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PREVALENCIA DO USO DE ANFETAMINAS POR CAMINHONEIROS.

1 Introducao

Todas as atividades da sociedade atual dependem do sistema de transito e de transportes, influindo direta e indiretamente na vida das pessoas. No caso do Brasil, onde a malha rodoviaria e o principal meio de transporte de cargas e de pessoas, as rodovias sao fundamentais para a economia do pais, permitindo a movimentacao de pessoas e de seus bens. Estima-se que 96% das distancias percorridas no Brasil sejam pelo modal rodoviario, 1,8% por ferrovias e metros e o restante por hidrovias e meios aereos. No que se refere as cargas, 64% sao transportadas atraves de rodovias, 21% em ferrovias, 12% em hidrovias e o restante por gasodutos/oleodutos, ou meios aereos (HIRATSUKA, 2009).

O setor de transportes de cargas no Brasil emprega mais de quatro milhoes de pessoas, existindo uma frota nacional de veiculos de 1,9 milhao de caminhoes, nao havendo dados precisos sobre o numero exato de caminhoneiros, sendo estimado, no entanto, que mais de um milhao de pessoas trabalhem no setor de cargas, dentre os quais, 700 mil sao caminhoneiros cooperativados ou autonomos (KNAUTH et al., 2012).

O transporte de cargas e responsavel por grande parte do escoamento de mercadorias no pais, sendo a principal forma de transporte utilizada na area agricola, industrial e de pessoas, desempenhando, portanto, um papel essencial na vida economica da nacao. No entanto, tal situacao acaba ocasionando um grave problema, que sao os acidentes de transito, que apresentam indices elevados (ZEFERINO, 2004).

Uma das principais causas de acidente fatais envolvendo motoristas de carros ou caminhoes e dormir ao volante. Segundo Wendler et al. (2003), motoristas que dormiram menos de 5 horas em um periodo de 24 horas sao mais propensos a envolverem-se em acidentes relacionados a sono ao volante, sendo estes mais frequentes durante a noite, em rodovias, com o motorista sozinho. No que se refere aos caminhoes, dirigi-los e uma tarefa complexa, que envolve vigilancia, exploracao visual, tomada de decisoes, controle motor sensorial e avaliacao de risco, sendo grandes as chances de acidentes quando estas funcoes nao estao presentes.

Os motoristas de cargas muitas vezes fazem o transporte por longos percursos e com tempo estabelecido para entrega, muitas vezes prejudicado pela deterioracao das vias rodoviarias em pessimas condicoes. Diante de tal situacao, muitos fazem uso de medicamentos ou drogas ilicitas com o objetivo de reduzir o sono. Estas drogas psicoativas podem ocasionar prejuizos na habilidade e atencao do motorista, aumentando os riscos de envolvimento em acidentes (WENDLER et al., 2003).

O individuo que faz uso de anfetaminas consegue realizar atividades por um tempo maior, com a sensacao de menor cansaco, pois nas primeiras horas a sensacao de bem- estar e grande. No entanto, apos esses efeitos, torna-se irritavel, deprimido e com sono incontrolavel, podendo dormir ao volante (MOREIRA; GADANI, 2009).

Diante dos altos indices de acidentes fatais envolvendo caminhoneiros nas estradas relacionados ao fato de dormirem ao volante, o presente estudo teve como objetivo analisar a prevalencia do uso de anfetaminas por este grupo profissional.

3 Resultados

Tendo a delimitacao da comercializacao de anfetaminas que determina procedimentos no uso restrito de inibidores de apetite. Tal artigo traz a luz um estudo de carater descritivo no ambito de tentar elucidar se houve uma mudanca no perfil da utilizacao de rebites apos deliberacao e mudanca do comercio e utilizacao de anfetaminas.

Analisou-se um total de 80 caminhoneiros divididos entre duas etapas, antes da delimitacao da comercializacao de anfetaminas, RDC 50/14, sendo um total de 40 caminhoneiros no ano de 2013 e 40 caminhoneiros na segunda pesquisa apos entrar em vigor a Portaria 116 do Ministerio do Trabalho em 2016.

Apos a realizacao da pesquisa, obtiveram-se os seguintes resultados que descrevem a amostra. 15 (18,75%) possuiam idade inferior a 30 anos; 14 (17,5%) possuiam entre 31 e 40 anos; 25 (31,25%) possuiam entre 41 a 50 anos; 19 (23,75%) aos 51 e 60 anos: e sete (8,75%) pessoas possuiam mais de 60 anos de idade. Todos do sexo masculino.

