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PLATO ON THE TRADITIONAL DEFINITION OF KNOWLEDGE/PLATAO E A DEFINICAO TRADICIONAL DE CONHECIMENTO.

I

E comum atribuir a Platao a definicao tradicional do conhecimento como crenca verdadeira justificada. Para alguns interpretes e filosofos, (2) ocupando-se do conhecimento proposicional, aquele cujo conteudo e uma proposicao que enuncia um estado de coisas, Platao teria sido o primeiro na historia da Filosofia a propor a analise tripartite do conhecimento:

S sabe que p, se e somente se:

p e verdadeiro;

S acredita que p;

S esta justificado em acreditar que p.

Nessa concepcao de conhecimento, existem, pois, tres condicoes a serem satisfeitas por quem alegar conhecer alguma coisa: as condicoes de verdade, de crenca e de justificacao. O que e conhecido tem que ser verdadeiro; se e falsa a proposicao ou informacao p que S afirma conhecer, nao diriamos que S conhece, mas que esta enganado. Por verdade, geralmente se toma a relacao de correspondencia ou acordo entre o conteudo proposicional e o mundo; ou seja, e verdadeira a proposicao que descreve ou especifica determinados fatos no mundo tais quais eles sao, numa palavra, representa o que e o caso. Assim, por exemplo, se Socrates sabe que Menon e tessalio, deve ser o caso que Menon seja originario da Tessalia. A condicao de crenca exige, por sua vez, a adesao ou assentimento do conhecedor a sua crenca, isto e, a seu estado mental que representa um dado no mundo. Se Socrates alegar saber que Menon e tessalio, ele deve convictamente acreditar nisso, pois parece estranho que ele possa saber sem estar convencido ou subjetivamente certo da crenca que mantem. Tomadas, em geral, como condicoes necessarias, verdade e crenca nao sao, porem, consideradas condicoes suficientes para o conhecimento. O motivo e razoavelmente obvio: e dificil de aceitar como sendo conhecimento a crenca que, embora verdadeira, um individuo sustente como mera suposicao ou suspeita. Nao parece haver muitas pessoas dispostas a admitir que Socrates teria conhecimento que Menon e tessalio se Socrates aleatoriamente ou por simples suspeicao escolhesse a Tessalia entre as regioes possiveis para procedencia de Menon e por acaso acertasse. Desejamos saber quais os motivos, evidencias ou garantias teria Socrates para acreditar que Menon e tessalio para podermos lhe atribuir conhecimento. Via de regra se exige de quem alega conhecer que justifique por que acredita na verdade de sua crenca. A condicao de justificacao e satisfeita quando a crenca verdadeira e adequadamente justificada, garantida ou apoiada pelas evidencias. Essa garantia tem sido chamada de justificacao epistemica, claramente o conceito central na teoria do conhecimento contemporanea e que tem gerado um enorme debate no qual os epistemologos estao amplamente divididos na defesa de diferentes explicacoes para, sobretudo, a estrutura e os fatores de justificacao. Em suma, a epistemologia contemporanea se ocupa prioritariamente (para nao dizer exclusivamente) com o conhecimento proposicional. Geralmente, se assume que "S sabe que p" significa que S acredita na verdade da proposicao p apoiado nas justifica coes epistemicas apropriadas; e entao se discute o que e estar justificado.

Nao parece caber duvida que, chamando a atencao a diferenca entre conhecimento e crenca ou opiniao, (3) Platao tenha contribuido para o debate moderno sobre a natureza do conhecimento. Mas se, por um lado, e certo que, na concepcao platonica, para ter conhecimento de uma coisa um individuo deve ter em mente ou acreditar na verdade desta coisa e dispor de boas razoes e evidencias para sua crenca; por outro lado, e preciso evitar anacronismos e ao lado de similaridades perceber tambem as diferencas a fim de nao colocar no mesmo contexto conceitual posicoes filosoficas que pertencem a contextos distintos. Divergindo da tradicao interpretativa segundo a qual a definicao tradicional de conhecimento pertence a Platao, pretendo mostrar que, nos dialogos, Socrates nao considerou o conhecimento como um tipo especial de crenca ou opiniao cujas condicoes de justificacao dada por crencas adicionais se deveriam estabelecer. Defenderei que o conhecimento que Socrates diferencia da opiniao ou crenca verdadeira nao e do tipo S sabe que p (e o caso), onde p representa uma proposicao; mas que se trata, fundamentalmente, de um poder ou capacidade para conhecer o que (e), cujo conteudo e uma coisa, uma essencia ou Forma. (4) O processo para se obter esse conhecimento envolve, e claro, o uso de crencas e proposicoes; mas sem que o cognoscente obtenha uma intuicao intelectual das Formas inteligiveis --os verdadeiros objetos do conhecimento na epistemologia platonica--que fundamente os discursos que pode fazer sobre o mundo, ele nao obtem conhecimento no sentido platonico do termo.

II

Focalizarei o dialogo platonico Menon, cuja passagem 97b-98c tem sido frequentemente tomada como a fonte da definicao tradicional de conhecimento. O Menon marca um ponto de transicao nos escritos de Platao. Se, de uma parte, ele se assemelha aos dialogos aporeticos da primeira fase apresentando uma investigacao inconclusiva sobre um conceito etico, de outra parte, o Menon introduz novidades e temas que serao proeminentes no estagio de maturidade de Platao, tais como o interesse pela matematica, a teoria da reminiscencia e a distincao entre conhecimento e opiniao verdadeira.

A questao inicial do dialogo, posta abruptamente pelo personagem Menon, foi se a virtude pode ser ensinada. Socrates converte essa pergunta na questao sobre a natureza da virtude, "o que e a virtude?", pois, de acordo com Socrates, o conhecimento das propriedades de uma coisa depende do conhecimento de sua essencia. Sabendo-se o que e a virtude, se sabera se ela e ensinavel ou se adquirida pela pratica ou se um dom natural ou quais outras qualidades venha a ter; analogamente, em se sabendo quem e Menon se podera saber se e rico, belo, grego e outros atributos que aconteca de possuir. Apos algumas tentativas falhadas para definir a virtude, Menon se sente confuso e entorpecido pela capacidade de Socrates--comparado a "raia eletrica" (80a)--para solapar suas respostas. Como em revanche, quando requisitado a recomecar a investigacao sobre a natureza da virtude, ele suscita um intrigante desafio.

Menon: E de que modo procuraras, Socrates, aquilo que nao sabes absolutamente o que e? Pois procuraras propondo-te <procurar> que tipo de coisa, entre as coisas que nao conheces? Ou, ainda que, no melhor dos casos, a encontres, como saberas que isso <que encontraste> e aquilo que nao conhecias? (80d, trad. M. Iglesias)

Assim, segundo Menon, quem pretende examinar a natureza da virtude ou qualquer outro assunto deve enfrentar o problema concernente a propria possibilidade da investigacao: pesquisar parece impossivel, pois como alguem pode investigar o que de modo algum nao sabe o que e? E mesmo que venha a cruzar com a desconhecida coisa buscada, como ira reconhece-la? Socrates identifica este desafio (conhecido como "Paradoxo de Menon" ou "Paradoxo da investigacao") com o argumento eristico que visa a impedir toda investigacao e, consequentemente, o aprender. Na formulacao que dele Socrates apresenta, investigar seria inutil ou impossivel porque se uma pessoa conhece, nao ha necessidade de procurar pelo que ela conhece; e se ela nao conhece nao sabera o que procurar. Ele toma este argumento seriamente --pois se for valido e seguro, poe em grave perigo o proprio elenchos, e a busca socratica por definicoes e pelo conhecimento moral, em vez de uma investigacao filosofica seria sobre quais conhecimentos perseguir para bem viver, nao deveria passar de mera conversa fiada. Socrates ira enfrentar o desafio de mostrar nao somente que pesquisar e possivel, mas tambem necessario para quem busca melhorar a si mesmo. Assim, contra Menon, ele se esforcara para provar que nossas investigacoes dizem respeito as coisas que, em diferentes sentidos, conhecemos e nao conhecemos. Inquirir e descobrir sao, de fato, rememorar verdades previamente conhecidas. Tal e a chamada teoria da reminiscencia ou Anamnesis, que Socrates baseia, por sua vez, na doutrina religiosa da imortalidade da alma humana e suas sucessivas reencarnacoes:

[Socrates falando] Sendo entao a alma imortal e tendo nascido muitas vezes, e tendo visto tanto as coisas <que estao> aqui quanto as <que estao> no Hades, enfim todas as coisas, nao ha o que nao tenha aprendido: de modo que nao ha nada de admirar, tanto com respeito a virtude quanto ao demais, ser possivel a ela rememorar aquelas coisas justamente que ja antes conhecia. Pois sendo a natureza toda congenere e tendo a alma aprendido todas as coisas, nada impede que, tendo <alguem> rememorado uma so coisa--fato esse precisamente que os homens chamam aprendizado--, essa pessoa descubra todas as outras coisas, se for corajosa e nao se cansar de procurar. Pois, pelo visto, o procurar e o aprender sao, no seu total, uma rememoracao. (81c-d, trad. M. IGLESIAS)

Enquanto o argumento de Menon implica uma concepcao de conhecimento como um tudo-ou-nada, portanto, sem admitir graus, a resposta que Socrates oferece pressupoe a presenca de conhecimentos latentes na alma que podem gradualmente ser recobrados pelo processo de rememoracao. Socrates tenta provar essa teoria por meio de uma demonstracao dramatica, isto e, atraves de um experimento pratico com um escravo de Menon que, apenas assistido por uma interrogacao adequada e por diagramas tracados na areia sob seus pes, resolve o problema geometrico de como duplicar a area de um quadrado que mede quatro pes. Submetido ao metodo socratico de questionamento, o escravo segue tendo seus erros eliminados e verdades que possuia na alma sendo extraidas, ou seja, o metodo socratico provoca-lhe rememoracao. Por esse processo de questionar, e nao ensinar, o escravo e preparado para finalmente chegar a solucao do problema em tela. Socrates traca um quadrado maior de dezesseis pes ao adicionar ao quadrado original tres outros iguais, e entao leva o escravo a perceber que dividindo cada quadrado pela diagonal eles obtem o quadrado de oito pes que procuravam. No fim do experimento Socrates destaca, porem, que o escravo ainda nao atingiu o conhecimento da demonstracao geometrica em questao, mas porque ele conhece verdades que sempre estiveram em sua alma, foi capaz de trazer a lume opinioes verdadeiras, as quais provocadas pelo questionamento podem se tornar conhecimentos. E esta recuperacao de conhecimento e rememoracao (Men. 86a-b).

Uma variedade de interpretacoes tem sido apresentada para explicar tanto a teoria quanto o experimento. Esclarecer este approach inovador do Menon ao problema do conhecimento nao e facil. Um ponto, porem, parece suficientemente claro: achamos articulado aqui, pela primeira vez na historia da filosofia, a concepcao de conhecimento a priori que e posto como condicao para pesquisa e descoberta ulterior. Atraves da conversa com o escravo, Socrates mostra "o poder humano de raciocinar, e a habilidade de uma pessoa expandir seu conhecimento partindo de dentro de si mesma" (Brown, 2005, p. 23). Conforme toda probabilidade, alegando haver conhecimento pre-natal dentro de nos, Socrates esta se referindo a capacidade humana inata de aprender ou vir a ter conhecimento atual. Nesse sentido, e privada de efeito a objecao contra a teoria da reminiscencia de acordo com a qual a reminiscencia implica um regresso ou circularidade por explicar a possibilidade de aprender apelando a um outrora aprendido conhecimento pela alma desencarnada. O proprio Socrates ja deixou duas respostas possiveis: ou a alma conhece as verdades desde sempre (Men. 85d10), ou entao esta em um eterno aprender sem necessidade de inquirir e rememorar (Men. 86e9)--o que parece ser a resposta mais plausivel quando pomos em linha esta secao do Menon com a exposicao da teoria da reminiscencia no Fedon (72e-78b) e no Fedro (249e-250c). Faz parte da condicao cognitiva humana, Socrates alega, a presenca de certos conhecimentos inatos. Respondendo, entao, a objecao quanto a possibilidade da investigacao, o filosofo sustenta que todo conhecimento novo e possivel ser obtido gracas a posse de conhecimentos previos.

