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POPULATION CONTROL OF INVASIVE WILD SPECIES THROUGH TUBAL LIGATION AND VASECTOMY IN PRIMATES CALLITHRIX PENICILLATA: CASE REPORT/CONTROLE POPULACIONAL DE ESPECIES SILVESTRES INVASORAS POR MEIO DE LAQUEADURA E VASECTOMIA EM PRIMATAS CALLITHRIX PENICILLATA: RELATO DE CASO/CONTROL DE LA POBLACION DE ESPECIES SILVESTRES INVASORAS MEDIANTE LIGADURA DE TROMPAS Y VASECTOMIA EN PRIMATES CALLITHRIXPENICILLATA: INFORME DEL CASO.

INTRODUCAO

As especies de primatas mais conhecidas do genero Callithrix costumam viver em grupos familiares. A especie Callithrix penicillata e endemica do nordeste e centro-oeste predominante em areas da caatinga, cerrado e mata atlantica. Reproduzem-se durante todo o ano e possuem uma dieta rica e bem variada consumindo desde exsudatos, sementes, flores, frutos, nectar, alem de artropodes, moluscos, filhotes de aves e mamiferos, anfibios e pequenos lagartos (1).

Segundo o Ministerio do meio ambiente (2) as especies C. penicillata e C. jacchus sao consideradas invasoras em diversas regioes do Brasil, dando destaque para regioes do sul e sudeste. Especies invasoras estatisticamente sao causadoras da segunda maior perda de biodiversidade no planeta. Ao serem introduzidas em um novo ambiente, muitas dessas especies nao sobrevivem devido as diferentes condicoes do seu novo habitat, porem, aquelas que conseguem se adaptar possuem grandes chances de se estabelecer causando um potencial perigo de extincao as especies nativas (3).

Segundo Vale e Prezoto (4) o processo de invasao de animais em novos ambientes e dividido em etapas. A primeira fase e caracterizada pelo periodo de introducao da especie no novo habitat. A fase de colonizacao acontece em seguida, apos as superacoes das barreiras encontradas pela especie invasora. Caso sobreviva, segue-se pela fase de naturalizacao onde a nova especie efetiva sua reproducao conseguindo dispersar seus genes e por fim a fase de impacto onde os danos, sejam ecologicos ou economicos, ocorrem. Estes processos podem ocorrer tanto de maneira linear como simultanea.

De acordo com Levacov et al. (5), os primatas C. jacchus, Cebus apella, C. penicillata e Callithrix geoffroyi sao alvos do trafico interestadual e mais frequente em Centros de Recuperacao e Triagem de Animais Silvestres. Sendo os animais retirados de biomas das regioes do norte, nordeste e centro-oeste. Demonstrando assim uma grande quantidade de especies exoticas e potencialmente invasoras trazidas para regiao sul e sudeste.

Devido a grande flexibilidade adaptativa das especies C. penicillata e que ao serem introduzidas em areas nao endemicas onde nao possuem predadores e/ou parasitos no ecossistema, geralmente se tornam consumidores do topo da cadeia (6), aumentando os problemas causados devido ao grande aumento da populacao.

Mais um problema gerado pelas invasoes e o do declinio da fauna ornitologa pela predacao de ninhos por Callithrix spp. Alem das aves, mamiferos tambem sao ameacados pela invasao biologica por calitriquideos. Como o sagui-da-serra-escuro (C. aurita) e o sagui-daserra (C. flaviceps) pela sua capacidade de reproducao e hibridizacao com estas especies, por conseguinte, causa o seu desaparecimento devido a perda genetica (7).

Outra especie que corre riscos com a invasao de C. penicillata e o mico-leao-dourado (Leontophitecus rosalia) a qual ja se encontra ameacada pela grande perda de seu habitat, remanescendo em fragmentos da mata atlantica. Alem disso, estudos demonstraram que C. penicillata invasores, possuem maior capacidade de adaptacao em areas degradadas em comparacao com especies do genero L. rosalia prejudicando ainda mais as condicoes de conservacao do mico-leao-dourado (4).

RELATO DE CASO

Um sagui macho e uma femea da especie C. penicillata, foram escolhidos aleatoriamente dentre os 27 exemplares de Callithrix spp. presentes em um centro de recuperacao de animais silvestres. Os animais higidos foram entao conduzidos para o centro cirurgico objetivando-se executar o procedimento de esterilizacao para a posterior soltura destes animais.

Os primatas foram levados em caixas de transportes onde ficaram em jejum hidrico e alimentar por tres horas ate o momento do procedimento cirurgico. Por serem animais com alta velocidade metabolica foi administrado 0,2-0,5 ml de glicose 50% via oral antes da inducao anestesica evitando uma queda acentuada de glicose no organismo e o aparecimento de sintomas de hipoglicemia, sendo frequente, os animais apresentarem convulsoes.

A inducao anestesica foi realizada cobrindo-se a caixa de transporte com material plastico e bloqueando todas as saidas de ar ficando apenas uma abertura para entrada da mangueira pela qual o anestesico volatil era infiltrado, sendo utilizado o agente isoflurano a 5%. O animal entao era observado ate o momento de decubito e o tempo medio variou de 5-10 minutos.

O primeiro animal uma femea, adulta, pesava 0,334 kg que apos a inducao anestesica foi mantida com o agente inalatorio isoflurano em sistema aberto do tipo Baraka, com utilizacao de mascara nao sendo necessaria sua intubacao. Durante o trans-cirurgico, as concentracoes do isoflurano variaram de 0,2-1,0%.

O animal foi posicionado na mesa em decubito dorsal para realizacao da tricotomia e antisepsia habituais. Logo entao, uma pequena incisao mediana retroabdominal de aproximadamente 3 cm foi feita objetivando-se acessar a cavidade e o sistema reprodutor feminino. Foram expostos e identificados o utero, os cornos uterinos como tambem os ovarios, para entao, dar inicio ao procedimento de dupla ligadura na regiao dos istimos tubarios (Figura 1).

Estes foram duplamente pincados em ambos os lados, direito e esquerdo, deixando uma pequena regiao da tuba uterina entre as duas pincas onde, aproximadamente 1 cm foi excisado. Em seguida fez-se a ligadura da porcao cranial e caudal das tubas. A ligadura foi feita com fio de nylon 3-0 em ambos os lados. O procedimento foi repetido na tuba uterina contralateral.

Nao havendo sangramento durante o procedimento, os orgaos foram reposicionados na cavidade para prosseguir com a sintese. Foi utilizado o fio poliglactina 910 3-0 para a sutura da musculatura e subctaneo utlizando os padroes simples continuo e zig-zag, respectivamente e para a sintese da pele foi utilizado cola cirurgica a base de 2-octil-cianoacrilato.

Terminada a cirurgia da femea, o macho, tambem do genero C. penicillata com 0,304kg, foi conduzido para o procedimento de vasectomia. Seu preparo, inducao e manutencao foram realizados da mesma maneira que a femea.

Uma incisao mediana ventral foi feita acima da sinfise pubica pretendendo-se alcancar o funiculo espermatico e seus ductos e em seguida foi feita a localizacao destas estruturas (Figura 2), divulsionou-se os ductos deferentes da fascia espermatica como tambem da veia e arteria presentes no funiculo espermatico para entao pinca-los. Foram pincandas duas porcoes do ducto, cranialmente e caudalmente deixando um pequeno espaco entre as pincas que foi excisado (Figura 3), em seguida realizou-se a ligadura das duas extremidades.

Utilizou-se o fio nylon 3-0 para ligadura dos ductos. O procedimento foi realizado no ducto deferente direito e esquerdo. Apos o reposicionamento das estruturas em seu local de origem, a sintese da pele foi feita com cola cirurgica.

Durante o transcirurgico os animais apresentaram-se estaveis com padroes fisiologicos normais para a especie, frequencia respiratoria 20-40 rpm e temperatura entre 38-39,0[degrees]C. Devido a alta frequencia cardiaca da especie, foi analisado com o estetoscopio apenas a regularidade dos batimentos, sendo os valores de referencia para a especie de: 38-39,7[degrees]C, 20-50 rpm e 240-350 bpm.

Logo ao termino da cirurgia foram adminstrados pela via intramuscular cloridrato de tramadol 3mg/kg e penicilina 20.000 UI/kg para prolongamento da analgesia e profilaxia antibiotica respectivamente em ambos os animais.