Sobre a naturalidade, 34 (42,5%) motoristas responderam ser do municipio de Bom Jesus do Itabapoana/RJ; 29 (36,25%) Sao de Sao Jose do Calcado/ES; 11(13,75%) sao de Vitoria/ES; e seis (7,5%) sao do Rio de Janeiro/RJ. Quanto a sua etnia, 23 (28,75%) se declararam brancos, 16 20(%) afirmaram serem negros; 27 (33,75%) sao amarelos; e 14 (17,5%) pardos.

Quanto a escolaridade, oito (10%) afirmaram nunca ter estudado; 42 (52,5%) completaram somente o primeiro segmento do ensino fundamental; 21 (26,25%) possuem o ensino fundamental completo; e nove (11,25%) o ensino medio completo.

Em relacao ao tempo de profissao 29 (36,25%) motoristas possuem entre 2 a 9 anos; entre 10 a 20 anos obtiveram-se 27 (33,75%) motoristas; 10 (12,5%) tem-se entre 21 a 29 anos; e 23 (28,75%) entre 30 a 41 anos. Dentre eles 41(51,25%) sao contratados; 37 (%) sao autonomos; e dois aposentados.

Questionados sobre a origem de suas viagens, 44 (55%) haviam saido de Cachoeiro do Itapemirim/ES; 25 (31,25%) de Vitoria/ES; oito (10%) do Parana; e tres (3,75%) do Rio Novo do Sul/ES, deles 46 (57,5%) tinha Sao Paulo/SP como destino; seis (7,5%) para Vitoria/ES; 17 (21,25%) se dirigiam para o Parana; e 11(13,75%) para o Rio de Janeiro/RJ.

Perguntados sobre a quantidade de horas que costumam dirigir direto, 16 (20%) afirmaram 4 horas; 16 (20%) declararam 5 horas; 10 (12,5%) disseram 6 horas; quatro (5%) dirige por 7 horas; sete (8,75%) por 8 horas; tres (3,75%) por 9 horas; 12 (15%) por 10 horas; quatro (5%) 11 horas; sete (8,75%) por 12 horas: e um (1,25%) por 13 horas.

Ao serem perguntados sobre serem portadores de alguma doenca, 27 (33,75%) afirmaram ser hipertensivos; seis (7,5%) declararam ser diabeticos; sete (8,75%) se apresentaram como estressados; 40 (50%) afirmaram nao obter nenhum problema de saude, conforme o grafico da figura 1:
Figura 1: Motoristas portadores de alguma comorbidade.

Comorbidades

              2013   2016

Hipertensao   13     14
Diabetes      2      4
Estresse      5      2
Nenhum        20     20
Outro         0      0

Note: Table made from bar graph.


Ao serem questionados se fazem uso de medicamentos. 35 (43,75%) responderam afirmativamente; enquanto 45 (56,25%) negaram a utilizacao de medicamento, conforme representado pelo grafico da figura 2:
Figura 2: Uso de medicamentos por parte de condutores.

Faz uso de medicamentos

       sim   nao

2013   16    24
2016   19
21

Note: Table made from bar graph.


Ao serem questionados para identificar qual o medicamento mais utilizado, resultou que seis (7,5%) fazem uso de Valsartana; cinco (6,25%) Propanolol; nove (11,25%) Captopril; seis (7,5%) Losartana; um (1,25%) Hidrocloratiazida; um (1,25%) Glibencamida; cinco (6,25%) Metformina; e dois (2,5%) Alprazolan, como se pode observar no grafico da figura 3:
Figura 3: Medicamentos mais utilizados por condutores.

Medicamentos

                    2013   2016

Valsatarna          2      4
Propanolol          4      1
Captopril           4      5
Losartana           2      4
Hidrocloratiazida   1      0
Gilbencamida        1      0
Metformina          1      4
Alprazolan          1      1

Note: Table made from bar graph.


Ao serem questionados se fazem uso de bebida alcoolica, 52 (65%) entrevistados responderam positivamente e 28 (35%) afirmaram nao fazer uso, segundo o grafico da figura 4:
Figura 4: Uso de bebida alcoolica de forma frequente.

Uso de bebidas alcoolicas

       sim   nao

2013   23    17
2016   29    11


Ao perguntar sobre o local que e feito o consumo de bebidas alcoolicas, foi obtido que 14 (17,5%) fazem uso em casa; 18 (22,5%) em um bar; e 20 (25%) responderam que em casa e em bares, conforme o grafico da figura 5 nos mostra:
Figura 5: Local de consumo de bebidas alcoolicas por condutores.

Local de consumo

             2013   2016

Casa         3      11
Bar          7      11
Casa e Bar   13     7

Note: Table made from bar graph.


Com relacao a frequencia que fazem uso de bebida alcoolicas, oito (10%) responderam diariamente; 19 (23,75%) bebem uma vez por semana; 16 (20%) entre 2 e 3 vezes por semana; e nove (11,25%) entre 4 e 5 vezes por semana, diante do grafico da figura 6:
Figura 6: Frequencia de consumo de bebida alcoolica por condutores.

Frequencia do uso de bebidas

                   2013   2016

Diariamente        5      3
1 vez por semana   12     7
2-3 vezes por      1      15
  se mana
4-5 vezes por      5      4
  se mana

Note: Table made from bar graph.


Em relacao aos habitos tabagistas, 24 (30%) se declararam fumantes e 56 (70%) nao fumantes, conforme elucidado pelo grafico da figura 7:
Figura 7: Relacao sobre o uso de cigarro.

Fumantes

             2013   2016

sim          14     10
nao          26     30
ex-fumante   0      0

Note: Table made from bar graph.


Como variavel principal sobre o uso de rebite, no ano de 2013, 31 (77%) os condutores afirmaram usar; oito (20%) responderam negativamente; e um (3%) disse ja ter feito uso. Em 2016, 24 (60%) responderam afirmativamente: 13 (33%) responderam que nao; e tres (7%) disse ja ter feito uso, conforme o grafico da figura 8:
Figura 8: Relacao entre o uso de rebites (anfetaminas) por
condutores. Valores de ANOVA F calculado 2,232 F critico 0,309
(valor-P= 0,0127) entre os grupos; F calculado 25, 935 e F critico
9,552 (valor-P= 0,784) dentro dos grupos, sendo teste de TUKEY Sim
(a), Nao (b) e ja usei (c) com IC (95%).

Faz uso de rebites

          2013   2016

sim       31     24
nao       8      13
ja usei   1      3

Note: Table made from bar graph.


Tendo em vista a utilizacao de anfetaminas como rebites por parte de condutores observouse quais os principais principios ativos mais se apresentavam, tendo em vista o grafico a figura 9:
Figura 9: Substancias mais utilizadas como rebite. Valores de ANOVA
F calculado 0,078 F critico 5,371 (valor-P= 0,787) entre os grupos;
F calculado 9,023 e F critico 5,194 (valor-P= 0,0162) dentro dos
grupos, sendo teste de TUKEY Desobesi[R] (a), e demais (b) IC
(95%).

Anfetaminas utilizadas

               2013   2016

Desobesi M     5      8
  manipulado
Desobesi M     18     11
Sibutramina    2      2
Ritalina       5      6
Nao soube      2      0

Note: Table made from bar graph.


A partir da descricao dos principais farmacos anfetaminicos utilizados por condutores determinou-se a frequencia e periodicidade em que tais acoes eram repetidas. Para tal, descreveram-se os dados obtidos no grafico da figura 10:
Figura 10: Frequencia na utilizacao de rebites em condutores
Valores de ANOVA F calculado 5,626 e F critico 9,279 (valor-P=
0,1023) entre os grupos; F calculado 76739,4 e F critico 5,192
(valor-P= 0,00003) dentro dos grupos, sendo teste de TUKEY 4-5
vezes por semana (a), 2-3 vezes por semana (b), demais (c) IC
(95%).

Frequencia do uso de anfetaminas

                   2013   2016

Diariamente        0      4
1 vez por semana   1      1
2-3 vezes por      5      9
  se mana
4-5 vezes por      26     13
  se mana

Note: Table made from bar graph.


Ao descrever o local de compra dessas anfetaminas, conclui-se que mais de 70% foi obtida em postos de gasolina. Conforme o grafico da figura 11:
Figura 11: Local de compra das anfetaminas. Valores de ANOVA F
calculado 5,749 e F critico 6,591 (valorP=0,0621) entre os grupos;
F calculado 59,226 e F critico 9,552 (valor-P=0,00382) dentro dos
grupos, sendo teste de TUKEY Postos de Gasolina (a) e demais (b) IC
(95%).

Origem das anfetaminas

                       2013   2016

Posto de combustivel   32     25
Amigos                 0      2
Outros                 8      3

Note: Table made from bar graph.


Em relacao aos motivos da utilizacao de anfetaminas obteve-se: Manter acordado se torna como o principal motivo para uso, 73,75% afirmou, e os demais responderam ter outros motivos. Conforme o grafico da figura 12 nos mostra:
Figura 12: Motivos para o uso. Valores de ANOVA F calculado
0,014261 e F critico 18,512 (valor-P= 0,9158) entre os grupos.

Motivos para o uso

       Manter acordado   Outro motivo

2013   32                8
2016   27                3

Note: Table made from bar graph.


4 Discussao

As anfetaminas sao aminas simpaticomimeticas, que produzem efeitos estimulantes poderosos sobre o sistema nervoso central (SNC), ocasionando tambem acao adrenergica periferica e central. Os psicoestimulantes compreendem um grupo de drogas de varias estruturas, que aumentam a atividade motora e reduzem a necessidade de sono, diminuindo a fadiga, induzindo a euforia e apresentando efeitos simpaticomimeticos, ou seja, aumentando as acoes do sistema nervoso simpatico (ZEFERINO, 2004).

Ao estimular o SNC, as anfetaminas levam o cerebro a trabalhar mais depressa, ocasionando uma reducao do sono e deixando o individuo mais "eletrico, sendo chamada de "rebite" entre os motoristas e de "bolinha" por estudantes".

A anfetamina, com seu isomero dextrogiro ativo, a dextroanfetamina, a metanfetamina e o metilfenidato, formam um grupo de substancias que possuem propriedades farmacologicas muito semelhantes, onde estao incluidas as chamadas drogas de rua, como o metilenodioximetanfetamina, tambem denominado, respectivamente de NDMA, MDA ou mais popularmente, o ecstasy (RANG; DALE, 2011).

Segundo estudos, verificou-se que 66% dos caminhoneiros costumavam fazer uso de anfetaminas durante o percurso de viagem (NASCIMENTO; NASCIMENTO; SILVA, 2007). Para tal fato, pode-se observar no grafico 8 (Relacao entre o uso de rebites (anfetaminas) por condutores) que 31 (77,5%) condutores relataram o uso em 2013 e 24 (60%) em 2016, com prevalencia de 68,75% dentre esses anos. Isso nos mostra que apesar da reducao do consumo entre 2013 e 2016, a prevalencia do consumo ainda se mostra com leve aumento em relacao ao estudo realizado em 2007. Alem disso, o grafico 9 nos mostra que a anfetamina mais comumente procurada e o Desobesi M[R], tambem citado como o mais consumido no trabalho de Cerqueira et al. (2011).

Considerando o estudo de Nascimento, Nascimento e Silva (2007), onde 27% dos caminhoneiros usavam anfetaminas diariamente e 60% de duas a tres vezes por semana. Pode-se notar que no grafico 10 (Frequencia na utilizacao de rebites em condutores) existe 0 (0%) que usavam diariamente em 2013 e 4 (14,81%) em 2016, enquanto 5 (15,63%) motoristas usavam de duas a tres vezes por semana em 2013 e 9 (33,33%) em 2016, demostrando assim a ocorrencia de uma mudanca na frequencia do abuso de anfetaminas, tendo uma prevalencia de 64,7% para o uso de quatro a cinco vezes por semana, contemplando os anos de 2013 e 2016.

Resultados obtidos por Moreira e Gadani (2009), os quais concluiram que 65% dos entrevistados usam rebite, e destes 57% informaram ter conhecimento das consequencias de seu uso, entretanto, devido ao medo em perder o frete, pois caso haja recusa em cumprir o horario outro caminhoneiro assume o servico, levando a perda de trabalhos e risco de nao ser contratado pelas empresas, devido a isso muitos se arriscam em longas horas de viajem sobre efeito de tais substancias.

Em uma pesquisa envolvendo motoristas de caminhao do estado de Sao Paulo, 12,3% relataram ter hipertensao, 7,7% estresse e 4,6% diabetes (TAKITANE et al., 2013). Considerando o estudo, o grafico 1 desta pesquisa aponta que na media dos anos de 2013 e 2016 encontra-se 27 (33,75%) motoristas apresentando hipertensao, 7 (8,75%) estresse e 6 (7,5%) diabetes. Indicando assim, que as comorbidades envolvendo a profissao sao comuns, devido a fatores que interferem na qualidade de vida dos motoristas de caminhao, dentre eles, o abuso de substancias como as anfetaminas.

Pesquisa realizada pela Confederacao Nacional de Transporte (CNT, 2016), por meio da entrevista de 1066 caminhoneiros (autonomos e empregados de frota) no periodo de 4 a 14 de novembro de 2015, afirma que dentre os entrevistados 24,0% utilizam ou ja utilizaram medicamento controlado, sendo que a maioria destes (57,7%) para o controle da hipertensao arterial, corroborando os dados obtidos neste trabalho, na qual a hipertensao e uma comorbidade bastante frequente (33,75%) na vida desses profissionais. No entanto de acordo com a CNT, dentre os problemas medicos que o caminhoneiro ja teve ou tratou, os problemas de coluna sao os mais citados (16,2%), seguida da hipertensao arterial (11,0%).

Ainda considerando o estudo de Takitane et al. (2013), em relacao uso de drogas, 66,2% declararam-se nao fumantes, 10,8% ex-fumantes e 23,1% fumantes, alem disso, 69,2% dos participantes relataram o uso de alcool. Tendo essa realidade, o grafico 7 desta pesquisa nos mostra que em 2013, 65% dos motoristas sao nao fumantes e 35% fumantes, enquanto que em 2016, 75% sao nao fumantes e 25% fumantes, sendo que em ambos os anos nao houve relato de ex-fumantes, alem disso, o grafico 4 apresenta em 2013 que 57,5% dos condutores faziam uso de alcool e que em 2016 a taxa de abuso aumentou para 72,5%. Isso mostra um perfil similar entre os motoristas de caminhao quanto ao abuso dessas drogas, ja que as condicoes de trabalho sao semelhantes, apesar das pesquisas serem em regioes diferentes do pais.

O uso de anfetaminas adquiridas em postos de combustiveis foi de 62% na cidade de Dourados-MS (MOREIRA; GADANI, 2009). Enquanto que o trabalho de Nascimento, Nascimento e Silva (2007), nos mostra que em Passos-MG, 54% dos motoristas de caminhao usavam anfetaminas originadas de postos de combustiveis. Logo, observa-se no grafico 11 deste estudo que a prevalencia da obtencao de anfetaminas nos anos de 2013 e 2016 dessa origem e cerca de 82%. Portanto, verifica-se um aumento significativo de motoristas adquirindo anfetaminas em postos de combustiveis, o que representa uma facilidade de aquisicao ilegal dessas substancias.

Corroborando as informacoes supracitadas, de acordo com dados do perfil dos caminhoneiros 2016 (CNT, 2016), estes profissionais relataram com maior frequencia a oferta de substancia ou droga ilicita para trabalhar nos postos de abastecimento (35,3%), sendo o rebite a droga mais oferecida (87,7%).

Com o advento da resolucao 50/2014 da ANVISA a ilegalidade e informalidade da comercializacao dessas drogas tem aumentado e sites passam a oferecer cada vez mais produtos com entrega rapida sem apresentacao de receituario medico. Como sites que apresentam forma de adquirir clandestinamente tais produtos pode-se citar como exemplos: webcomercios.com.br, emagrenutre.com.br e anabolizantesmaromba.com.br. Os precos variam de 90 a 140 reais em diversas marcas, muitos sem apresentacao da empresa e somente no "blister" sem caixa ou lacre ou selo de qualidade trazendo duvida sobre a procedencia e garantia da qualidade dos mesmos. Ainda assim, sao varios os reclamantes em relacao a garantia da entrega do produto, sendo muitos apresentando como fraude comercial (BRASIL, 2014).

Ainda como ponto de discussao, temos o contrabando de anfetaminas via Paraguai, uma vez que de acordo com os orgaos de regulamentacao do pais tais medicamentos possuem venda livre sem a necessidade de retencao ou apresentacao de receitas. Dentro do ambito nacional esse crime e descrito como delito de contrabando de medicamentos e esta tipificado no art. 273, [section] 1 e 1-B, do Codigo Penal, Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Mesmo historico passou o medicamento Dualid[R] quando proibido em 2011 no Brasil e vendido largamente no Paraguai ate hoje, como pode-se observar sua comercializacao no site www.lojasnoparaguai.com.br/dualid. Sendo possivel visualizar essa situacao de contrabando em uma das acoes da Policia Rodoviaria Federal (2016), que apreendeu cerca de 60 mil comprimidos de anfetaminas, sendo a carga ilicita de origem Paraguaia tendo Vitoria da Conquista (BA) como possivel destino.

Visando promover uma reducao no abuso de anfetaminas e consequentemente os obitos em decorrencia do uso de drogas, a Lei No 13.103, de 2 de marco de 2015 colocou a obrigatoriedade da realizacao de exames toxicologicos para os motoristas profissionais.

5 Conclusao

Pode-se dizer que com os resultados obtidos atraves da pesquisa, que nao ocorreu uma reducao significativa da prevalencia do uso de anfetaminas entre os anos de 2013 e 2016. Sendo assim, percebe-se que mesmo com a criacao da lei que delimita a comercializacao de anfetaminas, a RDC 50/2014, que dispoe sobre as medidas de controle de comercializacao, prescricao e dispensacao de medicamentos que contenham as substancias anfepramona, femproporex, mazindol e sibutramina, seus sais e isomeros, bem como seus intermediarios, o consumo de tais substancias ainda permanece elevado.

Assim sendo, esperava-se uma reducao na utilizacao de anfetaminas, entretanto, ainda existe um forte abuso dessa classe de medicamentos junto aos condutores de carga pesada. Demonstrando que a ilegalidade e a obtencao de produtos no ambito do uso irracional ainda se mostram presente no cenario descrito pelo cotidiano desta categoria profissional, entretanto, a Portaria 116 do Ministerio do Trabalho de 2015 visa a exigencia de exames toxicologicos para esses profissionais com o intuido de desencorajar o abuso de substancias licitas e ilicitas que afetam a dirigibilidade.

Referencias

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BRASIL. Presidencia da Republica. Lei no 13.103, de 2 de marco de 2015. Disponivel em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em: 11 nov. 2016.

BRASIL. RDC no 50, de 25 de julho de 2014. Resolucao da Diretoria Colegiada-- RRDC No 50, de 25 de Setembro de 2014.

CERQUEIRA, Gilberto Santos et al. Uso de anfetaminas entre caminhoneiros: um estudo transversal. RevInter (Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade), [s. L.], v. 4, n. 2, p.76-86, jun. 2011.

CNT. Pesquisa CNT de perfil dos caminhoneiros 2016. Brasilia: CNT, 2016.

HIRATSUKA, A. Analises de impactos ambientais e economicos em transporte multimodal. 2009. 85 f. Dissertacao (Mestrado)--Faculdade de Engenharia, Universidade Estadual Paulista, Ilha Solteira, 2009.

KNAUTH, Daniela Riva. Manter-se acordado: a vulnerabilidade dos caminhoneiros no Rio Grande do Sul. Rev Saude Publica, Pelotas, v. 5, n. 46, p.886-893, maio 2012.

MOREIRA, Renata Silva; GADANI, Julice Angelica Antoniazzo Batistao. A Prevalencia do Uso de Anfetaminas por Caminhoneiros que Passam pela Cidade de Dourados-MS. Interbio, Dourados, v. 3, n. 2, p.27-34, dez. 2009.

NASCIMENTO, Euripedes Costa do; NASCIMENTO, Evania; SILVA, Jose de Paula. Alcohol and amphetamines use among long-distance truck drivers. Revista de Saude Publica, [s.l.], v. 41, n. 2, p.290-293, abr. 2007. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s003489102007000200017.

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Tayna Oliveira BELAN, Cristiano Guilherme Alves de OLIVEIRA, Sergio Henrique de Mattos MACHADO *, Patricia de Souza BRANDAO & Joao Romario Gomes da SILVA

Universidade Iguacu, Campus V. Itaperuna, Rio de Janeiro, Brasil.

* Autor para correspondencia: sergiojf@ig.com.br

DOI: http://dx.doi.org/10.18571/acbm.141
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Belan, Tayna Oliveira; de Oliveira, Cristiano Guilherme Alves; de Mattos Machado, Sergio Henrique; d
Publication:Acta Biomedica Brasiliensia
Date:Dec 1, 2017
Words:3884
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