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Photographic visual narratives in National Geographic Brazil Magazine: a case study/Narrativas visuais fotograficas na revista National Geographic Brasil: um estudo de caso.

1 Introducao

Com 130 anos de historia, a revista National Geographic e um exemplo "classico-moderno" celebre de um enfoque do design da informacao que conjuga texto e imagem (Mijksenaar, 2001, p. 27). O periodico tem a fotografia como sua marca registrada desde o inicio do seculo XX, quando, desde entao, a revista ja era considerada a principal do ramo de exploracao e descobertas. Sua relevancia e rapido reconhecimento deram-se justamente por conta do pioneirismo na enfase na producao visual, ja que, antes da National Geographic, nao ha registro de nenhum periodico ou publicacao que contasse com tamanho conteudo pictorico ou artigos sobre ciencia, historia, geografia e cultura, abordados de um modo claro e acessivel a uma vasta gama de leitores, quebrando o paradigma de ciencia voltada apenas para a elite intelectual.

De modo geral, o design editorial tem como funcao "dar expressao e personalidade ao conteudo, atrair e manter os leitores e estruturar o material de forma clara [...] para configurar algo que seja agradavel, util ou informativo--geralmente, uma combinacao de todos os tres" (Caldwell e Zappaterra, 2014, p. 10). A criacao e a edicao do material iconografico sao cruciais para a construcao de sentidos do conteudo veiculado. Na National Geographic, a opcao pela fotografia deve-se a sua natureza de imagem tecnica, que apresenta o real com clareza e suposta imparcialidade, bem-vindas pela credibilidade dada ao conhecimento cientifico. Apesar disso, toda fotografia e um ato de selecao da cena observada de acordo com o que se quer mostrar e como. Os discursos visuais presentes em reportagens da National Geographic Magazine sao explorados em diversas pesquisas (Remillard 2011; Born 2018; Tatel Jr. 2011; Baitz, 2005; Gomes 2013). Entretanto, nao identificamos estudos sobre os processos criativos de producao da edicao nacional.

O objetivo deste artigo e compreender como sao construidas as narrativas visuais fotograficas existentes na revista National Geographic Brasil. Nossa hipotese e de que exista um metodo sui generis de planejamento, execucao, edicao e publicacao das imagens, que resultem na construcao da informacao visual de maneira elucidativa e atraente ao olhar.

2 Metodologia

A metodologia realizada contou com quatro etapas:

* Levantamento bibliografico pertinente ao tema no banco de dados Google Scholar e livros-texto.

* Pesquisa no acervo da Biblioteca Florestan Fernandes (USP) para catalogacao das materias brasileiras da National Geographic Brasil ate entao publicadas e disponiveis. A biblioteca conta com exemplares da revista de 2000 a 2009, tendo sido coletadas e catalogadas as informacoes de todas as reportagens produzidas por brasileiros. Os dados coletados foram entao sistematizados em uma tabela (com fragmento ilustrativo na Figura 1) com o nome da materia, fotografo, titulo, fotografia ilustrativa da reportagem, tema, resumo e data.

* Entrevistas com fotografo e designers envolvidos na producao da National Geographic Brasil entre os anos 2001 e 2013.

* Estudo de caso da materia "A Volta do Jacare", da National Geographic Brasil de marco de 2013, que mostra a recuperacao da populacao dos jacares no Pantanal. Essa materia foi selecionada segundo indicacao de Cristina Veit (1), diretora de arte da revista de 2001 a 2013, como sendo um bom exemplo do processo de construcao das narrativas visuais fotograficas usualmente executadas na revista.

3 A National Geographic Magazine e a edicao brasileira

Fundada nos Estados Unidos em 1888, a National Geographic Society e uma das maiores organizacoes cientificas e educacionais privadas sem fins lucrativos do mundo (2). A revista The National Geographic Magazine estreou em 1888, mais alinhada com o modelo de um jornal cientifico e academico. Nesse periodo inicial, os artigos na contavam com fotografias; apenas textos sobre assuntos especificos. A partir de 1898, o novo editor-chefe, Alexander Graham Bell, lanca a ideia de que a revista nao deveria ser estritamente cientifica. Alem disso, ele determinou que as imagens nao mais deveriam ilustrar os textos, mas sim o contrario. A mudanca mais significativa se daria com a insercao da fotografia, a partir de 1905, quando passaria a ser a principal atracao da revista (Figura 2) (Baitz, 2005).

A instituicao acabou tornando-se uma produtora de imagens iconicas, que, ao serem apropriadas pela cultura, adquirem carater atemporal (Gomes, 2013) (Figura 3).

