Printer Friendly

Organizational culture of the restaurant Chale da Praca XV in Porto Alegre: space and time being revealed/A cultura organizacional do restaurante Chale da Praca XV em Porto Alegre: espacos e tempos sendo revelados.

1 INTRODUCAO

O centro de Porto Alegre, palco da Praca XV, configura-se como um espaco de contradicoes: apesar de ser um lugar de memoria e expressao urbana, concentracao de um universo de significados identitarios, tambem possui caracteristicas de transitoriedade. De acordo com Borba (1993), uma leitura social da cidade, realizada nos dias atuais, pode revelar as categorias sociais consumidoras do centro. Na visao dessa autora, o centro pertence a setores da burguesia comercial e financeira, e, tambem, aos ditos "marginalizados". Para a populacao em geral, a visao predominante e a de que o centro e uma regiao marcada pela inseguranca.

No coracao do centro, esta o Chale da Praca XV; o espaco teve seu primeiro predio instalado em 1880. De acordo com Fischer (2006), em 1911, o primeiro Chale foi substituido por outro predio--este tendo permanecido ate a atualidade--mais sofisticado. O antigo chale de madeira deu lugar ao predio em estilo bavaro, com tracos art nouveau, composto por estruturas desmontaveis. Seu projeto segue um esquema radiocentrico, com piso de ladrilhos em motivos geometricos. O predio tem dois pavimentos em planta octogonal, mais subsolo e mezanino. Em 1970, o Chale passou por uma nova reforma, que restaurou as condicoes do predio, e foi reinaugurado em 1973. Depois da reforma ocorrida em 1998, a construcao passou a configurar como patrimonio historico municipal da cidade (FISCHER, 2006).

A praca do Chale era um dos pontos em torno dos quais girou, por muito tempo, a vida cotidiana dos porto-alegrenses. O local atravessou decadas como um dos pontos mais tradicionais do centro, no inicio frequentado pela alta sociedade, sendo aos poucos ocupado por boemios e intelectuais. Atualmente, o velho centro nao se encontra mais no foco dos acontecimentos sociais, e, embora o Chale tenha sido tombado pelo Patrimonio Historico Municipal, nem sempre o local se faz lembrar por sua importancia historica e carater identitario com a cidade de Porto Alegre (FISCHER, 2006).

Quando se pensa em cidade pura e simplesmente, visualizam-se espacos com ruas, pracas, casas; quando se fala na cidade em que se vive, pensa-se nas pracas em que se passou a infancia, ruas pelas quais se andou durante a vida. No primeiro exemplo, a cidade e uma realidade no espaco, mera sucessao de elementos que delineiam determinado tracado. No segundo, e um conjunto de elementos em torno dos quais se desenvolve uma identidade--uma realidade no tempo (MACEDO, 1993). Essas duas realidades, no entanto, nao se opoem; ao contrario, elas se complementam. E e nesse entrecruzamento de espaco e tempo que se criam e circulam diferentes representacoes e simbolos. E esse processo de atribuicao de sentidos e significados ao espaco e ao tempo que transforma o espaco da cidade em lugar. Assim, pensa-se uma cidade como metropole, criam-se categorias de cidadao e excluido, distingue-se o velho do antigo, constroi-se a nocao de patrimonio ou modernidade (PESAVENTO, 2007).

As modificacoes que ocorreram ao longo do tempo no centro de Porto Alegre geraram reacoes heterogeneas entre seus moradores e frequentadores, de forma que alguns as veem com implicacoes positivas, e outros, negativas. O sentimento de nostalgia com relacao ao centro de outrora se encontra descrito em diversas obras literarias e presente no imaginario porto-alegrense. A sensacao da perda de algo (e esse "algo" e comumente descrito por palavras de conceito difuso, como inocencia, ingenuidade ou felicidade) e narrada por individuos que afirmam considerar lamentavel o que denominam de degradacao do centro em nome de um "progresso" que, em suas oticas, pode ser absolutamente questionavel.

Em resposta ao que se denominou degradacao do centro (grande parte da populacao ve o espaco como sujo e vinculado a frequencia de tipos marginalizados, como prostitutas e mendigos), a prefeitura de Porto Alegre definiu a regiao como alvo de uma ampla campanha de revitalizacao. Em contiguidade a tais acoes, a prefeitura, por meio do Conselho Municipal do Patrimonio Historico Cultural, conforme Lei Municipal n. 10.304/08, passou a tratar oficialmente o bairro pelo nome "centro historico". A exemplo de diversas outras cidades bra sileiras, a nomenclatura foi criada no intuito de promover a valorizacao do bairro e seu passado, recuperando areas historicas e incrementando seu potencial turistico. A reforma do Chale seria, portanto, a primeira etapa da revitalizacao do centro historico, onde se localizam cerca de 80% dos predios tombados do municipio (FERNANDES, 2008).

Neste artigo, em que nos propomos ao estudo de uma determinada cultura por meio de representacoes sociais, optamos por duas categorias basicas de analise: espaco e tempo. Nesse sentido, a questao que se coloca e: de que forma as representacoes das nocoes de espaco e tempo se expressam na cultura organizacional do Chale da Praca XV? Para a consecucao do objetivo que compoe essa questao, ele foi desdobrado por meio da identificacao das representacoes de tempo e espaco elaboradas por clientes e funcionarios do restaurante, desvendando homogeneidades e heterogeneidades de sua cultura organizacional.

Alem desta introducao, este trabalho esta estruturado da seguinte forma: primeiramente, apresenta-se o referencial teorico que serviu de base para a interpretacao dos dados encontrados em campo. A seguir, sera vislumbrado o metodo utilizado durante a pesquisa, juntamente com as tecnicas para sua viabilizacao. Uma breve contextualizacao acerca do municipio de Porto Alegre precede os aspectos relativos aos dados de campo do restaurante. Ao fim, revelamos e interpretamos os dados coletados durante a pesquisa, cabendo, ao ultimo item, a tessitura de algumas consideracoes.

2 REPRESENTACOES SOCIAIS DE ESPACO E TEMPO

Com base em uma primeira conceituacao de Durkheim, a quem se atribui a identificacao das representacoes como producoes mentais sociais, o psicologo social Serge Moscovici (1997) propoe seu conceito atual. Moscovici (1997) concebe as representacoes nao so como uma instancia intermediaria entre a percepcao e o conceito sobre algo, mas tambem aplicavel a um objeto nao presente, como forma de dar-lhe sentido, simboliza-lo.

Moscovici (1997) sustenta que representar algo seria mais que simplesmente duplica-lo ou reproduzi-lo; ao representar-se, muda-se o texto, reconstitui-se, retoca-se o objeto. O autor defende o estudo das representacoes sociais com interesse por tudo aquilo que rege os pensamentos coletivos. Portanto, a pesquisa se volta para visoes de mundo, senso comum, consensos, enfim, para sistemas de saberes praticos, em que a representacao busca tornar familiar e classificar aquilo que lhe e estranho (MOSCOVICI, 1997).

Um dos postulados fundamentais defendidos por Jodelet (1997), discipula de Moscovici, dentro do estudo de representacoes, e a ideia de inter-relacao entre as formas de organizacao e de comunicacao social e modalidades de pensamento social. O estudo de suas categorias, operacoes e logica permite a explicacao dos fenomenos cognitivos, partindo-se dos processos de interacao social (JODELET, 1997). Essa autora estabelece as representacoes como formas de saber pratico que unem um sujeito a um objeto. Esse objeto pode ser uma pessoa, uma coisa, um fato material, psiquico ou social etc. Assim sendo, a representacao mental, como a representacao teatral, por exemplo, permite que se "veja" um objeto, mesmo que em sua ausencia: ele se restitui simbolicamente (JODELET, 1997).

Alem do papel e das condicoes de producao das representacoes, e oportuno ressaltar a importancia de um outro aspecto: a circulacao das representacoes. Para Berger e Luckmann (1998), o processo de socializacao e responsavel pela interiorizacao de representacoes previamente existentes. Os autores referem-se ao processo de socializacao (primaria e secundaria) da crianca, como um modo de adaptacao a sociedade em que ela se encontra inserida; da mesma forma, contudo, podemos argumentar que o processo de socializacao ocorre tambem com adultos, na insercao em novos grupos sociais (como uma organizacao, por exemplo), e renova-se ao longo do tempo, em um processo dinamico de adaptacao.

A escolha de duas categorias tao especificas para a analise das representacoes sociais (espaco e tempo) nao se deu ao acaso. Primeiramente, partimos da premissa de que o desenvolvimento tecnologico possa ter mudado a percepcao espacial e temporal. Isso resultou na alteracao do nivel das praticas sociais e das experiencias individuais. Os conceitos por meio dos quais os individuos representam o espaco e o tempo sofreram modificacoes, e sao experimentados de diferentes formas, conforme o grupo social. Nesse contexto, a realidade adquire um significado simbolico que pode configurar elementos fundamentais na compreensao das relacoes sociais.

Espaco e tempo sao categorias essenciais em diversos campos do conhecimento. Mesmo nas ciencias naturais, as ideias sobre a natureza do tempo (bem como do espaco) se modificaram com o passar dos anos. Nas ciencias humanas, espaco e tempo nao sao elementos menos importantes: sao consideradas verdadeiras categorias sociais, nocoes que se tornam pano de fundo das compreensoes e interpretacoes do mundo em que vivemos. Enfim, toda atividade e experiencia humanas sao compostas por essas duas dimensoes, o que nao ocorre de forma diferente nas organizacoes (CHANLAT, 1994).

Auge (2004), em seu estudo voltado a descricao e compreensao do significado de lugares e nao lugares, mostra a convergencia dos etnologos para uma antropologia do proximo, a antropologia da contemporaneidade, em que o estudo da chamada supermodernidade (caracterizada pelas figuras de excesso) e tema central. O autor detem-se sobremaneira a figura de excesso referente ao espaco, transformacao, em sua opiniao, propria do mundo contemporaneo. Essa superabundancia espacial (decorrente, de forma paradoxal, do encolhimento do planeta, a partir do momento em que o mundo tem suas escalas alteradas e se abre a seus habitantes) e responsavel pela multiplicacao do que ele denomina "nao lugares" --instalacoes necessarias a circulacao acelerada de pessoas e bens, produtos da contemporaneidade, opondo-se a nocao de lugar antropologico (AUGE, 2004).

