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Os humildes da sociedade em Jonas, tragicomedia jesuitica inedita. Aspectos do comico.

Nos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo em Lisboa, no codice Manuscrito cia Livraria 2220, fls. 5v-49v, conserva-se, em boas condicoes de leitura, o texto duma tragicomedia jesuitica intitulada lonas, cuja data de composicao aponta inequivocamente para finais de 1579 ou principios de 1580. Esta certeza e-nos dada pela nota inserta no folio 5v. Atraves dela, ficamos esclarecidos do motivo da nao representacao deste drama de tema biblico no colegio de Santo Antao, a saber, a morte do Cardeal-Rei D. Henrique, ocorrida a 31 de Janeiro de 1580. (1) O codice contem ainda, nos folios iniciais (l-5r), uma parafrase poetica em hexametros dactilicos do Livro de Jonas, "Paraphrasis in Ionam", cujo autor presumimos ser o mesmo que compos esta tragicomedia.

Nao era a primeira vez, nem seria a ultima, que projectos de encenacoes de grande aparato eram suspensas por circunstancias imprevistas. Ha bem pouco tempo ainda, em 1578, acontecera isso mesmo com a tragicomedia Manasses, de Luis da Cruz, que viu cancelada a sua encenacao devido ao desastre de Alcacer-Quibir, onde desapareceu, com apenas vinte e quatro anos, o rei de Portugal, D. Sebastiao, deixando a patria de luto e com perspectivas sombrias quanto a sua sobrevivencia como nacao independente. (2)

Na correspondencia jesuitica do ano de 1594, urna carta do provincial da Lusitania enviada ao Padre Geral de Roma, Claudio Aquaviva, fala do caso duma tragicomedia cuja representacao foi cancelada na vespera por so entao se descobrir que continha cenas inconvenientes. Este descuido na censura previa ao drama a representar, com consequencias tao gravosas para o bom nome do colegio, tera mesmo motivado uma penitencia para o Reitor do Colegio e o Prefeito de estudos "por nao miraren la obra a su tiempo." (3)

Quanto a tragicomedia Jonas, nao encontrei, ate ao momento, noticia de outros codices com o seu texto. A lorma esmerada como este se apresenta registado e fortemente indicativa de que houve grande empenho em preserva-lo. Dessa tarefa parece ter-se encarregado uma so pessoa, que nao tera demorado muito tempo a executa-la com desvelo. Assim o sugere a letra duma so mao, o uso do mesmo instrumento de escrita e a distribuicao muito regular e asseada da escrita pelas paginas dos folios, devidamente formatadas.

Convem desde ja advertir que poderemos estar perante um texto que prima antes de mais pelo seu pioneirismo e originalidade. A Biblia tinha sido ate entao, e continuava a se-lo, uma fonte inspiradora de inumeras dramatizacoes em contexto escolar, centradas em varios dos seus livros, de que podemos referir, entre tantos outros casos, os de Georges Buchanan com as suas tragedias Baptistes e Jephthes e, em contexto jesuitico, o de Miguel Venegas e Luis da Cruz, no Colegio das Artes de Coimbra. (4) No que a presente tragicomedia diz respeito, podemos estar perante uma das primeiras dramatizacoes do Livro cie Jonas, ja que, no olhar que lancamos a alguns repertorios teatrais, nao logramos encontrar, pelo menos ate a data de 1580, um titulo que nos remetesse para uma dramatizacao deste livro biblico. (5)

Como veremos nestas paginas, estamos perante um genuino exemplar da producao dramaturgica jesuitica que remete ainda para o periodo aureo das origens, marcado em Portugal por nomes sonantes como os ja referidos de Miguel Venegas e Luis da Cruz. Este ultimo tinha assinalado a cena jesuitica nos anos anteriores com meritorias composicoes e continuava na altura o seu proficuo magisterio das humanidades no Colegio das Artes de Coimbra. (6) Bem poderia ser ele o autor da presente tragicomedia, na esteira das que ja havia escrito, todas elas de tema biblico. Mas tal hipotese parece de excluir, pois, nesse caso, ela tena sido incluida, tal como a Manasses, nas Tragicae comicaeque actiones, (7) ja que, a nosso ver, merito nao lhe faltaria para tal. A menos que alguma noticia inserta na correspondencia jesuitica esclareca de vez esta questao da autoria, o mais razoavel sera admitir que o seu autor foi o mestre de retorica da altura no Colegio de Santo Antao, ja que era para la que se estava preparando a representacao teatral que contaria com a presenca do Cardeal-Rei. (8)

A presenca esperada no espectaculo duma alta individualidade, neste caso o rei de Portugal, sem deixar de condicionar de algum modo a preparacao destes eventos teatrais, nao invalidava que eles traduzissem um claro proposito didactico-pedagogico, articulado com a normal actividade lectiva das humanidades no colegio. Assim, alem dessa alta individualidade, os alunos surgiam sempre como destinatarios especiais que explicavam apresenca de inumeras marcas no texto destas composicoes que remetiam claramente para esse proposito didactico-pedagogico. A tragicomedia Jonas tambem nao foge a regra, testemunhando no seu texto a qualidade do ensino das humanidades ministrado nessa altura no Colegio de Santo Antao. (9)

A dramatizacao da historia de Jonas foi concebida dentro dos parametros da tragicomedia, genero hibrido em franca ascensao nesta altura e muito acolhido na dramaturgia jesuitica por ser o que melhor se moldava aos objectivos do docere e do delectare. Luis da Cruz que, podemos dizer, experimentou os principais generos dramaticos, confessa, no prefacio ao seu teatro, a sua preferencia pela tragicomedia. Defendendo-se com as palavras de Plauto no prefacio ao seu Amphitruo, diz ter seguido o seu exemplo, preferindo apresentar tragicomedias a apenas tragedias ou comedias, por coexistir nelas "quer o tom serio que tanto agrada a nossa gente, quer igualmente uma certa alegria para, a intervalos, distrair os espectadores". (10) Foram exactamente estes ditames programaticos que orientaram o dramaturgo na construcao da fabula desta tragicomedia que, no conjunto de cenas que encerra, da expressao, por um lado, a verdade profunda do mais pequeno livro da Biblia e, por outro, garante momentos de saudavel hilaridade e recreacao, atraves duma bem imaginada amplificacao do nucleo biblico original.

