Printer Friendly

Plant poisonings in ruminants and horses in Southern Ceara, Northeastern Brazil/Plantas toxicas para ruminantes e equideos da microrregiao do Cariri Cearense.

INTRODUCAO

No Brasil, as perdas anuais por mortes causadas por plantas toxicas sao estimadas em aproximadamente um milhao de bovinos por ano (RIETCORREA & MEDEIROS, 2001). Muitas dessas intoxicacoes por plantas foram diagnosticadas na regiao Nordeste e algumas mediante levantamentos sistematicos em diferentes regioes dos estados do Rio Grande do Norte (SILVA et al., 2006), Piaui (MELLO et al., 2010) e Paraiba (ASSIS et al., 2009, 2010). No entanto, no Ceara, ha poucos relatos diagnosticando intoxicacoes por plantas. Este trabalho teve como objetivo determinar as intoxicacoes por plantas que ocorrem em ruminantes e equideos no Cariri Cearense.

MATERIAL E METODOS

O trabalho foi realizado de agosto de 2009 a novembro de 2010 em quatro municipios (Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha e Missao Velha) da microrregiao do Cariri. A regiao, localizada no Vale do Cariri, mesorregiao sul do Estado do Ceara, tem 460.964 habitantes e uma area de 2.655.982[km.sup.2]. A vegetacao e caracterizada por dois elementos geograficos, a caatinga, tipica do semiarido brasileiro, e a Chapada do Araripe, onde predomina uma vegetacao subperenifolica de matas umidas, com transicao no sentido norte-sul para o cerradao, cerrado e carrasco. A microrregiao do Cariri Cearense apresenta um clima semiarido quente, com apenas um regime de chuvas, concentrado nos meses de fevereiro a maio com pluviosidade media entre 800 e 1100mm [ano.sup.-1]. A regiao tem uma populacao de 53.473 bovinos, 4.799 caprinos, 9.149 ovinos e 7.060 equideos (IBGE 2011). A maioria das propriedades rurais e de agricultores familiares e pequenos agricultores com criacao extensiva em pastagens nativas.

Para esta pesquisa, foram visitadas, no minimo, tres propriedades por municipio. Foram entrevistadas 21 pessoas, sendo quatro medicos veterinarios, dois agronomos, dois tecnicos agricolas que residiam ou prestavam assistencia tecnica na regiao e treze produtores residentes nos municipios visitados. A entrevista foi baseada no preenchimento de tres formularios semelhantes aos utilizados por SILVA et al. (2006). No formulario 1, constavam os nomes cientifico e popular das plantas, assim como perguntas sobre existencia da planta na regiao, cujos casos de intoxicacao o entrevistado houvesse presenciado. No momento das entrevistas, fotos das plantas eram apresentadas ao entrevistado. No formulario 2, eram anotados nome e os sinais clinicos causados por plantas suspeitas de toxicidade. No formulario 3, eram anotados dados epidemiologicos sobre a suspeita da intoxicacao descrita pelo entrevistado.

No formulario 1, foram incluidas as 33 plantas seguintes: Aspidospermapyrifolium, Brachiaria spp., Crotalaria retusa, Enterolobium contortisiliquum, Indigofera suffruticosa, Ipomoea asarifolia, Ipomoea carnea, Ipomoea riedelli, Lantana camara, Manihot spp., Mascagnia rigida, Neriun oleander, Piptadenia macrocarpa, Plumbago scandens, Prosopis juliflora, Ricinus communis, Sorghun vulgare, Sorghun halepense, Stryphnodendron coriaceum, Thiloa glaucocarpa, Mimosa tenuiflora, Marsdenia megalantha, Centratherum brachylepis, Palicourea spp., Tephrosia cinerea, Amaranthus spp, Froelichia humboldtiana, Turbina cordata, Ipomoea sericophylla, Solanum paniculatum, Cnidoscolus phyllacanthus, Senna occidentalis e Leucaena leucocephala.

