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Pensamento Social Brasileiro em perspectiva: historia, teoria e critica/Brazilian Social Thought and Historical Studies: a critical perspective.

O que e pensamento social brasileiro (PSB)? Esta e uma daquelas perguntas simples cuja resposta nao pode ser dada em poucas palavras. Se tomarmos o PSB como um conceito, poderiamos, seguindo Reinhart Koselleck (2006), retomar suas significacoes diacronicas, a fim de chegarmos a historia de suas apreciacoes e mobilizacoes. Porem, a categoria carece de definicoes precisas desde as primeiras utilizacoes na cultura intelectual brasileira e apenas nas ultimas decadas conseguimos mapear avaliacoes nesse sentido.

Segundo Blumenberg, conceitos precisariam ter "clareza bastante para estabelecer diferencas quanto a todo o concreto que deva ser submetido a sua classificacao" (BLUMENBERG 2013, p. 47). Todo conceito guardaria, porem, um grau de generalidade, sem cair, entretanto, na incongruencia. Conceitos tambem operariam como ferramentas. Haveria um pragmatismo na mobilizacao de conceitos que apenas por capacidade de adaptacao, "no curso do trabalho", seriam validos como meios cognitivos privilegiados. Nesse sentido, afirmava Kant: "Os juristas ainda procuram uma definicao para seu conceito de direito" (KANT apud BLUMENBERG 2013, p. 95). Tambem a filosofia guardaria certa imprecisao: "A solidez da matematica se baseia em definicoes, axiomas, demonstracoes. Contentarme-ei em mostrar que nenhum destes elementos, no sentido em que o matematico os toma, pode ser realizado nem imitado pela filosofia..." (KANT apud BLUMENBERG 2013, p. 96).

Assim, certa indeterminacao e inevitavel na operacionalidade dos conceitos, de modo que a clareza pretendida tera de vir a partir do acompanhamento do "curso do trabalho" e ai poderemos saber se o PSB e um conceito e, o que mais importa, se e ferramenta eficaz no tratamento das questoes levantadas pelos estudos historicos e culturais contemporaneos.

O Pensamento Social Brasileiro na imprensa
Devemo-nos habituar a que o conceito nao e evidente por si mesmo. Dizer
"isto e um elefante" pressupoe a pergunta "que e isso?". A pergunta se
funda no fato de que nao e evidente haver visto aquilo que e e o que
significa, o que ai sempre se encontra, que se possa supor ou aguardar
(BLUMENBERG 2013, p. 71).


E uma constatacao da historia cultural brasileira que a imprensa cumpriu, entre meados do seculo XIX e meados do XX, papel fundamental na formulacao de saberes diversos, divulgacao de producoes simbolicas, promocao de debates, nos eventos politicos, culturais e sociais, nas mobilizacoes religiosas, assim como foi fonte de emprego ou de rendimentos para profissionais de diferentes areas (SODRE 1966; MICELI 1977; OLIVEIRA 1990; MOREL 2005; TEIXEIRA 2001; VELLOSO 2015). Como afirmara sinteticamente Oswald de Andrade em seu Manifesto da Poesia Pau-Brasil, tambem ele publicado em paginas de jornal: "No jornal anda todo o presente" (ANDRADE 1924, p. 2).

A expressao "pensamento social" aparece ja nos anos 1830 na imprensa brasileira. Na primeira ocorrencia por nos encontrada, o termo foi mobilizado pelo politico, escritor e tipografo Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente. Nesse periodo incipiente da imprensa no pais, os jornais seriam, em geral, "orgaos politicos por excelencia--tribunas doutrinarias", tornando-se a "expressao de uma personalidade, refletindo-lhes as ideias, os sentimentos, o feitio moral" (SOUSA 1936, p. 53). No lancamento do jornal O Correio do Imperador ou o Direito de Propriedade, Patroni definia seus projetos na tumultuada realidade politica da Regencia:
Encetamos uma nova carreira, a carreira mais brilhante, que ate agora
se tem trilhado na Politica do Brasil! [...] Os egoistas, inimigos do
Brasil, inimigos da Monarquia Constitucional e da nossa augusta santa
Religiao Catolica, certamente que hao de levantar gritos altos e
descompassados [...]. Nos so queremos que se de seu a seu dono: ora
isto e justamente que se chama direito de propriedade. Por conseguinte,
o nosso justo meio, isto e, o direito de propriedade, cada um no que e
seu, o Senhor D Pedro II no seu trono constitucional [...]. (PATRONI
1836a, p. 1).


Patroni, admirador dos irmaos Antonio Carlos, Jose Bonifacio e Martim Francisco de Andrada, tratara de uma nova maneira de se distribuir benesses ou "recompensas" concedidas pelo Estado:
Um fato bem simples que deu origem a composicao do Codigo de
Recompensas. Seu autor tinha ouvido dizer que os Srs. Andradas [...]
conferiam os empregos e condecoracoes aos homens benemeritos, sem que
lhes fosse necessario pedir ou adular, isto e, sem patronato [...].
Este fato foi um raio de luz, refletindo de um cristal ao pino do meio
dia: o Douto Patroni nao pode encarar com ele; e sua alma subindo logo
ao mais elevado pensamento social--o direito de propriedade--saiu o
Codigo das Recompensas [...] (PATRONI 1836b, p. 3-4).


Assim, o "pensamento social" era vinculado a questao da propriedade privada, da defesa da religiao catolica e do direito adquirido em meio a sociedade imperial.

Em 1883, ojornal O Libertador--orgao da sociedade cearense libertadora, ao celebrar o fim da escravidao em Mossoro, no Rio Grande do Norte, falava que "o Sertao vem neste momento fazer visitas ao mar" e que "tres mil pessoas carregando a bandeira nacional e as bandeiras abolicionistas, vitoriavam a igualdade humana!". Seria uma "noite civilizadora", na qual "o pensamento social fraternizava-se nas chocas e nos palacetes" (MOSSORO 1883, p. 2). O "pensamento social" atingiria o principal problema do Imperio: a escravidao, mobilizando uma "solucao" conciliatoria entre as "chocas" e os "palacetes".

A maior recorrencia da nocao pensamento social na passagem do seculo XIX para o XX e a articulacao entre principios catolicos e maneiras de se conter os conflitos entre trabalhadores e proprietarios. Tal perspectiva encontra-se nos escritos do padre Julio Maria, figura central no processo de rearticulacao da Igreja Catolica no interior da Republica (FREYRE 1974; 1962; ROMANO 1979; RODRIGUES 1981; ARDUINI 2011; PAULA; RODRIGUES, 2012). Inspirado pelas enciclicas do Papa Leao XIII, J. Maria defendia que ai se manifestava o "mesmo sentimento do Cristo Jesus" e que a "fome fisica da multidao nao era mais sagrada para o Messias do que e hoje para o seu Vigario a fome de direito, de justica e de verdade que oprime o povo" (MARIA 1898, p. 1).

A Republica conhecera uma expansao do uso do termo "social" em varios campos, inclusive no pensamento socialista (GOMES 2005). Falava-se, entao, em "romance social" ou numa "poesia de acao" que tratariam de questoes relacionadas a pobreza das cidades, ao analfabetismo, a emergencia do anarquismo e do socialismo, de modo que um poeta como Olavo Bilac aceitava ser visto como um "apostolo-socialista" (BILAC apud RIO 2006, p. 18). A "questao social" tomava as paginas dos jornais com noticiarios sobre greves, acoes de anarquistas, conflitos entre trabalhadores e patroes, miserias no campo e nas cidades (NAXARA 1991; HARDMAN 2002). A palavra "social" parecia conter um teor "explosivo", num contexto em que a expressao "luta de classes" circulava de maneira ampla na imprensa, ainda que para ser criticada pelo "pensamento social catolico" ou para denunciar o seu maior teorico, conforme pregacao do arcebispo do Rio de Janeiro, Sebastiao Leme, no primeiro numero da coluna "Acao Catolica" no Brasil, publicada em jornal de circulacao nacional:
O fator economico adquiriu tal prevalencia, nos nossos dias, que ate
parece ter mudado a fisionomia de todos os outros valores, dando
aparencias de verdade a ideologia do autor do Kapital. [...] O
materialismo historico de Marx abriu a falencia, apos a dolorosa
experiencia da Russia. Onde encontrar a solucao da incognita
inquietadora? No retorno a moral do Evangelho, unica capaz de despertar
nas consciencias, o sentimento de solidariedade humana, hoje em dia
obliterado, unica capaz de levar a inteligencia do proprietario a
conviccao da funcao social da riqueza (LEME 1927, p. 11).