Na edicao brasileira (Figura 4)--publicada pela primeira vez em maio de 2000 pela Editora Abril (5)--, a maior parte do conteudo se da por meio da traducao e modificacao das reportagens norteamericanas, alem da adicao de materias feitas no proprio pais. Por mais que haja uma tentativa de adaptar a edicao do Brasil ao "gosto" dos brasileiros (Gomes, 2013, p. 71), percebe-se que um padrao geral e seguido e que a National Geographic obtem exito em manter topicos de interesse internacional, mesmo que adaptados de acordo com as necessidades de cada local de publicacao.

A importancia da revista no pais se deu em dois ambitos principais: a divulgacao nacional e internacional de uma "imagem do Brasil" e a promocao da conservacao ambiental e historica, por meio de expedicoes exploratorias no pais. Ao produzir reportagens originais sobre temas como "fauna", "flora", "culturas", "costumes", "povos" e "geografia", acaba-se promovendo a difusao desse conteudo. Assim, cria-se uma imagem do Brasil na consciencia internacional e estimula-se um maior engajamento na conservacao do ambiente e da historia locais.

4 Protocolo de trabalho (7)

Para se atingirem os resultados mencionados, as praticas de trabalho na National Geographic sao bem definidas e consolidadas. Ha protocolos objetivos para a criacao de reportagens, desde o surgimento da pauta, passando pela iconografia--fotografias, ilustracoes, mapas--, e chegando ate a producao de layouts, textos e legendas. As pautas sao de responsabilidade do Story Committee, grupo formado pelo diretor da revista, editores, um diretor de arte e editores de foto, que se reune uma vez por semana para escolhe-las. Durante as reunioes desse grupo, sao analisadas ideias vindas de quatro tipos de fontes: fotografos ou autores freelancers, National Geographic Magazine Staff, Area Specialists e o proprio Story Committee, que tambem pode gerar pautas. Assim que o diretor da revista decide quais as pautas aprovadas, um memorando e passado informando essas decisoes ao Staff e aos Area Specialists.

Veit afirmou que algumas materias eram encomendadas, sempre para uma dupla de reporter e fotografo, ja que era muito importante ter materias brasileiras atualizadas e manter a revista viva no Brasil. Entretanto, hoje em dia e mais comum que os fotografos levem as pautas ja prontas, devido, principalmente, aos cortes de verba que a revista sofreu ha alguns anos (8). Com base nos depoimentos de Veit, e possivel perceber como as etapas de criacao bem como os cronogramas para publicacao das reportagens sao livres e abertos, conferindo grande autonomia e liberdade a fotografos e reporteres.

Por conta desses fatores, ha casos em que se passam anos ate que uma materia seja produzida e publicada (9).

A fotografia e o fio condutor das materias da revista e representa aproximadamente 75% de seu espaco. Por conta disso, para que uma pauta seja aprovada, Veit conta que se faz necessario que esta tenha grande apelo visual e nao seja so uma ideia original. Apos decidida a pauta, os proximos detalhes sao definidos no Story Conference, em uma reuniao com todos os envolvidos, do fotografo ao diretor de arte. Nesse encontro, ha a definicao do numero de rolos a ser utilizado, do tipo de filme e da quantidade de paginas aproximada. O reporter e o fotografo vao a campo separados e em epocas distintas, e o que permite isso e o fato de o conteudo estar bem definido na pesquisa pre e pos-pauta. Mesmo nao estando juntos, conta-se que ambos sabem o que procurar para, ao fim, poderem juntar seus produtos e produzir uma unica reportagem.

Assim que o fotografo volta do campo, ele e o editor de fotografia trabalham juntos em busca das melhores imagens, para assim coloca-las na ordem que devem entrar na materia e entao apresenta-las ao diretor da revista. Com a aprovacao do diretor, as fotos entao chegam as maos do diretor de arte. Cristina conta que, quando ocupava esse cargo, trabalhava em conjunto com o fotografo e o editor de fotos para decidirem um layout, processo que envolve diversas etapas. Primeiro, o diretor de arte vai organizar todas as fotos em pagina dupla e imprimi-las para decidir quais merecem ser usadas grandes e quais podem ser menores. Em seguida, ele faz o layout com varias opcoes de abertura, imprime-o e coloca-o na parede, para que, em conjunto com o editor e o fotografo, possam discutir juntos quais as melhores opcoes de duplas, se e necessario aumentar o numero de paginas ou se algo deve ser trocado. Assim que o layout fica pronto e tem o texto aplicado a ele, deve passar pela aprovacao do diretor da revista, processo chamado de Wall Walk.

5 Estudo de caso: reportagem "A volta do jacare"

A reportagem brasileira eleita para estudo de caso e "A Volta do Jacare", de marco de 2013, que mostra a recuperacao da populacao dos jacares no Pantanal. A materia de 10 paginas tem texto do australiano Roff Smith, fotografias de Luciano Candisani, renomado fotografo brasileiro colaborador da National Geographic Brasil, e direcao de arte de Cristina Veit. Esse caso em particular serviu de exemplo de um processo de producao das imagens bem como da construcao de um discurso visual claro e potente na edicao da sequencia.

A abertura da reportagem se da com a fotografia de um jacare em pagina dupla (Figura 5). Nela, so podem ser vistos os pes do animal, levemente apoiados sobre a areia do fundo do rio, dando a ideia de um ser misterioso. O fato de a imagem estar sangrada e com seu objeto principal--o jacare--escapando da pagina gera uma construcao imaginaria por parte do observador. Esse procedimento de confundir os limites da imagem com os limites do suporte leva o espectador a construir em seu imaginario o que nao ve no campo visual da representacao (Joly, 1994), agucando sua criatividade e interesse na reportagem. O titulo e olho apoiam-se no espaco a esquerda da figura central, de acordo com o sentido de leitura da esquerda para a direita, reforcado pela direcao da cauda do animal.

Ao virar a pagina, ha novamente uma fotografia em pagina dupla (Figura 6), revelando o jacare por completo, e aos montes. A imagem, produzida durante o periodo do crepusculo, e muito curiosa: nela, veem-se diversos jacares, todos de coloracao amarelada por causa da iluminacao utilizada, em contraste com a cor escura da agua onde estao, ja que ja estava escurecendo. De alguns, so se pode ver os olhos saindo da agua como pontos de luz emulando as estrelas do ceu. Meticulosamente planejada e executada, a fotografia exprime a natureza como espetaculo a ser admirado.

Nas duas paginas seguintes (Figura 7), localiza-se o texto, curto, evidenciando a enfase nas imagens. O layout das duas paginas nao e simetrico: o texto esta dividido em tres colunas e a primeira delas esta na pagina esquerda, enquanto as outras duas, apos serem interrompidas por um pequeno mapa que mostra o ambito do jacaredo-pantanal na America do Sul, estao ambas na pagina direita. A estrutura tipografica mostra-se discreta, de maneira que nao se destaque mais do que as fotografias.

Na sequencia (Figura 8), sao retratados dois filhotes de jacare em

simetria, vistos por baixo, dentro da agua, como se flutuassem. Ao redor deles, percebe-se alguma vegetacao fluvial, e, acima, ve-se o ceu azul com algumas nuvens. Por conta da utilizacao de uma objetiva de menor distancia focal para a realizacao da fotografia, a imagem final e deturpada--como se pode perceber por conta da linha distorcida que divide a margem da lagoa do ceu azul--, causando efeitos de dramatizacao (Joly, 1994). Alem disso, por conta da utilizacao do angulo de ponto de vista conhecido como contraplongee, ha uma sensacao de maior magnificacao do objeto analisado (Joly, 1994), ja que os jacares tomam conta da imagem por inteiro, proporcionando uma representacao extremamente expressiva. A primazia da imagem reforca a caracteristica do animal de viver tanto no meio aquatico como no terrestre.

Na ultima dupla (Figura 9), ha duas fotos finais. A esquerda, uma foto em paisagem que ocupa menos da metade da folha, retratando machos que tentam chamar a atencao das femeas a sua volta. Logo abaixo dessa imagem, ha a legenda das duas fotos, apenas descrevendo o que se ve em cada uma delas. Na direita, ha uma fotografia na posicao de retrato que ocupa a totalidade da pagina: nela, um jacare--bastante proximo da camera--esta camuflado e imovel na mata, encerrando a materia com essa proximidade impactante desse animal intimidador.

6 Consideracoes finais

A revista National Geographic Brasil envolve o leitor pela grandiosidade das imagens captadas de forma meticulosa em campo e organizadas em sequencias. Com protocolos de trabalho consolidados, as narrativas visuais fotograficas sao construidas por meio do trabalho em equipe, valorizando a colaboracao e os processos iterativos, visando a adequacao do conteudo a forma final de seus layouts, processo esse observado no caso estudado.

Agradecimento

Contribuicoes de Cristina Veit, Roberto Sakai e Mauricio de Paiva.