Algumas plantas que foram citadas como toxicas pelos entrevistados, que nao estavam contidas no formulario 1, foram coletadas para realizacao experimental de sua toxicidade em caprinos ou ovinos e enviadas a Botanica Prol1. Dra. Maria Arlene Pessoa da Silva do Herbario Carinense Dardano Andrade de Lima, pertencente a Universidade Estadual do Cariri (URCA) para identificacao. Casearia commersoniana foi enviada ao Jardim Botanico do Rio de Janeiro e identificada pelo Dr. Ronaldo Marquete. Para realizacao de estudo experimental da toxicidade, as plantas foram coletadas na propriedade onde ocorreram os surtos e mantidas sob refrigeracao ate o momento de administracao aos animais. Um experimento com C. commersoniana em caprino foi realizado na propriedade onde ocorreu o surto.

Os caprinos e ovinos foram pesados e colocados em baias individuais. Apos jejum de 24 horas, a planta era fornecida para consumo espontaneo. Se os animais nao ingeriam espontaneamente a planta, ela era administrada nas doses de 10 a 20g [Kg.sup.-1] peso corporal, colocando-se pequenas quantidades na boca do animal, esperando que ele mastigasse e deglutisse. Posteriormente a administracao, era oferecido concentrado em quantidade equivalente a 1% do peso vivo, alem de feno de Cynodon spp. (capim tifton) e agua ad libitum.

RESULTADOS

O trabalho apontou 11 plantas de toxicidade comprovada e com sinais clinicos semelhantes aos descritos previamente na literatura e seis plantas citadas como toxicas na regiao, mas sem comprovacao cientifica. Plantas de toxicidade comprovada

Ipomoea asarifolia foi relatada por 11 (52%) dos entrevistados que afirmam ter visto intoxicacoes por esta planta em bovinos (38%) ou ovinos (19%). Um tecnico agricola relatou que animais intoxicados por esta planta (principalmente ovinos jovens) caiam por falta de equilibrio e morriam afogados em locais com agua (bebedouros, pocos, buracos, acudes). Afirmou, tambem, ter conhecimento de aproximadamente 20 surtos de intoxicacao por salsa por ano. Um medico veterinario relatou que diagnostica aproximadamente cinco surtos de intoxicacao por salsa por ano. Em uma propriedade em que ha grande quantidade da planta e pouco alimento, ocorreu um surto, entre setembro e outubro de 2007, em um rebanho de aproximadamente 150 caprinos e ovinos. Destes, 30 (20%) adoeceram, 20 (13,3%) se recuperaram e 10 (6,66%) morreram apresentando tremores, andar cambaleante, anorexia, decubito e morte.

Enterolobium contortisiliquum foi relatada como toxica por 10 (47%) dos entrevistados que observaram intoxicacao por vagens desta arvore, causando fotossenssibilizacao ou aborto em bovinos e fotossenssibilizacao em ovinos. Um produtor relatou ocorrer aproximadamente seis abortos por ano em bovinos em uma propriedade no municipio de Crato. Dois produtores relataram ter observado quatro casos, cada um, de abortos em bovinos. Um medico veterinario relatou ocorrer cinco casos de intoxicacao por ano em bovinos. Durante a visita a uma fazenda, observou-se um ovino macho da raca Santa Ines intoxicado por vagens de E. contortisiliquum. O animal tinha areas despigmentadas na cabeca e tronco e apresentou febre, edema de cabeca, orelhas e barbela e dermatite da orelha e labio superior, obstrucao parcial por edema das narinas com dificuldade respiratoria, lacrimejamento bilateral (Figura 1 A e B) e congestao da mucosa ocular. Deitava e levantava frequentemente em sinal de inquietude, apresentava vocalizacao frequente e fugia da luz solar direta. Morreu apos um curso clinico de tres dias e a necropsia foi observado presenca de sementes da planta no conteudo rumenal e areas hemorragicas no tecido subcutaneo da regiao dorsal. O figado estava amarelado e com aumento do padrao lobular (Figura 1C). Na histopatologia, foi observada degeneracao vacuolar no citoplasma de hepatocitos nas porcoes centro-lobular a medio-zonal. Alguns hepatocitos apresentavam vacuolos unicos, enquanto outros apresentavam multiplos vacuolos e citoplasma consideravelmente aumentado de volume (Figura 1D). Havia necrose individual aleatoria de hepatocitos.