E na decada de 1930 que a expressao pensamento social ganha o complemento "brasileiro". Nao ha, porem, ao que parece, uma obra que defina tal PSB como um conceito aquela altura. E segundo o seu uso que podemos perceber as modificacoes que o termo "brasileiro" trouxe ao campo semantico do pensamento social. Notamos um primeiro emprego em anuncio de palestras promovidas pelo Centro Oswald Spengler, no Rio de Janeiro: "Prosseguindo a apresentacao das varias correntes do pensamento social brasileiro, dominantes da dinamica da entrosagem social; realiza [...] mais uma sessao extraordinaria [...] o Centro Oswaldo Spengler" (UMA CONFERENCIA 1933, p. 8).

O centro foi fundado em 1933 (SKOLAUDE 2016, p. 24) e tinha como presidente Aben-Athar Netto (UMA CONFERENCIA 1934, p. 11). Netto era da Acao Integralista Brasileira (AIB) e, no ano de 1937, desencadeara uma dissidencia na AIB, lamentando que "o velho sentido reacionario" teria permanecido "a servico de um individuo audacioso e sorrateiro: Plinio Salgado" (DECLARACOES 1937, p. 3). Nao ha muitas informacoes acerca do Centro. Ele revela, porem, a recepcao da obra do alemao Oswald Spengler no Brasil, que ocorrera ja no inicio dos anos 1920 e continuara pela decada seguinte. Em 1923, Joao Ribeiro lia o autor de "O Declinio do Ocidente" (1918-1922) como um diagnostico de fins dos tempos:
Lancando as bases da morfologia historica e estudando a analogia das
varias culturas, Spengler anuncia-nos a--"Queda do Ocidente"--a morte
da civilizacao atual [...]. E realmente um quadro lugubre o das
perspectivas que nos cabem no seculo presente. (RIBEIRO 1923, p. 1).


Outros autores apropriaram-se do pensamento de Spengler como referencia teorica para a confeccao de suas obras, como Tristao de Athayde (TOLENTINO 2016); Mario de Andrade (BERRIEL 1987); Gilberto Freyre (FREYRE 2003) e Sergio Buarque de Holanda (MATA 2016).

A conferencia anunciada pelo Centro teria como palestrante o critico literario Agripino Grieco que trataria da "grande vida" e da "grande obra" de Vicente Licinio Cardoso (UMA CONFERENCIA 1933, p. 8). Assim, num momento de nacionalismo exacerbado, nao faltando tinturas integralistas, o recem-cunhado termo PSB era representando pelo nome de Licinio Cardoso, autor de importantes obras acerca da realidade nacional, com destaque para o livro coletivo por ele organizado em 1924, "A margem da historia da Republica", que contou com Oliveira Vianna, Gilberto Amado, Tristao de Athayde, Ronald de Carvalho, Pontes de Miranda, Carneiro Leao, Jonathas Serrano, dentre outros (CARDOSO 1990).

A historiografia brasileira afirma a emergencia nos anos 1930 de um nacionalismo que, mais do que contundente, como ja o era na Primeira Republica (OLIVEIRA 1990; LUCA 1999; DUTRA 2005), torna-se politica deliberada de Estado (GOMES; OLIVEIRA, VELLOSO 1982; BOMENY 2001). Destacam-se, ainda, novos rumos dos empreendimentos de producao do saber, englobando ai a criacao de Universidades, a promocao de politicas editoriais de largo alcance (DUTRA 2006; FRANZINI 2006), as modificacoes na imaginacao literaria e ficcional (BUENO 2006) etc. No anuncio da palestra, eram convidados os nomes do PSB "dominantes da entrosagem social", ou seja, aqueles que, seguindo Spengler, poderiam definir a morfologia da sociedade brasileira. Gilberto Amado, Mucio Leao, Renato Almeida e Arthur Ramos estiveram entre os conferencistas do Centro.

O PSB que aparece nas formulacoes do Centro Oswald Spengler, apesar de nao ser um conceito claro, traz em si o trabalho de organizacao dos saberes. Destaca-se ai a selecao de perspectivas intelectuais identificaveis com o olhar do cientista social, num compromisso com a "objetividade" e com o saber "cientifico" que se tornam recorrentes nos anos 1930. Ha outro ponto importante: o "social", que era termo "explosivo" na cultura intelectual brasileira, passou, com a formula PSB, a se identificar com o saber especializado, com alguma coisa entre sociologia, historia, ciencia politica e cultura.

Nos anos 1940, a livraria Jose Olympio divulgava a "Colecao Documentos Brasileiros", cujo primeiro volume foi "Raizes do Brasil" (1936). Aquela altura, sua direcao havia passado das maos de Gilberto Freyre para a coordenacao de Octavio Tarquinio de Sousa. A livraria destacava que a colecao:
[...] representa alguma coisa de muito forte na cultura brasileira
contemporanea. Sua orientacao, a bem dizer, e uniforme. Rigoroso
criterio de selecao de autores e livros, presa a um espirito louvavel
de nacionalizacao, a manter o rumo que vem mantendo, podera mesmo
ocupar um capitulo na historia do moderno Pensamento Social Brasileiro
(LIVROS 1944, p. 3).


O "moderno pensamento social brasileiro" e associado aos nomes de Cassiano Ricardo, na obra "Marcha para o Oeste", Jose Carlos de Macedo Soares, no livro "Fronteiras do Brasil no Regime Colonial", e Gilberto Freyre, com "Casa Grande e Senzala". Assim, vemos o PSB articulado com o que a noticia nomeava "grandes estudos de sociologia nacional" (LIVROS 1944, p. 3). Vinculado a tais "estudos", o PSB e mobilizado em diferentes regioes do Brasil e torna-se termo relativo a formacao de algum canone acerca da compreensao do "homem brasileiro" e dos "problemas nacionais" (CHIARELLO 1949, p. 3). Nao ha, porem, um consenso acerca de tais nomes canonicos, podendo abrigar figuras como Alberto Torres, Farias Brito e Euclides da Cunha. A obra deste ultimo, "Os Sertoes", seria a "biblia do pensamento social brasileiro" (CHIARELLO 1949, p. 3).

Nos anos 1960, o PSB consolida-se como campo de saberes acerca da realidade nacional em diferentes ambitos. Em editorial do Jornal do Brasil, que tinha Alberto Dines como editor-chefe, afirmava-se que "quem recapitula o Pensamento Social Brasileiro das ultimas duas decadas percebe que ha muitos nacionalismos" (NACIONALISMOS 1967, p. 6).

Com referencias ao entao recem-extinto ISEB (Instituto Superior de Estudos Sociais) e sua tese desenvolvimentista, o editorial enumerava a existencia de tres nacionalismos a epoca: de fins, de meios e o emocional. O primeiro seria "moderado", nao importando se o desenvolvimento viria com "capitais brasileiros ou alienigenas", ao passo que o segundo seria "esquerdista", avaliando que o "capital estrangeiro representa o mal absoluto" (NACIONALISMOS 1967, p. 6). A realidade, porem, manteria o predominio de um "nacionalismo emocional" que se basearia no "vago temor dos capitais estrangeiros e na crenca de uma conspiracao internacional contra o Brasil" e, sendo "antidesenvolvimentista", constituia o "paradoxo de ser um nacionalismo antinacionalista" (NACIONALISMOS 1967, p. 6). O PSB agregava, entao, o horizonte desenvolvimentista que se tornara um eixo para os diagnosticos nacionais.

Nos anos 1970, temos a repercussao dos debates universitarios, inclusive denunciando-se sua precariedade:
A reflexao teorica no campo da Sociologia do Brasil e uma atividade que
nao encontra ainda os incentivos basicos que lhe garantam a
continuidade e o progresso. As tradicoes do pensamento social
brasileiro, o tipo de estrutura do sistema universitario, os caracteres
negativos do ambiente intelectual e as expectativas societarias
relativas as ciencias humanas nao alcancaram o ponto de maturacao
condizente com o estabelecimento dos requisitos essenciais a producao
cientifica em geral (SOCIOLOGIA 1972, p. 32).