Com relacao ao conceito de lugar, Auge (2004) destaca tres caracteristicas: ele se pretende identitario, relacional e historico. Primeiramente, identitario por ser o lugar constitutivo da identidade--o espaco representa para o individuo um conjunto de possibilidades, prescricoes e proibicoes de conteudo tanto espacial quanto social. Relacional por ser um espaco "existencial", de uma experiencia de relacao com o mundo, com as pessoas e com o proprio lugar. E, finalmente, historico, na medida em que "o habitante do lugar antropologico nao faz historia, vive na historia" (AUGE, 2004, p. 53). Ele possui uma estabilidade minima em termos temporais, so se concretiza no e pelo tempo--espaco repertoriado, classificado e promovido a "lugar de memoria", com forte carga simbolica.

No ambito organizacional, Fischer (1994) estabelece que o espaco pode ser concebido como vetor das interacoes sociais, e seu estudo poe em evidencia a importancia da experiencia social com os diferentes ambientes. Tal teorizacao mostra a natureza psicossocial do local de trabalho, em que o espaco informa sobre a maneira como o trabalhador lida com o seu trabalho--o proprio espaco pode ser uma linguagem da cultura organizacional (FISCHER, 1994).

Chanlat (1994) argumenta que a relevancia da dimensao espacial no contexto das organizacoes reside no fato de que o espaco fixa de alguma forma a identidade social e pessoal, e e fonte de carga afetiva e social. Para o autor, o espaco configura-se como categoria social, campo que estrutura as interacoes dentro da organizacao. Destaca tambem ser possivel caracterizar o tempo como um dos pilares fundamentais do quadro da acao humana.

Pode-se dizer que a nocao de tempo e correlata a ideia de espaco, indissociavel dela. Contrariamente ao que muitas vezes pode corresponder ao senso comum, a experiencia do tempo nao e uma duracao continua e objetiva que transcorre independentemente do individuo: por meio de uma nocao que encara o tempo como uma concepcao essencialmente afetiva, podemos dizer que ele e, sim, relativo a percepcao de determinado sujeito (BACHELARD, 2007).

Elias (1998), por meio de uma retrospectiva sobre o desenvolvimento das maneiras de perceber o tempo--em consonancia com as mudancas ocorridas durante o que ele chama processo civilizador--, afirma que o tempo se tornou uma representacao simbolica de uma rede de relacoes que reune sequencias de carater individual, social ou fisico.

O tempo e um dos simbolos que o ser humano e capaz de aprender e, ao viver em sociedades complexas, obrigado a se familiarizar para conseguir orientar-se. O tempo e um instrumento de controle, de acordo com Elias (1998): a pressao do tempo se exerce de fora para dentro, sob a forma de relogios, calendarios ou outros instrumentos, em uma coercao que se presta para suscitar o desenvolvimento de uma autodisciplina nos individuos. A regulacao social do tempo, a qual e impossivel fugir, ocorre desde muito cedo na vida de cada individuo, tao cedo que quase nao ha a percepcao de que o tempo e apenas um simbolo social, criado e determinado pelo ser humano, sendo nao "natural" e sim uma instituicao social.

A atencao para o tempo quantitativo, a medicao precisa do tempo, entre outras, sao caracteristicas que se colocaram como pano de fundo no desenvolvimento do processo de industrializacao (GASPARINI, 1994). Desde entao, diversas alteracoes ocorreram na forma de perceber o tempo nas organizacoes, a ponto de se caminhar para uma flexibilizacao do tempo de trabalho em algumas funcoes.

A tradicao linear-quantitativa, que influencia grande parte das organizacoes atuais, concebe o tempo como um fenomeno homogeneo, objetivo, mensuravel e divisivel, isto e, quantitativo. Como um recurso escasso, o tempo passa a ser um bem limitado, o que faz realcar seu valor. Para Hassard (2001), essa imagem quantitativa e reificada do tempo emerge da ideia advinda do industrialismo: em tal tradicao linear-quantitativa, os trabalhadores necessitaram sujeitar-se a programacoes rigidas e determinadas de tempo. Citando Mumford, o autor atribui ao relogio, e nao a maquina a vapor, o principal motor da era industrial. Da mesma maneira, nas sociedades industriais, o relogio transformou-se no instrumento dominante da organizacao produtiva.

Muitos autores associam a ideia de tempo (e da percepcao de sua passagem) a de memoria. Consideramos importante referencia Rocha e Eckert (2005), que aludem a um denominador comum que atravessa a reflexao dos diferentes autores que revisitam a nocao de memoria: o tom interpretativista. O fenomeno da memoria, segundo as referidas autoras, e indissociavel do contexto com base no qual e construido, e, por isso, cabe compreender sua assimilacao ao arbitrio da cultura. Reconhecemos o carater complexo do termo e concebemos a memoria como "conhecimento de si e do mundo, por meio do trabalho de recordar narrativas pelos sujeitos" (ROCHA; ECKERT, 2005, p. 154). Destacamos, nessa dimensao--de construcao social, de recordacao de tempos passados--, inter-relacoes importantes entre memoria e representacoes sociais, e o inevitavel pano de fundo da cultura em seu ambito.

3 O DESVENDAR DE SABORES EM DIFERENTES TEMPOS E ESPACOS

O metodo utilizado no decorrer da pesquisa foi o etnografico, cabendo lembrar que, mais que um metodo, a etnografia pode ser considerada, sobretudo, uma postura (ROCHA; BARROS; PEREIRA, 2005).

Para Geertz (1989), tem-se o conceito de etnografia como descricao densa. Somente pela descricao extraordinariamente densa--nas palavras do proprio Geertz (1989)--da-se o correto sentido da descricao etnografica.

Cavedon (2003) expoe as dificuldades encontradas na interdisciplinaridade entre antropologia e administracao em face das diferencas epistemologicas apresentadas pelas duas areas do conhecimento, algo que tende a ficar exacerbado quando se busca estabelecer um dialogo. Essa autora afirma que, aos olhos do pragmatismo e utilitarismo que norteiam as ciencias administrativas, o estudo etnografico pode parecer um tanto ambiguo: o objetivo de interpretacao --e nao instrumentalizacao--da antropologia, por exemplo, pode gerar dificuldades na transposicao de conhecimentos para a Administracao (CAVEDON, 2003).

Para Jaime Junior (2004), o principal ponto a ser considerado e que, sobre o pano de fundo da cultura, ocorrem as interpretacoes e significacoes das experiencias no espaco organizacional. Portanto, o que essa abordagem preconiza, essencialmente, e que a cultura organizacional presta-se a diversas interpretacoes que podem ser diferentes de acordo com seus leitores, como funcionarios, administradores, clientes etc. (JAIME JUNIOR, 2005).

Jaime Junior e Serva (1994) sustentam que a utilizacao da postura antropologica em estudos organizacionais possui diversas vantagens. Em especial, destacam que, ao adotarmos metodos tradicionalmente utilizados na antropologia, estamos garantindo um carater de complementaridade, mediante a busca do conhecimento sobre o homem no trabalho em suas diversas dimensoes. Prosseguindo, os autores colocam essa abordagem, essencialmente antropologica, como um modo de superacao da objetividade pura e simples, que pode ate mesmo "cegar" o pesquisador (JAIME JUNIOR; SERVA, 1994).

A permanencia em campo deu-se durante o periodo compreendido entre fevereiro e maio de 2008. Nao foram estabelecidos previamente horarios ou dias especificos para a estada em campo, mas procuramos alternar esses periodos para que nao se concentrassem sempre nas mesmas horas ou dias da semana. Foi obtida relativa liberdade de transito na organizacao: havia a possibilidade de circulacao livre desde o momento de abertura para os funcionarios (a partir das 8 horas) ate o horario de fechamento (meia-noite).

Em relativamente pouco tempo, conseguimos insercao em campo. Os codigos de comunicacao foram de nosso dominio. No entanto, apenas dominar a linguagem propria dos nativos nao nos permite construir uma etnografia--a intersubjetividade precisa ser conquistada (ZALUAR, 2004). Acompanhar de perto as muitas funcoes dos sujeitos em questao facilitou o processo que permitiu compreender a percepcao de seus pontos de vista, partilhar sua realidade, sua descricao de mundo e suas marcas simbolicas.

Em especial, no que tange aos gerentes de loja e aos funcionarios, coube-nos o acompanhamento do cotidiano dos grupos, procurando seguir o fluxo de sua experiencia social, observando o comportamento dos informantes nos diferentes contextos em que se processa sua vida social. As incursoes em campo foram registradas em notas de campo, posteriormente descritas na forma de diarios (42 no total).

A coleta de dados foi efetuada por meio da triangulacao das seguintes tecnicas: pesquisa documental, entrevistas e observacao; esta ultima variou de sistematica a participante, dependendo da insercao em campo (GOODE; HATT, 1960).

As entrevistas foram realizadas com nove pessoas. O numero foi estabelecido com base na capacidade de analise das pesquisadoras e de acordo com o tamanho do corpus a ser analisado (GASKELL, 2002). Foram entrevistados: um gerente, quatro funcionarios de setores operacionais (copa, cozinha e atendimento) e quatro clientes, entre os frequentadores do local. Quando o entrevistado sentiu-se a vontade para tal, as entrevistas foram gravadas.

Para esta analise, fizemos uso da chamada analise de conteudo, tecnica utilizada com o objetivo de produzir inferencias de um texto focal para seu contexto social de uma maneira objetivada (BAUER, 2002). O que e proposto, com essa concepcao, e que sejam analisadas, alem da fala em si, as condicoes de producao dessa fala, o que tambem permite a compreensao do nao dito, dos elementos omitidos, das inexatidoes das mensagens.

A seguir, pedimos aos leitores que acompanhem nossos passos e tempos no Chale.

4 O CHALE

4.1 SUA CONSTITUICAO COMO ESPACO DE MEMORIA

O Chale, embora localizado na Praca XV, fica em uma regiao cercada. As grades sao baixas: servem tao somente para delimitar fisica e simbolicamente o espaco, e evitar trafego de pessoas por entre as mesas. Ao todo, compoem a organizacao 27 funcionarios proprios, responsaveis inclusive por tarefas de seguranca e limpeza. O restaurante possui capacidade para 450 lugares.