E de todos bem conhecida a historia do profeta Jonas que, esquivando-se as ordens divinas de pregar aos habitantes de Ninive, tentou fugir num barco para Tarsis. No decurso da viagem, rebentou forte tempestade que levou os marinheiros a lancar a carga ao mar e, juntamente com ela, tambem a pessoa do profeta que, pelo seu crime de desobediencia a Deus, se considerava culpado daquela situacao. Engolido por uma baleia no momento do lancamento ao mar, foi devolvido pelo cetacio as praias de Ninive, a cujos habitantes, comecando pelo rei, anunciou, com exito, a mensagem de Deus, levando-os ao arrependimento e a mudanca de vida. A ampliacao deste nucleo biblico traduziu-se na criacao e concatenacao dum conjunto de cenas, servidas por personagens de vario tipo, incluindo as de tipo alegorico, sem nunca se perder de vista a verdade fundamental do Livro de Jonas: por um lado, afirmacao da universalidade da salvacao, contida na imensa misericordia de Deus; por outro, protesto contra o particularismo de Israel, espelhado na atitude de Jonas que tenta, primeiro, subtrair-se a sua missao entre os gentios e, no fim do livro, se revela como um grande egoista, descontente por Deus nao ter destruido Ninive, pondo em causa a sua profecia.

A accao dramatica, distribuida acto a acto, apresenta a seguinte dinamica: O acto I oferece os dados da situacao. Jonas, malquisto na sua terra, onde Jeroboao consente no culto a Baal, recebe a incumbencia divina de ir pregar a Ninive. Aterrorizado com a natureza arriscada da missao, resolve fugir, dirigindo-se ao porto de Jope, a fim de apanhar um barco para Tarsis. No caminho, cruza-se com os pastores de Geta, seus amigos, com quem convive por momentos e de quem recebe lembrancas para a viagem. O acto II tem como local de accao o porto de Jope, onde decorrem as peripecias do embarque, nao so de Jonas mas igualmente doutros passageiros, entre os quais se destaca a figura patusca do campones Bato. Aparecem ainda em cena os espiritos infernais, mostrando o seu regozijo pelo terreno livre de que dispoem, apos as Virtudes, no coro II, terem abandonado a cena em triste cortejo de lamentos, de partida para o exilio. O acto III mostra, nos arredores de Ninive, a liberdade de accao dos criminosos que assaltam impunemente camponeses ingenuos, com a conivencia das autoridades, permeaveis a corrupcao. Bem clamam as vitimas por Justica, mas esta abandonou os campos de Ninive. Entra em cena Eolo, incumbido de entregar a terra a furia dos ventos. Surge um naufrago que narra a sorte de Jonas, atirado ao mar e engolido por enorme baleia. Misericordia ouve a suplica de Jonas dentro do cetaceo e ordena a este que o vomite na praia. O profeta surge em cena todo enlameado e coberto de algas. O acto IV perspectiva uma mudanca de situacao. Os esquadroes do Tartaro armados contra Ninive serao dispersos, como anunciava o coro III. No palacio real de Ninive, onde se vive um auge de felicidade, ecoa a voz de Jonas anunciando a destruicao da cidade dentro de quarenta dias. A mensagem do profeta e tomada a serio com uma mudanca radical de vida por parte dos Ninivitas, encorajados pela atitude do seu rei, que se despoja de suas vestes douradas, substituindo-as por um saco. Grande e a admiracao de Jonas com a atitude penitencial das gentes de Ninive: "A mudanca da cidade pode alterar a sentenca dum Deus propenso a misericordia". (11) A accao do acto V corresponde ao capitulo final do Livro de Jonas, ou seja, a licao dada ao profeta: Ninive surgira como juiz para a casa de Siao. Esta licao, que surge na fala do Anjo Cassiel, e claramente formulada pelo dramaturgo a luz do Novo Testamento (Mt. 12, 38-41), como se pode ver:

"Pedes sinais; nao veras, porem, os sinais desejados, raca dura. Dar-te-ei os sinais de Jonas, o profeta. Porque assim como Jonas, apos ter estado escondido tres dias no ventre da baleia, com o corpo enlameado e os membros cobertos de algas, deu sinais da calamidade que foram acreditados pelos Ninivitas, assim tambem um dia o filho duma donzela pura dara sinais: jazera tres dias e tres noites sem vida, em negro tumulo; devolvera entao a existencia os membros mortos, chamando o espirito para as alturas divinas da luz.' (12)

A restante accao e uma especie de ritual de penitencia que culmina em festa apoteotica. Misericordia regressa a cena acompanhada das virtudes cardeais. Prudencia, Justica, Fortaleza e Temperanca retiram ao rei suas vestes de saco e revestem-no com as insignias das virtudes.

Nesta dramatizacao do Livro de Jonas nao ha preocupacoes com problemas de verosimilhanca. O dramaturgo dotou a fabula com personagens de vario tipo. Alem das que podemos designar de historicas ou verosimeis, como Jonas, o rei de Ninive, os magistrados da cidade, os pastores com quem Jonas se cruza e os marinheiros do navio onde embarca, ha as de tipo alegorico e as que se situam no dominio do maravilhoso pagao ou biblico.

Entre as de tipo alegorico merece realce especial Misericordia, na medida em que e o seu discurso que estrutura o sentido de toda a accao, conferindo-lhe unidade. Surge logo no prologo, fornecendo a chave de tudo o que se desenrolara em cena. A sua atitude mais caracteristica ao longo de toda a accao pode definir-se como uma especie de agon com a Justica, a quem se dirige ja no prologo:

"Irma Justica, que preparas tu para a Samaria, onde reina agora o tirano Jeroboao?" (13)

"Contem a tua dextra que reclama castigo contra Ninive; contem o fogo da vinganca". (14)

Este conflito com a virtude rival ressurge na cena III. 6, (15) onde Justica lhe diz recear que indulgencia a mais prejudique a terra. (16) E Misericordia que fala com Eolo, quando este regressa as escuras cavernas dos ventos, e ordena a baleia que vomite Jonas (III. 12). Por fim, e ela que preside ao momento festivo em que o rei de Ninive despe o seu rude vestuario e enverga os ornamentos que as Virtudes lhe conferem (V. 6).

Nas personagens ligadas ao maravilhoso biblico, temos, por um lado, os anjos (Anjo Custodio de Ninive, Zaciel e Cassiel) e, por outro, os espiritos maus, habitualmente designados, no teatro jesuitico, pelo termo grego Cacodaemones, mas aqui com nomes que os ligam claramente a tradicao biblica, a saber, Leviata, Asmodeu e Beemot. (17) Finalmente, como personagens advindas do maravilhoso pagao, temos o ja referido Eolo, rei dos ventos, e os seus subordinados Austro, Africo e Boreas, cuja insercao na fabula dramatica encontra justificacao a pretexto do desencadeamento da tempestade que ditaria o lancamento de Jonas ao mar.

