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Parental representation: conceptual basis and an instrument of assessment/Representacoes parentais: bases conceituais e instrumento de avaliacao.

Introducao

As primeiras experiencias com os cuidadores na infancia, tanto na perspectiva da psicologia do desenvolvimento, quanto da psicologia clinica, sao consideradas como fundamentais para o desenvolvimento emocional do individuo (Stein, Siefert, Stewartd & Hilsenroth, 2010). Em consequencia disso, a compreensao do processo e da dinamica dos distintos elementos envolvidos na relacao crianca e cuidador tem recebido grande contribuicao de diversas abordagens teoricas, as quais enfatizam tanto elementos comportamentais, no desenvolvimento do vinculo cuidador-crianca, quanto intrapsiquicos e cognitivos. Tal e o caso da abordagem da teoria do apego e da psicanalise, bem como da teoria da cognicao social. Na teoria do apego, a qualidade do vinculo estabelecido entre a crianca e a mae, bem como a internalizacao dessas experiencias, resultam em modelos internos de funcionamento (Bowlby, 1984/2004), que gradualmente estabelecem estruturas afetivas e cognitivas que influenciarao o comportamento posterior do individuo, principalmente na dimensao relacional (Manashko, Besser & Priel, 2009). Ja na perspectiva psicanalitica das relacoes objetais, a enfase do entendimento se volta para os aspectos intrinsecos associados a representacao do objeto. Por fim, a teoria da cognicao social prioriza os esquemas ou scripts resultantes das interacoes (Lukowitsky & Pincus, 2011).

Comum a essas abordagens, porem, esta a nocao de que as caracteristicas representacionais das figuras parentais funcionam como modelos que estruturam a maneira como o sujeito vivencia a si proprio e aos demais, como tambem organizam suas experiencias, modulam o afeto e o comportamento e suas relacoes interpessoais (Waniel, Besser & Priel, 2006). Alem disso, influenciam caracteristicas da personalidade e se associam a manifestacao de psicopatologia, ja que niveis de sintomatologia sao determinados por aspectos qualitativos dessas representacoes, resultantes de interacoes em que predominam experiencias positivas versus situacoes de maior vulnerabilidade e risco (Priel, Besser, Waniel, Yonas-Segal & Kuperminc, 2007).

Em funcao desses aspectos, conforme Lukowitsky e Pincus (2011), o constructo da representacao mental tornou-se uma ferramenta de base panteorica, que fornece conhecimentos essenciais para o entendimento dos aspectos intrinsecos ligados a representacao do self e dos demais. Especialmente na psicanalise contemporanea, pesquisas sobre o desenvolvimento infantil tem integrado conceitualmente conceitos da teoria da relacao objetal e da teoria do apego, oferecendo marcos teoricos importantes para o estudo da personalidade, da psicopatologia e do processo terapeutico.

Com base nesse entendimento, um corpo expressivo de trabalhos, focalizando a identificacao de caracteristicas do processo de desenvolvimento emocional, tem se dirigido para o estudo e compreensao das caracteristicas das representacoes mentais de criancas e adolescentes acerca das figuras cuidadoras. O interesse principal desses trabalhos e priorizar a identificacao daqueles elementos associados a psicopatologia, visando, portanto, o aprimoramento das intervencoes, bem como o desenvolvimento de acoes preventivas em saude mental. Nessa direcao, a compreensao dos fatores interpessoais e intrapessoais na construcao das representacoes parentais das criancas, especialmente da representacao materna, tornou-se foco de pesquisas, principalmente nas situacoes de maior vulnerabilidade de desenvolvimento (Priel, Besser, Waniel, Yonas-Segal & Kuperminc, 2007). Diante disso, no ambito da pesquisa empirica, especialmente na avaliacao da representacao parental e/ou da representacao materna, distintos contextos tem sido investigados, tais como criancas no contexto da adocao (Priel, Kantor & Besser, 2000), criancas institucionalizadas (Pinhel, Torres & Maia, 2009; Sousa & Cruz, 2010), no ambito da violencia domestica (Stover, Van Horn & Lieberman, 2006) e nos casos de negligencia e abuso (Hodges, Steele, Hillman, Henderson & Kaniuk, 2003).

Paralelamente a esse interesse, o proprio avanco dos trabalhos colocou um desafio aos pesquisadores acerca da avaliacao e interpretacao do constructo. Dessa maneira, verificou-se a necessidade de aprimoramento de instrumentos capazes de investigar as representacoes mentais acerca das figuras parentais em criancas e adolescentes.

Uma das aproximacoes resolutivas baseia-se nas tecnicas avaliativas que utilizam narrativas infantis sobre as experiencias com cuidadores, as quais tem se mostrado como um recurso fertil de investigacao das singularidades das representacoes de criancas e adolescentes acerca das figuras parentais. Observa-se que a partir da idade de 4-5 anos, as criancas comunicam seus modelos representacionais em narrativas validas e eliciadas por historias incompletas que funcionam como dispositivos de avaliacao de padroes interativos de cuidado e relacionamento familiar (Yoo, Popp & Robinson, 2013).

Um dos instrumentos desenvolvidos com base nesses pressupostos e o MacArthur Story Stem Battery (MSSB, Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Trata-se de um metodo que utiliza narrativas para estudar areas que abrangem tanto o desenvolvimento moral quanto a expressividade emocional, o comportamento pro-social, a representacao parental, os mecanismos defensivos, a regulacao emocional e as estrategias de resolucao de conflitos (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Trabalhos investigativos, utilizando-se do MSSB, tem se valido de abordagens oriundas de aportes psicanaliticos e socioconstrutivistas, que resultaram em informacoes importantes sobre as representacoes de cuidado e protecao parental e os mecanismos defensivos das criancas frente ao conflito nas relacoes familiares (Holmberg, Robinson, Corbitt-Price, & Wiener, 2007).

Assim, o objetivo deste artigo e discutir inicialmente as bases conceituais sobre a nocao de representacao mental com base na contribuicao da teoria do apego e das relacoes objetais. A seguir, apresenta-se o instrumento MacArthur Story Stem Battery (MSSB), como uma tecnica de avaliacao infantil importante para a investigacao das caracteristicas da representacao parental em criancas em situacao de maior vulnerabilidade, tais como violencia e maus-tratos, adocao e psicopatologia parental.

Bases conceituais: representacao mental, teoria das relacoes de objeto e teoria do apego

O conceito da representacao mental tem se tornado, ha mais de quatro decadas, um constructo relevante na psicanalise, estando associado a diferentes denominacoes e definicoes que abrangem desde a representacao do objeto, da representacao da palavra ou coisa, da representacao do self, ate a representacao psiquica dos objetos internos e externos (Zanatta & Benetti, 2012, Beres & Joseph, 1970). Na perspectiva da psicanalise contemporanea, trabalhos sobre as representacoes mentais, especialmente em relacao a figura materna tem utilizado, em sua maioria, a contribuicao da teoria das relacoes objetais (Waniel, Priel & Besser, 2006) e da teoria do apego (Stover, Van Horn & Lieberman, 2006).

Na abordagem psicanalitica, a teoria das relacoes objetais considera que as relacoes com os objetos primarios sao internalizadas ou introjetadas formando a base do processo identificatorio que regula os estados afetivos internos originados da energia pulsional. As experiencias internalizadas do eu com o outro servem como base para a construcao de estruturas representacionais complexas, que seriam as representacoes de objeto, as quais incluem esquemas conscientes e inconscientes de si e do outro, funcionando como modelos atraves dos quais as experiencias afetam o comportamento, os sentimentos e a cognicao (Priel et al., 2007).

A teoria psicanalitica das relacoes de objeto sustenta que e atraves das relacoes com os demais que se constituem os blocos fundamentais da vida mental do sujeito. Nessa perspectiva, a enfase no aspecto diadico e de reciprocidade no desenvolvimento psiquico se contrapoe, de certa forma, a enfase exclusiva dos elementos pulsionais na estruturacao psiquica do sujeito. O termo relacional inclui tanto o espaco interpessoal, abrangendo as interacoes entre o individuo e o mundo social, bem como as relacoes interpessoais externas, ou seja, o espaco intrapsiquico das proprias relacoes internas, a autorregulacao e a regulacao mutua (Sauberman, 2009).

E nessa matriz relacional com os objetos primarios, essencialmente a mae, que se desenvolvem as estruturas psiquicas, as quais se organizam a partir das representacoes dos objetos primarios, principalmente entre as trocas iniciais com a mae, que sao internalizadas como uma representacao mental do objeto. Dessa maneira, as experiencias com as figuras cuidadoras iniciais sao organizadas em modelos internos de funcionamento que, gradualmente, estabelecem estruturas afetivas e cognitivas que influenciarao o comportamento posterior (Manashko, Besser & Priel, 2009). As falhas na capacidade de representacao objetal teriam efeitos prejudiciais no desenvolvimento psicologico da crianca.

Por sua vez, a contribuicao da Teoria do Apego fundamenta-se no entendimento de que a interacao crianca-figura cuidadora desenvolve-se tanto como resultado da capacidade parental de proporcionar a satisfacao das necessidades da crianca, como tambem da propria busca da crianca por uma proximidade fisica com a mae, que acontece nos primeiros anos de vida e permanece durante toda a primeira infancia (Bowlby, 1984/2009). A Teoria do Apego enfatiza os comportamentos infantis na perspectiva de eliciar, desenvolver e manter o vinculo com as figuras cuidadoras. E somente por essa proximidade que a crianca podera construir uma representacao da figura de apego que estabelecera uma base segura para que ela possa explorar o ambiente. Dessa forma, o apego e compreendido como um conjunto de comportamentos do bebe que visam a proximidade com a mae e a exploracao do ambiente. Alem disso, o apego tambem e influenciado pelo modo como os pais, ou substitutos deles, se comportam, cuidam, confortam e protegem a crianca, bem como os seus afetos e sentimentos com relacao a ela (Bowlby, 1984/2009; Ainsworth, 1969). Entretanto, a teoria do apego tambem destaca o aspecto representational dos vinculos iniciais, descrevendo como as interacoes estabelecidas com os cuidadores irao determinar os modelos internos de funcionamento, associados aos estilos de apego. Isso porque, com base nos padroes de apego, o sujeito constroi modelos internos do mundo e de si proprio neste mundo (Bowlby, 1984/2004, p. 254).

Ainsworth (1969) explicita que neste laco afetivo que caracteriza o apego ha uma ligacao reciproca entre a interacao da crianca e o comportamento materno. Sendo assim, a mae influencia a forma e a intensidade do apego, quando e presente ou ausente, quando aceita ou rechaca a crianca, ou mesmo quando ocorrem situacoes de dificuldades no estabelecimento do vinculo e a consequente manifestacao de transtornos do apego. As interacoes no contexto familiar e a qualidade do vinculo mae-bebe formam a base para a construcao das representacoes que afetam a forma como a crianca interpreta e interage com a realidade, no desenvolvimento da sua autoestima, da autoconfianca e da sua sociabilidade. Assim, o aspecto representational dos vinculos iniciais, com base nas interacoes estabelecidas com os cuidadores, irao determinar os modelos internos de funcionamento, associados aos estilos de apego (Custodio & Cruz, 2008).

Independente da especificidade de cada constructo, Priel et al., (2007) destacam que o aspecto representational dessas interacoes ou a representacao das figuras parentais integra elementos tanto da teoria das relacoes de objeto quanto da teoria do apego. Refletindo sobre os posicionamentos da teoria das relacoes de objeto e da teoria do apego, Priel, Kantor e Besser (2000) consideram que em ambos os modelos a representacao de objeto e que media as respostas da crianca e as expectativas dos outros. Assim, as representacoes acerca das figuras parentais sao compreendidas como evidencias das experiencias interpessoais reais e de fatores intrapsiquicos, sendo justamente os aspectos do desenvolvimento do apego, como da representacao objetal o foco de investigacoes sobre o papel dessas internalizacoes precoces no desenvolvimento do comportamento, da cognicao e do afeto do individuo ao longo da vida. Evidencia-se, por conseguinte, que o entendimento contemporaneo do mundo interno de representacoes do individuo reflete um esquema complexo de transacoes dialeticas entre as experiencias reais, as regras de organizacao do conhecimento interpessoal e a historia pessoal.

Representacao parental: estrategias de avaliacao

Conforme Emde, Wolf e Oppenheim, (2003), a tradicao do trabalho clinico com criancas demonstrou que, ao produzir narrativas, a crianca manifesta caracteristicas fundamentais de seu mundo interno, incluindo temas emocionais, conflitos e defesas frente as situacoes de vida. Desta forma, as criancas desenvolvem representacoes mentais que codificam as experiencias de si mesmas e de seus pais, que depois influenciam as historias construidas por elas (Clyman, 2003). Em termos conceituais, as representacoes narrativas podem ser consideradas como multideterminadas, mas sao essencialmente influenciadas pelas percepcoes das criancas de suas experiencias de vida. Por conseguinte, os fundamentos teoricos das abordagens psicanaliticas das relacoes objetais e da teoria do apego, bem como do cognitivismo, tem proporcionado elementos interpretativos fundamentais para a avaliacao e o entendimento dessas representacoes.

Um dos incentivos ao desenvolvimento da MSSB foi o desenvolvimento de uma aproximacao sistematica do estudo do mundo emocional das criancas. A tecnica narrativa do MSSB iniciou-se com base no trabalho do grupo de pesquisa organizado por Bretherton, Emde, Openheimn e Wolf e, alicercados no trabalho ja realizado com o Attachment Story Completion Task (ASCT), que avaliava o apego; assim, introduziram novas laminas com tematicas relacionais e pro-sociais. Inicialmente, a tecnica consistia de 30 narrativas, que sao inicios de historias, chamadas de historias-tronco. Hoje, porem, trabalha-se com um total de 15, sendo que duas nao sao avaliadas e tem a funcao de introduzir e finalizar a aplicacao. Embora se tenha elaborado essas 15 historias, elas sao aplicadas a partir do tema que se quer estudar. Alem disso, as criancas utilizam uma familia de bonecas para desenvolver e finalizar as historias (Hodges, Steele, Hillman & Henderson, 2003).

O instrumento (MSSB) tem sido amplamente utilizado na investigacao das representacoes parentais, porque permite capturar a continuidade das reacoes das criancas atraves de historias em que elas enfrentam um dilema que revela aspectos de seu mundo interno (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Alem das representacoes parentais, a avaliacao das narrativas tem potencial para acompanhar as mudancas nas representacoes internas, quando a crianca e colocada em um novo ambiente, principalmente no caso de criancas adotadas (Hodges et al, 2003). Tambem e possivel avaliar o estilo e a coerencia da narrativa, os conflitos familiares, a culpa, os medos, a ansiedade, a regulacao emocional, as reacoes diante da nao satisfacao dos desejos, temas orais, entre outros (Warren, 2003). Segundo o autor, a abordagem do jogo narrativo tornou-se util para estudar criancas em risco e com transtornos identificados, pois fornece uma medida obtida diretamente da crianca sobre temas e representacoes em relacao as experiencias de relacionamentos interpessoais.

O MSSB foi avaliado em seus modos de padronizacao em varias pesquisas (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003; Robinson & Mantz-Simmons, 2003). Um dos trabalhos que investigava as representacoes parentais e as defesas em criancas maltratadas constatou que o instrumento tem modos padronizados e confiaveis para a utilizacao clinica e para a aplicacao na pesquisa, mostrando-se adequado para a investigacao de caracteristicas particulares dos grupos (Hodges et al, 2003). Atualmente, o interesse dos pesquisadores tem se deslocado para o nivel representational, utilizando as narrativas como forma valida e eficaz para captar a qualidade dos modelos internos dinamicos nas criancas (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003; Maia, Ferreira, Verissimo, Santos & Shin, 2008).

No ambito da violencia domestica, Stover, Van Horn e Lieberman (2006) investigaram as representacoes maternas em um grupo de 40 criancas com idades entre 2 e 5 anos, com historia de violencia domestica, utilizando-se do instrumento MSSB (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Meninos de pais divorciados e que haviam presenciado violencia entre o casal tinham uma representacao materna mais negativa, principalmente nos casos em que as visitas dos pais eram menos frequentes. Para os autores, esses meninos percebiam a falta de contato com o pai como culpa da mae. Ja as meninas representavam as maes de forma mais positiva. Esse resultado nas criancas do sexo masculino sugere uma diferenca importante na relacao da mae com o filho, comparando-se a filha. Maes que identificaram caracteristicas de seu ex-parceiro em seu filho podem, sem saber, moldar o comportamento e as crencas sobre a crianca, resultando em representacoes maternas mais negativas nos meninos.

Ao examinar as representacoes parentais, ainda no ambito dos maus-tratos, Stronach, Toth, Rogosch, Oshri, Manly e Cicchetti, (2011) investigaram 92 criancas em idade preescolar, vitimas de maus-tratos, e 31 criancas sem experiencia de maus-tratos. A avaliacao das narrativas do MSSB (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003) permitiu identificar que as criancas vitimas de maus-tratos tiveram menores indices de apego seguro e maiores indices de apego desorganizado do que as criancas nao maltratadas. As representacoes parentais identificaram figuras negativas e as representacoes do self das criancas associavam-se a imagens grandiosas e poderosas de si mesmas.

Sousa e Cruz (2010), numa investigacao com criancas portuguesas, analisaram o modo como as experiencias de maus-tratos estao associadas ao processo de construcao dos modelos representacionais das figuras parentais de criancas institucionalizadas. Participaram deste estudo 22 criancas em idade escolar e institucionalizadas. Como instrumento foram utilizadas as narrativas no MSSB, comparadas com narrativas de criancas nao institucionalizadas. As primeiras representavam as figuras parentais como menos sensiveis e responsivas as suas necessidades e desejos, e menor atribuicao de um final positivo as narrativas.

Em todas as situacoes de vulnerabilidade retratadas nos estudos acima citados, as caracteristicas das representacoes das figuras parentais indicavam que as vivencias traumaticas estavam associadas tanto a conteudos negativos acerca do cuidado e protecao parental quanto a propria representacao de si mesmo. Em geral, os personagens dos pais sao identificados como passiveis de rejeicao ou agressao, refletindo suas representacoes e suas estrategias de regulamentacao da emocao (Clyman, 2003).

Ao contrario, estudos com criancas sem indicadores clinicos e em contextos de pouca vulnerabilidade indicam que as tematicas das narrativas infantis apresentam figuras parentais benevolentes, atentas e disponiveis a crianca quando esta enfrenta uma situacao de conflito e angustia. Por exemplo, Von Klitzing, Kelsay, Emde, Robert, Robinson e Schmitz, (2000), num estudo longitudinal que contou com a participacao de 652 criancas gemeas, constatou que as narrativas no MSSB caracterizadas por temas agressivos e/ou incoerentes associavam-se a problemas de comportamento infantil. Ao contrario, criancas sem diagnostico clinico produziram narrativas com tematicas positivas, resolutivas e figuras parentais colaboradoras.

Em sintese, os estudos ate o momento indicam que a avaliacao das representacoes das figuras parentais, atraves de instrumentos narrativos como o MSSB, oferecem dados importantes para o trabalho clinico e tambem para o desenvolvimento de intervencoes que promovam praticas parentais positivas e afetivas. No geral, criancas em situacao de vulnerabilidade e risco para problemas de saude mental apresentam narrativas em que os temas de perigo, agressao desregulada e uma acentuada enfase no papel infantil para a resolucao de problemas (poder da crianca) distinguem esse grupo das criancas que nao apresentam risco.

Para alem do aspecto avaliativo das representacoes de criancas, o MSSB tambem foi utilizado para identificar o resultado de intervencoes clinicas dirigidas para grupos de risco. Toth, Maughan, Manly, Spagnola, e Cicchetti (2002), por exemplo, investigaram a eficacia de dois modelos de intervencao com criancas vitimas de maus-tratos. Esses modelos tinham como objetivo modificar as representacoes internas das criancas em relacao ao self e aos demais, sendo que o primeiro consistia em psicoterapia parental e da crianca e o segundo baseava-se em visitas domiciliares. As criancas que apresentaram maior modificacao das representacoes de si e dos demais, avaliadas pelo MSSB, foram aquelas que se submeteram a psicoterapia. Outro estudo comparativo foi desenvolvido por Robinson, Herot, Haynes, e Mantz-Simmons (2000), que acompanharam durante os 2 primeiros anos criancas de maes em situacao economicamente vulneravel e com poucos recursos emocionais. As avaliacoes identificaram maior regulacao emocional e diminuicao da agressao nas criancas que participaram do acompanhamento que incluia visitas domiciliares.

Consideracoes finais

Este artigo abordou, sob o ponto de vista teorico, a contribuicao de abordagens psicanaliticas contemporaneas que se utilizam de conceitos da teoria das relacoes objetais e da teoria do apego para embasar a compreensao dos aspectos intrinsecos e comportamentais ligados as representacoes parentais em criancas e adolescentes. Da mesma forma, foi considerada a importancia de tecnicas de avaliacao do constructo representacao mental, o MSSB, instrumento que avalia aspectos representacionais, a expressividade emocional, o comportamento pro-social, os mecanismos defensivos, a regulacao emocional e as estrategias de resolucao de conflitos.

Dessa forma, o instrumento tem se mostrado uma ferramenta importante para a pesquisa e para o atendimento clinico de criancas e adolescentes em inumeros contextos. Espera-se, portanto, ter contribuido para a discussao e sugestao de praticas em saude mental que beneficiem populacoes de interesse.

Referencias

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Recebido em julho de 2013

Aceito em outubro de 2013

Paula Casagranda Mesquita: Psicologa, Mestre em Psicologia Clinica. Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Silvia Pereira da Cruz Benetti: Doutora em Psicologia. Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Endereco para contato: paula.cmesquita@yahoo.com.br
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Mesquita, Paula Casagranda; Benetti, Silvia Pereira da Cruz
Publication:Revista Aletheia
Date:Jan 1, 2014
Words:4114
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