A construcao e composta por quatro espacos delimitados entre si: o salao, a area externa, o solario e o terraco. Quem ultrapassa o portao (que normalmente conta com um funcionario para recepcionar clientes e entregar comandas), que demarca a fronteira entre o Chale e a Praca, tem duas opcoes de caminhos a seguir: em frente, o Chale propriamente dito, ou o salao principal; pela esquerda, a area externa.

O salao e onde ficam o caixa e a copa, com um balcao por onde passam todos os pratos, as bebidas, as loucas sujas. Sobre o balcao, uma caixa de madeira com muitas divisoes--o controle dos pedidos dos garcons--e as bandejas utilizadas pelos garcons. Do lado direito, duas maquinas de chope (ou chopeiras) dao o tom do bar. Atras do balcao, dois espelhos fornecem certa amplitude ao local. Os espelhos sao separados por um acesso, que leva a cozinha atraves de uma escada de madeira muito estreita. O chao do salao e quadriculado, preto e branco, e ha dois tipos de mesas: algumas, retangulares, para quatro pessoas, de madeira; outras, redondas, para uma ou duas pessoas, de pedra.

Quem opta por ficar no ambiente externo tem uma visao diferente. Alem das cercas de metal e das plantas que ornamentam a Praca, ve-se o exterior do Chale--onde o musico se apresenta em determinados horarios--, as demais mesas e cadeiras de plastico, mas, principalmente, ve de forma muito clara a rua: a movimentacao do centro, o comercio, os camelos. Ve o fervilhante ir e vir de pessoas, apressadas, pelas ruas da regiao central. Nao ha toldos ou protecoes que separem a area externa do restante da praca. Ela e rua; ha somente as cercas de metal que pouca resistencia ofereceriam a alguem que desejasse pula-las. Os sons nao sao diferentes para quem esta de fora: o burburinho, o transito, os vendedores ambulantes.

Existe uma porta lateral de acesso entre a area externa e o salao. Passando por ela, veem-se o balcao de frente e tambem um pequeno corredor que da acesso a dois outros ambientes do Chale: o solario e o terraco.

O solario e um espaco diferenciado do restante do Chale. Nao guarda caracteristicas de bar, tampouco remonta a tempos idos. E um espaco retangular, anexo a antiga estrutura do Chale, mas separado dela. O solario tem "ares" de restaurante: nele, existem apenas mesas e cadeiras (nao ha balcao ou outro movel em seu espaco) dispostas de maneira regular, uma ao lado da outra. Seria possivel dizer que o solario assemelha-se a um outro estabelecimento, um outro restaurante, um outro espaco, mais homogeneizado, por causa de suas toalhas de mesa e cortinas brancas, paredes envidracadas, ar-condicionado que mantem a temperatura constante. E o reduto por excelencia de "engravatados", muitos deles funcionarios publicos e bancarios, trabalhadores de organizacoes do centro. Em horario de almoco, o Chale e, essencialmente, um espaco de socializacao entre colegas de trabalho. De qualquer forma, no Chale, nao deve ir almocar quem tem muita pressa, habituado a correria de restaurantes fast food. Normalmente, o tempo de permanencia medio dos clientes ultrapassa uma hora.

Ja o terraco se configura como um dos ambientes que mais remetem ao passado de todo o Chale. Ve-se, atraves dele, todo o centro, mas sua altura permite que se enxergue alem das placas e letreiros comerciais: sao vistas as fachadas das construcoes antigas, o Mercado Publico, o cais do porto, o Lago Guaiba. Na maior parte do tempo, o terraco permanece fechado. E aberto ao publico em horarios de grande movimento. Isso nao impede, no entanto, que algumas pessoas (turistas, em especial) solicitem conhecer o local, permanecendo cerca de dez ou quinze minutos fotografando, para, entao, continuar conhecendo o restante do centro.

Do terraco, e possivel ver a cozinha, tambem no segundo andar. A visao e restrita, mas conseguimos, atraves de uma janela, assistir a movimentacao dos funcionarios. O painel onde sao afixados os papeis com pedidos de clientes e visivel, e, de vez em quando, e possivel ouvir a campainha dos pedidos, passados a cozinha atraves de um rudimentar sistema de barbantes e prendedores. Os pedidos prontos descem por um elevador.

O calor da cozinha pode ser sentido mesmo fora de seu ambiente, ja nas proximidades. Um radio, frequentemente ligado, encontra-se sintonizado em emissoras populares. A correria na cozinha e grande enquanto ha muitos clientes. Alem do gerente operacional, trabalham duas cozinheiras (uma na confeccao de massas e outra que faz de tudo um pouco, especialmente na montagem de pratos durante a ausencia do gerente operacional), uma auxiliar na preparacao de saladas, um auxiliar nas fritadeiras e um chapista.

Como o terraco fica no mesmo nivel da cozinha, ele possui uma pequena comunicacao com ela para o fornecimento de pratos e petiscos. No entanto, no que diz respeito as bebidas, os garcons precisam descer para busca-las--o que foi alvo de diversas reclamacoes entre garcons e clientes, ja que nao ha refrigeradores ou chopeiras no segundo andar. Para os clientes, o grande problema era a demora no atendimento; para os garcons, era o esforco empenhado em subir e descer as escadas varias vezes, o que os deixava muito cansados ao final de um dia de trabalho.

Ao descer a tal escada ao lado do caixa, sao vistos ambientes que causam uma sensacao que beira a claustrofobia, pois possuem espacos que se entrecruzam, apertam, gerando outros espacos impossiveis de ser aproveitados para armazenamento de materiais e circulacao de pessoas. Em quase todos os momentos, a velhice das instalacoes foi mencionada como dificuldade primordial. O fato de ser patrimonio historico, segundo um dos gerentes, prejudicaria a realizacao de reformas e alteracoes. A dualidade ao perceber, em certas ocasioes, o patrimonio historico como atrativo a turistas e moradores, sendo a referencia ao passado um diferencial daquele espaco, e, em certas circunstancias, essa historicidade ser considerada prejudicial as reformas e obras de melhoria visando a modernizacao fez-se constante durante a coleta de dados.

O atendimento e dividido entre os garcons por pracas. Todos os dias, em cada turno (almoco e happy hour), sao divididas as mesas de acordo com o numero de garcons, por meio de um sorteio. Se o cliente desejar ser atendido por um garcom especificamente, deve sentar-se na area sob sua responsabilidade, que, dependendo da praca, compreende, aproximadamente, onze mesas. Nao e permitido aos garcons que se sentem em horario de trabalho; por isso, e comum que eles permanecam, em posicao de vigilancia, reunidos em frente a porta lateral do Chale.

Alguns funcionarios reconhecem que o fato de trabalhar em um espaco historico e uma caracteristica que diferencia a organizacao das demais. Todavia, certas vezes, em entrevistas informais, foi relatado o desconforto que isso pode causar, em virtude da necessidade de "atendimento" a pessoas que nao desejam consumir dentro do restaurante, mas apenas entrar para conhecer e fotografar o local, alem de pedir informacoes sobre a historia do espaco. Isso pode evidenciar um baixo grau de identificacao do funcionario com o local em que trabalha e sua relacao com o passado da cidade. Muitos veem com resignacao tal acontecimento. Argumentam que, antes de ser seu local de trabalho, o Chale e um lugar historico de Porto Alegre e que nao ha muito a ser feito. O vinculo com a historia do Chale parece nao ter ocorrido com todos, ate mesmo pelo pouco tempo de trabalho no estabelecimento--o funcionario que possui mais tempo de trabalho no Chale esta la ha seis anos. Muitos deles nem sequer haviam adentrado no predio antes de sua contratacao. Nesse sentido, podemos pensar que essa relacao com o passado e feita, especialmente, por meio dos clientes, como nos atesta a fala de um garcom:
   [...] essa identificacao que eu tenho com o Chale, [...] de ser um
   ponto historico, de ver as pessoas virem aqui e dizerem: [...] "Ah,
   tu sabia que eu ja namorei aqui?", "Sabia que eu e meu amigo
   vinhamos aqui ha 40 anos?". Tem muita gente que diz isso. Entao,
   isso traz uma nocao que o lugar onde tu trabalha e um lugar
   especial. Alem do jeito que as pessoas falam, elas falam com um
   carinho, [falam] tao bem, que esse carinho entrou pro Chale.


Diferentemente de outros estabelecimentos do centro de Porto Alegre (como o proprio Mercado Publico, tambem patrimonio historico) e de diversos pontos historicos em outras localidades, o vinculo do Chale com o passado e realizado e estabelecido por meio dos clientes. Na otica das pesquisadoras, esses clientes que fazem a referida vinculacao sao chamados "clientes-narradores", justamente por serem eles os sujeitos que relatam aos profissionais que la desempenham suas atividades o passado do estabelecimento, e nao o contrario. Tal topico sera tratado mais adiante neste texto. A seguir, sao explicitados alguns aspectos relacionados a revitalizacao do centro e a mais nova reforma do Chale, processo que teve inicio em 2008.

4.2 A REVITALIZACAO DO CENTRO E DO CHALE: ESPACO E ESPERANCA RENOVADOS

Este trabalho se desenvolveu em um momento peculiar de Porto Alegre. Diversas reflexoes acerca do patrimonio do municipio sao realizadas na atualidade, inclusive, como relatado anteriormente, a alteracao de algumas denominacoes de pontos importantes da cidade, como o centro historico. Alem disso, o processo de revitalizacao do centro passa por reformas que serao realizadas tambem no Chale.

Tais eventos disseminaram entre os funcionarios uma nocao de importancia sobre o espaco no qual trabalham, o que nao havia anteriormente. A valorizacao do centro passa pela valorizacao do Chale, e os funcionarios percebem isso. No entanto, poucos clientes sabem das reformas que serao realizadas no espaco. Em entrevistas e conversas informais, percebemos que ha consciencia sobre o processo de reforma, simbolizado por sua obra mais visivel, o Centro Popular de Compras (e a consequente retirada dos camelos das ruas centrais da cidade), mas os clientes nao sabem qual a abrangencia dessa mudanca em relacao ao Chale.

Em campo, nas entrevistas com funcionarios e gerentes, foi mencionada uma reforma no estabelecimento que seria realizada ainda em 2008. O discurso sempre relacionava tal reforma com a melhoria do espaco, acarretando aumento das vendas. Segundo a gerencia do estabelecimento, logo que se tornou permissionaria do local, a empresa precisou "injetar dinheiro, sem retorno no curto prazo", durante seis anos. Sendo assim, ha apenas cerca de dois anos o Chale seria autossustentavel, ou seja, manter-se-ia com certa lucratividade ou, pelo menos, nao dependeria de investimentos externos da empresa.

A rede de restaurantes afirma ter assumido todos os custos referentes a obra, cabendo a prefeitura a responsabilidade pela retirada dos camelos do centro, limpeza e ampliacao da Praca XV e da area do Chale. As plantas com propostas de alteracoes no local, no entanto, necessitaram de aprovacao especifica para que a obra pudesse ser realizada, processo que levou varios meses.

Foi possivel perceber uma esperanca de incremento nas vendas tao logo sejam concluidas as melhorias no centro da cidade. Ha a percepcao de que podera ser feita a ampliacao do ambiente e adequacao do negocio, financeiramente falando: "Ai, sim, vai dar pra divulgar o Chale". Nesse sentido, a questao da divul gacao do restaurante tambem foi bastante citada em diversas entrevistas. Para alguns informantes, a baixa divulgacao e considerada uma deficiencia da empresa. Certos funcionarios acreditam que "muita gente nem sabe que o Chale esta a disposicao". Outros informantes dizem que a divulgacao pode ser suficiente, no entanto o centro acabaria assustando as pessoas em face da falta de seguranca:
      Na verdade, eu nao acho que nao seja divulgado, porque mais que
   a gente divulga ... Os nossos colegas aqui, a gente ganha por
   comissao. A gente tenta trazer mais cliente pra nos, entendeu? E
   bom porque nos trabalhamos com venda, ganhamos tambem por aquilo,
   entendeu? E entao, acho que falta muito ainda [para o centro ser
   atrativo para as pessoas]. Quem sabe com essa modernizacao [...].
   Na real, ja melhorou, eu acho que ja melhorou, em seguranca, tudo.
   Mas eu acho que isso vai levar um tempo, pra pegar as pessoas.
   [...] O centro nao traz as pessoas. [...] Por que, se [Porto
   Alegre] tem varias opcoes, tu vais querer vir no Chale?


A questao da violencia no centro de Porto Alegre tambem e abordada por Cavedon et al. (2004), ao estudarem a relacao entre a violencia urbana e a administracao das lojas do Viaduto Otavio Rocha. Por meio das falas dos permissionarios e da observacao sistematica e participante das pesquisadoras, foi identificado o fator violencia como algo presente no cotidiano do local, exemplificado por meio de suicidios, acidentes de transito, assaltos. As autoras concluem que os permissionarios buscam em suas atitudes, em face da violencia, um pai protetor, o Poder Publico, o que tambem vem acontecendo, de certa forma, no Chale, quando os discursos apontam para uma ineficiencia da prefeitura na promocao da seguranca.

Sobre a frequencia de clientes no Chale, um funcionario expoe a problematica do centro, definindo o entorno como nao atrativo para clientes que nao necessitam passar pela regiao:
      Mas eu vou te dizer uma coisa: [...] quando a pessoa vem almocar
   no Chale, e porque ela tem um compromisso aqui pelo centro, e ja
   vem almocar aqui. Esse nosso centro tem que mudar muito. [...] Esse
   nosso cliente e o cliente que esta a volta, aqui. E esse cliente
   que veio aqui meio-dia, esse cliente vai pra casa. O cliente do
   happy e o cliente que esta saindo do trabalho no centro, e o happy
   hour do centro. O centro nao pegou aquele cliente que diz "Vamos la
   no centro fazer um happy hour". Ninguem vem pro centro pra fazer um
   happy hour.


A ideia da reforma, pelo que podemos observar, e que o Chale possa dispor de melhores equipamentos e instalacoes. "Vai ficar tudo novinho", disse o fun cionario, remetendo, mais uma vez, a antiguidade do estabelecimento, sem se dar conta de que o atrativo do Chale seria, justamente, seu vies historico, sua caracteristica de patrimonio.

Cavedon (2004), ao estudar a cultura organizacional do Mercado Publico de Porto Alegre (localizado no centro historico, no entorno da Praca XV), constata diferentes tipos de percepcao sobre a reforma de suas instalacoes: ora se apresentava como negativa, ora como positiva. A avaliacao negativa da reforma foi evidenciada pela percepcao de declinio no numero de clientes, da diminuicao do espaco fisico das bancas e da mudanca de localizacao de algumas bancas. Por sua vez, a percepcao positiva foi relacionada a higiene, a organizacao, a imagem de shopping que o local recebeu a partir de entao. O antes e o depois da reforma remeteram as nocoes de sujo e limpo, respectivamente. Tal ambiguidade nao foi percebida no Chale; poucos clientes sabem efetivamente da obra, mas os funcionarios depositam na reforma grandes expectativas com relacao ao aumento do fluxo de clientes.

Em suma, os aspectos destacados com relacao a reforma que sera realizada no Chale foram: limpeza, retirada dos camelos, maior seguranca, instalacao de um estacionamento, possibilidade de divulgacao, atracao de novos clientes.

Com relacao a limpeza, nao ha referencias ao espaco do Chale em si, mas sim do entorno, da area publica que o circunda, sob a forma do que foi qualificado como "feio" na visao dos pesquisados. A questao seguranca tambem foi levantada, diante da criminalidade e violencia urbana existente, consubstanciada em eventos como assaltos a funcionarios e clientes no espaco do centro. O afastamento do comercio informal do centro, relacionado estritamente a limpeza e a seguranca, ja que a existencia de camelos e percebida como algo que da aspecto de sujeira e tira a beleza do centro, e a instalacao de um estacionamento seriam as melhorias que mais fariam diferenca no cotidiano do Chale. Todos esses aspectos, que, de certa forma, tambem passam pelo aumento da area do Chale (havera um maior espaco sob responsabilidade da empresa, o que garantiria, em tese, a higienizacao do local) e pelo aumento do policiamento, levariam a possibilidade de divulgacao do estabelecimento comercial, o que foi mencionado por entrevistados.

A seguir, apresentamos mais alguns aspectos referentes aos tempos do Chale da Praca XV.

4.3 O TEMPO QUE MUDA O ESPACO

Uma das tradicoes ainda presentes no Chale da Praca XV e o famoso sino, tocado todos os dias, pontualmente, as 19 h. Alem de anunciar o final da promocao do chope (50% de desconto entre 18 h e 19 h), o som caracteristico formaliza a separacao entre os dois principais tempos do Chale: o tempo do almoco e o tempo do happy hour.

Depois do sino das 19 h, especialmente durante a semana, o Chale parece tomar outra forma: deixa de ser restaurante e transforma-se em bar; deixa de lado todas as formalidades e torna-se informal. De acordo com dados da empresa, o Chale detem o happy hour mais atrativo de toda a rede de restaurantes. O orgulho do Chale, por assim dizer, e seu happy.

Certamente, e a tardinha e a noite que o Chale atinge lotacao maxima. Em uma das idas a campo, nesse horario, praticamente nao havia espaco para a permanencia de uma das pesquisadoras; foi necessario que se acomodasse em uma cadeira na area externa, sem mesa, perto dos gradis de ferro. E comum, nesses dias, haver varias mesas emendadas, ocupadas por dez ou doze pessoas, remetendo a imagem de um grande refeitorio escolar ou fabril (acrescentado de mais diversao, sem duvida). Em dias como esses, sao chamados funcionarios de outros restaurantes da rede para que possam cobrir a necessidade de mao de obra extra.

Inclusive, sobre a informalidade, foi mencionado por um garcom que um dos gerentes ja havia tentado implantar um tratamento mais formal aos seus clientes no horario da tarde e noite, contudo o funcionario tambem afirmou que tal acao nao havia dado certo. No maximo, disse, poderiam sofisticar o atendimento durante o almoco--e somente nesse periodo do dia. Mas nao era aquilo que os clientes habituais queriam do Chale. Via de regra, durante o happy, o publico e composto majoritariamente por grupos (sao numerosas as mesas com mais de cinco integrantes) que conversam de forma animada. Nao ha predominancia visivel de um genero sobre outro, e ha tanto mesas mistas quanto so de homens ou so de mulheres.

Uma expressao dita, certa vez, por um funcionario que trabalha no setor administrativo pode ilustrar um pouco o imaginario sobre o local: no happy hour, "o Chale e a Padre Chagas do centro". A Padre Chagas, explica-se, e uma rua de Porto Alegre, localizada entre os bairros Moinhos de Vento e Auxiliadora, num dos locais mais nobres do municipio, em que a juventude costuma se reunir para dancar, beber e se divertir. E feita uma transposicao imaginaria de um espaco de lazer destinado as classes mais abastadas para um espaco de lazer em um bairro nao tao privilegiado. A associacao, certamente, nao foi feita a toa: o Chale ainda e um dos poucos espacos destinados a boemia no centro da cidade.

Mais uma vez, as representacoes guardam similaridades com as que circulam no Mercado Publico de Porto Alegre, apreendidas por Cavedon (2004). As positividades relacionadas a esse espaco envolvem nocoes como higiene, organizacao e, principalmente, a imagem de shopping center. A autora traz falas de entrevistados que atribuem ao Mercado Publico a qualificacao de "shopping do povao", enfim, denotando novos "ares" aquele espaco, com a realizacao da reforma. Enfim, dizer que o Chale e a "Padre Chagas do centro", da mesma forma que afirmar que o Mercado Publico e o "shopping do pobre", envolve representacoes comumente atribuidas a outros espacos, repassadas e ressignificadas em um novo contexto, dentro do centro de Porto Alegre.

A fala de um funcionario explicita o imaginario sobre a predominancia do publico jovem no Chale; na opiniao do entrevistado, ha uma contradicao relacionada ao publico que o frequenta, especialmente, no happy hour, ja que o espaco e antigo. Para ele, essa contradicao e visivel na medida em que ocorre uma identificacao muito maior do publico jovem com o ambiente shopping center, e nao com aquele patrimonio historico, que deveria, em sua visao, atrair pessoas de mais idade. Contudo, ocorre o contrario, o que chama sua atencao:
      E isso que me chama a atencao no Chale. Isso e uma coisa que me
   chama atencao. [...] hoje em dia a juventude quer shopping, quer
   coisa moderna, e o que nos temos de moderno aqui? Nada. [...] E
   aqui, 70% de cliente e jovem.