Mas o que Socrates quer dizer com a palavra anamnesis neste dialogo? O texto nao e suficientemente descritivo da natureza da rememoracao, o contexto porem tem sido tomado como sugestivo do entendimento da anamnesis como ou "associacao de ideias" (Bluck, 1961, p. 9.), ou "inferencia" (Allen, 1959, p. 166-167), ou "qualquer avanco em entendimento que resulte da percepcao de relacoes logicas" (Vlastos, 1994, p. 97). Uma evidencia apontada pelos interpretes para a nocao de conexao de ideias e o principio da congeneridade da natureza. Junto com a declaracao de que os objetos da rememoracao sao o mesmo tipo de coisa, este principio afirma que ao relembrar uma coisa particular a alma pode descobrir todo o resto por si mesma, o que tem sido considerado como indicacao de que a anamnesis concerne a objetos do conhecimento baseado na necessidade logica, ou seja, e uma teoria valida somente para proposicoes cuja verdade e assegurada pela necessidade logica sistematica; consequentemente, ela nao inclui em seu escopo conhecimentos baseados na experiencia cujos objetos sao questoes de fato contingentes. Em outras palavras, a reminiscencia nao explica conhecimento informacional tais como a data de um evento historico, dados de quimica ou botanica. Estes sao fatos que temos de aprender a partir de nossa propria experiencia do mundo exterior ou contando com a autoridade de outra pessoa. A teoria da anamnesis tem a ver somente com o conhecimento a priori de verdades universais e intemporais, isto e, o tipo de verdade que parece de alguma maneira surgir de dentro de nos de modo que podemos descobri-la por nos mesmos (Guthrie, 1956, p. 109). E porque estas verdades parecem formar uma estrutura necessaria, da qual ele tem uma apreensao inata, que o escravo consegue descobrir a solucao do problema geometrico e e capaz de passar de suas opinioes verdadeiras ao conhecimento.

O Menon parece neutro quanto a natureza das coisas que sao objetos do conhecimento a priori (5) (os unicos exemplos de objetos do conhecimento pre-natal sao as verdades matematicas e, por analogia, a buscada natureza da virtude--realidades afins no pensamento de Platao). No Fedon, porem, e evidente que os objetos da rememoracao sao as Formas platonicas. A anamnesis e introduzida neste dialogo do periodo intermediario como uma prova da imortalidade da alma. Dado haver certas Formas inteligiveis, entidades eternas, imutaveis, existente em si e por si--o Bem em si, o Igual em si, a Saude etc.--e separadas dos particulares sensiveis, que sao um palido reflexo daquelas; e dado que estas Formas nao podem ser conhecidas diretamente pela percepcao sensivel, Platao concebeu a necessidade de a alma ser imortal para explicar como e possivel termos conhecimento das Formas. Antes de encarnar, a alma humana apreendeu os objetos metafisicos do conhecimento, por isso ela pode passar da imperfeicao do mundo fisico a perfeicao do inteligivel, ou seja, e capaz de rememorar as Formas a partir de suas manifestacoes empiricas. A teoria da reminiscencia desempenha, assim, o papel crucial de preencher o gap entre a realidade sensivel e o inteligivel. A teoria da reminiscencia e a teoria das Formas, como se tem destacado, se mantem juntas e inseparaveis.

Mas, no Menon, a falta de mencao explicita a teoria das Formas permite dizer que sao apenas proposicoes as coisas lembradas no processo de reminiscencia, e, assim, neste dialogo, Socrates tem se ocupado somente com o conhecimento proposicional? Ou devemos admitir que a reminiscencia implica outra forma de cognicao que nao e exatamente de entidades linguisticas e que se coloca como condicao para outros conhecimentos? Essas perguntas nos dirigem a celebre distincao entre opiniao verdadeira e conhecimento avancada por Socrates.

III

A distincao entre opiniao verdadeira e conhecimento havia sido insinuada na avaliacao de Socrates do processo de rememoracao desenvolvido pelo escravo; mas so proximo ao fim do dialogo ele busca esclarece-la. Tendo estabelecido que a virtude nao e ensinavel e, portanto, nao e conhecimento, (6) Socrates revisa a tese de que somente por acao do conhecimento (episteme) o homem pode ser bem-sucedido e obter o beneficio das coisas. No que concerne a acao e a conduta, a opiniao correta (orthes doxa) pode ser tao bom guia quanto o conhecimento. Assim, por exemplo, tanto quem tem opiniao correta quanto quem conhece o caminho para Larissa por te-lo percorrido, pode cada qual ser um excelente guia. Menon, porem, ressalta que embora possam ser equivalentes do ponto de vista pratico, ha entre a opiniao verdadeira e o conhecimento uma distincao teorica, e solicita a Socrates explicar "por que afinal o conhecimento e muito mais valorizado do que a opiniao correta e em que um e diferente do outro" (97d, trad. M. Iglesias, modificada). Uma analogia e introduzida para auxiliar na resposta. As estatuas de Dedalo, como um escravo fujao, se soltas nao tem grande valor; encadeadas, porem, sao obras belas. Com as opinioes verdadeiras (tas doxas tas aletheis) se passa algo semelhante:

[Socrates falando] as opinioes que sao verdadeiras, por tanto tempo quanto permanecam, sao uma bela coisa e produzem todos os bens. So que nao se dispoem a ficar muito tempo, mas fogem da alma do homem (drapeteuousin ek tes psyches tou anthropou, 98a2), de modo que nao sao de muito valor ate que alguem as encadeie por um calculo de causa (desdei aitias logismoi). E isso, amigo Menon, e a reminiscencia, como foi acordado entre nos nas coisas ditas anteriormente. E quando sao encadeadas, em primeiro lugar, tornam-se conhecimentos (epistemai gignontai), em segundo lugar, estaveis. E e por isso que o conhecimento e de mais valor que a opiniao correta, e e pelo encadeamento que o conhecimento difere da opiniao correta (kai diapherei desmoi episteme orthes doxes). (97e-98a. trad. M. Iglesias, modificada)

Curiosamente, Socrates trata como conjectural a explicacao que acaba de apresentar para a diferenca entre opiniao verdadeira e conhecimento.

Alega, no entanto, que das poucas coisas que diria saber, uma delas e que a opiniao verdadeira "e algo de tipo diferente do conhecimento" (estin ti alloion orthe doxa kai episteme, 98b2). (7)

Do contraste aqui entre opiniao verdadeira e conhecimento, claramente se destacam as seguintes diferencas: o conhecimento e algo estavel e permanente; a opiniao verdadeira e algo instavel e tende a ser substituida; o conhecimento possui um componente a que deve sua estabilidade; a opiniao verdadeira e uma cognicao incompleta; o conhecimento e muito mais estimado que a opiniao verdadeira. A instabilidade e impermanencia da opiniao verdadeira respondem por sua inferioridade em comparacao ao conhecimento. Enquanto o conhecimento implica certeza e, assim, torna o conhecedor seguro do que sabe, a opiniao correta, deficitaria de certeza, e normalmente mais facil de ser abandonada, vale dizer, quem simplesmente acredita, sem conhecer, esta muito mais suscetivel de duvidar e de trocar de crencas.

Mas qual, afinal, e a natureza da diferenca entre conhecimento e opiniao verdadeira? Essa questao pode ser desdobrada nas seguintes perguntas: 1) ha uma linha de continuidade entre um e outro fenomeno cognitivo ou devem ser tomados como categoricamente distintos? 2) Como compreender o componente na presenca do qual uma opiniao verdadeira se converte em conhecimento, isto e, o fato de ser aprisionada pelo aitias logismos?

1) A possibilidade de se converter opiniao verdadeira em conhecimento foi sugerida na secao sobre a reminiscencia. Como vimos, no dialogo com o escravo, Socrates extraiu opinioes verdadeiras de seu interlocutor que ainda lhe apareciam de maneira pouco clara, "como num sonho". Socrates, porem, salienta que se "alguem lhe puser essas mesmas questoes frequentemente e de diversas maneiras, bem sabes que ele acabara por ter conhecimento sobre estas coisas nao menos exatamente que ninguem" (85d, trad. M. Iglesias, modificada). O sentido dessa observacao foi assim interpretado por BLUCK:
   The idea seems to be that although the slave has to some extent
   grasped each step of the argument, he would need to go over the
   whole working many times and in many different ways before he
   grasped each step fully and before he grasped the relationship
   between the steps and appreciated the argument as a whole, so as to
   see for himself why the results reached must be correct. This is
   now to be understood as 'working out the cause', a procedure to be
   accomplished by further 'recollection', and culminating in the
   attainment of inner conviction. Similarly the conversion of any
   [phrase omitted] into [phrase omitted] can be effected only by
   [phrase omitted], and we may probably take it that the [phrase
   omitted] which has to be understood is in all cases, as in that of
   the slave, the whole chain of reasoning by which the [phrase
   omitted] concerned may be deduced; and the work involved will
   always be a process of recollecting. (1961, p. 31-32)


Nessa leitura, o cognoscente tem convertida sua opiniao verdadeira em conhecimento quando compreende clara e distintamente a cadeia de raciocinio que necessariamente conecta suas crencas umas as outras, reconhece o conjunto dos passos dados no processo descobrindo, desse modo, por que suas crencas sao corretas e assegurando-se de que devem ser mantidas.

Mas e o conhecimento um tipo de crenca? A resposta para essa questao depende de como se interpreta o "tornarem-se" (gignesthai) as opinioes verdadeiras conhecimentos. Conforme certa linha interpretativa, o processo que leva ao conhecimento comeca com opinioes verdadeiras para terminar em conhecimentos; alcancando o conhecimento a partir de crencas que eram verdadeiras, o individuo passa para outra forma de cognicao. Assim compreendido, quando alguem atinge o conhecimento, este toma o lugar da opiniao verdadeira, que entao desaparece.

Frontalmente em oposicao a essa interpretacao, Gail Fine argumenta que o conhecimento e uma especie de crenca. Segundo Fine, quando apropriadamente atadas com o aitias logismos, as crencas verdadeiras ganham a propriedade de ser conhecimento, mas nao perdem por isso a propriedade de ser crenca verdadeira, como uma estatua de Dedalo nao deixaria de ser uma estatua se amarrada. O "tornar-se" e usado para indicar uma mudanca qualitativa, nao de existencia: crencas verdadeiras adquirem as novas propriedades de ser conhecimento e de ser estaveis, sem com isso cessarem de ser crencas. Fine afirma que, se conhecimento excluisse ou nao implicasse crenca verdadeira, isto e, houvesse caso de conhecimento que nao fosse ao mesmo tempo de crenca verdadeira, teriamos uma diferenca muito importante entre crenca verdadeira e conhecimento para Platao nao ter salientado. Ter uma crenca verdadeira atada pelo aitias logismos, segundo Fine, nao e somente uma condicao suficiente, mas tambem necessaria para o conhecimento; e sendo assim, ela pensa, nesta secao do Menon Platao esta oferecendo a definicao do conhecimento exatamente como uma crenca verdadeira que e atada com um aitias logismos. Fine entao conclui que Platao toma o conhecimento como nao apenas implicando, mas sendo uma especie de crenca (Fine, 2004b, p. 51-55).

A meu juizo, nao ha razoes para supor que Socrates negasse que uma pessoa pudesse continuar a acreditar com verdade naquilo que veio a conhecer, no sentido de estar comprometida com essa verdade. Mas parece haver problema em supor que a conjectura de Socrates afirma que o conhecimento seja uma subclasse de crencas, ou seja, as crencas verdadeiras estabilizadas pelo aitias logismos. Quando, paginas antes, Socrates declara que as crencas verdadeiras do escravo que foi submetido ao exercicio de geometria podem se tornar conhecimentos (epistemai gignontai, 86a8) mediante o questionamento apropriado, nao esta dizendo que o processo por que o escravo passa o leva a atingir um tipo especial de crenca, que se chamara conhecimento. Como indicado na analogia do caminho de Larissa, introduzida para ilustrar a diferenca entre quem tem conhecimento e quem detem apenas opinioes verdadeiras, conhecer nao e uma questao de justificar crencas. Conhece o caminho de Atenas para Larissa o individuo que ja o percorreu; enquanto a pessoa mantiver somente doxai mas sem ter a experiencia de ter feito o percurso, nao o conhecera. O paralelo com a analogia do tribunal no Teeteto (201b-c) e evidente: de um roubo ou outro delito, apenas pode saber aquele que e testemunha ocular do crime cometido. Ainda que um orador competente persuada corretamente da verdade do ocorrido, o juiz so adquire opiniao verdadeira sobre o fato, nao conhecimento. Ambas as analogias indicam que a marca distintiva do conhecimento e um contato pessoal com a verdade. Parece correto supor, com Bluck, que esta 'experiencia pessoal' e responsavel pela natureza permanente do conhecimento, por oposicao a natureza fugaz da opiniao verdadeira. "Ela produz certeza". BLUCK escreve:
   Since the transition from true opinion to knowledge is achieved by
   recollection, and the theory of recollection requires, as we have
   seen, that what is recollected must have been known by the soul
   before birth, these analogies, when translated into terms of a
   priori knowledge, may be interpreted to mean that the man with
   knowledge has virtually renewed his pre-natal 'personal
   acquaintance' with the truth: he has had another 'vision' of it
   which, though not so clear, perhaps, as that which he enjoyed 'when
   he was not a man', is yet vivid as direct. This differentiates his
   state of mind from that of the [phrase omitted], who may have
   achieved a measure of recollection, but so little that his opinions
   are unstable, and capable of being dispelled by the persuasion of
   someone else. [...] [phrase omitted] is certainly something about
   which the [phrase omitted] feels no burning personal conviction;
   and in that way, at any rate, its inferiority to [phrase omitted]
   as a state of awareness of the a priori is analogous to the
   inferiority of second-hand information about empirical matters to
   the certainty of one who has learnt from personal experience (1961,
   p. 32-33).


Para Socrates, conhecer exige ir alem de ter opinioes, mesmo as mais corretas, apropriadamente adquiridas, justificadas e articuladas. E preciso que o cognoscente tenha uma evidencia em primeira mao, isto e, que ele saiba por si mesmo por ter tido contato direto com a verdade do objeto. A hesitacao que Socrates mostra ao apontar o aprisionamento da opiniao correta pelo aitias logismos como sendo a diferenca entre opiniao verdadeira e conhecimento, essa hesitacao pode provavelmente ser indicacao de que ele estava ciente da insuficiencia do aitias logismos como fator de conhecimento. A ser assim, no Menon, duas exigencias distinguem o conhecimento da opiniao verdadeira: o conhecimento requer do conhecedor um contato direto com a verdade e a capacidade de apresentar uma explicacao. Conhecimento e crenca verdadeira nao sao o mesmo tipo de fenomeno cognitivo.

2) Devemos nos voltar agora a segunda questao para tentar afastar de vez a tentacao de pensar que Platao, ao diferenciar o conhecimento da mera opiniao verdadeira recorrendo ao aprisionamento da opiniao com um "calculo de causa" esteja definindo o conhecimento proposicional, como contemporaneamente entendido. Cumpre agora prestar atencao ao sentido da criptica expressao "aprisionado pelo aitias logismos", a sua identificacao com a reminiscencia e sua funcao na obtencao do conhecimento, pois conforme a leitura adotada a concepcao de conhecimento platonica pode parecer mais aproximada ou mais distante da definicao discutida na epistemologia contemporanea. Sobre esse ponto, duas linhas interpretativas podem ser contrastadas; por comodidade, chamemos proposicionalista uma e intuicionista a outra.

De acordo com a leitura proposicionalista, constituindose unicamente de proposicoes, o conhecimento e definido no Menon como a crenca verdadeira que foi estabilizada por receber uma explicacao, o que envolve o processo de reminiscencia. Advogando essa ideia, D. SCOTT escreve:
   By appealing to the notion of explanation, Socrates makes the
   distinction between knowledge and true belief turn on the
   difference between grasping that something is the case and
   understanding why it is so; and it is the concept of understanding
   that gives the epistemology of the Meno its distinctive flavour, a
   concept that suggests grasping a body of propositions and seeing
   how they interrelate. This is especially clear if we think of
   mathematics, prominent in the Meno as a model for philosophy. Here
   the expert is one who has the ability to see how an entire body of
   propositions fits together into a system. Someone who lacks such
   understanding altogether would merely grasp isolated propositions
   in a piece-meal way. As we have seen, the importance of grasping
   interrelations ties in well with recollection: this involves
   following an ordered sequence of reasoning (82e12-13), which of
   course requires that one grasp the connections between different
   propositions. Recollection will culminate in the synoptic mastery
   of a whole domain [...]. The interest in synoptic understanding
   dovetails with Socrates' emphasis on stability. One will have a
   greater commitment to holding a proposition if one understands how
   it connects with a number of others. To cease holding it would have
   considerable knock-on consequences for one's epistemic commitments
   elsewhere. By contrast, someone who only grasped a proposition in
   isolation has little to give up if, under persuasion (for
   instance), they decide to change their minds. Their less systematic
   approach allows for greater fluidity (2005, p. 179).


Na linha interpretativa de Fine, Scott considera que as nocoes de entendimento (8) e explicacao nao substituem as ideias de conhecimento e justificacao. "Socrates esta interessado em conhecimento e justificacao, mas pensa que conhecimento requer entendimento e justificacao requer explicacao", posto que, de acordo com Scott, Socrates teria pensado que "entender uma crenca ajuda a prende-la dentro de um sistema mais amplo, assim lhe dando estabilidade. Atraves da explicacao se adquire uma razao para continuar a sustentar uma crenca." (Ibid. p. 185). Em sintese, na leitura de Fine-Scott, conhecer e ter um sistema de crencas coerente. A pergunta e se, para Socrates no Menon e em dialogos posteriores, (9) a coerencia interna do sistema de crencas e condicao suficiente para alguem ter conhecimento. Minha resposta e negativa, por razoes ja acima indicadas e pelo tentarei esclarecer adiante. Mas antes vejamos a intepretacao intuicionista.

A leitura intuicionista, para a qual conhecimento e ou requer uma apreensao imediata do objeto, nao endossa a tese de que converter uma opiniao verdadeira em conhecimento pelo aitias logismos signifique o processo de encadear todo um conjunto de crencas verdadeiras em um sistema coerente. Para alguns intuicionistas, como uma "intuicao das Formas" (insight into the Forms) (Gould, 1955, p. 138), ou uma "intuicao da causa" (insight into cause) (Hoerber, 1960, p. 94), o aitias logismos "consiste em elevar o objeto de cognicao de particulares para as Formas", e em relacionar um caso particular a sua Forma correspondente, como o efeito a causa (Gould, 1955, p. 139; Hoerber, 1960, p. 94). Essa compreensao, alegam, e confirmada pela identidade do aitias logismos com a reminiscencia. Conforme a teoria da anamnesis, aprender ou adquirir conhecimento e, na realidade, a alma relembrar os conhecimentos previamente obtidos. Posto que tudo na natureza esta relacionado, lembrada uma verdade essencial, a alma pode progredir atraves da natureza [i. e, o todo da realidade] ate recapturar o todo; este progresso atraves da natureza e o rastreamento da relacao entre particulares e Formas (e talvez entre as proprias Formas). "anamnesis e aitias logismos sao identicos porque ambos consistem em mapear a relacao dos fatos dentro da estrutura esquematica do universo. Esta relacao e ela mesma 'causa' suficiente, e o mapeamento dela fornece a 'cadeia de raciocinio causal'" (GOULD, 1955, p. 139). Tal e a intepretacao de Gould, que nao me parece esclarecer muito bem como o aspecto intuitivo implicado no conhecimento se articula com a nocao de rastrear interrelacoes.

Penso que Lloyd Gerson articula de modo mais convincente a acquaintance pessoal (indicada pela analogia do caminho para Larissa) com a "descoberta da explicacao" (figuring out of the explanation) e a reminiscencia. A habilidade para dar uma explicacao nao e toda a resposta a pergunta sobre a diferenca entre quem conhece e quem tem apenas crencas verdadeiras, digamos, sobre o caminho para Larissa, pois a habilidade para explicar "e resultado do conhecimento pressuposto, nao o proprio conhecimento". A questao realmente importante nao e que haja uma explicacao do porque ou da causa de x ser o caso, mas a pessoa conhecer a explicacao correta. Escreve L. GERSON:
   Presumably, the true belief that the explanation is the
   right one would not be enough, since we were supposing
   that the way one is related to the explanation is what
   differentiated knowledge from true belief. One who binds
   the true belief by figuring out the explanation is a knower.
   She understands why the true belief is true. In Platonic
   terms, the explanation for the truth of a true belief is to
   be found in the nature or essence (ousia) owing to which
   something is correctly said to be or to possess an instance
   of that essence. The puzzle about the identification of
   recollection with binding of the true belief by figuring out
   the explanation is solved, at least in part, if we suppose
   that the knowledge of the essence is here not simply the
   acquaintance with it, but the acquaintance with it as
   the source of the explanation. One who recollects can
   'see' why a true belief is true. [...]. On the one hand, the
   tendency to identify what is known with what is truly
   believed is natural if, as in the example of the road to
   Larissa, the knowledge or belief could be expressed in a
   single true proposition. On the other hand, the doctrine
   of recollection introduced in Meno (and developed further
   in Phaedo) does not assume that what we knew prior to
   the act of recollecting is identical to what it is we aim to
   have a true belief about, even if what we recollect does
   explain why our belief is true. Some contemporary scholars
   have claimed that it is a fallacy for Socrates to assume
   that knowing what F is necessary for having confidence
   in one's beliefs about instances of F. It would indeed seem
   so if the knowledge of F had as its 'content' the identical
   proposition that one had when one had a true belief about
   an instance of F. That which some scholars take to be a
   fallacy, Plato apparently took to be a paradox resolvable
   by the doctrine of recollection. So, 'having' the explanation
   for the truth of a true belief can be entailed by having
   knowledge without that knowledge being of what the true
   belief is true of. Nor does it follow that if the true belief is
   justified on the basis of the knowledge, then the justified
   true belief is itself knowledge (2009, p. 29-30).


Endosso a intepretacao de L. Gerson. Ele alude ao fato, crucial para distinguir a epistemologia platonica da moderna, que o conhecimento com o qual, prioritariamente, se ocupa Socrates nos dialogos nao e da forma "S sabe que p", mas "S sabe (ou busca saber) o que e p". Ou seja, o conhecimento definicional que apreende a natureza ou essencia das coisas; essencias que, como e notorio, recebem status de Forma inteligivel. Sem adentrar na polemica sobre a presenca ou ausencia das Formas no Menon, (10) cumpre lembrar que neste dialogo a teoria da reminiscencia foi introduzida para responder ao desafio de Menon e explicar como podemos identificar ou investigar a natureza das coisas, isto e, buscar descobrir essencias tal como a da virtude (Kaplan, 1985, p. 352). Estas essencias foram diretamente conhecidas pela alma, a qual tinha visto (heorakyia) todas as coisas, tanto as sensiveis quanto as inteligiveis, com as quais compartilha a natureza. (11) E essa co-naturalidade da alma com a natureza (o todo do real) que permite compreender por que as essencias se lhe apresentam. Aparentada e familiar com as Formas, a alma e capaz de encontrar em si a causa ou o porque algo e assim, x e o caso. Assim, quando o escravo finda por descobrir, mediante interrogacao adequada e observacao de quadrados desenhados na areia, que a diagonal e a linha a partir da qual se duplica a area de um quadrado, ele atinge uma crenca verdadeira (acredita que p e verdade), mas se fundamentar essa crenca com a "reflexao da causa" (aitias logismos), vale dizer, com o processo de raciocinio que o levara a visao do quadrado em si, (12) isto e, a rememorar o conhecimento do que e o quadrado e suas propriedades, sabera explicar (didonai logon) por que e a diagonal e nenhuma outra a linha que se deve utilizar para se duplicar a area do quadrado. Nao se trata, pois, de apenas rememorar a proposicao [h.sup.2] = [a.sup.2] + [b.sup.2], mas o conhecimento em que ela se baseia. O conceito platonico de conhecimento e imune ao "problema de Gettier": o conhecedor platonico teria uma apreensao infalivel da verdade do objeto; assim, sua evidencia, justificacao ou razao (ou como se possa chamar) para acreditar com verdade jamais se daria por acidente nem admitiria inferencias a partir de crencas falsas.

A compreensao que aqui advogo da diferenca entre opiniao verdadeira e conhecimento no Menon parece coerente com a distincao feita na Republica V (476e7-479e1) entre doxa e episteme com referencia a seus poderes (dynameis), objetos, e funcoes. Conhecimento e opiniao sao definidos como poderes que se distinguem em virtude dos objetos aos quais se aplicam e funcao que realizam. Relacionado com o que e totalmente real (to pantelos on) e, ipso facto, com o absolutamente cognoscivel (pantelos gnoston), o conhecimento apreende de maneira infalivel "o que e como e" (gnonai hos esti to on), ou seja, as Formas inteligiveis que permanecem em sua identidade propria. Ja a opiniao se relaciona com o aparente ou opinavel (doxaston), a realidade intermediaria entre o ser e o nao ser, configurando-se como uma cognicao falivel e instavel a semelhanca das entidades sensiveis as que concerne. O estado cognitivo gerado pelo poder de conhecer e conhecimento claro e seguro das essencias, por exemplo, do Belo em si; com esse conhecimento, o filosofo percebe com toda evidencia que para alem das muitas coisas belas existe a Forma do Belo que e causa da beleza do que quer que seja chamado belo. Em contraste, o estado cognitivo produzido pelo poder de opinar e a opiniao que, entre a obscuridade da ignorancia e clareza do conhecimento, se circunscreve a multiplicidade sensivel de coisas belas, justas etc. Os amigos da opiniao nao reconhecem estas coisas como casos particulares das Formas correspondentes, por isso nao conhecem as coisas sobre as quais opinam, logo nao sendo capazes de explicar o que acreditam. (13)

Se nessa secao da Republica falta a declaracao, presente no Menon, que seria possivel converter a opiniao verdadeira em conhecimento por aduzir a causa ou explicacao da verdade da opiniao, a ultima parte do Teeteto examina detidamente a possibilidade de ser o conhecimento nada mais que a opiniao verdadeira acompanhada da explicacao ou logos (alethes doxa meta logou). A aparentemente mais promissora tentativa de definir o conceito de explicacao no final do Teeteto (208c-210a) identificou o logos com a apreensao da diferenca que especifica o objeto sob investigacao distinguindo-o de tudo o mais. A proposta foi, porem, abandonada, pois implicava a circularidade de que para uma pessoa conhecer, ela ja devia ter o conhecimento da diferenca que se acrescentaria a opiniao correta, uma exigencia que, no argumento do Teeteto, infringe a logica da definicao por requerer que o definiendum apareca no definiens (conhecimento e uma opiniao correta acompanhada de conhecimento); e assim a busca da definicao da episteme se conclui aporetica. Essa derradeira proposta de definir logos poderia, provavelmente, ter sido salva se fosse explicada a aquisicao e a recordacao do conhecimento da diferenca que relacionado a opiniao verdadeira produziria conhecimento. Se Socrates tivesse recorrido a existencia das For mas e a tese conexa da rememoracao delas, (14) como feito abertamente no Fedon, nao seria problema a exigencia de conhecer para aduzir uma explicacao. A passagem da opiniao verdadeira ao conhecimento depende de uma apreensao das Formas inteligiveis, apreensao que, conforme sugere a metafora da luz e visao expressa na analogia do Sol e da Caverna na Republica, se daria como uma especie de visao intelectual e contato direto final, fenomeno que nao tomaria lugar sem o trabalho da dialetica, a qual opera com conceitos e proposicoes. E essa apreensao que permite um individuo nao so acreditar na verdade de uma opiniao, mas tambem aduzir sua explicacao e estar seguro de que se refere ao objeto intencionado.

IV

Para bem ou para mal a nocao platonica de conhecimento nao se identifica com a nocao de crenca verdadeira justificada debatida na epistemologia contemporanea. O fato de que Platao tenha insistido em distinguir conhecimento de opiniao verdadeira nao autoriza atribuir-lhe a primeira formulacao da analise tripartite do conhecimento. A atribuicao da definicao tradicional de conhecimento ao autor dos dialogos, alem de anacronica dificulta compreender nos proprios termos de Platao seu conceito de conhecimento. Se Platao exigiu do conhecedor a capacidade de dar uma explicacao (didonai logon) daquilo que conhece, nao defendeu que isso se faria mediante crencas adicionais; fosse o caso, nos dialogos Socrates teria de encarar uma questao que ele nao se colocou: o regresso na cadeia das crencas justificadoras, vale dizer, como se estrutura a justificacao. (15) Certamente a explicacao/ logos que torna a crenca verdadeira conhecimento deve ser expressa num conjunto coerente de proposicoes, mas ao mesmo tempo--como interpreto--o conhecedor deve ter uma experiencia nao-doxastica na qual assentar seu sistema de proposicoes verdadeiras. A metafisica dos dois mundos (aqui tomada apenas como afirmacao de que existem Formas inteligiveis e particulares sensiveis que as emulam) contudo evidencia que o conhecimento do qual Socrates se ocupou foi aquele definicional, saber o que e, conhecimento da essencia que se recobra com um processo pelo qual a mente passa de imagens e representacoes, sensoriais e linguisticas, para a propria realidade. Enfim, a concepcao platonica do conhecimento nao e aquela do conhecimento proposicional como crenca verdadeira justificada. Para Platao, conhecimento se constitui como um poder (dynamis), isto e, uma capacidade de gerar episodios cognitivos em que o conhecedor percebe a verdade de maneira clara, adquirindo certeza e sendo capaz de produzir uma explicacao de sua percepcao. Platao parece haver reconhecido que crencas verdadeiras--justificadas ou nao--tem seu valor e utilidade quando se trata de descrever certos fatos ou objetos no mundo sensivel, assim como orientar nossas acoes. Porem, como elas ainda nao apreendem "o que e como e", ou seja, nao conhecem a verdade de forma clara, infalivel ou segura, nao sao o que e conhecer no sentido platonico do termo.

DOI: https://doi.org/10.14195/1984-249X_23_6

(ENDNOTES)

(1) Expresso meus agradecimentos a CAPES pelo financiamento do estagio senior que realizei no Lewis and Clark College (EUA) no periodo de 09/2015 a 08/2016. O presente artigo resulta das pesquisas desenvolvidas durante este estagio.

(2) Dentre outros, compoem o numeroso grupo de epistemologos que tomam acriticamente as passagens do Men., 97b-98c e/ou do Tht., 201c-d como a formulacao dessa definicao de conhecimento: E. Gettier (1963, p. 121, n.1), R. Chisholm (1989, p 90), D. Armstrong (1973, p. 137), P. Moser (2002, p. 4), F. Schmitt (1992, p. 11), L. M. Alcoff (1998, p. 7), A. Plantinga (1993, p. v), S. Bernecker (2006, p. 5), A. M. Luz (2013, p. 10, 18, 20). Sao mais cautelosos em atribuir a analise tripartite do conhecimento a Platao: M. Williams (2001, p. 17) e R. Audi (2005, p. 210); e decididamente negam que a definicao tradicional de conhecimento proposicional seja apresentada nos dialogos: M. Kaplan (1985, p. 351-353) e L. Zagzebski (1999, p. 114, n.18; 2009, p. 7). Dentre os interpretes de Platao, G. Fine (2004) e certamente a mais empenhada em identificar a nocao platonica com a nocao contemporanea do conhecimento proposicional; sua interpretacao e adotada, em parte ao menos, por D. Scott (2005) e F. Trabattoni (2010).

(3) O termo doxa e traduzido por crenca, opiniao e, as vezes, julgamento. A nocao fundamental expressa pela palavra doxa e aquela da maneira como uma coisa parece a uma pessoa. Crenca e opiniao serao, neste texto, usadas como sinonimos.

(4) Cf. Runciman (1962, p. 52); Bluck (1963, p. 260); Hintikka (1974, esp. p. 16-19, 36-43); White (1976, p. 177); Lehrer (1990, p. 1); Zagzebski (1999, p. 114, n.18).

(5) Isso porque, como entendo, Socrates focaliza o aspecto epistemologico do problema de como o homem pode vir a conhecer nao se atendo ao aspecto ontologico, o que implica, pelos padroes da filosofia platonica, uma analise parcial.

(6) Socrates assim argumenta: "[SO] Dir-te-ei, Menon. Isto e, o ser ela [a virtude] coisa que se ensina, se e realmente ciencia, <isso> nao retiro ser dito com justeza. Mas que ela seja ciencia, verifica se te pareco desacreditar com razao. Pois dize-me o seguinte. Se uma coisa qualquer, nao somente a virtude, e coisa que se ensina, nao e necessario que haja dela mestres e discipulos? [MEN] A mim parece que sim. [SO] E, por outro lado, inversamente, aquilo de que nao haja nem mestre nem discipulos, nao fariamos bem em conjecturar que nao e coisa que se ensina? [MEN] Assim e. Mas te parece nao haver mestres de virtude? [SO] O certo pelo menos e que, tendo eu frequentemente procurado se haveria mestres de virtude, fazendo de tudo, nao consigo encontrar" (89d-e, trad. M. Iglesias). E de fato surpreendente que logo apos argumentar para identidade da virtude com o conhecimento, fundamentada na utilidade e beneficio de ambos, Socrates argumente para rejeitar tal identidade, o que aparentemente faz dessa secao do Menon uma evidencia contraria a doutrina reconhecidamente socratica de que a virtude e conhecimento ou um tipo de conhecimento (cf. Platao Prt. 329c-334c; Euthd. 278e-282d; La. 186d-188a; Xenofonte Mem. III, 9; IV 6 et passim; Aristoteles EN III 8 1116b4-5; VI 13 1144b14-21). Mas como tipico dos dialogos platonicos, a superficie do texto pode estar dissimulando seu sentido mais profundo. A passagem nos parece ser mais bem interpretada como indicando que a virtude como popularmente entendida nao e o tipo de conhecimento suscetivel de rememoracao. Escreve corretamente SHARPLES (1985, p. 14): "true excellence depends on the sort of moral knowledge that can only be "taught" by facilitating its recollection, while excellence as popularly understood, not involving understanding of eternal truths, is not the sort of thing that could be recollected. Teaching as ordinarily understood, whether by a sophist or a parent, is therefore the only possibility for the transmission of popular excellence; but as experience shows--and this is where the ostensible conclusion of the dialogue comes in--it cannot in fact." Agradeco ao/a parecerista anonimo/a por chamar-me a atencao para este ponto.

(7) Como se ve, a hesitacao de Socrates nao e quanto a serem crenca verdadeira e conhecimento coisas distintas; sua duvida parece ser quanto ao que os torna diferentes, como se o aitias logismos nao fosse o bastante. Essa hesitacao, suponho, indica a carencia das Formas na explicacao da natureza do conhecimento.

(8) Existe um debate sobre se o conceito de episteme de Platao e mais bem compreendido como entendimento ou como conhecimento, nocoes que para os filosofos contemporaneos sao distintas. Penso que, para Platao, conhecer envolve tambem mas nao so o entendimento de relacoes de ideias. Acerca da distincao conhecimento e entendimento em Platao, cf. Moline (1981, cap. 1); Nehamas (1994, p. 241-245); Burnyeat (1990, p. 217); e Fine (2004b, p. 67-71).

(9) Nos dialogos anteriores ao Menon, Socrates utiliza o elenchos para revelar a inconsistencia no sistema de crencas do interlocutor e, desse modo, manifestar sua ignorancia. E intensamente disputado se o elenchos com a depuracao de contradicoes e presumidas crencas falsas produz conhecimento, configurando-se, entao, como um procedimento construtivo; ou se, de outro modo, ele e apenas um metodo nao-construtivo limitado, do ponto de vista logico, a apenas expor contradicoes. Com Nick Smith sugiro que a nocao de conhecimento com que Socrates se ocupou nos primeiros dialogos e mais bem compreendida como habilidade que como conhecimento proposicional, este e uma threshold notion--ou se sabe ou nao--, aquele admite gradacoes. Desse modo, tendemos a aceitar uma forma de construtivismo do elenchos no sentido de que e um metodo que torna uma pessoa mais competente a corrigir suas crencas. (Socrates on Knowledge, a ser publicado em Knowledge in Ancient Philosophy (N. Smith [ed.]; vol. 1. In: The Philosophy of Knowledge: A History. S. Hetherington [gen. ed.], 4 vols. Bloomsbury Press; forthcoming).

(10) Os interpretes estao em desacordo quanto a presenca das Formas neste dialogo. Para referencia a distintas posicoes, cf. Benson (2015, p. 78, n. 79).

(11) Adoto a traducao alternativa que Brisson (2007, p. 201-202) oferece da frase tes physeos hapases syngenous ouses, kai memathekyias tes psyches hapanta (81d1): "Dans la mesure oU l'ame est apparentee a la nature dans son ensemble et oU elle a appris toutes choses". Como explica BRISSON: "On retrouve ici l'idee que le semblable est connu par le semblable. Or comme l'ame occupe une position intermediaire entre le sensible et l'intelligible, elle est apparentee aux deux; c'est ce qu'indique l'expression tes physeos hapases (...) C'est parce qu'il y a une parente, c'estadire une relation forte entre l'ame et toutes les choses qui constituent la nature, sensibles ou intelligibles, qu'il lui est possible de toutes les connaitre.

(12) Com toda propriedade escreve Brisson (2007, p. 201): "On notera le parfait mematheken. Il y a donc equivalence entre "avoir vu" et "avoir appris". Tout processus d'apprentissage trouve son terme dans une connaissance qui est une intuition s'apparentant a une vision".

(13) Platao nao se compromete com a dita Teoria dos Dois Mundos, a implausivel tese de que nao se poderia ter conhecimento dos sensiveis nem opiniao sobre Formas. Bem entendido, o texto admite haver tanto crenca sobre as Formas quanto conhecimento dos sensiveis. Por exemplo, os amantes dos espetaculos acreditam na Forma do Belo quando se atem as suas multiplas manifestacoes empiricas sem saber que sao exemplos do Belo em si; enquanto o amante da sabedoria, o filosofo, conhece os sensiveis como imagens do inteligivel. Para diferentes repostas ao problema da Teoria dos Dois Mundos, cf. Fine (2004a, caps. 3-4); Gonzalez (1996); Smith (2000); Marques (2011).

(14) Embora nao possa acompanha-lo em todas as suas conclusoes, sigo Santos (2008, p. 17) em seu endossamento da tese de Cornford da indissociabilidade entre as teorias da Forma e da reminiscencia em Platao.

(15) O problema do regresso epistemico nao aparece formulado antes de Aristoteles (APo I 3 72b-73a), quando critica aqueles que condicionam o entendimento a demonstrabilidade de tudo. De acordo com Aristoteles, se e certo que a demonstracao nao pode proceder ad infinitum, se equivocam tanto os partidarios da ideia de que nao ha entendimento possivel, porque os primitivos sao indemonstraveis, quanto os partidarios da ideia de que tudo e demonstravel, que se baseiam numa concepcao circular e reciproca de demonstracao. Para Aristoteles, nem todo entendimento e demonstrativo, pois ha coisas cuja verdade e imediata e nao-demonstravel.

Pela forma que compreendo o assunto, e dificil de aceitar a sugestao da Gail Fine (2004a, p. 111, 249) quando ela alega que Platao tratou do problema da justificacao epistemica em termos muito proximo a abordagem moderna, e que teria proposto uma explicacao coerentista de acordo com a qual as crencas justificadoras formariam um circulo virtuoso, entao se apoiando mutuamente.

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Submetido em novembro e aprovado para publicacao em novembro, 2016

Jose Lourenco Pereira da Silva--Universidade Federal de Santa Maria (Brasil)

jlourenco38@gmail.com--ORCID: 0000-0001-8814-919X

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Author:da Silva, Jose Lourenco Pereira
Publication:Revista Archai: Revista de Estudos Sobre as Origens do Pensamento Ocidental
Date:May 1, 2018
Words:9270
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