O dramaturgo, interessado em transmitir artisticamente a mensagem do Livro de Jonas, concebeu uma fabula que evoluiria naturalmente em cena sem se inibir de colocar em interaccao personagens de diverso tipo, verosimilmente incompativeis. A transicao entre cenas da-se muitas vezes por indicacao de personagens que nada tem a ver com as que sao anunciadas. No final da cena II.6, o campones Bato exibe o seu subito terror ao avistar a turba de demonios que animara a cena seguinte:

"Mas eis que uma fera salta do seu esconderijo. Ai, estou a tremer; vos, pernas, velai por mim. Eu morro sem folego, eu morro, pobre de mim." (18)

A entrada em cena do Anjo Custodio de Ninive, no final da cena III.4, poe em fuga outros dois camponeses, igualmente aterrorizados.

"Bleso--Quem vejo eu ao longe aproximando-se com uma espada de fogo? Rebo--Foge, foge. Ignoro quem sera." (19)

E o Oraculo quem ordena a Eolo que entregue a terra a furia dos ventos do sul, no final da cena 7, para mais a frente, na cena 11 ainda do acto III, ser Eolo, por sua vez, a assinalar a entrada em palco de Misericordia, com quem estabelece breve dialogo.

Falemos, enfim, do espectaculo em preparacao que acabaria por nao se realizar. Neste aspecto, a tragicomedia Jonas prometia muito. O que o texto sugere aponta claramente para um espectaculo de tipo barroco, com cenas variadas, muitas delas de grande exuberancia, artificiosamente construidas. A par da variedade de ambientes que o texto sugere e que, de algum modo, surgiriam representados no cenario (o campo, o porto de Jope como local de embarque, o litoral de Ninive, o palacio real com seus magistrados e funcionarios, devidamente trajados), refiramos sobretudo a qualidade das personagens em cena, onde a alegoria e a prosopopeia marcam forte presenca. Cada urna das virtudes que evoluiria em cena (Misericordia, Justica, Penitencia, Prudencia, Justica, Fortaleza e Temperanca) pressupunha certamente uma indumentaria caracteristica, ostentando determinada carga simbolica que levaria imediatamente a plateia a identificar a Virtude em causa. (20) Esta indumentaria, portadora duma simbologia emblematica segundo as convencoes da epoca, estender-se-ia igualmente a Eolo e aos ventos aqui intervenientes: o Africo, o Austro e o Boreas. O mesmo se diga dos Anjos (o Anjo Custodio de Ninive empunharia "uma espada de fogo", segundo o v. 1169) e dos espiritos infernais, que nao dispensariam a vergonhosa cauda:
   Demonio-chefe--"Essa forma de andar agrada-me muito, mas esconde-me
   essa cauda negra. As pessoas nao se cansam de dizer que ha que ter
   cuidado com as tortuosas voltas duma cauda negra." (21)


Apos esta ideia geral da fabula dramatica no que respeita ao enredo, as personagens e ao espectaculo, centremos agora a nossa atencao na vertente comica desta tragicomedia. E neste dominio que reside, a nosso ver, o merito principal do dramaturgo. No seu labor poetico de amplificacao do nucleo biblico, conformando-o ao genero dramatico, ele conseguiu temperar a seriedade (grauitas) do tema central do enredo, pontuando o ritmo da sucessao cenica com momentos fortes de hilaridade e encanto (delectado), folgando com isso os espiritos e predispondo-os para um melhor acolhimento da licao da fabula (objectivo do docere). Estes momentos mais leves da accao dramatica, propiciadores de delectatio, tendencialmente comicos, impoem-se sobretudo na primeira metade da peca, rareando mais para o fim, designadamente nos actos IV e V, onde o tema da penitencia regressa em forca. A accao decorre agora no palacio real de Ninive. O protagonismo passou para as Virtudes, com a Penitencia em grande relevo, e para os Anjos, face a derrota e ao recuo dos Vicios que, no teatro jesuitico, constituem sempre um aliciante pretexto para uma fecunda exercitacao do comico.

Sao varios os motivos que nesta tragicomedia dariam azo a uma distensao do espirito dos espectadores, fosse pelo encanto do cenario, fosse pelo comico da accao. Temos antes de mais os espiritos maus (Cacodaemones) que evoluiriam em cena com um vestuario grotesco e ridiculo e dialogariam sobre os varios tipos de maldade que se propunham espalhar na sociedade. A estes associavam-se as figuras de criminosos, com um comico de linguagem igualmente forte. Fonte, igualmente assinalavel, nao apenas de comico mas, sobretudo, de deslumbramento, seria a presenca em cena de Eolo, rei dos ventos, e dos seus subditos, o Austro, o Africo e o Boreas. A sua caracterizacao visual, ha que acrescentar o seu comportamento, de acordo com a caracterizacao psicologica de cada um, patente em suas falas. (22) Vamos, porem, deter-nos por agora mais demoradamente sobre a presenca em cena de dois tipos de personagens representativas do que podemos designar de "os humildes da sociedade", a saber, pastores e camponeses.

Acto I, 4-5: Os pastores de Geta, ou uma ecloga na tragicomedia

Os pastores entram em cena cantando em coro duas estrofes de versos hendecassilabos seguidas de uma terceira, de metrica diferente, cantada a solo:
   Em coro: "Por vale sombrio, com nodoso cajado, o pastor, conduzindo
   o docil gado, soltava melodias com a flauta, extasiado com a beleza
   do campo e o fluir dos cursos de agua. Os balidos das ovelhas
   soam-lhe harmoniosamente; o vento afaga-lhe o peito com brisas
   suaves. Brilham rosas vermelhas, fascinando-lhe o olhar. Nenhum
   cuidado lhe atormenta o espirito."

   A solo: "O lua, debaixo de ti, na noite sombria concentra-se a
   escuridao; sem te esquecer, Tita acende para ti sua lampada de luz
   brilhante." (23)


Esta accao rudimentar protagonizada por pastores tem justificacao verosimil. Ela da-se no decurso da viagem de Jonas para o porto de Jope, onde apanhara um barco para Tarsis, esquivando-se desse modo as ordens de Deus. O cenario muito proprio (o campo, onde vagueia o gado) e a ocupacao do tempo pelos pastores com conversas triviais, piadas e despiques variados, nomeadamente o do canto amebeu, tornam logo claro que os seus 134 versos (do 350 ao 484) representam uma exercitacao do dramaturgo no genero pastoril. Ou seja: temos aqui uma ecloga enxertada na fabula dramatica.

