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Paula Brito, forgotten writer/Paula Brito, escritor esquecido.

Paula Brito, editor e escritor

Francisco de Paula Brito (1809-1861) ficou conhecido como "primeiro empresario negro" brasileiro (RAMOS JR., DAECTO, MARTINS FILHO, 2010, p. 16), tendo se dedicado a atividade tipografica e ao jornalismo politico e cultural. Foi tambem extremamente importante para o avanco da producao do livro no Brasil, no seculo XIX, e, hoje em dia, para os estudos do livro e da edicao, sendo descrito, nesse contexto, como o "editor pioneiro" (GODOI, 2016, p. 22).

Alem de editor, Paula Brito aventurou-se por caminhos hoje em dia pouco lembrados e estudados: os da propria escrita da literatura. Ele traduziu muitos romances- folhetim, alem de ter escrito poemas e contos. As traducoes tem sido mencionadas, mas nao verdadeiramente estudadas. Ja os poemas, foram primeiramente considerados mediocres pelos leitores criticos da obra, como notaram Ramos Jr., Daecto e Martins Filho (2010, p. 38). Entre muitos poemas publicados esparsamente nos jornais, noventa foram selecionados e tiveram uma unica edicao, em tres partes, as Poesias de Francisco de Paula Brito. O livro foi preparado por Moreira de Azevedo e publicado em 1863, depois da morte do "artifice das letras" (Idem, p. 39). Recentemente, Jose de Paula Ramos Jr. analisou e fez uma antologia de tais poemas, defendendo a ideia de que uma leitura mais aprofundada da formacao e dos objetivos de Brito, alem da comparacao entre o seu trabalho e o dos seus pares, mostra que os poemas de circunstancia podem ser revalorizados, a partir de seu lugar de enunciacao (RAMOS JR., 2010). No que se refere aos contos, em primeiro lugar, e preciso que se tenha em mente que, na primeira metade do seculo XIX, a definicao de conto nao estava estabilizada, nem havia uma distincao nitida entre conto, cronica, romance e variedades no folhetim dos periodicos. Utiliza-se, portanto, "conto", ou "conto-folhetim", neste trabalho, como sinonimo de narrativa curta de ficcao, publicada nos rodapes dos jornais ou em revistas literarias. Os tres escritos originais de Paula Brito que se enquadram na categoria de narrativa de ficcao (ele fez tambem traducoes, como se disse) permaneceram esquecidos no rodape do Jornal do Commercio, ate que Barbosa Lima Sobrinho recolheu dois deles em Os precursores do conto no Brasil, publicado em 1960.

Este trabalho tem, portanto, como um dos objetivos, dar noticia dos tres contos escritos, alem de recuperar temas e formas desses textos de Paula Brito, reforcando a tese de que ele e um precursor do conto no Brasil (SOBRINHO, 1960), mas acrescentando a essa ideia primeira que, caso a Historia da Literatura tivesse considerado as narrativas curtas escritas para os jornais, Paula Brito, ainda hoje desconhecido como escritor, teria sido tambem reconhecido como um dos precursores de temas e formas que ocuparam as penas dos escritores brasileiros ao longo do seculo XIX, canonizados como os mais importantes naquele periodo. Antonio Candido analisou alguns Accionistas brasileiros contemporaneos a Brito, mas, nao tendo analisado os textos curtos do editor-tipografo, chama de "elementos basicos" do romance brasileiro os temas que Brito ja utilizara nos contos, ou a inclinacao a "descricao dos tipos humanos e formas de vida social nas cidades e nos campos [...]" (CANDIDO, 2000, v. II, p. 101).

Nao se sabe se esses contos de 1839 foram lidos pelas geracoes de escritores do seculo XIX, posto nao terem sido republicados depois de sua aparicao no Jornal do Commercio. Mas podemos imaginar que sim e que, portanto, tenham fornecido ideias para as geracoes futuras. (3) Paula Brito escreveu tres contos, a saber: "Revelacao postuma" (Jornal do Commercio, 09 e 10 de marco de 1839), "A mae-irma (historia contemporanea)" (Jornal do Commercio, 10 de abril de 1839) e "O enjeitado" (Jornal do Commercio, 28 e 29 de maio de 1839),os quais lhe possibilitaram elencar e falar com propriedade de questoes espurias das casas-grandes. Importante, na verdade, e que Brito, desde 1839, ja se havia interessado, como mostram os temas abordados, por uma literatura na qual se engajasse "(...) em escrever sobre coisas locais: (...) a descricao de lugares, cenas, atos, costumes do Brasil. (...)" (CANDIDO, 2000, v. II, p 99), o que Candido localizaria apenas nos romances, foco de sua reflexao em "O aparecimento da ficcao", dentro da Formacao da Literatura Brasileira, quando analisa, entre outros: O aniversario de D. Miguel em 1828, de 1839, romance historico, Religiao, amor e Patria (1839) e Jeronimo Corte Real (1840), os tres de Joao Manuel Pereira da Silva; Amancia, 1844, de Domingos Jose Goncalves de Magalhaes; As duas Orfas (1841) e Maria (1844), de Joaquim Norberto de Sousa e Silva; A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo e O moco loiro (1845), do mesmo autor. Nao se referindo a narrativas que nao sejam "romances", Paula Brito ficou de fora da lista da Formacao. No entanto, abordando questoes de seu tempo, Brito desenha a diversidade da sociedade brasileira e tematiza, por meio do protagonismo das personagens femininas, tal e qual faria muitos anos depois, por exemplo, Machado de Assis, questoes sociais e de familia na sociedade regida pela ideologia paternalista.

Temas e formas em tres contos esquecidos do seculo XIX

Os tres contos originais escritos por Paula Brito sairam no rodape do periodico Jornal do Commercio, sendo que o primeiro a ser publicado foi "Revelacao postuma". Trata-se de uma carta postuma destinada a uma amiga, que contem a historia da narradora- protagonista, a jovem Carolina, acerca do que viveu em seu casamento, com "um moco do tom, da moda" (PAULA BRITO, 1839, Jornal do Commercio, ano XIV, n. 57, p. 1). (4)

O segundo conto de Brito, "A mae-irma (historia contemporanea)", traz-nos a historia daquela que, certamente, e a primeira protagonista morena da literatura brasileira, Alzira. Nesse conto-folhetim, o que deflagra toda a historia da "mae-irma" e a paixao de Alzira, filha de um militar de carreira, por um jovem caixeiro pobre, desviado, por manobra paterna, dos bracos da moca, a qual, no entanto, ja se encontra gravida.

O ultimo conto chama-se "O enjeitado" e se inicia por um curioso prologo, que correspondem aos cincos primeiros paragrafos da narrativa, objetivando justificar esse conto e o anterior, "A mae-irma". Nele, conta-se a historia de um jovem enjeitado, filho de um relacionamento extraconjugal, o que ocasionara uma violencia extremada do pater familias em relacao a sua esposa.

Direcionando um olhar mais atento para os tres contos de Brito, vemos que ali estao temas e formas caros a escritores brasileiros posteriores, tais como: o paternalismo, a ideologia senhorial e a escravidao, narrados por uma consciencia onisciente ou em forma de carta.

Paternalismo

O conceito de "paternalismo" e aqui emprestado a Sidney Chalhoub, da maneira como o definiu para a obra de Machado de Assis, ao analisar o romance Helena, de 1876 (2003, p. 46-47). Alem de definir o uso que fazemos do termo, essa vinculacao tem como objetivo relacionar, desde ja, o universo de Paula Brito ao de Machado de Assis e de outros escritores que passaram a integrar o canone brasileiro. Assim sendo, o paternalismo e entendido em Machado de Assis (e em Paula Brito, por extensao), a partir da delimitacao que Chalhoub (2003, p.47) da ao conceito, como "uma politica de dominio na qual a vontade senhorial e inviolavel, e na qual os trabalhadores e subordinados em geral so podem se posicionar como dependentes em relacao a essa vontade soberana", tudo isso em uma sociedade sem antagonismos sociais significativos, devido a rigidez da estrutura vertical. Segundo o historiador, no limite, "o paternalismo e apenas uma autodescricao da ideologia senhorial" (CHALHOUB, 2003, p.47), naquele mundo idealizado pelos senhores. No caso de Paula Brito, sobretudo a mulher ocupara essa posicao de subordinada e dependente de uma vontade senhorial soberana, embora passeiem pelas historias caixeiros, peoes, escravos etc. Nesse caso, o interessante e flagrar as personagens femininas de Brito em suas formas de resistencia.

No conto "Mae-irma", o paternalismo e a ideologia senhorial se manifestam dentro do ambiente familiar. Inicialmente, temos a filha de um militar que se relaciona com um homem fora dos padroes estabelecidos pelo pai da jovem, o que leva a um rompimento da ordem e da obediencia. A narrativa ganha novos ares quando se desenvolve uma reviravolta, fazendo com que Alzira tome para si as decisoes de sua vida, na ausencia dos pais ja falecidos, e diante da constituicao de um novo patriarca ainda inexperiente (seu "irmao" Guilherme, que, na verdade--como sabe o leitor, mas ignora o rapaz--, e filho de Alzira). Ou seja, ja em 1839, Brito faz uso, para a criacao de enredos, das brechas que se abrem no rigido sistema patriarcal brasileiro, como o fara, mais tarde, Machado de Assis, nas inumeras vezes em que a independencia e mobilidade femininas, em situacao posterior ao falecimento do patriarca da familia (pai, marido etc), torna-se parte fundamental da intriga de romances e contos. (5)

Tambem no caso de Alzira, a possibilidade de reacao vem, apos o falecimento dos pais. Pelo fato de o conto ser pouco conhecido, antes de passarmos a analise da questao, citamos aqui a interessante descricao da beleza morena dessa heroina brasileira:

Alzira tinha dezesseis anos; nao era uma dessas fisionomias que tanta bulha fazem nos romances que nos vem da velha Europa; era ca da America, e era bela quanto podia ser; nao tinha essa cor de leite, que tanta gente faz entusiasmar, mas tinha um moreno agradavel, proprio dos tropicos; suas faces nao eram de carmim, mas de um palido tocante, que convidava todas as afeicoes; seus olhos nao eram azuis como o ceu do meio-dia, mas eram negros como o azeviche; nao tinham a viveza dos olhos espanhois, mas tinham uma languidez encantadora, que parecia anunciar continuado sofrimento, e implorar protecao a quantos os olhavam; e a protecao lhes nao podia ser negada; seus cabelos nao eram cor do ouro, nao lhes caiam em aneis sobre ombros jaspeados, mas eram finos, mui lisos, em muita quantidade, e mais pretos e luzidos que o preto ebano; sua estatura era antes baixa que alta; sua cintura podia ser apertada com as duas maos; seus dentes eram dois fios das mais iguais e claras perolas do Oriente; sua perna parecia feita a torno; seu pe era o mais delicado. Alzira era o que com tanta propriedade chamamos uma feiticeira, porque com efeito ela e outras como ela enfeiticam todos aqueles que tem a desgraca... nao: a ventura de as ver (PAULA BRITO, 1839, Jornal do Commercio, ano XIV, n. 80, p. 1).

A menina de dezesseis anos e certamente uma das primeiras protagonistas morenas da narrativa de ficcao brasileira. Tendo "enfeiticado" Narciso com tantos encantos, depois de ser separada do amado, descobre-se gravida. A ordem familiar e mantida por uma manobra de sua mae, que assume, como se fosse dela, o menino. Para isso, esconde a gravidez da filha do marido e chefe da familia, simulando uma estadia longa em uma fazenda distante, enquanto ele permanecia ocupado na Corte. Assim sendo, o filho, Guilherme, e criado, ate a fase adulta e morte dos "pais", achando que e irmao de sua verdadeira mae. Por uma manobra feminina cria-se, portanto, uma total acomodacao das relacoes previstas no seio da familia regida pelo pater, principalmente pela atitude da mae-avo, mas tambem pela exigencia da mae- irma em relacao a Guilherme, ja na ausencia dos pais-avos, o qual havia assumido a lideranca da familia e dos negocios. Esse jovem patriarca em constituicao, no final, revelado o segredo de seu nascimento, acaba por aceitar o casamento tardio de sua mae-irma com seu verdadeiro pai, abafando o escandalo pela segunda vez, e restringindo o conflito ao seio da familia. Nesse tocante, a narrativa de Paula Brito afronta apenas parcialmente os valores senhoriais. No entanto, Brito, ficcionista esquecido, ja enxergava e dispunha ficcionalmente desse universo social, da maneira como viriam a fazer, por exemplo, Jose de Alencar ou Machado de Assis, esse ultimo um "inconformado conformista" (GLEDSON, 1986, p. 57).

Esse mesmo tema, encontramos no conto "O enjeitado", onde uma jovem senhora, recem-casada, viveu um amor extraconjugal, o que foi revelado pela gravidez e nascimento de um menino, processo desenvolvido durante a ausencia do patriarca, um fazendeiro que viajara por dois anos para cuidar de seus negocios na Bahia. Ao discutir as consequencias do adulterio feminino, Paula Brito salienta todas as cores da violencia que envolvem esse assunto. Inicia da forma mais corrente, como sendo o casamento parte do sistema opressivo, pois a uniao de Julia e Souza, sendo a mulher considerada como mais uma propriedade do senhor, tal e qual um de seus escravos "(...) Souza entendeu que Julia era apenas mais uma escrava que ia aumentar no seu serralho" (Idem, p. 1). Assim, como todos na casa, ela devia obediencia e subordinacao total a seu marido. Mas, para alem disso, a ficcao complica a representacao da violencia, como lemos no trecho abaixo:

A sua volta achou que seu leito conjugal fora manchado e um menino, que lhe foi apresentado como enjeitado, conheceu em breve ser filho de Julia. Este homem, que todos os dias violava a fe conjugal com manifesto escandalo, (...) dirigiu-se a casa de seu sogro, e altamente pediu-lhe vinganca do ultraje que, dizia, a ambos fora feito. (...) Mendonca acolheu bem seu genro, enfureceu-se contra sua filha, e jurou vingar-se. Um quarto foi de proposito preparado na casa de Souza e a infeliz delinquente foi encerrada nele; ali uma vez cada dia lhe era levada uma magra racao por suas escravas, que alias tinham ordens positivas para lhe dirigirem os mais grosseiros e atrozes insultos (...). Nunca mais a desditosa pode recobrar a sua liberdade e muitas vezes o infame trazia uma ou mais dessas mulheres vis (...) e a vista dela passava notes inteiras nas mais imundas orgias (...) depois de muitas pesquisas, o adultero foi descoberto. Mandado agarrar pelos peoes de Mendonca, foi conduzido garrotado a habitacao em que jazia a socia de seu crime e ai, diante dos olhos dela, diante de seu pai e de seu marido, que quiseram assistir a execucao, foi ele assassinado com a maior barbaridade, exercendo os dois a sangue frio, no corpo ja morto, inauditas atrocidades (...). Nao se contentaram; fizeram partir o cadaver em pedacos, e Souza lhos atirava--(...) Abraca-te com teu querido (...). Mendonca, o pai da vitima, uma so palavra nao proferiu, um so aceno nao deu para que fosse poupada. Lagrimas de raiva vertiam por nao poder vingar-se do infame; a tigre devorada pela fome nao deita sobre a presa olhos mais chamejantes do que os que ela fitava sobre seu barbaro marido: raiva impotente! teve de ver tudo e nao pode vingar-se. (...) (PAULA BRITO, Jornal do Commercio, ano XIV, n. 120, p. 1).

Nessa citacao, estamos diante de beijos forcados nos membros esquartejados, risadas infernais diante do padecimento da esposa, do isolamento completo dela em relacao aos membros de sua familia e quaisquer visitas, tudo completado pela morte de Julia ao final de cinco anos de cativeiro, de modo que podemos ver com clareza a barbaridade do marido, apoiada pelo pai da vitima, completamente indefesa. Aqui, o que esta em questao sao as regras que normatizavam as relacoes humanas no quadro extremo da ideologia senhorial escravista. Souza sabia que Julia nao lhe obedecera e manchara sua honra. Portanto, deveria ser torturada e castigada com rigor extremo, com emprego da violencia e punicoes brutais. Como disse Ian Watt, analisando o romance ingles,

A posicao legal das mulheres (...) era regida pelos conceitos patriarcais do direito romano. A unica pessoa da casa que era sui juris, entidade legal, era o chefe, em geral o pai. Qualquer bem que a mulher tivesse, por exemplo, tornava-se propriedade do marido, (...) os filhos eram, por lei, do marido; so ele podia pedir divorcio e tinha o direito de punir a esposa, batendo-lhe ou aprisionando-a (WATT, 2010, p. 125).

Apesar de o texto de Ian Watt tratar de um patriarcalismo mais antigo, e na sociedade inglesa, esse trecho e esclarecedor tambem para o caso da narrativa brasileira do XIX. Identificamos ali um dialogo direto e intenso com o conto de Brito, tendo em vista que discorre sobre o mesmo uso da autoridade e violencia, possivel ao pater da familia.

No conto-folhetim de Brito, em contraponto a infidelidade da esposa, gerada pela frustracao de um casamento em que lhe foi imposto um marido muito mais velho, violento e autoritario, temos o comportamento sexual do patriarca, que e libertino, lascivo e adultero. Assim, Souza "[...] que todos os dias violava a fe conjugal [...]" (PAULA BRITO, Jornal do Commercio, ano XIV, n. 120, p. 1), de maneira luxuriosa e mesmo escandalosa, e julgado moralmente como aquele que "[...] perdera todo o direito de queixar-se, pois que o crime de sua mulher era uma consequencia, ousamos dizer, natural e necessaria de seus crimes [...]" (Idem, grifo nosso). A "ousada" critica enviada ao comportamento do senhor, embora nao apague o "crime" da mulher, atenua-o, atribuindo-o ao sistema de casamento, as escolhas do proprio marido e a hipocrisia dos costumes e leis, sendo o senhor acostumado a comandar um mundo escravista com mao de ferro, no qual a ordem criada segundo sua vontade e assegurada pela violencia. Tal vontade inviolavel, descontando a violencia barbara, e da mesma natureza daquele que Chalhoub demonstra se-lo a de Estacio (ao menos da forma como o jovem senhor a concebe) em um romance como Helena (2003, p. 17-57). Se, em Machado, Helena manipularia a percepcao de Estacio como figura central desse universo, em Brito, o narrador ja coloca em questao os limites dessa vontade geral, ainda que pela via dos valores morais que regem o mundo em questao.

Assim, se a Historia Literaria se abrir para a sua revisao, os romances e contos do seculo XIX que apareceram apos essas narrativas de 1839 trazem a mesma complexidade tematica ja desenvolvida pelos contos de Brito. Tomando, mais uma vez, Machado de Assis como termo de comparacao, em Casa velha (1885), o narrador do romance abre espaco a outro narrador, que contava o que se havia passado consigo ha muito tempo: "Aqui esta o que contava, ha muitos anos, um velho conego da Capela Imperial:/--Nao desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mes de abril de 1839"(ASSIS, 1972, p. 11). Nesse caso, anarrativa encaixada e o distanciamento no tempo deslocam a forca das manipulacoes, traicoes, segredos e intrigas, que se materializam em filhos legitimos, suspeitas de filhos ilegitimos, casamentos forcados, separacao de amantes e uma viuva matriarca que acomoda o mundo a sua maneira. Temas semelhantes e a ideologia senhorial a organizar fatos e caracteres do enredo, a mesma paisagem de fundo de "O enjeitado" e pintada, quase cinquenta anos depois de Brito, embora com cores mais esmaecidas que constituem, por escolha estilistica, uma discussao mais sutil de um certo quadro social de 1839.

Escravidao

O tema da escravidao esta correlacionado com a narrativa "Revelacao Postuma", em que Brito questiona a otica patriarcal. A grande ousadia de Paula Brito e inverter os paradigmas sociais, a medida que a mulher proibida e escrava se torna mae e a mulher abencoada pelo casamento e esposa, sem se ter tornado mae, fica sem lugar nessa relacao, so restando-lhe, nesse caso, a morte.

"(...) nenhuma conciliacao era mais possivel com meu marido. Isabel era a mae de seu filho! E a mae de seu filho prevalecia a sua mulher! E eu nao tinha um filho! Isabel tinha tomado o primeiro lugar, e eu nao podia descer abaixo de minha escrava (...)" (PAULA BRITO, 1839, Jornal do Commercio, ano XIV, n. 58, p. 1).

No tocante a ausencia da maternidade da senhora, vemos a frustracao, a tristeza e o sentimento de culpa, tudo materializado em uma dor que a leva, entre outros acontecimentos, a morte. Ao descobrir a relacao do marido com a escrava da casa, Isabel, a senhora Carolina atinge alguma densidade psicologica diante do fato de nao ter tido filhos, somado a culpa pela escolha do marido, um gesto intempestivo e desobediente. Felicio, um homem de origens nao claras e que o pai de Carolina rejeitara para genro, substitui facilmente a esposa rica herdeira pela escrava-mae, figurando as complexas relacoes afetivo-sexuais entre senhores e escravos no seculo XIX, visto que muitos proprietarios assumiam romances com as escravas preferidas, ou, mais comumente, reconheciam os filhos dessas unioes e os libertavam, por exemplo, no ato do batismo.

Uma dessas ocorrencias e descrita no texto de Robert Slenes, Senhores e subalternos no Oeste Paulista. Com base em documentacao do interior paulista no seculo XIX, mais precisamente em Campinas, Pedro Gurgel Mascarenhas, beirando a morte, aos setenta anos, redigiu um testamento, no qual declarou ter "um filho natural, de nome Lucio, e mulato, e o instituo por meu herdeiro" [...]" (SLENES, 1997, p. 237). O mulato Lucio era filho de Mascarenhas com sua escrava Florencia e o pai-senhor, anos antes, o libertara no ato do batismo. Dessa forma, Lucio constitui-se senhor herdeiro de toda a fortuna de seu pai.

Lucio, tal e qual seu pai Pedro, nao se casou, mas manteve alguns relacionamentos com varias escravas. Mais tarde, ele proprio, em testamento, reconheceu cinco filhos, tres de duas mulheres em situacao de servidao (SLENES, 1997, p. 252). Slenes levanta varias possibilidades para ambos os senhores terem mantido esses relacionamentos, tais como: os senhores terem assediados suas escravas ou oferecido favores e ate mesmo a alforria (SLENES, 1997, p. 256), em troca da conveniencia sexual.

Um outro caso levantado por Slenes e o da ex-escrava e ex-mucama de D. Maria Jose, chamada Marcelina. Em processo de separacao, segundo D. Maria Jose, que residia em uma fazenda proxima a Vassouras-RJ, seu marido Antonio mantinha relacionamento amoroso com essa escrava liberta, "tendo-a na Corte, ate pouco tempo antes" (SLENES, 1997, p. 253), sustentando-a com o dinheiro da familia do qual dispunha livremente, segundo a queixa da esposa. Nessa ocasiao, D. Maria Jose teria feito o pedido do divorcio conjugal e Marcelina, a escrava-amante do senhor, ja morava em uma casa no municipio de Vassouras (RJ), que servia para seus encontros amorosos. Slenes mostra que, nesse caso, esta anexa a foto da ex-escrava vestida em trajes de senhora, alem de uma carta apaixonada de Antonio a sua amante. O historiador salienta o perigoso jogo em que Marcelina esteve envolvida, pois, "dissesse ela "sim" ou "nao" a seu senhor (...), se nao provocasse o desgosto dele, provocaria o de D. Maria Jose, caso o adulterio viesse a luz" (SLENES, 1997, p. 256), como aconteceu.

Na narrativa de Brito, esta de certa forma contida a historia narrada por Slenes, em que a ex-escrava torna-se companheira do senhor, mantendo com ele relacionamento na casa da cidade, enquanto, ao mesmo tempo, ele e sua esposa viviam em uma chacara, nos arredores da Corte. Ha duas diferencas muito significativas: uma delas esta nos anos de ocorrencia das historias de Maria Jose/Antonio/Marcelina, em 1887, data do processo de divorcio, e de Carolina/Felicio/Isabel, ambientada poucos anos antes da narrativa de Brito, que foi publicada em 1839. Isso mostra que as questoes de que tratamos aqui atravessaram decadas, mesmo seculos; a outra diferenca e a valorizacao da maternidade, mas na relacao entre senhor e escrava, e nao com a esposa branca e rica herdeira, humilhada e abandonada pelo marido-senhor.

Em outros textos que viriam apos o conto-folhetim de Brito, identificamos mais casos de escravos-filhos alforriados, nascidos de relacionamentos entre senhor e escrava. Vemo-lo na peca de teatro Cancros sociais--drama em cinco atos (1865), de Maria Angelica Ribeiro, representada no Teatro Ginasio Dramatico, em 1865, na qual a personagem Eugenio S. Salvador e um rico negociante que toma, ao longo dos atos, conhecimento de sua origem. Ele era filho de uma escrava parda, Marta, com o seu proprietario Visconde de Medeiros, e teria sido libertado na pia batismal, mas afastado de sua mae pela venda da escrava (RIBEIRO, 2006, p. 275-415). As semelhancas tambem ocorrem com a peca Mae, drama em quatro atos (1859), de Jose de Alencar. No ultimo ato, uma das personagens principais da historia, Jorge, descobre-se filho de sua escrava, Joana.

Alem de tudo isso, nao podemos deixar de salientar tambem o desejo manifesto pela senhora, nesse caso Carolina, de "Revelacao Postuma", em castigar a amante do marido pelo adulterio cometido, fazendo com que a narrativa representasse situacoes de vida de muitas senhoras e escravas da epoca. Segundo Schwarz, arranjos que dentro do mundo burgues seriam altamente degradantes sao "coisas da vida" (1977, p. 43) nas historias brasileiras. Figurando esse processo, Felicio teria realizado um desses arranjos, ligando-se a escrava Isabel, mas o fato de ela ocupar a condicao de mae, sobressaindo-se a sua senhora, e o que torna a situacao intoleravel. Assim, Carolina manifesta seu desejo de vinganca pela violencia, sendo impedida de leva-la a cabo pelo proprio marido que, afinal, escolhe a escrava.

No que tange a senhora que quer castigar sua escrava pela acusacao de adulterio, o fato tambem se faz presente em outras narrativas publicadas anos mais tarde, como Vitimas algozes (1869), de Joaquim Manuel de Macedo. A senhora Teresa tem um ataque de nervos e decide castigar a todos que a humilharam, mas o castigo e aplicado a si propria, por meio de uma resignacao que a leva a morte: "Teresa voltara para a casa com uma ideia infernal, a de vingar-se, matando-se, mas logo ao entrar encontrou os seus tres anjos que a salvaram: submeteu-se a viver pelos filhos. Reputou-se viuva" (MACEDO, 1991, p. 108). Ja em O mulato (1881), de Aluisio de Azevedo, observamos que o castigo e efetivamente aplicado pela senhora na negra amante, que lhe queima a ferro partes sensiveis do corpo na presenca do filho, tudo descrito com detalhes. Assim, o que e apenas insinuado em Brito, em Macedo e Azevedo, ganha, progressiva e literalmente, forma e corpo.

O conto em forma de carta

O primeiro conto publicado por Paula Brito no Jornal do Commercio, "Revelacao postuma", aquele mesmo em que se da o triangulo amoroso entre senhores e escrava, apresenta-se em forma de uma carta destinada a uma amiga. A personagem-narradora deixa claro que ja estaria morta quando a missiva chegasse as maos da destinataria, bem como que o conteudo dela revelaria fatos de seu casamento e a vida que levara apos o matrimonio, sua sorte e desventura.

Querida amiga. Quando receberes esta, ja eu nao existirei; todas as cautelas estao tomadas para que assim aconteca; entretanto, e necessario que desafogue o meu coracao, que depois da minha morte se saibam os motivos dos meus pesares; e necessario que a terrivel licao que me foi dada possa aproveitar a alguem. (PAULA BRITO, 1839, Jornal do Commercio, ano XIV, n. 57, p. 1, grifos nossos).

Carolina esta de volta a casa paterna, depois do casamento escolhido de modo intempestivo, nesse caso, contra a vontade paterna e materna, como ja mencionamos anteriormente. Segundo ela relata a amiga, "Foi aqui que contemplei todo o horror da minha sorte [...]" (PAULA BRITO, 1839, Jornal do Commercio, ano XIV, n. 58, p. 1).

Encontramos nessa narrativa algo comum a varios romances do seculo XIX. Como viria a fazer, por exemplo, Jose de Alencar, na situacao inicial de varios de seus textos literarios, sao as cartas os veiculos por meio dos quais se contam historias. Isso se passa tambem nos textos de literatura estrangeira e e sempre bom lembrar que, desde o seculo XVIII, existem romances que se compoem como narrativas epistolares, de que sao dois exemplos fundamentais: O sofrimento do jovem Werther (1774), de Goethe, romance em que Wilhelm organiza as cartas que recebe do jovem amigo Werther, as quais apresentam a desdita amorosa do jovem e discutem a "existencia" na ausencia do amor (GOETHE, 1998); Ligacoes perigosas (1782), de Chordelos de Laclos, narrativa em que ha cartas trocadas entre um grupo de aristocratas, as quais tematizam a manipulacao e os jogos de intriga e de seducao ocorridos naquele meio (LACLOS, 1947).

O mesmo recurso da narrativa em forma de carta viria a ser largamente utilizado por Machado de Assis nos contos do Jornal das Familias (1864-1878). Podemos ve-lo em Questao de Vaidade (1864-1865), narrativa entremeada de cartas, alem de Confissoes de uma viuva moca (1865), que tomamos aqui como exemplo. Trata-se de uma narrativa escrita por completo de forma epistolar, no caso, por meio de varias cartas, recurso aproveitado em seus maximos efeitos. Nesse caso, a carta que chega a amiga-leitora a espacos e publicada em sucessivas edicoes da revista de Baptiste-Louis Garnier. O argumento da narrativa, cartas semanais enviadas a uma amiga para revelar um segredo do passado, figura, ele proprio, a segmentacao e continuidade do romance-folhetim, mas tambem nivela a relacao entre a narradora-protagonista, por um lado, e a amiga-leitora ficcional e suas leitoras reais, por outro lado: "(...) essa mulher, transformada em narradora, (...) quando personagem, incita a amiga a ler-lhes as cartas no registro da ficcao. Ambas, leitora empirica e amiga- leitora ficcional, leem, ao mesmo tempo, o que seria uma ficcao seriada (...)" (GRANJA, 2008, p. 21-22).

No conto de Brito, e em tantas outras narrativas epistolares, estava o germe da forma machadiana para o conto saido na imprensa. Nas narrativas publicadas no Jornal do Commercio, vemos, em Brito, a primeira ocorrencia da seriacao em um conto-carta, mas Machado aproveitaria o recurso da seriacao tambem na composicao do proprio conto, a partir do tempo de intervalo da narrativa seriada na revista de Garnier, que equivale ao "tempo do envio" de sucessivas missivas de uma a outra amiga. Se, em Brito, o artificio e aparentemente menos desenvolvido, posto que temos uma carta dividida em duas edicoes do folhetim (lembramos que esse conto foi publicado em dois dias sucessivos), e bom observar que ele ja trabalha com a utilizacao do suspense, fazendo com que o leitor aguarde o proximo numero do Jornal do Commercio para compreender quais reacoes teriam os protagonistas (Felicio e Carolina), diante do fato de ela ter descoberto a escrava Isabel em seu leito conjugal. Carolina desmaia, recebe cuidados, mas os desdobramentos do caso entre senhor e escrava e das humilhacoes so viriam na edicao do dia seguinte.

Uma polemica

No contexto da publicacao do conto "Mae-irma" de Paula Brito, aquele em que a avo assume a maternidade do neto, o segundo publicado no Jornal do Commercio, esse periodico fundado pelo frances Plancher, mas ja sob o nome de J. Villeneuve & Cia, entrou em polemica com um grande rival, o periodico O Despertador, Diario Commercial, Politico, Scientifico, e Litterario, do portugues Jose Marcellino da Rocha Cabral, mais especificamente na rubrica de "Correspondencias", o que era recorrente entre esses dois orgaos da imprensa (MOLINA, 2015, p. 242-243).

Nesse seu segundo conto, onde o narrador faz pausas na historia para conversar com o leitor, Brito tomou o partido do Jornal do Commercio e atacou o periodico O Despertador, chamando a atencao e ate mesmo criticando as atitudes do oposicionista, escrevendo o seguinte em seu conto-folhetim:

E se o padre mestre do Despertador disser que isto e irreligioso? Mas, que nos importa a nos com o Despertador? faz ele muito bem; ele bem sabe que a constituicao permite a livre expressao do pensamento, em cuja faculdade encaixa ele tambem a de exprimir o que nao pensa; ora, certo nesse direito, ele vai dizendo o que quer, e quem nao quiser que o nao leia. Diga, pois, o que bem lhe parecer, que nos iremos continuando com a nossa historia (PAULA BRITO, 1839, Jornal do Commercio, ano XIV, n. 80, p. 2).

Mediante as referencias de Paula Brito ao periodico O Despertador, Rocha Cabral e o diretor do periodico, Torres Homem, fazem uso do direito de responder ao ataque. Assim, teceram uma critica ao conto de Brito, bem como a um artigo de O Carapuceiro, republicado tambem pelo JC, em que se descreve a danca de Sao Goncalo. Por ter estado ate hoje esquecida nas paginas de 1839, vale a pena recuperar a critica e o artigo em questao neste trabalho. Em primeiro lugar, esta a critica publicada pelo O Despertador:
    A Danca de S. Goncalo.
      E
    A mae-irma (6)

            Clama, se cesses.


O pequeno romance intitulado Raimundo Lulio, lancado no Jornal do Commercio de 9 do ano corrente, havia-nos dado instante de consolacao: (...) Porem, este momento de consolacao desapareceu bem depressa, quando no dia seguinte demos com os olhos num artigo de miscelanea intitulado--A danca de S. Goncalo--e no folhetim que logo se segue com o titulo--Mae-irma.

No primeiro, descrevem-se as donzelas saracoteando os quadris, diante da imagem de S. Goncalo para pedir-lhe marido. Entre as qualidades que desejam naquele que o santo lhes deparar, vem a seguinte:
   Seja bonitinho,
   E queira-nos bem;
   Aquilo que e nosso,
   Nao de a ninguem.


Nao sabemos onde se encontre maior soma de obscenidade; (...) O romance, que tem por titulo--A mae-irma--, e coisa da mesma laia. Que tambem trata de amores, nao e preciso dize-lo; porque a molestia venerea, de que o contemporaneo se acha tanto tempo acometido, da todos os indicios de incuravel; mas o que e preciso patentear ao publico, para que fuja dele, e que neste folhetim, se contem a mais desaforada licao de imoralidade, que jamais tem saido de pena manejada por mao humana. Eis aqui a substancia da historia:

Alzira, filha unica de um velho militar, namorou-se de um caixeiro, que queria casar com ela. O pai da menina, a quem o consorcio nao agradava, arranjou as coisas de maneira que o pretendente houve de ir ver os mares que foi descobrir o Gama. Eis ai os dois amantes conto umas bichas (sic). Narciso pede a Alzira uma entrevista para dizer-lhe o ultimo adeus; e o requerimento foi despachado por Alzira: Como pede. Daqui por diante deixemos falar o autor.

"A entrevista teve lugar; suspiros, solucos, lagrimas, protestos, juramentos, e depois um beijo, e apos este segundo, e apos este o crime se consumou. O CRIME! E QUEM PODE DIZER QUE FOI CRIME? ... A uniao dos sexos ou um instinto, a que as leis sociais tem querido dar normas, e sujeitar a regras das quais porem a natureza muitas vezes nao faz caso. E criminoso para com a sociedade aquele que viola essas normas; mas a natureza absolve muitas vezes o que a sociedade condena."

Os pais, irmaos e maridos a quem agradar a doutrina do pregador, podem fazer ler os seus sermoes a suas filhas, irmas e mulheres, e esperem-lhe pela pancada; quanto a nos, basta-nos advertir que esta abolido o sexto preceito da lei de Deus; porque, quem e que pode dizer que os atos que ele proibe sejam um crime? Quando muito, violaram-se as leis sociais, que pretenderam dar norma (insolentes!) ao instinto da uniao dos sexos; quanto a lei divina, quem e o impertinente que ouse falar de semelhantes bagatelas neste seculo tao ilustrado? (O Despertador, 12 de abril de 1839, n. 306, p. 2).

Como podemos ver, a folha catolica e contundente em relacao ao conto de Brito, apontando que a protagonista violou o sexto mandamento, "nao adulteraras" (Exodo 20:14), desrespeitou a lei divina, alem das leis sociais, insurgindo-se contra esse tipo de assunto e critica as leis sociais e da religiao na ficcao. No mesmo conto, onde o ato sexual insinuado pelo narrador como um "crime" e relativizado em seu carater de transgressao pelo comentario do narrador (a natureza pode absorver uma violacao social, praticada pelo instinto), pais, irmaos e maridos sao incitados a reconhecer o perigo moral, supostamente vindo do comportamento das mulheres, influenciadas pela leitura do conto. O teor da critica nao surpreende, pois sabemos que a narrativa na epoca e comumente associada a um guia de conduta moral (AUGUSTI, 1998), mas o ataque a esse caminho da ficcao brasileira e digno de nota.

Na critica de O Despertador tambem ha uma mencao a um artigo publicado no mesmo dia do conto de Brito, A danca de S. Goncalo, saido originalmente no periodico pernambucano O Carapuceiro, (7) no dia 3 de fevereiro de 1839, na quarta pagina, rubrica de "Variedades", e republicado na rubrica "Miscelanea" do Jornal do Commercio, terceira e quarta colunas da primeira pagina, logo acima do espaco do romance-folhetim em que aparece a narrativa de Paula Brito. Segue o artigo:

A Danca de S. Goncalo

S. Goncalo de Amarante foi paroco e consta da antiguissima tradicao que era grande promotor de casamentos. Daqui a fervorosa devocao das solteiras com o milagroso S. Goncalo; daqui a bem conhecida danca em louvor deste santo. As mocas, e as vezes velhuscas, que ja estao em ponto de ficar (que ja contam seus 30), parecem loucas com a festanca de S. Goncalo. Ha ordinariamente uma bandeirinha, onde esta pintada a imagem do santo, e, alem disso, outra de maneira tambem entra no fandango. A bandeira e a imagem andam em um corrupio; ora nas maos, ora na cabeca desta e daquela. Soa o estrepitoso zabumba, retinem os garridos maracas, acompanhando as cantilenas, que dizem:--Viva e reviva S. Goncalinho-- Dai-me, meu santo, um bom maridinho--Este santo me poe doida, etc. ; e assim o parece; porque na tal danca elas saracoteiam as ancas, remexem-se, saltam, pulam, e fazem coisas de cabeca, tudo para maior honra de Deus e louvor de S. Goncalo. Entre muitas dessas cantigas, ja ouvi uma em que, entre as prendas de um bom marido, dizia:
   "Seja bonitinho
   E queira-nos bem
   Aquilo que e nosso
   Nao de a ninguem."


Os manembros, os calafatinhos, os gamenhos de todo o calibre torneiam o sarau, e estao como peixes n'agua, e com os olhos pendurados dos remexidos das dancarinas. Em certo lugar de passar festa houve, este ano, grande S. Goncalo. As senhorias sairam com salvas a pedir esmolas para a festanca, levando, uma o cajado, outra o resplendor do santo etc. Na roda dos machacazes, qualquer delas beijava essas reliquias, e dizia, para um dos maganos: "Pague, Sr. F., pague ja o beijo"; e choviam nas salvas os patacoes, e ate pecas. Tudo pode uma fervorosa devocao! Tudo e inocencia, quando se poem os olhos em coisas celestiais! S. Goncalo queira aceitar essas sinceridades, e boas dancas em seu louvor, e rogar a Deus que de bons maridos a quem por eles tanto suspira. Ao ler isto, qualquer solteira ou viuva dira logo:--Eu nao, eu nao; de sorte que nenhuma quer marido. Quere-lo-ia o Carapuceiro?"

(O Carapuceiro, Variedades, ano 1839, n. 9, p. 4. Jornal do Commercio, Miscelanea, ano XIV, n. 80, p. 1).

A relativamente longa transcricao, como justificamos, deve-se ao ate entao desconhecimento desse texto ironico, onde uma danca sensual e musica profana associam-se a homenagem a um santo catolico. No caso do artigo republicado pelo JC, a critica efetuada por O Despertador coloca em relevo o comportamento e rituais das jovens durante a festa de S. Goncalo, casamenteiro, o que seria leviano com as leis da igreja e a figura sagrada do santo, sobretudo por promover a fusao de gestos e rituais afro aos catolicos, unindo paganismo e cristianismo. Ressalta ainda, como reprovaveis, a venda de certas prendas inusitadas para arrecadar fundos para a festa, ou algumas mocas insinuando a venda de beijos aos homens, assim como a exibicao dos corpos em movimentos aos olhos dos "gamenhos". Mais uma vez, o conto de Brito e comparado a esse tipo de transgressao de valores morais e sociais, de modo que devemos reconhecer que os temas e o tratamento dado a eles era ousado ou, no minimo, incomodo. Por fim, impossivel nao nos remetermos, mesmo que brevemente, a danca de Rita Baiana, em O cortico, na qual, de certa forma, completa-se o feitico do portugues Jeronimo. No fundo, essas dancas faziam partes de varias festas populares (e causavam tanto incomodo quanto o conto de Brito), o que, anos depois, Aluisio Azevedo representaria na figura da mulata que danca no cortico, naquela tarde de domingo.

Depois de tudo o que vimos, devemos ressaltar que essa critica do periodico O Despertador e respondida por Brito nao por meio de um novo artigo, mas utilizando-se: do prologo ao conto "O enjeitado", por meio do qual se prepara uma defesa da "historia contemporanea", que "conta o que se ve e ouve", em contraponto com as expectativas da alta literatura estabelecida de entao (a literatura classica e o romance historico), bem como em contraponto aos temas ligados a natureza, entre outras questoes e assuntos, aos quais os criticos eram afeitos; do desenvolvimento da trama desse mesmo conto, "O enjeitado",cuja narrativa e construida por um agudo silenciamento feminino mediante as crueldades e arbitrariedades, evidenciando que esse tipo de acao esta em conformidade com a hipocrisia de leis e valores, por meio da qual se fecham os olhos para violencia e arbitrariedade, tracos da sociedade brasileira da epoca.

No todo, os contos de Brito afrontam de variadas maneiras alguns valores senhoriais vigentes e a etica de instituicoes basilares do Imperio, como as leis catolicas.

Paula Brito na historia da literatura brasileira: o avesso do avesso

A narrativa de ficcao de Paula Brito evidencia o exercicio do poder patriarcal na sociedade brasileira, que nao estao restritas ao seculo XIX. Muitos de seus temas e da problematizacao das relacoes sociais brasileiras apareceram em contos e narrativas posteriores as de Brito, como as de Machado de Assis, sendo que esses contos pioneiros foram mais questionadores do que muitos de seus contemporaneos do final dos anos 1830 e inicio dos anos 1840. Em Amancia, pequeno romance do qual desgosta Candido (2000, v. II, p. 111), publicado por Goncalves de Magalhaes na Minerva Brasiliense em 1844, e recolhido por Serra em 1997, o narrador resolve a situacao do casamento forcado sem evidenciar as formas de resistencia daqueles que eram submetidos as praticas de dominacao. No caso, Amancia resolve se suicidar, mas e salva por um medico que passava por acaso pelo Passeio Publico, o qual resolvera todo o conflito, atuando com autoridade "ex-machina" junto a garota, ao seu pai, ao rapaz que ela amava e mesmo ao candidato a marido imposto. Esse e um exemplo de que, ao promover uma escolha centrada no genero da narrativa--ou seja, nos romances, no caso da Formacao, a Historia Literaria acabou por apagar o pioneirismo de Brito na interpretacao e representacao de questoes socioculturais, como as decorrentes da escravidao. Apagou, ainda, aquelas brechas em que podiam atuar os dependentes e subordinados, diante de um sistema ideologico rigido que regulamentava e dava forma a todas as relacoes sociais, engessando movimentos verticais e dificultando (mas nao impedindo) os horizontais.

A narrativa de Paula Brito permaneceu esquecida nas paginas dos jornais, mas corresponde a um dos primeiros passos importantes para a problematizacao de questoes ligadas ao paternalismo e a ordem instaurada por seus valores. Assim sendo, deve passar a figurar de maneira importante na discussao do aparecimento da ficcao no Brasil.

DOI: 10.12957/soletras.2017.30142

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Recebido em: 13 de outubro de 2017.

Aprovado em: 02 de novembro de 2017.

Lucia Granja (1)

Jakeline Longo Porto (2)

(1) Doutora em Teoria e Historia Literaria pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professora de Literatura e Cultura Brasileira da Universidade Estadual Paulista (UNESP), SP, SP, Brasil. lgranja@uol.com.br

(2) Mestre em Letras pela Universidade Estadual Paulista Julio (UNESP), SP, SP, Brasil. jakejove@hotmail.com

(3) Em ocasiao de dialogo academico, Rodrigo Camargo de Godoi, autor de Um editor no Imperio: Francisco de Paula Brito (1809-1861), a quem agradecemos, forneceu-nos uma informacao importante. No periodico A Marmota, produzido por Paula Brito, encontramos uma referencia de Brito a Joaquim Manuel de Macedo como um possivel leitor seu. O trecho exato diz o seguinte: "O Sr. Dr. Joaquim Manoel de Macedo, que embirrou em simpatizar comigo, desde que, estudante de latim, ja fazia Odes ao Barata, em 1832, na vila de Itaborai (...) faz sempre gosto em ser o apreciador de minhas ideias talvez porque ainda nao tivesse de que se arrepender, e nem Deus o permita" (PAULA BRITO, A Marmota, 5 de outubro de 1860, no 1201, p. 1). Disponivel em: http://memoria.bn.br/DocReader/706922/744, acessado em: 07 de junho de 2017.

(4) O Jornal do Commercio foi, na realizacao deste trabalho, consultado nos microfilmes pertencentes ao Arquivo Edgar Leurentoth, ligado ao IFCH, UNICAMP.

(5) Nos contos, por exemplo, isso se da pela exploracao a exaustao de um tipo social, a viuva, quadro minuciosamente descrito por Jaqueline Padovani da Silva (2015).

(6) A ortografia e pontuacao originais foram atualizadas. Questoes morfossintaticas foram mantidas de acordo com o original.

(7) O periodico O Carapuceiro, idealizado pelo padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, era um periodico de Recife, Pernambuco, e tinha um tom satirico e humoristico (VIANNA, 1945, p. 289).

Caption: Fig.1: retrato estampado na edicao de Poesias de Francisco de Paula Brito. Rio de Janeiro: Typographia de Paula Brito, 1863 (livro postumo).
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Author:Granja, Lucia; Porto, Jakeline Longo
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2017
Words:8510
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