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Poesia espacial.

A poesia espacial e a poesia concebida, feita para e vivida em um contexto de microgravidade ou de gravidade nula. Em outras palavras, a poesia espacial e aquela que exige e explora a ausencia de peso como meio de escrita.

Isso significa, essencialmente, que o poema so se realiza plenamente em um ambiente gravitacional diferente daquele a que estamos expostos na terra. Atualmente, tais trabalhos podem explorar dois caminhos: na atmosfera terrestre, a ausencia de peso pode ser reproduzida temporariamente em voos parabolicos. Nesse caso, a experiencia da ausencia de peso dura em torno de 25 segundos para cada parabola. Fora da terra, esteja-se em orbita ou no espaco interestelar, a ausencia de peso e permanente.

Ainda que seja possivel produzi-la e vive-la por outras maneiras, como a queda livre, a questao da Poesia Espacial nao depende apenas da hipogravidade (campo gravitacional inferior a um grama). O ponto importante e que uma nova cultura espacial global emerge, no seculo XXI, na exploracao e nos esforcos colaborativos das nacoes que participam da conquista espacial.

Mais precisamente, o importante e que o acesso ao espaco nao e mais dominio exclusivo dos governos, pois comeca a interessar ao setor privado. Para por em evidencia as implicacoes extremas desse processo, basta comparar os primeiros computadores, que entao ocupavam um comodo e eram controlados pelos governos, aos notebooks atuais que as criancas tem nas maos. Se essa analogia e valida, ela significa que o acesso ao espaco logo sera tao comum quanto as viagens de aviao, e que teremos portos espaciais em toda parte. E o que confirma a industria emergente do turismo espacial, que ja enviou varios cidadaos ao espaco sem outra razao que nao a de proporcionar a experiencia da ausencia de peso e de contemplacao da Terra desde o espaco.

Levados ao extremo, esses fatos sugerem que as estacoes espaciais ou as bases lunares serao hoteis ou residencias permanentes nos quais a atividade humana ira muito alem da subsistencia e da observacao ambiental. Sera a mesma coisa para as colonias espaciais em Marte e mais alem. Nesse novo ambiente cultural, a arte e a poesia, como as outras formas de expressao humanas, produzirao obras.

Claramente, e possivel escrever e desenhar a bordo de uma estacao espacial, mas isso nao representa nada de estimulante para a criacao de uma linguagem poetica particular a esse ambiente. E precisamente a nova realidade material de um acesso corriqueiro a ausencia de peso e ao espaco que produz o contexto cultural necessario a emergencia de uma Poesia Espacial autentica.

Eu chamo de "gravimorfismo" e de "gravitropismo" o processo segundo o qual o peso condiciona todas as formas de comportamentos terrestres, inclusive a arte e a poesia. Talvez seja uma banalidade dizer que a gravidade tem um efeito fundamental sobre nossa sensibilidade, assim como sobre o mundo fisico, e que ela condiciona tambem a arte e a poesia.

No entanto, nao e inutil se perguntar que novas formas, que experiencias artisticas e poeticas podem aparecer se, simultaneamente, os criadores e os participantes/expectadores forem liberados dessa obrigacao. Os comportamentos dos organismos materiais e vivos diferem quanto a ausencia de peso. Por exemplo, e possivel criar uma letra "O" como uma esfera por meio da liberacao de agua no espaco, e, em seu centro, uma outra letra "O" pode ser criada como uma bolha. Emprego as palavras "gravimorfismo" e "gravitropismo" na arte e na poesia para sublinhar o fato de que a gravidade desempenha um papel fundamental nas formas e nos acontecimentos que criamos na Terra, e que as formas e os acontecimentos criados sob gravidade nula para experimentacao nesse contexto podem ser radicalmente diferentes. Em 1986, propus enviar um holopoema (intitulado "Agora") na direcao da galaxia Andromeda, como uma primeira tentativa de poesia espacial. Sob a forma de holopoesia, tenho articulado, desde 1983, algumas possibilidades de poesia livre dos efeitos da gravidade, na medida em que os poemas holograficos sao compostos de luz e nao possuem, portanto, nenhum peso. O holopoema "Agora" e concebido, ao mesmo tempo, como uma extensao da holopoesia e como um gesto de comunicacao, um sondephoton simbolico dirigido aos habitantes imaginarios dessa galaxia vizinha. Em 1987, comecei a escrever sobre as formas e os acontecimentos gravimorficos/ gravitropicos, articulando a teoria da holopoesia com seus acontecimentos linguisticos cambiantes, flutuando e mudando no espaco, livres das coercoes materiais e gravitacionais.

Em meu primeiro texto, eu dizia: "experimentando volumes oticos sem massa--vibracoes luminosas focalizadas suspensas no ar--o 'gravitropismo' (forma condicionada pela gravidade) abre caminho para o 'antigravitropismo' (criacao de formas novas nao condicionadas pela gravidade), liberando o espirito dos cliches do mundo fisico e provocando a imaginacao". Forjei entao o termo "antigravitropismo" para designar a qualidade positiva de negar ou neutralizar a gravidade.

A poesia espacial e baseada no tempo, no sentido de que cada poema contem sua propria logica temporal. Ela e performativa, pois o corpo do leitor e sem peso e esta, portanto, engajado em uma experiencia de leitura de uma sinestesia particular. Os poemas espaciais estao naturalmente ligados as artes visuais e a outras disciplinas porque eles nao podem existir em um livro, e sim na ausencia de gravidade. Eles so utilizam poucas palavras (cuja semantica revela suas potencialidades na exploracao do comportamento dos materiais na ausencia de peso) e implicam frequentemente uma participacao direta do leitor. De maneira significativa, os poemas espaciais produzem novas sintaxes antigravimorficas.

Em suma, a poesia espacial constitui uma nova linguagem poetica que participa da criacao de uma nova cultura espacial atraves da exploracao das potencialidades criativas da hipogravidade e da ausencia de peso.

Traducao de liana Carreira Martins (UFRJ)

(1) Originalmente publicado em Eduardo Kac, Hodibis Potax, Edition Action Poetique, Ivry-sur-Seine (France) and Kibla, Maribor (Slovenia), 2007, pp. 123-125.
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Author:Kac, Eduardo
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Date:Jul 1, 2008
Words:1053
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