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PENSANDO E DISCUTINO AFRODIASPORAS E TERREIROS: CRIANCAS, EDUCACAO, RACISMO E IMAGEM.

Marielle: presente!

Hoje e sempre!

Anderson: presente!

Hoje e sempre!

Escrevemos esse editorial em meio a muitas dores. No dia 14 de marco de 2018, a vereadora carioca Marielle Franco foi executada, com quatro tiros na cabeca. Mulher, negra, oriunda da favela, militante profunda e corajosamente contraria a violencia policial. O covarde assassinato teve intensa repercussao. Manifestacoes de rua espalharam-se pelo Brasil e pelo mundo reunindo milhares de pessoas. Na sociedade do compartilhamento (SANT'ANNA, 2017), onde imagens sao produzidas, consumidas e compartilhadas a todo tempo, tambem foram intensas as mobilizacoes nas redes sociais que multiplicaram o choque, a indignacao e a comocao com tamanha brutalidade. No mesmo mes, cinco jovens foram chacinados em Marica, regiao metropolitana do Rio. A Organizacoes das Nacoes Unidas informa que, no Brasil, sete em cada dez pessoas assassinadas sao negras. Na faixa etaria de 15 a 29 anos, sao cinco vidas perdidas para a violencia a cada duas horas. Tambem segundo a ONU, de 2005 a 2015, enquanto a taxa de homicidios por 100 mil habitantes teve queda de 12% para os nao-negros, entre os negros houve aumento de 18,2%. A entidade alerta que a letalidade das pessoas negras vem aumentando e isto exige politicas com foco na superacao das desigualdades raciais.

No ano em que a abolicao da escravatura no Brasil completa 130 anos, todos esses dados nao sao novidades para a populacao negra que sente na carne o racismo e o exterminio nesse pais com o maior quantitativo de negros escravizados e ultimo do mundo a abolir a escravidao. Ontem senzala e chibata, hoje favela e bala. Os versos da musica da musica do Rappa: "todo camburao tem um pouco de navio negreiro", traduzem bem o contexto desse racismo estrutural e estruturante da sociedade brasileira.

Essa e a historia em que estamos mergulhados ao escrever esse editorial. Uma parlamentar executada, jovens negros mortos cotidianamente e um golpe em curso no Brasil, cujo ultimo ato (por enquanto) foi prender o ex-presidente Lula. Dificil e entao organizar ideias e sentimentos, principalmente nos, da UERJ, uma universidade violentada pelo governo do Rio de Janeiro com total apoio do governo Temer, usurpador e golpista.

Quando pensamos o dossie: "Afrodiasporas e terreiros: criancas, educacao, racismo e imagem", pensamos em acolher artigos que enfatizassem qualquer um desses temas em separado ou em conjunto. Sobre especificamente criancas de terreiros, seus aprendizados nas casas de santo, seus conhecimentos, suas relacoes na hierarquia dos candombles existe muito pouca pesquisa.

Pritchard (2005), em seus estudos sobre os Azande (3), ao falar das dificuldades de aproximacao com campos de pesquisas com pessoas desconhecidas, recomenda a aproximacao inicial atraves das criancas do grupo. "Entre os Azande, comecei por pedir aos meninos que me ensinassem jogos, e entre os Nuer, a ir pescar toda manha com os rapazes. Descobri que, quando as criancas me aceitavam, entao os adultos tambem me aceitariam". (PRITCHARD, 2005, p.254).

A afirmacao do antropologo nos evidencia a secundarizacao das criancas, mesmo as que a antropologia considerava como "informantes". Para Pritchard (2005), as criancas do grupo pesquisado tinham valor de pontes utilitarias que serviriam apenas para facilitar sua chegada a quem "realmente sabia", a quem, na sua concepcao, realmente traria informacoes importantes sobre o campo. Acreditamos que as pesquisas com criancas de candomble precisam inverter essa logica utilitarista e adultocentrica. Mas isso e apenas uma, das tantas questoes a serem enfrentadas nas pesquisas com criancas de candomble. Uma outra questao e realmente fazer pesquisas com criancas e nao sobre as criancas dedicamdo-lhes tempo, muito tempo, tempo mesmo. Ouvir, observar, conversar sao necessidades vitais para que as criancas tenham, de fato, o protagonismo dos sujeitos dinamicos que sao hoje (CAPUTO, 2018) e nao o "ainda nao", os seres em "vias de o ser", como critica Sarmento (2008).

A respeito disso temos sido inspirados por alguns proverbios africanos: O primeiro deles diz o seguinte: "Ninguem experimenta a profundidade do rio com os dois pes". As pesquisas com criancas de terreiros em terreiros foram iniciadas pelos estudos de Caputo (1992, 2005, 2006, 2012, 2018). O estudo e recente, mas o tema profundo, imenso. Um assunto tao gigantesco e desafiador sugere cautela. E preciso entrar com um pe, depois o outro. Entrar enfiando os dois e ja sair tentando nadar de bracada nao dara certo. Tempo.

Outro proverbio e do sabio Tierno Bokar e diz assim: "Se queres saber quem eu sou, se queres que eu te ensine o que sei, deixa um pouco de ser o que tu es e esquece o que sabes". Ou seja: ha que se levar sim estudos de outras areas: educacao, sociologia, antropologia, etc, mas com cautela. As questoes despertadas pelas criancas de candomble sao singulares demais para caberem, de qualquer modo, na roupa de areas de estudos que jamais pensaram nelas. Elas nao vao entrar ali, na roupa que estava guardada faz tempo no armario e que, de repente, e sacada para vestir esse novo tema. Isso nos lembra a expressao usada, ha muitos anos, por um senhor nigeriano que estava ao nosso lado, em uma palestra na UERJ. O tema era outro, mas a critica que ele fez vai no sentido que tentamos deixar aqui: "Se voce tem um corpo grande, nao use um bubu (4) pequeno demais". O conselho serve para as tentativas quase sempre inadequadas de tentar vestir o que vemos com velhos trajes ja pequenos demais. O corpo novo nao tera obrigacao de entrar na roupa velha.

As criancas de candomble foram desprezadas mesmo pelos estudiosos classicos do candomble, mas elas sao criancas DE candomble. E ai vem outro gigantesco desafio.

Se um pesquisador e neofito tanto no tema especifico das criancas de candomble e neofito nas pesquisas de candomble sugerimos um cuidado multiplicado. Rituais, termos, nomes, cargos, tudo e qualquer minuscula coisa precisa ser estudada com extrema dedicacao. Nao se compreende o candomble da noite para o dia. E ai, ouvimos com empenho mais um proverbio africano: "Um estranho visitante que pede o caminho nao vai se perder". Cuidado, dedicacao, etica, humildade de pesquisa sao caminhos fundamentais para que o campo das pesquisas com criancas de candomble se alargue e desestabilize espacos e areas de conhecimentos.

Os artigos reunidos aqui, apresentam discussoes sobre pesquisas que protagonizam as afrodiasporas e suas interrelacoes com diversos espacostempos (5) de discussao, pesquisa e estudo.

O artigo "A representacao do negro na literatura infantil brasileira" de Jessica Oliveira Farias, por exemplo, apresenta uma pesquisa, que teve como foco a analise da trajetoria da representacao das personagens negras na producao literaria infantil brasileira, do inicio do seculo XX ate os primeiros anos do seculo XXI. Em seu trabalho, a autora buscou obras que valorizassem a identidade afro-brasileira para um trabalho com africanidades e relacoes sociais nas series iniciais do ensino fundamental, percebendo a literatura, como reflexo da sociedade, que excluiu ou tratou os afrodescendentes de forma diferenciada ao longo de muitos anos na historia do Brasil. Os resultados apresentados demonstram como a representacao do negro na Literatura infantil passou por fases como omissao; estereotipacao; e deturpacao da imagem, do carater e inteligencia. Alem disso, foram analisadas algumas opinioes acerca da censura nos acervos literarios escolares e citados exemplos de textos que podem ser explorados em um trabalho pedagogico preocupado com as relacoes etnicas no ambiente escolar.