De sisudo restaurante em um espaco historico da cidade, o Chale transforma-se em descontraido ponto de encontro ao som de musica ao vivo. E o tempo mudando o espaco.

4.3.1 O happy hour e o consumo de chope: o tempo do prazer

Durante o happy, e mais frequente o consumo de bebidas alcoolicas, destacando-se, aqui, o chope, bebida fermentada fabricada a semelhanca da cerveja, mas com caracteristicas de maior leveza. E a bebida mais tradicional a venda no Chale, e nao por acaso: ja o primeiro estabelecimento comercial na Praca XV estava a cargo de um alemao; desde entao, diversos produtos oferecidos eram marcadamente germanicos. O proprio chope foi um dos produtos que permaneceram no cardapio do estabelecimento com o passar dos anos e que se incorporaram a tradicao local (PESAVENTO, 2006).

E oportuno ressaltar que o consumo de chope no Chale nao cabe apenas aos jovens, como talvez se pudesse pensar, e e visto em diferentes mesas, independentemente do numero de pessoas presentes. No entanto, esse consumo e um pouco mais frequente em mesas com um maior numero de ocupantes. Nessas mesas, a realidade reveste-se de um tom informal, em que vozes e gargalhadas sao ouvidas em face do seu alto volume, e manifestacoes gestuais nem um pouco amenas sao o pano de fundo.

A associacao feita entre alcool e alegria apareceu em diversas entrevistas realizadas com clientes. Nao e muito comum que bebamos alcool no almoco, pois o momento exige seriedade, mas bebemos no happy, em que o tempo nao mais e de trabalho, e sim de lazer, de diversao. A nocao de bebida alcoolica relacionada as festas, por exemplo, nao e algo novo, havendo inclusive festas, especificamente, destinadas ao seu consumo--no Brasil, temos, por exemplo, a Festa do Vinho, de Caxias do Sul, e a Oktoberfest, realizada em diversas cidades de colonizacao alema (SOUZA, 2004). O proprio nome, happy hour, designa a felicidade das horas passadas no ambiente fora do trabalho. Sobre o tema, tambem Certeau, Giard e Mayol (2003) tecem consideracoes. Por certo, os autores referem-se ao vinho, na medida em que analisam uma realidade francesa. No contexto estudado, em uma realidade brasileira (e numa cidade em que a imigracao germanica se fez presente), transpomos a analise para o chope:

[...] a tristeza de quem bebe agua, portanto, por antifrase, a alegria dos que bebem vinho. [...] O vinho e a condicao sine qua non de toda celebracao [...] (CERTEAU; GIARD; MAYOL, 2003, p. 138).

Sob tal ponto de vista, o beber chope pode ser relacionado a algum tipo de compensacao, pelo trabalho realizado, em um contexto de lazer e diversao. A percepcao de que se trabalhou em demasia esta muitas vezes presente no discurso que justifica o consumo do alcool. Frases como "A gente ganha pouco, mas se diverte" (e diverte-se naquele determinado momento, em que o consumo do chope e premente) ou "Hoje eu mereco um chope, porque trabalhei demais" estiveram presentes nas falas captadas durante a estada em campo. Em ultima analise, o alcool e percebido, nesse contexto, como mais que um mero prazer: e uma premiacao que o sujeito faz a si mesmo.

Nessa perspectiva, DaMatta (1986) tece consideracoes acerca do imaginario brasileiro relacionado ao trabalho, palavra que deriva do termo latino tripaliare, que significa castigar com o tripaliu, instrumento que, na Roma antiga, era um objeto de tortura utilizado em escravos. Para o autor, no Brasil, diferentemente da concepcao anglo-saxa que associa o trabalho ao agir e fazer, predomina a tradicao catolica romana, a qual considera o trabalho como castigo, uma acao destinada a salvacao. O proprio termo "batente", tomado como sinonimo de trabalho, ja e indicativo de um obstaculo o qual e necessario cruzar (1).

Enfim, em um contexto no qual o trabalho e visto como castigo e sacrificio, podemos dizer que o imaginario popular muitas vezes relaciona o consumo de alcool a uma alternativa para a compensacao do trabalhador. O happy hour se estabelece pela oposicao ao trabalho. Tal imagem pode ser vista por meio da publicidade de algumas marcas de cerveja vendidas no Brasil; citam-se, como exemplos, propagandas veiculadas na televisao que tentam exaltar a figura do trabalhador, aquele que levanta cedo, "rala", "luta", "pega no batente"; ao final do dia, contudo, esse trabalhador reune-se com seus amigos, no bar, para tomar cerveja, pois, afinal, "a vida nao tem graca sem ter os amigos e o que celebrar" (2). Esse imaginario reforca o argumento de Certeau, Giard e Mayol (2003, p. 139): "[...] saber apreciar o vinho e alegrar-se; a gente so pode alegrar-se depois de ter dado duro no trabalho; portanto, so os trabalhadores sabem apreciar devidamente o vinho".

De qualquer forma, o consumo de chope e relacionado, como referido em entrevistas com clientes, ao ato de "relaxar", de estar com os amigos; enfim, ele remete a sociabilidade, dai seu consumo. Nesse sentido, por meio da alusao a um gesto simbolico--a retirada da gravata por parte de alguns clientes e por parte dos funcionarios do Chale--, pudemos apontar para alguns aspectos relacionados a esse "relaxamento", proprios do happy hour.

Nesse ambito, o proprio Chale acompanha a modificacao de seu publico. O cliente, que vai ao local, serio e circunspecto, trajando terno, gravata e cracha, em seu intervalo de trabalho, almoca em um Chale restaurante, com caracteristicas especificas que o denotam como tal (como o uniforme e comportamento dos garcons, o uso de guardanapos de tecido etc.). A tardinha, o cliente, dessa vez nao em horario de intervalo, mas com sua jornada de trabalho ja finalizada, encontra um ambiente que se traveste de bar e faz questao de demonstrar que e outro estabelecimento.

Ate mesmo os uniformes dos garcons se alteram para o happy: durante o horario de almoco, vestem camisas brancas, aventais de corpo inteiro e gravataborboleta. A tardinha, os proprios funcionarios repetem o gesto simbolico que denota o tempo de lazer: tiram a gravata. Seu uniforme, neste horario, consiste em uma camiseta com gola polo cinza, com o logotipo da marca de cerveja que patrocina o restaurante, calca preta e avental de meio corpo.

Nas vestimentas dos clientes, isso tambem e perceptivel: predominam as camisetas, os chinelos, os vestidinhos de verao, as camisas de clube de futebol. Nao se veem mais pessoas com cracha a mostra (o que evidencia que nao mais estao em horario de servico), e os poucos que ainda utilizam gravata afrouxam visivelmente o no. O clima de informalidade predomina, o que se torna perceptivel por meio do comportamento das pessoas, de suas expectativas com relacao ao local frequentado e, inclusive, por meio dos produtos consumidos. Esses produtos --os petiscos, ou "nao comida", por meio de referencias feitas pelos proprios funcionarios--serao abordados no topico a seguir.

4.3.2 Comida e nao comida: tempo da refeicao e tempo dos petiscos

Um codigo que tambem aponta para as diferencas apresentadas em decorrencia do horario e a utilizacao de guardanapos diversos. Durante o dia, quando ha uma maior formalidade no atendimento, os guardanapos sao de tecido, cuidadosamente colocados sobre as mesas. Durante o happy, sao utilizados guardanapos de papel, em conjunto, sobre um suporte em metal, denunciando a informalidade que toma conta do estabelecimento. A fala de um garcom demonstra como a mudanca e percebida pelos funcionarios:
      No almoco, tu tens que usar um pouco mais de etiqueta com o
   cliente, e a noite nao, a noite e um pouco mais de correria, a
   gente atende o cliente como da, ne? Larga o cardapio, vai na outra
   mesa, traz petisco, busca chope, mas no almoco ja e mais fino, ne?
   Tem que usar um pouco mais de etiqueta. [...] no almoco, a gente da
   um cuidado melhor pro cliente. Tu ta mexendo com comida, ta mexendo
   com etiqueta. De repente, o cliente traz um colega dele de fora, um
   outro que nunca teve aqui, ele vai esperar de nos um tratamento
   muito diferente da noite. Porque a noite e correria, tu sabe como
   e. Nao tem como o cara chegar por um lado, tirar [o prato] pelo
   outro, nao adianta. [...] a noite nao, a noite ele ja vem para
   escutar musica, curtir (grifo nosso).


A opcao por diferentes tipos de guardanapo representa muito mais do que a diferenca de custos para o restaurante, que um leitor desavisado poderia imaginar. A questao da etiqueta, apontada pelo entrevistado, talvez apresente uma sutil nocao da mensagem que se deseja passar por meio de determinado espaco, algumas vezes de forma inconsciente. Pode-se comecar a compreender essa situacao pela lente do pensamento de Levi-Strauss (2006), que tece alguns comentarios acerca dos costumes a mesa. O autor afirma que, a exemplo da etiqueta e dos bons modos a mesa, a utilizacao de talheres e utensilios de higiene (como guardanapos, por exemplo) desempenha uma dupla funcao. Tais utensilios cumpririam o papel de isolantes, de mediadores, moderando as trocas dos individuos com o mundo, mas serviriam, tambem, como padroes de medida--funcao positiva, em vez de negativa (LEVI-STRAUSS, 2006). Padroes de medida para, por exemplo, nortear comportamentos.

A propria passagem na qual o garcom faz uma associacao entre comida e etiqueta e crucial para o entendimento da questao. A diferenciacao entre comida (refeicao, almoco) e petisco (lanche, e, por exclusao, "nao comida") e objeto de analise de diversos autores. Na visao de Camara Cascudo (1957), e comum entre diversos povos ocidentais a representacao da "comida substancial", aquela que passa pelo fogo e e servida com talheres, diferentemente da comida fria (ou da comida quente nao servida com talheres, como a batata frita), do lanche, categoria na qual poderiam ser inseridos os petiscos.

No Chale, o petisco mais vendido, que normalmente acompanha o tradicional chope, e a batata frita, servida em recipiente comunitario, representando o alimento compartilhado. Em tal recipiente, cada pessoa serve-se sem a intermediacao de talheres--faz-se uso, no maximo, de um palito de madeira. Para Camara Cascudo (1957, p. 28), a utilizacao dos talheres e a mediacao do contato humano com o alimento: "O contato da mao estabelece uma continuidade simpatica, uma intercomunicacao valorizadora que o metal isolara, fazendo dispersar-se sabores imponderaveis e reais".

A intimidade que se compartilha, simbolizada pelo ato de alimentar-se no mesmo recipiente, nao esta presente no almoco, periodo em que a individualidade predomina. Sao pratos, talheres e copos diferenciados, e quase tudo e servido em porcoes individuais, a excecao de garrafas de vinho, por exemplo, e dos temperos, como sal, azeite e vinagre.

Para alem de todos os aspectos simbolicos tratados ate aqui, a partir do proximo topico serao abordadas questoes relacionadas aos proprios clientes do Chale, suas memorias, representacoes e relacoes com o restaurante, seja como habitue ou turista.

4.4 OS CLIENTES DO CHALE

A questao da memoria no Chale guarda relacoes, sem duvida, com aspectos ligados a espaco e tempo; no entanto, cabe, neste item, destacar algumas questoes tangentes aos clientes do restaurante, que guardam a memoria do espaco estudado.

Em verdade, e possivel que percebamos certa sazonalidade quanto a frequencia de clientes: em entrevistas, foi-nos relatado um maior movimento em dias de temperatura elevada e ceu limpo, principalmente durante os meses de novembro a fevereiro. Em dias de chuva--ou promessa de chuva, de acordo com a meteorologia local--, poucas pessoas costumam comparecer ao local, em especial a tardinha. Os horarios tambem apresentam variacoes quanto a frequencia de clientes. O periodo em que ha musica ao vivo (os cantores contratados, munidos de violao, costumam interpretar sucessos da MPB) sao momentos em que o fluxo de clientes e maior. O horario de trabalho dos musicos e, normalmente, das 18 h as 22 h, periodo entremeado por alguns intervalos de dez ou quinze minutos.

Uma constatacao pode ser realizada quando observamos mais atentamente o Chale: ninguem destoa daquele espaco. Ele se presta a acolher qualquer tipo de publico: engravatados, uniformizados, despojados, idosos, jovens, gays, casais, grandes ou pequenos grupos. O ambiente nao e homogeneizante, o publico e heterogeneo. Por vezes, os clientes levam seu proprio lanche e o saboreiam ao som da musica ao vivo, tomando um chope e conversando. E interessante salientar que nem sempre as pessoas que la estao consomem algo, para desgosto dos garcons; e comum encontrar grupos em que apenas uma ou duas pessoas tomam chope, ou pessoas que se sentam nas cadeiras do Chale para a leitura de um jornal ou algo do genero.

Um garcom, em entrevista, expoe uma clara percepcao do perfil dos frequentadores do Chale em relacao ao horario:
      O cliente do Chale, eu acho que da pra resumir em tres classes:
   A, B e C. O magnata, porque o prefeito vem aqui, o vereador que
   comanda a Assembleia, aqui ja veio o governador, pessoas de nivel,
   [...]; e tem aquelas pessoas que ganham bem, que trabalham na
   Assembleia, trabalham na prefeitura; normalmente, no meio-dia e
   esse [tipo de cliente], que eu acho que da pra considerar classe B
   [...]; e tem aquele cliente humilde, igual a mim, assalariado
   [...]. Entao, eu acho que nos temos essas tres classes,
   principalmente no meio-dia. De noite, eu acho que e o B e o C. Mas
   no meio-dia, a gente trabalha pros tres.


Nao percebemos diferencas significativas quanto ao perfil dos clientes em relacao ao horario, mas sim associamos uma adaptacao do seu comportamento ao horario e ao espaco de consumo.

Um dos grandes divertimentos dos garcons, durante entrevistas e conversas, constituia-se da narracao de historias memoraveis sobre os diferentes "tipos" que frequentam o local. Ha casos tipicos, como o de uma senhora possuidora de um estranho habito de tomar chope em xicaras; um senhor que costuma almocar pontualmente as 13h40, todos os dias, independentemente de seu horario de chegada ao Chale; uma senhora que, ao pedir "um copo d'agua" ao garcom, da o seu sinal para servirem-lhe uma tulipa de chope; um casal de clientes que leva sua cachorrinha para o restaurante, a qual dorme apos degustar um pequeno medalhao de file preparado especialmente para ela; uma moca que costuma pedir que seu prato seja dividido em duas porcoes--uma das porcoes e para sua "amiga", alguem que nunca chega. Enfim, o Chale guarda varias historias: "coisas do Chale", como dizem seus funcionarios, forma como quase sempre terminavam as narracoes das peculiaridades daquele espaco.

O fato de os pesquisados se referirem as particularidades daquele espaco como proprias do Chale (portanto, temos a definicao de uma categoria nativa) leva a inferencia de que aquele espaco tem algo de especial, unico, com ocorrencias que nao se passam em outros espacos. Destaca-se, dessa forma, a percepcao, por parte dos pesquisados, da singularidade do espaco no qual estao inseridos. Esse tipo de narracao se constroi por meio das experiencias dos funcionarios, e e um importante meio de circulacao das representacoes difundidas entre eles.

A seguir, outra questao importante que envolve os clientes e funcionarios do Chale: a presenca de turistas.

4.4.1 Turismo e turistas no Chale

Desde os primeiros dias de pesquisa, por meio de entrevistas e conversas com os pesquisados sobre o turismo na cidade e a importancia do Chale nesse contexto, percebemos que o assunto nao parecia atrair muitas atencoes por parte dos funcionarios e gerentes. A divulgacao do espaco para turistas nunca foi encarada como uma possibilidade real; sempre que a necessidade de clientes aparecia como premente, eram referenciados os clientes da propria cidade, e nao visitantes de outros Estados brasileiros ou mesmo de outros paises.

Da mesma forma, e perceptivel, no discurso dos gestores e funcionarios, a despreocupacao com relacao a frequencia de turistas na cidade e, especialmente, no Chale. As alusoes aos turistas jamais ocorreram de forma espontanea nas falas dos pesquisados, e, sempre que indagados nesse sentido, faziam que o assunto nao se desenvolvesse. As respostas eram recorrentes, e diziam que a frequencia de turistas nao era significativa, o que, de fato, nao se comprovou na pratica.

Essa despreocupacao rendeu a uma das pesquisadoras maior insercao em campo, na medida em que foi possivel auxiliar, algumas vezes, os pesquisados na comunicacao com clientes. Nao ha funcionarios ou gerentes que falem outro idioma. Ao serem indagados sobre a dificuldade de comunicacao, argumentavam que ela ocorria por meio de gestos ou um cardapio redigido em ingles. Essa suposta facilidade na comunicacao tambem nao se concretizou. Muitos turistas tinham a mesa um acompanhante bilingue; outros se faziam entender depois de muito tempo, por meio de gestos e constrangimentos. Contudo, houve os que nao dispusessem desses recursos, o que motivou a atuacao de uma das pesquisadoras em campo, traduzindo o dialogo, como na ocasiao em que uma turista inglesa, ja nervosa, desejava pegar um taxi e nao era compreendida, gerando comocao entre os funcionarios que tentavam, em vao, ajudar.

De acordo com a perspectiva de Siqueira e Siqueira (2008), o turista que se encontra em uma localidade instaura um espaco, lugar do significado. E um sujeito que experimenta subjetivamente ordens de linguagens distintas daquelas que experiencia em seu cotidiano de trabalho e moradia. Assim, turistas se encontram, fazem contatos, mas tambem podem disputar espacos. Sao contatos que, muitas vezes, possibilitam a efervescencia social (3).

Os autores referenciados trazem a tona um exemplo que se passa na cidade do Rio de Janeiro, definindo a relacao que os moradores mantem com o Cristo Redentor (um dos principais pontos turisticos do Brasil) como de distanciamento. O Chale da Praca XV tambem passa por uma situacao semelhante: embora possua uma certa frequencia de clientes locais, muitos habitantes de Porto Alegre jamais adentraram naquele espaco.

Em suma, em Porto Alegre, da mesma forma que no Rio de Janeiro, os nativos tambem nao tem o costume de frequentar pontos que se configuram como um espaco eminentemente para turistas. Todavia, Porto Alegre, diferentemente do Rio de Janeiro, nao possui difundida tradicao turistica, e o imaginario acerca da cidade corrobora esse aspecto. O fato de o turismo, muitas vezes, ser associado a belas praias serve como argumento para tal. Os gauchos parecem ressentir-se de seu litoral, pobre em coqueiros, aguas translucidas e outros possiveis atrativos, desdenhando, muitas vezes, de seu potencial turistico. Isso pode ser captado na visao que os funcionarios tem sobre a frequencia de turistas no Chale, algo que nao corresponde a realidade. No entanto, e preciso termos em mente que o turismo nao e apenas voltado a belezas naturais, mas tambem a questoes historicas e culturais (como o Estado de Minas Gerais que atrai grande quantidade de turistas, sem, no entanto, ter saida para o mar). Nesse contexto, a rede de restaurantes parece ainda nao ter se dado conta de que tem a sua disposicao um patrimonio historico, espaco com forte potencial turistico.

Sendo assim, no contexto especifico do Chale, e possivel dizer que os frequentadores sao, em sua maioria, habitantes da cidade. Muitos desses clientes possuem profunda relacao com o restaurante e o centro de Porto Alegre, o que suscita memorias revigoradas por meio da narracao de experiencias passadas. Tal tema sera tratado no topico seguinte.

4.4.2 O lugar e as memorias

Diversos clientes do Chale guardam identidade com o local, independentemente da empresa que o administra. Uma das pesquisadoras teve a oportunidade de conversar com pessoas que costumam frequentar o Chale ha decadas e que, ao relatarem o que mais gostavam, diziam que era o "espaco", o "lugar"; algumas vezes, houve mencao ao "atendimento"; no entanto, muitos desses clientes, quando questionados sobre a empresa que era permissionaria do local, nao sabiam dizer seu nome.

Dessa maneira, o que tentamos ressaltar aqui e que o vinculo com o espaco e seu passado (historia, identidade e memoria) nao e realizado e mantido pelos funcionarios, mas sim pelos clientes. Ao contrario do que e visto em muitos pontos historicos de diversas cidades, em que um guia local e contratado para narrar aos clientes o passado daquele lugar, no Chale o que acontece e a construcao, narracao e reproducao de uma memoria coletiva feita por meio de seus clientes e frequentadores.

O conceito de memoria coletiva, segundo Halbwachs (2006), perpassa a ideia de um processo social de reconstrucao do passado vivido e experimentado por determinado grupo, comunidade ou sociedade. Da mesma maneira, existem multiplas memorias coletivas--dai nossa opcao por utilizar o termo "memorias", no plural--, o que nao ocorre com a historia, que e uma so. Enfim, apesar de a memoria buscar dar conta das transformacoes da sociedade, ela assegura a permanencia do tempo e a homogeneidade da vida, mostrando que o passado permanece, reforcando a identidade do grupo. Tambem nao se pode confundir a nocao de memoria coletiva com a de memoria individual. Cada memoria individual, de acordo com Halbwachs (2006), e um ponto de vista da memoria coletiva.

Halbwachs (2006) argumenta que a comunicacao e o pensamento dos grupos estao estruturados de acordo com o que ele chama de marcos sociais da memoria, que podem ser tanto temporais quanto espaciais. Os marcos sociais de natureza temporal sao aqueles representados por datas e periodos socialmente significativos; ja os marcos sociais de natureza espacial consistem em lugares, construcoes e objetos, onde sao depositados a memoria dos grupos, de modo que um determinado lugar ou objeto evoca recordacoes da vida social --e, da mesma forma, sua ausencia, perda ou destruicao impede a reconstrucao da memoria. A cada edificio que e derrubado, prossegue o autor, uma parte do pensamento coletivo se rompe.

O Chale e um marco social de natureza espacial que permite a reconstrucao da memoria de um tempo vivido na cidade. Um dos garcons apreendeu a relacao da memoria individual e coletiva em seu ambiente de trabalho e expressa com muita propriedade tal percepcao. Ele mesmo, apesar de desconhecer aspectos teoricos, utiliza a nomenclatura "espaco de memoria" ao descrever o Chale com base na observacao de seus clientes:
   [...] mas a pessoa vem porque e [cliente] antiga do Chale, porque o
   Chale tem alguma coisa dela, porque ela vai se lembrar de alguma
   coisa que ela fez no Chale, com amigos ou com namorado, entendeu?
   Isso acontece muito e com as viuvas. Bah, o que eu ja ouvi de papo
   de viuva, aqui..."Ha dez anos, ha vinte, trinta anos, eu vim com
   meu marido...E hoje eu vim relembrar, que hoje em dia ele esta
   falecido...". [...] "Antigamente tinha um chafariz aqui", essas
   coisas que o pessoal gosta de contar [...] E aqui, como e antigo, e
   um espaco de memoria.


Tal aspecto, relacionado a outros tantos observados em campo, e decisivo para que descrevamos o Chale como um lugar antropologico. Estabelecido no centro historico de Porto Alegre, repleto de referencias as memorias da cidade, o Chale faz parte da historia do municipio (dimensao historica do lugar). Da mesma maneira, como espaco de memoria, guarda caracteristicas ligadas as sociabilidades, a historia e a identidade.

Em ambito teorico, Auge (2004) afirma ser a identidade do lugar seu elemento fundador, que congrega e une em uma dimensao ao mesmo tempo espacial e social. Essa relacao entre o identitario e social tambem se faz a partir de uma dimensao temporal--a relacao com o historico. Os lugares sao vistos como pedacos de historia (AUGE, 2004). Tal dimensao e claramente vislumbrada no ambito do Chale, reconhecido como um espaco representativo na historia de Porto Alegre, o que e possivel perceber no excerto a seguir:

O Chale da Praca XV e uma das instituicoes de Porto Alegre. Para as geracoes mais velhas, o Chale era uma referencia obrigatoria no centro, local de encontros e endereco dos lazeres dos fins de tarde, muito antes que estes conquistassem o status internacional de happy hour (ZAVASCHI, 2002, p. 32).

Essa identidade explicita-se, como podemos ver, no excerto supracitado, por meio de uma dimensao simbolica, do significado daquele espaco para determinados grupos. Esse significado representa a dimensao relacional do espaco. A dimensao temporal, por sua vez, e claramente exposta por Auge (2004), em que o centro da cidade se coloca como espaco de historia, obedecendo a uma temporalidade propria, diferentemente do restante da cidade.

A guisa de conclusao, o proximo item tece consideracoes acerca dos principais topicos que nortearam a construcao deste texto.

5 CONSIDERACOES FINAIS

Este artigo mostra a importancia das categorias tempo e espaco na analise organizacional, categorias relacionadas intimamente com a percepcao, o comportamento e as representacoes presentes nas culturas organizacionais.

As categorias de analise evidenciaram as heterogeneidades presentes no espaco estudado. O Chale, relacionado ao lugar antropologico, mostra-se repleto de sociabilidades, historicidades e identificacoes com o espaco. Esses aspectos evidenciam-se em uma temporalidade propria, estabelecendo relacoes diferenciadas dentro do lugar.

Nesse sentido, de acordo com Auge (2004), os lugares antropologicos desenvolvem um social organico. O lugar se completa pela fala, a troca alusiva de algumas senhas:

Por tras da ronda das horas e dos pontos fortes da paisagem, encontramos, na verdade, palavras e linguagens: palavras especializadas na liturgia, do "antigo ritual", em contraste com aquelas da oficina que "canta e tagarela": palavras tambem de todos os que, falando a mesma linguagem, reconhecem que elas pertencem ao mesmo mundo (AUGE, 2004, p. 73).

Essas palavras estao em todo momento presentes no repertorio do Chale (identificacao, relacionamento, historia). De certa maneira, o que ocorre no restaurante e, em parte, uma reproducao do que acontece no restante da cidade (nao so em Porto Alegre, mas tambem nas cidades em que tradicao e modernidade opoem-se). As falas aludem a desordem, inseguranca e sujeira com relacao as ruas, e, de acordo com esse pensamento, nao cumprem mais seu papel. O Chale revela a cidade ainda provinciana, em que todos se conhecem, conversam entre si, sem a obrigatoriedade do consumo; revela uma relacao peculiar com o tempo, que se processa de maneira diversa da tradicao meramente linear e quantitativa da contemporaneidade ocidental. Ele mostra a expressao da sociedade brasileira por meio do personalismo no atendimento e nas demais relacoes sociais que la tem lugar. Sua riqueza ainda reside na particularidade, naquilo que os outros nao conseguiram--e nem conseguirao--copiar. E a cidade que nao quer abandonar sua essencia, a cidade cujo centro ainda quer "centralizar" o imaginario popular, o centro dos encontros comerciais e de lazer, do encontro social de importancia ritualistica naquelas ruas. E o provincianismo que se opoe a cidade que, cada vez mais, quer mostrar-se moderna, estetica e higienica, em nome do "progresso" e "crescimento".

Sao, enfim, aspectos diversos que refletem diferentes visoes sobre a mesma cidade, diferentes posturas dentro de um mesmo contexto maior. No entanto, cabe colocar que essa visao da cidade entre o moderno e o tradicional nao deve acontecer de forma dicotomica. A ideia de cidade provinciana, que perdeu os referenciais de uma suposta perfeicao, possui algo de "mito original", em que as comparacoes sao mediadas por certo maniqueismo reducionista que deve ser relativizado (MARONEZE, 2007). A cidade pensada como um local de ordem, que possuia um futuro promissor (e quando os problemas sociais ficavam restritos a determinadas areas, nao atingindo todos os grupos), em que os espacos de socializacao eram lembrados sob o ponto de vista de uma estetica centrada no publico, nao corresponde a realidade observada nos dias atuais.

Finalmente, indicam-se, aqui, alternativas para pensarmos a gestao do estabelecimento. E comum que estudos sobre cultura organizacional e representacoes sociais sejam questionados por sua contribuicao a gestao das organizacoes. Nesse sentido, alguns pontos especificos podem ser lembrados no que tange a propria questao das diferentes temporalidades e espacialidades do restaurante. A contribuicao deste trabalho, sendo assim, faz-se no concernente a compreensao e ao respeito dessas dimensoes (tempo e espaco), e na aplicacao do conhecimento dos aspectos envolvidos a gestao organizacional.

Nesse sentido, ao jogar luzes sobre aspectos relacionados a temporalidade e espacialidade de uma organizacao, fazendo que ambas transparecam por meio de representacoes sociais, o presente artigo busca trazer um novo olhar as abordagens tradicionais de estudos sobre cultura organizacional, essencialmente voltadas a elementos intraorganizacionais. O pensamento administrativo, nesse campo do conhecimento, pode ser reorientado por meio da consideracao de elementos de contexto, como a dimensao historica do espaco organizacional. A argumentacao defendida neste estudo, de acordo com a qual sao utilizadas perspectivas nao usuais de analise, permite que estudos organizacionais considerem novas fontes, novos problemas e novas abordagens, concebendo que novas questoes desloquem o foco de analise, em um olhar diferenciado sobre o fenomeno cultura organizacional.

Cabe refletir sobre o Chale; acoes relacionadas ao turismo, a valorizacao daquele espaco como patrimonio historico, que hoje nao sao realizadas--como proporcionar a funcionarios e gerentes cursos de idiomas, alem da preparacao para que recebam turistas--precisam ser pensadas. Entender a dimensao his torica do Chale, administrativamente, corresponde a compreensao do simbolico, mas tambem a pensar esse lugar como ponto turistico da cidade. A propria rede de restaurantes possui um dos estabelecimentos localizado em um hotel de Porto Alegre; seria interessante, dessa forma, que a empresa disponibilizasse um micro-onibus, por exemplo, para o transporte dos turistas la hospedados ate o Chale, para que estes pudessem conhecer uma parte da historia da cidade, bem como saborear uma refeicao. Outra sugestao seria a venda de lembrancas e miniaturas do Chale e de outros patrimonios e predios historicos no proprio local, para que turistas brasileiros e estrangeiros possam levar para casa uma recordacao. Ressaltamos que a revitalizacao do centro, por si so, planejada pela prefeitura nao sera suficiente para a atracao de clientes, tal como sugerem as falas capturadas durante a pesquisa. Para que um lugar permaneca como central, ele deve ser capaz de renovar-se e se adaptar aos novos tempos, levando em consideracao questoes economicas e aspectos relacionados a memoria urbana. A deterioracao e resultado de relacoes sociais que nao podem ser modificadas apenas com intervencoes fisicas no espaco (BORBA, 1993).

Enfim, coube aqui evidenciar as dimensoes particulares da organizacao, suas homogeneidades e heterogeneidades relacionadas a espaco e tempo, que devem ser levadas em conta na gestao, o que, atualmente, ocorre de maneira muito timida.

LETICIA DIAS FANTINEL

Doutoranda em Administracao do Nucleo de Pos-Graduacao em Administracao da Escola de Administracao da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Avenida Princesa Isabel, 113/302, Barra--Salvador--BA--Brasil--CEP 40130-030

E-mail: le_fantinel@hotmail.com

NEUSA ROLITA CAVEDON

Doutora em Administracao pela Escola de Administracao da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professora do Programa de Pos-graduacao em Administracao da Escola de Administracao da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Avenida Washington Luiz, 855, sala 431--Porto Alegre--RS--Brasil--CEP 90010-460

E-mail: nrcavedon@ea.ufrgs.br

Submissao: 19 jun. 2009. Aceitacao: 17 out. 2009. Sistema de avaliacao: as cegas tripla.

REFERENCIAS

AUGE, M. Nao-lugares: introducao a uma antropologia da supermodernidade. 4. ed. Campinas: Papirus, 2004.

BACHELARD, G. A intuicao do instante. Campinas: Verus, 2007.

BAUER, M. Analise de conteudo classica. In: BAUER, M.; GASKELL, G. (Ed.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual pratico. Petropolis: Vozes, 2002.

BERGER, P.; LUCKMANN, T. A construcao social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 15. ed. Petropolis: Vozes, 1998.

BORBA, S. V. Transformacoes recentes na area central de Porto Alegre: apontamentos para uma discussao. In: PANIZZI, W.; ROVATTI, J. (Org.). Estudos urbanos: Porto Alegre e seu planejamento. Porto Alegre: EDUFRGS, 1993.

CAMARA CASCUDO, L. da. Historia da Alimentacao no Brasil. Sao Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.

CAVEDON, N. R. Antropologia para administradores. Porto Alegre: UFRGS, 2003.

--. "Pode chegar fregues": a cultura organizacional do Mercado Publico de Porto Alegre. Revista O&S, Salvador, v. 11, n. 29, p. 173-189, jan./abr. 2004.

CAVEDON, N. R. et al. A violencia urbana e a administracao das lojas do Viaduto Otavio Rocha em Porto Alegre. Economia e Gestao, Belo Horizonte, v. 4, n. 8, p. 49-78, dez. 2004.

CERTEAU, M. de; GIARD, L.; MAYOL, P. A invencao do cotidiano: 2. morar, cozinhar. Petropolis: Vozes, 2003.

CHANLAT, J.-F. O ser humano, um ser espaco-temporal. In:_. (Coord.). O individuo na organizacao: dimensoes esquecidas. Sao Paulo: Atlas, 1994. v. 3.

DAMATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

DURKHEIM, E.; MAUSS, M. Algumas formas primitivas de classificacao: contribuicoes para o estudo das representacoes coletivas. In: MAUSS, M. Ensaios de sociologia. Sao Paulo: Perspectiva, 1981.

ELIAS, N. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

FERNANDES, C. Centro historico quer resgatar o passado. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 16, 31 ago. 2008.

FISCHER, G.-N. Espaco, identidade e organizacao. In: CHANLAT, J.-F. (Coord.). O individuo na organizacao: dimensoes esquecidas. Sao Paulo: Atlas, 1994. v. 2.

FISCHER, L. A. O Chale e a Praca XV na cultura de Porto Alegre...In: SCHMITT, R. (Org.). Chale e a Praca XV: historias de Porto Alegre. Porto Alegre: Telos, 2006.

GASKELL, G. Entrevistas individuais e grupais. In: BAUER, M.; GASKELL, G. (Ed.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual pratico. Petropolis: Vozes, 2002.

GASPARINI, G. Tempo e trabalho no ocidente. In: CHANLAT, J.-F. (Coord.). O individuo na organizacao: dimensoes esquecidas. Sao Paulo: Atlas, 1994. v. 3.

GEERTZ, C. A interpretacao das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

GOODE, W.; HATT, P. Metodos em pesquisa social. Sao Paulo: Companhia Editora Nacional, 1960. HALBWACHS, M. A memoria coletiva. Sao Paulo: Centauro, 2006.

HASSARD, J. Imagens do tempo no trabalho e na organizacao. In: CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. Handbook de estudos organizacionais. Sao Paulo: Atlas, 2001. v. 2.

JAIME JUNIOR, P. Um texto, multiplas interpretacoes: antropologia hermeneutica e cultura organizacional. In: LENGLER, J. F.; CAVEDON, N. R. (Org.). Pos-modernidade e etnografia nas organizacoes. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2005.

JAIME JUNIOR, P.; SERVA, M. Observacao participante e pesquisa em administracao: uma postura antropologica. In: ENCONTRO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE POS-GRADUACAO EM ADMINISTRACAO, 18., 1994, Curitiba. Anais...[S. l.: s. n.], 1994. v. 6. p. 153-170.

JODELET, D. Representations sociales: un domaine en expansion. In: --. (Dir.). Les representa tions sociales. 5. ed. Paris: PUF, 1997.

LEVI-STRAUSS, C. A origem dos modos a mesa. Sao Paulo: Cosac & Naify, 2006. (Mitologicas, v. 3). MACEDO, F. R. Historia de Porto Alegre. Porto Alegre: EDUFRGS, 1993.

MARONEZE, L. G. Porto Alegre em dois cenarios: a nostalgia da modernidade no olhar dos cronistas. 2007. 259 f. Tese (Doutorado em Historia)-Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007.

MOSCOVICI, S. Des representations collectives aux representations sociales: elements pour une histoire. In: JODELET, D. (Dir.). Les representations sociales. 5. ed. Paris: PUF, 1997.

PESAVENTO, S. J. Um espaco no tempo: era uma vez um chalet, em Porto Alegre... In: SCHMITT, R. (Org.). Chale e a Praca XV: historias de Porto Alegre. Porto Alegre: Telos, 2006.

--. Cidades visiveis, cidades sensiveis, cidades imaginarias. Revista Brasileira de Historia, Sao Paulo, v. 27, n. 53, jun. 2007.

RICOEUR, P. La lectura del tiempo pasado: memoria y olvido. Madrid: Arrecife, 1999.

ROCHA, E.; BARROS, C.; PEREIRA, C. Fronteiras e limites: espacos contemporaneos da pesquisa etnografica. In: LENGLER, J. F. B.; CAVEDON, N. R. (Org.). Pos-modernidade e etnografia nas organizacoes. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2005.

SIQUEIRA, E.; SIQUEIRA, D. Lagrimas e risos no Corcovado: notas para uma antropologia do turismo. In: ENCONTRO DA ANPOCS, 32., 2008, Caxambu. Anais... Caxambu, 2008.

SOUZA, R. L. de. Cachaca, vinho, cerveja: da colonia ao seculo XX. Estudos Historicos, Rio de Janeiro, FGV/CPDOC, n. 33, p. 1-22, 2004.

ZALUAR, A. Teoria e pratica do trabalho de campo: alguns problemas. In: CARDOSO, R. (Org.). A aventura antropologica: teoria e pesquisa. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004.

ZAVASCHI, O. O chale e o chafariz. Zero Hora, Porto Alegre, 30 dez. 2002. Tunel do tempo, p. 32.

(1) Nesse sentido, DaMatta (1986) atribui essa perspectiva ao sistema escravocrata brasileiro, o qual confundiu as relacoes entre patrao e empregado, em que nao so um era explorador do trabalho do outro, mas tambem seu representante e dono perante a sociedade. As pessoas consideradas "decentes" nao desenvolviam trabalhos manuais e/ou bracais, que ficariam a cargo dos escravos. A nocao de inferioridade do trabalho manual e amplamente difundida ate os dias atuais.

(2) Essa frase e um excerto retirado de um jingle publicitario elaborado pela agencia Africa para a marca de cerveja Brahma, em que o consumidor e mostrado como "um batalhador, um guerreiro que tem fe na vida e nao desiste nunca". O comercial e composto por diversas cenas que mostram o dia a dia de diversos profissionais, desde o inicio ate o final do dia, quando saem para tomar cerveja com os amigos. O tempo de lazer, de acordo com a peca publicitaria, e desfrutado com os amigos, o que representa a quebra de rotina de trabalho da semana, no bar, bebendo cerveja. O jingle e de autoria de Nizan Guanaes, presidente da agencia (cf. <http://www.portaldapropaganda.com>. Acesso em: 29 set. 2008).

(3) A antropologia demorou algum tempo ate incorporar o turismo e seus atores sociais a seu campo de estudo (SIQUEIRA; SIQUEIRA, 2008). De acordo com esses autores, os turistas eram vistos pelos antropologos mais como entraves aos seus trabalhos de campo, colaborando para a transformacao acelerada de sociedades tradicionais, do que propriamente um objeto de pesquisa. A partir da segunda metade da decada de 1960, contudo, iniciaram-se os primeiros estudos antropologicos por meio do turismo, dos turistas e de suas interacoes com a populacao local, considerando-os como campo legitimo de pesquisa.
COPYRIGHT 2010 Universidade Presbiteriana Mackenzie
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2010 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Fantinel, Leticia Dias; Cavedon, Neusa Rolita
Publication:Revista de Administracao Mackenzie
Date:Jan 1, 2010
Words:12596
Previous Article:Apresentacao.
Next Article:Discursive practices in the construction of a polyphonic gastronomy/Praticas discursivas na construcao de uma gastronomia polifonica.
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters