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PSICODELIA, HUMOR AND MILITANCY: THE COLLECTIVES OF FEMALE COMIC ARTISTS IN THE NORTH AMERICAN COMIX UNDERGROUND/PSICODELIA, HUMOR E MILITANCIA: OS COLETIVOS DE MULHERES QUADRINISTAS NO COMIX UNDERGROUND NORTE AMERICANO.

Nas decadas de 1960/ 70, a atmosfera revolucionaria da contracultura norte americana transformou a cultura da epoca e engendrou novos elementos como o comix underground, quadrinhos produzidos de forma quase artesanal e distribuidos de maneira independente, em pequena escala e sem grandes pretensoes comerciais. Nao passavam de brochuras impressas em papel tosco, mas que acabaram por modificar elementos narrativos e estruturais da industria dos quadrinhos. Essas obras tornaram-se mais uma expressao de seu tempo e alcaram a categoria de icones, seus precursores, como Robert Crumb e Gilbert Shelton. Autores que viram nos comix uma ferramenta para contestar os valores morais e o modo de vida tradicional, brincar com o universo hippie, no qual estavam inseridos, e sem pudores expor suas mais polemicas fantasias sexuais. Significativo, e que nos comix underground podemos vislumbrar uma forte caracteristica vigente nos quadrinhos ate os dias atuais: a predominAncia masculina em sua producao e distribuicao. Tambem podemos observar outra caracteristica recorrente, o fato de que as mulheres, mesmo estando em menor numero, sempre procuraram conquistar seu lugar, algumas se destacando consideravelmente. No que se refere a busca de espaco atraves de uma articulacao coletiva as autoras de comix underground sao pioneiras, abrindo importantes caminhos para as mulheres quadrinistas. O movimento underground norte americano, embora tenha fornecido um contexto em muitos sentidos excludente para as mulheres, e tambem muito importante para a historia das autoras, pois e ai que surgem os primeiros coletivos de mulheres quadrinistas, como It Ain't Me Babe (1970), WimmensComix (1972-1992), Tits&Clits (1972-1987), dentre outros. Neste artigo, discutiremos como de forma totalmente aventureira e experimental autoras como Trina Robbins, Sharon Rudhal, Lee Marrs, ShelbyShampson, Roberta Gregory, Aline Kominsky, Barb Brown, CarynLeschen, Diane Noomin, Dori Seda, DotBucher, Joyce Farmer, KathrynLeMieux, KrystineKryttre, Lee Binswanger, Leslie Ewing, Melinda Gebbie, Michelle Brand, Terry Richards, LynChevli, dentre outras, se organizaram e forjaram para si espacos de producao e distribuicao. As mulheres interessadas nos comix se articularam e se agruparam, buscando estrategias de insercao que derivaram em uma pequena, porem, bastante interessante producao artistica.

Diversos movimentos sociais surgiram na efervescencia dos anos de 1960. Apos a intervencao norte americana no Vietna em 1963, iniciam-se varias manifestacoes pela retirada das tropas americanas dos paises asiaticos, e um movimento contracultural jovem tomou corpo. Surgem entao, o que JosettTrat (2009) chama de os 'novos' movimentos sociais, manifestacoes como os movimentos jovens por Direitos Civis, pela igualdade racial, liberdade sexual dos gays e lesbicas, libertacao das mulheres e os movimentos pacifistas. Segundo Trat (2009), esses 'novos' movimentos sociais se expressaram a partir de outros vetores da identidade social alem do de classe, pois sua enfase estava nas dimensoes subjetivas e nas dimensoes culturais da politica, evidenciando "o enfraquecimento ou a dissipacao da politica de classe, bem como das organizacoes politicas de massa associadas a ela, e sua fragmentacao em varios e distintos movimentos sociais" (Hall, 1992: 290).

O termo "contracultura" (1) foi definido pelo historiador Theodore Roszak (1968), como uma "cultura de oposicao politica", sobretudo contra a tecnocracia e o complexo industrial-militar do pos-guerra. A contracultura jovem dos anos 1960 foi influenciada por movimentos contraculturais anteriores, como a geracao beatnik, contudo, trazia tambem, elementos proprios, como a busca por uma "existencia autentica" (Barros, 2002: 153). Como destaca Patricia Barros (2002), "essa busca levou a geracao contracultural da decada de sessenta a ampliar seu conceito de politica, estendendo-a ao corpo, ao comportamento dos individuos, a questao sexual" (Barros, 2002: 153). Ressalta que, para tal, como principais referencias tinham "a psicanalise, o existencialismo e as filosofias orientalistas, base da chamada 'nova consciencia'" (Barros, 2002: 153).

A contracultura do periodo se expressa tambem em diversos produtos culturais, e "teve um encontro bastante feliz e fecundo com os quadrinhos" (Patati& Braga, 2006: 110). Como salienta Carlos Patati e Flavio Braga (2006), a revolucao contracultural introduz elementos inovadores nos quadrinhos, tanto no que se refere as tematicas abordadas, quanto a linguagem utilizada. Aumentando os dispositivos narrativos de que o meio dispunha ate entao. Alem de ter impacto direto sobre a forma de distribuicao habitual deste produto e sobre a questao da autoria nos quadrinhos.

Isso se da, quando em meados da decada de sessenta, "paralelamente as publicacoes das grandes editoras, comecou a circular uma producao de historias em quadrinhos independentes, underground, cujos personagens faziam sexo, fumavam maconha ou tomavam exageradas doses de LSD" (Oliveira, 2007: 34). De estilo satirico e provocativo, estes novos quadrinhos tornaram-se conhecidos como comix para separa-los dos quadrinhos tradicionais e a fim de enfatizar o "x" remetendo a x-rated(pornografico/ obsceno). Segundo o historiador da arte Santiago Garcia (2010), o barateamento dos processos de impressao facilitou o surgimento da chamada imprensa underground, a partir de 1965 (2). O autor ressalta ainda "que outra via de publicacao para os futuros desenhistas underground foram as revistas de humor universitarias" (Garcia, 2010: 142). Contudo, pontua, que "o verdadeiro comix underground" so iria se consagrar na segunda metade da decada, momento no qual, Robert Crumb lanca em Sao Francisco o ZapComix(1968). Logo, formou-se um movimento dos comix underground que aglutinou diversos autores interessados em produzir esse tipo de quadrinho, e assim, no final dos anos sessenta, a cidade de Sao Francisco, no Estado norte americano da California, estava convertida na 'Meca' desse quadrinho underground que se desenvolvia no seio de uma borbulhante cena contracultural.

Na figura 1 esta a capa do primeiro ZapComix, na qual vemos um dos mais conhecidos personagens de Crumb, Mr. Natural, um sarcastico guru, e sua mulher chegando a cidade. Segundo Garcia (2010), o que Crumb trazia de novo eram os temas da geracao hippie, "o momento encarnado em seu personagem". Crumb satirizava ainda as estruturas do quadrinho tradicional, como por exemplo, ao imprimir no canto superior direito de seu comix um selo de aprovacao, no qual se le: "aprovado por escritores fantasmas no ceu". Isso se da, pois, embora esteja vinculado a contracultura, o comix underground e em grande medida, tambem uma reacao ao ComicsCode, o qual, regulamentava a industria dos quadrinhos desde 1954, vetando a circulacao de obras que contivessem representacoes de violencia, sexo, drogas, ou qualquer conteudo socialmente progressivo. Nem todas as editoras se submeteram a essa disciplina, entretanto, como consequencia seus produtos nao levavam o selo de aprovacao na capa e ficavam impedidos de se inserir no sistema de distribuicao. Como resultado, nos anos que se seguiram a criacao do Code, as tentativas de se fazer um quadrinho adulto foram sufocadas, vigorando as producoes voltadas para o publico juvenil e adequadas a valores morais. Como pontua Garcia (2010), sem espaco para renovacao nas editoras comerciais, esta acabou surgindo doscomix underground, a partir desse momento, pela primeira vez, existiam nao so quadrinhos para adultos, mas exclusivamente para adultos.

Os comix undergrounds foram um "sucesso e fenomeno artistico e cultural, reflexo de uma era" (Moya, 1993: 188). No momento em que o espirito libertario chega aos quadrinhos, desencadeia-se uma verdadeira revolucao, cuja liberdade esta em seu cerne. Claro que, ao nao se submeter a aprovacao do ComicsCode, os comix tiveram "varios conflitos com a lei e denuncias de obscenidade" (Garcia, 2010: 144), porem, estavam livres da censura editorial. O fato de que eram auto editados, ou editados por editoras underground (3) (administradas por companheiros geracionais dos autores que compartilhavam as mesmas ideias, principios e objetivos), fez com que os autores nao precisassem responder as diretrizes editoriais, nem se adequar a linhas homogeneas de interesses comerciais, ou ainda a questao de serem produzidos e distribuidos a margem da industria, sem grande expectativa comercial--foram fatores que somados, levaram a uma enorme liberdade criativa.

Mas o que essa liberdade nova e sem precedentes significou para um grupo de talentosos e rebeldes artistas composto apenas por homens? Bem, dentre outras coisas, resultou em uma grande vazao de fantasias. O sexo era tematica recorrente nos quadrinhos underground. Eram comuns historias cheias de fetiches masculinos, nas quais, nao raro, as mulheres apareciam em situacoes de submissao e de exploracao sexual. "O sexo, a violencia, a parodia ou a homenagem a generos do passado como o horror e a ficcao cientifica, ou ainda, a mistura de todos esses elementos, haviam dominado a maioria dos comix underground, quase sempre com a justificativa do humor como ultimo horizonte" (Garcia, 2010: 154).

Na figura 2 temos a capa da revista Bizarre Sex n 8, ilustrada por Robert Crumb. Acima do titulo le-se as palavras Depravity! Perversity! Licentiousness!,antecipando o que o leitor iria encontrar ao aventurar-se em suas historias. Em seu desenho, elementos recorrentes do trabalho de Crumb: um auto retrato como uma figura franzina, sobrepujando uma figura feminina corpulenta, com pernas e gluteos exageradamente grandes. Embora, sexo e violencia, frequentemente combinados e resultando em fantasias que vitimizam a mulher, apareca em muitas obras de do autor, sendo "uma das especialidades que fez Crumb ser mais conhecido, de fato" (Garcia, 2010: 151), esse tipo de representacao era habitual nos comix.

Os comix underground eram obviamente destinados ao publico masculino, mas, embora poucas mulheres estivessem ativamente produzindo quadrinhos neste periodo, muitas estavam envolvidas no underground como um todo. E o caso de Trina Robbins, artista visual que mudou-se para Sao Francisco, impelida pela excitacao dos novos movimentos sociais. Robbins, que viria a ser uma das figuras mais importantes do comix underground de mulheres, pontua que o que viu ao se aproximar da cena dos quadrinhos underground, nao foi nada animador. Alem de ser um ambiente masculino, os autores "incluiam violencia grafica contra as mulheres em seus comix, retratando essa violencia com humor" (Robbins, 2013: s/p),

(...) na maioria dos circulos de Sao Francisco era quase regra para os cartunistas homens do underground incluir a violencia contra a mulher em seus comix, e retratar essa violencia com humor. Para esses caras, e para muitos de seus leitores do sexo masculino, cenas de estupro grafico eram o maximo, cabecas decapitadas de mulheres rolando nos corredores (Robbins, 2013: s/p).

Para ela um contexto irritante, no qual cenas de violencia contra a mulher eram retratadas como algo chistoso e "as mulheres que consideravam que as cenas de estupro, tortura e assassinatos nao eram engracados, eram tidas como sem senso de humor" (Robbins, 2013: s/p). Neste contexto, quando algumas mulheres tentam produzir quadrinhos underground, mais do que enfrentar os 'caretas' da sociedade, depararam-se tambem com embates com os homens quadrinistasunderground que ja gozavam de um certo sucesso em meados dos anos 1970, momento no qual as mulheres procuravam abrir espaco nesse universo. Trina Robbins ja envolvida com as artes visuais desde a muito tempo, pontua que seu interesse por quadrinhos despertou ao ver um comix no jornal undergroundThe East Village Other, que se distanciava agudamente dos quadrinhos comerciais, "eram sobre hippies e nao super herois" (Robbins, 2016: s/p). Instigada pela diferente producao dos comix underground, decidiu que queria faze-los. Contudo, ao aproximar-se da cena de producao do comix, percebeu que se tratava de um grupo bastante fechado. Melinda Gebbie, tambem uma destacada quadrinistaunderground diz que "era uma especie de 'Clube do Bolinha'. Nos tivemos que montar nosso pequeno acampamento perto do clube dos meninos, mas nao muito perto ou eles viriam bater na nossa porta e atirar papel higienico em chamas pela janela. Era essa mentalidade" (Gebbie, 2010: s/p).

Embora tenham encontrado espaco de publicacao nos jornais underground, segundo as autoras havia um posicionamento de exclusao por parte dos quadrinistas, na medida em que nao eram chamadas para colaborar nas revistas em circulacao, ou antologias produzidas pelos autores do underground da California dos anos de 1970. Acerca da primeira exposicao de comix underground na livraria Peace EyeBookstore, organizada por Ed Sanders, Robbins comenta: "ele incluiu todos os caras e eu fiquei de fora". Revela ainda outro posicionamento, o de ignorar a presenca de mulheres no meio. "Os cartunistas do underground que me tratavam como se eu fosse invisivel eu penso, que esperavam que eu FOSSE invisivel" (Robbins, 2013: s/p).

Robbins estava envolvida com o movimento feminista e pontua que foi ao ler um artigo sobre a liberacao das mulheres em um jornal underground, que relacionou as dificuldades encontradas para produzir seus quadrinhos com uma questao de relacoes de genero. "Eu percebi que eu estava sendo excluida dessas coisas por ser mulher" (Robbins, 2013: s/p). E entao que a autora decide, que uma organizacao por parte das mulheres quadrinistas seria necessaria, assim, Robbins e mais algumas autoras como Lee Marrs, Meredith Kurtzman, Nancy Kalish 'Hurricane Nancy', se articulam e comecam a produzir suas proprias revistas e a incentivar uma maior participacao de mulheres no comix. Paul Gravett (2010) salienta que essas autoras desencadearam uma revolucao dentro dos comix underground.

