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PENSAR A TRADUCAO E O FEMINISMO NEGRO--ENTREVISTA COM OCHY CURIEL.

Dennys Silva-Reis [DSR]: Tem alguma experiencia com a pratica de traducao feminista?

Ochy Curiel [OC]: Sim. Com Jules Falquet traduzimos as contribuicoes das feministas materialistas francesas Colette Guillaumin, Paola Tabet e Nicole Claude Mathieu, condensadas no texto El Patriarcado al desnudo, tres feministas materialistas, que saiu publicado no ano 2005 atraves da editora independente Brecha Lesbica. Posteriormente, o Grupo Latinoamericano de Formacion y Accion Feminista (GLEFAS), coletivo de que faco parte, traduziu o texto "La invencion de las mujeres. Una perspectiva africana sobre los discursos occidentales del genero" da nigeriana Oyeroke Oyewumi em 2017, atraves da nossa editora, tambem independente, en la frontera.

[DSR]: Acredita que a profissao de tradutora e interprete e sexualizada? Quais seriam as causas e as consequencias disso?

[OC]: Como se passa em toda a sociedade ocidental, as relacoes sociais sao geralmente sexistas, racistas e classistas. Tem a ver com as hierarquias que se foram construindo desde os inicios da colonizacao e que continuam na colonialidade contemporanea, e a traducao nao escapa disso. Faz parte do sistema moderno/colonial. Os conhecimentos mais valorizados sao os produzidos por homens brancos com privilegios de classe, embora tambem por algumas mulheres com esses privilegios. Isso significa que esses conhecimentos tambem sao os valorizados para que sejam reconhecidos em muitas partes do mundo atraves da traducao que se faz de suas obras.

[DSR]: Em sua opiniao, ate que ponto a nocao de genero de uma dada cultura pode ser traduzido em outra cultura?

[OC]: Tal como explicou a argentina Maria Lugones por meio de seu conceito de colonialidade do genero, o genero e uma categoria moderna colonial, pois se reconhece o diformismo sexual entre homens e mulheres, desde as experiencias de mulheres e homens brancos/as e burgueses/as, portanto, nao e universal. Em muitas outras culturas nao existe o genero, nem sequer as categorias de homens e mulheres. Um exemplo disso e o que explica Oyeronke Oyewumi em seu texto "La invencion de las mujeres" na sociedade ioruba do sudoeste da Nigeria. O genero nao existia nessas sociedades antes do contato com o Ocidente, foi imposto atraves da colonizacao europeia.

[DSR]: Acredita que ha uma diferenca entre traducao feminina e traducao feminista?

[OC]: Sem duvida. O feminino e uma qualidade resultante da diferenciacao que traz consigo a heterossexualidade que se assume que as mulheres tem, o que e um erro, pois os homens tambem podem ter qualidades que se assumem como femininas. Ao final, sao cosntrucoes sociais. Uma traducao feminista implica uma postura politica, embora isso tambem seja problematico porque nao existe so um tipo de traducao feminista. Tudo depende de em que corrente do feminismo a traducao se inscreve.

[DRS]: Qual seria a importancia da traducao de teorias feministas no mundo contemporaneo?

[OC]: Creio que muitos feminismos tem contribuido para complexificar as analises das relacoes sociais. Ha feminismos, como o feminismo negro, o feminismo decolonial que permitem contextualizar a situacao de grupos que nao sao afetados somente pelo genero, mas tambem pela raca, classe, sexualidade, geopolitica de forma imbricada segundo contextos especificos. A traducao dessas teorias e importante precisamente para nao se generalizar nem universalizar as experiencias, o que tem sido o erro do feminismo hegemonico, que tem sido branco em suas teorias e contextos e que so toma como centro de analise o genero desde as experiencias das mulheres brancas, geralmente do Norte.

[DSR]: Qual a sua opiniao sobre traducao e ativismo (intelectual ou nao)?

[OC]: Creio que e fundamental para poder fortalecer as coalizoes transnacionais. Os e as ativistas devemos fazer traducao de obras e propostas que nos ajudem a compreender melhor a complexidade das relacoes sociais. Considero importante traduzir nao so as obras com uma visao critica do Norte para o Sul, mas do Sul para o Norte. Por exemplo, temos conhecido as producoes das feministas afro-norte-americanas porque tem sido mais traduzidas que as que nos afrolatinas e afrocaribenhas temos produzido, e isso se deve ao fato de os Estados Unidos continuarem sendo um centro privilegiado do saber, o que corresponde a geopolitica do conhecimento, ainda que parta de grupos subalternos. E preciso que conhecam nossas propostas no Norte, como uma forma de descolonizar o saber.

[DSR]: A circulacao de ideias feministas por meio de traducao incentiva a emancipacao de outros grupos de mulheres?

[OC]: Sem duvida. E nao so de mulheres, mas de outros grupos subalternizados. Na medida em que conhecemos as experiencias de outros grupos em muitas latitudes, isso ajuda a ter uma compreensao melhor das experiencias diversas, e tambem das lutas e resistencias que se fazem em muitos lugares, o que contribui para a coalizacao transnacional, como disse antes.

[DSR]: Concorda que so mulheres brancas podem traduzir mulheres brancas e so mulheres negras podem traduzir mulheres negras?

[OC]: Nao. Considero que, embora nos mulheres negras devamos fazer mais traducoes de outras mulheres negras, nao se trata de essencializar este exercicio. Existem pensamentos, teorias, conceitos tanto de mulheres negras e mulheres brancas que sao criticos e interessantes para nossos projetos politicos e que e importante traduzir. O que creio e que as mulheres brancas tem maior acesso e privilegio e muitas vezes tomam as experiencias das mulheres negras como meros testemunhos ou materias primas para seus creditos academicos, por isso e importante que as mulheres afrodescendentes e indigenas facamos traducao da producao de nossa companheiras para evitar a utilizacao e a instrumentalizacao de nossas experiencias e pensamentos.

[DSR]: Acredita que homens (feministas ou nao) sao sensiveis e estao aptos para traduzir textos femininos e feministas? Quais seriam os desafios e as potencialidades envolvidas neste caso?

[OC]: Minha resposta a esta pergunta e semelhante a da pergunta anterior. Depende de quais homens. Ha homens que tem privilegios de raca, classe, sexualidade, geopolitico, mas ha outros que nao, como a maioria dos homens de origem africana e indigena de nosso continente, e nesse sentido podem ser nossos aliados, sobretudo se tiverem posicoes politicas parecidas as nossas. O importante e saber qual e a intensao da traducao que eles tem.

[DSR]: Existiriam, em sua opiniao, agendas feministas compativeis com estruturas de publicacao editorial? Como se poderia buscar uma igualdade de genero neste campo?

[OC]: Creio que existem politicas editoriais feministas diversas. Nao ha uma so linha editorial e nao creio que todas se limitem a buscar a igualdade de genero. Ha propostas feministas que sao antirracistas, decoloniais, como existem outras, diria que a maioria, que nao sao.

[DSR]: Na historia da traducao sao poucas as tradutoras e interpretes mulheres conhecidas, sobretudo negras? Conhece alguns nomes? Poderia nos falar sobre elas?

[OC]: Creio que ha muito poucas, sobretudo negras e africanas. Aquelas que temos feito traducoes, fazemos desde o ativismo, nao como parte de um exercicio profissional.

[DSR]: Haveria por acaso, em sua opiniao, uma "culpa da traducao" por haver mais teoria feminista branca difundida no mundo?

[OC]: Creio que nao se trata de "culpa da traducao", mas das possibilidades e do acesso. A maioria das mulheres negras, afros, indigenas de nosso continente nao tem suficiente dinheiro, nem tempo, para priorizar a traducao de textos. Tambem nao existem muitas editoras interessadas em traduzir suas obras. Acredito, bem mais, que e uma questao estrutural que tem a ver com a colonialidade do saber, embora, felizmente, cada vez mais algumas de nos entendem a importancia de traduzir textos das pessoas negras e indigenas para dar a conhecer seus pensamentos e lutas.

[DSR]: A traducao pode contribuir para a renovacao da literatura canonica feminista nas diferentes areas das ciencias humanas?

[OC]: Sem duvida. Sobretudo se forem traducoes das obras das pessoas subalternizadas. E o que vai contribuir para decolonizar o saber feminista e das ciencias humanas em nivel geral.

[DSR]: Conhece projetos de traducao feminista nao hegemonicos? Em caso afirmativo, poderia nos dizer quais e como funcionam?

[OC]: Um deles e o que estamos fazendo no GLEFAS, a partir de nossa editora en la frontera, o que tem feito Brecha Lesbica. As duas sao editoras independentes.

[DSR]: Que conselhos daria para uma linguagem (tradutoria) menos sexista?

[OC]: Buscar maneiras de escrita que nao reflitam a ideologia da diferenca sexual, o binarismo de genero, mas tambem e preciso fazer isso desde uma postura pos-colonial, o que significa evitar categorias, conceitos, palavras racistas, coloniais, heterossexuais e sobretudo que seja uma traducao apegada aos significados de quem produz e nao uma substituicao de palavras e conceitos ocidentais. A linguagem tambem e politica.

[DSR]: Qual seria uma boa metafora para a traducao feminista (negra)?

[OC]: A amefricanidade de Lelia Gonzalez.

[DSR]: E possivel ensinar a traduzir o feminino ou a fazer uma traducao feminista?

[OC]: Sim, mas tudo depende de que tipo de feminismo. Nem todos sao iguais, e uma traducao pode ser feminista, mas pode ser bastante racista. Creio que e possivel desenvolver metodologias que permitam uma traducao decolonial.

(1) Traducao Marcos Bagno (Universidade de Brasilia--UnB)

Ochy Curiel

A professora Ochy Curiel, Nasceu na Republica Dominicana e, depois de viver no Mexico, no Brasil e na Argentina, vive atualmente na Colombia. Doutora em Antropologia Social. E docente-pesquisadora da Universidad Javeriana em Bogota e tambem consultora independente. E ativista do movimento lesbico-feminista, antirracista, do feminismo autonomo e do feminismo decolonial e tambem cantautora. E membra do Grupo Latino-americano de Estudos, Formacao e Acao Feminista (GLEFAS), da Tremenda Revoltosa, batucada feminista e do Coletivo Globale Bogota, festival de documentarios criticos. Tem varias publicacoes nas quais mescla raca, sexo, classe, sexualidade e geopolitica. Em sua producao se destaca o livro La nacion heterosexual. Analisis del discurso juridico y el regimen heterosexual desde la antropologia de la dominacion (2013).

Dennys Silva-Reis

Doutor em Literatura (Universidade de Brasilia--UnB). E-mail: reisdennys@gmail.com
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Author:Curiel, Ochy; Silva-Reis, Dennys
Publication:Revista Artemis
Date:Jan 1, 2019
Words:1594
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