Printer Friendly

POR UMA TEOLOGIA NEGRA NO BRASIL.

Tendo em vista a pratica contumaz do racismo na sociedade brasileira, pode-se imaginar a necessidade do desenvolvimento de uma teologia negra que nos chame a reflexao sobre tal fenomeno, a luz de pressupostos biblico-teologicos de cunho libertador e profetico. Tomamos como referencia a teologia negra, que se desenvolveu nos Estados Unidos, como movimento teologico, que surgiu entre os cristaos negros, na segunda metade da decada de 60, concentrada na reflexao teologica sobre a luta dos negros norte-americanos sob a lideranca de Martin Luther King. No Brasil, a grande referencia para se conhecer melhor sobre esse movimento teologico, sao as obras publicadas por Edicoes Paulinas, de autoria de James H. Cone (O Deus dos Oprimidos, 1985), um dos trabalhos mais importantes sobre a Teologia Negra; e a coletanea de documentos sobre a primeira fase da historia da Teologia Negra de 1966 a 1979, de Gayraud S. Wilmore (Teologia Negra, 1986).

Lamentavelmente constatamos que a Teologia da Libertacao que se desenvolveu no Brasil e na America Latina (apesar de seu enfoque estar mais concentrado numa analise mais social-economica marxista do que na libertacao de uma raca oprimida) na decada de 80 e 90, explorou como se esperava, uma teologia negra de carater relevante; que fosse impactante e que despertasse a atencao dos cristaos no Brasil. As iniciativas com um vies libertador nao foram suficientes para fazer a sociedade pensar sobre os problemas de negros e negras na sociedade brasileira. E louvavel considerar o fato de que os lideres da teologia negra norte-americana procuraram manter um certo dialogo com os lideres da libertacao latino-americana e asiatica. Os efeitos desse esforco nao foram suficientes para impactar os segmentos religiosos cristaos nem a sociedade brasileira. E oportuno considerar, portanto, que a Teologia Negra se distingue da Teologia da Libertacao Latino-Americana ao evitar o uso da analise social-economica marxista e ao concentrar-se na libertacao de uma raca oprimida ao inves de uma classe social-economica.

Merece mencao positiva, contudo, a luta empreendida pela Igreja Catolica Apostolica Romana, que sempre foi mais comprometida, no seculo XX, com os problemas da negritude, do que as Igrejas protestantes. E, entre estas, ha aquelas onde a questao negra nunca foi satisfatoriamente abordada, a partir de uma reflexao libertadora e profetica.

Pressupostos basicos que justificam uma Teologia Negra no Brasil

Retrospecto historico do racismo no Brasil

O racismo no Brasil resulta das mesmas causas que o determinaram na America espanhola. Diferente do que ocorria na Antiguidade, na qual a discriminacao baseava-se em diferencas religiosas, de nacionalidade ou de linguagem, essa discriminacao, no Brasil, era feita em relacao a cultura e ao diferente, incluindo-se aqui as diferencas marcantes de tracos fisicos e cor da pele. No comeco do seculo XVI, os colonizadores que chegaram ao Brasil (portugueses), trouxeram em sua bagagem cultural, ideologias do ponto de vista social, politico, economico, teologicos, pseudo-cientificos, explicacoes consideradas logicas, para justificar a origem do racismo. Tinham as mesmas caracteristicas, fundamentos e principios ja usados na Europa, tambem baseados em equivocos teologicos baseados em textos biblicos do Antigo Testamento, que se transformaram em doutrina tendenciosa que se desenvolveu entre teologos fundamentalistas.

O equivoco teologico dos europeus sobre a discriminacao racial, tor-nou-se forte motivo para se defender a escravidao do negro no Brasil. Ja em 1520, dizia-se que os amerindios nao eram descendentes de Adao e Eva. A fundamentacao biblica estava na historia de Noe que se embriagou excessivamente com vinho e ficou nu diante dos filhos. Cam, um dos filhos de Noe, por ter visto o seu pai nessa situacao e por ter cacoado dele, foi, por isso, amaldicoado juntamente com toda a sua descendencia. Os teologos racistas concluiram, entao, que os negros sao descendentes de Cam, consequentemente, amaldicoados e condenados a servidao e a escravidao permanentes. Outras citacoes biblicas (Efesios 6.5 e Eclesiastico 33.26-28) tambem foram objeto de exegeses equivocadas, sempre com a finalidade de justificar a escravidao dos negros e a necessidade de serem doceis e servicais.

Tornou-se valido no Brasil, o que ja acontecia na Europa, desde o fim da Idade Media, inicio do seculo XVI, isto e, a divisao da populacao em "limpos de sangue" e "infectos". Os negros, mesticos, cristaos-novos e indigenas foram impedidos de ocupar cargos de confianca ou de honra, sob a alegacao de nao possuirem tradicao catolica e titulos de nobreza. Os argumentos quase sempre eram de natureza teologica e social. Os negros pertenceriam a uma "raca impura", cujo sangue se encontrava "manchado". O desdobramento de tudo isso no Brasil, resultou numa pratica ja conhecida entre europeus, que exigia que, para exercer certas funcoes publicas na sociedade brasileira (escrivao de justica, coletor de impostos, juiz-de-fora, vereador, entre outras funcoes), todos deveriam comprovar que eram "limpos de sangue", isto e, que nao tinham na familia qualquer membro pertencente as racas consideradas impuras.

No seculo XIX tambem prevaleceu no Brasil o que se chamou de "mito ariano", com raizes na Peninsula Iberica, quando foram realizados em meados desse seculo, experimentos considerados cientificos com cerebros de humanos e de simios, que deram origem a um certo numero de tratados sobre as diferencas raciais. Aqui os africanos sao apontados como seres biologicamente inferiores.

Houve uma incorporacao na sociedade brasileira da teoria do Conde Arthur de Gobineau (1) que tivera grande impulso na Europa. Na obra de Gobineau, vale ressaltar, que a raca ariana e considerada superior em relacao a outros grupos raciais. Desta forma, Gobineau classifica a raca semita como inferior a ariana, que seria o puro europeu. A ideia de que o judeu e semita, e como tal uma raca estrangeira e inferior, tornou-se um principio basico dos arianos anti-semitas. Aliada a teoria de Goubineau estava a contribuicao de Houston Stewart Chamberlain, que aplicou o conceito de "raca superior" aos alemaes a fim de apoia-los em suas aspiracoes nacionalistas e proclamou os judeus como uma raca degenerada. E nesse contexto que Adolf Hitler se apropriou dessas ideias e as usou para demonstrar a superioridade dos nordicos e para justificar o extremo anti-semitismo do nazismo, que foi responsavel pela morte de mais de seis milhoes de judeus. As ideias de Goubineau e Chamberlain tiveram efeitos significativos nos Estados Unidos e no Brasil onde serviram para exaltar e "afirmar a superioridade dos americanos brancos sobre os negros, justificar a segregacao e a sujeicao dos negros ao grupo branco dominante.

Vale ressaltar, porem, antes de tudo, que a America ja estava povoada de negros que foram enviados para os Estados Unidos e para o Brasil. O chamado "trafico de negros", iniciado em meados do seculo XV pelos portugueses primeiramente na Europa e, em seguida nas terras recem-descobertas do novo mundo, como escravos, ao mesmo tempo "abencoados" pela Igreja, gracas as interpretacoes e exegeses equivocadas dos teologos fundamentalistas do seculo XVI. A Igreja legitimava a colonizacao e a escravidao com suas praticas e pregacao da resignacao e subserviencia. Leigos e religiosos, teologos e hierarquia chegaram a justificar a escravidao e dela usufruiram. Alguns documentos pontificios da epoca, especialmente dos Papas Nicolau V (1452) e Leao X (1514), autorizavam a Coroa portuguesa e, depois, a espanhola, a conquistarem as terras dos sarracenos, pagaos e incredulos, escravizando seus habitantes. A falsa nocao de "guerra justa contra os inimigos de fe", trazia consigo a legitimacao da escravizacao dos vencidos.

Nao se pode negar que vozes profeticas dentro da Igreja Catolica Apostolica Romana tambem se levantaram contra a escravizacao de indigenas e negros. Frei Antonio de Montesinos, Bartolomeu e las Casas, o Bispo Antonio de Valdivieso, os Padres Manoel da Nobrega, Jose de Anchieta e Antonio Vieira estao entre eles. Um desses padres, referindo-se aos omissos em relacao ao problema, escreveu: "Os padres que vao ao Brasil nao vao a salvar as almas, mas condenar as suas." Vale ressaltar o ensinamento de Paulo III contra a escravidao dos indios; mas a escravizacao dos negros nem sempre foi rechacada com a mesma intensidade!

Os protestantes somente se firmaram no Brasil a partir da segunda metade do seculo XVI. Em sua maioria missionarios enviados a America Latina eram norte-americanos. Principalmente os procedentes do Sul dos Estados Unidos, chegaram ao Brasil defendendo a escravidao e utilizando negros para trabalhos domesticos em suas residencias. Vale lembrar que, de alguma forma, esses sempre foram a favor da escravidao negra, uma das bandeiras de lutas na Guerra Civil Americana, entre Estados do sul e Estados do norte dos Estados Unidos.

E importante considerar que entre os protestantes brasileiros, o Rev. Eduardo Carlos Pereira, pastor presbiteriano, notabilizou-se, entre outras, pelo seu veemente protesto contra o racismo e a escravidao. Em 1886 Pereira publicou um livreto sob o titulo "A Religiao Crista em suas relacoes com a escravidao", no qual faz criticas severas as interpretacoes fundamentalistas da Biblia sobre o racismo; chama a atencao dos presbiterianos em relacao a sua omissao frente ao problema; desafia o pulpito a deixar o silencio; pede aos fieis que restituam a liberdade aos escravos. Isto porque na epoca estava comprovado que metodistas, batistas e presbiterianos eram donos de escravos.

Como vimos, as ideias de Goubineau tambem tiveram muita influencia no Brasil. Entre 1869 e 1870 ele visitou o Imperador brasileiro, Dom Pedro II, oportunidade em que fez grande amizade e discutiu, inclusive, a questao da abolicao da escravatura e a politica de imigracao. Foi nessa epoca que previu para menos de duzentos anos o desaparecimento dos habitantes brasileiros, condenados pela crescente miscigenacao.

Tavares Bastos, um deputado alagoano, defendeu a necessidade de uma renovacao da populacao brasileira atraves do incentivo a imigracao branca. Entendia que acabar com a escravidao nao era uma questao de compaixao; era uma forma de afastar os prejuizos que o negro trazia ao Brasil. Sustentava que a ciencia ja havia confirmado que o negro era a raiz dos males da nacao e mau trabalhador. A vinda do branco, seria um passo para o progresso e simbolo de civilizacao. Ele e mais produtivo, afirmava o deputado!

Alem dos negros, os orientais (de raca amarela) tambem foram vitimas do racismo no Brasil. Em 1880 discutiu-se ardentemente sobre a permanencia de chineses no Brasil. Politicos paulistas questionavam a culinaria chinesa; alguns achavam que gatos, ratos, lagartas, larvas faziam parte de seus pratos tipicos. Os chineses eram chamados de "cara quadrada" e aos jovens brasileiros aconselhava-se evitar o casamento com essas pessoas orientais. Tambem os japoneses sofreram discriminacao, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial. Foram considerados, alem de raca impura, traidores, espioes, inimigos.

Principais caracteristicas do racismo no Brasil

Atualmente ha grande diversidade de racas no Brasil. Aparentemente e dito que ha uma convivencia pacifica entre as racas, chamando-se essa convivencia, inclusive, de democracia racial. Todavia, na pratica, e notoria a discriminacao, principalmente em relacao aos negros. A bem da verdade, as estatisticas demograficas ainda fornecem dados imprecisos sobre as diversas etnias no Brasil. Por conta das pressoes sociais muitas pessoas da raca negra, negam sua identidade e se definem como "pardos" e ate como "brancos". Isto relativiza os dados coletados pelos orgaos oficiais.

Embora os dados oficiais nem sempre reflitam a verdade dos fatos, podemos afirmar que a populacao afro-descendente na atualidade aprox-ima-se de 50%. Isto faz do Brasil o segundo maior pais do mundo com populacao negra, superado apenas pela Nigeria. De qualquer maneira, sao pessoas que vivem em situacao de inferioridade em relacao a outras racas.

O negro no Brasil de hoje vive situacoes preocupantes. Do ponto de vista socioeconomico, e muito desigual o seu rendimento financeiro no mundo do trabalho. Ainda e mais frequente a presenca do negro em funcoes subalternas e mais desqualificadas, socialmente. Na construcao civil, por exemplo, os negros sao maioria enquanto os brancos, geralmente atuam como mestres de obras.

Quanto a situacao de escolaridade e de cultura, percebe-se que o grau de escolarizacao dos brasileiros reforca a situacao de desigualdade em que se encontra a populacao negra do Brasil. O indice de analfabetismo da populacao negra economicamente ativa e muito alto em relacao a situacao da populacao branca. A media de anos de estudos dos brancos e bem superior em relacao aos anos de estudo dos negros. Para exemplificar, registramos que atualmente (2016) os negros sao menos de 1% nos cursos considerados de ponta da Universidade de Sao Paulo (USP). Em aproximadamente 5 anos, os cursos de Medicina, Direito e Engenharia da USP matricularam apenas 77 alunos negros. Estes dados referem-se a 0,9% das matriculas realizadas entre 2005 e 2011, segundo fonte da Universidade de Sao Paulo.

Para piorar a situacao de menosprezo e desigualdade em relacao a raca negra, muitos livros didaticos reforcam a posicao de inferioridade do negro. Nos livros de Historia do Brasil, quase sempre escritos na perspectiva do branco, o negro aparece quase exclusivamente associado a escravidao. A ideia que fica na mente de quem estuda essa historia, e a de que negro e igual a escravo, consequentemente, negro e considerado inferior. Nos relatos historicos, na galeria de seus herois, o negro quase nunca e lembrado. A citacao de Zumbi dos Palmares como lider de um movimento de resistencia contra a exploracao dos brancos, por exemplo, quase nunca e feita!

Vale ressaltar que os destaques culturais em relacao a raca negra, quando aparecem, estao quase sempre ligados a aspectos tidos como perifericos ou folcloricos, como ocorre com manifestacoes musicais, habitos alimentares, contribuicoes linguisticas. Reconhecamos que em muitas situacoes, tendo como padrao a cultura do branco, os tracos negros sao considerados como subcultura e expressao do exotico.

A discriminacao inclui os padroes de beleza, cultura e civilidade em relacao aos padroes do branco. Nem mesmo a cultura do indigena e levada em consideracao. De igual modo, em relacao ao negro, a cultura indigena tambem e considerada exotica, propria de quem e incivilizado. E evidente a maneira como os meios de comunicacao social, formadores de opiniao, confirmam o que afirmamos. As novelas, reportagens e filmes mostram quase sempre os negros em funcoes subalternas, como empregados domesticos, em papeis secundarios, ou praticando atos que ferem a etica social.

Nao ha como esconder a situacao da mulher negra, provavelmente uma das maiores vitimas de toda essa historia de discriminacao. Exerceu diversos papeis sempre na condicao de subalterna. Foi escrava, objeto de prazer dos senhores nos engenhos, reprodutora, para aumentar o capital humano dos escravagistas, explorada nas atividades domesticas, nos servicos do campo.

Na condicao de reprodutora, a mulher foi aviltada em sua dignidade e estimulada a produzir mais de 10 filhos a fim de que obtivesse sua liberdade. Apesar desse aviltamento a sua honra e o desrespeito, resistia heroicamente e se negava a conseguir sua liberdade dessa forma. E o que diz Roger Bastide, em "As Religioes Africanas no Brasil": "o branco estimulava a procriacao de seus escravos: a mulher que tinha posto no mundo 10 criancas era libertada; posteriormente o numero foi diminuido para 7". (2) Apesar da vantagem, as mulheres quase sempre negavam-se a produzir filhos-escravos para a sociedade em troca dessa liberdade. Muitos abortos voluntarios foram praticados como forma de resistencia. Em muitos casos essas mulheres, sem qualquer assistencia medica, durante a pratica desse aborto, tambem eram vitimadas com a morte. Por isso o indice de natalidade entre as mulheres negras era baixo. O resultado desse tipo de tratamento, em nossos dias, ainda e ver as mulheres negras formarem o maior contingente da populacao que vive em favelas ou "comunidades", alem de serem mal remuneradas como domesticas, operarias ou camponesas. Continuam sendo tres vezes vitimas da discriminacao: como mulheres, como pobres e como negras.

De acordo com a Agencia Brasil, com dados publicados em 25/06/2012, negras e pobres sao mais vulneraveis ao aborto com risco. Segundo pesquisas feitas em 2010, 22% das brasileiras de 35 a 39 anos, residentes em areas urbanas, ja fizeram aborto. "As caracteristicas mais comuns das mulheres que fazem o primeiro aborto e a idade ate 19 anos, a cor negra e com filhos", diz em artigo cientifico a antropologa Debora Diniz, da Universidade Nacional de Brasilia e do Instituto de Bioetica, Direitos Humanos e Genero (ANIS), e, de igual modo o sociologo Marcelo Medeiros, tambem da Universidade Nacional de Brasilia e do Instituto de Pesquisa Economica Aplicada (IPEA).

A discriminacao tambem ocorre com as criancas negras quando, em situacao de risco, sao abrigadas em casas-lares, na expectativa de alguma adocao. A espera de alguma familia caridosa, muitas dessas criancas sempre acreditam que alguem chegue, credenciado pela Justica, para leva-las. Mas adocoes de criancas negras sao mais raras! Quando nao sao adotadas, muitas ficam nos abrigos ate os 17 anos e 11 meses e, dependendo da situacao, sao obrigadas a deixar esse ambiente, ficando assim, sujeitas a indigencia, a delinquencia, a prostituicao, ao desequilibrio psiquico e social, a uma vida sem futuro!

Influencias do racismo na cultura do povo

Todo esse passado de violencias contra a raca negra, deixou na sociedade brasileira herancas historicas que ainda permanecem. Em relacao ao trabalho, os negros continuam em segundo plano. Por causa de sua baixa escolaridade, nao tem tido grandes chances. Como vimos, poucos tem acesso a universidade ou concluem um curso superior. A maioria dedicase a trabalhos manuais grosseiros, e, geralmente, sao vitimas das injusticas do salario. O preconceito racial, sob novas formas, e zelosamente guardado, esta presente na linguagem (muitos ainda se referem ao negro dizendo "um homem de cor"), nos livros didaticos, na educacao, nas manifestacoes religiosas dos cristaos, nas musicas populares, na cultura brasileira em geral.

Na religiao protestante, por exemplo, a mensagem dos pulpitos continua trazendo em sua retorica expressoes como "o negro e rude pecado"; nos canticos aparecem frases como "negros batalhoes", "meu coracao era preto; mas Cristo aqui ja entrou; com seu precioso sangue; tao alvo assim o tornou." A Alianca pro Evangelizacao de Criancas (APEC), por exemplo, adota em seu trabalho didatico, o chamado "Livro sem Palavras". (3) Entre as cores referidas nesse material, esta o uso do preto, que pode induzir a crianca a rejeitar-se, quando negra. O preto aparece aqui como simbolo do pecado. Considerando as criticas em relacao a essa posicao, a APEC substituiu a palavra "preto" por "sujo". Faz-nos pensar que preto equivale a sujo, sujeira! Em livros de etica crista e teologia a frase "homens de cor" continua aparecendo, ate mesmo em textos escritos contra o racismo. (4) Certamente ha autores e tradutores que acreditam que existem homens sem cor, os brancos!

Outros termos como "mulato", "negro", "preto" e "negritude" tem gerado sentimentos e complexos de inferioridade, dando ao individuo a sensacao de nao-ser e de nao ser igual ao outro. Como se percebe, uma mudanca significativa na linguagem e na literatura permitiria, cremos, alteracoes no sentido da palavra "negro" a fim de se conseguir um sentido positivo e digno desse termo "negro".

O preconceito racial tem sido uma pratica permanente que cria obstaculos a participacao social de um determinado grupo etnico e ao exercicio de seus direitos como cidadao. Ele aliena o negro e, de maneira mascarada, as vezes o faz acreditar na tao falada "democracia racial". Esta, tem a finalidade de esconder as desigualdades que existem entre negros e brancos. Os que defendem a "democracia racial" fazem uma leitura a-historica do periodo escravista e acreditam na chamada "cordialidade nata" dos brasileiros, na ideia de que as oportunidades sao iguais para todos, negros e brancos e que, portanto, nao existe distincao de raca, cor, sexo, religiao. Uma visao parcial, ingenua de tao complexo problema!

Movimentos de resistencia contra o racismo

Apesar de tudo isso, grandes esforcos tem sido feitos pelos negros e simpatizantes, para que haja mudanca na situacao racial no Brasil. A luta pela consciencia negra diante dessa realidade, aos poucos vai conseguindo impor-se sobre a sociedade. Ainda que nao seja como deveria, busca-se o reconhecimento do registro em relacao as representacoes ideologicas que continuam mascarando a discriminacao da raca negra. Faz parte da luta dos negros por sua dignidade e direitos na sociedade. Trata-se de uma luta necessaria para a conscientizacao da sociedade. Reconhece-se como fundamental que os negros tenham consciencia do que representam na sociedade e que se garanta a todos o acesso a informacao especifica e a criacao de "uma massa critica" para que a luta seja viabilizada.

Varias formas de articulacao da "consciencia negra" tem surgido nas comunidades afro-americanas. (5) Vale destacar o movimento "Frente Negra Brasileira" (FNB), que surgiu em 1931, com os objetivos de denunciar o racismo, lutar pela igualdade de direitos principalmente no mercado de trabalho, pelo direito a educacao e pelo direito da terra e a moradia. Outra frente de luta, que surgiu na decada de 50, e o Movimento Vento Forte Africano, sob a lideranca de Solano Trindade, que defende a ideia de se juntar a discussao racial com a luta de classes. Acrescente-se aqui a participacao de Abdias do Nascimento, com uma visao mais negro-africana, trabalhando a ideia do quilombismo, que era um espaco negro de reinvencao da propria cultura negra e um dialogo de negociacao e confronto com a sociedade.

Especificamente no Brasil, convem lembrar tres experiencias importantes ligadas ao Movimento Negro. O Prof. Marcos Rodrigues da Silva, em estudo sobre "Comunidades Afro-Americanas", cita o "Movimento Negro Unificado (M. N. U), que surgiu no final dos anos 70, que enfrentou perseguicoes policiais a jovens negros, muitas vezes responsabilizados por assaltos a bancos, roubos e praticas marginais, sem a devida apuracao. Foi esse Movimento que conseguiu que o dia 20 de novembro fosse considerado o "Dia da Consciencia Negra" e de luta contra a discriminacao racial, em homenagem a Zumbi, do Quilombo de Palmares. O Prof. Marcos cita tambem o "Grupo de Uniao e Consciencia Negra", organizado em 1981, sob a lideranca de leigos, religiosas e padres da Igreja Catolica Apostolica Romana, ligados ao trabalho missionario da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil. Finalmente o Prof. Marcos faz mencao ao trabalho dos "Agentes de Pastoral Negros", na decada de 80, tendo como caracteristica a abertura ecumenica para acolher, valorizar e entender melhor as religioes e cultos afro-brasileiros.

O Prof. Antonio Olimpio de Sant'Ana, um dos articuladores do movimento de combate ao racismo na Igreja Metodista do Brasil e um dos organizadores da Comissao Ecumenica Nacional de Combate ao Racismo (CENACORA), em seu verbete sobre "Racismo" no Dicionario Brasileiro de Teologia, acredita que "um ecumenismo forte, objetivo, inclusivo, incentivador da verdade, da reconciliacao, da justica, que resulte numa espiritualidade que fortaleca o amor ao proximo" (6) pode ser uma das saidas para se combater o racismo. A proposito, vale tambem ressaltar o trabalho da CENACORA--Comissao Ecumenica Nacional de Combate ao Racismo, organizada em 1987, por representantes de Igrejas Evangelicas, da Igreja Catolica Apostolica Romana e da Igreja Catolica Ortodoxa Siriana, tendo como objetivos discutir, biblica e teologicamente o racismo; refletir sobre a espiritualidade negra e indigena; promover e incentivar atividades que capacitem pessoas a combater e eliminar o racismo; desafiar as igrejas a examinarem a existencia do racismo em suas comunidades.

Outras organizacoes da sociedade civil surgiram para fortalecer os movimentos ja existentes, com acoes de certa relevancia na sociedade brasileira. Mencionamos a Comissao Nacional Contra a Discriminacao Racial (CNDR), da Central Unica dos Trabalhadores, no Brasil; o Instituto Sindical Interamericano Pela Igualdade Racial (INSPIR), organizado em 1995. A finalidade desse Instituto e formar e capacitar dirigentes sindicais na tematica da discriminacao racial e prepara-los para negociar clausulas referentes a promocao da igualdade racial e incentivar a organizacao dos trabalhadores negros. Estao envolvidas nessa luta as tres organizacoes de trabalhadores brasileiros (CUT, CGT e Forca Sindical).

Fraqmentos para uma Teologia Negra no Brasil

A certeza de que Deus ouve o clamor dos oprimidos

Na historia do povo de Israel, Deus e Aquele que ve e ouve o clamor do Seu povo. Faz-nos lembrar, nessa historia, o sofrimento dos israelitas sob a opressao dos egipcios; estes tratavam o povo de Deus como escravos. Falando com Moises no deserto, assim disse Deus: "Eu vi a miseria do meu povo no Egito. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores. Eu conheco suas angustias. Por isso, desci, a fim de libertar meu povo das maos dos egipcios..." (Exodo 3.7-8). Percebe-se aqui a insatisfacao de Deus diante da opressao e angustia em que se encontrava o povo de Israel. Deus promete libertacao para aquele povo e deseja contar com a colaboracao humana na luta pela libertacao. Fica explicita a condenacao de Deus a qualquer tipo de exploracao!

Acredita-se que Deus continua querendo intervir em toda a realidade social onde haja opressao, discriminacao, miseria e ameacas de morte. Porque Deus, tanto na historia da libertacao de Israel como no ministerio de Jesus, sempre aparece ao lado, na defesa dos pobres, marginalizados, discriminados, dos oprimidos!

No ministerio de Jesus, Ele e visivelmente solidario com as vitimas da discriminacao como ocorria com a situacao da mulher na sociedade de Seu tempo; tambem agiu contra os que discriminavam os pobres, os orfaos e as viuvas, os estrangeiros e outros marginalizados naquela epoca como ocorria com os doentes, com os escravos, com os de outras racas.

Vale lembrar na historia da libertacao, o evento de Pentecostes (Atos 2. 1-12) na vida da Igreja. Ali temos exemplos de como deve ser o novo mundo. O Espirito Santo desce sobre a Igreja reunida em Jerusalem e derruba as barreiras culturais de lingua e de raca, e todos, ao mesmo tempo, sao capazes de entender e aceitar a mensagem do Reino de Deus! Ali ocorre o grande sinal da possibilidade de vida, da unidade na diversidade, contra a negacao total de qualquer tipo de discriminacao, seja de povos, racas ou nacoes.

O testemunho dos cristaos do I seculo tambem e exemplo para a nossa pratica contra a discriminacao. Um dos exemplos mais marcantes talvez seja o do conflito entre judaizantes e universalistas, quando se deu a conversao do centuriao romano, Cornelio. Cornelio e gentio, mas sobre ele desce o Espirito Santo; Pedro e convencido por Deus que nao se deve fazer acepcao de pessoas, discriminando-as (Atos 10. 17-18); a acao do Espirito Santo foi decisiva naquele momento da historia da Igreja para que as portas se abrissem para os nao-judeus na experiencia do batismo. Nas Cartas paulinas aos Romanos e aos Galatas fica clara a recriminacao a qualquer tipo de discriminacao, fosse cultural, religiosa, de genero, de classe social ou mesmo a escravidao.

Escrevendo aos Galatas o Apostolo Paulo diz: "... Vos todos sois filhos de Deus pela fe em Cristo Jesus, pois todos vos fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Nao ha judeu, nem grego, nem escravo nem livre, nao ha homem nem mulher; pois todos vos sois um so em Cristo Jesus" (Galatas 3. 26-28). Em outras Cartas, aos Corintios e aos Colossenses, alem da Carta aos Romanos e Galatas, Paulo e incisivo, repetitivo ate, sobre este ensinamento.

A pergunta e a resposta a esta questao: ate que ponto a Igreja de Cristo tem ouvido o clamor dos oprimidos?

Temos que reconhecer que, apesar das evidencias das Escrituras Sagradas sobre a discriminacao, tem sido dificil a superacao do problema. Em determinados momentos da historia da Igreja, ela mesma tornou-se agente de discriminacao e de projetos missionarios de carater opressor. E o que se percebe quando se faz a leitura da historia da Igreja na Idade Media e, nos tempos Modernos, quando os judeus foram discriminados. Tambem missionarios que acompanharam as expedicoes colonizadoras de portugueses e espanhois tiveram dificuldades na aceitacao sem discriminacao em relacao aos povos a serem evangelizados. Muitos lideres cristaos foram defensores da escravidao dos negros trazidos da Africa.

Em "O Racismo na Historia do Brasil", a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de Sao Paulo (USP), Brasil, diz, referindo-se a situacao do Brasil durante o periodo colonial:
As ideias segregacionistas foram veiculadas atraves de sermoes, contos,
cancoes, cronicas, poemas, anedotas, textos teatrais e pintura. Em
todas essas formas de expressao a figura do negro emerge como a de um
ser inferior, animalizado, servical; e o judeu surge como inimigo da
humanidade, identificado com a encarnacao do demonio, com o
'Anticristo'. (7)


Nao se pode negar, em tudo isso, a existencia da forca da mentalidade discriminatoria, de carater ideologico, nem a cumplicidade da Igreja (tanto no catolicismo como no protestantismo).

A luta para que os equivocos teologicos sejam condenados

Do ponto de vista biblico e teologico, nao ha fundamento para a afirmacao de que a raca negra, por exemplo, resulta da "maldicao" que Noe lancou sobre Canaa, ao se refazer da embriaguez com vinho e diante da ironia expressa de seu filho quando o viu sem roupas: "Maldito seja Canaa; seja servo dos servos a seus irmaos" (Genesis 9.25). Nao ha fundamentacao biblica, para que teologos racistas acreditem que todos os negros nao so descendem de Cam como estao condenados a servidao e a escravidao permanentes. O sacerdote espanhol Juan Bautista Casas alegava em 1869 que a raca negra sofre da maldicao, conforme o Pentateuco e que essa inferioridade se perpetuava atraves dos seculos. Mas e oportuno o comentario de Gardner em "Fe Biblica e Etica Social", a respeito dessa interpretacao erronea, quando disse:
Leitura cuidadosa desta passagem, em seu contexto proprio, mostra que
foi Noe e nao Deus que lancou tal maldicao sobre o filho, Cam, e que
Noe estava em pessimas condicoes para ser o porta-voz do Senhor
naquelas circunstancias (E. C. GARDNER, 1965, p. 406).


Se a maldicao fosse estabelecida por Deus, seria complicado acreditar em Sua vontade redentora em relacao a vida humana e nas possibilidades divinas para mudar e transformar as relacoes intra-grupos. Deus seria incoerente e contraditorio em relacao a Sua natureza redentora.

Os movimentos religiosos de resistencia contra o racismo, no Brasil, entendem que e necessario denunciar profeticamente a falacia do chamado "racismo cientifico"

Esta denuncia se faz necessaria porque muita gente ainda acredita que tudo que e aparentemente cientifico e digno de crenca. Ainda e sustentada por muita gente as teses dos primeiros cientistas sociais. Estes foram conclusivos na defesa de que o homem original era branco; em contato com o tropico, porem, sofreu um processo de degeneracao, tornando-o negro. Varios pensadores defenderam este tipo de pensamento falacioso: Voltaire, Linneo, Kamper, Buffon, tendo em vista demonstrar a hierarquizacao das racas. Tudo isso, embora sem fundamentos sustentaveis, visava a sacralizacao da dominacao colonial.

Ate o final do seculo passado (1995), varias publicacoes circularam apontando para a intolerancia multicultural. Em "A Nacao Estrangeira" ("Alien Nation"), Peter Brimelow defende rigido controle da imigracao para os Estados Unidos na defesa da hegemonia dos brancos naquele pais. Dois outros autores, Richard Hernstein e Charles Morray, publicaram um ano antes, em "A Curva do Sino", a afirmacao de que em virtude de fatores geneticos, o QJ de negros e inferior ao de brancos e asiaticos.

Ate o seculo XIX prevaleceram os pretextos teologicos para a justificacao do racismo. A ciencia avancou suficientemente para desqualificar os argumentos dos que acham que ha superioridade entre as racas ou os que lancaram mao da teoria da evolucao de Darwin, deturpando-a, para justificar o racismo. Mas, como diz Maria Luiza Tucci Carneiro (USP, 1994):
Apesar de nao condizerem com a realidade comprovada cientificamente, as
teorias racistas serviram para justificar a irritacao da sociedade
contra os grupos "indesejaveis", encobrindo interesses economicos,
politicos e sociais. Podemos afirmar entao que o preconceito baseia-se
em falsas ideias, levando a configuracao de perigos imaginarios.


E preciso desmascarar a ideologia do racismo

Sua origem esta no passado, quando se pretendia justificar a desigualdade em relacao ao desenvolvimento dos povos. Essa ideologia serviu aos ideais do colonialismo, para tornar legitima a escravidao e a opressao dos povos negros, do aborigene australiano e do indigena americano. Serviu, de igual modo, para negar o acesso igualitario desses povos aos bens culturais (materiais e espirituais) de todos os grupos etnicos e nacoes.

Tem sido considerada como inequivoca a ideia de que a Igreja precisa reconhecer e confessar que colaborou com o desenvolvimento do racismo na historia da humanidade. Catolicos e protestantes sao cumplices nessa historia. Nao basta a Igreja reconhecer que em muitas situacoes foi omissa e, em determinados momentos, seus membros defenderam a servidao. O Cardeal Gonzalvi, representante papal (1815), por exemplo, negou-se a censurar o trafico de escravos a fim de nao ofender os "Estados Catolicos" onde tal comercio era permitido. O Papa Leao XIII, em pastoral enviada aos bispos brasileiros, em 1888, quando se deu a abolicao dos escravos no Brasil, declarou que a escravidao nao e essencialmente ma e que pode, inclusive, ser construtiva, desde que o senhor seja "bom".

Muitos protestantes, a exemplo dos catolicos, tambem estiveram a favor da escravidao. Moravos, metodistas, anglicanos, batistas, presbiterianos, quakers da Europa, eram donos de escravos.

Mais do que confessar, os cristaos precisam pedir perdao aos povos negros e indigenas por nao terem lutado contra a discriminacao das racas e por sua libertacao dos poderes opressores em toda a historia humana!

A Igreja tem sido encorajada a aceitar o desafio da inculturacao a partir das comunidades negras

Tomamos como base o texto do Padre Antonio Aparecido da Silva (Padre Toninho) (8) , publicado em "Comunidade Negra: Desafios atuais e perspectivas" (Atabaque--ASSET, Sao Paulo, 1995). Neste texto o Padre Toninho faz mencao a "indisposicao cultural na comunidade europeia" em relacao aos imigrantes negros desde o seculo XIII. Destaca que para a Europa, embora considerada moderna, o mundo nao europeu foi classificado de "selvagem" e pre-historico.

Diante desse quadro, por ocasiao das reflexoes sobre os 500 anos de conquistas da America (1992), a questao cultural tomou vulto, com destaque para o estudo sobre o encontro entre as culturas europeias, indigenas e negras e os problemas dele decorrentes. Reconhece-se que a cultura negra, em particular, e emergente na America Latina e que, apesar da predominancia de um padrao cultural ocidental estabelecido a partir da colonizacao, nao ha apenas um so povo e uma so cultura. Ha uma pluralidade cultural que se tornou evidente, principalmente a partir das culturas de negros e indigenas.

Considerando essa realidade cultural na America Latina, a Igreja, em particular, esta desafiada a desenvolver uma pastoral inculturada, principalmente a partir da comunidade negra. E justifica o Padre Toninho:
Para que a Igreja chegue a ser uma reuniao de povos, diferentes, mas
unidos e harmonicos, e preciso assumir e intensificar um dialogo
profundo, sincero e respeitoso entre Evangelho e Culturas, visando
preservar a legitima identidade dos diversos povos.


Este tem sido um dos grandes desafios com serios problemas a serem superados na caminhada em direcao a cultura negra, nem sempre reconhecida em seus varios aspectos como legitima para ser assimilada pela Igreja, principalmente entre as igrejas protestantes no Brasil.

O Pe. Toninho ve a inculturacao como um processo dialetico, onde a proposta evangelica "...vivida e assumida atraves, inclusive, de formas culturais nao incompativeis com o Evangelho, e devolvida, expressa ou re-expressa segundo o modus-vivendi (cultura) daquele determinado povo". Conclusivamente, o Pe. Toninho diz que o povo negro na diaspora assimilou a partir daquilo que ja sabia antes; e integrou a proposta evangelica na sua propria trajetoria". Desta forma, o processo de inculturacao havido na comunidade negra mostrou que a evangelizacao nao e a simples comunicacao e recepcao do legado historico do cristianismo, mas "O receptor do Evangelho somente pode recebe-lo recriando dentro de si proprio, por si proprio".

Em sintese, a Igreja tem sido questionada a aceitar o permanente desafio de caminhar na direcao dos negros e sua cultura, para que eles conhecam a acao salvifica e de libertacao de Deus, com um novo olhar sobre si e sobre o mundo.

Reconhece-se na atualidade que a Igreja tem tarefas a cumprir nas relacoes raciais

A Igreja tem "a responsabilidade de tornar clara a relevancia da fe crista para as questoes de interesse social, em geral, e para as relacoes intra-gru-pos", diz Gardner. A Igreja e testemunha e, como tal, deve ser fiel na proclamacao e interpretacao de sua fe ao mundo. Ela nao pode furtar-se a acoes concretas que envolvam aspectos da vida economica, politica, moral e religiosa na sociedade. Mais do que retorica, a Igreja precisa ser pratica, assumir posicoes, denunciar o mal que comprometa o bem-estar e a dignidade de irmaos na sociedade.

A missao da Igreja perante o mundo precisa ser clara, objetiva, transparente. Seu discurso deve ser profetico e estar presente na vida dos oprimidos como "sal da terra" e "luz do mundo". As pessoas vitimas da discriminacao precisam ver e sentir isso! E tarefa da Igreja manifestar em sua propria vida a unidade e a fraternidade que proclama.

Como parte de sua responsabilidade, a Igreja precisa trabalhar para a implantacao da justica de maneira integral na realidade social. Movida pelo amor, deve buscar a mudanca, a renovacao ou mesmo a reconstrucao das estruturas institucionais atraves das quais as necessidades humanas poderao ou deverao ser atendidas. Sao muitos os problemas que emergem da discriminacao racial. Qualquer que seja, porem, o carater desses problemas, a Igreja nao pode deixar de lado a obrigatoriedade de acoes concretas que combatam a discriminacao. Vale o exemplo dos missionarios e Igrejas negras da Jamaica, em 1783, definidas como centros de subversao pelas autoridades colonialistas da epoca. Igrejas foram queimadas e missionarios foram presos e condenados a morte, mas o movimento emancipador nao morreu.

Por uma Teologia Negra no Brasil, faz-se necessario fortalecer o esforco ecumenico

O problema da discriminacao racial esteve na pauta da Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), desde sua reuniao em Amsterdam. Varios documentos chamaram a atencao, na epoca, para o fato de que era preciso a erradicacao da discriminacao e do odio raciais. O apelo era para que as Igrejas eliminassem de suas praticas qualquer forma de racismo. Em 1961, tres Igrejas da Africa do Sul retiraram-se do CMI, por discordarem dessa posicao antirracista. Em 1969, O CMI recomendou o boicote as companhias com investimentos na Africa do Sul e em seguida criou o Programa de Combate ao Racismo.

Ja em Amsterdam ficou claro que a segregacao racial na Igreja e "escandalo" no Corpo de Cristo. A Igreja que quer ser "Igreja de Jesus" no mundo, nao pode ser segregacionista como varios grupos cristaos continuaram sendo ao longo da historia.

Em 1957 os bispos catolicos da Africa do Sul reconheceram que havia racismo no seio da Igreja; em 1967, o Papa Paulo VI pronunciou-se atraves da enciclica Populorum Progressio com censura ao racismo, referindo-se as praticas do passado, do presente e do futuro.

Apesar desses esforcos e muitos outros, reconhece-se que o racismo nao deve ser considerado apenas o problema de poucos religiosos, lutando isolados contra tal evidencia. Como escreveu o Rev. Antonio Olimpio de Sant' Ana, "A luta contra o racismo depende... de um ecumenismo forte... que incentive as igrejas a se sentirem parte do sofrimento, da angustia e da miseria dos despossuidos..." (9) Lamentamos, porem, que o ecumenismo em nossos dias nao esteja tao forte e atuante para determinar a mudanca de mentalidade e de rumo na historia da humanidade, com a participacao efetiva das Igrejas Cristas pelos ideais do reino de Deus.

Que a Teologia Negra no Brasil tenha carater libertador

Para uma Teologia Negra no Brasil, de carater libertador, faz-se necessario, a principio, uma releitura das Sagradas Escrituras, a partir da realidade dos negros no processo historico, tendo em vista os textos biblicos que sao os fundamentos da fe crista, numa dimensao relevante na dimensao da libertacao. Com um novo olhar, perceber que os negros, quando oprimidos pelos poderes rebeldes deste mundo, personificados nos dominadores que a si mesmos se bastam, tem sido vitimas de sistemas capitalistas abusivos. Desta forma, os textos escrituristicos revelarao que os negros historicamente oprimidos devem ser considerados como sujeitos e nao objetos no ideal de libertacao do Reino de Deus. E preciso reconhecer, nessa nova atitude, que ate aqui a leitura das Escrituras Sagradas tem sido de tipo sacerdotal, a partir de interesses dos poderosos deste mundo ou simplesmente daqueles que participam dos bens da civilizacao capitalista (muitos deles tambem representados nas estruturas eclesiasticas do nosso tempo). Vale considerar que a releitura das Escrituras a partir dos negros oprimidos, de carater profetico, sera, ao mesmo tempo de carater libertador.

Com a releitura das Escrituras Sagradas sob a otica do negro oprimido, impoe-se a releitura dos conteudos da Teologia, em busca de sua libertacao. Essa releitura deve ser de carater profetico, o que sera determinante para que esses conteudos se tornem tambem impactantes, pois devera levar em consideracao a analise da realidade do negro e seus anseios de libertacao.

A Teologia Negra na sociedade brasileira deve levar em consideracao a realidade do negro nessa sociedade, que contemple os conteudos da Teologia naquilo que eles tem de libertacao. E fundamental, portanto, que se leve em conta a dimensao social e ate mesmo utopica, que contemple no contexto socio-politico, aspectos que sejam relevantes para o processo de libertacao. Sob esse vies libertador deve-se reler valores da fe crista que dizem respeito a vida do ser humano oprimido como o misterio de Deus, de Cristo, da Igreja, da graca, do pecado, os sacramentos, a escatologia, a antropologia e a nocao de Reino de Deus num mundo de poderes rebeldes e ameacas de morte. Essa releitura nos aproximara do carater libertador do Evangelho de Cristo, tao presente em Seu ministerio ao proclamar e realizar a libertacao de todo tipo de marginalizados (mulheres, enfermos, estrangeiros, endemoninhados, escravos, samaritanos), de qualquer raca, classe social, origem religiosa, cultura.

Reproduzindo consideracoes dos irmaos Boff (Leonardo e Clodovis Boff) (10) , parece-nos pertinente observar a necessidade de uma releitura da historia a partir da otica dos marginalizados, incluindo-se entre eles os negros. O objetivo e a descoberta de novas fontes, novas interpretacoes e perspectivas, a fim de conferir consciencia historica a esse povo para fortalecer a luta de libertacao em todas as dimensoes.

Haveria como construir uma teologia negra sem levar em consideracao uma releitura das Escrituras Sagradas, uma releitura dos conteudos da teologia crista e uma releitura da realidade historica na luta pela libertacao de uma raca oprimida?

Notas

(1.) Gardenr, E. C. Fe Biblica e Etica Social, Sao Paulo: ASTE, 1965, p. 4001.

(2.) Bastide, Roger, "As Religioes Africanas no Brasil," Volume I, p. 98.

(3.) dos Santos, Leontino Farias, "Educacao: Libertacao ou Submissao", p.118.

(4.) Gardner, Veja-se em E. C, "Fe Biblica e Etica Social", Sao Paulo, ASTE, 1965, p. 402. Tambem no texto "Albert Schweitzer por ele mesmo", publicado pela Martin Claret Ltda., Sao Paulo, 1995, p. 29, entre outros.

(5.) dos Santos, Leontino Farias, In "Dicionario Brasileiro de Teologia," ASTE, 2008, p.182.

(6.) de Sant'Ana, Antonio Olimpio, "Racismo" in Dicionario Brasileiro de Teologia, Sao Paulo: ASTE, 2008, p. 845.

(7.) Carneiro, Maria Luiza Tucci, "O Racismo na Historia do Brasil", Sao Paulo: Atica, 1994, p.11.

(8.) da Silva, O Padre Antonio Aparecido, tambem conhecido como Padre Toninho, e Mestre em Teologia Moral pela Pontificia Universidade Alfonsiana de Roma; Mestre em Filosofia-PUC/SP; Socio Fundador da Sociedade Brasileira de Teologia (SOTER) e do Grupo ATABAQUE.

(9.) de Sant'Ana, Antonio Olimpio, Dicionario Brasileiro de Teologia, 2008, p. 845

(10.) Boff, Leonardo e Clodovis, Da Libertacao--o teologico das libertacoes socio-historicas. Petropolis: Vozes, 1980.
COPYRIGHT 2017 Association for Religion and Intellectual Life
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2017 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:dos Santos, Leontino Faria
Publication:Cross Currents
Date:Mar 1, 2017
Words:7122
Previous Article:UMA HISTORIA AFRO-AMERICANA: Caminhos Para Uma Reflexao Teologica e Epistemologica Afro.
Next Article:A TEOLOGIA NEGRA NO BRASIL E DECOLONIAL E MARGINAL.
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters