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Os principios de economia substantiva de Karl Polanyi em relacoes de Economia Solidaria: o caso do povoado Cruz (Currais Novos/RN).

PRINCIPLES OF ECONOMICS SUBSTANTIVE OF KARL POLANYI RELATIONS IN SOLIDARITY ECONOMY: THE CASE OF CRUZ VILLAGE (CURRAIS NOVOS/RN)

1 Introducao

Este texto aborda os principios de economia substantiva -- reciprocidade, redistribuicao e domesticidade -- descritos por Polanyi (2000) na obra "A Grande Transformacao" em um contexto de relacoes economicas submersas nas relacoes sociais em uma comunidade rural do Rio Grande do Norte. O proposito de revelar a presenca dos principios e padroes de Polanyi na comunidade em estudo esta fundado na ideia da existencia de outros valores economicos, na comunidade, que a impulsiona ao desenvolvimento, nao centrados em lucro ou relacoes monetarias. Tal dinamica de trabalho e producao, de modo geral, valoriza a reciprocidade, a solidariedade, o respeito, a participacao, a autonomia, a autogestao e a constituicao de relacoes sociais e politicas, centradas na cooperacao mutua, formalizadas sob a figura juridica de associacao ou cooperativa ou mesmo atuando de modo informal. O diagnostico desses principios oportuniza a criacao de subsidios a geracao de trabalho e renda fundada em preceitos que recuperam a concepcao tradicional de economia (POLANYI, 2000), o que, de certo modo, contribui, numa perspectiva dialogica, para acoes formativas do processo de incubacao de Empreendimentos de Economia Solidaria, desenvolvido por incubadoras universitarias que se voltam a promocao do desenvolvimento de organizacoes sociais e solidarias.

A comunidade do Povoado Cruz situa-se na zona rural do municipio de Currais Novos/RN, importante municipio do estado do Rio Grande do Norte localizado na regiao do Serido. A escassez de recursos naturais e tipica em todo o municipio, apresentando limitacoes fortes no uso agricola, principalmente pela restricao na disponibilidade de agua, pela erosao e por impedimentos no uso de maquinarios, em decorrencia do solo pedregoso, rochoso e acidentado. A comunidade e constituida de 300 familias, com cerca de 1.200 habitantes, formada basicamente por pequenos produtores rurais, com vocacao a fruticultura irrigada. A partir de mobilizacao da propria comunidade, foi construida uma agroindustria comunitaria de polpa de fruta, com recursos do Ministerio da Ciencia e Tecnologia (MCT) e Programa de Desenvolvimento Solidario (PDS-RN), atraves de projeto desenvolvido pelo Instituto de Assistencia Tecnica e Extensao Rural do Rio Grande do Norte (EMATER-RN). O projeto visava ao aproveitamento do excedente de fruta nao comercializada, principalmente, no periodo de safra, quando a oferta se eleva e o preco cai. A agroindustria entrou em funcionamento no ano de 2005, passando por sucessivas melhorias, de iniciativa dos produtores, a partir do fomento inicial das instituicoes supracitadas. Atualmente, a renda do produtor familiar e oriunda, majoritariamente, dessa atividade.

A opcao por estudar essa comunidade se da, primeiro, por esta se constituir como importante polo local para as comunidades circunvizinhas. Em segundo lugar, pelas relacoes de autogestao imbuidas na atividade de agroindustrializacao das frutas advindas da producao local e, terceiro, pela presenca de acoes extensionistas, atraves da EMATER-RN neste espaco, que permitem o acesso e a apropriacao qualificada das relacoes existentes. Por ultimo, ha o intuito teorico-empirico de se trabalhar a possibilidade de identificacao dos principios e padroes de Karl Polanyi em pratica economica contemporanea.

A pesquisa foi caracterizada como descritiva e exploratoria, quanto aos objetivos. Descritiva, porque objetivou descrever o fenomeno estudado expondo caracteristicas de um grupo, compreendendo as relacoes entre os conceitos envolvidos no fenomeno em questao (VERGARA, 2004; ACEVEDO E NOHARA, 2004), no caso, a comunidade do Povoado Cruz. E exploratoria por ter sido realizada em area em que ha pouco conhecimento acumulado e sistematizado, permitindo ao pesquisador um alcance maior de conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa (VERGARA, 2004; MATTAR, 1996; GIL, 1994), justificada pela escassez de pesquisas que verifiquem, na atualidade, a aplicacao dos principios de Polanyi em comunidades contemporaneas.

Quanto ao meio de investigacao, de acordo com os criterios de Vergara (2004), a pesquisa se constitui em um estudo de campo sobre um caso especifico. A pesquisa de campo se caracteriza, de acordo com Andrade (1994), pelo fato da coleta de dados ser efetuada em campo, onde ocorreram espontaneamente os fenomenos. Nesta pesquisa os autores observaram a comunidade por um periodo de quatro anos. Um dos pesquisadores, durante este periodo, desenvolvia atividades de assistencia tecnica e extensao rural atraves da Instituicao governamental que dava apoio a comunidade, a EMATER. Isto permitiu vivenciar o dia-a-dia da comunidade, observar atividades realizadas, relacoes afetivas existentes, interacoes com comunidades circunvizinhas, a relacao de lideranca, decisoes realizadas em grupo, desavencas, dentre outras aspectos. Assim sendo, o pesquisador desenvolveu duas atividades simultaneamente, a de extensionista e a de pesquisador. Em decorrencia do acolhimento que a comunidade deu ao extensionista, o trabalho de pesquisa foi facilitado. Os demais pesquisadores recebiam as informacoes e observacoes do pesquisador de campo e as analisavam a luz dos principios de Polanyi e da economia solidaria. Tratou-se, portanto, de um trabalho onde a interacao, o compartilhamento, a compreensao e o amadurecimento ocorreram conjuntamente. Diante da unidade analisada neste trabalho, Povoado Cruz, foram extraidas informacoes passiveis de responder ao seguinte problema: de que forma, em praticas sociais contemporaneas de uma comunidade rural, se articulam os principios de reciprocidade, redistribuicao e domesticidade, enunciados por Polanyi (2000), a praticas convencionais de mercado?

Quanto a abordagem da analise de dados, a pesquisa se caracterizou por ser qualitativa. Para Denzin e Lincoln (2006) este tipo de pesquisa consiste em um conjunto de praticas materiais e interpretativas que dao visibilidade ao mundo. Em relacao a coleta dos dados, esta aconteceu atraves da observacao naoparticipante. Para Godoy (1995), este tipo de observacao se da quando o pesquisador apenas atua como espectador atento, registrando o maximo de ocorrencias que interessam ao seu trabalho. Assim, foi observado o dia-a-dia da comunidade em estudo, habitos, costumes e vivencias que viabilizaram a obtencao dos dados necessarios ao alcance de resposta ao problema proposto.