De resto, o abandono do senario iambico, substituido pelo hexametro nas falas dos pastores, deve tomar-se como um claro sinal duma imitatio consciente, segundo as convencoes da poesia pastoril. O modelo Virgilio surge inequivocamente aludido, nao apenas no nome dado a dois pastores que evoluem em cena, Iolas e Maeris, mas igualmente na mencao, em varias falas, de outros pastores virgilianos como Corydon, Tytirus, Amyntas e Palaemon. Saliente-se ainda, como signos dessa imitatio, todo um vocabulario de cor bucolica ("lupus", "ovile", "gramen", "fagus umbrosa", etc.) e, mais significativo ainda, um caso nitido de decalque dos w. 23 e 31 da ecloga IX do poeta latino:

Aretus

"Tytire dum redeo breuis est mora, pasee capellas Vbera distendent plena ad mulctralia uaccae."--vv. 366-367

Apesar deste decalque, a accao aqui retratada tem mais a ver com a ecloga I de Virgilio. Jonas deixando a sua terra, de partida para longinquas paragens, evoca-nos o amargurado Melibeu diante do afortunado Titiro. Os pastores dos campos de Geta mostram-se desconsolados com a sua partida para o exilio. Eles tinham-no como o seu heroi. Ainda ha bem pouco haviam-se declarado admiradores das suas profecias:

Calisto---"E isso. Jonas e a honra e a gloria da nossa terra de Geta.

Areto--Mais do que o sopro do Austro na primavera, mais do que o mar fustigado pelos ventos junto as praias, sao do meu agrado as sagradas profecias do divino profeta." (24)

Agora, exibem a sua grande consternacao em poeticos lamentos. Mas uma vez que nada ha a fazer, tomada a decisao de partir ("Quando stat abire..."--v. 438), tal como Titiro na ecloga virgiliana, os pastores cumulam Jonas e Dulo, o seu criado, com os dons da sua hospitalidade. Vale a pena transcrever aqui esse momento entemecedor:

Calisto--"Pedimos-te que ponhas dentro dos cestos umas pequenas ofertas

Jonas--Vem ca, rapaz.

Dulo--Ha ainda alguma coisa mais para carregar sobre os meus ombros?

Jonas--Esta carga nunca e pesada.

Calisto--Este queijo minorar-te-a os enjoos, por falta de alimentacao. E mais ainda: recebe tambem um barrete de orelhas para o inverno, bem felpudo, para combater o frio.

Dulo--Ah! Assim, sim. O barrete macedonico ja imita os marinheiros de Tiro. Como se ajusta bem a cabeca!

Macaro--Nos oferecemos-te castanhas assadas, alem de nozes e barriga de porco.

Areto--Entreguem-te tambem os seus presentes os habitantes da Caria.

Dulo--Bem me agrada esta oferta. Os figos, que fiquem guardados nos bolsos.

Jonas--Aceito esta prova memoravel duma grande amizade. Que os leoes nao vos dilacerem os rebanhos nos montes." (25)

Dado o ultimo abraco, Jonas segue o seu caminho, apenas na companhia do moco, agora lamentando-se ja em senarios jambicos.

Acto II, 4-6: Bato, ou a comedia dum campones ingenuo

O embarque de Jonas no porto de Jope fornece ao dramaturgo pretexto para animar a accao dramatica com momentos de genuina comicidade centrada na figura dum rustico simplorio, de seu nome Bato. Os camponeses, pelos seus modos ingenuos e rudes, sempre constituiram um bom pretexto para a expressao comico. Em relacao a esta personagem, o proprio dramaturgo deixou no texto indicacao clara do seu proposito de, em torno dela, dar azo aos momentos mais hilariantes da accao dramatica, como o sugere o aparte de Emporo, companheiro de Bato no momento do embarque: "E uma comedia que esta agora em exibicao". (26) Conhecedor do caracter do camponio, Emporo resolve rir-se as custas deste, transformando o local de embarque num palco de comedia onde Bato e o protagonista. Mas vejamos a evolucao deste em cena.

Mal entra em palco, Bato apanha um grande susto que o faz desmaiar, acordando pouco depois com a intervencao de Emporo que lhe despeja sobre o rosto o pote de agua. A causa de tal desmaio foi o ataque subito do chefe dos demonios, Demonarques, que acabara de sair de cena e se refugiara na sua caverna, mas nao sem que antes Bato o tivesse visto e provocado nos seguintes termos:

"Sai para fora, besta, sai para fora. O fera, desgraca do gado, das casas, das searas e dos rebanhos indefesos." (27)

A fera demoniaca, em resposta a tais provocacoes, irrompeu do seu esconderijo na figura duma besta horrenda.

Recomposto deste susto, Bato reentra de novo nas suas bravatas. Aquela alimaria, admite ele (w. 727-741), teria deixado estarrecido qualquer um, mas quanto aos perigos do mar, esses ja nao os teme. Esta habituado a rasgar a terra com o arado e o mar e mais mole que a Ierra. Poderia conduzir um navio. Considera-se muito aperfeicoado na ciencia dos astros. Estas e outras gabarolices induzem Emporo a avancar com um plano de colocar o campones no centro duma comedia. Faz-lhe crer que o supremo cargo num navio e o de remador e que ele, Bato, o podera obter. Na cena seguinte (II, 5) vemos Bato solicitar ao piloto, Tifis, essa honra suprema do navio. Com a conivencia de Emporo, de Tifis e do capitao do navio, Navarco, encena-se entao uma prova de exame a ciencia astronomica do candidato Bato, em ordem a averiguar a legitimidade das suas pretensoes. Vejamos um pequeno excerto deste exame, com perguntas de Tifis e respostas de Bato:
   (...)

   Tifis

   Onde estao os cornos do Carneiro?

   Bato

   Onde esta o carneiro.

   Tifis

   E Touro?

   Bato

   Esta nos campos de pastagem. Gostaria que me colocasses questoes
   mais puxadas.

   Tifis

   De acordo. Onde estao colocadas as duas Ursas?

   Bato

   Quem me dera que elas nao andassem em volta das minhas colmeias.

   Tifis

   Onde e que a cabrinha acalenta os brancos cabritinhos?

   Bato

   Oxala ela acalentasse muitas vezes as suas tenras crias, deitada
   nos meus apriscos.

   Dromo

   Muito bem.

   Tifis

   E que sabes do Leao?

   Bato

   Os leoes rugem nos montes da Libia.

   Tifis

   E Cancer?

