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POESIA, MITO E FILOSOFIA: UMA LEITURA INSISTENTE DE ORIDES FONTELA/POETRY, MYTH AND PHILOSOPHY: CLOSE READING OF ORIDES FONTELA.

Modo de relacao com o espaco, o mito se caracteriza, segundo Cassirer (1), por uma expressividade que apaga todo distanciamento entre a imagem e o que ela representa. Mediatizada pela linguagem, essa experiencia radicalmente expressiva engendra uma infinidade de variacoes, as vezes ate contraditorias, de um mesmo tema ou personagem. Ora, se a poesia grega surge com o mito, alimentando-se de seu polimorfismo, ela se afasta de sua expressividade primeira atraves do movimento reflexivo inerente a representacao artistica. Trabalho no material polimorfo do mito, trabalho do mito no discurso, trabalho nao mais expressivo, mas representativo, da arte poetica, as epopeias constituem mito-logias. Mesmo que a poesia da Grecia arcaica esteja impregnada de valor cultual, e participe portanto do mundo do mito, ela introduz distanciamentos reflexivos no interior da imagem mitica.

E o caso, por exemplo, da Teogonia de Hesiodo, que antecipa as sistematizacoes cosmologicas dos pre-socraticos e, colocando em cena pela primeira vez o "eu" do poeta, indica a instancia subjetiva da representacao. Ao nomear a voz poetica, este longo poema abre um caminho para a poesia lirica, que viria a se desenvolver um seculo mais tarde, mas tambem tem em comum com o pensamento teorico nascente uma preocupacao de sistematizacao que implica uma critica dos materiais miticos tradicionais.

Compreendido como relacao expressiva ao espaco, o mito nao esta presente apenas nas culturas arcaicas, como a Grecia antiga. Essa forma simbolica nao foi definitivamente ultrapassada no mundo contemporaneo, mais ainda coexiste com outros modos de relacao com o sentido externo e, em particular, com a modalidade estetica de representacao. Talvez por isso a poesia mais contemporanea nao cesse de trabalhar e retrabalhar materiais miticos legados pela tradicao literaria classica.

Em Orides Fontela (1940-1998), cuja obra completa foi reeditada e publicada em 2015 (2), o trabalho poetico sobre estruturas miticas dialoga de perto com o conceito. Assim, sua producao leva-nos a perguntar como uma poeta contemporanea opera deslocamentos nos materiais miticos, incitandonos a localizar a questao sobre o pensamento poetico entre

a forma simbolica do mito e a da teoria. Parece-me, sobretudo, que tal interrogacao nao deve ser colocada abstratamente, de maneira estritamente conceitual, mas que concerne, a cada vez, a um corpus textual singular. Pois, mesmo que possamos pensar um modo poetico de relacao, ou a poesia como forma simbolica, nao existe um unico pensamento poetico que se materializaria em todos os poemas, mas uma pluralidade de reflexoes que se constituem em obras poeticas individuais.

Assim, para evitar operar abstratamente, seguirei uma sugestao metodologica de Jean Bollack e proporei uma "leitura insistente" (3). Lerei, portanto, de maneira insistente, um poema de Orides Fontela que se apresenta igualmente como leitura, isto e, como uma releitura de uma passagem da Critica da razao pratica. A partir da leitura insistente do poema "Kant (Relido)", em cuja fatura extremamente sintetica identificamos nao apenas a referencia a uma passagem significativa da Critica da razao pratica, mas tambem uma releitura do mito de Gaia e Uranos, relatado na Teogonia de Hesiodo, procurarei compreender o modo como a poeta dialoga com suas leituras, operando transformacoes e deslocamentos consideraveis. Assim, minha leitura insistira nao apenas numa breve analise da materialidade ritmica do poema, mas sobretudo numa reconstrucao das intertextualidades que o atravessam e nele dialogam.

Neste poema, como em outros, Orides Fontela nao se contenta em dizer de outro modo as teses que o texto filosofico enuncia, transpondo-as alegoricamente, numa expressao poetica, mas ela responde poeticamente a interpelacao contida na teoria, ironizando as estruturas miticas que nela subsistem. O poema reage poeticamente a argumentacao kantiana. Ele tira consequencias, indica aspectos que permanecem escondidos no registro conceitual do texto kantiano e sublinha ironicamente as estruturas miticas que nele subsistem, propondo uma verdadeira releitura. A leitura desta releitura nos permitira situar a interrogacao sobre o pensamento poetico entre a forma teorica do conceito e o trabalho do mito.

De origem modesta, nascida em Sao Joao da Boa Vista, no interior do Estado de Sao Paulo, Orides Fontela obteve desde cedo uma acolhida favoravel pela critica especializada, que a teria "descoberto" em 1965 (4), antes mesmo da publicacao de seu primeiro livro, Transposicao, em 1969. Sua poetica sobria, de versos curtos e enigmaticos, cortados de modo surpreendente, causava espanto por sua novidade em relacao a heranca modernista dos anos 1920-1940, mas aparecia tambem como uma alternativa as novas vanguardas concretistas e neoconcretistas do pos-guerra. De fato, e como potencia de inovacao que a poesia de Orides Fontela foi recebida por Antonio Candido em sua apresentacao bastante elogiosa do terceiro livro da poeta, Alba, de 1983:
Um poema de Orides Fontela tem o apelo das palavras magicas que o
possimbolismo destacou, tem o rigor construtivo dos poetas engenheiros
e tem um impacto por assim dizer material de vanguarda recente. Mas nao
e nenhuma destas coisas, na sua integridade requintada e sobranceira; e
sim a solucao pessoal que ela encontrou. Parecendo tao inseridos numa
certa evolucao da poesia moderna, e sendo tao originais como invencao,
os seus versos possuem em geral uma carga de significado que nao e
frequente (5).


No final dos anos 1960, Orides cursa Filosofia na Universidade de Sao Paulo, o que lhe permite aprofundar e desenvolver uma inclinacao especulativa que aparecia ja em seus primeiros poemas. Entretanto, seu interesse pela filosofia nao desemboca numa carreira universitaria, mas se reflete efetivamente na forma de sua obra, fazendo dela uma especie de poeta-filosofa--outra singularidade na tradicao poetica brasileira. Ora, esta relacao importante com a filosofia aparece raramente sob a forma da citacao ou da referencia explicita, mas se inscreve mais frequentemente na fatura enigmatica e intertextual dos poemas, que se configuram em torno de certas problematicas teoricas: a linguagem e o fazer poetico, o mito, o tempo, eros e a questao da liberdade, entre outros temas tambem tradicionalmente filosoficos.

"Kant (relido)", que me proponho a ler, e um dos raros poemas de Orides que se refere explicitamente a obra de um filosofo. Entretanto, nao se trata de uma citacao, mas do deslocamento poetico de uma passagem frequentemente citada da conclusao da Critica da razao pratica. Ele aparece no volume Rosacea, de 1986, que reune poemas de juventude entao ainda ineditos e textos novos. Esse livro, publicado pouco tempo depois do sucesso de Alba, que ganhou o Premio Jabuti de poesia em 1984, esta dividido em cinco series de poemas intituladas: Novos, Ludicos, Bucolicos, Mitologicos e Antigos. O poema que aqui nos interessa faz parte da primeira serie. Embora seja seguido por outro texto que se refere a tradicao filosofica, e significativamente precedido por "Heranca", de coloracao sobriamente autobiografica. Nele, a poeta lista alguns objetos bastante modestos, em sua maior parte utensilios de trabalho manual:
Heranca

Da avo materna:
uma toalha (de batismo)

Do pai:
um martelo
um alicate
uma torques
duas flautas.

Da mae:
um pilao
um caldeirao
um lenco.


A proximidade desse poema, cujo teor autobiografico contrasta com a sobriedade e a concisao da expressao, que nem sequer deixa lugar para a emergencia da primeira pessoa, quase sempre anti-liricamente evitada por Orides Fontela, nos incita a problematizar o "eu" que "Kant (relido)" coloca ostensivamente em cena:
Kant (relido)
Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado ceu
dentro de mim


Ao fragmentar o decassilabo tradicional, o poema engendra uma variacao ritmica significativa, produzindo uma especie de evidencia verbal que se aparenta a dos proverbios e a dos oraculos, embora seja quebrada por uma certa ironia. De fato, o primeiro verso pode ser lido como um decassilabo heroico, ritmado pelas tonicas na primeira, na sexta e na oitava silabas. A pontuacao reforca, entretanto, a cesura que o divide em um trecho de seis silabas e outro de quatro, acentuado na segunda (a dura lei). O segundo verso, composto por uma unica palavra (co/brin/do-me), tem apenas duas silabas, repetindo assim a acentuacao do segundo segmento do primeiro verso. O terceiro retoma a extensao da primeira parte do decassilabo inicial (6 silabas) retardando a primeira tonica, que aparece apenas na quarta ("e o/ es/tre/la/do/ ceu"); porem, se fizermos a elisao entre o artigo e o adjetivo, pode tambem ser lido como uma redondilha menor acentuada na terceira silaba. O ultimo verso repete ainda o metro da segunda parte do primeiro (4 silabas) embora acentue fortemente a primeira silaba: "den/tro/ de/ mim".
Du/as/ coi/sas/ ad/mi/ro: a/ du/ra/ lei (1-6-8-10)
co/brin/do/-me (2)
e o/ es/tre/la/do/ ceu (4-6)
den/tro/ de/ mim. (1-4)

ou

Du/as/ coi/sas/ ad/mi/ro: (1-3-6)
a/ du/ra/ lei (2-4)
co/brin/do-me (2)
e o es/tre/la/do/ ceu (3-5)
den/tro/ de/ mim (1-4)


Decompondo o decassilabo tradicional num movimento ritmico que permite variacoes na cadencia da leitura, Orides acentua as palavras "dura", "cobrindo-me" e "dentro". O poema parece efetivamente incitar o leitor a relelo de outro modo, mimando assim ritmicamente a sugestao contida no titulo. Entretanto, para tirar consequencias semanticas desse efeito ritmico numa interpretacao da releitura proposta pela poeta, precisamos voltar ao texto que ela rele poeticamente para reconstruir o contexto filosofico no qual ele aparece.

O texto relido

A frase que o poema retoma e frequentemente citada justamente porque constitui uma especie de excecao na qual, ao final de sua obra, Kant deixa de lado a argumentacao conceitual para se exprimir, excepcionalmente, de um modo que pode ser qualificado como lirico: "Duas coisas enchem o animo de crescente admiracao e respeito, veneracao tanto mais renovada quanto com mais frequencia e aplicacao delas se ocupa a reflexao: sobre mim o ceu estrelado, em mim a lei moral" (6).

A lei moral que, de acordo com Kant, constitui uma exigencia interna nao e uma prescricao normativa. Ela corresponde ao postulado segundo o qual cada conduta etica deve repousar sobre a autonomia da razao humana, e portanto sobre a autodeterminacao de sua vontade tomada como fim absoluto, o que implica a exigencia racional de que todo ser dotado de razao seja sempre tomado como um fim em si mesmo, e jamais reduzido a um mero meio. Assim, de acordo com Kant, a condicao de possibilidade de toda responsabilidade moral e a ideia de liberdade, compreendida como a possibilidade de autodeterminacao absoluta da vontade segundo uma exigencia universal da razao em detrimento do interesse ditado por preferencias e inclinacoes pessoais, assim como por contingencias e limitacoes naturais e sociais. Neste sentido, a argumentacao kantiana e circular: a lei moral, imperativo categorico da razao pratica, repousa sobre a ideia de liberdade; e a liberdade, que conhecemos a priori apenas como postulado sem que seja possivel fazer dela um objeto de experiencia, e a condicao da lei moral.

Segundo Kant, embora a ideia de liberdade constitua a pedra angular na edificacao do sistema da razao pura, pois permite a articulacao entre o dominio teorico de conhecimento da natureza e o dominio pratico da moralidade, e impossivel dar um exemplo de sua aplicacao empirica. Conhecemos sua possibilidade a priori apenas como um postulado sobre o qual se fundam todas as ideias da razao, mas nunca como efetivacao concreta na experiencia.

Na passagem citada, que corresponde a frase "relida" por Orides Fontela, o paralelo entre o ceu estrelado "sobre mim" e a lei moral "em mim" corresponde a uma dupla consciencia: a de "minha" existencia fisica insignificante face a imensidao irrepresentavel do real e a de "minha" responsabilidade moral. Ora, segundo Kant, esta ultima "comeca em meu invisivel eu, na minha personalidade, expondo-me em um mundo que tem verdadeira infinidade, porem que so resulta penetravel pelo entendimento e com o qual eu me reconheco (...) em uma conexao universal e necessaria, nao apenas contingente [...]" (7). E essa segunda "visao" que me revela a independencia de minha propria vida intelectual em relacao ao mundo sensivel. Porem, segundo Kant, e ainda esta que, escapando ao dominio das leis da natureza, permite precisamente pensar sua propria conexao com a natureza pela pressuposicao do acordo entre as faculdades de conhecer e o real.

Entretanto, na frase citada, a primeira pessoa nao remete apenas a uma consciencia logica, mas acolhe tambem os sentimentos e a capacidade reflexiva de um individuo dotado igualmente de existencia fisica--capaz, portanto, de estabelecer uma relacao simbolica entre uma representacao sensivel do espaco que o cerca e uma ideia racional. Alem disso, e significativo que, no paragrafo seguinte, Kant faca uma advertencia contra a astrologia, que estabelece uma relacao magica entre a esfera moral e a observacao do ceu. A representacao que ele procura esbocar aqui a partir do paralelismo retorico entre as duas visoes--a do ceu estrelado acima de mim a da lei moral em mim--nao quer ser confundida com o mundo do mito, mesmo que tambem nao pertenca nem ao dominio teorico, nem ao pratico. Trata-se simplesmente de uma imagem para a reflexao, de uma representacao estetica que abre perspectivas ao pensamento. Assim, esta passagem conclusiva da Critica da razao pratica antecipa em mais de um sentido a Critica da faculdade do juizo, na qual Kant aborda o campo do sensivel e analisa os juizos esteticos puros, confrontandose ao problema da reflexao.

Dessa forma, e justamente a Critica da faculdade do juizo que tematiza o modo de apresentacao da ideias da razao, propondo uma analogia entre o Belo e a Lei Moral. No contexto dessa argumentacao, que se encontra no [section]59 da Analitica do sublime, intitulado "A Beleza como simbolo da moralidade", Kant distingue as nocoes de conceito (do entendimento) e de ideia (da razao) e examina detidamente o modo pelo qual podemos apresenta-los ou expo-los.

Segundo Kant, os conceitos do entendimento podem ser apresentados diretamente pelos exemplos ou esquemas atraves dos quais expomos sua realidade objetiva. Assim, um conceito puro do entendimento, como o de triangulo, pode ser apresentado atraves da formula matematica que lhe serve de esquema e um conceito empirico, com o de gato, pode ser exposto atraves de exemplos. Entretanto, as ideias da razao--mesmo que remetam aquelas questoes fundamentais que nao podemos deixar de colocar mas que, ao mesmo tempo, somos incapazes de responder--nao constituem objetos do conhecimento. Tais ideias, como a de liberdade, ou a de verdade, podem (e devem) apenas ser pensadas, pois fundamentam moral e conhecimento, mas nao e possivel conhece-las objetivamente. No entanto, Kant afirma que podemos apresenta-las de modo simbolico, isto e, atraves de construcoes poeticas complexas que se articulem com a esfera conceitual.

Ora, em seus Paradigmas para uma metaforologia, publicados pela primeira vez em 1960, o pensador alemao Hans Blumenberg propoe uma releitura significativa dessa passagem da Critica da faculdade do juizo. Explicitando a dimensao necessariamente metaforica dos textos filosoficos, e mesmo daqueles que pretendem a sistematicidade e a determinacao conceitual mais estrita, ele empreende pesquisas historicas sobre as metaforas que se articulam aos grandes questionamentos filosoficos. Mais tarde, ja nos anos 1970, ele sugere uma origem comum para filosofia e poesia na esfera das correlacoes nao determinaveis do pensamento especulativo: a esfera da "nao conceitualidade".

A releitura

Orides Fontela certamente estudou Kant quando cursou Filosofia, na virada dos anos sessenta para os setenta, mas nao e verossimil que tenha assistido muitas aulas sobre Cassirer e nem pode ter tido conhecimento da interpretacao da problematica da representacao simbolica proposta por Blumenberg, assim como dos desenvolvimentos sobre a esfera da "nao conceitualidade" por ele propostos, ja nos anos 1970. O autor so viria a ser recebido no Brasil bem recentemente e, no final dos anos 1960, os departamentos de Filosofia se ocupavam sobretudo da recepcao de Heidegger. Entretanto, num depoimento escrito, Orides se pronuncia sobre a filosofia e sobre sua relacao com a poesia em termos que se distanciam consideravelmente de uma ontologia da linguagem de inspiracao heideggeriana e poderiamos aproximar de algumas consideracoes de Cassirer e de Blumenberg, que retomam perspectivas kantianas:
Fruto da maturidade humana, [a filosofia] emerge lentamente da poesia e
do mito, e inda guarda as marcas de co-nascenca, as pegadas vitais da
intuicao poetica. Pois ninguem chegou a ser cem por cento lucido e
objetivo, nunca. Seria inumano, seria loucura e esterilidade. Bem, ai
ja temos uma diferenca basica entre poesia e filosofia--a idade, a
tecnica, nao o escopo. Pois a finalidade de entender o real e sempre a
mesma, e "alta agonia" e "dificil prova" que devemos tentar para
realizar nossa humanidade. (8)


Nesta conversa, Orides aponta uma origem comum a poesia, "arcaica como o verbo", e a filosofia, "fruto da maturidade humana", na interrogacao diante do que ela aqui nomeia "o real", mas que podemos tambem aproximar do que Cassirer chama de espaco, isto e, o que nos cerca, aquilo no qual nos encontramos e o que tambem produzimos segundo diferentes modos de relacao: conceitual, estetico ou mitico. Ora, a poeta afirma nao apenas que o modo de relacao com o real caracteristico da filosofia surge da poesia e do mito, mas tambem que esse modo filosofico de visar guarda os "vestigios vivos da intuicao poetica", os quais se encontram em suas origens. Isso nos permite compreender a orientacao geral de sua releitura poetica de Kant para retornar ao poema do qual partimos e insistir em sua leitura--e na releitura que ele propoe.

Como vimos, o poema destaca ritmicamente algumas palavras e inverte a estrutura da frase de Kant, sugerindo uma imagem erotica clara, embora bastante sublimada. Qualificada de "dura", termo que nao aparece na formulacao kantiana, a lei moral que, de acordo com a Critica da razao pratica, repousa sobre a liberdade, "cobre" um "eu lirico" discretamente indicado pelo "me" e pelo "mim". Atipico na poetica de Orides Fontela, em que o sujeito e frequentemente elidido (9), o "eu lirico" aparece aqui em voz ativa ("admiro") e passiva ("me, mim"), mas se esconde sob a voz do filosofo numa enunciacao que poderia passar por uma citacao, nao fosse a advertencia contida no titulo. Relida por Orides, essa primeira pessoa que, no proprio texto kantiano, ja nao poderia mais passar por transcendental, aparece em sua plena corporeidade. E mostra-se feminina, pois nao apenas abre-se a "dura lei" que se coloca sobre ela, cobrindo-lhe no sentido sexual do termo, mas tambem engendra "o estrelado ceu" dentro de si.

Invertendo a ordem dos termos e insistindo ritmicamente em certas palavras, Orides Fontela opera uma especie de subversao na frase de Kant para esbocar uma imagem erotica, reanimando os "vestigios vivos da intuicao poetica" no interior do texto filosofico. A imagem revela, efetivamente, as ressonancias miticas da formulacao kantiana, remetendo-nos ao mito de Gaia e Uranos, apresentado por Hesiodo no inicio da Teogonia. Gaia, a terra, gera sozinha Uranos, o ceu estrelado, que em seguida a recobre completamente, fecundando-a. E assim, Gaia engendra uma serie deuses e titas que permanecem dentro dela, pois Uranos a cobre incessantemente sem deixar espaco para o nascimento dos filhos. Para que Gaia possa parir, sera preciso que o filho mais jovem, Cronos, o tempo, castre o proprio pai. E da semente de Uranos, caida na espuma do mar, nasce tambem Afrodite, a deusa da beleza.

As conotacoes eroticas e as ressonancias miticas do poema ironizam a afirmacao poetica de Kant, aprofundando sua plurivocidade. Na formulacao kantiana, a imagem perceptiva do ceu estrelado funciona como uma representacao simplesmente estetica ou reflexiva do acordo entre nossas faculdades de conhecimento e o real--acordo que surge da segunda visao, interna. O respeito da lei moral "em mim" e assim comparado a admiracao diante da imensidao ordenada e harmonica do firmamento "sobre mim", isto e, ao respeito diante de uma representacao reflexiva de uma finalidade da natureza.

No poema de Orides, o esquema se inverte: o "estrelado ceu" esta "dentro de mim" e, "cobrindo-me" num longo gerundio, encontramos a "dura lei", isto e, a lei moral que funda e se funda sobre a liberdade. A plurivocidade do poema, bem mais aberta do que a da frase de Kant, nos leva a fazer conjecturas sobre os deslocamentos metaforicos operados pela poeta em sua releitura do texto filosofico. Nele, o ceu estrelado nao esta "sobre mim", mas se encontra no interior do eu lirico que aparece, portanto, como uma nova Gaia engendrando Uranos. Mesmo que muito indireta, a alusao ao mito cria um paralelo entre a imagem falica da "dura lei" e a representacao do "ceu estrelado" que, nao mais se referindo a percepcao sensivel do espaco exterior ao "eu", constitui o que identificamos como uma "predicacao impertinente", para retomar a formula usada por Ricoeur ao caracterizar a metafora. Embora o trabalho da semelhanca ai opere, nao se trata de uma analogia que se poderia resolver numa substituicao de termos, mas de um movimento complexo que nos leva da argumentacao conceitual a intriga mitica e do mito novamente ao conceito. Vejo-me assim incitada a enunciar hipoteses interpretativas, produzindo ainda releituras da releitura proposta.

Talvez o ceu estrelado de Orides seja uma metafora para a beleza que, segundo Kant, corresponde ela mesma a metafora da lei moral em nos. Se seguimos essa via interpretativa, devemos considerar que a forma bela, o proprio poema, se encontra em gestacao no interior do "eu"--e a questao entao se desloca: estaria no interior de sua criadora ou do processo de sua leitura?

No poema, o "estrelado ceu" nao pode corresponder literalmente a realidade do espaco exterior, como em Kant, pois esta "dentro de mim", apresenta-se assim explicitamente como metafora. Representacao metaforica da propria beleza que, segundo Kant, e ela mesma metafora da lei moral em nos? Se seguimos esta pista interpretativa, devemos considerar que a forma bela, simbolizada na propria forma do poema, nao esta fora, mas se encontra numa especie de gestacao, e a interrogacao assim se desloca: em gestacao "dentro" da criacao poetica ou do processo de leitura do poema?

Ou quem sabe, em sua imensidao infinita que aponta justamente para os limites de nossa capacidade de por em imagem, talvez o estrelado ceu simbolize aqui mais propriamente a desmesura do sublime, que, ao mesmo tempo, alimenta e coloca em xeque a forca e o desejo de dar forma. Em todo caso, o poema aponta o carater fecundante da "dura lei", isto e, da esfera da liberdade, onde constelacoes sao ideias.

Evocando discretamente o mito de Gaia e Uranos na inversao ironica da frase de Kant, a poeta inventa uma afinidade entre as figuras da "dura lei" e do "estrelado ceu", entre a liberdade que fecunda e a gestacao que constitui a fatura e a leitura do poema, ambas releituras.

Referencias

BLUMENBERG, Hans. Teoria da nao-conceitualidade. Ttraducao e introducao de Luiz Costa Lima. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.

CANDIDO, Antonio. "Prefacio". In: Fontela, Orides. Alba. Sao Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1983.

CASSIRER, Ernst. "Espace mythique, espace esthetique et espace theorique" (traducao de Christian Berner) In: Ecrits sur l'art, Oeuves XII. Paris: Cerf, 1995.

CASSIRER, Ernst. "Le probleme du symbole et le systeme de la philosophie". Traducao de Eric Dufour. In: Marc de Launay (org.) Neo-kantismes et theorie de la connaissance. Paris: Vrin, 2000.

FONTELA, Orides. Poesia Completa. Org. Luis Dolhnikoff. Sao Paulo: Hedra, 2015.

FONTELA, Orides. Sobre poesia e filosofia--um depoimento. In: Castro, Gustavo de. O Enigma Orides. Sao Paulo: Hedra, 2015.

GONCALVES, Roberta Andressa Villa. Entre potencia e impossibilidade: um estudo da poetica de Orides Fontela. Dissertacao de mestrado defendida no Programa de pos-graduacao em Literatura Brasileira da USP.

HESIODO. Theogonie. In: Theogonie, Les travaux et les jours, Le Bouclier. Ttraducao bilingue de Paul Mazon. Paris: Les Belles Lettres, 2002.

KANT, Emanuel. Critica da razao pratica. Traducao e prefacio de Afonso Bertagnole. Rio de Janeiro: Ebooks Brasil, 2004

KANT, Emanuel. Critica da faculdade de julgar (traducao de Fernando Costa Mattos). Petropolis: Editora Vozes, 2016.

Patricia Lavelle. E professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, atuando no Programa de Pos-graduacao em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Doutora em filosofia pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris, tem livros de ensaios publicados na Franca e no Brasil e suas pesquisas problematizam as relacoes entre criacao literaria e reflexao filosofica. Como poeta, publicou Migalhas metacriticas (colecao megamini, 7Letras, 2017), Bye bye Babel (7Letras, 2018) e, com Paulo Henriques Britto, organizou O Nervo do poema--Antologia para Orides Fontela (Relicario, 2018).

E-mail: patricia.g.lavelle@gmail.com

Recebido em: 16/09/2018

Aceito em: 01/04/2019

Patricia Lavelle

Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, RJ, Brasil

ORCID 0000-0002-7466-4999

(1) Sobre a nocao de mito em Cassirer, cf. Ernst Cassirer. "Espace mythique, espace esthetique et espace theorique" (traducao de Christian Berner), in: Ecrits sur l'art, Oeuves XII. Paris: Cerf, 1995 e "Le probleme du symbole et le systeme de la philosophie" (traducao de Eric Dufour), In: Marc de Launay (org.) Neo-kantismes et theorie de la connaissance. Paris: Vrin, 2000.

(2) Orides Fontela. Poesia Completa (org. Luis Dolhnikoff). Sao Paulo: Hedra, 2015.

(3) Cf. exemplos deste metodo no volume coletivo La lecture insistante. Autour de Jean Bollack. Paris : Albin Michel, 2012.

(4) Segundo conta Luis Dolhnikoff na introducao ao volume de suas obras completas, Davi Arrigucci Jr. a teria "descoberto" em 1965, atraves de um poema publicado no jornal de sua cidade, engajando-se em seguida na edicao de seu primeiro livro. Cf Luis Dolhnikoff, "Introducao", In: Orides Fontela. Poesia completa, op. cit., p.7.

(5) Candido, Antonio. "Prefacio". In: Orides Fontela, Alba. Sao Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1983.

(6) E. Kant. Critica da razao pratica (traducao e prefacio de Afonso Bertagnole). Ebooks Brasil, 2004, p. 307(A 289).

(7) Ibidem.

(8) Orides Fontela, "Sobre poesia e filosofia--um depoimento", In: Gustavo de Castro. O Enigma Orides. Sao Paulo: Hedra, 2015, p. 219.

(9) Para um levantamento da elisao da primeira pessoa no conjunto da obra poetica de Orides Fontela, cf. "Um panorama do sujeito eclipsado". In: Roberta Andressa Villa Goncalves. Entre potencia e impossibilidade: um estudo da poetica de Orides Fontela, p.43-54. Dissertacao de mestrado defendida no Programa de pos-graduacao em Literatura Brasileira da USP.

https://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/212207218
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Author:Lavelle, Patricia
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:May 1, 2019
Words:4846
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