; 0.86]

          Interacao           -0.21 *      0.11    0.81 [0.66; 1.00]
          interpessoal

          Interesses
Passo 2   fora do trabalho    0.18         0.10    1.19 [0.98; 1.46]

          Flexibilidade       0.31 ***     0.10    1.36 [1.13; 1.64]

          Influencia          0.25 **      0.08    1.28 [1.09; 1.50]
          familiar

          Constante           0.39         0.56

Nota. [R.sup.2] % = 20.3% (Nagelkerke [R.sup.2])

* p < 0.05; ** p < 0.01; *** p < 0.001
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Author:Macedo, Luciani Soares Silva; Bendassolli, Pedro F.; de Lucena Torres, Tatiana
Publication:Avances en Psicologia Latinoamericana
Date:Jan 1, 2019
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