Referencias

BAITZ, R. 2005. Fotografia e Nacionalismo: A Revista The National Geographic Magazine e a Construcao da Identidade Norte-Americana (1895-1914). Revista de Historia da USP, v.2, n.153: 225-250.

BORN, D. 2018. Bearing Witness? Polar Bears as Icons for Climate Change Communication in National Geographic, Environmental Communication.

CALDWELL, C., ZAPATERRA, Y. 2014. Design editorial. Sao Paulo: Gustavo Gilli.

GOMES, M. S. 2013. A midiatizacao do contato nos retratos da National Geographic. Dissertacao (Mestrado)--Programa de Pos-Graduacao em Ciencias da Comunicacao, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul.

JOLY, M. 1994. Introducao a analise da imagem. Traducao de Jose Eduardo Rodil. Lisboa: Edicoes 70.

MIJKSENAAR, P. 2001. Una introduccion al diseno de la informacion. Naucalpan: Ediciones Gustavo Gili.

National Geographic Website. Disponivel em: <https://www.nationalgeographic. com/>. Acesso em: 03/11/2018.

REMILLARD, C. 2011. Picturing environmental risk: The Canadian oil sands and the National Geographic. The International Communication Gazette 73(1-2) 127-143.

TATEL Jr, C. 2011. Non-Western Peoples as Filipinos: Mediating Notions of "Otherness" in Photographs from the National Geographic Magazine in the Early 20th Century, Asian Anthropology, 10:1, 61-79.

VEIT, C. 2002. Criando uma historia para a National Geographic Magazine. Sao Paulo.

Sobre os autores

Bruna Vasconcellos

bruna.vasconcellos@usp.br

Estudante de Graduacao

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

Universidade de Sao Paulo

Rua do Lago 876 CEP 05508-080 Sao Paulo SP Brasil

Sara Miriam Goldchmit

saragold@usp.br

Professora Doutora

Departamento de Projeto

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

Universidade de Sao Paulo

Rua do Lago 876 CEP 05508-080 Sao Paulo SP Brasil

Artigo recebido em 04/11/2018

Artigo aceito em 04/05/2019

(1) Durante entrevista realizada em 30 nov. 2017.

(2) Segundo a propria organizacao. Disponivel em: <https://www. geostories.org/portal/ about>. Acesso em: nov. 2018.

(3) Disponivel em: <https://archive.org/ details/nationalgeograp 171906nati/page/370> acesso em: nov.2018

(4) Disponivel em: <https://www. nationalgeographic. com>. Acesso em: nov. 2018.

(5) Apos cortes de equipe em 2013, a revista permaneceu na Editora Abril ate 2016, quando foi entao vendida para a Fox Networks Group.

(6) Fonte: Arquivo pessoal de Cristina Veit.

(7) As informacoes sobre o protocolo de trabalho descritas neste topico foram levantadas no documento "Criando uma historia para a National Geographic Magazine", entregue por Cristina Veit, diretora de arte da National Geographic Brasil entre os anos de 2001 e 2013, durante entrevista realizada em 30 nov. 2017.

(8) Informacao transmitida por Roberto Sakai, atual editor de arte da National Geographic Brasil, durante entrevista realizada em 11 mai. 2017.

(9) Informacoes fornecidas por Cristina Veit durante entrevista realizada em 30 nov. 2017.

(10) As figuras 5 a 9 pertencem ao arquivo de Cristina Veit.

Caption: Figura 1 Fragmento ilustrativo da tabela realizada para sistematizacao dos dados levantados sobre as reportagens produzidas por brasileiros na National Geographic Brasil de 2000 a 2009.

Caption: Figura 2 Dupla de paginas da edicao de julho de 1906 da National Geographic Magazine (3).

Caption: Figura 3 Capa da edicao de junho de 1985 da National Geographic Magazine (4).

Caption: Figura 4 Exemplos de duplas de paginas da National Geographic Brasil (6).

Caption: Figura 5 Primeira dupla de paginas da reportagem "A volta do jacare" (10)

Caption: Figura 6 Segunda dupla de paginas da reportagem "A volta do jacare".

Caption: Figura 7 Terceira dupla de paginas da reportagem "A volta do jacare".

Caption: Figura 8 Quarta dupla de paginas da reportagem "A volta do jacare".

Caption: Figura 9 Quinta dupla de paginas da reportagem "A volta do jacare".
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Author:Vasconcellos, Bruna; Goldchmit, Sara Miriam
Publication:Brazilian Journal of Information Design
Date:May 1, 2019
Words:2731
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