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POR UMA RESSICNIFICACAO DA POESIA E DO LUCAR DO POETA: IN SEARCH OF A RESSICNIFICATION OF POETRY AND THE PLACE OF THE POET.

TENNINA, L. Cuidado com os poetas! Literatura e periferia na cidade de Sao Paulo. Traducao de Ary Pimentel. Porto Alegre: Zouk, 2018, 315 p. [!Cuidado con los poetas! Literatura y periferia en la ciudad de Sao Paulo. Rosario: Beatriz Viterbo, 2017, 363 p.]

Certa vez um rapper de Sao Paulo reescreveu um classico da MPB, deslocando o lugar de enunciacao do discurso para as periferias de Sao Paulo. E, entao, a letra de "Calice" ganhou uns versos assim:
Os saraus tiveram que invadir os botecos
Pois biblioteca nao era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silencio,
E uma gente que se acha assim muito sabida


Na letra do rap "Subirusdoistiozin" (segunda faixa do CD No na orelha), Criolo, o mesmo autor que antropofagizou e atualizou a poesia de protesto do cantautor Chico Buarque, voltaria a falar de uma cena cultural que, quase imperceptivelmente para os diferentes ambitos do mundo letrado, comecava a tomar conta de certos territorios da cidade:
As crianca daqui 'tao de HK
Leva no sarau, salva essa alma ai


Poucos, muito poucos, na verdade, umas poucas pesquisadoras atentaram para essa producao "fora do retrato" que despontava nas margens do canone e nas margens da cidade. A um pequeno grupo no qual se destacam Erica Pecanha, Regina Dalcastagne, Ingrid Hopke e Rafaella Fernandez--as quais por diferentes motivos haviam se aproximado da cena que gestava uma nova literatura nas periferias de Sao Paulo nos primeiros anos do seculo XXI--, veio a se somar o nome da argentina Lucia Tennina. Em Cuidado com os poetas! Literatura e periferia na cidade de Sao Paulo, a professora de Literatura Brasileira na Universidade de Buenos Aires traz para o leitor a possibilidade de um mergulho profundo na producao literaria brasileira do presente e o faz com um olhar no qual se reunem o perto e o longe, no intenso processo de construcao de uma terceira dimensao que poderiamos chamar de "entre-lugar" da critica. E dizer isso nao e dizer pouco, se lembramos de Pierre Bourdieu que, em Homo academicus, ja assinalava que os dois grandes problemas do discurso cientifico sao o excesso de distancia e o excesso de proximidade. Conforme Bourdieu, existe um certo repertorio que nao se pode acessar (ou saber) a menos que o sujeito consiga fazer parte do universo abordado. Mas e justamente a condicao de "fazer parte de..." que implica uma inescapavel proximidade onde reside tudo aquilo que nao se pode ou nao se quer saber. E isso. A escrita exige proximidade. Mas tambem distancia. De fato, um lugar que reuna as duas condicoes anteriores.

Resultado de uma longa experiencia de imersao na periferia e de profundas reflexoes teoricas que se desenvolveram ao longo de anos e de varias publicacoes sobre o tema, este livro de Lucia Tennina traz os rigorosos estudos comparatistas de quem comecou a estruturar seu discurso de dentro do proprio circuito de saraus que se organizam nos botecos das quebradas paulistanas depois de 2001.

Entremos aos poucos nesse mundo-tecido-tessitura tao rico, para desfrutar mais da caminhada. A melhor abordagem do objeto encontrada por Lucia Tennina e aquela construida a partir do dispositivo da distancia e da proximidade: o olhar estrangeiro, o olhar de quem se aproxima aos poucos, rondando poetas e poemas, para provar, a partir do contato cotidiano com o ambiente dos saraus, diferentes tentativas de intervencao no debate critico da literatura marginal da periferia. Inevitavel e lembrar de um poema que aparece em 21 gramas, terceiro livro de Marcio Vidal Marinho (2016), um dos frequentadores assiduos do Sarau da Cooperifa. O poema "Alvaro de Campos foi a Cooperifa" bem poderia vertebrar o primeiro capitulo de Cuidado com os poetas! Nesse momento do livro, a pesquisadora argentina aprecia o cenario e nos conduz pela cena poetica da periferia, destacando os aspectos que marcaram a formacao do circuito de saraus nas quebradas paulistanas. E o faz com os mesmos olhos dessa figuracao poetica de Alvaro de Campos, olhos (aparentemente) desarmados e (profundamente) apaixonados de quem vem de longe, de quem nao esta, mas que, ao mesmo tempo, e claro que esta em seu ambiente quando penetra nesse Sarau da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), um movimento cultural que em outubro de 2018 completou 17 anos de atividades poeticas no bar do Ze Batidao, situado no bairro de Piraporinha, Zona Sul de Sao Paulo:
Chegou cedo e viu o bar vazio [...]
Relutara em vir
Quando soube que era na periferia. [...]
19h30
Algumas pessoas comecam a chegar [... ]
O local e um bar tipico de favela
Pela fama achou que seria mais bonito,
Pinturas desgastadas, mesas grudadas.
As paredes que vao de encontro a rua
Nao existem, sao grades, como se fosse uma jaula.
Proximo ao balcao, uma estante de livros
Que se amontoam sem nenhuma ordem. [...]
Quando da por si, nao ha mais lugares vazios,
O bar esta inteiramente ocupado.
Pessoas de todos os tipos [...]
Uma pessoa vai ao microfone
Agradece a presenca de todos
E relata que todos sao bem vindos. [...]
Chama um grito de ordem
Todos o acompanham:
Povo lindo, povo inteligente, e tudo nosso,
Uh, Cooperifa! Uh, Cooperifa! Uh, Cooperifa
(MARINHO, 2016, p. 70-72)


No cenario dominante de uma literatura que tem cor, genero, CEP e um capital cultural longamente acumulado nos ambitos da cidade letrada, Lucia Tennina lanca seu olhar para sujeitos que, oriundos do mundo do trabalho e moradores da periferia, passam semanalmente por esse e por inumeros outros microfones dos novos saraus organizados nos bares das periferias: Akins Kinte, Alisson da Paz, Binho Padial, Dugueto Shabazz, Fernando Ferrari, Fuzzil, Luan Luando, Marco Pezao, Michel Yakini, Jairo Periafricania, Renan Inquerito, Rodrigo Ciriaco, Serginho Poeta, Sergio Vaz, Seu Lourival, Zinho Trindade e tantos outros. Trata-se de uma verdadeira tribo que, dispersa pela cidade, povoa o circuito literario marginal da periferia, trazendo novos posicionamentos de sujeitos atraves da literatura e propiciando um olhar rico sobre os deslocamentos e negociacoes desse objeto radicalmente plural estudado nos dois primeiros capitulos do livro: os saraus de poesia da periferia de Sao Paulo.

A critica acertou na descricao do fenomeno periferico, destacando uma producao que traduz a potencia dos novos atores do campo cultural, mas nao exime a cena de conflitos e contradicoes. Apesar da grande quantidade de trabalhos sobre a cultura das periferias, poucos foram os textos que apontaram os problemas derivados do machismo e da misoginia nesse cenario das quebradas, e menos ainda os que se interessaram em reconstruir a presenca e o lugar das mulheres nessa nova dimensao do campo literario. Diante disso, cabe enfatizar a importancia do terceiro capitulo do livro intitulado "As poetas da periferia: imaginarios, coletivos, producoes e encenacoes". Nessas paginas, Lucia Tennina focaliza o fenomeno da chegada das mulheres aos bares da periferia e, discutindo as estrategias e os modos de producao das "minas", proporciona uma nova compreensao do lugar diferenciado da mulher no processo de empoderamento dos sujeitos nesse grande quilombo cultural das quebradas paulistanas.

Podemos mesmo dizer que outro merito de Lucia Tennina e produzir um segundo deslocamento dentro de um tema que ja e inovador, trazendo para o centro dos estudos da literatura marginal da periferia a experiencia do subalterno dos subalternos. A proposta lanca luz sobre a situacao especifica das poetas num mundo literario que emergia nas periferias e ja prenunciava, nesse mal-estar identificado por Tennina, o surgimento de um novo circuito poetico que se distanciaria dos saraus de poesia, assumindo caracteristicas proprias e potencializando as performances e diccoes das poetas. O protagonismo feminino foi construido, portanto, em uma outra cena, diferente da anterior, porque, no espaco dos saraus, seu papel era o de "musas" e nao o de poetas, ficando o silenciamento oculto sob o disfarce da admiracao de sua beleza, o que era tambem uma forma de apagamento da diferenca.

Essa questao transcendia a cena na medida em que implicava valores e imaginarios ha muito reproduzidos pelos que tentaram, por seculos, disciplinar e se apropriar do corpo feminino. Nesse sentido, o livro amplia seu alcance descritivo-historico, o que torna mais complexa a mirada para o mundo dos saraus da periferia, tendo em vista que esse olhar permite repensar as lutas das mulheres em diferentes contextos sociais ou culturais nos quais elas foram o Outro do Outro, conforme assinala Lucia Tennina, antecipando-se a um dos subtitulos de O que e lugar de fala?, de Djamila Ribeiro. Nessa medida, a leitura nos envolve no debate sobre a historia da representacao e da autorrepresentacao das mulheres em geral e das mulheres negras e de origem nordestina em particular. Nao restam duvidas quanto ao papel que nessas disputas tiveram nomes como Elizandra Souza e Dinha (Maria Nilda de Carvalho Mota), com publicacoes marcantes como Aguas da cabaca (Edicao do Autor, 2012) e De passagem mas nao a passeio (Global, 2008). Se o surgimento dos tres numeros especiais da revista Caros Amigos e a organizacao do Sarau da Cooperifa foram determinantes para que pudesse emergir um novo sujeito nas margens da literatura, as vozes de Elizandra e Dinha seriam precursoras de uma nova geracao que se expressaria a partir do seu lugar de fala, elemento central para a emergencia de outra cena ainda muito incipiente no final da primeira decada do seculo XXI, a dos campeonatos de poesia falada ou Poetry Slam.

No quarto e ultimo capitulo, o livro aborda uma serie de questoes nao trabalhadas anteriormente, passando, quase que em um livro a parte, a abordar os casos especificos de Ferrez e Alessandro Buzo, narradores que conseguiram ser lidos e reconhecidos fora das fronteiras do territorio. Uma das questoes centrais que Cuidado com os poetas! enfrenta nesse capitulo e a de quais seriam as negociacoes necessarias aos subalternizados para construir um lugar no campo literario e como, a partir de uma nova rede de relacoes, se da o ativamento de certas estrategias a fim de dominar uma posicao de autor. Esse capitulo procura respostas para estas perguntas. Para alem das diferencas entre os dois nomes, sobressaem as operacoes agenciadas por cada um deles para construir o que Tennina chama de "lugar de autor". Para isso, a autora guia o leitor atraves de um percurso pela vida de Ferrez e Buzo no qual ficam aparentes as respectivas estrategias de construcao da figura do escritor. Transcendendo aquilo que Ferez sinaliza na introducao da edicao Tusquets de Capao pecado, onde propoe as paginas de seu primeiro romance como uma vestimenta de palavras que lhe da um lugar de autor, os dois mobilizam diferentes recursos, operacoes e procedimentos para conquistar um lugar no campo cultural, indo da criacao de um nome artistico (Ferrez) a manutencao de um blog no qual se registram as leituras que vao gradativamente formando a imagem publica do escritor (Buzo).

Narradores como Ferrez ou Buzo, poetas como os da Cooperifa ou os que integram os demais saraus de poesia das quebradas paulistanas transformam de dentro as instituicoes que definem a consagracao e o pertencimento ao campo literario, lutando para trazer o protagonismo para a periferia. Esses escritores ja nao estao falando so entre eles. Trata-se da formacao de redes complexas, as quais sao incorporados os grupos mais jovens formados por sujeitos oriundos de outros lugares da cultura. O que esta em jogo e o que a gente entende como arte, como literatura ou como poesia.

Assim, os conceitos esteticos sao reestruturados sob nova forma e a partir de novas regras, constituindo uma esfera formada para alem das normas e capitais convencionais. O livro de Tennina aporta um novo lugar de mirada para a poesia. E, a partir desse olhar que conduz o nosso, conseguimos nos dar conta do brotar de uma nova producao e de uma cena cultural centrada no papel da "poesia" e na figura do "poeta", as quais contribuem de modo muito particular para a ressignificacao desses vocabulos.

Sergio Vaz, criador da Cooperifa, insiste em que "a periferia e um pais". O que faz Lucia Tennina e uma bela, profunda e necessaria cartografia da literatura desse novo pais.

Assim, essa jovem professora argentina oferece uma contribuicao fundamental para a critica literaria brasileira. Ler a obra de Lucia Tennina e poder viver intensamente a cena pulsante da literatura marginal da periferia. Nesse sentido, nao seria excessivo afirmar que ela consegue escrever o livro que pretendia, uma obra potente que nos impacta e transforma o olhar que nos brasileiros lancamos para as culturas das nossas periferias.

Esperamos a publicacao de mais textos como esse, que lanca uma nova luz sobre o desenvolvimento de nossa primavera periferica.

Referencia bibliografica

MARINHO, M. V. 21 gramas. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2016.

Ary Pimentel. Professor de Literaturas Hispano-Americanas no Departamento de Letras Neolatinas da Faculdade de Letras (UFRJ). E Mestre (1995) e Doutor (2001) em Literatura Comparada, pela UFRJ e realizou estagios de Pos-doutorado no PACC (Programa Avancado de Cultura Contemporanea)--UFRJ, em 2016, e na Universidad de Buenos Aires, em 2017. E-mail: ary.pimentel@yahoo.com.br

Ary Pimentel

Universidade Federal do Rio de Janeiro Rio de Janeiro, RJ--Brasil

ORCID 0000-0001-8658-3398

Recebido em: 15/09/2018 Aceito em: 20/12/2018

https://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/211381387
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Pimentel, Ary
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Resena de libro
Date:Jan 1, 2019
Words:2374
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