[FIGURE 1 OMITTED]

Malformacoes semelhantes as observadas na intoxicacao por Mimosa tenuiflora foram relatadas em caprinos, ovinos e/ou bovinos por oito (38%) dos entrevistados em fazendas onde ocorria M. tenuiflora. Mascagnia rigida foi relatada por oito (38%) dos entrevistados por causar morte subita em bovinos, associada ao exercicio. Um tecnico agricola relatou ter observado intoxicacao em ovinos e bovinos. Brachiaria decumbens foi relatado por oito (38%) dos entrevistados por causar fotossensibilizacao em bovinos e ovinos. Manihot spp. foi relatada por seis (28%) dos entrevistados como causa de intoxicacao com morte hiperaguda em ruminantes. Um medico veterinario relatou que diagnostica presuntivamente aproximadamente 10 surtos de intoxicacao por ano, principalmente em caprinos. Um tecnico agricola relatou ter ocorrido intoxicacao em um suino que ingeriu a manipueira (liquido branco-amarelado subproduto resultante da compressao da massa de mandioca ralada obtida em grande quantidade nas casas de farinha). Outro medico veterinario relatou que na regiao muitos produtores fornecem a casca da raiz (subproduto das casas de farinha) para vacas em lactacao sem o conhecimento do manejo e ocorrem frequentes casos de intoxicacao por este subproduto. Anadenanthera colubrina var. cebil foi relatada como toxica por tres (14%) dos entrevistados que observaram morte apos sinais hiperagudos em bovinos que ingeriram esta planta. Ricinus communis foi relatada por tres (14%) dos entrevistados que afirmam ter observado sinais digestivos em bovinos intoxicados por esta planta. Dos 21 entrevistados, 16 (76%) afirmaram existir a Thiloa glaucocarpa na regiao e dois (9%) afirmaram ter visto casos de intoxicacao por esta planta em bovinos. Leucaena leucocephala foi relatada por um (4%) entrevistado que afirmou ter observado um equino e 18 ovinos deslanados (45% do rebanho) intoxicados. Dos 18 ovinos, 10 morreram e 8 se recuperaram. Os ovinos apresentaram alopecia e perda de peso. O equino apresentou perda dos pelos da crina e da cauda. Os animais se intoxicaram por ter invadido a area cultivada com leucena (que servia como banco de proteina) e permaneceram por muito tempo nesta area alimentandose da planta. Sorghum halepense foi relatada por um (4%) entrevistado que mencionou a ocorrencia periodica de intoxicacao em bovinos apresentando instabilidade, tremores musculares, timpanismo, decubito lateral e morte em tres ate horas. Na propriedade, havia invasao de S. halepense, principalmente em areas mais baixas. Plantas citadas por alguns entrevistados como toxicas, mas sem comprovacao cientifica anterior

Casearia commersoniana Camb. (cafe-brabo, cafe-bravo) foi relatada por dois (9%) dos entrevistados como causa de morte em caprinos no municipio de Crato. Um produtor relatou que, de um rebanho de aproximadamente 54 animais, morreram quatro caprinos em 2007, quatro caprinos em 2008 e tres caprinos em2009, em decorrencia da intoxicacao por esta planta, quando os caprinos se alimentavam dos frutos diretamente no arbusto. Afirmou tambem que anteriormente todos os anos morriam 4 a 5 animais com sinais clinicos de aumento de volume do abdomen, quedas e morte. A morte ocorria de forma hiperaguda, geralmente apos exercicios ou quando os animais retornavam aos currais apos pastejar em area severamente invadida pela planta. Ovinos nao adoecem, porque nao comem os frutos da planta. C. commersoniana. (Figura 2) e um arbusto que frutifica na regiao durante mes de outubro e e encontrado no alto da Chapada do Araripe. Uma amostra dessa planta foi arquivada no Herbario Carinense Dardano de Andrade Lima, voucher numero 4753.