Em um primeiro momento abordam-se os principios de Karl Polanyi, presentes na obra "A Grande Transformacao", que fornecem pressupostos basicos a Nova Sociologia Economica (NSE). Segue um enfoque na Economia Solidaria aqui entendida como uma dimensao economica que se aproxima dos principios abordados por Polanyi, especialmente pelo fato de igualmente priorizar valores como solidariedade, dependencia reciproca, ajuda mutua e cooperacao. Posteriormente, o texto faz referencia a agroindustria familiar, seguida de uma descricao da comunidade estudada, o Povoado Cruz. Sao realizadas, entao, associacoes entre os principios abordados por Polanyi e acoes do cotidiano de trabalho e producao na comunidade estudada. Por fim, sao apresentadas as conclusoes que, em essencia, respondem ao questionamento central da pesquisa.

2 Os Principios de Karl Polanyi e a Economia Solidaria

Em sua obra A grande Transformacao (1944), Polanyi chama a atencao para a inexistencia de economias controladas por mercados em periodo anterior a Revolucao Industrial e ao desenvolvimento da sociedade de mercado. Antes desse momento historico particular, a economia do homem teria permanecido, como regra, "submersa em suas relacoes sociais" (POLANYI, 2000, p. 65), sendo o sistema economico mera funcao da organizacao social. Polanyi (2000, p. 69) escreveu que em tais sociedades:

[...] e vedada a ideia do lucro; as disputas e os regateios sao desacreditados; o dar graciosamente e considerado como virtude; nao aparece a suposta propensao a barganha, a permuta e a troca. Na verdade, o sistema economico e mera funcao da organizacao social.

Para o autor, a propensao do homem a barganha, a permuta e a troca, observada por Adam Smith -- fundamento teorico do Homo Economicus--, seria "quase que inteiramente apocrifa", uma "leitura errada do passado" que resultaria ser "profetica do futuro" (POLANYI, 2000, p. 63). Nunca antes da Revolucao Industrial teria havido um sistema economico separado da sociedade, de forma que a sociedade do seculo XIX aparece como "um ponto de partida singular, no qual a atividade economica foi isolada e imputada a uma motivacao economica distinta" (POLANYI, 2000, p. 92-93), a motivacao de ganho e lucro. Enquanto os padroes sociais de simetria, centralidade e autarquia --que serao descritos nas paginas a seguir-- nao poderiam gerar, por si mesmos, instituicoes especificas, o padrao de mercado gerou a instituicao do mercado. Nas palavras de Polanyi (2000, p. 77):
   Em ultima instancia, e por isto que o controle do sistema economico
   pelo mercado e consequencia fundamental para toda a organizacao da
   sociedade: significa, nada menos, dirigir a sociedade como se fosse
   um acessorio do mercado. Em vez de a economia estar embutida nas
   relacoes sociais, sao as relacoes sociais que estao embutidas no
   sistema economico. [...] A sociedade tem que ser modelada de
   maneira tal a permitir que o sistema funcione de acordo com as suas
   proprias leis. Este e o significado da afirmacao familiar de que
   uma economia de mercado so pode funcionar numa sociedade de
   mercado.


E oportuno salientar que Polanyi nao se volta contra os mercados ou o comercio e nem os questiona. O autor apenas salienta que a sociedade de mercado --ou seja, o tipo peculiar e sem precedentes historicos de organizacao social necessario para o desenvolvimento de uma economia de mercado-- nao e, como se assume com frequencia, "o resultado natural da difusao dos mercados" mas, sim "o efeito de estimulantes altamente artificiais administrados ao corpo social" pelo "deus ex machina da intervencao estatal" (POLANYI, p. 78). O advento da sociedade de mercado, lembra Polanyi, nao teria sido possivel sem a transformacao, forcada e artificial, de trabalho, terra e dinheiro em mercadorias. Polanyi (2000, p. 93) descreveu que:
   Uma economia de mercado deve compreender todos os componentes da
   industria, incluindo trabalho, terra e dinheiro. [...] Acontece,
   porem, que o trabalho e a terra nada mais sao do que os proprios
   seres humanos nos quais consistem todas as sociedades, e o ambiente
   natural no qual elas existem. Inclui-los no mecanismo de mercado
   significa subordinar a substancia da propria sociedade as leis do
   mercado. [...] O trabalho, a terra e o dinheiro obviamente nao sao
   mercadorias.


Essa transformacao -atraves da intervencao estatal- de terra, trabalho e dinheiro em mercadorias, e a subsequente subordinacao da ordem social ao sistema economico, nao poderia ter senao consequencias nefastas para a vida social. Para Polanyi, permitir que o mercado fosse "o unico dirigente do destino dos seres humanos e do seu ambiente natural" so poderia resultar no "desmoronamento da sociedade" (POLANYI, 2000, p. 94).

Antes de analisar o modo como a ordem economica passou de estar submersa nas relacoes sociais a modelar o conjunto da sociedade, de forma que o mercado pudesse funcionar conforme as suas proprias leis, Polanyi descreve como era garantida a ordem na producao e na distribuicao de bens dentro das comunidades humanas. Na ausencia da instituicao especifica do mercado, os principios que garantiam a sobrevivencia economica das sociedades pre-industriais eram os de reciprocidade, redistribuicao e domesticidade, apoiados em tres padroes sociais especificos: o padrao de simetria, o de centralidade e o de autarquia.

O principio da reciprocidade, que Burlamaqui (1995, apud VINHA, 2003, p. 9) descreve como a "movimentacao de recursos e informacoes entre pontos correlatos de agrupacoes simetricas" e que Polanyi apresenta como um complexo sistema de dadivas entre os membros da comunidade, nao motivadas pelo ganho ou pelo lucro, e possivel em virtude do padrao de simetria e garante a conservacao das relacoes sociais. Na descricao original de Polanyi (2000, p. 69), que toma como exemplo o comercio Kula nas ilhas da Melanesia Ocidental, observa-se que:
   As mercadorias nao sao acumuladas, nem mesmo possuidas
   permanentemente; o gozo dos bens recebidos esta justamente em poder
   da-los em seguida; nao existe nenhuma disputa ou controversia, e
   nem barganha, permuta ou troca. [...] Um intrincado sistema de
   tempo-espaco-pessoa, [...] que liga muitas centenas de pessoas em
   relacao a milhares de objetos estritamente individuais, e aqui
   manipulado sem que existam registros ou administracao, e tambem sem
   qualquer motivo de lucro ou permuta. O que domina nao e a propensao
   a barganha, mas a reciprocidade no comportamento social. O
   resultado, no entanto, e uma realizacao organizacional estupenda na
   area economica.


A reciprocidade recompensa atos de virtude civica e assegura, junto com o principio da redistribuicao, "o funcionamento de um sistema economico sem a ajuda de registros escritos e de uma complexa administracao" (POLANYI, 2000, p. 68). A reciprocidade se sustenta na organizacao simetrica da comunidade, o que Polanyi chama de dualidade e Vinha (2003, p. 7) caracteriza como "a existencia de um analogo, de um parceiro".

O principio da redistribuicao, por sua vez, se apoia no padrao de centralidade, isto e, "a entrega dos produtos a uma autoridade institucionalmente investida, responsavel pela redistribuicao em bases justas" (VINHA, 2003, p. 7) ou, na explicacao de Polanyi (2000, p. 71), a existencia de "um intermediario na pessoa do chefe ou outro membro proeminente do grupo" que "recebe e distribui os suprimentos". Praticas de reciprocidade e redistribuicao em comunidades camponesas podem ser observadas, tambem, nos trabalhos de Dominique Temple (1997; 1998) e Eric Sabourin (1999; 2000; 2001; 2006). Este ultimo estudou comunidades camponesas no Brasil se interessando por efeitos de projetos de desenvolvimento economico e social levados as comunidades por agentes externos. Em palavras de Sabourin (1999, p. 41):
   Nas comunidades rurais do Sertao Nordestino, paralelamente as
   relacoes de cambio mercantil, encontram-se prestacoes economicas
   nao mercantis que correspondem a permanencia de praticas de
   reciprocidade camponesa, ancestrais ou readaptadas num contexto
   novo. [...] Na zona rural do Sertao, as comunidades, as redes de
   proximidade, as relacoes familiares e interfamiliares, as
   prestacoes de ajuda mutua constituem formas de relacionamento e de
   organizacao ainda reguladas pela reciprocidade camponesa. A logica
   do sistema de reciprocidade nao considera a producao exclusiva de
   valores de uso ou de bens coletivos, mas a criacao do ser, da
   sociabilidade. Se para "ser socialmente" precisa dar; para dar,
   precisa produzir. A logica da reciprocidade procura, portanto, a
   ampliacao das relacoes sociais e afetivas.


Sabourin se alinha com Temple ao chamar a atencao quanto a necessidade de que o poder publico deve reconhecer a importancia da reciprocidade para essas comunidades, incorporando tais praticas aos projetos de desenvolvimento local (SABOURIN, 1999, p. 48):
   Como sublinha Temple (1997) o reconhecimento politico e publico da
   economia de reciprocidade permitiria tracar uma interface de
   sistema e abrir um debate entre os partidarios de uma ou outra
   logica para tratar da natureza das organizacoes camponesas ou
   locais, da delegacao do poder, das normas e dos principios de
   gestao dos bens comuns ou publicos. Tal debate permitiria tambem
   discutir os valores que devem orientar ou fundar os projetos de
   desenvolvimento economico e social. Enquanto a Economia Politica so
   reconheca uma unica logica economica, a do livre-cambio --mesmo
   disfarcada sob o rotulo de escolas diversas ou teorias economicas--
   somente existira o reino do pensamento unico.


Os principios de reciprocidade e redistribuicao nao seriam possiveis, porem, na ausencia do principio de domesticidade e do seu padrao correspondente, a autarquia, o grupo fechado. Como relatou Polanyi (2000, p. 73):
   O terceiro principio, destinado a desempenhar um grande papel na
   historia, e ao qual chamaremos o principio da domesticidade,
   consiste na producao para uso proprio. [...] A pratica de prover as
   necessidades domesticas proprias [...] nada tinha em comum com a
   motivacao do ganho, nem com a instituicao de mercados. O seu padrao
   e o grupo fechado.


Para Polanyi, a essencia da domesticidade -como ja fora observado por Aristoteles- reside na producao para uso contra a producao voltada ao lucro. Esse principio de auto-suficiencia nao deve se ver afetado pela existencia de uma producao acessoria para o mercado: "enquanto os mercados e o dinheiro fossem meros acessorios de uma situacao domestica auto-suficiente, o principio da producao para uso proprio poderia funcionar" (POLANYI, 2000, p. 74).

A reflexao de Polanyi a respeito da submissao historica da vida economica a ordem social e da falacia original da propensao humana ao lucro encontrou continuidade, nao de forma acritica, nos postulados da Nova Sociologia Economica (NSE), que trouxe o conceito de submersao (embeddedness) "para o interior das formacoes sociais capitalistas" (RADOMSKY; SCHNEIDER, 2007, p. 260). Assim, as relacoes pessoais de proximidade teriam tambem um papel fundamental na configuracao da ordem economica. Para essa corrente teorica, a impessoalidade das relacoes economicas, trazida pela sociedade de mercado, nao seria completa, convivendo com fenomenos supostamente pre-historicos como a dadiva e a reciprocidade. Explicam Radomsky e Schneider (2007, p. 59) que:
   Para Polanyi, o 'ator economico' e uma categoria possivel apenas no
   sistema capitalista de relacoes sociais. Pesquisadores que
   procuraram dar continuidade as suas pesquisas se depararam com um
   modelo teorico no qual este ator seria brutalmente particularizado
   quando em seu contexto de acao economica, e deixaria o mundo da
   impessoalidade quando estivesse em outro contexto de acao
   (nao-produtivo). Consequentemente a dadiva e a reciprocidade seriam
   categorias pre-historicas, assim como as sociedades em que elas
   ocorriam, ou absolutamente 'anti-economicas'. A alternativa a isto
   seria considerar a importancia da reciprocidade mesmo num ambiente
   economico transformado historicamente, como no capitalismo, com a
   instauracao da impessoalidade, mas nao a sua completude, portanto
   sem o aniquilamento das relacoes de proximidade entre os atores
   sociais, seja em contextos produtivos seja em nao-produtivos.


Observa-se, assim, que a reciprocidade tem, ainda hoje, a capacidade de reforcar as relacoes sociais ao unir os membros de um grupo por meio de suas condutas, isto e, "das obrigacoes morais e da liberdade do agir reciproco e da carga simbolica que contem o dar e o retribuir" (RADOMSKY; SCHNEIDER, 2007, p. 255) e que as suas estruturas basicas, como o "cara a cara" ou a reciprocidade generalizada e centralizada (redistribuicao) sao cada uma a matriz de um valor especifico: o cara a cara, da amizade; a reciprocidade generalizada, da responsabilidade etc. (TEMPLE, 1998).

Quanto a contemporaneidade de Polanyi, Vinha (2003) propoe que os principais pressupostos do autor, em relacao ao comportamento social, podem explicar, ao menos parcialmente, fenomenos contemporaneos como o desenvolvimento sustentavel e a responsabilidade social corporativa. Ambrosini e Filippi (2008), por sua vez, relacionam o conceito de enraizamento social da vida economica -e a ideia de economia substantiva de Polanyi- com as experiencias de Sistemas Produtivos Localizados (SPL) onde se evidenciam fortes lacos comunitarios e territoriais, alem de valores sociais alheios a motivacao do lucro. Ambrosini e Filippi (2008, p. 134) afirmam que:
   O que une os Sistemas Produtivos Localizados a 'economia
   substantiva' e a forma de abordagem das relacoes economicas,
   inseridas em um contexto social, onde a chave e a reproducao social
   e nao o lucro. [...] O 'territorio' pautara muitos dos estudos
   contemporaneos baseados em dinamicas de desenvolvimento endogenas,
   entretanto, o espaco sera constituido enquanto o locus das relacoes
   sociais, base dos recursos naturais e meios de producao. Ao mesmo
   tempo em que o sentimento de pertencimento e valorizacao de
   identidades reforcam lacos sociais, os mesmos estarao subjacentes e
   dinamizando as atividades economicas.


Esses autores concluem que e possivel observar nos SPL "tres dimensoes indissociaveis: economica, territorial e social" (AMBROSINI; FILIPPI, 2008, p. 134). A fusao dessas tres esferas manifesta o carater enraizado (embedded) dessas formas de organizacao produtiva, onde as atividades economicas integramse a valores sociais, a identidade cultural e a lacos comunitarios para garantir a reproducao social.

As caracteristicas e modos de funcionamento peculiares dos arranjos produtivos locais podem, assim, encontrar sustentacao teorica tanto nos principios fundamentais de Polanyi como, por extensao, nos pressupostos basicos da Nova Sociologia Economica em sua visao das redes sociais. Como exposto por Vinha (2003), dois dos principais representantes dessa corrente -Granovetter e Swedberg- questionam que toda acao economica em uma sociedade capitalista seja desprovida de motivacoes nao economicas. E mais: "quando afirmam que a acao economica e socialmente situada, Granovetter e Swedberg querem dizer que esta esta enraizada em redes de relacionamentos pessoais e nao em individuos atomizados" (VINHA, 2003, p. 12). Nessa mesma linha, e interessante a observacao de Abramovay (2004) do conceito de altruismo e do modo como esse atributo pode ser encontrado dentro da esfera economica. Apoiando-se na coletanea de Zamagni (1995, apud ABRAMOVAY, 2004), Abramovay (2004, p. 46) salienta que o altruismo "encontra fundamento no proprio interesse do individuo" e que "uma sociedade em que os individuos tem a capacidade de levar em conta os interesses alheios consegue instituir formas de coordenacao muito mais propicias aos processos de desenvolvimento". Para Abramovay, esse principio se traduz na possibilidade de que, mesmo concorrendo entre si, os atores possam encontrar motivacoes para a cooperacao e a preservacao dos outros.

Diante da logica de mercado vigente e da carencia de desenvolvimentos sociais ha a necessidade de se trabalhar para que as pessoas passem a ter condicoes de vida dignas. Assim sendo, necessita-se, cada vez mais, da presenca da reciprocidade, da solidariedade, da igualdade de condicoes de desenvolvimento, da justica social, dentre outros aspectos. Como alternativa a este sistema, ou mesmo de sobrevivencia dentro dele, foram surgindo, ao longo do tempo, acoes comuns entre pessoas baseadas na igualdade, reciprocidade, confianca, ajuda mutua, dentre outros valores, os quais foram tornando consistentes, vindo posteriormente a receber o nome de Economia Solidaria.

Para Singer (1999) o surgimento deste tipo de Economia ocorreu, basicamente, na epoca do surgimento do Capitalismo Industrial, no seculo XIX, periodo este caracterizado pela extrema exploracao dos trabalhadores nas fabricas britanicas, fazendo surgir de ideias e iniciativas, oriundas dos socialistas utopicos como Owen, Saint Simon e Fourier, que foram de encontro a realidade capitalista da epoca. Dentre estas iniciativas destaca-se a criacao de cooperativas, seja de compras ou de producao, que buscavam pressionar os patroes para o atendimento das necessidades dos trabalhadores (SINGER, 2002). Destaque tambem para as manifestacoes dos trabalhadores que ocorreram neste periodo, seja atraves do movimento "luddista", seja atraves do Cartismo.

Autores como Laville e Franca Filho ressaltam que a Economia Solidaria, mesmo retomando experiencias do seculo XIX, como as cooperativas e os empreendimentos autogestionarios, e um fenomeno novo relacionado com a crise na relacao salarial ocorrida no ultimo quartel do seculo XX, passando a adquirir assim novos significados no atual contexto economico e social (LEITE, 2009).

As cooperativas se apresentam, dentro da Economia Solidaria, como importantes ferramentas na busca de ganhos sociais. Porem, nem todas estao dentro do perfil desta Economia. Para que isso ocorra ha a necessidade que haja a gestao compartilhada por todos os socios, ou seja, a autogestao. Havendo isto, aliado a solidariedade, pode-se afirmar que se trata de um empreendimento Economico Solidario (EES). Singer (2005, apud CASTANHEIRA; PEREIRA, 2008, p. 117-118), ao se referir as caracteristicas da referida Economia, fez as seguintes ponderacoes:
   Na economia solidaria, todos que trabalham no empreendimento detem
   posses iguais, com os mesmos direitos de decisao sobre o seu
   destino. Nela, a situacao do trabalhador e o inverso da vivida na
   empresa capitalista, ja que cada membro do grupo e responsavel pela
   gestao, participando plenamente dos resultados alcancados, sejam
   eles sobras ou prejuizos. Como nao ha hierarquia, a uniao
   consciente e solidaria entre os trabalhadores e essencial para o
   bom funcionamento da organizacao.


Nao sao apenas cooperativas que podem ser consideradas como empreendimentos solidarios ou mesmo detentoras de praticas sociais, mas, tambem, associacoes, clubes de trocas, cozinhas coletivas, dentre outros, desde que atendam aos principios da economia solidaria (LEITE, 2009; AZAMBUJA, 2007). Para Franca e Laville (2004) os empreendimentos desta natureza tem que ter a solidariedade como centro das atividades economicas, ja que as atividades desenvolvidas por tais se apresentam como meio para a realizacao de outros objetivos de ambito social, politico ou cultural.

Quando se busca conceituar a Economia Solidaria observa-se uma ausencia de consenso entre os autores. Ha aqueles que nao poem o mercado em oposicao a tal economia. Para Razeto (1997, apud AZAMBUJA, 2007) a Economia Solidaria e vista como um processo de insercao de praticas economicas de caracteristicas solidarias no ambito da estrutura economica vigente. Para ele, ha como inserir a solidariedade nas praticas economicas do capitalismo. Ressalta que nao existe apenas uma maneira para isso acontecer, havendo, assim, diferentes formas que interagem entre si visando ao alcance de resultados sociais dentro do ambito do capital.

Laville, ao abordar este assunto, baseia a sua analise nos principios do comportamento economico de Polanyi, criticando o reducionismo (LAVILLE, 2004, apud AZAMBUJA, 2007). O autor recupera o conceito de Polanyi da pluralidade da economia, que seria constituida por diversas formas de producao, dentre elas, aquelas baseadas na reciprocidade. Para Laville, a economia pode ser decomposta em tres polos: Economia Mecantil, onde a distribuicao e producao sao realizadas no mercado; Economia Nao-Mercantil, onde a distribuicao de bens e servicos esta baseada no Estado; e Economia Nao-Monetaria, onde a producao e distribuicao ocorrem atraves da reciprocidade. Assim, a Economia Solidaria seria uma articulacao entre essas tres economias, nao rompendo com a economia capitalista, mas, constituindo uma forma hibrida de atividades reciprocas, desenvolvidas por voluntarios de atividades de mercado e por profissionais, tendo suas atividades financiadas por subsidios estatais.

Diferentemente das posicoes anteriormente mencionadas, Singer nao e simpatizante da relacao da Economia Solidaria com o mercado. Para ele, ha uma relacao de independencia entre as duas economias, mas, nao de isolamento. Ele defende que as cooperativas e a autogestao sao dois elementos centrais na construcao de uma opcao ao capitalismo. Sem elas nao seria possivel falar em igualdade, reciprocidade, autonomia, confianca, interacao pessoal, solidariedade, dentre outros aspectos, ou seja, nao haveria espaco para a Economia Solidaria. Para Singer (2002) o alcance da solidariedade se da atraves da autogestao.

Diante dessas abordagens e constatada a diversidade conceitual do tema. Mas, dentro de uma perspectiva holistica e geral pode-se associar a Economia Solidaria a acoes que envolvam cooperacoes, que busquem solidariedade, igualdade, interacoes, respeito ao proximo, autonomia, poder de voto, participacao, desalienacao, incentivo ao aprendizado, dentre outras caracteristicas que se apresentam como alternativas ao sistema de mercado vigente. Tais valores podem ser desenvolvidos em cooperativas, associacoes ou em outra forma de reuniao que busque nao a separacao entre pessoas, mas, sim, a uniao, a busca por uma vida digna, justa e igualitaria.

3 A Unidade Pesquisada -- Caracteristicas Gerais do Povoado Cruz

A agroindustria familiar rural e "uma forma de organizacao em que a familia rural produz, processa e/ou transforma parte de sua producao agricola e/ou pecuaria, visando, sobretudo a producao de valor de troca que se realiza na comercializacao" (MIOR, 2005, p.191). Outros aspectos, citados por Amorim e Staduto (2007), que tambem caracterizam a agroindustria familiar rural sao: a localizacao no meio rural, a utilizacao de maquinas e equipamentos em escalas menores, procedencia propria da materia-prima e a mao-de-obra da propria familia. Segundo ainda os mesmos autores, a atividade de processamento de alimentos em agroindustrias, pelo agricultor familiar, constitui um novo espaco social e economico e visa, prioritariamente, a producao de valor de uso que se realiza no auto-consumo, podendo ser um empreendimento associativo, reunindo uma ou varias familias aparentadas ou nao.

A comunidade do Povoado Cruz situa-se a 19 km do municipio de Currais Novos, possuindo acesso por rodovia a 6 km da BR-226. Currais Novos e um municipio do estado do Rio Grande do Norte localizado na regiao do Serido. Sua populacao total e de 41.144 habitantes, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica), em 2007. As principais atividades economicas sao a agricultura, a pecuaria e a extracao mineral. A escassez de recursos naturais e tipica em todo o municipio, apresentando limitacoes fortes no uso agricola, principalmente pela restricao na disponibilidade de agua, pela erosao e por impedimentos no uso de maquinarios, em decorrencia do solo pedregoso, rochoso e acidentado.

A comunidade Cruz e constituida por 300 familias, com cerca de 1.200 habitantes, formada basicamente por pequenos produtores rurais, que possuem, em seu favor, um acude publico, o que favorece a plantacao de alimentos em suas margens, sendo as frutiferas um cultivo comum aos agricultores do local. A renda do produtor familiar e oriunda, majoritariamente, dessa atividade agricola ou da comercializacao da fruta de forma in natura. Outras fontes de renda sao as atividades nao-agricolas, como servicos assalariados fora da propriedade e aposentadoria rural. Da atividade de fruticultura a renda anual bruta de cada familia fica em torno de R$ 8.000,00, o que corresponde mensalmente a R$ 667,00. Detalhando estes valores cerca de R$ 3.500,00 corresponde a venda de polpa de frutas para atender politicas publicas (Fome Zero), notadamente do Programa de Aquisicao de Alimentos na modalidade Compra Direta Local da Agricultura Familiar. Em torno de R$ 2000,00 a 2.500,00 advem da venda da fruta in natura. E cerca de R$ 1.500,00 a 2.000,00 sao ganhos da venda da polpa de fruta fora dos programas do governo. O povoado Cruz trata-se de uma comunidade polo para as circunvizinhas, pela estrutura educacional -- possui uma escola estadual de medio porte -- e pelo facil acesso a partir da rodovia federal BR 226.

No Povoado ha uma associacao que se destaca pela organizacao e pela trajetoria: a Associacao "Clube de Maes e Jovens Teresa Celestina Dantas", fundado em 1955. Esta iniciou suas atividades fabricando, primeiramente, pecas artesanais como: redes bordadas, croches, panos de prato e outros produtos artesanais afins. As associadas do Clube fabricavam mercadorias e as vendiam para outras comunidades e municipios, conseguindo renda para o sustento das familias, e assim, permaneceram durante alguns anos. A associacao cresceu e percebeu a necessidade de expandir e diversificar a producao para aumentar a renda, pois, segundo a fundadora:

"[...] as familias aumentaram, os recursos naturais ficaram mais escassos e a vida foi se tornando mais dificil."

As condicoes do local para o plantio de frutas e a vontade de ter uma vida melhor despertaram, em uma das moradoras (atualmente a presidente da Associacao), a ideia da fabricacao de polpas de frutas, ao perceber a elevada quantidade de frutas que era desperdicada diariamente por falta de consumo:

"Havia dias que eu jogava mais de seis caixas cheias de goiabas no lixo (aproximadamente 140 Kg) estragadas, sem nenhum aproveitamento (...). A ideia surgiu por acaso. Tenho uma cunhada que nao gosta de comer graviola, mas adora o suco e sempre me pedia para descascar toda a fruta e fazer o suco para ela tomar. E, (...) assim eu fazia, chegava a estocar em casa para levar para ela."

A partir dai, a atividade artesanal transformou-se num projeto da Associacao que buscou subsidio no Programa Desenvolvimento Solidario para construcao da mini-agroindustria familiar de polpa de frutas. Esse e um programa do Governo do Estado do Rio Grande do Norte que tem como objetivo melhorar as condicoes de vida da populacao rural mais pobre do estado, mediante o financiamento de projetos de natureza produtiva, social e de infra-estrutura basica, tendo como fonte de recursos o Banco Internacional para Reconstrucao e Desenvolvimento -- BIRD (75%), o Governo do Estado (15%) e as comunidades beneficiarias (10%) (SETHAS, 2009).

A manutencao do projeto, desde sua implantacao em 2005, foi possivel com as atividades extensionistas do Instituto de Assistencia Tecnica e Extensao Rural do Rio Grande do Norte (EMATER-RN), que incluiam: financiamento para a aquisicao de maquinas e equipamentos necessarios a fabricacao de polpas de frutas e a reforma da sede do Clube, alem de cursos de capacitacao e treinamentos em servicos e gestao. De forma simplificada, o processamento envolve toda a comunidade associada, de modo que os homens (agricultores) cultivam e fornecem as frutas, as esposas transformam-nas em polpa, na agroindustria, e a lider (presidente da Associacao) busca a venda, sendo tambem responsavel pela distribuicao da renda entre os participantes.

4 Cotidiano De Trabalho e Producao no Povoado Cruz

O Povoado, por ter recebido maiores investimentos estruturais do Governo (principalmente escolas e estradas) que os demais circunvizinhos, tornando-o comunidade-polo da zona rural do Municipio de Currais Novos, nao permaneceu isolado das relacoes mercantilistas advindas fortemente da zona urbana, recebendo, constantemente e de forma continua, pessoas alheias a comunidade e, em sentido inverso, com forte transito de seus membros a zona urbana. Observa-se, porem, que e preservada a tradicao e cultura atraves dos lacos sociais, mantendo as caracteristicas da vida em comunidade. Entre as pessoas da comunidade, de modo geral, associadas ou nao a atividade agroindustrial, ha um tratamento igualitario em termos de valores sociais, podendo-se compara-lo ao padrao de simetria, essencial, segundo Polanyi, para o desenvolvimento do principio da reciprocidade.

A reciprocidade e demonstrada na ajuda a outros, na assistencia ao outro, no ato de ensinar e nas demais formas de expressar amizade ou gratidao, desprovidas de interesse de troca ou monetario, bastando o reconhecimento por parte de quem recebe. Esse comportamento se estende alem dos familiares, associados e demais membros da comunidade. E percebido tambem, fortemente, nas relacoes de vizinhanca rural (extracomunidade) e com os tecnicos que prestam assistencia tecnica e extensao rural a comunidade, o apadrinhamento de filhos dos agricultores como forma de gratidao. O agricultor nao percebe a assistencia como algo inerente ao trabalho do extensionista como servidor publico, presenteando-o ainda com parte de sua producao agricola ou produto da agroindustria e, mesmo assim, acreditando ser insuficiente para "pagamento" da gratidao, ficando com um sentimento de divida em relacao a este.

Outra forma de reciprocidade observada esta na organizacao e na realizacao de trabalhos coletivos para beneficiar toda a comunidade ou algum agricultor ou grupo, identificados, em varios momentos durante a realizacao desse estudo, como na formacao de um mutirao para o reparo e a ampliacao da agroindustria, a pintura da igreja ou a construcao de barragens subterraneas nas propriedades de agricultores selecionados. Neste ultimo caso, o beneficio direto e do produtor selecionado, mas no entendimento comum, a comunidade toda esta ganhando. Algo semelhante ocorre em periodos de seca ou alagamentos, quando alguma familia passa por necessidades por ter perdido a producao, sendo comum o mutirao para ajuda alimenticia e reestruturacao da propriedade.

Pode-se identificar, ainda, como reciprocidade, o uso compartilhado de recursos coletivos, mais visivel na aquisicao de, por exemplo, equipamentos de producao (como irrigadores, ensiladeiras) ou de processamento (despolpadeira, envasadora de polpa de frutas), como e o caso da agroindustria de polpa de fruta, que nao pertence ao grupo gestor, ao presidente ou aos associados: e da comunidade e esta, por sua vez, e responsavel pela sua manutencao e desenvolvimento. Prevalecem, nessas relacoes, a amizade, a confianca e a solidariedade, uma vez que sao atividades nao remuneradas e nao obrigatorias, mas, necessarias ao bem-estar mutuo. Essas relacoes, de acordo com Burlamaqui (1995, apud VINHA, 2003) configuram uma relacao em que a dimensao cooperativa e o valor da confianca sao reconhecidos como essenciais a continuidade, a estabilidade e a eficiencia do processo de interacao.

Estendendo essas relacoes para aquelas que ocorrem entre os associados da agroindustria, pode-se observar que a reciprocidade e responsavel pelas relacoes informais que fortalecem os lacos entre os associados, tendo elevada influencia na permanencia dos membros na Associacao e na cooperacao com o grupo. E possivel que exista uma tendencia, embora tenue, ao rompimento de relacoes de reciprocidade na comunidade, uma vez que e observado, de forma nao continua, nas geracoes mais novas, a presenca de atitudes egoistas de "doar" apenas se receber algo monetario ou de valor economico em troca, sendo muito forte, neles, o sentimento de "trabalhar" apenas em funcao de um lucro individual, gerando certo tipo de conflito e desestabilizacao da harmonia ate entao presente na comunidade. Os pais continuam defendendo que o bem-estar da comunidade reflete em todos, contudo, estao divididos entre a orientacao comum e as orientacoes e expectativas dos filhos.

Na atividade de extensao rural, a reciprocidade mostra-se principio fundamental para o desenvolvimento de trabalhos sustentaveis como a atividade de agroindustrializacao da agricultura familiar, pois, mesmo aqueles empreendimentos rurais bem estruturados com regimentos, regulamentos e continua assistencia tecnica, nao sobrevivem a relacoes pessoais de desconfianca ou conflitos no grupo, levando a desagregacao da associacao e, por consequencia, ao fracasso da atividade.

O padrao de centralidade aparece, de forma nitida, tomando como referencia que a centralidade seria a entrega dos produtos a uma autoridade institucionalmente investida, responsavel pela redistribuicao em bases justas, como descrito por Vinha (2003). A figura central da Presidente da Associacao, proeminente no grupo, como colocado por Polanyi (2000), tem autoridade de receber e redistribuir adequadamente os recursos advindos da atividade entre os membros, reconhecida e concedida pelo grupo, identificando-se, ainda, hierarquia e obediencia aos parametros definidos por ela, em conformidade com o principio da redistribuicao.

Em relacao a producao da polpa de fruta na agroindustria, ha relacao de confianca no tocante as normas determinadas pela Presidente, lider do grupo escolhida sob criterios informais em virtude da proatividade e pelo respeito que possui na comunidade. Contudo, ha uma preocupacao que essas normas sejam transmitidas e aprovadas em reuniao entre os associados. Ao receber as frutas in natura provenientes dos agricultores, estas sao pesadas e transformadas em pacotes de 100g de polpa de fruta e estocadas sob congelamento para a venda. Este procedimento e realizado por um grupo de mulheres da comunidade, associadas, e, geralmente, com relacao de parentesco com os produtores: esposa, cunhada, nora, ou filha.

A partir dai o rendimento (quilo de fruta) de cada agricultor pode ser diferente, sendo fatores intervenientes o estado de maturacao da colheita, a presenca de fungos ou pragas e a forma de armazenamento e de transporte da propriedade ate a agroindustria, o que pode ocasionar injurias nas frutas tornando-as improprias a utilizacao na fabricacao de polpa. Neste processo, observa-se que nao ha conflitos. Embora ocorram questionamentos por parte dos produtores, cada um aceita seu rendimento e procura melhora-lo na proxima entrega, seja pelo cuidado no manejo ou procurando assistencia tecnica no plantio.

Para a venda, e determinado um preco unico, elaborado com ajuda de um tecnico extensionista, a partir do rendimento conseguido na transformacao da fruta em polpa, calculado em funcao do preco maximo da fruta in natura no mercado local do municipio (a feira livre) na epoca, acrescido dos custos fixos e variaveis da agroindustria necessarios a sua manutencao. O calculo foi mostrado em assembleia aos associados e aprovado com o consentimento geral. Que conste como observacao que o residuo gerado do processamento (bagaco da fruta nao transformado em polpa) e utilizado no enriquecimento da racao animal e as cascas como cobertura morta nas plantacoes de outras frutiferas.

Do valor de venda, o produtor fica com 70%, dado que o resto e destinado a manutencao da agroindustria. O pagamento e repassado conforme vai sendo arrecadado o resultado da venda da polpa de cada produtor; e anotado e registrado um recibo num livro de caixa da agroindustria. Paralelamente, e controlado o estoque das polpas pelo metodo do primeiro que entra primeiro que sai (PEPS). Contudo, a fim de evitar desperdicios, foram definidos atraves de estudo de vida de prateleira, prazos de validade para cada um dos nove tipos de frutas produzidas, com a colaboracao de um extensionista, que e levado em consideracao no momento do controle de estoque. O preco total de venda, geralmente, fica abaixo do preco da polpa de fruta industrializada no mercado formal. O diferencial competitivo desses agricultores e a divulgacao boca-a-boca do "100% natural"-impresso em seus rotulos-, o que equivale a: produto fabricado de forma artesanal, sem adicao de agua, aditivos quimicos e conservantes.

Contudo, escutam-se na comunidade ameacas de alguns de desassociacao, alegando injustica pelo fato do esforco nao corresponder ao ganho. Os ameacadores afirmam que, uma vez sua esposa estando na producao e esta sendo mais agil que as demais, seu ganho deveria equivaler a esse "trabalho extra". Tambem desconfiam que, nao possuindo parentes na recepcao de suas frutas, estas podem ter sido preteridas em detrimento daquelas de outro produtor. O fato e que a relacao de desconfianca esta relacionada a percepcao do rendimento final, na visao individual do lucro.

Por nao ter certificacao pelos orgaos competentes, a polpa de fruta fabricada e vendida localmente a pequenos estabelecimentos de alimentacao, como lanchonetes e restaurantes e domicilios. A quase totalidade ocorre de forma direta ao consumidor final, pois, os volumes vendidos sao baixos. Com a Lei Federal 11.947, que obriga a compra de, pelo menos, 30% do total de recursos destinados a Alimentacao Escolar direto da agricultura familiar, a Prefeitura Municipal passou a comprar grande parte da producao dessa agroindustria. Mesmo assim, verifica-se a relacao de negociacao direta (de precos, prazos e volumes) da Associacao com a Secretaria de Educacao Municipal. Essa venda direta provoca a criacao de lacos sociais entre consumidores e agricultores, gerando confianca e reconhecimento do valor social da comunidade.

Apesar disso, a atividade, tanto do ponto de vista sanitario quanto ambiental e fiscal, precisa ser legalizada perante os organismos de regulacao publica. Isso implica em pagamento de impostos sob o produto vendido, sob a constituicao da associacao, dentre outros encargos; alem de impor uma dinamica de competitividade por mais clientes de forma a suportar a carga extra de custos. Sob esta otica, a observacao deste estudo aponta para a importancia das relacoes sociais estabelecidas mais do que qualquer valor de mercado. Acrescenta-se que, neste momento, ha um recuo por parte dos agricultores para ir em frente, ou seja, nao ha disposicao para enfrentar o mercado e alcancar um lucro que trara reduzidos beneficios (sociais) a si proprios e a comunidade. Percebe-se, nas falas, o medo de perder a tranquilidade, a dadiva da ajuda mutua, da relacao homem-terra, ficando todos escravos do trabalho para o mercado.

Neste ponto, pode-se notar uma abordagem que se aproxima do padrao da autarquia, que, segundo Polanyi (2000), nada tinha em comum com a motivacao do ganho, nem com a instituicao de mercados. Tomando-se como base que a domesticidade nao e mais do que producao para uso proprio dentro de um grupo fechado, que produz e armazena para se auto-sustentar, poder-se-ia vislumbrar um possivel afastamento do padrao identificado. Contudo, verifica-se que o produto elaborado pela agroindustria familiar rural, nesta comunidade, apesar de nao se destinar apenas ao auto-consumo, pode ser considerado como tal a partir do momento em que o arrecadado com a venda se transfere a compra de outros bens de primeira necessidade, a exemplo de alimentos a familia.

Neste sentido, pode-se estabelecer uma proximidade com o principio de domesticidade, uma vez que, para Polanyi, a essencia da domesticidade reside na producao para uso contra a producao para o lucro, nao devendo se ver afetado pela existencia de uma producao acessoria para o mercado: "enquanto os mercados e o dinheiro fossem meros acessorios de uma situacao domestica auto-suficiente, o principio da producao para uso proprio poderia funcionar" (POLANYI, 2000. p. 74). Observa-se, assim, que, se o principio de domesticidade nao e identificado de forma inequivoca -- dado que a producao nao e primordialmente dedicada ao consumo proprio -, existe na comunidade um padrao de autarquia no circulo formado por producao, comercializacao na propria comunidade e aquisicao de bens de primeira necessidade com o resultado economico obtido.

Apesar das inflexoes discutidas neste estudo, percebe-se a contemporaneidade de Polanyi, ao se conseguir identificar, na comunidade estudada, tracos dos principios e padroes de uma economia socialmente enraizada. No caso dos associados a atividade de agroindustrializacao da agricultura familiar, poder-se-ia presumir que os fatores economicos seriam os propulsores de suas vidas, replicando na situacao da maioria da sociedade. Porem, a observacao deste estudo aponta para varias outras relacoes sociais que se mostram mais importantes que as relacoes de mercado. Relacoes de parentesco, amizade, solidariedade e bem estar mutuo tem igual ou maior influencia, na tomada de decisao, que a maximizacao de lucros.

Assim, pode-se apontar que as proprias caracteristicas do tipo de empreendimento, tais como, ser gerido por agricultores familiares, manter proximidade territorial entre a producao e o consumo e possuir relacao direta com os consumidores, salvaguardaria, segundo Polanyi (2000), sua situacao como patrimonio social. E, em vez das relacoes sociais estarem embutidas na economia, e esta que esta embutida naquelas em sistemas produtivos locais, conforme ja observado por Ambrosini e Filippi (2008). Esses autores concluiram que havia tres dimensoes indissociaveis (economica, territorial e social) e que sua fusao seria responsavel pelo carater enraizado (embedded) dessas formas de organizacao produtiva, atividades economicas integram-se a valores sociais, a identidade cultural e a lacos comunitarios para garantir a reproducao social.

5 Consideracoes Finais

Dentro da realidade economica da sociedade do seculo XXI torna-se dificil pensar ou visualizar um outro contexto em que o aspecto economico esteja subjugado ao social ou mesmo em que o sistema economico esteja baseado em reciprocidade, redistribuicao e domesticidade, principios observados por Polanyi (2000). Mas, na comunidade em destaque neste artigo, Povoado Cruz, e visivel que, mesmo dentro de um contexto de economia de mercado, estes principios sao vivenciados.

A reciprocidade e vivida quando os membros da comunidade sao solidarios uns com os outros, arrefecem o individualismo e passam a viver para o bem comum. Ou, quando desenvolvem acoes para outros sem pedir nada em troca, e, como consequencia disso, sao beneficiados a medio/longo prazo individual ou coletivamente. A redistribuicao se da quando se centraliza a entrega dos produtos a uma representante do povo, no caso estudado, a Presidente da Associacao, pessoa de confianca e respeito. A ela se entrega o destino e a reparticao correta dos ganhos dos bens produzidos pela comunidade. A domesticidade, que dos tres principios destacados por Polanyi e o menos visivel no caso estudado, ocorre quando os produtores da comunidade utilizam os recursos economicos obtidos pela venda da producao para a aquisicao de bens de primeira necessidade. A venda destina-se a sobrevivencia, sendo, portanto, diferente da logica de mercado capitalista em que a venda esta baseada no lucro para o enriquecimento, a ele subordinando principios sociais, morais e eticos. Neste caso, ha um tipo de domesticidade que extrapola a ideia do lar, do domicilio, alcancando uma nocao mais ampla de relacao familiar, nao consanguinea, qual seja, a propria comunidade.

Diante do exposto neste trabalho, conclui-se que podem ser encontradas formas de organizacao social fundamentadas nos principios levantados por Polanyi, dentro de uma realidade de Economia Solidaria que tem como valores norteadores a solidariedade, o respeito, a ajuda mutua, a autonomia, a cooperacao, a doacao e a desalienacao, em contraponto ao individualismo, ao lucro exacerbado, ao egoismo, a alienacao e a perspectiva do ganha-perde, elementos comuns a realidade de mercado capitalista. Dentro de uma sociedade de mercado ha como se conseguir, portanto, que a economia permaneca como mera funcao da organizacao social, ainda que em espacos restritos.

http://revistas.facecla.com.br/index.php/recadm/doi: 10.5329/RECADM.20111002007

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1- Fabiano Andre Goncalves Silva

Mestrando em Administracao pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Brasil fabianoandree@yahoo.com.br

http://lattes.cnpq.br/7307771163463498

2- Dinara Leslye Macedo e Silva Calazans

Mestre em Engenharia de Producao pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Brasil Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Brasil dinaraleslye@yahoo.com.br

http://lattes.cnpq.br/5716461725901505

3- Juan Miguel Rosa Gonzalez

Mestrando em Administracao pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Brasil Professor da Faculdade de Ciencias Empresariais de Natal / Servico Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC/RN), Brasil jmrosag@yahoo.es

http://lattes.cnpq.br/8937963538553756

4- Washington Jose de Souza

Doutor em Educacao pela Universidade Federal do Ceara (UFC), Brasil Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Brasil

wsouza@ufrnet.br

http://lattes.cnpq.br/2387611219688981

Diego Maganhotto Coraiola -- Editor

Artigo analisado via processo de revisao duplo cego (Double-blind)

Recebido em: 09/12/2010

Aprovado em: 09/01/2011

Ultima Alteracao: 12/02/2011

* Contato Principal: Rua Praia de Tibau, 661, Nova Parnamirim, Parnamirim/RN, Brasil, CEP 59151-550.
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Author:Goncalves Silva, Fabiano Andre; Leslye Macedo, Dinara; Calazans, Silva; Rosa Gonzalez, Juan Miguel;
Publication:Revista Eletronica de Ciencia Administrativa
Article Type:Report
Date:Jul 1, 2011
Words:9431
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