Ja o texto de Jonathan Machado Domingues, "Brincar na infancia plural: da educacao jesuita ao estudo da ludicidade" traz a contextualizacao do universo plural da infancia, o brincar e a questao educacional e curricular. Nesse contexto, brincar se apresenta como uma acao praticada e realizada por todos os componentes sociais, afirmando que cada grupo social, referindo-se o meio que se encontra, tem/pratica brincadeira exclusiva e/ou a mesma brincadeira em varias localidades. Como exemplificacao os nomes titulados ou as regras destas sao diferenciados de lugar para lugar, em funcao da cultura local, cultura ludica. Igualmente, como objetivo secundario, foi tratada a questao educacional jesuitica no periodo Colonial no Brasil. Tambem foram abordadas as questoes historicas da infancia juntamente com a formacao do corpo docente ligado a finalidade da escola tanto para a classe mais rica quanto para a mais pobre, com a observacao de que a palavra infancia e familia, tal como sabemos hoje, sao sentimentos criados pela burguesia. O autor conclui que o brincar vai alem de um simples entretenimento. Trata-se de um estagio de preparacao da crianca para a vida adulta com a utilizacao da construcao do simbolico, relacionado ao brinquedo, como ferramenta.

"Oxumare tambem mora aqui!": o olhar de criancas de terreiro sobre a festa de Sao Bartolomeu" e o titulo do artigo de Hellen Mabel Santana Silva, Marise de Santana e Edson Dias Ferreira que trazem consideracoes a partir dos desenhos de criancas de terreiro sobre o legado africano existente na festa de Sao Bartolomeu, que acontece na cidade de Maragojipe-Ba, situada no Reconcavo Baiano. O artigo centra-se em investigar como as criancas maragojipanas com identidade afro-brasileira desenham um dos territorios culturais do festejo a Sao Bartolomeu, santo catolico sincreticamente relacionado ao orixa Oxumare. Ou autores compreedem que a cidade de Maragojipe possui um legado ancestral africano entranhado em sua constituicao historica e cultural. Assim, para alem dos elementos da cultura catolica, reverberados pela memoria oficial, o espaco maragojipano apresenta tambem simbolos e mitos originarios dos povos africanos e afro-brasileiros que se territorializam atraves das identidades dos sujeitos, por exemplo, no momento de festejar o santo padroeiro da cidade. Na producao imagetica das criancas, fez-se possivel para os autores, conhecer o universo cosmogonico dos seus territorios etnicos desde a preparacao do festejo, ate o momento em que os corpos, cores, cheiros e sabores celebram nas ruas da cidade Sao Bartolomeu e Oxumare. A pesquisa e um estudo etnografico, com esteios basicos na pratica da observacao e analise das dinamicas interativas e comunicativas dos sujeitos em seus espacos. O desenvolvimento de oficinas gerou a producao imagetica das criancas, possibilitando conhecer o territorio cultural da festa de Sao Bartolomeu atraves do olhar de quem experiencia o festejo a partir do seu proprio territorio e das relacoes estendidas com o universo cultural africano e afro-brasileiro.

Resultado de sua tese de doutorado em Educacao intitulada "Exu e a Pedagogia das Encruzilhadas", o autor Luiz Rufino Rodrigues Junior apresenta o artigo: "Pedagogia das Encruzilhadas", que tem como proposta desenvolver a critica e sugerir outros caminhos nas abordagens sobre racismo, colonialismo e educacao. Com seu texto, Rufino pretende invocar e encarnar as potencias de Exu, divindade iorubana transladada na diaspora, para propor uma Pedagogia das Encruzilhadas. O autor parte da defesa da nao redencao ao colonialismo, problematizando a continuidade de seus efeitos na formacao de um mundo multiplo e inacabado, lido, aqui, a partir da disponibilidade conceitual assente na encruzilhada de Exu--que emerge, assim, como simbolo de um projeto politico/poetico/educativo outro. A pedagogia encarnada pelas potencias do orixa, diz ele, tece um balaio de multiplos conceitos que confrontam a arrogancia e a primazia dos modos edificados pela logica colonial. Dessa forma, mais que confrontar os limites da razao dominante, a proposta do pesquisador se lanca e aponta outros caminhos: a partir de invencoes paridas nas fronteiras e nos vazios deixados, sao sabedorias reconstrutoras dos seres que, na invencao do Novo Mundo, foram submetidos a politica de subordinacao, encarceramento e morte da raca/racismo. A educacao, nesse sentido, e apresentada como caminhos enquanto possibilidades de reinvencao de seres, uma resposta responsavel e comprometida com a justica cognitiva/social e com a vida em sua diversidade e imanencia.

Marcos Eduardo Leandro e Lucio Bernard Sanfilippo trazem o artigo "Deus e o diabo na prateleira do mercado: reflexoes e narrativas de um racismo religioso vigente" que propoe discutir e denunciar a crescente onda de violencia que vem se abatendo sobre terreiros de candomble por todo o Brasil, mais ainda em Nova Iguacu, cidade da Baixada Fluminense, na periferia do Rio de Janeiro. Nesse contexto, os autores explicam que os autodenominados traficantes de Cristo, cientes da impunidade, invadiram, depredaram terreiros e agrediram sacerdotes e sacerdotisas em suas comunidades tradicionais de matrizes africanas. Analisando fatores historicos--pois que esses fatos sempre estiveram presentes nos cotidianos dos cultos afro-brasileiros, a trajetoria do racismo religioso e o crescimento das igrejas neopentecostais em todo pais, os autores refletem sobre essa violencia e suas implicacoes nos contextos politicos e culturais da atual conjuntura, demonstrando que de acordo com as narrativas que levam a demonizacao das religioes de matriz africana, presenciamos um projeto de poder politico-institucional que viola direitos humanos e constitucionais, alem de estarem alinhados a setores conservadores e obscurantistas da sociedade.

"Identidade religiosa do medium surdo no terreiro de Mina Jeje Nago Huevy em Belem (Para)" e o titulo do artigo de Sergio Mauricio de Oliveira Junior, Silvio Santiago-Vieira e Jakson Santos Ribeiro que apresenta uma pesquisa que teve como objetivo compreender a representacao simbolica de Ogum, Iemanja e Xango na construcao da identidade religiosa do medium surdo na Casa Grande de Mina Jeje Nago de Toy Lissa e Abe Manja Huevy, pertencente ao Tambor de Mina. Para o desenvolvimento do trabalho o autor empreendeu etnografia. Observou o pesquisador que a identidade religiosa do individuo estudado e constituida de inumeros fatores, incluindo a representacao simbolica desses Orixas, tecida como um fator principal na constituicao identitaria do medium surdo.

Caroline Delfino dos Santos apresenta o artigo "Dialogos entre afrodiaspora e educacao: por um curriculo a favor das culturas negras". A autora traz a discussao de que a diaspora africana, ou afrodiaspora, foi e segue como resultado de um processo de mercantilizacao ora no periodo de colonizacao, ora na contemporaneidade. Os mais variados deslocamentos e com eles continuos processos de desterritorialidade implicam um olhar em torno das praticas de aculturamento, silenciamento e apagamento cultural dos povos negros. Assim, o presente artigo justifica-se a partir da constatacao da chegada de criancas em situacao de deslocamentos as escolas publicas municipais de Duque de Caxias/RJ, concomitante a demanda apresentada pela Lei 10.639/03 que preve o estudo da Historia da Africa e dos Africanos no curriculo escolar. O cenario escolar revela-se como um reflexo da sociedade, na medida em que tende a projetar nos alunos um determinado padrao estetico e comportamental a partir de uma dada cultura: a cultura do masculino, do hetero, do cristao, do branco, do europeu. Embora configurese como um espaco demograficamente diversificado, quase sempre os valores impostos amparam-se numa perspectiva monocultural. Dessa forma, elenca-se como objetivo chamar a atencao para a necessidade de se pensar o curriculo a partir de uma perspectiva a favor da cultura africana com contribuicoes advindas das trajetorias das criancas em contexto de diaspora. O metodo empregado apoiou-se nas contribuicoes da observacao participante em razao da interacao entre a pesquisadora e os sujeitos envolvidos, utilizando-se ainda de entrevistas com alunos do 5[degrees] ano de escolaridade de uma dada escola publica do municipio de Duque de Caxias/RJ.

"O mundo se despedaca na sala de aula: ensino de historia e literatura" e o titulo do artigo de Lazaro de Souza Barbosa e Pedro Alberto Cruz de Souza Gomes que tem como objetivo apresentar o dialogo entre historia e literatura como possibilidade viavel no ensino de historia. Com a utilizacao do livro "O mundo se despedaca", de Chinua Achebe, abre-se caminhos para o entendimento da historia da Africa e dos africanos como preconizam as leis 10. 639/2003 e 11. 645/2008 (que alias, completa 15 anos justamente esse ano), e para a contraposicao as historicas narrativas que negativizaram, ou negaram as experiencias subjetivas, conceituais, teologicas e culturais de africanos no tempo, no espaco e na diaspora. O trabalho apresenta consideracoes sobre as relacoes entre historia e literatura, contextualiza historicamente a obra do escritor nigeriano Chinua Achebe, analisa representacao literaria que o escritor faz sobre a religiosidade do povo Ibo e, por fim, pensa uma perspectiva de insurgencia epistemica com a utilizacao do livro "O mundo se despedaca" como recurso didatico para o ensino de historia. Texto muito bem-vindo tambem porque pouco se conhece Achebe, escritor que precisamos espalhar po nossas bandas.

Em "Outros Negros", o autor Ademir Barros Santos, apresenta artigo em contraponto a historia conhecida hegemonicamente. Traz outras posturas das negritudes transpostas compulsoriamente para o Novo Mundo, ja que os meios oficiais, ainda hoje, enfatizam a dominacao pacifica do europeu sobre o africano que, no extremo, ainda e visto, mesmo, como conivente com o processo. O autor afirma como necessaria a constante vigilancia sobre o continuo e persistente apagamento da acao dos movimentos culturais e sociais que os proprios negros produziram, instrumentalizando a cultura nacional a procura de caminhos para propria libertacao. E com este intuito que esta analise se dispoe a discorrer sobre a evolucao dos processos de enfrentamento a dominacao europeia ocorrida no Brasil, com enfase na ininterrupta resistencia cultural que, ao final, permitiu a sobrevivencia dos saberes de matriz africana em suas diversas formas e nuances, inclusive como instrumentalizadora da sociedade nacional, o que se torna evidente ainda nos dias atuais.

"O gingado que vem da Africa: a capoeira na construcao da identidade negra no Brasil" e o titulo do artigo de Maressa Carolina Lopes Faria e Nayara Cristina Carneiro Araujo que nos traz uma pesquisa que analisa a influencia da cultura africana na formacao da identidade brasileira especificamente a partir da capoeira, discutindo identidade negra na capoeira. A questao principal e identificar se a valorizacao da influencia africana a partir da capoeira e fator positivo no combate ao racismo, tendo em vista a percepcao de individuos capoeiras. Para tanto, discute-se identidade desstacando a importancia da cultura para a formacao da identidade. Ha ainda a analise dos primeiros registros iconograficos, o nascimento de uma nova tradicao da capoeira (1930-1940) e o processo de folclorizacao e esportizacao (1950-1970), alem do parecer que registrou a capoeira como patrimonio cultural do Brasil, utilizando-se de critica bibliografica como metodologia para a analise historica. O artigo tambem destaca como a capoeira e fundamental na valorizacao do negro e de sua historia em nosso pais, identificando as manifestacoes culturais negras, principalmente no que se trata da capoeira, incorporadas como contribuicao para a cultura brasileira a partir do seculo XX.

Jeusamir Alves Silva traz o artigo "Da historia negada a luta por uma visibilidade igualada", que atraves do Candomble Banto, procura identificar, catalogar e inventariar o patrimonio cultural afro banto brasileiro de forma possivel a estabelecer o dialogo voltado para a difusao e a preservacao dos valores identitarios presentes nas referencias patrimoniais do territorio brasileiro, visando a inclusao da sua historia e cultura e religiosidade nas grades curriculares do ensino brasileiro. O autor, considerando que o territorio brasileiro caracteriza-se pelos altos indices de afrodescendentes na formacao de sua populacao em geral, acreditam que um projeto de pesquisa voltado para a preservacao do patrimonio e a cultura afro banta brasileira tambem representa a possibilidade de proporcionar a formacao de, a capacitacao e a atualizacao de professores da rede publica de ensino, como implementacao da lei 10.639/2003/PR. O texto apresenta como objeto de estudo, terreiros bantos de diferentes pontos do Brasil. A justificativa se fez porque, apesar dos bantos terem sido os primeiros escravos aqui introduzidos, e espalhados por todo territorio brasileiro, (do seculo XVI ao XIX), praticamente nada se sabe-se sobre o seu papel na formacao do Brasil e na construcao da nossa lingua. Utilizou-se a pesquisa de campo baseada em visitas a terreiros, bem como, entrevistas com sacerdotes: Tata Katuwanjesi (Walmir Damasceno), presidente do ILABANTU--Instituto Latino Americano de Tradicoes Afro-Bantu, em Itapecerica da Serra-SP. Tata Kassulupongo (Moises Queiros), dirigente da Casa do Bengue ria Lembaranganga, em Extremoz--RN, Mam'etu Nangakovi (Risoleta de Oliveira), do Terreiro de Matamba, emde Sao Joao de Meriti RJ, entre outros. Confirmou-se entao, a importancia desse povo, na construcao da nossa lingua e na formacao da nacao brasileira. Com os resultados obtidos e o interesse academico, o autor espera alcancar em breve, a inclusao e visibilidade desejadas, bem como ter, tambem, registrado nos anais da historia o Candomble de Tradicao Banto, como religiao afro-brasileira.

Alisson Araujo de Almeida apresenta no seu artigo "Candomble e as duas diasporas do povo negro: o pais mitico e a invasao da intolerancia" como um desdobramento da revisao bibliografica realizada para a pesquisa de doutorado Les jeux de Masque au sein du Candomble, Dramaturgia de la Fete dans l'Espace. Neste artigo, o olhar antropologico ofereceu uma atencao maior ao processo de reconstrucao da alteridade negra na diaspora brasileira. Para o autor, o Candomble passou a ser compreendido como uma unidade nas diferencas, onde o acesso aos ancestrais permite a expressao de alteridades. Contudo, as reflexoes lancadas neste artigo pretendem verificar as diversas visoes que tem gerado o que considera uma evasao no Candomble e um aumento da intolerancia. Para o autor, este artigo e o embriao de uma futura pesquisa que ira investigar a potencia criativa do Candomble assim como suas contradicoes.

Esse numero da Periferia tambem traz os artigos de fluxo continuo: "Conhecimento, conhecimento escolar e discurso pedagogico" dos autores Antonio Fernando Zucula e Carlos Augusto Aguilar Junior, "Escolas multisseriadas no contexto da Amazonia" dos autores Jose Valderi Farias de Souza e Rafael Marques Goncalves, "Redes de saberes: pensamento interdisciplinar" de Marcus Alexandre de Padua Cavalcanti, "Cultura afro brasileira na Baixada fluminense: pesquisa e ensino" da autora Eliana Laurentino.

E, por fim, apresentamos as resenhas: "Salve Sao Jorge/Ogum: O padroeiro do carioca" de Guilherme Pereira Stribel e "Somos usuarios de sistemas computacionais ou somos usados por eles?" de Felipe da Silva Ponte de Carvalho

Pretendemos que a leitura de nossa revista possa abrir mais e mais caminhos para enfrentarmos o racismo com suas varias faces, incluindo a religiosa. Passados quase 500 anos desde o inicio do trafico negreiro o racismo se reinventa. Justamente por isso, precisamos tambem nos, reinventarmos juntos e juntas nossas lutas cotidianas antirracistas. A universidade so tem sentido se conseguir somar nessa luta. Referencias

DOI: https://doi.org/10.12957/periferia.2018.33615

CAPUTO, Stela Guedes. Educacao nos terreiros e como a escola se relaciona com criancas de candomble. Rio de Janeiro: Ed. Pallas, 2012.

SANT'ANNA, Cristiano. #DIFERENCA: pensando com imagens dentrofora da escola. Tese de doutorado, Proped/UERJ, 2017 www.proped.pro.br

Cristiano Sant'Anna (1)

Stela Caputo (2)

(1) Doutor em Educacao (PROPED/UERJ), Membro Pesquisador dos Grupos Kekere e Curriculo, Narrativas Audiovisuais e Diferenca--CUNADI (CNPQ), Professor Seeduc/RJ

(2) Doutora em Educacao (PUC/RJ), Professora da Faculdade de Educacao da UERJ e do PROPED, Coordenadora do Grupo de Pesquisa Kekere (CNPQ)
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Author:Sant'Anna, Cristiano; Caputo, Stela
Publication:Periferia
Date:Jan 1, 2018
Words:3721
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