   Bato

   Agarra-se as duras pedras do mar. Um outro cancer, pestilento,
   alastrando em silencio, devora os membros dos homens. (28)


Bato supera a prova, segundo o veredicto pronunciado por Navarco:

"Nao nos demoremos mais. Pronuncio a sentenca: Como perito dos astros e de tudo o mais, seras um remador matematico". (29)

Porem, nao chega a tomar posse. Quando soa a hora de embarcar realmente, quando os marinheiros ja fazem ouvir seus cantos a Eolo, em disticos elegiacos:

"Da-me ventos de feicao para as velas enfunadas/Concede-me, Eolo, chegar aos lares de Tarsis, minha patria", (30)

o enjoo provocado pelo baloucar do barco altera de todo a disposicao animosa de Bato. Sente que vai vomitar as entranhas e toma uma resolucao:

"Que? Para o barco? Para tras, para tras, Satanas. Gato escaldado de agua fria tem medo". (31)

Ao companheiro, augura ma fortuna. Quanto a si, "seguira pelos caminhos das raposas, que bem conhece". (32) Apos jurar varias vezes em como nunca mais navegara nem ira ao mar, todo sujo dos vomitos que tardam a cessar, sai finalmente de cena tal como entrara: morrendo de susto ante a fera demoniaca, Demonarques, que irrompe de novo da sua caverna para maquinar iniquidades nas cenas seguintes.

Acto III, 2-4: vida de campones e dura e indefesa

Os camponeses serao de novo aproveitados pelo dramaturgo como fonte de comico no inicio do acto III. Apos o cortejo das virtudes se ter despedido lugubremente de Ninive no coro II, surge agora a Justica anunciando que, tambem ela, diz adeus a terra contaminada e, apos o exilio de suas irmas, segue em ultimo lugar para o Ceu. (33) Surgem entao em cena dois criminosos, um deles, chamado Polimbo, recem-saido da prisao, entra em cena exibindo a sua furia, num desejo de vinganca cega, com fanfarronadas que logo evocam o Pirgopolinices de Plauto, na cena inicial do Miles.

"Abri-me caminho, conhecidos e desconhecidos. Fugi todos. Ide-vos, ide-vos daqui. Afastai-vos da frente, nao va eu atingir-vos imediatamente com meu peito, meus joelhos ou meus fortes musculos. Nem havera alguem tao atrevido ao ponto de se atravessar no meu caminho. Aviso os triunviros e os governadores de que, se esbarrar com eles, facilmente os farei em pedacos com a minha espada de dois gumes. Que demarcos, comarcos e a turba dos lictores se ponham a milhas daqui!" (34)

As vitimas desta furia exaltada vao ser tres inocentes camponeses que, pelo que se depreende dos seus nomes e das suas falas, o dramaturgo pretendeu caracterizar como gente simples vivendo do penoso trabalho do campo que, alem de pouco rentavel, ainda lhes diminui a saude, deformando-lhes o corpo sob o peso de fardos como os que trazem as costas e descarregam em cena. (35)

Os camponeses dao pelos nomes de Menedemo, Bleso e Rebo, de matriz grega como, no geral, os das personagens desta tragicomedia. Os dois ultimos, pelo que apuramos, remeterao para a postura fisica em cena das respectivas personagens, ja que Bleso, do gr. blaisos significa "de pes voltados para fora", enquanto Rebo, do gr. rhaibos significa "torcido".

Menedemo, Bleso e Rebo entram em cena cantando em honra do Sol, vigiados ja pelos dois bandidos que, com a sua mentalidade de citadinos, criticam o falar "barbaro" ("loquellae barbarae"--v. 1126) dos rusticos, (36) enquanto esperam pelo melhor momento para os assaltar. Os camponios, por seu lado, invejam a vida dos citadinos e queixam-se dos multiplos infortunios que os afligem, enquanto vao dando conta dos trabalhos que lhes ocupam os dias, sob as ordens do capataz do patrao. (37) Os bandidos, que continuam de atalaia, veem entretanto chegado o momento ideal de atacar. Os camponeses descarregaram os fardos de mercadoria e atiraram-se ao almoco, desdobrando os seus farneis. No momento em que Menedemo se queixa de ter deixado em casa tres cabacinhas de vinho, (38) aqueles surgem de espada desembainhada. Surpreendidos, os pobres homens mal tem tempo de organizar a defesa. Para piorar a situacao, a espada de um deles esta enferrujada, resistindo a ser desembainhada.

A chegada, na cena seguinte, da autoridade policial, na pessoa do Triunviro, poderia restabelecer a legalidade e a justica, mas nao e o que sucede. Em rapida jogada de antecipacao, os bandidos queixam-se ao Triunviro de terem sido insultados pelos camponeses, e passam-lhe uma quantia de dinheiro, colocando-o do seu lado. "Como se limpam uns aos outros!" "Coitado de quem e pobre", (39) exclamam os camponeses, abandonados e sem defesa, resignados a regressar a casa sem recorrer a tribunais porque, como diz o criminoso Cares, "a Justica fugiu da grande cidade de Ninive". (40) Sem dinheiro, que mais havia a fazer senao entregar o caso a Deus? (41)

Conclusao

Apos esta passagem em revista da presenca em cena destes dois tipos de personagens, podemo-nos interrogar sobre o porque deste destaque dado a pastores e camponeses. No que toca as cenas pastoris, parece bastante evidente que a sua genese tera presidido um nitido proposito didactico que elegeria como destinatarios privilegiados os alunos de humanidades do colegio. Alem de, atraves delas, se dar expressao a simplicidade e a pureza de costumes das gentes do campo, sobressai igualmente, e talvez sobretudo, o proposito de evidenciar como se pode compor uma ecloga tendo Virgilio como modelo. (42)

Ja quanto aos camponeses, sem negar a influencia da tradicao literaria (em Gil Vicente, o campones e um tipo social de presenca comica bem vincada), arriscaria a sugerir, no tratamento que aqui lhes e dado, ecos da sociedade portuguesa de entao, marcada por gritante desfasamento entre campo e cidade. Um campones apanhado em ambiente citadino facilmente se tornaria fonte de ridiculo. A esta marginalizacao pelo ridiculo e ao desprezo a que se sentiam votados, os camponeses acrescentariam ainda miseraveis condicoes de penuria, advindas duma injusta exploracao a que se iam resignando. Atraves destas ingenuas personagens, o dramaturgo, eventualmente o mestre de primeira do Colegio de Santo Antao, propositadamente ou nao, tera reflectido na fabula dramatica os profundos desequilibrios que marcariam na altura a nacao portuguesa, em vesperas de perder a sua independencia, colocando-se sob o dominio espanhol.
Anexos finais
(excertos de ANTT, cod. 2220)

1. Elenco das personagens

Interlocutores:
Misericordia
lonas propheta
Cacurgus, Melampus: Samaritani
Oraculum
Dulus, puer Ionae
Callistus, Aretus, Macaras, Idas,
  Maeris: pastores
Nauarchus, Tiphis, Dromus: nautae
Emporus, Battus: uectores
Daemonarches, Leuiathan, Behemoth,
  Asmodaeus: spiritus
Prudentia, Fortitudo, Temperantia,
  Iustitia, Paenitentia: Virtutes
Deus
Angelus custos Niniues. Cassiel,
  Zaciel: Angeli
Aeolus, rex Ventorum. Auster, Africus,
  Boreas: uenti
Naufragus. Limenarches Ioppaeus
Praefectus atrii
Epaenus, Agathus, Gelasinus, Dorylus:
  pueri aulici
Thereutes, princeps uenationis regiae
Myrtilus regis filius
Polymbus, Chares: sycophantae
Menedemus, Rhaebus, Blaesus: rustid                              /5v/
Ophratanes, Rex Niniues. Colax,
  Autophilus: purpurati
Nineas, regis famulus
Laosthenes. Praefectus urbis. Zames,
  Tribunus. Cerix praeco.
Polites, Miaenus, dues
Limottus, Dipsius: pueri famelid

2. Coro I (estrofes salicas)

(...)
Chorus primus
Non esse latebram sceleri

Conde te pigris ubi nulla campis
Arbor aestiua recreatur aura
Conde te Titan ubi luce gentes
Feruidus urit.                                                   590

Te uel in terra domibus negata
Ira diuinae premet ultionis.
Numinis rubras uomit, usque uindex
Dextera flammas.

Quid Dei, lona, faciem benigni                                   595
Quid fugis terras procul in remotas?
Cuius offensi tremit omnis iram
Angulus orbis.

Ah miser quantas patiere clades!
Aeolus soluet per inane uentos               600
Et Thetis inter pelagi frementis
Stagna mouebit.

I modo, et nautis pretium carinae
Solue conductae, freta scinde rostris:
Mox scies ullas latebras scelestum           605                 /17r/
Pectus habere.
(...)

3. A prosopopeia dos ventos (cena III, 8)

(...)
Aeolus
Audite, geminis ante quam laxem datas
Manibus catenas. Fluctus imperio Dei
Agitandus est frementis impulsu aequoris.    1325
Vbi fluctuantis nauis intrarit salum                             /29v/
Tabulas, et onera nauta proiiciet metu
Mortis propinquae. Sortibus uates ubi
Ob scelus in altum fuerit eiectus mare
Cessate: poenis statuit hunc modum Deus.     1330
Africus
Quid Auster oris murmur inflati premis?
Cur aequor undis non tumet motis uagum?
Aeolus
Quid Auster alto frigidis buccis ages?
Auster
Adimam refusa nube purpureum iubar
Solis; tenebris occulam piceis polum.        1335
Caligo, pluuia, nimbus, et noctis comes
Horror, sequuntur turbidum a tergo Notum.
Ponto incubabit, atra nox dubio. Simul
Nimbosus aures feriet atque animum
  fragor.
Aeolus
Quid saeuienti turbine Borea paras?          1340
Boreas
Poli intonabunt ignibus crebris; niger
Aether micabit; fluctus attundet latus
Vtcumque nauis: mons aquarum maximus
Voluetur. Afric. Imis aequor aflusum
  uadis
Cumulos arenae ostendet. Ob oculos necis     1345
Praesens imago errabit: incurrens meus
Franget gementem remigem, et remum
  impetus.
Aeolus
O quanta miseris imminent nautis mala
Itote. Fluctus tollite ad caelum maris.
Auster
Imus. Minaci fronte si Borea uelis           1350
Incurrere, orbis corruet fracto sono.
Boreas
Pugnare tecum capite conuerso libet.
Africus
Agite, inferamus impetum in pelagus
  grauem
(...)

4. Coro final dos Anjos                      (versos salicos
                                               e adonio final)
(...)
Chorus Angelorum
Saphici uersus

Omnes
O uiris gratam superisque lucem,
O diem laetis celebrem triumphis
Qua Deus dextra propior benigna
Diluit tabes animi dolentis.
Vnus est toto seges ampla caelo              2500
Gaudii luctu uir iniqua mentis
Facta qui pensat: seges est acerbe
Incolis idem stygiis dolendi.
Vnus
Si super mentis lacrymas Olympus
Vnius festas celebrat choreas                2505
Quid polo natae capient sereno
Gaudii mentes Niniuen uidentes
Pristinum fletu scelus expiantem?
Omnes
Vrbis o laudes lyra paenitentis
Docta concentu modulare uocis,               2510
Victus est princeps stygiae paludis,
Victus est fletu furiosus hostis.
Dissipant structae cuneos phalangis
Impetu ad terram pluuiae cadentes.
Subdolum infernae fugat agmen orae           2515                /49v/
Maeror ubertim lacrymis inundans
Ora profusis.

Finis.


Manuel Jose de Sousa Barbosa

CEC-FLUL

menamanuel@sapo.pt

(1) A nota e a seguinte: "Parabatur haec tragicocomoedia a Collegio Olyssiponensi Societatis Iesu Henrico I Lusitaniae Regi S. R. E. Cardinali etc. Propter illius mortem, et procerum luctum, aliasque temporum difficultates, data non fuit." (Traducao: "Estava a ser preparada esta tragicomedia pelo Colegio de Lisboa da Companhia de Jesus para o Cardeal-Rei D. Henrique. Devido a sua morte e ao luto da nobreza, bem como a outras dificuldades da altura, nao foi representada.

(2) Eis o teor da nota inserta no frontespicio da edicao desta tragicomedia de Luis da Cruz: "Parabatur ab Academia Eborensi Societatis Iesv, Principibus Brigantinis, et Patruo Theotonio Antistiti Eborensi, aliisque Lusitaniae Proceribus. Propter temporum difficultates data non fuit" (traducao: "O Colegio de Evora, da Companhia de Jesus, preparava a sua encenacao para os Principes de Braganca e para o seu tio, D. Teodosio, Bispo de Evora, bem como para outras altas individualidades de Portugal. Devido aos contratempos da altura, nao foi representada"). Cf. Tragicae comicaeque actiones a Regio Collegio Societatis Iesu. Datae Conimbricae in publicum theatro. Auctore Ludouico Crudo. Lyon, Horace Cardon, 1605, p. 635. Da tragicomedia Manasses apenas possuimos o texto impresso de Lyon (pp. 635-828), nao restando do texto manuscrito nada mais do que um escasso fragmento inicial, num codice da Biblioteca Publica de Evora (cod. CXIV/1-9, pp. 305ss.).

(3) Cf. Archivum Romanum Societatis Iesv (ARSI), Lus. 72, fl. 196.