Dentro dos comix undergrounds e como se houvesse uma outra revolucao, porque as mulheres nao tinham espaco para participar da cena underground mais conhecida. Entao e como se tivesse formado um microcosmo de mulheres que comecaram a se auto editar no interior daquele movimento contracultural, e como se houvesse um outro movimento de contracultura dentro do movimento de contracultura mais amplo--os coletivos de quadrinhos feitos por mulheres (Gravett, 2010: s/p.).

Os Coletivos de Mulheres Quadrinistas no underground

Os coletivos de quadrinhos feitos por mulheres surgem quando dois importantes movimentos se encontram, o feminismo e os comix underground. Dois universos que mesclam suas linguagens e principios para produzir obras que misturam arte e politica e marcam para sempre a participacao das mulheres nos quadrinhos.

Como pontua a ativista Fran Beal, "haviam muitos movimentos de mudanca social acontecendo em meados de 1960, o que levou ao movimento de mulheres. Eles deram origem a consciencia das mulheres de uma necessidade de operar em condicoes de igualdade" (Beal, 2014: s/p). O feminismo, entretanto e bem anterior a isso, como ressalta Elizabeth Garber (1991), nao se trata de um conjunto fixo de principios ou uma unica posicao ou abordagem, mas uma filosofia variada que continua evoluindo (4). Nos Estados Unidos, o feminismo se organiza como um movimento coletivo de luta de mulheres, quando entre 1966 e 1971, irrompe o expressivo movimento conhecido como WomansMovimentLiberation (5). O ponto alto desse periodo do feminismo e a importAncia que as questoes que acontecem em Ambito privado tem. Carol Hanish num discurso em 1969 proferiu as assertivas que se tornaria simbolo do movimento e norteariam o projeto "o pessoal e politico" que viria a ser emblematico do movimento feminista da segunda decada do seculo XX. Hanish afirma que: "Nossos problemas pessoais sao problemas politicos, para os quais nao ha solucao pessoal"; "Pode haver apenas uma acao coletiva para uma solucao coletiva". Hanish ao fazer tais afirmacoes traz as discussoes politicas, questoes que ate entao eram tratadas como do Ambito do privado, questoes com as quais "nao se deveria mexer". A partir dessa dissolucao de fronteiras entre o privado e o politico, quebra-se uma antiga dicotomia (as fronteiras entre o que e do Ambito publico e o que e da esfera do privado) e amplia-se o alcance do politico e do que deve ser 'assunto' de toda sociedade. As articulacoes feministas desse momento "partem do reconhecimento das mulheres de que as relacoes entre homens e mulheres nao estao inscritas na natureza, e que existe a possibilidade de sua transformacao" (Fougeyrollas-Schwebel, 2009: 144). Rompendo silencios, "as mulheres notaram que elas compartilhavam os problemas que foram ignorados pelos homens" (Husson; Mathieu, 2016: 31).

Dominique Fougeyrollas-Schwebel (2009) aponta que a luta por direitos das mulheres esta relacionada tambem a observacao da divergencia entre os direitos legais e a sua pratica real: "a reivindicacao de direitos nasce do descompasso entre a afirmacao dos principios universais de igualdade e as realidades da divisao desigual dos poderes entre homens e mulheres" (Fougeyrollas-Schwebel, 2009: 144). "Nesse sentido, a reivindicacao politica do feminismo so pode emergir em relacao a uma conceituacao de direitos humanos universais" (Fougeyrollas-Schwebel, 2009: 144). A autora destaca que a demanda por direitos iguais abrange todo o conjunto das atividades sociais (direitos, familia, direito do trabalho).

As reunioes feministas sao fruto e tambem a causa de um contexto de inquietacao das mulheres. Em circulacao livros como The femininemystique de Betty Friedan (1963) suscitam reflexoes sobre a condicao da mulher na sociedade, nessa obra Friedan expunha como a cultura pressionava a mulher a cumprir papeis que lhe eram impostos, negligenciando suas potencialidades. Em suas articulacoes, oWomansMovimentLiberationlanca suas proprias publicacoes. As ativistas feministas tornaram-se extremamente produtivas, transmitindo as experiencias e a urgencia da libertacao das mulheres atraves da escrita e da publicacao. Surgem importantes livros como OurBodies, Ourselves, produzido pelo Boston Women's Health Collective; boletins informativos, como FirstYear Notes; zines como SpareRib, dentre outras publicacoes. Como destaca Margareth Rago (1998), e "na luta pela visibilidade da 'questao feminina', pela conquista e ampliacao de seus direitos especificos, pelo fortalecimento da identidade da mulher, que nasce um contradiscursofeminista" (Rago, 1998:28), e as publicacoes do movimento ajudam a difundir e visibilizar esse contradiscurso.

Assim, as publicacoes do movimento tornam-se muito importantes. As organizacoes feministas comecaram a desenvolver seus proprios jornais, alguns anos apos o surgimento da imprensa underground em 1965. A imprensa feminista ajudou o movimento a nascer e se comunicar, em seu interior, e tambem com o mundo exterior. Os jornais feministas eram empreendimentos coletivos e uma forma de dar voz as mulheres dentro da nova esquerda. Continham muito de jornalismo pessoal e anedotas (como parte do projeto 'O pessoal e politico').

It Aint Me Babe Journal

O It Aint Me Babe, e considerado o primeiro jornal feminista/de libertacao da mulher norte americano. Iniciado pelo Berkeley WomensLiberation em Berkeley, California, em 1970. O periodico foi uma entre muitas pequenas organizacoes e publicacoes que compunham o amplo movimento de libertacao da mulher, que comecaram paralelamente. Parte de um movimento maior, foi uma acao, dentre outras, que buscava colaborar com o movimento mais amplo.

A quadrinista Trina Robbins, diz que ao ver a primeira edicao do jornal, pensou "eu nao podia acreditar! Um jornal underground feminista!" (Robbins, 2013: s/p). A autora que ja havia colaborado com alguns jornais underground, ligou entao para a equipe do It Ain't Me Babe dizendo ser uma artista interessada em colaborar com o projeto.

E assim, entrou na segunda edicao, participando de todas as subsequentes. Desenhando capas frontais, capas traseiras e quadrinhos para o seu interior. Os trabalhos de Robbins para o jornal tratavam as questoes feministas com humor--como nos frequentes quadrinhos em que satirizava situacoes cotidianas do relacionamento com seu marido mas tambem com um vies bastante politico. E o caso de uma de suas capas, a qual traz um desenho retratando a ativista Angela Davis. Envolvida com o movimento dos Panteras Negras, Angela estava foragida por ser acusada pelo entao governador da California, Ronald Reagen, "de tres crimes puniveis com a sentenca de morte--assassinato, sequestro e conspiracao" (Davis, 2017:145). Davis foi a primeira mulher a entrar para a lista dos dez criminosos mais procurados pelo FBI. Na capa de Trina, a frase Sister: you are welcome in thishouse (Irma: voce e bem vinda nessa casa), foi pensada para que as mulheres feministas a colocassem em suas janelas, sinalizando assim, locais em que Angela poderia se esconder. A capa de Robbins desencadeou um pequeno movimento, logo as pessoas estavam fazendo cartazes com a imagem, e pendurando em suas janelas.

E notorio o quanto o movimento feminista, os jornais feministas e os comix feministas tem elementos constituintes muito proximos, surgindo da necessidade de criacao de seus proprios espacos. Sua experiencia ao colaborar no jornal It Ain't Me BabeJournal ofereceu a Trina Robbins um sistema de apoio que ha muito lhe havia sido negado como mulher em um clube de homens no comix underground. Beneficiando-se dessa rede de apoio, Robbins decide publicar um livro de comix feminista, com trabalho apenas de artistas mulheres. A equipe do It Ain't Me Babe, veicula entao, um chamado para mulheres artistas (Figura 5). Que dizia: "Apelo para artistas! It Ain't Me Babe precisa de sua ajuda. Qualquer mulher cartunista que esteja interessada em trabalhar em um comic book editado pelo It Ain't Me Babe. Por favor, nos contate o mais rapido possivel".

It Ain't Me Babe Comix

Os desenhos figuravam nos panfletos e jornais do movimento feminista, mas e com o It Ain't Me Babe comix, publicado em Sao Francisco em 1970, que surge o primeiro quadrinho coletivo de mulheres como uma obra completa.

Uma reflexao aqui se faz necessario, e importante pensarmos sobre o que significa para essas autoras comecar a contar suas proprias historias e se publicar num meio predominantemente masculino. Como veremos o separatismo cultural das mulheres foi usado como uma estrategia para uma busca de reconhecimento, com a defesa de muitas feministas da necessidade da criacao de uma 'cultura feminina'.

Terre Barrett (2014), destaca que ate o final da decada de 1960, a maioria das artistas buscava "apagar o genero" de sua arte a fim de competir em um mercado dominado pelos homens. Mas que nos anos 1960, a contracultura ja nao considera que a arte pudesse ser ideologicamente neutra, atraves do reconhecimento das feministas de que "o sistema da arte e a historia da arte haviam institucionalizado o sexismo" (Barret, 2014:48). A critica de arte, Linda Nochlin (1973), no inicio dos anos de 1970, questionou as causas da aparente inexistencia das mulheres artistas na historia, concluindo que tal ausencia se deve mais a exclusao das mulheres das principais instAncias de formacao de carreiras artisticas nos seculos XVIII e XIX, do que a uma falta 'natural' de talentos para as artes. Levando a uma reflexao sobre o lugar das mulheres na arte.

Desenvolve-se uma critica feminista da arte e uma arte deliberadamente feminista, baseadas na concepcao de que o genero estava sendo subestimado pelos que acreditavam ser possivel abordar e experimentar a arte com neutralidade. Assim, a arte feminista se propunha a aumentar a consciencia, convidar ao dialogo e transformar a cultura.

Contudo, a critica de arte Lucy Lippard (1983) em retrocesso enfatiza que e importante lembrar que nao se tratava de um grupo coeso, "um de nossos pontos fortes foi que jamais houve apenas um Feminismo unico, unificado", "as definicoes de arte feminista sempre foram contestadas de modo apaixonado" (Lippard, 1983:40). Entretanto, a autora acredita que havia "uma cultura feminista que envolve um conjunto basico de valores comuns a socialistas, radicais, lesbicas e varias outras correntes de feministas", como "o aumento da conscientizacao, o convite ao dialogo e a cultura da transformacao ... a cultura feminista e um sistema de valores, uma estrategia revolucionaria, um modo de vida" (Lippard, 1983:40).

Lippard (1980) enfatiza ainda, que a maior contribuicao do feminismo vai para alem de um combate estetico (6), tendo sido "muito complexa, subversiva e fundamentalmente politica" (Lippard, 1980:362). "A insistencia feminista de que o pessoal (e, portanto, a arte em si) e politico, como uma seria inundacao, interrompeu o fluxo do mainstream, enviando-o para centenas de afluentes" (Lippard, 1980:362). Arte e politica estao entremeados neste contexto, e "talvez, o aspecto unico da arte feminista que a torna mais estranha a nocao dominante de arte, e que e impossivel discuti-la sem se refletir as estruturas sociais que a apoiam e muitas vezes inspiram" (Lippard, 1980:363).

A quinta edicao do jornal It Ain't Me Babe, trazia um artigo intitulado "Women ... Towards a New Culture", que estimulava a criacao de uma cultura das mulheres como mais um instrumento da revolucao feminista:
   Vemos o desenvolvimento da cultura das mulheres como parte
   essencial da luta de libertacao. A criacao de uma ideologia
   cultural e uma forma de trabalho; Aceitamos produtos masculinos
   nessa area por muito tempo ... As culturas que nos cercam hoje na
   America, cujos principios nos interiorizamos, foram criados pelos
   homens. E extremamente opressivo para nos operarmos em uma cultura
   onde os ideais sao orientados para homens e as definicoes sao
   controladas pelos homens. Nossa alternativa e clara; Devemos
   desenvolver uma nova cultura, novas imagens de nos mesmas e das
   forcas que nos rodeiam. No entanto, a criacao de uma cultura
   feminina nao deve, de forma alguma, ser separada das lutas
   politicas das mulheres para a libertacao ... Nossa cultura nao pode
   ser a escultura de um enclave em que possamos suportar o status quo
   com mais facilidade--em vez disso, deve cristalizar os sonhos que
   irao fortalecer nossa rebeliao.


Atraves de iniciativas como o It Aint me Babe Comix, o separatismo feminino surgiu como uma forte posicao politica para as feministas radicais, embora nao fosse defendida por todos, como observa a estudiosa feminista Alice Echols (1989). O separatismo foi geralmente visto como uma "estrategia para alcancar a mudanca social, e nao como um fim em si mesmo" (Echols, 1989). Quando as vozes das mulheres foram suprimidas ou silenciadas na contracultura, as feministas radicais postularam que uma maneira de ser ouvida como mulheres era criar espacos exclusivos de livre expressao apenas de mulheres, ate que as ideologias feministas estivessem mais absorvidas.

Assim, o feminismo chega nas mais diversas artes. Surgem poesias, musicas, pecas de teatro, livros, quadrinhos, dentre outras expressoes, desenvolvidos a partir dos ideais feministas. Submissoes de trabalho foram feitas em resposta ao apelo do jornal It Ain't Me Babe. Porem, foi Trina Robbins a responsavel por pesquisar mulheres que estavam produzindo quadrinhos, ou que se interessassem em faze-lo e as convidou para participar da edicao. Reuniu-se assim, um grupo de sete mulheres artistas (7), que com o apoio da equipe do jornal It Ain't Me Babe produziu o primeiro comix underground feminista, publicado em 1970 pela editora underground LastGasp. Uma brochura com 36 paginas, impresso em papel de jornal que tinha apenas as capas frontal e traseira coloridas e seu interior em preto e branco e era vendida por um dolar.

Seguindo o modelo de colaboracao nao hierarquico do jornal, as autoras contavam com toda liberdade criativa. Os temas sao os mais variados, abordando assuntos como traicao masculina, feminismo, a situacao das mulheres no trabalho, psicodelia, amor, desigualdade social e assedio sexual (8).

Eram em sua maioria historias autoconclusivas que reflexionavam sobre as relacoes intimas com os homens e o abuso de poder em uma sociedade machista, ou sobre experiencias autobiograficas marcadas por acontecimentos traumaticos como o abandono, o aborto, o estupro e os esforcos pessoais para superar esses traumas (Merino, 2016: 26).

As mulheres desenhadas de forma hipersexualizada ou como ornamento de cena estao conscientemente ausentes das historias. A capa desenhada por Robbins (Figura 6) ecoava o tema Womensliberation, trazendo algumas das principais personagens de quadrinhos mainstream: Olivia palito, Mulher Maravilha, Luluzinha, Sheena Rainha da selva e ElsietheBordenCow marchando juntas com punhos levantados e expressoes de luta. Na contracapa uma provocacao bem humorada diz que qualquer semelhanca com personagens comicos chauvinistas vivos ou mortos e estritamente admitida.

A historia principal da edicao, intitulada Breaking Out, segue a mesma linha, parodiando o quadrinho mainstream (9) e suas personagens femininas. O roteiro da historia e atribuido a todo o coletivo, ou seja, a todas as sete mulheres envolvidas nesta edicao, e os desenhos sao de Carole. A historia subverte o papel original das personagens do quadrinho mainstream, na medida em que Petunia Pig, Luluzinha, Betty e Veronica, e Super Girl, saem dos papeis estabelecidos, se rebelam e se unem contra os personagens masculinos opressores. Abandonando os personagens masculinos e formando uma comunidade de mulheres. A arte e bastante cuidadosa, imitando o material de origem parodiado.

Na figura 7, trecho inicial da historia, vemos a personagem Luluzinha que aparece pedindo para participar de uma marcha junto com os meninos, e recebendo a resposta de que garotas nao sao permitidas, porem, ao contrario da personagem no quadrinho mainstream, a Luluzinha underground responde sua interdicao no clube dos meninos com um sonoro: Fuckthisshit!. Fato ocorrido apos a bruxa Hazel espalhar a revolucao feminista por todo o mundo.

Na historia, as personagens, assim como, as mulheres do Womens-Liberation, reunem-se em grupos de discussao, para conversar sobre suas experiencias pessoais, o que produz como reacao uma conscientizacao e organizacao das mulheres, que vao as ruas reivindicar seus direitos civis e reparacoes sociais. Em determinado momento, vao para as ruas e numa das placas segurada por uma mulher em protesto na frente a uma escola, se le: "Nos queremos aulas de historia das mulheres". Em outro momento se ve a personagem Super Girl usando seus poderes nao mais para ajudar o Super Homem, mas para libertar as mulheres da prisao. E por fim, as mulheres libertas e conscientes formam seu proprio clube, no qual homens nao sao permitidos, invertendo a logica da historia original.

O It Ain't Me Babe abriu um importante caminho para as quadrinistas, inaugurando os trabalhos coletivos de quadrinhos de mulheres. Na perspectiva do que hoje se entende por Artivismo, a qual engloba expressoes artisticas que se originam do desejo de provocar ou explicar uma causa, insere-se na busca feminista por "uma arte que reflita a consciencia politica do que significa ser uma mulher na cultura patriarcal" (Hammond, 1980: s/p). Alem de inaugurar todo o movimento docomix underground feminino.

Wimmen's comix--a mais proeminente antologia de quadrinhos de mulheres

A Wimmen's Comix, foi uma importante publicacao coletiva de autoras de quadrinhos que surge a partir da experiencia do It Ain't Me Babe Comix. Essas duas publicacoes sao responsaveis por trazer a percepcao de genero para os quadrinhos. O modo de organizacao da Wimmens se aproximava da estrutura dos grupos feministas, assim como, as historias publicadas nas varias edicoes da revistatambempossuiam uma perspectiva feminista. Assim, esses quadrinhos feitos por mulheres mesmo ainda que sem preparo ou sofisticacao foram muito importantes, em especial pela insercao de temas ate entao nao abordados. "Se a rebeldia dos autores undergrounds masculinos parecia derivar em escandalosas travessuras adolescentes, os comics gays e de mulheres introduziram uma consciencia politica mais rigorosa" (Garcia, 2010:151).

O comixIt Ain't Me Babe teve uma boa recepcao, ganhando uma reedicao. Logo Ron Turner, responsavel pela editora undergroundLastGasp a qual havia veiculado a obra, vendo a boa aceitacao, decidiu que gostaria de publicar outras obras do genero. Surge assim o Wimmen's comix, com dezessete edicoes, produzidas ao longo de vinte anos (de 1972 a 1992), sendo uma das primeiras e a mais longa antologia de quadrinhos de mulheres.

Trina Robbins optou por nao encabecar o projeto, assim, a funcao de cooptar artistas interessadas para participar do comix passou entao para Patricia Moodian, a autora que ja a havia publicado alguns de seus trabalhos pela LastGasp, ficou com a editoracao do primeiro volume de WimmensComix. Formando, somada a Robbins e mais oito quadrinistas (Michelle Brand, Lee Marrs, LoraFontain, Sharon Rudall, ShelbyShampson, Aline Kominsky, Karen Mare Haskell, Janet Wolfe Stanley), o grupo que depois viria a ser conhecido como as 'maes fundadoras' do Wimmen's comix (10).

O grupo do WimmensComixera composto por muitas mulheres envolvidas no movimento feminista, o que levou a um modo de organizacao muito proxima das do Womensliberationmovement. "Talvez por causa de nossos antecedentes politicos ou talvez porque eramos mulheres, o coletivo WimmensComix tinha metodos diferentes dos undergrounds masculinos desde o inicio" (Robbins, 2013: s/p). O Wimmens possuia um esquema de producao coletiva nao hierarquica11 12, lancando mao de uma editoria rotativa e por vezes sendo coeditado por duas mulheres.

Talvez em parte, por sua experiencia e dificuldades na cena do comix underground mais ampla, as mulheres procuravam ser o mais eram inclusivas possivel, abrindo as submissoes para todo tipo de trabalho, ainda que fosse de uma autora sem experiencia alguma. Ja que havia tao poucas mulheres na arte dos quadrinhos na epoca, uma das intencoes do coletivo WimmensComix era incentivar novas artistas a se envolverem. "Muitas mulheres que enviavam o material para nos nunca tinham desenhado um quadrinho antes e era evidente" (Robbins, 2016:9). "Mas nos estavamos mais interessadas em dar as mulheres uma voz do que em como elas poderiam usar o lapis e a tinta profissionalmente" (Robbins, 2016:9).

Embora o grupo de quadrinistas do Wimmens nao soubesse disso ate ver a obra a venda nas head shops (12), algumas semanas antes do lancamento de sua primeira edicao, em 1972, duas mulheres do Sul da California, Joyce Farmer e Lynn Chevely (pseudonimo Chin Lively) tambem haviam reagindo ao sexismo do underground, e produzido seu proprio titulo, o Tits&Clits, que contaria com sete volumes, publicados entre 1972 e 1987. "Eu ainda fico espantada com a sincronicidade de dois grupos de mulheres californianas, em lados opostos do Estado, decidindo ao mesmo tempo produzir um quadrinho do ponto de vista das mulheres. Isso era algo na agua?" (Robbins, 2016:10).

Contudo, as duas producoes embora sejam antologias de comixde mulheres (no sentido em que sao conjuntos de diversas obras de autoras mulheres) diferem em muitos sentidos. Enquanto o surgimento do Wimmens estava ligado aos jornais feministas do inicio da decada de 1970 atraves do It Ain't Me Babe, Tits&Clits surge da iniciativa de LynChevely. Chevely e o marido eram proprietarios da livraria Fahrenheit 451, em Los Angeles, por meio do qual ela veio a ter contato com os comix underground, aspirando entao, produzir um quadrinho de mulheres, uniu-se a Joyce Farmer--que viria a ser sua coeditora por toda a duracao da revista--e comecaram a producao de um quadrinho sexual de mulheres. Acerca do nome da revista, Chevely pontua: "Um dia nos estavamos sentados la, desenhando, e ela gritou, 'Tits&Clits!' E eu quase cai do meu banquinho. Eu sabia que era perfeito" (Chevely apud Meier, 2017:s/p). O nome era uma provocacao ao titsandass, frequentemente usado em revistas masculinas. Fundamentalmente diferente, a revista de Farmer e Chevely nao contava com uma estrutura coletiva e com a ideologia democratica subjacente do Wimmens. Apos dois volumes, as editoras resolveram abrir espacos para submissoes de outras artistas, porem, segundo Samantha Meier (2017), essa foi uma maneira de viabilizar que as revistas fossem publicadas com mais frequencia, tendo em vista que com uma equipe de apenas duas pessoas, Farmer e Chevely, conseguiam veicular apenas um comix ao ano. Era uma decisao possivelmente mais pratica do que motivada ideologicamente.

Os volumes seguiam o modelo formal dos outros comix underground. A primeira edicao do Titsera uma brochura de 32 paginas de conteudo preto e branco e uma capa frontal e traseira em cores. A grande diferenca era o fato de que Titstratavase de um comix auto editado. Isso se deu, pois Chevely e Farmer acabaram montando sua editora, a NannyGoatProductions, para viabilizar as edicoes. A NannyGoat conseguiu colocar seu trabalho em circulacao atraves das conexoes da livraria de Chevely, a qual conhecia autores docomix underground em Los Angeles. A partir da segunda edicao fizeram uma parceria com Ron Turner de LastGasp para melhorar a distribuicao da revista. No entanto, outras editoras, como a Print Mint-ainda que underground--inicialmente hesitaram em participar de Tits&Clits, por considera- lo muito obsceno. Para Farmer e Chevely, publicar um livro que era tao censuravel era um ato radical de desafio contra o que as mulheres deveriam estar fazendo na epoca. Todavia, investindo seu proprio dinheiro na producao e considerando que cada copia era vendida por US $ 0,75 a US $ 1,50, as autoras nunca tiveram retorno financeiro.

Embora o sexo estivesse presente tambem na Wimmens, a diferenca e que este nao era essencialmente seu projeto editorial. Ja a intencao da Tits era discutir a sexualidade feminina. Tits&Clits, como um quadrinho de sexo produzido por mulheres, causou "um grande alvoroco dentro e alem da comunidadedoscomix. De acordo com a Farmer, Tits&Clits causaram desconforto as pessoas e, portanto, nao foram amplamente lidas ou distribuidas" (Meier, 2017:s/p). Joyce Farmer acredita que "era controverso porque era sexo do ponto de vista de uma mulher, o corpo de uma mulher do ponto de vista de uma mulher" (Farmer apud Meier, 2014:s/p). Tits&Clits rompe significativamente a fronteira privado / publico, mergulhando profundamente no dominio do pessoal (Meier, 2017:s/p).

Outras obras surgiram com esse vies, contudo, curiosamente, embora um dos motes da contracultura fosse a liberdade sexual, a sexualidade feminina e suas fantasias nao foram assim tao bem recebidas. Numa resposta a sua maneira a autores como Robert Crumb, que nao raro colocavam mulheres em situacoes submissas em suas historias, Melinda Gebbie relata que criou para a revista "WetSatin" (1976) uma historia em que a personagem principal era uma mulher que mantinha os homens escravos em seu porao. "Foi um troco irritado ao tipo de misoginia impensada que existia nos quadrinhos masculinos", e que era minimizada pelos quadrinistasunderground dizendo: "Esse e so o tipo de quadrinhos que os homens estao fazendo" (Gebbie, 2010:s/p). E, quando uma mulher fez igual, disseram: 'O, meu Deus, a cultura esta se despedacando!'", ironiza. (Gebbie, 2010:s/p).

Varias revistas de autoras mulheres surgem na decada de 1970, inspiradas ou a partir de desmembramentos da equipe de colaboradoras do WimmensComix, E importante considerar que embora o Wimmens fosse bastante inclusivo--assim como os grupos feministas--nao eram um grupo homogeneo. Ainda que fossem mulheres se articulando enquanto grupo deautoras, se reunindo em revistas especificas para o publico feminino, as mulheres inseridas no contexto do underground nao formavam um grupo coeso. Surgiram de fato, diversas abordagens feministas que se deram de formas diferentes. E algumas divisoes foram se consolidando ao longo dos anos. "As relacoes entre o grupo de mulheres artistas pioneiras do WimmensComixfoi se polarizando por causa de visoes divergentes que algumas estabelecem na hora de definir o underground e o feminismo" (Merino, 2016: 27). Algumas colaboradoras "(...) sentiram a necessidade de diferenciar-se do resto do grupo e queriam desenvolver suas proprias historias" (Merino, 2016: 27). Diane Noomin e Aline Kominsky criaram em 1976 o TwistedSisterscom uma perspectiva feminista menos radical que o Wimmens, Roberta Gregory e Mary Wings lancam respectivamente: DynamiteDamsels (1976) e Come out Comix (1977), produzindo historias relativas a suas experiencias como mulheres lesbicas.

Assim, vao surgindo muitas publicacoes a partir do caminho aberto pelo It Ain't me Babe e pelo Wimmen's Comix. Gregory nos presta um grande servico, ao trazer na ultima pagina de DynamiteDamsels (Figura 9), o titulo das revistas em circulacao em 1976, segundo ela "produzidas pelas mais talentosas mulheres do pais", acompanhadas de uma pequena descricao dos temas encontrados em cada uma delas e de suas precos e local de venda.

Contudo, das revistas produzidas por autoras nesse periodo, o WimmensComixacabou sendo a mais significativa--por abrir caminhos, por sua extensao, e por dar voz a autoras que viriam posteriormente a atingir grande destaque como quadrinistas mulheres. Roberta Gregory relembra que "eram os anos preinternet, entao o lugar para ser vista era naWimmensComix" (Gregory, 2016:s/p).

O Wimmen'se uma publicacao cujo nascimento esta vinculado ao movimento feminista, contudo, embora num primeiro momento, a revistasignifique uma 'intervencao feminista' no mundo misogino do underground desenvolvido ate entao, um caminho para as mulheres que eram outsiders no movimento de contracultura de onde emergiu os comix, o separatismo foi esmaecendo ao longo dos anos e as relacoes foram se modificando. Como pontua o sociologo Paul Douglas Lopes (2006), as raizes feministas de Wimmens nao podem e nao devem ser ignoradas, mas devem ser examinadas em sua total complexidade e nao como uma intervencao ideologicamente uniforme. E importante considerarmos que se trata de 17 volumes, produzidos ao longo de vinte anos.

Em sua trajetoria o Wimmens foi publicado por tres editoras: do primeiro ao decimo volume (1972-1985) pela LastGasp; os volumes onze, doze e treze (1987- 1988), pela Renegate Press; e os quatro ultimos numeros pela editora Rip off Press (1989-1992). Ha, porem, um hiato de seis anos na producao, de 1977 a 1982. As autoras retornam com o WimmensComix #8 em 1983, mas entao o cenario ja se modificou. No inicio dos anos 1980, as head shops ja nao existiam mais. Conforme Trina Robbins (2013), o Wimmensvendia bem nos tempos das head shops, contudo, com sua extincao, os quadrinhos passaram a ser vendidos principalmente em lojas especializadas de quadrinhos, "cujos proprietarios ou administradores eram fas de super herois que preferiam vender os comics de super herois" (Robbins, 2013:s/p). A edicao final de WimmensComix ocorreu em 1992. E o seu final teve menos a ver com a publicacao em si, que estava melhorando constantemente em qualidade, e mais com a distribuicao. Para Robbins (2016), esse foi o inicio do clube do bolinha de novo. "Nao havia lugar para que nos fossemos encontradas exceto nas livrarias que vendem historias em quadrinhos, frequentadas por garotos de 12 anos e homens de 30 que eram internamente meninos de 12 anos" (Robbins, 2013:s/p).

E importante pensar que o Wimmens, assim como oscomix underground em geral, sao datados. Afinal estavam vinculados a contracultura jovem da segunda metade do seculo XX. Assim, esse foi um dos elementos que contribuiram tanto para o seu surgimento, quanto para o fim. A contracultura explodiu, mas logo comecou a perder vitalidade, como quase todos os movimentos contestatorios juvenis dos anos 1960. Os comix eram trabalhos que contavam com uma estetica alternativa que representava uma etica alternativa; outro ponto relevante levantado por Santiago Garcia (2010) seria o fato de que em meados da decada de 1970, ainda que a necessidade tenha impulsionado os principais expoentes do comix underground para a auto edicao ou para editoras marginais, logo seu sucesso atraiu as grandes empresas (revistas de informacao em geral, editoras literarias e produtores de Hollywood). O "underground ja nao estava a sombra, nas margens, nem na clandestinidade, estava exposto aos olhos do publico consumidor junto com os demais produtos" (Garcia, 2010:167). Foi assimilado e comecava a ser publicado pelas editoras tradicionais como a Marvel, que decidiu ampliar a oferta para alem dos super herois, publicando quadrinhos de artes marciais, fantasia heroica, terror e underground--como um genero. Essa tendencia anunciava a chegada de uma nova epoca na publicacao nao infantil, quadrinhos que rompiam com as limitacoes do ComicCode, porem, nao com as dos generos tradicionais. O underground derivou entao em um estilo que apenas sobrevivia nas paginas de poucos veteranos que seguiam ativos para titulo individual. Porem, nascia outro produto: o quadrinho alternativo.

A relevAncia dos coletivos underground para a posterior producao das mulheres nos quadrinhos

No que se refere a producao feminina nos Estados Unidos, Ana Merino (2016) chama de as 'filhas do underground ' autoras como Phoebe Gloeckner, Debbie Drechsler, Julie Doucet e Carol Lay, as quais vem desenvolvendo desde os anos 1990, a vertente autobiografica intimista inaugurada pelas pioneiras do underground. "Herdeiras dessa linha intimista inaugurada primeiro pelo underground feminista" (Merino, 2016: 29), sao artistas que "tocam em temas como o abuso infantil e o incesto, acrescentando qualidade estetica e profissional grafica a sordidez e ao sofrimento de seus relatos pessoais". Contudo, num contexto de maior profissionalizacao das mulheres quadrinistas, Merino pontua que as autoras do pos-underground "controlam tanto o discurso narrativo, quanto o grafico, sao estupendas desenhistas que dominam todos os niveis expressivos da arte sequencial" (Merino, 2016: 29).

Na esteira do que fizeram as quadrinistas dos coletivos undergrounds, em outras partes do globo, como no Brasil, as autoras continuam lancando mao da triade arte, feminismo e humor para suscitar questoes. O feminismo ainda ressoa, em sua terceira ... ou como defendido por muitos, quarta onda. Simone Pereira Schmidt (2015), em seu texto "O Feminismo, ainda", reflexiona acerca das respostas que o feminismo tem a nos oferecer no momento atual. E conclui que "sinalizam nao somente para sua atualidade, mas para seu carater de extrema necessidade frente aos riscos sempre recolocados de retrocesso e perda de territorios" (Schmidt, 2015: 293). A autora pontua que se mergulharmos em direcao a radicalidade politica e epistemologica que e constitutiva do feminismo, podemos entende-lo como resposta contundente aos desafios do presente. "Mais do que necessidade, em ultima instAncia, o momento presente aponta para a urgencia do feminismo, se considerarmos as profundas desigualdades com que nao cessamos de nos deparar e a constante necessidade que temos de criar estrategias de enfrentamento" (Schmidt, 2015: 293). E o caso da personagem Olga, a sexologa taradologa, criada em 2009 pela quadrinistas Thais Gualberto. Olga e uma especialista em sexo, bastante direta em suas opinioes, como podemos constatar na figura 10 (13), em que um homem revela que seu casamento esta em crise, pois, todos os dias sua mulher briga com ele por este nao lavar a louca, Olga pergunta, porque entao ele nao lava, e numa expressao de seu machismo responde que lavar louca e "coisa de mulher" e Olga rebate de forma ironica perguntando se ao lavar a louca o homem corre o risco de perder seu orgao sexual masculino.

Os caminhos abertos pelas quadrinistas dos anos 1970 foram fundamentais para as quadrinistas contemporAneas. Tanto na abertura de espacos, quanto no encorajamento para a producao das mulheres artistas. Mas se nos anos 1970 um coletivo de mulheres quadrinistas foi uma atitude sem precedentes, atualmente eles sao bastante recorrentes na producao das autoras.

As acoes coletivas tem sido um recurso utilizado pelas quadrinistas, sendo bastante comum a organizacao em coletivos de mulheres quadrinistas. E o caso daRevista Inverna (2016), um projeto de publicacao de quadrinhos de autoras mulheres, que tem como objetivo incentivar mulheres brasileiras a produzir seus proprios quadrinhos. Em seu primeiro volume, a revista reuniu autoras profissionais e iniciantes com estilos bastante diversos que produziram suas narrativas baseadas no tema 'Mulheres Brasileiras'. Em outros paises tambem vem sendo realizados projetos semelhantes, e o caso das revistas Springs (Alemanha), Caniculadas (Espanha), Presentes(Espanha), Clitoris (Argentina), dentre outras, demonstrativas de como a organizacao das mulheres em coletivos surge como uma eficaz resposta as limitacoes a que elas estao submetidas "em uma profissao marcada por uma estrutura sistemica criada por e para outros" (Mccausland; Berrocal, 2016: 07), assim como, da importAncia da construcao de uma rede de apoio para as autoras, tanto no fomento da producao, quanto na visibilidade do que vem sendo produzido pelas quadrinistas.

Ao que parece, os espacos exclusivos para as autoras ainda sao necessarios. Todavia, assim como, o separatismo da arte feminista proposto nos anos 1970 nao era um fim em si mesmo, tratando-se sobretudo de uma busca por uma mudanca social, as articulacoes em revistas apenas de mulheres caminham num sentido da visibilidade e abertura de possibilidades. Uma busca e um encaminhamento para quenum proximo momento, os quadrinhos sejam reconhecidos/ apreciados pelas suas qualidades e nao pelo genero de seu autor.

Consideracoes finais

No que se refere a producao das autoras de historias em quadrinhos, e notorio a importAncia das redes de apoio construidas por elas como resposta as limitacoes a que estao submetidas. Essas redes viabilizaram a producao e a insercao das autoras no meio dos quadrinhos e sao representativas do posicionamento de solidariedade e inclusao assumido em grande parte por elas. Nos quadrinhos underground os coletivos (uma reuniao de individuos com interesses comuns, em busca de uma acao coletiva) foram a maneira das mulheres se organizarem e conseguirem publicar seus trabalhos, e tornaram-se fundamentais para que tivessem espaco de atuacao. Esses coletivos de mulheres quadrinistas que se iniciaram na decada de 1970 nos Estados Unidos, ou seja, as iniciativas de autoras e produtoras de quadrinhos que e se unem para desenvolver ou publicar uma obra, ou uma revista seriada, foram muito importantes para a insercao das autoras nesse campo artistico. A producao coletiva de obras como It Ain't Me Babe (1970), Tits&Clits (1972-1987) e WimmensComix (1972-1992), mostram a forca da acao coletiva e a importAncia de um grupo como instrumento catalisador. Atraves da construcao de redes de apoio, as mulheres puderam se organizar enquanto quadrinistas, abrir espacos, produzir e publicar seus proprios quadrinhos.

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Recebido: 15.08.2018

Aceito: 12.10.2018

Talita S. Medeiros

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)--Brasil.

E-mail: medeirostali@gmail.com

(1) Costuma-se datar a contracultura a partir da beat generation, com o recital de poesia da sixgallery em 1955 ou a publicacao de "on the road" de Kerouac, 1957.

(2) Os autores de comix encontraram as primeiras oportunidades em jornais de tendencia esquerdista, como o Los Angeles Free Press (de Los Angeles, California), o Berkeley Barb (Berkeley, California) e o The East Village Other (Nova York, N.Y.), os quais vinculavam artigos, resenhas e letras de musicas e quadrinhos que tratavam de assuntos da contracultura.

(3) Surgiram "editoras" underground, algumas importantes (Last Gasp, Rip-off Press, Print Mint, Kitchen Sink, Renegate Press).

(4) N'GoneFall (2007) ao falar de seu contexto como mulher Africana, pontua que o feminismo nao corresponde a um programa universalmente global, mas assume caracteristicas distintas, nas suas manifestacoes locais, apesar das interdependencias entre os dois planos. Assim, o feminismo passa por diferentes momentos e suas acoes precisam ser entendidas dentro dos diferentes contextos sociais e processos historicos.

(5) Periodo tido como a segunda onda do feminismo. A primeira onda (Seculo XIX-- 1950), e frequentemente apresentada em torno das reivindicacoes do voto: de fato, e a respeito dessas questoes que as acoes mais espetaculares foram realizadas nos Estados Unidos e no conjunto dos paises europeus (Cf. Fougeyrollas-Schwebel, 2009). A segunda onda (comeca em 1960) e o foco passa da emancipacao das mulheres, para a liberacao das mulheres. Os movimentos feministas dos anos 70 nao se fundam na unica exigencia de igualdade, mas no reconhecimento da impossibilidade social de fundar essa igualdade dentro de um sistema dominado pelos homens. A maior relevAncia trazida pela segunda onda feminista e o rompimento da dicotomia publico/ privado. O feminismo nao se ocupa mais apenas da esfera publica, mas de todas as esferas da vida das mulheres.

(6) A autora ressalta que se pode dizer que em torno de 1970 as mulheres artistas introduzem um elemento de emocao real e conteudo biografico para performance, bodyart, video, etc. E tambem que elas trouxeram para a arte o uso de formas das artes tidas como 'menores', como a costura, ou ainda que mudaram os padroes da pintura, usando elementos como a colagem. Porem, pontua que inevitavelmente, seria possivel tambem citar homens que o fizeram. Para ela esses sao fenomenos superficiais. Crendo ser inutil tentar definir uma contribuicao formal especifica feita pelo feminismo. Estando a sua verdadeira contribuicao para o campo das artes na esfera politica.

(7) Trina Robbins, Lisa Lyons, Carole, Michele Brand (Wrightson), Barbara "Willie" Mendes, Meredith Kutrzman e Nancy Kalish "Hurricane Nancy".

(8) Esse comixe composto por treze historias: VegetablesArise! de Meredith Kurtzman, Oma de Willy Mendes, Monday de Michele Brand, Lavender e I RememberTelluria de Trina Robbins, A Flower Fable de Lisa Lyons, Untitled de "Hurricane Nancy", Breaking Out de todo o coletivo, TiradeFunnies de Michele Brand e uma historia sem titulo de Meredith Kurtzman.

(9) Mainstream e um termo originalmente ingles empregado como um conceito para se referir ao modelo de pensamento ou gosto de carater popular e dominante. Seria algo como "corrente principal", ou "fluxo principal". E usualmente empregado no campo da arte nas mais diversas expressoes, e define aquilo que e comum, usual, familiar, disponivel ao publico e que detenha lacos comerciais.

(10) Destas autoras apenas Trina Robbins e Michele Brand foram colaboradoras tambem da edicao do It Aint Me Babe Comix (1970).

(11) Os grupos de fala eram muito valorizados na maioria dos grupos feministas, alem do incentivo a formas de organizacao antiautoritarias, privilegiando as formas mais espontAneas de manifestacao, e recusando toda organizacao hierarquica (Cf. Fougeyrollas-Schwebel, 2009:146). Seguindo essa linha, alem de optar por uma editoracao rotativa, para que nenhuma mulher pudesse se impor sobre as outras, no Wimmenscomix, todas as colaboradoras avaliavam todos os trabalhos submetidos e davam seu feedback.

(12) "Lojas de vendas de parafernalia hippie" (Garcia, 2010:147) nas quais os comix costumavam ser vendidos.

(13) Embora tenha uma formacao em Arte e Midia--Universidade Federal de Campina Grande (UFCG/2010), tem um desenho bastante experimental, no qual podemos observar que nao ha uma intencao de se seguir formalidades esteticas para expressar seu pensamento, a autora faz uso de um traco infantil e pouco refinado, bem ao estilo dos comix dos anos 1970, onde a forca maior residia na narrativa.

Caption: Figura 1

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Author:Medeiros, Talita S.
Publication:Revista Artemis
Date:Jul 1, 2018
Words:9646
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