Ai, o PSB ja estava vinculado a universidade, relacionado a sociologia e com figuras de destaque, como se depreende da noticia sobre o lancamento da obra "Revolucao Burguesa no Brasil": "Florestan Fernandes, ex-professor de Sociologia da Universidade de Sao Paulo [...] e uma das maiores figuras do Pensamento Social Brasileiro e de prestigio para alem de nossas fronteiras" (A REVOLUCAO 1978, p. 75).

O PSB era associado a formacao de cientistas sociais, como revelam as entrevistas com as "brasilianistas" Ligia Sigaud, Lucia Lippi Oliveira, Aspasia Camargo, Maria Vitoria de Mesquita Benevides, Amelia Cohn e Maria Herminia Tavares de Almeida. Na ocasiao, Aspasia e apresentada como "formada em ciencias sociais e com pos-graduacao em Pensamento Social Brasileiro" (BUNTENMULLER; LYRA 1976, p. 88).

Na imprensa, transparecem alguns efeitos do "controle" universitario do PSB, conforme analise de Antonio Celso de Souza e Silva a respeito da obra "Ordem burguesa e liberalismo brasileiro", de Wanderley Guilherme dos Santos. Na ocasiao, destaca-se que um recorte temporal que remontaria ao seculo XVI nao contaria com mais de uma centena de nomes, de modo que, se elencados a partir de 1940, restaria ao "patrimonio do Pensamento Social Brasileiro nada mais que 50 autores, os quais boa parte vitima da miopia provocada por distorcoes de interpretacao cientifica"(SOUZA E SILVA 1979, p. 41). No mesmo sentido, o PSB tem seus canones definidos reiteradamente: "'Casa Grande e Senzala' [...] 'Retrato do Brasil' [...] 'Raizes do Brasil' [...] e 'Formacao do Brasil Contemporaneo' [...] estruturam o fundamento do Pensamento Social Brasileiro [...]" (OBERG 1988, p. 51). Disputa-se, ainda, a orientacao do PSB:
[...] foi de inspiracao marxista, ortodoxa ou nao, boa parte do melhor
Pensamento Social Brasileiro dos ultimos 50 anos: basta lembrar Caio
Prado Junior, Nelson Wenerck Sodre e Fernando Novaes na historiografia;
Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Fernando H Cardoso e Francisco
Weffort, na sociologia e na teoria politica; Celso Furtado e Francisco
de Oliveira, na economia; Jose Artur Gianotti, Marilena Chaui e Leandro
Konder, na filosofia; Antonio Candido e Roberto Schwarz, na critica
literaria (COUTINHO 1989, p. 47).


No ambito cultural mais largo, o PSB era mobilizado em sentidos e contextos variados. Denunciava-se o descaso com o acervo de Oliveira Viana, destacando os dez mil livros de sua biblioteca em Niteroi, que seria "bastante representativo para o Pensamento Social Brasileiro e universal" (LAPA 1978, p 15). Nos transitos internacionais, Francisco Weffort anunciava a possivel publicacao em Cuba do livro "Casa Grande & Senzala": "Preocupado com a renovacao do pensamento social brasileiro, foi-me necessario, porem, comecar mais atras, com alguns dos nossos grandes livros de sociologia e politica dos anos 20 e 30" (CUBA 1980, p. 9). Freyre, por sua vez, agradecendo as palavras de Raymundo Faoro no Seminario de Tropicologia da Fundacao Joaquim Nabuco, reconhecia no autor de "Os donos do poder", que "tanto enriqueceu o pensamento social brasileiro", uma das "mais completas expressoes de pensador, alem de politico, social" (FREYRE 1984, p. 11) no Brasil. Ja o cineasta Nelson Pereira dos Santos comentava que seu filme "Tenda dos Milagres" pretendia "discutir a realidade social atraves da Historia e fala da formacao do proprio pensamento social brasileiro" (SANTOS apud SHILD 1987, p. 37). Por fim, lamentava-se a falta de "autorreferencia teorica nas ciencias sociais", de modo que o PSB nao seria tao brasileiro assim:
Nossos pensadores e pesquisadores encontram-se definitivamente
convertidos a teorizacao dependente. A imensa maioria e adepta da
neutralidade metodologica e axiologica, na linha cientificista
tributaria de Durkheim, de Weber, de Parsons, conforme o projeto
mapeado por Comte. Na contracorrente socialista e freudo-marxista, a
critica encontra-se emaranhada nas duvidas tematizadas por Gramsci,
pelos frankfurtianos, por Lacan, Althusser, Foucault e os neo-kantianos
em geral. Tanto no polo positivista quanto no polo dito revolucionario,
o Pensamento Social Brasileiro e um pensamento definitivamente
dependente, tributario (VIEIRA 1987, 51).


Da historia das ideias ao pensamento social brasileiro

Djacir de Menezes escrevia na antologia "Brasil no pensamento brasileiro" (1956), que tal titulo era o mais adequado ao volume, pois traria textos que formariam a "consciencia nacional" (MENEZES 1998, p. 15). A obra reuniria autores que nao teriam feito o "transplante mecanico de concepcoes estranhas", que seriam "brasileiramente preocupados com os nossos problemas", que "pensaram como intelectuais legitimos [...] buscando interpretar para agir"e que eram atuais: "Em nenhuma epoca se sente mais necessidade de estudar o passado do que nestes dias de incerteza, ante a decomposicao dos estilos tradicionais do pensamento, cujos valores estao sob o fogo da critica prestes a transmudar-se nos golpes de forca" (MENEZES 1998, p. 21). O livro nao possui marcos disciplinares precisos, sendo os parametros de selecao estipulados por juizos sobre a "consciencia nacional". Ele traz, como muitos que lhes seguirao, a formacao de canones, contando nomes como Frei Vicente de Salvador, Jose Bonifacio, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr, Joao Ribeiro, Miguel Reale, Farias Brito, Alceu Amoroso Lima, dentre muitos outros, elencando, ainda, Jose de Alencar, Graca Aranha e Lima Barreto. (1) ressaltando-se o "criterio didatico e sociologico" defendido pelo autor (MENEZES 1998, p. 15).

A "Antologia do Pensamento Social e Politico brasileiro" (1968), de Luis Washington Vita, possui similaridades com a obra de Menezes, ambos os autores membros do Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF), fundado em 1949 por Miguel Reale. A organizacao do volume foi feita por encomenda do Departamento de Assuntos Culturais da Uniao Pan-Americana, com sede em Washington, que ja havia lancado uma "Antologia del pensamento social y politico de America Latina" (1964). Vita esclarece que a "historia das ideias" ja seria uma "categoria na qual poderia considerar-se qualquer tema relacionado com a filosofia, o pensamento social e politico, e as ideias de qualquer classe", de modo que o "pensamento social e politico" e tomado "num sentido largo" que abarcaria as "ideias sobre a organizacao dos poderes politicos ou sobre relacoes sociais" (VITA 1968, p. 10). Ele lamenta o fato de "cortar autores relevantes" como Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa. Abordando desde o "pensamento colonial" ate producoes recentes a epoca, destaca-se o vocabulario filosofico dos recortes tematicos: saber de salvacao, saber de ilustracao, ecletismo, krausismo, neotomismo, reacionarismo numinoso, Escola de Recife, Heterodoxia positivista, sentido da nacionalidade, pervivencia cientificista, dimensao filosofica do modernismo e correntes cruzadas. A Antologia reunia nomes de Manoel da Nobrega a Helio Jaguaribe, mas tambem Mario e Oswald de Andrade (VITA 1968, p. 11).

A nocao PSB e produto do seculo XX, de modo que a expressao era desconhecida pelos membros da geracao de 1870 e apenas sera mobilizada como organizadora do passado intelectual e cientifico do pais a partir dos anos 1960. Em seu estudo sobre a "Escola de Recife" (2), Vamireh Chacon analisaria, seguindo as palavras de Silvio Romero, o "desenvolvimento espiritual do pais" (ROMERO apud CHACON 1969, p. 17), com destaque a "influencia intelectual" da "Escola" que culminaria no Codigo Civil de 1916, redigido por Clovis Bevilaqua. Ele faria uma "historia das ideias" (CHACON 1969, p. 23) e seu objetivo seria afirmar a "prioridade nordestina no pensamento brasileiro", elencando autores como Capistrano de Abreu, Araripe Junior, Silvio Romero, Tobias Barreto e Anibal Falcao, dentre muitos outros, tomados a partir dos nucleos de Fortaleza e Recife. Nomes que conformariam o "maior movimento de ideias na America Latina" e representariam uma "contribuicao global a evolucao nacional" (CHACON 1969, p. 186).