(4) De Miguel Venegas, (1531--?) temos as tragedias Saul Gelboaeus (1559), Achabus (1661) e Absalon (1562). Apenas da Achabus existe edicao integral bilingue latim-portugues, em CD apenso a obra Margarida Miranda, Teatro nos Colegios dos Jesuitas. A Tragedia de Acab de Miguel Venegas S.I. e o inicio de um genero dramatico (sec. XVI), Lisboa, Fundacao Calouste Gulbenkian, 2006, 573 pp. De Luis da Cruz, temos tres tragicomedias (Prodigus--1568; Iosephus--1574 e Manasses--1578) e uma tragedia, (Sedecias--1570). Esta ultima conta com uma edicao moderna onde pela primeira vez se da conta da sua tradicao textual (Luis DA Cruz, Teatro. Tomo I: Sedecias. Estabelecimento do texto latino, introducao, traducao, notas e comentario de Manuel Jose de Sousa Barbosa. Coimbra, Imprensa da Universidade, 2009 (Portugaliae Monumenta Neolatina, vol. V).

(5) Consultamos as seguintes obras: 1) Andre Stegmann, L'heroisme cornelien. Genese et signification, Paris, Libraire Armand Colin, 1968. Tome II, pp. 669-679 (Appendice II: "Le theatre scolaire neo-latin de la Compagnie de Jesus". 2) Freches, Claude-Henri, Le Theatre neo-latin au Portugal (1550-1745), Paris, Librairie A. G. Nizet-Lisbonne, Librairie Bertrand, 1964, p. 138-145. 3) Jean-Marie Valentin, Le theatre des Jesuites dans les pays de langue allemande: repertoire chronologique des pieces representees et des documents conserve's (1555-1773), Anton Hiersemann, Verlag Stuttgart, 1984.

(6) Sinais dessa sua actividade e, sobretudo, da admiracao que ela suscitava aparecem-nos ilustradas em apontamentos de aulas suas que alguem teve o cuidado de recolher e que nos surgem nos fls. 132r-136r do codice Manuscrito da Livraria 2209, dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo. Cf. Manuel Barbosa, "Os classicos e a sua leitura na pedagogia jesuitica. Os Aduersaria de Luis da Cruz, S.I. (1543-1604)", Euphrosyne, 35 (2007), pp. 405-420.

(7) Tragicae comicaeque actiones a Regio Artium Collegio Societatis IESV, datae Conimbricae in publicum tlieatrum, auctore Ludouico Crudo eiusdem Societatis olisiponensi, nunc primum in lucent editae et sedulo diligenterque recognitae. Cum privilegio. Lugduni, apud Horatium Cardon, 1605.

(8) Sao muitas as pecas jesuiticas anonimas, facto que se ficara a dever nao apenas a um exercicio de humildade dos autores, mas tambem porque a composicao teatral em contexto escolar constituia, naquele tempo, quase uma rotina. Muitos destes textos circulavam anonimamente entre colegios, para animar, pelo teatro, a didactica das humanidades, tornando hoje dificil efectuar, em muitos casos, uma verdadeira destrinca quanto a origem de muitos textos teatrais anonimos que repousam em muitas bibliotecas e arquivos. Tendo em conta esta realidade, colocarei nos "Anexos finais" o elenco das personagens desta tragicomedia bem como de alguns coros.

(9) O texto integral desta tragicomedia, bem como a Paraphrasis in Ionam, que a antecede no codice, esta disponivel, em publicacao digital, na pagina electronica do Centro de Estudos Classicos da Faculdade de Letras de Lisboa (www.fl.ul.pt/unidades/centros/cec/instmmenta/luisda cmzdigital.html).

(10) "Hoc secutus exemplum, malui tragicocomoediis dare, quam uel solas Comoedias aut Tragoedias. Vt et grauitas esset nostris hominibus gratissima, et hilaritas quaedam popularis, quae per interualla spectatorem recrearet"--Tragicae comicaeque actiones.p. **4r.

(11) "Mutata civitas Dei sententiam/Mutare proni ad Misericordiam potest."--vv. 2092-3.

(12) 'Signa petis; non signa tamen stirps dura uidebis/Exoptata. Dabo Ionae tibi signa prophetae./Quippe uelut lonas postquam tres uiscere ceti/Delituit luces, limosum corpus, et alga/Obsita membra gerens Niniuitis credita cladis/Signa dedit, pura sic quondam uirgine natus/Signa dabit: tumulo luces noctesque iacebit/Tres nigro exanimis, turn mortua membra refundet/Luce, uocans animum dias in luminis auras."--vv. 2292-2300.

(13) "Germana quid Iustitia Samariae paras,/Vbi nunc tyrannus sceptra Ieroboam gerit."--vv. 27-8.

(14) "Ergo irrogantem contine Niniuae soror/Supplicia dextram, contine ultorem rogum:"--w. 46-7.

(15) A numeracao romana remete para o acto onde se insere a cena, indicada em numeracao arabe.

(16) "O germana soror, nimia indulgentia tenis/Ne noceat uereor. Vix prosunt ipsa Tonantes"--vv. 1246-7

(17) Espiritos maus que, na mitologia biblica, trazem a perdicao aos homens. Asmodeu e o espirito mau que, no Livro de Tobias, mata os sete maridos de Sara, antes de esta se relacionar com eles. Os outros dois remetem mais para monstros, que, nos textos poeticos surgem como personificacoes de todas as forcas maleficas. Beemot remetera para o hipopotamo, de acordo, alias, com a significacao do proprio termo, enquanto Leviata surge descrito na Biblia ora como uma serpente, ora como um dragao de varias cabecas, ora como um crocodilo. Cf. Dicionario Enciclopedico da Biblia, Dir. A. Van Den Born, Vozes, Sao Paulo, 1971, s. u. "Beemot", "Asmodeu" e "Leviata".

(18) "Sed ecce Bellua e latebris foras/Erumpit: eheu tremisco; uos pedes mihi/Consulite; flatu morior heu, morior miser."--vv. 869-71.

(19) Blaesus--"Quem fulminante uideo uenientem procul/Gladio? Rhae. Fuge, fuge. Nescio quid hominis siet."--vv. 1169-70.

(20) Este tipo de teatro que, tal como esta tragicomedia, faz largo uso da alegoria e da prosopopeia e que conheceu grande fortuna por todo o seculo XVII e XVIII, explicara o aparecimento da grande recolha simbolica, testemunhada na Iconologia de Cesare Ripa (Roma, 1593). Evidenciam bem a funcionalidade desta obra as palavras do impressor da edicao de Napoles de 1626: "in quella si descrivono figure esplicate com saggi & dotti discorsi, da' quali si rappresentano le bellezze delle Virtu, & le bruttezze de' vitii, affine che questi si fuggino, e quelle s'abbracino. (...) Opera pertinente a rappresentare Poemi drammatici Comici, e Tragici: & diuisare qualsiuoglia apparato Nuttiale, Funerale, Trionfale, e Spirituale".

(21) Daemonarches--"Incessus iste perplacet, caudam tamen/Absconde nigram. Dictitant homines, nigrae/Caudae cauendos tortuosos ambitus."--vv. 906-8.

(22) Eis como podemos apreciar, baseadas nos testemunhos de autores antigos, as caracterizacoes propostas por Cesare Ripa, na sua, ja referida, Iconologia: Eolo podera representar-se como "um homem com vestes de rei, uma chama de fogo na cabeca e segurando numa das maos uma vela de navio e na outra um ceptro" ("Huomo in habito di Re, com una fiamma di fuoco in capo, terra com una mano una vela di Nave, e com 1'altra uno Sceptro". Quanto ao Boreas, surgira como "um homem assustador, com a barba, os cabelos e as asas totalmente cobertas de neve, e os pes como caudas de serpentes" ("Huomo horrido, com la barba, i capelli, e le ali tutte piene di neve, e i piedi come code di serpi". Para a caracterizacao psicologica, consulte-se o texto ou line desta tragicomedia, cenas 7, 8, e 11 do acto III, e, no fim deste artigo, o anexo 3 "prosopopeia dos ventos".

(23) Omnes--Pastor umbrosa ualle molle pecus/Nodoso regens pedo cantilenas/Ad tybiam fundebat ruris decus/Miratus, et perennes aquae uenas./Eius balatus ouium aures mulcet/Ventus secunda pectus aura tangit/Rosa rubore aspectum captans fulget/Non cura spinis mentem mordax pungit. Vnus--O luna cui nocte fusca/Se caligo subdit, cui/Lampada Titan corusca/Flammat luce memor tui.--vv. 350-361.

(24) "Callistus--Nempe decus Gethae est lonas, et gloria nostrae./Aretus--Me nec uere nouo uenientis sibilus Austri/Nec tantum percussa iuuant ad littora uento/Aequora, diuini quantum sacra carmina uatis."--vv. 400-3.

(25) "Cal. (...) reposta/In peris capias munuscula pama precamur./lonas--Hue puer. Dul. Est aliquid quod me grauet insuper? Ion. Istud/Est leue semper onus. Cal. Minuat fastidia uictus/Caseus hie inopis; quin insuper accipe brumae/Pileolum, crebris hirsutum ad frigora uillis./Dulus--Ah bene! iam Tyrios imitatur causia nautas:/Quam capiti quadrat! Mac. Nos coctas crate camini/Castaneasque, nucesque damus, uentremque suillum./Aretus--Dent tibi, dent etiam o uates sua munera Cares./Dulus--Quam placet hoc donum; condant marsupia ficus./lonas--Accipio eximii memorabile pignus amoris./Vos uero in montes lacerent ne armenta leones."--vv. 465-477.

(26) "Comoedia exhibetur."--v. 714.

(27) "Exi foras bellua, foras exi. O feram/Pecori, casis, segetibus, et tenero gregi/Nimium nocentem."--vv. 701-3.

(28) "Tiph. Arietis cornua/Vbi sunt? Bat. Vbi aries. Tiph. Taurus. Bat. est in pascuis./ Vellem altiora posceres? Tip. Placet. Duae/Vbi sunt repostae ursae? Bat. aluearia utinam mea /Non circum irent. Tiph. Vbi capella candidos/Haedos fouet? Bat foueret utinam saepius/ Caulis tenellos incubans foetus meis./Dromus Belle quidem. Tiph. Quid de leone? Bat. in montibus/Libycis leones rugiunt. Tiph. Cancer? Bat. Maris/Duris adhaeret cautibus; cancer alius/Serpendo membra pestilens hominum uorat."--vv. 801-11.

(29) "Nihil immoremur amplius. Sententiam/Fero. Peritus siderum et rerum omnium/ Remex mathematicus erit."--vv. 828-30.

(30) "Da mihi, da faciles in uela tumentia uentos/Aeole, da patrios Tharsis adire Lares."--vv. 842-3.

(31) "Bat. quid? Carinam? Abi retro/Abi Satana. Catus aquam exustus timet."--vv. 855-6.

(32) "Ego, mihi notas uulpium sequar uias."--v. 864.

(33) (...) "Terras iuuat/Contaminatas linquere; ad sedes uiae/Mihi rutilantis aetheris semper patent./Profugas sorores ultima in caelum sequor."--vv. 1047-50.

(34) "Date mihi noti peruium, atque ignoti iter./Omnes fugite, abite, hine abite. De uia/ Secedite illico capite ne quem meo/Aut pectore offendam, aut genu, aut ualidis toris./Nec fuerit aliquis tarn proteruus qui mihi/Obsistat in uia. Moneo triumuiros/Et praesides, quos obuios si offendero/Ensi secandos facile bicipiti dabo./Demarchus et Comarchus, et Lictoria/ Procul hine facessat turba."--vv. 1055-64.

(35) "Menedemus--Fessos leuemus fasce paulisper graui/Humeros."--vv. 1104-5.

(36) Em portugues, o adjectivo "bleso" tambem significa "gago", "que articula mal", o que nao deixa de se relacionar com o acabamos de dizer. ("Cha. Satius tenet/Me iam loquellae barbarae"--vv. 1125-6. Trad.: "Ja me satura aquele linguajar barbaro").

(37) "Blaesus--Nostro superbi uillicus domini praeest/Ruri colendo. Men. lili Dei uertant male."--vv. 1127-8.

(38) "Men. Cucurbitulas domi/Geminas reliqui Libero madidas patre."--vv. 1130-1.

(39) "Blaes. Vt se scabunt mutuo!/Rhaebus--Vae pauperi!"--vv. 1155-6.

(40) "Chares. Iustitia ab urbe magna iam fugit Nini."--v. 1165

(41) "Rhae. Pecunia mihi/Nulla est. Eamus. Vindicent superi hoc nefas."--vv. 1167-8.

(42) A poesia pastoral estava muito em voga na altura, privilegiando-se bastante na exercitacao literaria a composicao de eclogas. Lembremo-nos so, para nao citarmos mais, de Diogo Bernardes, que viria a falecer em 1605.
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Title Annotation:I COMMENTATIONES
Author:Barbosa, Manuel Jose de Sousa
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2011
Words:7380
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