No pos-cirugico, os animais ficaram em observacao no centro de recuperacao onde eram alimentados e medicados. Foi prescrito para os saguis a administracao de enrofloxacina 5mg/kg e dipirona 10mg/kg via oral, uma vez ao dia durante 7 dias. Para receber a medicacao, os animais eram retirados do recinto com luvas de raspa evitando-se possiveis mordidas.

DISCUSSAO E CONCLUSAO

O procedimento de vasectomia em machos e laqueadura em femeas e recomendando para animais silvestres que sao destinados para o retorno a natureza. A esterilizacao de calitriquideos diminui a ocorrencia de efeitos negativos comparados a castracao, visto que esses animais convivem em grupos e a producao hormonal pelas suas glandulas sexuais interfere enormemente no comportamento social e sexual dos individuos (8).

Primatas de pequeno porte como os da especie Callithrix, necessitam realizar jejum alimentar em reduzido periodo de tempo comparado com outras especies, devido a sua alta taxa metabolica. E recomendando o jejum de 6-8 horas antes da cirurgia. Entretanto, nao existe ainda estabelecido um intervalo ideal para especie Callithrixpenicillata (9).

Durante o procedimento de esterilizacao, optou-se pela inducao com anestesia inalatoria com isoflurano, agente comumente usado em pequenos primatas, pois sao facilmente induzidos com anestesia volatil, sej a usando mascaras ou caixas para inducao. Os animais foram induzidos em suas proprias caixas de transporte devido a praticidade, alem de evitar a manipulacao dos saguis e consequente estresse e fuga pelo local. Este metodo teve funcionalidade semelhante a utilizacao de caixas para inducao anestesica em pequenos animais (9,10).

A manutencao anestesica foi realizada com o isoflurano devido aos baixos riscos de mortalidade nestes primatas, alem de possuir uma baixa CAM de 1,2% (9). Os animais nao foram intubados, porem em cirurgias de longa duracao, esse procedimento e aconselhado visando a protecao das vias aereas e correto fornecimento de oxigenio. A intubacao endotraqueal de primatas com peso menor que 500g pode ser de dificil realizacao, podendo ser necessaria a adaptacao de sondas utilizando-se, por exemplo, cateteres ou sondas uretrais (10).

Os procedimentos de esterilizacao foram baseados em tecnicas cirurgicas realizadas em humanos devido a semelhanca anatomica entre as especies. Na laqueadura foi utilizada a tecnica de Parkland de salpingectomia parcial bilateral a qual e frequentemente usada na medicina humana (11).

A mesma tecnica de dupla ligadura foi utilizada para a vasectomia dos machos a qual tambem se assemelha com a humana (12). Esta tecnica ja foi realizada com sucesso e descrita em um sagui da especie Callithrix jacchus por Morris e David (13).

Animais do genero Callithrix assim como outros primatas sao conhecidos pela sua grande curiosidade (14). Conhecendo estas caracteristicas comportamentais da especie, optou-se pela utilizacao de cola cirurgica para sutura da pele ao inves da tradicional sintese com fio de nylon, pois os fios de sutura poderiam estimular os saguis a removerem os pontos causando novas lesoes, prejudicando o pos-operatorio.

No pos-cirurgico os animais foram medicados com dipirona sodica via oral e enrofloxacina via oral, uma vez ao dia pretendendo-se promover uma analgesia e profilaxia de infeccoes bacterianas respectivamente. Estes medicamentos foram adotados devido ao seu amplo uso e baixos efeitos adversos em animais silvestres e exoticos sendo inclusive recomendado para primatas da especie C. penicillata (15).

Conclui-se entao que a laqueadura e vasectomia de primatas Callithrix penicillata e um procedimento simples com baixos riscos aos animais e que deve ser realizado devido a sua funcao no controle populacional destas especies. Amenizando os impactos causados no ecossistema advindo dos processos de invasoes e proliferacao permitindo o seu retorno a natureza. A descricao da tecnica cirurgica nestes primatas tambem colabora fornecendo informacoes sobre a clinica e cirurgia de animais silvestres da fauna brasileira area em constante desenvolvimento e que sempre necessita de novos dados.

Recebido em: 29/09/2016

Aceito em: 03/04/2017

REFERENCIAS

(1.) Verona CED, Pissinatti A. Primates: primatas do novo mundo (Sagui, Macaco-Prego, Macaco-Aranha, Bugio e Muriqui). In: Cubas ZS, Silva JCR, Catao-Dias JL. Tratado de animais selvagens. 2a ed. Sao Paulo: Rocca; 2014. p. 723-30.