No levantamento efetuado por Angela Alonso sobre os principais artigos, livros, manifestos, circulares eleitorais, memorias e opusculos produzidos pela chamada geracao de 1870, notamos a ausencia do termo "social" (3) nos titulos de tais publicacoes (ALONSO 2002, p. 347-363). Porem, o tema da "representacao social" ganhou espaco entre intelectuais do fim do seculo XIX, na conjuncao entre os saberes etnograficos e historiograficos, a fim de se construir a "verdade" da sociedade brasileira e a constituicao (problematica) da soberania popular (TURIN 2009, p. 179). Isso numa epoca em que o "povo" era tomado, ora segundo um conceito "abstrato" e politico que era bastante restritivo; ora segundo os saberes cientificos sociologicos e historicos mais amplos, que o definiam por"raca", "lingua", "costumes", "meio fisico" e "influencias estrangeiras", mas "fora do dominio politico" (PEREIRA 2011, p. 264).

"O Brasil social e que deve atrair todos os esforcos de seus pensadores" (ROMERO apud PEREIRA 2011, p. 246), afirmava Silvio Romero, se dizendo farto das discussoes politicas. Ao apreciar as origens da sociologia, Norbert Elias chama a atencao para sua relacao com a intensidade dos "conflitos sociais" nos contextos posteriores a revolucao industrial, de modo que "houve uma tendencia crescente para que se conduzissem as lutas sociais nao tanto em nome de determinadas pessoas, mas antes em nome de certos principios impessoais e de certas crencas" (ELIAS 1999, p. 66). Tais "principios impessoais" seriam os reguladores da "sociedade" tomada agora como um objeto de conhecimento autonomo, a sociologia, tal como formulado por Augusto Comte. Acerca da "representacao social", considera Elias Palti: "A nocao de representacao social e, em definitivo, inseparavel de um saber, de uma ciencia do social; pressupoe uma determinada sociologia" (PALTI apud TURIN 2009, p. 179).

Assim, o termo "social" e associado a um novo objeto cientifico, a "sociedade" que, nao obstante, nasceria dos proprios conflitos pos-industriais, notadamente em torno da divisao do trabalho, tema, alias, privilegiado por Emile Durkheim (GIDDENS 1976, p. 723), mas que nao se restringiria a ele, a exemplo dos estudos sociais oitocentistas brasileiros. Como ja dissemos, a "questao social", entendida como conflitos entre capital e trabalho, era tema recorrente na cultura intelectual brasileira da Primeira Republica e "combinava-se com a questao nacional" (HARDMAN 2002, p. 55). Jose Verissimo a considerava a "heranca" do seculo: "teve a economia politica a utilidade de manter desperta a atencao para o grande problema da chamada questao social, cuja solucao o seculo XIX lega a seus sucessores" (VERISSIMO apud HARDMAN 2002, p. 332). Talvez por isso, Gilberto Freyre, em seus esforcos de consolidacao da sociologia como disciplina cientifica entre nos, tanto em seus cursos na Universidade do Distrito Federal (UDF), quanto na obra "Sociologia: uma introducao aos seus principios" (1945), reiterava a necessidade de se dissociar sociologia de socialismo (MEUCCI 2006, p. 189).

Freyre tratou da distincao entre "social e sociologico", explicando que "o social compreende todas as relacoes, atividades e produtos que se referem a associacao entre seres humanos; ao passo que o sociologico diz respeito, tao somente, aos processos de socializacao" (MEUCCI 2006, p. 190). Abordando o mesmo tema, mas de maneira distinta, Donald Pierson, no mesmo ano, defendia, em "Teoria e Pesquisa em Sociologia" (1945), que o objeto da sociologia seria o "grupo social, sua origem, estabilidade e subsequente desintegracao" (PIERSON apud MEUCCI 2006, p. 190). Tal distincao de perspectivas passara a representar posicionamentos de instituicoes diferentes, em que Pierson se associava a Escola de Sociologia e Politica (1933) da Universidade de Sao Paulo, criada com auxilio de missoes estrangeiras (MASSI 1998), e Freyre, que fundara o Instituto, posteriormente, Fundacao Joaquim Nabuco (1949). Autores uspianos, como Octavio Ianni e Florestan Fernandes, fizeram duras restricoes aos trabalhos de Freyre. Ianni pos a sociologia do pernambucano entre aspas, considerando-a uma "concepcao particularista" (MEUCCI 2006, p. 259), e Fernandes o acusava de cometer "virtuosismo sociologico" e prolongar "discussoes perifericas" (MEUCCI 2006, p. 276). Freyre respondia considerando, dentre outras coisas, que "os cientistas que escrevem mal tem horror aos que escrevem bem: tratam-nos de resto, considerando-os com o mais soberano desprezo, 'literatos'" (FREYRE apud MEUCCI 2006, p. 263) e lembrava seu reconhecimento no exterior, especialmente na Franca, onde sua producao era qualificada como uma antropologia ou sociologia existencial (MEUCCI 2006, p. 273). Interessa-nos nesse debate que tais criticas a Freyre o classificavam em meio ao que se passou a nomear "ensaismo", que seria uma manifestacao "pre-cientifica" das disciplinas das ciencias sociais (MEUCCI 2006, p. 243).

Entramos, entao, no processo de consolidacao do ensino superior e da pos-graduacao do ensino e pesquisa em ciencias sociais no Brasil, com a criacao da Universidade de Sao Paulo -USP (1933); da UDF (1935-1939); do IBF (1949); da Fundacao Joaquim Nabuco (1949), do ISEB (1955-1964); da pos-graduacao em ciencias sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA -- 1962); do Centro de Estudos Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1963); da pos-graduacao em sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE -- 1967); do Instituto Universitario de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ-1969); do Centro de Pesquisa e Documentacao de Historia Contemporanea do Brasil da Fundacao Getulio Vargas (CPDOC-FGV, 1973); da pos-graduacao em sociologia do desenvolvimento da Universidade Federal do Ceara (UFC -- 1976), dentre outros (BARREIRA; CORTES; LIMA 2018, p. 83-85).

A criacao da Associacao Nacional de Pesquisa e Pos-Graduacao em Ciencias Sociais (ANPOCS) teria papel decisivo na consolidacao do campo disciplinar:
Com a criacao da ANPOCS, em 1977, e, em parte, estimulados pela nova
Associacao, emergiram outros programas de pos-graduacao na area de
sociologia: o Mestrado em Desenvolvimento e Agricultura (CPDA), da
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, inaugurado tambem no ano
de 1977; o Mestrado em Sociologia, com area de concentracao em
sociologia rural, em Campina Grande, a epoca pertencente a Universidade
Federal da Paraiba (UFPB), fundado em 1977; o curso de mestrado em
ciencias sociais da UFSC, implantado em 1978; o curso de mestrado em
sociologia da Universidade Federal da Paraiba, criado em 1979, da
Universidade Estadual Julio Mesquita Filho (UNESP), Araraquara, em
1980, e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1981; e o
curso de mestrado em ciencias sociais da UFRJ, aberto em 1983.
(BARREIRA; CORTES; LIMA 2018, p. 85-86).


E a partir desse contexto de institucionalizacao das ciencias sociais no Brasil que deveremos abordar os movimentos seguintes acerca do PSB.

Pensamento Social Brasileiro sob controle: caminhos e roteiros

No livro de W G dos Santos, "Roteiro do Pensamento Politico-Social Brasileiro (1870-1965)", podemos notar o empreendimento de se constituir uma historia e uma tradicao das ciencias sociais no Brasil. Retrospectivamente, toma-se a obra do professor da USP, Fernando de Azevedo, "A Cultura Brasileira -- Introducao ao estudo da cultura no Brasil" (1943), como marco primordial desse tipo publicacao em seu duplo sentido: tanto como produto de um pensador social brasileiro vinculado a universidade, quanto uma historia dessa mesma area do saber. Azevedo, entretanto, se utilizou do conceito "cultura", e nao PSB.