Foram realizados experimentos com os frutos desta planta que foram administrados a cinco caprinos (Tabela 1). O caprino 3, que recebeu dose diaria de 20g kg-1 durante tres dias, apresentou relutancia em movimentar-se, discreto timpanismo, polaquiuria, vocalizacao, dispneia com postura ortopneica, andar cambaleante e quedas, mostrando bradicardia e bradipneia, opistotono e movimentos de pedalagem. Apos alguns minutos em repouso, o animal levantou-se e apresentou taquicardia (140bpm) e taquipneia (40mpm), relutancia em movimentar-se, vocalizacao frequente e posteriormente decubito esterno abdominal. No dia seguinte (13 horas apos o inicio dos sinais), o animal foi encontrado em decubito esternal com vocalizacao frequente e apresentando opistotono, levantava-se e deitava-se em sinais de inquietude. Apos uma hora, morreu. O caprino 4, que recebeu dose diaria de 20g [kg.sup.-1] durante 4 dias, apresentou aumento da frequencia cardiaca (112bpm), aumento da frequencia respiratoria (57mpm), posicao com aumento da base de sustentacao, dispneia com posicao ortopneica, pulso jugular evidente, extensao do pescoco, timpanismo moderado, quedas, dificuldade para andar (membros espasticos, principalmente os posteriores), bruxismo e miccao e defecacao frequentes.

A necropsia, observou-se edema pulmonar e hidrotorax no caprino 3 e presenca de grande quantidade de frutos da planta no interior do rumen dos caprinos 3 e 4. Na histopatologia, foi observada, nos dois animais, vacuolizacao de hepatocitos com distribuicao predominantemente centro-lobular a medio-zonal. No caprino 3, havia edema pulmonar, preferentemente intersticial e da pleura.

[FIGURE 2 OMITTED]

Mimosa malacocentra Mart. foi descrita por dois entrevistados (9%) como toxica para bovinos e caprinos causando diarreia por varios dias, levando o animal a morte. Folhas de M. malacocentra foram administradas a um ovino durante 10 dias na dose diaria de 10g kg de peso vivo. O animal apresentou fezes pastosas durante o terceiro dia do experimento, mas no dia seguinte as fezes estavam normais. Nao foram vistos outros sinais clinicos. Um entrevistado relatou que Marsypianthes chamaedrys Vahl. Kuntze seria responsavel por provocar aborto em quatro caprinos com quatro meses de gestacao nos meses de novembro a janeiro de 2006. Segundo o entrevistado, os fetos ja estavam formados, mas, em uma cabra, os fetos nasceram sem pelos, porem vivos, morrendo depois de alguns dias. Serjania lethalis foi relatada por dois entrevistados como toxica para bovinos e caprinos causando diarreia. Folhas de S. lethalis foram administradas a um ovino durante oito dias na dose diaria de 10g [kg.sup.-1] peso vivo, sem que apresentasse sinais clinicos. Zizyphus joazeiro Mart foi relatado por um entrevistado por causar morte de caprinos apos terem ingerido grande quantidade do fruto. Os animais ficam abatidos, com mucosa palida e sangue claro. Frutos de juazeiro, na integra, recentemente colhidos, foram administrados ad libitum a dois caprinos, pesando 18 e 19kg, respectivamente, durante 30 dias. Simultaneamente, era administrada pastagem cortada formada principalmente por gramineas. Os caprinos ingeriram, diariamente, entre 50 e 80g kg-1 de peso corporal de frutos de jua e nao apresentaram nenhum sinal clinico.

Magonia pubescens foi relatado por um entrevistado por causar intoxicacao com morte subita em bovinos. Folhas de M. pubescens foram administradas a um caprino durante cinco dias na dose diaria de 15g [kg.sup.-1] [pv.sup.-1], sem que apresentasse sinais clinicos.

DISCUSSAO

Os resultados obtidos mediante a aplicacao do formulario 1 sugerem que I. asarifolia, mencionada por 38% e 19% dos entrevistados como toxicas para bovinos e ovinos, respectivamente, e E. contotisiliquum mencionada como toxica para bovinos (47,6% dos entrevistados) e ovinos (4,7%) sao as plantas que mais frequentemente causam intoxicacoes na regiao, a qual tem uma populacao de 53.473 bovinos, 9.149 ovinos, 4.799 caprinos e 7.060 equideos. Outras plantas toxicas, de aparente menor importancia, sao M. rigida (mencionada por 38% do entrevistados), Manihot spp. (28%), A. colubrina var. cebil (14%), R. communis (14%), T. glaucocarpa (9%) e S. halepense (4%) para bovinos, B. decumbens para ovinos e bovinos (38%), M. tenuiflora para ovinos, caprinos e bovinos (38%) e L. leucocephala para ovinos e equinos (4%).

Semelhante ao que ocorre em outras regioes do semiarido brasileiro, a intoxicacao mais frequente e a intoxicacao por I. asarifolia, que afeta principalmente ovinos jovens, mas tambem caprinos e bovinos, na epoca seca (SILVAet al., 2006; MELLO et al., 2010). No entanto, no Cariri Cearense, a especie mais afetada foi a bovina, devido provavelmente ao maior numero de bovinos na regiao. Outra intoxicacao importante no Cariri Cearense e a causada por frutos de E. contortisiliquum em bovinos. A intoxicacao por esta planta tambem ocorre em diversas regioes do semiarido, mas, aparentemente, com menor frequencia da observada neste trabalho. Foi realizado, tambem, um diagnostico de intoxicacao por esta planta em um ovino, com fotossensibilizacao, que apresentava sementes no rumen e lesoes hepaticas. No nordeste, E. contortisiliquum e descrito, tambem, como causa de sinais digestivos e abortos em caprinos (BENICIO et al., 2007).

Um produtor mencionou a ocorrencia de um surto de intoxicacao por L. leucocephala em equinos e ovinos. Esta e uma leguminosa utilizada no semiarido brasileiro como fonte de proteina (GUIMARAES FILHO et al., 1995). No entanto, apresenta toxicidade quando e o principal constituinte da dieta. No Brasil, a intoxicacao tem sido diagnosticada em ovinos (RIET-CORREA et al., 2004), caprinos (PEIXOTO et al., 2008) e equinos (PIMENTEL et al., 2009). No trabalho de PIMENTEL et al. (2009), equinos e bovinos eram alimentados com galhos de L. leucocephala, sendo que os equinos foram afetados apos 10 dias de consumo e os bovinos nao. Para a utilizacao desta leguminosa como forrageira, o acesso aos piquetes com leucena deve ser limitado a uma hora diaria de pastejo (GUIMARAES FILHO et al., 1995) e, se for administrada apos o corte, a quantidade diaria nao deve superar 25%-30% da dieta. Resultados negativos em uma cabra que ingeriu L. leucocephala, como unico alimento, por um periodo de 60 dias sugerem que, na caatinga, onde ocorrem diversas especies de Mimosa, ha animais resistentes a intoxicacao, provavelmente por terem, no rumen, bacterias que hidrolisam mimosina (RIET-CORREA et al., 2004).

Dentre as plantas anteriormente desconhecidas como toxicas, foi constatada a toxicidade de C. commersoniana para caprinos. A reproducao experimental da intoxicacao em caprinos comprovou que os casos mencionados pelos produtores sao realmente causados pela ingestao espontanea de frutos de C. commersoniana. Em consequencia, esta planta deve ser considerada como uma nova especie brasileira toxica. Os sinais clinicos observados, principalmente nervosos, mas tambem cardiacos, respiratorios e digestivos e a ausencia de lesoes macroscopicas e histologicas de significacao nao permitiram determinar qual o sistema afetado. A falha na reproducao da doenca em um caprino que ingeriu, durante 10 dias, as capsulas, a maioria sem sementes, na dose de 20g [kg.sup.-1] sugere que o principio ativo desconhecido da planta esta presente nas sementes. Novos experimentos com as sementes a as capsulas sem sementes deverao ser realizados para comprovar esta hipotese.

Um produtor mencionou casos de intoxicacao em animais ingerindo frutos de Zizyphus joazeiro. Em outras regioes do semiarido, incluindo o Cariri Paraibano, produtores relatam que ovinos e caprinos adoecem apos ingerir frutos de juazeiro em forma continuada. Outros produtores mencionam que o consumo de jua leva os animais a uma verminose grave. Os experimentos nos quais foram administrados frutos de jua ad libitum, alem de pasto cortado, demonstraram que os frutos nao sao toxicos. No entanto, e provavel que estes, assim como outras frutas, causem acidose ruminal quando ministrados como unico alimento ou como alimento preferencial. Outra possibilidade e que, como na epoca de frutificacao ha grande producao de jua, os animais permanecem muito tempo em areas pequenas nas proximidades das arvores para ingerir as frutas, o que pode resultar em uma alta infestacao por parasitas gastrintestinais e os produtores associam os sinais clinicos com a ingestao de jua. Situacao semelhante ocorre com outras frutas nativas do semiarido ou do cerrado como o caja (Spondias luta), a mirindiba (Buchenavia tomentosa) (MELLO et al., 2010) e a cagaita (Eugenia dysenterica), que, mesmo sendo comestiveis, sao responsabilizadas pelos produtores como causa de intoxicacao em ruminantes.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi financiado pelo Instituto Nacional de Ciencia e Tecnologia (INT) Para o Controle das Intoxicacoes por Plantas, Processo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq) 573534/2008-0.

COMITE DE ETICA E BIOSSEGURANCA

Declaracao nos documentos suplementares. Declaramos, para os devidos fins, que assumimos toda e qualquer responsabilidade sobre os procedimentos que foram realizados no trabalho intitulado Plantas toxicas para ruminantes e equideos da microrregiao do Cariri Cearense. Da mesma forma, colocamonos a disposicao para quaisquer esclarecimentos que se facam necessarios.

REFERENCIAS

ASSIS, T.S. et al. Intoxicacoes por plantas no Sertao Paraibano. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v. 19, p.919-924, 2009. Disponivel em: <http://www. pvb.com.br/pdf_artigos/31-122009_22-53Vet682.pdf>. Acesso em: 15 maio 2010. doi: 10.1590/S0100-736X2010000100003.

ASSIS, T.S. et al. Intoxicacoes por plantas diagnosticadas em ruminantes e equinos e estimativa das perdas economicas na Paraiba. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.30, n.1, p.13-20, 2010. Disponivel em: <http://www.pvb.com.br/pdf_artigos/ 30-01-2010_17-20Vet690.pdf>. Aceso em: 8 mar. 2010. doi: 10.1590/S0100-736X2009001100010.

BENICIO, T.M.A. et al. Intoxication by the pods of Enterolobium contortisiliquum in goats. In: PANTER K.E. et al. Poisonous plants: global research and solutions. Wallingford: CAB International, 2007. p.67-71.

GUIMARAES FILHO, C. et al. Sistema caatinga-buffelleucena para producao de bovinos no semi-arido. Petrolina, PE: EMBRAPA CPATSA, 1995. 39p. (Circular Tecnica, 34).

IBGE, Cidades@. Rio de janeiro, 2011. Acesso em: 05 jun. 2011. Online. Disponivel em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/ topwindow. htm?1>.

MELLO, GW.S. et al. Plantas toxicas para ruminantes e equideos no Norte Piauiense. Pesquisa Veterinaria Brasileira v.30, n.1, p.1-9, 2010. Disponivel em: <http://www.scielo.br/ scielo.php?script = sci_arttext&pid = S0100736X2010000100001&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 8 nov. 2010. doi: 0.1590/S0100-736X2010000100001.

PEIXOTO, P.V. et al. Intoxicacao espontanea por Leucaena leucocaphala em uma cabra, no Rio de Janeiro, Brasil. Ciencia Rural v.38, n.2, p.551-555, 2008. Disponivel em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010384782008000200044&lng=en&nrm=iso&tlng=en>. Acesso em: 10 mar. 2010. doi: 10.1590/S0103-84782008000200044.

PIMENTEL, L.A. et al. Intoxicacao espontanea por Leucaena leucocephala em equinos. In: ENCONTRO NACIONAL DE PATOLOGIA VETERINARIA, 14., 2009. Anais ... Aguas de Lindoia-SP: Associacao Brasileira de Patologia, 2009. (CD Room).

RIET-CORREA, F.; MEDEIROS, R.M.T. Intoxicacoes por plantas em ruminantes no Brasil e no Uruguai: importancia economica, controle e riscos para a saude publica. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.21, n.1, p.38-42, 2001. Disponivel em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100736X2001000100008&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 5 set. 2010. doi: 10.1590/S0100-736X2001000100008.

RIET-CORREA, F. et al. Intoxicacao por Leucaena leucocephala em ovinos na Paraiba. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.24, Supl, p.52, 2004.

SILVA, D.M. et al. Plantas toxicas para ruminantes e equideos no Serido Ocidental e Oriental no Rio Grande do Norte. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.26, n.4, p.223-236, 2006. Disponivel em: <http://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100736X2006000400007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 5 set. 2010. doi: 10.1590/S0100-736X2006000400007.

Cicero Wanderlo Casimiro Bezerra (I) Rosane Maria Trindade de Medeiros (I) * Beatriz Riet Correa Rivero (I) Antonio Flavio Medeiros Dantas (I) Franklin Riet Correa Amaral (I)

(I) Centro de Saude e Tecnologia Rural (CSTR), Hospital Veterinario (HV), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), 58700-000, Patos, PB, Brasil. E-mail: rmtmed@uol.com.br. * Autor para correspondencia.

Recebido para publicacao 03.12.11 Aprovado em 11.02.12 Devolvido pelo autor 08.05.12 CR-6329
Tabela 1--Experimento de toxicidade dos frutos de Casearia
commersoniana administrado a caprinos.

Caprino                   Peso do       Dose diaria        Dias de
no            Data      animal (kg)   (g [kg.sup.-1])   administracao

1          28/10/2009       7,4             10               4
2          04/10/2010       9,2             10               10
3          02/11/2010       12              20               3
4          01/11/2009       7,4             20               4
5          19/11/2009       7,5             20               10

                        Sinais clinicos

Caprino    Dose total     Inicio apos
no          ingerida     administracao    Duracao

1             296g        Sem sinais      --
2             920g        Sem sinais      --
3             720          49 horas       19 horas
4             592g         40 dia         6 horas
5             1.500g       Sem Sinais *   --

* Os frutos administrados a este animal, na sua maioria, nao
continham sementes, encontrando-se as capsulas vazias.
COPYRIGHT 2012 Universidade Federal de Santa Maria
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2012 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

 
Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Bezerra, Cicero Wanderlo Casimiro; de Medeiros, Rosane Maria Trindade; Rivero, Beatriz Riet Correa;
Publication:Ciencia Rural
Date:Jun 1, 2012
Words:3659
Previous Article:Guinea pigs experimentally infected with vaccinia virus replicate and shed, but do not transmit the virus/Cobaias infectadas experimentalmente com...
Next Article:Diallel analysis of papaya for resistance to phoma spot/Analise dialelica em mamoeiro para resistencia a mancha-de-phoma.
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2018 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters