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Para alem das paredes: a construcao da Catedral de Maringa.

Introducao

Construida em area central de Maringa, proxima dos centros dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciario, encontra-se a Catedral, expressao visivel da presenca institucional da Igreja Catolica entre as forcas politicas e religiosas da cidade. A construcao desta obra arquitetonica, provavelmente, seja um dos empreendimentos que mais deu visibilidade ao Arcebispo emerito, Dom Jaime Luiz Coelho. Ao cunhar no coracao de Maringa esta grandiosa construcao, o lider religioso estabeleceu marcas que em muito transcendem o aspecto privativo de sua instituicao religiosa.

A Catedral, que recebeu o titulo de Basilica Menor Nossa Senhora da Gloria, em 1982, e um santuario onde se pode expressar a fe e a devocao, mas, tambem, e uma construcao cuja imagem esta associada a quase totalidade de fotos ou suvenires da cidade, servindo de marketing para o municipio, atraindo turistas e colaborando com o comercio local. O desenho arquitetonico moderno, concebido para uma cidade que se pretende moderna, pertence a um predio que aglutina em torno de si uma diversidade de forcas sociais: religiosa, politica e economica. Dai, a importancia atribuida a Catedral para a cidade de Maringa.

A construcao de templos pela Igreja catolica e algo recorrente no Brasil, mas, evidentemente, a edificacao de uma obra de tal envergadura, como e o caso desta Catedral, destaca-se pela grandeza da obra e pelos seus tracos contemporaneos. O predio, desenhado pelo arquiteto Jose Augusto Bellucci, em forma conica, com uma altura de 114 m, somado a sua cruz, chega aos 124 m. Alem de uma estetica em concreto, possui vitrais produzidos pelo artista plastico Lonrez Helmar, que se configuram num jogo de cores abstratas. A praca em que esta situada realca a sua beleza, contando com jardins e espelhos d'agua.

Com estas caracteristicas, a Catedral leva-nos a perscrutarmos o encontro entre os ideais de fe catolica romanizada, representado na Instituicao Eclesial, e a abertura para a modernidade. Partindose da hipotese de que a America Latina pode ser entendida a partir "[...] dos cruzamentos socioculturais em que o tradicional e o moderno se misturam" (CANCLINI, 1998, p. 18), pretende-se, nesta perspectiva, examinar o processo de construcao da Catedral de Maringa. Ela conjugou determinadas praticas institucionais da Igreja catolica com as estrategias de crescimento de uma cidade, pautado nas nocoes de progresso e desenvolvimento, na cultura que se impoe sobre a natureza, na cidade que cresce em meio a mata (1).

Alem disto, a efetivacao do projeto arquitetonico da Catedral veio reforcar a construcao de uma identidade localista para a cidade, pois, colabora diretamente na constituicao do patrimonio historico e cultural do municipio. Porem, aqui, partimos do pressuposto de que nao ha como desconsiderar que: "Quaisquer que sejam as justificacoes historicas, naturais ou culturais utilizadas, todas essas configuracoes locais sao construidas por atores que as constituem em 'contextos de acao'" (BOURDIN, 2001, p. 13). E neste circuito que se manifestam acordos e reciprocidades destes agentes locais, pois, de fato, e ilusorio deixar de reconhecer os interesses e os jogos politicos presentes na execucao deste projeto.

A construcao da Catedral durou mais de uma decada, e se consideramos tambem os seus acabamentos finais, foram, na verdade, duas decadas. Dom Jaime Luiz Coelho, o primeiro Bispo de Maringa, chegou a cidade em 1957 e ja em 1958 tinha em maos o projeto arquitetonico da obra, que recebeu seu ultimo vitral somente em dezembro de 1979. Na medida em que as paredes da Catedral eram levantadas, por meio dos eventos (2) e rituais, ela adquiria novos significados na sua estrutura simbolica.

Este processo de insercao simbolica na redoma sensorial ordinaria (3) da sociedade maringaense passou, primeiramente, por uma acao performatica. Ao excitar os sentidos do grande publico com a elevacao da Catedral, produzia-se, tambem, a sua construcao social. E neste sentido que podemos entender os acontecimentos que vao desde a cerimonia de lancamento da sua pedra fundamental, trazida especialmente de Roma, ate a criacao da Arquidiocese, em 1980. A performance, neste processo, foi fundamental para a constituicao de um universo sensorial que expandiu e dimensionou o significado da Catedral, na sua importancia interna para a Igreja e nas relacoes com a cidade:

[...] do ponto de vista das redomas sensoriais: o ritual, a arte, a performance e o risco acontecerao sempre que uma sociedade produzir para si mesma eventos sensoriais que extrapolem os limites de seus sentidos ordinarios (VEIGA, 2008, p. 82).

Assim, podemos dizer que a performance de Dom Jaime, por exemplo, foi capaz de chamar a atencao, mobilizar e produzir acoes extraordinarias na sociedade. Aliado a magnitude da Catedral, tambem, a cobertura dada pela imprensa, os valores religiosos em questao e os interesses politicos, contribuiram para esta construcao material e simbolica da Catedral.

A seguir, serao discutidos os tres aspectos propostos nesta introducao: os processos socioculturais que tornaram a Catedral um icone que une os valores e fe catolica com a modernidade; os arranjos politicos locais, mediados pela lideranca de Dom Jaime e, por fim, a maneira como os eventos e rituais, realizados durante a construcao da Catedral, proporcionaram a passagem performatica do extraordinario (4) na execucao da obra para um assentamento na redoma sensorial ordinaria da populacao.

A argamassa: fe catolica e modernidade

A modernidade nao pode ser vista de maneira essencialista, e mais plausivel que a vejamos como um processo carregado de historicidade e variabilidades (DOMINGUES, 1998). E por esta razao que ouvimos falar em modernizacao conservadora, incompleta ou radical. A relacao entre modernidade e tradicao constitui-se, na verdade, numa articulacao complexa mediada por multiplas logicas de desenvolvimento (CANCLINI, 1998). Os tracos modernos da Catedral, por exemplo, carregam consigo um processo sociocultural fundado em concepcoes e ideacoes que remontam a praticas e devocoes marcadas pela tradicao catolica, seja de cunho mais romanizado, como, tambem, de manifestacoes populares.

Institucionalmente, baseada nas Escrituras e na Tradicao Apostolica (5), a Igreja permanece na sua inalteravel defesa dos dogmas. Porem, constantemente necessita lidar com as transformacoes sociais e com as inovacoes, proprias, da modernizacao da vida social. Por muito tempo a Igreja se opos a modernidade. No Brasil, a abertura da hierarquia da Igreja para os valores modernos se implementou de forma lenta e diferenciada. Entre os fatores favoraveis para uma mudanca de postura da Igreja brasileira, encontram-se o crescimento do protestantismo, do espiritismo e o declinio do monopolio religioso. Ate a primeira metade do seculo XX, os momentos ensimesmados da Igreja pouco contribuiram para a sua expansao.

Por volta de 1945, o antimodernismo se tornara insustentavel para uma instituicao que tinha a pretensao de ser universal e que se preocupava especialmente em influenciar o Estado e as elites. Ao opor-se a secularizacao, a Igreja abandonava-se a sorte ao lado de grupos de importancia decrescente (MAINWARING, 2004, p. 53).

Em 1955, a Igreja catolica no Brasil contava com tres faccoes principais: os tradicionalistas, que bloqueavam o dialogo com a modernidade combatendo a secularizacao; os modernizadores conservadores que permaneciam hierarquicos nas praticas eclesiais, porem, acreditavam na necessidade de uma abertura para a modernidade; por fim, os reformistas, que eram progressistas, no sentido que buscavam uma mudanca social em si mesma (6). Esta divisao expoe a heterogeneidade dos posicionamentos da hierarquia frente ao debate com a modernidade naquele momento, mas, nao deve ser visto de forma estanque. Os processos historicos nao podem ser simplificados, ou seja, estes sao modelos explicativos que ajudam a entender as posicoes politicas dos Bispos em determinado periodo. No entanto, a hierarquia eclesiastica tem sua forca consolidada em bases comuns, principalmente, na defesa da tradicao catolica apostolica romana.

E neste bojo que, em 1957, Dom Jaime recebeu a ordenacao episcopal e foi nomeado Bispo de Maringa. Dentre suas principais iniciativas esta a construcao da nova Catedral. Nao tardou para que o projeto de Dom Jaime chamasse a atencao dos citadinos, pois, a futura Catedral seria um empreendimento moderno, uma grandeza estetica, tornando-se, posteriormente, o decimo monumento mais alto do mundo.

Desde o inicio da obra, esteve embutida nesta iniciativa, ideais de progresso e de desenvolvimento. Bem no periodo da guerra fria, certo dia, Dom Jaime, usando do jornal, inspirouse, para o modelo de sua Catedral, em um satelite russo "[...] na era dos sputiniks, uma catedral diferente de todas" (ROBLES, 2007, p. 161).

Paradoxalmente, Dom Jaime, que sempre se associou ferrenhamente na campanha catolica contra o comunismo, inovou a sua construcao, baseando-se nos avancos espaciais russo:

Era a epoca dos "satelites artificiais", dos "SPUTINIKS", e o projeto da Catedral de Maringa tornou-se um convite--em meio a tanto desenvolvimento material e riqueza da regiao--ao pensamento da eternidade, das coisas de Deus e da fugacidade daquilo que e terreno. "POUSTINIKKI" sao aqueles que, numa heroica reclusao, se afastam do mundo para ficarem mais perto de Deus (COELHO, 2007b, p. 92).

Desta maneira, Dom Jaime apresentava seu projeto arquitetonico em moldes modernos, na imagem de um Bispo atento aos acontecimentos mundiais, como no caso da corrida espacial. Ao mesmo tempo, expunha os valores da fe catolica, fundamentando-se na necessidade de que o homem nao se afaste de Deus. Nesta defesa, seus discursos sobre a Catedral eram sempre calorosos, cheios de grandeza e de gloria:

[...] a grande Catedral, mais que um enfeite para a cidade, projetada para a sua funcao formativa, social, educacional e religiosa. Alcada na sua majestade e grandeza arquitetonica, nao so obra de arte, ela falara aos crentes e aos ateus, aos ricos e aos pobres, aos ignorantes e aos letrados; a todos de uma vida futura, de um Deus que julgara os nossos atos, aquele mesmo Deus que, no momento supremo de seu sacrificio dizia: "Pai, perdoai-lhes. Nao sabem o que fazem" (COELHO, 1959a) (7).

Num momento em que a Igreja estava se abrindo para os valores modernos, seletivamente, Dom Jaime encontrou, no projeto da Catedral, fatores aglutinadores das forcas sociais da cidade. O Bispo chamava a atencao da sociedade para a Igreja e se eximia das criticas ao conservadorismo eclesial ao evidenciar no projeto da Catedral um Bispo atento com o ideal de uma cidade moderna. A grande visibilidade, alcancada pela majestade de sua obra, tratava-se de um caminho mais rapido e que nao exigia mudancas internas dentro da instituicao eclesial, no se fazer moderno. Poucos considerariam conservadora uma Igreja que em meados do seculo XX, numa cidade em autoconstrucao, executasse um projeto tao arrojado como o da Catedral.

Exteriormente, a Catedral apresenta a modernidade, pois, toda a sua estrutura e estetica em concreto e seus vitrais artisticos sao inovadores, bem como a propria inspiracao do Bispo, num satelite russo, carrega valores modernos. Alem disso, seu padrao de construcao se alia ao moderno planejamento urbano de Maringa. Neste sentido, sendo a Catedral o local representativo da Igreja catolica, o encontro com a modernidade se da por meio da constituicao de processos hibridos. Ha o encontro de interesses modernos com praticas de fe tradicionais. Desta forma, a Catedral reuniu em torno de si a colaboracao de devotos catolicos, o sentimento religioso da populacao e os interesses empresariais e politicos de Maringa.

Quando esteve em Roma, certa vez, admirando os belos templos do passado, Dom Jaime teve uma inspiracao acerca da Catedral, ficando registrado no jornal da Diocese de Maringa: "Sera o abraco do antigo com o moderno, mas que simboliza e retrata a mesma Fe, perene, imortal, nas coisas da eternidade" (COELHO, 1965). Este e o prototipo das formas de sociabilidade da Igreja catolica com a cidade de Maringa. Para uma cidade que nasceu de uma prancheta, uma catedral que simbolize o que e permanente, mas, em concordancia com os padroes do que se fabrica como cidade. Por fim, um Bispo visionario, que conserva a moral e os bons costumes, predestinado a compor o quadro do pioneirismo maringaense (8).

A partir do final dos anos 1950, portanto, a Igreja catolica intensificou ainda mais a sua aproximacao com as liderancas locais. Tratava-se da uniao de um Bispo com empreendedores, diante dos ideais de modernidade, desenvolvimento e progresso. A construcao da Catedral e o maior simbolo visivel da simbiose do novo com o velho em Maringa. Ela expressa o cotidiano da vida social maringaense e exprime, nas bases socioculturais, a maneira de se fazer moderno (9).

Neste processo, houve uma somatoria de condutas morais e sociais de origem catolica, que mantiveram a harmonia com os interesses da elite dominante na cidade. Focado na construcao da Catedral, Dom Jaime levou a Igreja a contribuir diretamente com os ideais de planejamento urbano da cidade. Buscando preservar a sociabilidade catolica como uma caracteristica constitutiva do local (Maringa), ele participou do incessante jogo politico existente, visando alcancar a estabilidade da Igreja local (10).

O circulo social do Bispo: os parceiros da obra

A cidade de Maringa nasceu de um rigoroso planejamento urbano. As suas ruas, avenidas e pracas, ate mesmo o local de moradia das diversas parcelas da populacao, foram tracadas antecipadamente (11). A Companhia Melhoramentos Norte do Parana obteve sucesso em seu empreendimento.

Sabemos que muitos planos sao idealizados e nem sempre postos em pratica. Porem, conforme se pode perceber, nao foi o que ocorreu com Maringa, pois esta empresa conseguiu orquestrar o desenvolvimento da cidade, tal qual concebido nos projetos. Foi capaz, desde sua fundacao, de aliar agentes (os compradores "pioneiros" e o poder publico) em torno dos mesmos principios politicos e economicos que eram, antes, os seus principios (RODRIGUES, 2004, p. 51).

Diante deste planejamento tecnico do urbano, so mesmo um aparato das forcas sociais fortemente centrado na ideia de identidade local para falsear as possiveis instabilidades na luta politica diaria. O mito dos pioneiros (12), a enfase na exuberancia do verde e na produtividade da terra vermelha contribuiu na constituicao de um forte sentimento de pertencimento. Estas palavras, acerca da cidade, dimensionam bem a constituicao deste sentimento: "Cinquenta anos nao lograram destruir nem o frescor da tua beleza nem o encanto da tua mocidade. No teu vico de senhora, mantens a formosura dos primeiros tempos" (ROBLES, 2007, p. 221).

Os empreendedores maringaenses souberam vender muito bem a imagem da cidade. Embora a especulacao imobiliaria seja algo bastante universal, ao enfatizar as diferencas em detrimento das semelhancas entre Maringa e outras cidades brasileiras, obteve-se muito sucesso com as estrategias de marketing. E aqui que se inclui a construcao da Catedral, como uma aliada desta ficticia idealizacao do local singular.

Estendendo o olhar para o processo de construcao da Catedral e fugindo do que Alain Bourdin concebe como a vulgata localista (13), uma maneira de substancializar a questao local, podemos chegar aos arranjos politicos constituidos em torno da Catedral. O local se faz a partir da acao permanente de seus agentes, neste sentido, uma construcao social. O local e, tambem, instavel e universal, dai a necessidade de reconhece-lo como:

[...] um nivel de integracao das acoes e dos atores, dos grupos e das trocas. Essa forma e caracterizada pela acao privilegiada com um lugar, que varia em sua intensidade e em seu conteudo. A questao se desloca entao da definicao substancial do local a articulacao dos diferentes lugares de integracao, a sua importancia, a riqueza de seu conteudo [...] (BOURDIN, 2001, p. 56).

Na construcao da Catedral, ha um movimento das forcas locais sob a lideranca de Dom Jaime. Logo apos a sua posse, com todas as pompas de direito, Dom Jaime ja atraia as atencoes locais para si. Uma parcela da sociedade maringaense passou a integrar as posturas politicas e religiosas do Bispo em seu cotidiano. Sem muitas dificuldades, Dom Jaime estabeleceu uma rede de arranjos politicos, dando legitimidade ao seu projeto: a nova catedral.

Estabelecendo contatos com autoridades politicas e empresariais, Dom Jaime angariou apoio financeiro e moral para a construcao da Catedral. As leis municipais 72/57 e 73/57, por exemplo, autorizavam o Poder Executivo maringaense a contribuir com as obras da Catedral. Estas leis sairiam de vigor em 1961, mas, ja era o inicio de uma proficua relacao entre o Bispo e os poderes publicos. Em marco de 1958, em carta direcionada ao Prefeito de Maringa, Americo Dias Ferraz, Dom Jaime tomou a liberdade de pedir as pedras necessarias para os alicerces da futura Catedral. Para reforcar a importancia deste gesto, assim argumentou:

Creia Exmo. Sr. Prefeito, que este pedido se fundamenta no alto espirito compreensivo de V. Excelencia na gestao da coisa publica, bem como na afirmacao de que a futura Catedral de Maringa sera algo que muito honrara o Municipio na gestao empreendedora de V. Excelencia (COELHO, 1958, p. 1).

O argumento de Dom Jaime em favor do pedido, associa-se a boa gestao da coisa publica, estabelecendo uma simetria entre a catedral e os predios publicos e associando a obra da Catedral a gestao empreendedora do Prefeito. Em outra situacao, o Bispo fez o emprestimo de um britador pertencente ao Estado do Parana e ao receber a solicitacao para que o devolvesse, fica evidente o seu trafico de influencias junto ao Governador. Responde ao Engenheiro--chefe do 7 Distrito do Departamento de Estradas de Rodagem: "[...] comunico que tenho licenca verbal do Exmo. Sr. Governador do Estado, Ten. Cel. Ney Braga, para continuar usando o referido britador" (COELHO, 1961, p. 1).

A presenca de politicos em torno das obras da Catedral foi constante. De acordo com o demonstrativo das obras da Catedral, de 1957 a maio de 1964, o governo do Estado contribuiu com CR$ 22.660,00 e a Prefeitura Municipal por meio da Lei 73/57, extinta em 1961, ajudou com o valor de CR$ 4.000,00 (DEMONSTRATIVO ... , 1971). Alem disto, depois de ocupar o cargo de Presidente na primeira comissao administradora da obra (1958-1964), Dom Jaime assumiu o posto de Presidente de honra. Sendo assim, foram empossados dois Prefeitos, respectivamente, como Presidentes da comissao para as obras da Catedral: Luiz Moreira de Carvalho (1966-1969) e Adriano Valente (1969-1971). Somavam-se a estes, outros politicos locais e membros da alta sociedade.

A ideia sempre foi a de envolver politicos, bancos e empresarios. Em anotacoes nos arquivos da Curia Metropolitana, encontramos mencoes relacionadas a instituicoes como: Bradesco, Ginko, Brasul, Mercapaulo, Comercial, Bancial, Bamerindus, Benka, Walmap, Orbe, Sulbanco, Tazan, Bancosales, que foram indicadas como possiveis contribuintes na construcao. Associacoes e organizacoes, tambem, foram assediadas para contribuir, tais como o Lions Clube, o Rotary Clube, a ACIM, os sindicatos e as colonias (japonesa, portuguesa, italiana, espanhola etc) (COMISSAO ... , 1966). Alem disso, aconteciam as quermesses, campanhas do cafe (14), rifas e promocoes diversas, cujas rendas eram revertidas para as obras da Catedral. A Companhia Melhoramentos Norte do Parana nao so apoiou financeiramente a obra, como tambem indicou o Arquiteto Jose Augusto Bellucci (15) para a sua conducao, por intermedio de seu Diretor, Hermann Moraes de Barros.

Em 1972, Maringa celebrou o seu jubileu de prata e a diocese os seus 15 anos de fundacao. Na ocasiao, o Bispo, numa grande sacada politica, criou as condicoes necessarias para encerrar toda a estrutura de concreto da Catedral. Lancou um desafio a comissao de obras: bem no aniversario da cidade, colocar a cruz na torre da Catedral e inaugura-la em consonancia com as comemoracoes do jubileu de Maringa (COELHO, 1971). A ideia entusiasmou as liderancas politicas e empresariais, que se empenharam para que a obra fosse concluida a tempo. A imprensa, em geral, destacou o intento do Bispo, como neste caso:

O bispo diocesano Dom Jaime Luiz Coelho nomeou e outorgou poderes para uma comissao de pessoas influentes da cidade, que funcionara como uma especie de conselho deliberativo, e dirige na retaguarda, todos os trabalhos da construcao. Esta comissao e formada por Joaquim Romero Fontes, Enio Pepino, Joaquim Moleirinho, Francisco Ribeiro, Moacir Bulhoes da Fonseca, Jitsuji Fujiwara, Jaime Cambauva e Jose Cassiano Gomes dos Reis, e reune-se quinzenalmente para tomar as posicoes e decidir as metas a serem seguidas (CATEDRAL ... , 1971).

Naquela epoca, ja estava mais do que consagradas, em duplo sentido, as dimensoes que a construcao da Catedral havia tomado na cidade. Dom Jaime chegou a solicitar insistentemente ao Ministro das Comunicacoes, a emissao de um selo comemorativo da Catedral para as comemoracoes do jubileu em 1972. Para isto, envolveu diversas autoridades, encaminhando as cartas em apoio de personalidades politicas como o Governador do Parana, Haroldo Leon Peres, do Prefeito de Maringa, Adriano Valente e do Presidente da Camara, Paulo Vieira de Camargo. Porem, naquele ano, toda a programacao filatelica foi direcionada ao sesquicentenario da Independencia e o Bispo nao viu esse pedido ser atendido.

Percebe-se, assim, como a construcao da Catedral associou-se com a fabricacao de uma identidade local para Maringa e corroborou na publicizacao de liderancas politicas e empresariais da cidade. No jornal, de propriedade da Diocese, acrescentava-se, em uma de suas materias, o empenho dos empresarios Joaquim Fontes e Enio Pepino: "[...] eles deixam seus afazeres particulares, colocam os negocios de suas empresas em segundo plano [...] para terem como recompensa o andamento das obras" (CATEDRAL ... , 1972). O uso politico da Catedral tornou-se recorrente. Um bom exemplo, neste sentido, pode ser encontrado em manchetes de jornais, tal como, nesta manchete: "Joao Paulino: "Tulio e tao nosso como a torre da Catedral"" (JOAO PAULINO ... , 1978), em que o Prefeito Joao Paulino faz alusao a Tulio Vargas, candidato ao senado por esta ocasiao. Tambem, nota-se este uso nas manifestacoes relacionadas a inauguracao da nova praca da Catedral:

[...] o Arcebispo Dom Jaime Luiz Coelho usou da palavra para agradecer o trabalho do ex-Prefeito Joao Paulino e do atual, Sincler Sambatti, bem como do Presidente da Camara Municipal, vereador Maurilio Correia Pinho, "homens que realmente trabalham por Maringa" (COM A PARTICIPACAO ... , 1982).

Houve uma reciprocidade entre os interesses da Igreja e das liderancas politicas e empresariais de Maringa, tornando-se Dom Jaime um excelente mediador entre as elites e as massas. Soube Dom Jaime, representar os interesses da instituicao, zelando pela imagem publica da Igreja, como destacado lider religioso, sem o desabono das grandes massas e com o apoio das elites. Assim, enquanto o povo via em Dom Jaime um religioso, as elites apostavam na sua forca politica e em sua capacidade de mobilizacao popular. A Catedral e simbolo de determinada forma de acao em que os agentes, reforcando lacos de integracao, constituem o local e criam seus arranjos politicos. Foi assim que Dom Jaime conquistou legitimidade diante da maioria.

Com as bencaos de Deus e a performance de um Bispo: a Catedral

No cotidiano da vida em sociedade nos acostumamos com uma serie de praticas e habitos que sao assimilados ao conjunto de nossas sensacoes e que podemos denominar de redoma sensorial ordinaria (VEIGA, 2008). Estas sensacoes cotidianas nos apresentam modos de ser de uma sociedade. Se atualmente o maringaense incorporou na sua imagem de cidade, a permanente presenca da Catedral, haja vista, a serie de cartoes postais e a utilizacao desta imagem pelo comercio, turismo e orgaos institucionais, certamente, e porque esta se tornou parte da sua vida social. A monumental Catedral tornou-se parte da cidade, assim como suas largas avenidas e as ruas arborizadas. Porem, este acontecimento nao e fruto do acaso, houve uma performance que possibilitou esta conquista simbolica.

Durante a construcao da Catedral, nao so suas paredes eram levantadas, mas tambem, o seu significado. Neste sentido, destaca-se a acao de Dom Jaime e de seus parceiros ao proporcionarem aos espectadores da obra a experimentacao de uma redoma sensorial extraordinaria. Isto se deu, por uma serie de concatenacoes entre os encaminhamentos da obra e as cerimonias, discursos e propagacoes acerca deste feito. Entendendo-se que "[...] qualquer elemento sensorial, ou qualquer atividade e potencialmente performatica, ou seja, potencialmente extraordinaria" (VEIGA, 2008, p. 86). Notamos, neste sentido, que para alem das paredes, construia-se, tambem, um bispado, a futura arquidiocese e um lugar para a Catedral na paisagem urbana de Maringa (16).

Com a elevacao da Diocese a arquidiocese e do Bispo ao Arcebispado, ha o encerramento de um ciclo de construcao simbolica da catedral, que nao necessariamente deixaria de constituir, futuramente, novas dimensoes. Este ciclo teve inicio com a chegada de Dom Jaime, em 1957, e culminou com a instalacao canonica da arquidiocese no dia 20 de janeiro de 1980. Ha entre o inicio da construcao da Catedral e o seu fim uma passagem dos aspectos extraordinarios deste ciclo para a redoma sensorial ordinaria dos maringaenses. Aqui, considera-se que houve um processo de assimilacao, por parte da populacao, dos novos elementos sociais provenientes das etapas de construcao da obra, reforcando a simbologia da catedral no que se refere a presenca da Igreja catolica na vida da cidade.

E neste sentido, que a performance do Bispo, durante as obras da catedral, por meio de eventos e rituais, foi fundamental. Na exclusividade de suas acoes, Dom Jaime conseguiu arquitetar o andamento das obras com celebracoes e ritos catolicos, contando com a presenca de autoridades religiosas e politicas e com a participacao do povo. Desta maneira, impregnava por meio de uma redoma sensorial extraordinaria o que, posteriormente, tornaria parte da redoma sensorial ordinaria maringaense (17). Estando numa posicao privilegiada, Dom Jaime desenvolvia seu trabalho entre o discurso teologico e a acao politica. Representava o papel de servo de Cristo e ao mesmo tempo reinava como principe da Igreja (18). Sua posicao era liminar na medida em que sua atuacao se dava entre o sagrado e profano, o pobre e o rico, o religioso e o politico. E assim que conseguiu levar ao fim sua obra.

Tudo comecou com o lancamento da pedra fundamental. Estando pronto o projeto da Catedral, o Bispo marcou para o dia 15 de agosto de 1958, festa da Assuncao de Nossa Senhora e dia da padroeira da cidade, o momento em que seria apresentada, direto das escavacoes do Vaticano, a pedra fundamental da catedral:

[...] dom Jaime contou-nos a origem das duas pedras fundamentais: as duas pedras fundamentais foram bentas por s.s. o Papa Pio XII, gloriosamente reinante. Trata-se de dois pequenos blocos de marmore tirados das escavacoes da Basilica de Sao Pedro no Vaticano, estando as mesmas a caminho do Brasil (DAS ESCAVACOES ... , 1958).

Uma das pedras foi destinada a fundacao do seminario, lancada na mesma cerimonia. O evento contou com a presenca de outros Bispos e autoridades, algo que se tornou praxe nas grandes celebracoes promovidas pelo lider da entao Diocese de Maringa. Este foi um dos grandes eventos que integraram uma cosmologia (19) em que Dom Jaime solenizando os rituais catolicos, redimensionava e expandia o valor dos acontecimentos. As duas pedras, vindas diretamente da Basilica de Sao Pedro em Roma, despertavam as atencoes em torno da construcao da nova Catedral e a ligavam no plano simbolico, diretamente com Roma. As bencaos dadas pelo Papa, sucessor de Pedro, ampliavam e santificavam poderes do Bispo local e reforcavam o valor da Catedral.

Dom Jaime sempre conciliou muito bem a sua acao religiosa com a politica. O seu lema episcopal In Omnibus Christus (Cristo seja tudo em todos) lhe inspirou uma forte militancia em favor da instituicao eclesiastica, de maneira tal que, olhando para a Catedral, podemos vislumbrar um sinal material da sua forca religiosa e politica. O Bispo distribuia as bencaos de Deus para a cidade mediante a disseminacao de valores religiosos.

Em 1963, abencoou a pedreira que forneceria material para a construcao da catedral. No jornal, de propriedade da Diocese, vemos ressaltado que, sendo a pedreira "[...] propriedade do Dr. Jose Cunha foi como predestinada a servir a Igreja [...]" (SOLENEMENTE ... , 1963). Seu senso pratico

tambem se unia com a sua visao teologica do mundo. Sendo questionado muitas vezes sobre quando terminariam as obras da Catedral, respondeu ao jornal, com duas perguntas: "[...] quando querera voce que ela esteja terminada? Com quanto ja cooperou para a Casa da Mae de Deus?" (COELHO, 1964).

O Bispo era a maior autoridade religiosa da regiao de Maringa, dono de boa retorica e uma personalidade bastante persuasiva. Procurou sempre se sobressair, diante das divergencias de opinioes, para emitir a palavra final. Ainda em 1959, foi surpreendido por uma carta aberta, de autoria de

Luis Carlos Borba, colunista de "O Jornal de Maringa". A carta era uma reacao contra o Bispo que, nao se agradando com o conteudo de uma das cronicas de Borba, havia pedido esclarecimentos da direcao do jornal em relacao ao material publicado. Borba aproveitou-se do ensejo para declarar: "Sou contra a construcao da Catedral bem como de Brasilia, por acha-las inoportunas, inadequadas e extemporaneas [...]" Seguindo a linha de raciocinio, lamenta o fato de ver o seu direito de escrever para o jornal cassado, pois: "Se discordar dos erros dos homens, que sao humanos, imperfeitos (ninguem e perfeito) e que nada tem de divinos e imortais, e pago com esse preco, eu nada mais devo a sociedade" (BORBA, 1959).

A resposta de Dom Jaime nao tardou. Usando uma linguagem branda, destacou a iniciativa e a boa vontade da parte dos que colaboravam com a construcao da Catedral, atitude voluntaria de seus queridos diocesanos. A Catedral era fruto da vontade coletiva. Aproveitando a ocasiao, respondeu aos questionamentos acerca da lei municipal que autorizava a doacao de dinheiro para a construcao da catedral: "[...] partiu de um projeto espontaneo de quem se sentia representante dos anseios do povo catolico maringaense" (COELHO, 1959b).

Contudo, averiguando a construcao da Catedral, notamos que poucas coisas podem ser consideradas espontaneas. Os eventos, datas e os rituais solenes foram costurados por estrategias de acao bem planejadas. A coincidencia do termino da estrutura de concreto da Catedral com o jubileu de prata da cidade, em 1972, e um bom exemplo disto. Alias, a missa solene, celebrada no dia 10 de maio daquele ano, aniversario da cidade, foi presidida por Dom Eugenio de Araujo Sales, autoridade expressiva no circulo hierarquico catolico. A sociedade maringaense mais uma vez voltou suas atencoes para a Catedral. Assim, a Igreja unia diante do seu altar: o povo, as autoridades politicas, os empresarios e religiosos.

O coroamento final desta grande obra, num evento que transita do material ao simbolico, deu-se no dia 20 de janeiro de 1980. Com a presenca do Nuncio Apostolico, Dom Carmine Rocco, o ritual de instalacao canonica da Arquidiocese de Maringa aconteceu nas dependencias da Catedral. Estavam presentes cerca de 8 mil pessoas a cerimonia. Ali, pode-se acompanhar a criacao da Arquidiocese e a elevacao de Dom Jaime a Arcebispo.

A programacao do cerimonial de instalacao canonica da Arquidiocese contou com o apoio da prefeitura de Maringa. Dentre as autoridades presentes, destacam-se a presenca do Prefeito Joao Paulino e do Governador do Parana, Ney Braga, amigo de longa data do Arcebispo Dom Jaime. Apos as solenidades, a prefeitura ofereceu um almoco no Country Club destinado as autoridades e religiosos. Durante o discurso do Prefeito Joao Paulino, destacava-se:

[...] projecao de slides, mostrando lances de grande impacto visual, como a foto de D. Jaime, assim que chegou a Maringa, nossa Catedral, no inicio da construcao; a Basilica de Sao Pedro em Roma e lances especiais da Cidade Cancao (INSTALADA ... , 1980).

Era um ciclo em torno da Catedral que se completava. O Bispo que em 1957 propagava a construcao de uma majestosa catedral, podia agora sentar-se na sua catedra. Para completar as honrarias, a pedido de Dom Jaime, a Catedral recebeu do Papa Joao Paulo II o titulo de Basilica Menor, decretado no dia 22 de janeiro de 1982 (20).

Estava postulado, no projeto urbanistico da cidade de Maringa, a Catedral do Bispo em favor da eternidade. O povo que durante as duas decadas assistiu maravilhado a imponente construcao, as belas cerimonias, a presenca hierarquica da Igreja, dos politicos e dos empresarios, continuou a trabalhar e a viver seu cotidiano. Porem, quando passam pelo centro da cidade, reverenciam aquele monumento em que se acentua o poder religioso. Foi por intermedio da politica de um Bispo que muitos julgam terem recebido as bencaos de Deus21. Para uma cidade que tanto propaga seus qualificativos, nada melhor do que o resultado da performance do Bispo: a catedral como simbolo da fe e do progresso de uma cidade, mesmo que nem tudo seja como aparenta ser, como e da natureza da politica e da religiao. Por meio dos aspectos extraordinarios, desta construcao, assentou-se na redoma sensorial ordinaria da populacao um lugar comum para o simbolismo de sua catedral (22).

Conclusao

Procuramos demonstrar, ao longo deste texto, como o processo de construcao da Catedral de Maringa vinculou-se com as formas sociais da coletividade a partir da intrinseca relacao estabelecida entre as tres facetas relacionadas a sua construcao: a evidencia de um projeto que mescla pratica religiosa com valores modernos; os arranjos politicos a partir desta mistura, que cooperaram com a construcao do localismo; a efetivacao simbolica da Catedral, como expressao do poder da Igreja catolica. Dai, sua posicao de destaque na constituicao da imagem da cidade e do imaginario a ela relacionado.

A construcao da Catedral pode ser vista como parte integrante da propria construcao material, social e simbolica da cidade de Maringa. O projeto insere-se na dinamica do planejamento urbano da cidade, aliando os costumes e a moral catolica aos interesses locais. Do resultado final, beneficiam-se a Igreja, os politicos e os empresarios. E no geral, fortalece-se a autoimagem da cidade como uma bela Maringa.

O processo de construcao da Catedral acaba por evidenciar uma amplitude que ultrapassa seu simples cenario postal. Ela e a expressao do poder religioso que permanece e se conserva. Isto em nada contradiz os interesses localistas, que anseiam pelo marketing do local: primordial para a atracao de recursos e prestigio social. Por fim, esta cravado nas suas estruturas, o desempenho de um Bispo que fez do processo de construcao material, a elaboracao simbolica de sua instituicao e de seu poder episcopal.

Received on December 29, 2009.

Accepted on April 14, 2010.

Referencias

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(1) Recentemente houve a publicacao de um livro comemorativo dos 50 anos da Diocese de Maringa em que se enfatiza no titulo: "A Igreja que brotou da mata" (ROBLES, 2007) e na arte da capa esta a imponente catedral que surge por sobre as arvores.

(2) A construcao da catedral pode ser entendida como um evento no sentido de que estes "[...] mudam os atores envolvidos: nao e possivel falar de um mesmo conjunto de atores antes e depois dos eventos--todos se transformam na temporalidade que vai do antes ao depois" (PEIRANO, 2000b, p. 4).

(3) Podemos caracterizar a redoma sensorial ordinaria como "[...] uma especie de dispositivo automatico, precisamente por isso nao damos normalmente atencao aos nossos sentidos, ou seja, nao percebemos que, de fato, vivemos dentro de redomas" (VEIGA, 2008, p. 74).

(4) Assim, "[...] todo objeto, acao ou ambiente cotidiano, quando observados do interior de outra redoma sensorial, serao sempre interpretados como um elemento sensorial extraordinario, que pode ser tratado como obra de arte, caso seja um objeto, ou como performance, no caso de uma atividade" (VEIGA, 2008, p. 95).

(5) Para quem quiser buscar os fundamentos desta defesa equivalente das Escrituras e da Tradicao Apostolica, ver a Constituicao Dogmatica Dei Verbum (PAULO VI, 1998).

(6) Enquanto os modernizadores conservadores propunham a mudanca social mais como um antidoto no combate ao comunismo, os progressistas de fato sentiam como uma necessidade proeminente as mudancas na relacao Igreja e sociedade (MAINWARING, 2004).

(7) Nos casos de documentos, em que estejam ausentes citacoes de paginas, deve-se guiar apenas pela indicacao das pastas em que foram arquivados na sede da Curia Metropolitana de Maringa. Lamentavelmente, muitos documentos foram armazenados somente por meio de recortes, principalmente, no caso de arquivos de jornais.

(8) Antes da chegada de Dom Jaime, a Igreja ja possuia boas relacoes com a Companhia Melhoramentos Norte do Parana, uma vez que esta "[...] apoiou financeiramente, concebendo espacos, prestigiando iniciativas, pois reconhecia a Instituicao como uma importante aliada na constituicao de uma sociedade purificada, homogenea, moralizada, ordeira, pacifica e moderna" (PEREIRA, 2007, p. 25).

(9) Este tipo de relacao entre a Igreja, as elites e a populacao maringaense podem se associar a ideia de que: "Os impulsos secularizadores e renovadores da modernidade foram mais eficazes nos grupos "cultos", mas certas elites preservam seu enraizamento nas tradicoes hispanico-catolicas e, em zonas agrarias, tambem em tradicoes indigenas, como recursos para justificar privilegios da ordem antiga desafiados pela expansao da cultura massiva" (CANCLINI, 1998, p.74).

(10) Escrevendo para um jornal, ainda em 1958, Dom Jaime se refere a Maringa: "Hoje vivemos os seus dias de crianca. Depois de nos virao os que lhe darao brilho na vida adulta. Maturidade politica. Personalidade indefectivel. Comercio estabilizado. Fe inabalavel. Lares cristaos. Vida social sem mistificacoes. Assistencia eficiente ao irmao que sofre. Cidade, enfim, que realize as glorias do seu destino" (COELHO, 2007a, p. 20).

(11) Ebenezer Howard (1850-1928) e considerado o grande idealizador das cidades-jardins, espacos constituidos numa perspectiva comunitaria e com autogoverno. Howard "[...] estava muito menos interessado em formas fisicas do que em processos socais" (HALL, 1988, p. 109). Em geral, muitas cidades, como e o caso de Maringa, priorizaram, essencialmente, o aspecto fisico do urbano na forma mais plena dos interesses imobiliarios.

(12) O mito dos pioneiros parte da ideia de que homens de coragem e determinacao desbravaram esta regiao, algo que muitas vezes serve para justificar as desigualdades economicas e sociais entre os moradores do local. Pior ainda, parte do principio de que antes destes senhores nao havia povoamento na regiao. Segundo Tomazi, o pioneiro trata-se de personagem fantasmagoricamente idealizado (TOMAZI, 1999).

(13) A vulgata localista e resultado da carencia de um exame dos pressupostos que passam a serem reconhecidos como naturais na dimensao do local. Ideias como a de pertenca a um grupo, o interacionismo, o naturalismo geografico e as alusoes a uma historia como heranca que se traz do passado podem desembocar nesta vulgata (BOURDIN, 2001).

(14) Numa regiao fortemente agricola, a ajuda tambem vinha em produtos da terra. O Bispo, inclusive, chegou a prometer cinco anos sem geadas na regiao, desde que houvesse o empenho de todos na construcao da Catedral (PEREIRA, 2007).

(15) Durante toda a construcao da Catedral, a troca de cartas entre o arquiteto Jose Augusto Bellucci e Dom Jaime foram constantes.

(16) Neste sentido, o extraordinario esta presente no corriqueiro. O que faz a construcao de um templo se tornar uma acao extraordinaria? A resposta pode vir do entendimento de que: "Rituais e "performances" privilegiam o fazer e o agir, reforcam o contexto, admitem o imponderavel e a mudanca, veem a linguagem em acao, a sociedade em ato e prometem alcancar cosmovisoes [...]" (PEIRANO, 2006, p. 7).

(17) A posicao exclusva de Dom Jaime, como lider religioso, nos remete a liminaridade de seu episcopado. Ao dirigir os ritos catolicos numa posicao ambigua e indeterminada measclando o sagrado e o profano, o Bispo nos remete aos cargos fxos das sociedades tribais em que " ... toda posicao social tem algumas caracteristicas sagradas. Porem, este componente "sagrado" e adquirido pelos beneficiarios das posicoes durante "os rites de passage", gracas aos quais mudam de posicao" (TURNER, 1974, p. 119). Nas cerimonias, Dom Jaime exercia o papel religioso e politico, em nome de Deus e dos homens. De homem comum a servo de Cristo. Sendo servo de Cristo, nao mais um homem comum.

(18) Foi assim que muitos o aguardavam quando da sua posse na Diocese de Maringa em 1957 (PEREIRA, 2007).

(19) Os rituais catolicos, liderados por Dom Jaime durante a construcao da Catedral, estao inseridos em uma cosmologia: "[...] partilham alguns tracos formais e padronizados, mas estes sao variaveis, fundados em constructos ideologicos particulares" (PEIRANO, 2000a, p.11).

(20) "[...] a Catedral--Basilica de Maringa torna-se oficialmente um Santuario: centro de oracoes e de peregrinacoes, um convite a prece e ao pensamento da eternidade" (NOSSA ... , 1982).

(21) Eis a voz de um padre: "Plantada na extensa planicie que alarga o horizonte a perder de vista, a cidade emerge do verde dos campos agricultados a sua volta, em meio a casas, predios e farta arborizacao. Mas no belo conjunto de edificacoes erguidas por mao humana mais que tudo atrai o arrojo de um templo que se projeta em direcao do ceu" (ROBLES, 2007, p. 161).

(22) E como seria a vida do maringaense sem a Catedral? Onde muitos iriam tirar as fotos de casamento? Como ficariam aqueles que se contentam em passar as tardes de domingo na sua praca? Como seriam os cartoes postais da cidade? Sao pequenas questoes que demonstram o quanto este monumento faz parte da vida do maringaense.

DOI: 10.4025/actascihumansoc.v32i2.9133

Jonas Jorge da Silva

Programa de Pos-graduacao em Ciencias Sociais, Universidade Estadual de Maringa, Av. Colombo, 5790, 87020-900, Maringa, Parana, Brasil. E-mail: jonasjorge13@hotmail.com

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Title Annotation:Texto en Portuguese
Author:da Silva, Jonas Jorge
Publication:Acta Scientiarum Human and Social Sciences (UEM)
Date:Apr 1, 2010
Words:8237
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