(2.) Ministerio do Meio Ambiente (BR). Estrategia nacional sobre especies exoticas invasoras. Brasilia; 2009.

(3.) Pessato RD, Dechoum MS. Invasoes biologicas: uma ameaca invisivel [Internet]. Recife: AMANE--Associacao para Protecao da Mata Atlantica do Nordeste; 2010 [cited 2017 Apr 10]. Available from: http://www.terrabrasilis.org.br/ecotecadigital/images/Invases%20Biolgicas.pdf

(4.) Vale CA, Prezoto F. Invasoes biologicas: o caso do mico estrela Callithrix penicillata. CES Rev. 2015;29:58-76.

(5.) Levacov D, Jerusalinky L, Fialho MS. Levantamento dos primatas recebidos em centros de triagem e sua relacao com o trafico de animais silvestres no Brasil. In: Anais do 1o Congresso Brasileiro de Primatologia; 2011; Belo Horizonte. Belo Horizonte: Sociedade Brasileira de Primatologia; 2011.

(6.) Traad RM, Leite JCM, Weckerlin P, Trindade S. Introducao das especies exotica Callithrix penicillata (Geoffroy, 1812) e Callithrix jacchus (Linnaeus, 1758) em ambientes urbanos (Primates Callithrichidae). Rev Meio Ambient Sustentabilidade. 2012;2:9-23.

(7.) Begott RA, Landesmann LF. Predacao de ninhos por um grupo hibrido de Saguis (Callithrix jacchus/penicillata) introduzidos em area urbana: implicacoes para a estrutura da comunidade. Neotrop Primates. 2008;15:28-9.

(8.) European Association of Zoos and Aquaria. Husbandry guidelines for Callitrhichidae. 2a ed. Saint Aignan sur Cher: Beauval Zoo; 2010.

(9.) Olberg RA. Monkeys and gibbons In: West G, Heard D, Caulkett N. Zoo animal and wildlife--immobilization and anestesia. Ames: Wiley Blackwell; 2007. p. 375-84.

(10.) Longley LA. Anaesthesia of exotic pets. 1a ed. Philadelphia: Saunders; 2008. p. 103-10.

(11.) Campagnolo IM. Avaliacao da cauterizacao completa da luz tubaria com diferentes potencias de eletrocoagulacao bipolar para esterilizacao feminina [dissertacao]. Porto Alegre: Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2012.

(12.) Leal JWB, Camara PAD. Ligadura tubaria. In: Halbe HW. Tratado de ginecologia. 3a ed. Sao Paulo: Roca; 2000. v. 2, p. 873-83.

(13.) Morris TH, David CL. Illustrated guide to surgical technique for vasectomy of common marmoset. Lab Anim. 1993;27:381-4.

(14.) Milagres AP. Caracterizacao dos sitios de dormida de saguis hibridos Callithrix sp. (Mammallia, Primates), em um fragmento florestal urbano [dissertacao]. Vicosa: Universidade Federal de Vicosa; 2015.

(15.) Valverde CR. Primates. In: Carpenter JW. Exotic animal formulary. 3a ed. St. Louis: Saunders; 2005. p. 495-527.

Davi Fragoso da Silva [1] *

Elisangela Barboza da Silva [1]

Andre Preturlon Terra [2]

[1] Departamento de Ciencias Agrarias e Ambientais, UESC. Ilheus--BA, Brasil.

[2] Medico Veterinario, ortopedia e cirurgia veterinaria.

* Contato principal para correspondencia: davifragosodasilva@msn.com

Caption: Figura 1. Posicionamento anatomico dos orgaos do sistema reprodutor feminino (a)utero (b) corno uterino esquerdo direito (c) ovario esquerdo (d) bexiga.

Caption: Figura 2. Exposicao do ducto deferente para realizacao da vasectomia (a) penis (b) funiculo espermatico direito (c) ducto deferente.

Caption: Figura 3. Ducto deferente seccionado aguardando a ligadura das porcoes cranial caudal.
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Author:Silva, Davi Fragoso da; Silva, Elisangela Barboza da; Terra, Andre Preturlon
Publication:Veterinaria e Zootecnia
Date:Jun 1, 2017
Words:2257
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