Tres vertentes sao enumeradas no "Roteiro" de W G dos Santos: a institucional, a sociologica e a ideologica. A primeira diria respeito a criacao das instituicoes superiores dedicadas as ciencias sociais no pais, faculdades, institutos, cursos de pos-graduacao etc. que formalmente inaugurariam a profissao de cientista social nos anos 1930. As instituicoes somam-se os pressupostos epistemologicos referentes ao advento das "tecnicas modernas de investigacao social--os estudos de campo por amostragem, o questionario, a entrevista" (SANTOS 2002, p. 30). Essa vertente deve ser destacada, pois ela delimita um corte hierarquico entre producoes "pre-cientificas" e "cientificas" na historia da investigacao social no pais.

A segunda vertente, sociologica, remete a necessidade de se analisar a estrutura social e economica que condicionaria a propria emergencia das instituicoes de ciencias sociais, assim como as preocupacoes, as questoes, os paradigmas, as hipoteses e as variacoes nos conteudos dos investigadores. Consequentemente, seria possivel, em ultima analise, "deduzir os atributos ou dimensoes do pensamento social dos atributos e dimensoes do processo social" (SANTOS 2002, p. 31). A terceira vertente, ideologica, se desenvolveria na analise dos textos associados ao PSB, de modo a caracterizar seus conceitos, pressupostos metodologicos, perspectivas e sentido geral (SANTOS 2002, p. 36). O autor termina por delimitar marcos originarios do PSB, ainda que seu trabalho recue para alem do periodo mencionado:
Entre 1930 e 1939 produzem-se no Brasil as mais argutas analises sobre
o processo politico nacional, elaboram-se as principais hipoteses sobre
a formacao e funcionamento do sistema social, e articula-se o conjunto
de questoes que, em verdade, permanecerao ate hoje como o nucleo
fundamental embora nao exaustivo de problemas a serem resolvidos
teorica e praticamente (SANTOS 2002, p. 44).


Apresentadas as tres vertentes, nao ha uma definicao sobre o que seria o PSB. Porem, ja podemos considerar que os integrantes de tal tradicao seriam autores que contribuiram com as ciencias sociais no Brasil ou a prefiguraram, constituindo-se em cientistas e pre-cientistas que procuraram e procuram explicar o pais. Percebemos que o termo PSB passa a ser associado a textos qualificados como de reflexao social, investigacao social, analise social e imaginacao politica e social, que parecem refletir certa precariedade na conceituacao. Inclusive porque o marco institucional nao garante a identidade do PSB, de modo que o trabalho de Santos adota o recorte temporal entre os anos 1870 e 1965, mas nao titubeia em considerar que os nomes ai reunidos poderiam ir de Jose Bonifacio de Andrada a Fernando Henrique Cardoso (SANTOS 2002, p. 15).

Em sua "Pequena Bibliografia Critica do Pensamento Social Brasileiro", Ronaldo Aguiar segue os passos de Santos e se diz influenciado pela obra de Otto Maia Carpeaux, "Pequena bibliografia critica da literatura brasileira". Interessante lembrar que a "literatura brasileira" foi expressao controversa e submetida a polemicas quanto a sua definicao, e mesmo existencia, ja no seculo XIX e, no seculo XX, conheceu variadas posicoes criticas a seu respeito em autores como Antonio Candido, Afranio Coutinho, Haroldo de Campos, Luiz Costa Lima, Silviano Santiago e outros (SANTIAGO 2015).

Quanto ao PSB, Aguiar, a fim de recompor os "autores mais representativos das diferentes epocas dos estudos sociais e politicos no Brasil", nao admite o marco antes e depois dos anos 1930, considerando-o um "indesculpavel reducionismo" e elenca nomes que vao de Frei Vicente do Salvador ate Fernando Henrique Cardoso (AGUIAR 2000, p. 53) e avalia que uma historia do PSB esta "ainda por ser escrita" (AGUIAR 2000, p. 14)

No livro organizado por Lilia Schwarcz e Andre Botelho, "Um enigma chamado Brasil -- 29 interpretes e um pais" (2009), sao elencados nomes que vao do Visconde do Uruguai ate Roberto Schwarz e Fernando Henrique Cardoso. Reconhecemos nas tres obras, assim, o esforco de producao de um canone do chamado PSB com especial destaque a consolidacao de nomes vinculados a sociologia paulistana. Ao mesmo tempo, nessa ultima obra, destaca-se a insercao do termo "interpretes" para qualificar tais autores canonicos. Tal modificacao e importante, uma vez que, como vimos, o PSB foi vinculado a emergencia das ciencias sociais no pais e que, nessa condicao, se distinguiriam de outras visoes do Brasil pelo seu carater explicativo, cientifico e metodologicamente controlado.

O PSB tem sido objeto de reflexoes teoricas contundentes. A propria obra de W. G. dos Santos ja representava uma critica as perspectivas de Florestan Fernandes, com pitadas de rivalidades entre Rio de Janeiro e Sao Paulo (RODRIGUES 2017). Em "Linhagens do pensamento politico brasileiro", Gildo Marcal Brandao retoma a institucionalizacao das ciencias sociais no pais, a diversificacao das areas de pesquisa e o intercambio entre o chamado PSB e o "pensamento politico brasileiro", ressaltando tratar-se de uma area de fronteira, entre a ciencia e a politica (BRANDAO 2005, p. 232). Brandao propoe uma abordagem diferenciada da tradicao do pensamento social e politico brasileiro, sem, no entanto, alterar o seu canone, procurando, antes, reconfigura-lo a partir de "familias intelectuais" e "formas de pensamento" que o caracterizariam, exemplificados a partir de conceitos como "idealismo organico" e "idealismo constitucional" de Oliveira Vianna, "marxismo de matriz comunista" e outros (BRANDAO 2005, p. 236-237). Seu foco, entao, se voltaria aos "principais textos e conceitos que materializariam tais formas de pensar" (BRANDAO 2005, p. 237) em autores como Tavares Bastos, Raymundo Faoro, Oliveira Vianna, Visconde do Uruguai e Rui Barbosa, reforcando sua imersao em um contexto historico e linguistico, no que segue os passos de Quentin Skinner, a fim de perceber continuidades e rupturas em tais linhagens:
[...] reconhecer que a historia das ideias, das ideologias e das
teorias politicas e, em grande parte, um vasto cemiterio, de tal
maneira que a constituicao de "familias intelectuais" e formas de
pensar e mais um resultado do que um pressuposto--padroes que se
constituem ao longo de reiteradas tentativas, empreendidas aos trancos
e barrancos por sujeitos e grupos sociais distintos, de responder aos
dilemas postos pelo desenvolvimento social (BRANDAO 2005, p. 251).


Christian Lynch, em "Por que pensamento e nao teoria? A imaginacao politico-social brasileira e o fantasma da questao periferica", tambem trata da expansao do campo em instituicoes como a ANPOCS, a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) e a Associacao Brasileira de Ciencia Politica (ABCP). Lynch aborda a atuacao de W. G. dos Santos, que teria superado tanto a tradicao do "hegelianismo filosofico" do ISEB, quanto o "positivismo cientifico" associado a sociologia uspiana (LYNCH 2013, p. 728). O autor destaca o "batismo" que Santos teria realizado ao agregar o termo "politico" ao pensamento social e a definicao estrita do campo que ai foi efetuada:
Ao excluir deliberadamente da pesquisa "as obras estritamente
historicas, antropologicas, psicologicas, economicas, metodologicas e
escolasticas", Wanderley organizou o campo de estudos do pensamento
politico-social brasileiro no ambito das ciencias sociais (LYNCH 2013,
p. 728).


A preocupacao de Lynch gira em torno das categorias de pensamento politico-social brasileiro, pensamento brasileiro e pensamento politico brasileiro, perguntando-se sobre o porque de tais denominacoes e da ausencia de uma teoria ou filosofia politica brasileira (LYNCH 2013, p. 730).

O autor argumenta que se trata de uma consciencia periferica que enxerga o universalismo das concepcoes elaboradas nos "paises centrais" como dignas dos nomes "teoria" e "filosofia", ao passo que, no contexto nacional, caberia a nomenclatura de "pensamento". Para comprovar tal tese, ele retoma textos de Sergio Buarque de Holanda, Alberto Torres, Florestan Fernandes, Joaquim Nabuco, Oliveira Lima, Silvio Romero, Miguel Reale, Roberto Schwarz e outros. Tal situacao, porem, nao seria um quadro estatico, mas encontraria modificacoes, tanto na valorizacao da tradicao do "pensamento politico-social brasileiro", quanto nas criticas ao eurocentrismo e insuficiencias dos modelos universalistas (LYNCH 2013, p. 732-775). Lynch conjectura possibilidades para o pensamento politico periferico: "sera possivel [...] sugerir um metodo alternativo de estudalo, apto a suprimir a distincao qualitativa entre 'teoria politica' ('universal'--centrico--superior) e 'pensamento politico' ('local' --periferico--inferior)" (LYNCH 2013, p. 760).

Em "Cartografia do pensamento politico brasileiro: conceito, historia e abordagens" (2016), Lynch retorna ao tema, nao para solucionar a questao mencionada, mas para pontuar aspectos do "pensamento politico brasileiro", como os sentidos a ele atribuidos, sua variada caracterizacao e nomeacao disciplinar em diferentes instituicoes de ensino superior e seu carater "periferico" (LYNCH 2016, p. 75). Ele caracteriza o "estilo periferico" do pensamento politico brasileiro que guardaria: menor grau de generalizacao e maior sentido pratico (4) das reflexoes politicas; maior centralidade da retorica, da oratoria e do argumento de autoridade; tendencia dos autores a se apresentarem como pioneiros da modernidade centrica; maior diluicao das posicoes extremadas; orientacao acentuadamente prospectiva da politica; abundancia de "projetos nacionais" dependentes da aclimatacao de modelos centricos (LYNCH 2016, p. 84-86). Lynch elenca as perspectivas teoricas dos trabalhos nos dias atuais (mannheimianos, lukacsianos e gramscianos) em diferentes instituicoes brasileiras, dai o artigo se configurar como uma "cartografia". O autor ressalta a relacao com a historia dos intelectuais e dos conceitos, mas lamenta o "complexo de inferioridade" que persistira no campo, assim como o seu "eurocentrismo" (LYNCH 2016, p. 113).

Conclusao: do PSB a cultura intelectual

Vimos, ao longo desse texto, como o pensamento social foi mobilizado nas primeiras decadas do seculo XIX, conformando-se, no seculo XX, como PSB segundo parametros epistemologicos, institucionais, disciplinares e cientificos, inclusive com a adicao do termo "brasileiro" e, depois, "politico" a sua denominacao. Nesse processo, esvaziou-se o potencial "explosivo" do termo "social" relacionando-o antes a sociologia universitaria, do que ao debate publico mais amplo, ao mesmo tempo em que se criou um "caminho" para os estudos acerca da cultura brasileira, primeiramente com uma tradicao de precientistas e cientistas sociais e, mais recentemente, a partir dos "interpretes" do pais. O PSB consolidou uma especie de "controle do imaginario", parafraseando a expressao de Luiz Costa Lima, no campo das interpretacoes do pais.

A adocao do termo "interpretes" e sintoma do reconhecimento de certa falencia das explicacoes totalizantes que tiveram voga no seculo XX (DOSSE 2004, p. 283-311). A interpretacao pretende menos explicar um objeto do que compreende-lo, retomando a oposicao cara a Wilhelm Dilthey acerca das distincoes epistemologicas entre as ciencias naturais e as ciencias humanas (REIS 2018). Trata-se, portanto, de uma perspectiva menos rigida e mais aberta a hermeneutica do que ao calculo. Considerar o PSB como vies privilegiado para a historia das interpretacoes do Brasil e situar em segundo plano toda producao literaria, ficcional, artistica, jornalistica e institucional no Brasil como incapaz de produzir tais sinteses.

Afinal de contas, como mostramos ao longo deste texto, o PSB nao e a literatura, nao sao as artes plasticas, nem os teoricos das cidades, os cronistas, chargistas, os propagandistas da moda, publicitarios etc., de modo que um consideravel numero de agentes nao pode ser enquadrado sob o termo.

Com o passar do tempo, o PSB parece se tornar uma especie de espelho temporal dos cientistas sociais que buscam obras e constroem canones que conferem identidade ao seu metier de maneira generica, num duplo sentido: tanto como genero de escrita segundo um modelo cientifico-racional de explicacao de uma realidade, quanto, num sentido mais geral, abrigando producoes que podem variar entre o ensaio, o artigo, a critica, a monografia, a tese academica etc. nao havendo espaco, porem, para producoes que escapem a tais formas discursivas, como a literatura, a cancao, as artes plasticas etc. Por isso, um Frei Vicente de Salvador pode compor tal canone e uma figura como Machado de Assis, nao. Nao se trata de mera selecao de nomes, mas da epistemologia que asseguraria a determinados tipos de discurso um carater explicativo cientifico ou pre-cientifico que lhes afiancaria a entrada em tal tradicao privilegiada.

A adocao da ideia de "interpretes", porem, nos convida a refletir acerca de tal lugar do PSB enquanto categoria de organizacao do saber acerca do Brasil. Afinal, a intepretacao procura ser pertinente, sem pretender a univocidade, a totalidade e a necessidade. Neste sentido, podemos considerar sinteticamente:
A interpretacao permite uma abertura, uma fissura entre o objeto e o
interprete que jamais esgotaria a peca musical, esta estaria sempre ali
para novas interpretacoes. Uma interpretacao e uma leitura, uma
possibilidade de entendimento, e ha muito vem sendo teorizada pelos
debates historiograficos que, cada vez mais, abandonam os rigores de
uma historia social de cunho sociologico em funcao de uma historia
cultural aberta nao so a novos objetos, mas a verificacao de seu
carater epistemologico complexo, para nao dizer fragil mesmo, nao
temendo, inclusive, as suas relacoes com o mundo ficcional. Assim, a
realidade brasileira tornar-se-ia essa peca musical passivel de
diferentes interpretacoes, podendo mesmo tornar-se, em alguns casos,
irreconhecivel. Ora, acontece que interpretar o Brasil nao e nem nunca
foi privilegio de nenhum segmento (TOLENTINO 2018, p. 19-20).


No dossie sobre PSB publicado na revista Lua Nova e organizado por Schwarcz e Botelho, em 2011, encontraremos algumas perspectivas conceituais acerca do tema. A publicacao reunia nomes como Renato Lessa, Elide Rugai Bastos, Sergio Miceli, Ricardo Benzaquen Araujo e Luiz Werneck Viana dentre outros nomes que compunham o Grupo de Trabalho de PSB da ANPOCS, criado em 1981. Ai encontramos a definicao de Sergio Miceli:
A chamada area de pensamento social preservou esse titulo historico,
que tem muito mais a ver com certa pratica intelectual de interpretar o
pais em chave macro, embora a maioria de seus atuais praticantes
decerto se encaixe melhor em alguma das sociologias atuantes nesses
universos de pratica social: sociologia dos intelectuais, historia
social da arte, sociologia da literatura. Atraindo cientistas sociais
de variada procedencia disciplinar--historia, sociologia, antropologia
etc.--as praticas de investigacao e de interpretacao foram impelidas a
dialogar com vertentes diversas da teoria sociologica contemporanea,
desde Weber, Gramsci, Durkheim, passando por Raymond Williams, Pierre
Bourdieu, Erving Goffman, ate as monografias incontornaveis de Ringer,
Christophe Charle, Stefan Collini, entre outros (MICELI apud BOTELHO;
SCHWARCZ 2011, p. 143).


Na definicao sucinta, temos no PSB a ideia de um "titulo historico" vinculado a uma serie de disciplinas sociais a ele ligadas.

Assim, haveria pensadores sociais "historicos", que interpretariam o pais em "chave macro", e cientistas sociais atuais que praticariam alguma das disciplinas mencionadas. Restaria a duvida sobre o que e "interpretar o pais em chave macro". A epigrafe do livro "Enigma chamado Brasil" traz a classica sentenca de Tom Jobim: "O Brasil nao e para principiantes". A obra de Jobim e uma interpretacao macro do Brasil? Seria ele um membro do PSB?Tais questionamentos poderiam se desdobrar acerca dos inovadores trabalhos de Esther Hamburger sobre PSB e teledramaturgia. Ao abordar obras de Dias Gomes, Lauro Cesar Muniz e Walter Durst, a autora explora de maneira bastante contundente a maneira como tais producoes reunem uma gama rica e variada de elementos que, na realizacao audiovisual, mobilizam tematicas da industria cultural, denuncias sociais, reproducao e critica de estereotipos nacionais, narrativas em torno das identidades brasileiras, relacoes complexas entre campos da esquerda e da direita politica no pais, transitos entre generos musicais e artisticos sintetizados em uma narrativa singular (HAMBURGER 2011, p. 79-107). A questao, porem, retorna: seriam tais tele-dramaturgos integrantes do PSB?

E na funcao de "espelho" dos pesquisadores que trabalham no interior de tal campo disciplinar, a criacao do PSB acaba por ser apreciada como dotada de certo carater demiurgico e totalizante. Assim, Jesse de Souza pode afirmar que Freyre "procurou e conseguiu criar um sentimento de identidade nacional brasileiro que permitisse algunr 'orgulho nacional'como fonte de solidariedade interna" (SOUZA 2017, p. 21). O grifo e nosso. Note-se que se atribui a um sociologo a capacidade de "criar" uma comunidade imaginada, um sentimento nacional compartilhado, que reconheceria em seu pais um carater unico, dentre todos outros paises do mundo. Seria isso possivel? Ainda que se conferisse tal carater inaugural a obra de Freyre, nao teria tal "imaginario nacional" de ser "traduzido" e, portanto, apropriado e ressignificado por uma rede de instituicoes, agentes culturais, intelectuais, professores, artistas, publicitarios, cancoes, producoes impressas, audiovisuais etc., alem dos proprios "brasileiros"? Mesmo a apreciacao academica dos escritos de Freyre era bastante controversa, para dizer o minimo, conforme aludimos anteriormente. Jesse parece dar continuidade a sentenca de Darcy Ribeiro, para quem sem a obra "Casa Grande e Senzala nos brasileiros nao seriamos hoje o que somos" (CUBA 1980, p. 9).

Trata-se ai de uma "traducao" com fins publicitarios, a frase original de Darcy era mais modesta, feita para o prologo da edicao venezuelana do livro: "Creo que podriamos prescindir de cualquiera de nuestros ensayos y novelas, aun cuando fuese lo mejor que hayamos escrito. Pero no pasariamos sin CG y S sin ser diferentes" (RIBEIRO 1985, p. X). Christian Lynch afirma, por seu turno, que a "percepcao periferica das elites ibero-americanas se refletiu num sentimento de inferioridade a respeito de seus produtos culturais" (LYNCH 2013, p. 739). Sera que tal juizo poderia ser aplicado as apreciacoes de Tom Jobim ou do recem-falecido Joao Gilberto acerca de suas "producoes culturais", ou ainda do conjunto dos artistas, chargistas, escritores e cineastas brasileiros? Tal "deslize" que vai do PSB a producao cultural do pais (e mesmo de um continente inteiro) revela o grau de "controle do imaginario" que tal perspectiva acabou imprimindo nas visadas acerca da historia cultural brasileira.

Por sua forca no interior das ciencias sociais, o campo do PSB privilegiou certas explicacoes, hoje vistas como interpretacoes do pais, segundo um canone de vies sociologico. Ao tratar dos trabalhos de intelectuais humoristas na Primeira Republica, Monica Velloso fazia alusao ao vigor de modelos explicativos baseados na seriedade:
Um dos argumentos reincidentes nesse discurso e a vinculacao imediata e
crua do humor com os fatos cotidianos. Dai as categorias de
superficial, ligeiro e menor que lhe sao atribuidas. E como se
existisse um saber superior pairando sobre a realidade acidentada do
cotidiano, capaz de ordenar os fatos dando-lhes logica e sentido, e e
em funcao dessa ideia que se opera a cisao entre conhecimento e
realidade. Delimita-se um repertorio de temas, fatos e procedimentos
considerados cientificos e serios; do outro lado ficam os temas
estigmatizados como menores, sem importancia e, sobretudo, banais
(VELLOSO 2015, p. 135).


Nao ha duvida que o PSB, na constituicao de seu canone, abracou tal perspectiva de uma "ideologia da seriedade". Em prefacio a obra de Gilberto Vasconcelos, "A ideologia curupira--analise do discurso integralista", Florestan Fernandes dizia nao concordar com a "moda" de se estudar o integralismo, nem mesmo seria necessario preocupar-se em combate-lo. Pois, "o que nos coube, na Virada fascista' da historia recente, merece mais a novela picaresca que a investigacao sociologica seria" (FERNANDES 1979, p. 11).

Poderiamos ratificar tais palavras hoje? Parece-nos mais necessario nao so estudar tais discursos e suas variacoes ao longo do tempo, como, principalmente, apreciar trajetorias como a do medico e humorista Madeira de Freitas (Mendes Fradique) que se torna fascista nos anos 1920 e integralista na decada de 1930 (LUSTOSA 1993). Ele escrevera uma "Historia do Brasil Pelo Metodo Confuso" (1920) que recebera seguidas edicoes a epoca. Era, sem duvida, um interprete do Brasil, mas seria um membro do PSB?

Tais questoes nos convidam para uma reavaliacao da historia intelectual no Brasil que precisaria, a nosso ver, para uma maior compreensao dos processos de producao, circulacao e recepcao dos bens simbolicos no pais, expandir seus horizontes teoricos, a fim de apreciar a dinamica de construcao de sentidos e significados sobre as mais variadas questoes na sociedade brasileira e em distintos segmentos e classes sociais. O proprio conceito de intelectual, raramente questionado pelos autores do PSB, precisa ser interrogado, a fim de nao reproduzirmos ideias que antes carecem de reflexao, debate e argumentacao, do que de reiteracoes autoevidentes. O PSB nao se ajusta a maioria da producao dos interpretes do Brasil, de modo que sua manutencao parece nos fazer optar entre Roberto Schwarz ou Machado de Assis.

Ha algum tempo, abrimos mao de tal perspectiva, a fim de teorizarmos acerca da emergencia de uma "cultura intelectual brasileira", caracterizada antes por uma condicao da dinamica da producao, circulacao e recepcao de materiais simbolicos diversos no interior da sociedade brasileira, do que por algum aspecto canonico, realista, cientifico, epistemologico ou formalista. A cultura intelectual, que nomeamos ao longo deste texto sem a definirmos, se associa, primordialmente, ao desenvolvimento dos meios de comunicacao, da circulacao de saberes por meios midiaticos (livros, jornais, revistas e impressoes em geral, audiovisuais, producao fonografica, radiofonica, televisiva, internet etc), acionando agentes e grupos dos mais diversos metiers e multiplas instituicoes profissionais, cientificas, pedagogicas, artisticas e culturais que se multiplicam a partir da modernidade.

Walter Benjamin sinalizou para tal processo na modernidade a partir da caracterizacao da "informacao jornalistica" distinta das maneiras tradicionais da narracao. A impessoalidade da primeira contrapoe-se a vivencia das ultimas, entao em vias de desaparecer (BENJAMIN 1975, p. 40). Acerca do mundo contemporaneo, Jeffrey Barrash destaca a acentuacao de tal processo na configuracao da memoria coletiva, indicando como a "reproducao em massa modificou a nossa maneira de perceber as imagens" (BARRASH 2016, p. 19). Em seus estudos sobre o nacional-socialismo, George L Mosse fala de uma "conquista das sensibilidades" mediada por politicas publicas que investiram pesado nos meios de comunicacao de massa (MOSSE 1994, p. 51). Assim, parece claro que a proliferacao dos diversos meios de comunicacao de pequeno, medio e grande porte, conjuntamente com outras instituicoes e agencias, cumprem papel essencial na configuracao da cultura. A propria dinamica da circulacao de edicoes, agentes, impressos, traducoes e comercializacao das obras dos "paises centricos" e sua recepcao no PSB faz parte de tal processo geral de formacao de canones (CASANOVA 2008).

Se o conceito de "cultura", apesar da profusao de significacoes (CUCHE 1999), nao provoca grandes reticencias acerca de seu uso, o mesmo nao ocorre com o termo intelectual. Falta-nos espaco para uma reflexao mais contundente. Porem, podemos realizar alguns apontamentos teoricos. Destacamos, a principio, o carater distinto de tal termo, quando mobilizado em linguas diferentes, de modo que, enquanto a historia intelectual em lingua inglesa tende a praticar uma historia das ideias revista pelas filosofias e teorias da linguagem (SKINNER 2000; POCOCK 2001; CARVALHO 2000), a historia intelectual de lingua latina e alema, marcada pelos estudos de sociologia intelectual, procura caracterizar a emergencia de um agente historico especifico, a constituicao de um campo social, a analise de trajetorias, redes, climas, grupos, mediacoes culturais, instituicoes culturais e politicas, e tambem o trabalho com ideias e representacoes em geral (MANNHEIM 1976; BOURDIEU 1996; MICELI 1977; ORY; SIRINELLI 2011; GRAMSCI 1982; ALTAMIRANO 2005; GOMES, HANSEN 2016).

A pergunta sobre o intelectual hoje permite explorar as variacoes de suas apreciacoes, assim como certo desconforto que tal definicao parece provocar. Se, por um lado, nao e dificil identificar uma tradicao normativa que retoma o ethos do agente engajado em causas coletivas e "universais", tal qual monumentalizada na acao de Emile Zola no affaire Dreyfus (1898); por outro lado, o seculo XX assistiu as redefinicoes do "papel" de tal agente, olhando com desconfianca sua capacidade de "dizer a verdade ao poder", como queriam os "dreyfusards" (NOIRIEL 2010, p. 77). Conclama-se, antes, que tais personagens intelectuais se voltem ao trabalho "especifico", reconhecendo que eles sao, "ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento na ordem do saber, da Verdade', da 'consciencia' do discurso" (FOUCAULT apud GOMES; MARGATO 2004, p. 9). Tais consideracoes tambem ja estariam em crise: "A figura do intelectual especializado, como a encarnaram Michel Foucault e Pierre Bourdieu, ja se tornou caduca. Hoje e ainda mais atomizada, especialistas que falam como especialistas e nao mais problematizam nada" (NOIRIEL 2010, p. 259). No Brasil, a obra coletiva "O papel do intelectual hoje" (2004) retrata, dentre outros aspectos, o ciclo de professores universitarios que, escrevendo para "proprios pares, nao se cansam de lamentar o pequeno numero de leitores, a debilidade cultural do contexto que os cerca" (FIGUEIREDO 2004, p. 147).

Assim, ao passo que nomes como Edward Said se veem como agentes dotados de "independencia intelectual", atuando como uma especie de "amador", evitando vincularse profissionalmente a qualquer instituicao e engajando-se nas causas que apoiam (SAID 2005, p. 91)--uma especie de intelectual liberal favorecido por seus proprios esforcos; a historia intelectual compreende uma serie de agentes, escritores, artistas e profissionais cuja atuacao publica, muitas vezes, se restringe a publicacao de suas obras. Alem disso, tal historia abriga uma gama de figuras que, explicitamente, se declaravam anti-intelectuais, como Maurice Barres, Bertrand Russel e Nelson Rodrigues, complexificando, ainda mais, a definicao do intelectual.

Quando falamos em "cultura intelectual" exploramos tais imprecisoes e indefinicoes. Ao relembrarmos o evento quase mitico do "batismo do intelectual" (5), podemos pontuar que Zola escrevera um protesto no jornal Aurore litteraire, artistique, sociale contra os procedimentos adotados no julgamento do capitao judeu Alfred Dreyfus. Tal "protesto" ("protesation") chamava-se, originalmente, "Carta ao senhor Felix Faure presidente da Republica". Porem, o editor do periodico, o politico e jornalista Georges Clemenceau, mudou o titulo, criando o "J'accuse" que acabou tornando-se um "manifesto" e um marco da historia intelectual (ORY; SIRINELLI 2011, p. 7). O termo, ademais, ganhou publicidade na reacao daqueles que denunciavam tal acao, especialmente Maurice Barres, que, numa critica publicada no Le Journal, periodico bem maior que o Aurore, ao analisar aqueles que apoiavam Zola, viu "uma maioria de simplorios, seguida por estrangeiros e, enfim, alguns bons franceses" (BARRES apud ORY; SIRINELLI 2011, p. 8-9). Assim, o "intelectual classico" nao dispensava a atuacao em um meio de divulgacao amplo, associada a uma "jogada" midiatica editorial e a uma polemica publica. E justamente a partir do afastamento de determinados agentes da cena midiatica, como jornais, televisao e radio, que se passa a falar em uma destituicao dos intelectuais (ZARKA 2010).

Na perspectiva da "cultura intelectual", percebemos o intelectual tambem como uma funcao em um "lugar" construido historicamente, ou seja, marcado por relacoes de poder, interesses, estrategias e controle, e acionado por artistas, escritores, politicos, leitores etc. nos meios de producao de bens simbolicos diversos, a saber: livros, jornais, revistas, televisao, radio, audiovisual, internet, publicidade etc., assim como associado a instituicoes, associacoes, partidos, coletivos e grupos, e nao apenas com a identificacao de um ethos, o pertencimento a determinada linhagem de pensamento ou caracteristica formal de sua producao. Podemos, assim, tanto falar de uma acao intelectual de leitores que enviavam cartas as secoes de "a pedidos" dos jornais, questionando o fim do ensino laico na Primeira Republica no Brasil (TOLENTINO 2016, p. 585-586), quanto construir criticamente uma avaliacao sobre a atuacao de intelectuais profissionais que, atualmente, produzem materiais virtuais decisivos nas disputas eleitorais das principais democracias do mundo, construindo interpretacoes, avaliacoes, visoes de mundo e juizos sinteticos em torno das realidades nacionais. Ambas compoem a cultura intelectual que e uma perspectiva para a abordagem dos processos culturais e politicos do mundo moderno e contemporaneo.

REFERENCIAS

A REVOLUCAO burguesa no Brasil e o capitalismo dependente. Diario de Pernambuco, Recife, 16 abr. 1978, p. 75.

AGUIAR, Ronaldo C. Pequena bibliografia critica do pensamento social brasileiro. Sao Paulo: Paralelo 15, 2000.

ALONSO, Angela. Ideias em movimento. Sao Paulo: Paz e Terra, 2002.

ALTAMIRANO, Carlos. Para um programa de historia intelectual. Buenos Aires: Siglo XXI, 2005.

ANDRADE, Oswald de. Manifesto da poesia pau-brasil. Correio da Manha, Rio de Janeiro, 18 mar. 1924, p. 5.

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Thiago Lenine Tito Tolentino

https://orcid.org/0000-0002-1257-9609 [iD]

AGRADECIMENTOS E INFORMACOES

Thiago Lenine Tito Tolentino [iD]

thiago_lenine@yahoo.com.br

Universidade Federal de Uberlandia

Uberlandia

Minas Gerais

Brasil

Agradeco a CAPES pela bolsa de Pos-Doutorado (PNPD) que financiou esse trabalho junto ao Programa de Pos-Graduacao em Historia da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

RECEBIDO EM: 02/MAO/2019 | APROVADO EM: 22/JUL./2019

(1) - Nao sao selecionadas obras "ficcionais", mas "Eleicoes e selecao negativa", de Alencar; "O pessimismo do brasileiro", de Graca Aranha e "Rezas e oracoes", de Lima Barreto. Cf. MENEZES 1998, p. 441.

(2) - Sobre analise da "Escola de Recife" como "tradicao inventada", ver: ALONSO 2002, p. 134-135.

(3) - Excecoes a se destacar sao os "Estudos Sociais e Literarios" (1882), de Ciro de Azevedo; o texto "Questoes sociais - A imigracao na America do Sul" (1882), de Alberto Sales; "Cenas da vida amazonica--ensaio social" (1887), de Jose Verissimo, e "Taxonomia Social" (1897) de Fausto Cardoso (ALONSO 2002, p. 347-363).

(4) - Tal apreciacao e recorrente. Vide: Menezes 1998; Vita 1968; Faoro 1987; Brandao 2005.

(5) - Sobre o termo intellectuel, Christophe Charle nota sua utilizacao ja em 1830 por Saint-Simon, porem, com significado diverso; e, em 1879, por Maupassant. A referencia mais precisa, por sua significacao numa acepcao coletiva, seria em Leon Bloy em 1886. (CHARLE 1990, p. 56.)

DOI 10.15848/hh.v12i31.1483
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Title Annotation:ARTIGOS: ARTICLES
Author:Tolentino, Thiago Lenine Tito
Publication:Historia da Historiografia
Date:Sep 1, 2019
Words:12749
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