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Opinion and preference research on typography for children/Pesquisas de opiniao e preferencia sobre tipografia para criancas.

1. Introducao

Tradicionalmente, o objetivo principal das pesquisas de legibilidade e encontrar condicoes otimas de leitura. Deste modo, seus autores buscam entender quais composicoes tipograficas e desenhos de letras acarretam o aumento do desempenho de leitura, tendo em vista a otimizacao do processo de aquisicao da informacao pelo usuario (SBDI, 2006).

O desempenho de leitura e comumente avaliado em experimentos praticos por meio de criterios quantificaveis que visam a medir, de um modo geral, a precisao de reconhecimento de caracteres, a compreensao e o tempo de leitura de um texto.

Sob condicoes normais, e muito dificil entender as operacoes processadas por um leitor fluente durante a leitura. Considerando processos complexos, os metodos cientificos necessitam filtrar a realidade, ou seja, selecionar variaveis a serem manipuladas, observadas e quantificadas isoladamente, e entao supor como funcionariam em circunstancias normais.

O metodo cientifico, por selecionar variaveis para manipulacao e estudo, nao reproduz e nao pode reproduzir a complexidade da realidade. (...) O sucesso da teoria depende em grande parte da sensibilidade do pesquisador expressa na selecao inicial de variaveis. (Kolers, 1969: 146, traducao nossa)

Alguns dos criterios utilizados para avaliacao do desempenho de leitura sao: velocidade de percepcao, reconhecimento de caracteres, compreensao do conteudo, quantidade de erros cometidos, movimentos oculares e frequencia de piscadas.

Mas alem dos aspectos relacionados diretamente ao reconhecimento de letras e palavras, alguns pesquisadores tambem consideram a opiniao e preferencia dos participantes em relacao a tipografias e composicoes tipograficas. Estas avaliacoes tendem a se colocar como um fator secundario ou um teste previo com a finalidade de gerar subsidios que auxiliem na selecao dos parametros a serem testados em um experimento principal, mas tambem podem constituir-se como o objetivo principal de uma pesquisa.

As opinioes dos participantes sao levantadas por meio de entrevistas e questionarios. Segundo Zachrisson (1965: 69), e importante nao apenas construir um sistema de gradacao compreensivel para o participante e apropriado para o problema, como tambem deixar claro qual aspecto esta sendo avaliado, formulando questoes que possam ser entendidas pelos participantes e que conduzam a respostas relevantes para a pesquisa.

Tinker e Paterson (1940: 18) sugerem uma relacao entre a opiniao de leitores a respeito da legibilidade de tipografias e os resultados de testes de desempenho de leitura. Em um de seus estudos, 210 participantes organizaram dez desenhos tipograficos numa escala de um (menos legivel) a dez (mais legivel). Legibilidade foi indicada pelos pesquisadores como facilidade e velocidade de leitura. Os resultados deste estudo guardam relacao com os resultados dos testes de desempenho de leitura que consideraram as mesmas tipografias.

Em um estudo posterior, de 1942, os autores questionam porque o gosto de um leitor por um desenho de letra parece ser influenciado pelo que ele julga ser mais legivel. Ou seja, se um leitor tem maior admiracao estetica por um desenho de letra que julgue ser mais legivel, ou se uma composicao mais legivel parece mais agradavel para o leitor.

Embora seus resultados nao indiquem a relacao de causalidade entre esses fatores, ainda segundo os pesquisadores, um projeto "deve ser guiado tanto pelos fatores que consideram a velocidade de leitura com que uma determinada composicao tipografica pode ser lida quanto pelo que os leitores julgam ser legivel" (Tinker e Paterson, 1942: 40, traducao nossa).

Os dados do estudo de Hvinsttendahl e Kahl (apud Rehe, 1976: 32) reforcam as indicacoes de Tinker e Paterson, e sugerem uma relacao entre a preferencia por determinada tipografia e sua maior legibilidade. Os participantes do estudo foram capazes de ler mais rapidamente um texto composto com uma tipografia com serifa, e a mesma tipografia foi apontada como preferida pelos participantes da pesquisa.

Considerando o universo de criancas leitoras iniciais, foram identificadas varias pesquisas de legibilidade que incluiram testes de opiniao e preferencia (ver Quadro 1). Em muitos casos os resultados deste tipo de investigacao serviram para definir os parametros do experimento principal.

Os resultados dos testes de opiniao e preferencia sao, em alguns casos, quantificados. Em outros casos, os levantamentos tem carater exploratorio, e a analise dos resultados e feita de modo subjetivo, considerando particularidades de cada participante, como eventuais comentarios acerca do tema em questao.

Tendo em vista pesquisas de opiniao e preferencia que consideraram a leitura realizada por criancas nos anos escolares iniciais, neste trabalho buscou-se identificar aspectos que se demonstram pertinentes para este tipo de investigacao. Sao apresentados tanto dados relativos aos depoimentos das proprias criancas, quanto dos professores alfabetizadores. O objetivo e o de levantar subsidios para possiveis investigacoes futuras a respeito desse tema.

2. Pesquisas com professores

Coghill (1980) utilizou um questionario com a finalidade de auxiliar na selecao dos desenhos a serem utilizados no teste de leitura principal de sua pesquisa, realizada com criancas em processo de alfabetizacao. No questionario, respondido por 50 professores, foi primeiramente apresentada uma frase composta com Gill Sans precedida de uma pergunta sobre a adequacao deste desenho ao publico infantil. Em seguida, outros quatro desenhos tipograficos eram apresentados e era pedido ao participante para designa-los como adequado ou nao adequado.

Todos os participantes, com excecao de um, definiram a tipografia sem serifa como sendo adequada, 35 deles apontaram a tipografia sem serifa como unica opcao adequada, e 26 indicaram em seu comentario que sua escolha se devia ao fato desta tipografia guardar mais semelhancas com a escrita inicial feita por criancas. A maioria dos comentarios fazia mencao a simplicidade formal do desenho sem serifa, e sua maior relacao com as capacidades das criancas, mesmo sem possuir qualquer outro acabamento que remetesse a escrita manual, como os caracteres para criancas (2).

Diferentemente das demais pesquisas apresentadas neste topico, a de Raban (1984) nao buscou avaliar a opiniao ou preferencia de professores acerca de desenhos ou composicoes tipograficas, mas de caracteristicas gerais de livros de literatura infantil.

Por meio de um questionario, 270 professores atribuiram grau de importancia aos elementos que consideravam relevantes na escolha de um livro para criancas. Foi pedido aos participantes que ordenassem cinco caracteristicas, a partir de uma lista contendo 14. Alem disso, eles deveriam indicar mudancas na ordenacao, caso julgassem necessarias, considerando criancas de idades diferentes, entre 5 e 7 anos.

O conteudo da historia foi apontado como caracteristica mais importante para criancas com 6 ou 7 anos de idade. Entretanto, para criancas com 5 anos de idade, tanto a qualidade das ilustracoes quanto o uso de um vocabulario controlado foram considerados mais importantes.

A quarta caracteristica considerada mais importante para criancas de 5 anos de idade foi o tamanho das letras. Cinquenta e quatro por cento dos participantes julgaram que as questoes discutidas eram irrelevantes para as criancas a partir dos 7 anos de idade, 36% acharam que a tipografia impressa deve ser compativel com a escrita, 14% defenderam o uso dos caracteres para criancas, 11 % deram maior importancia ao tamanho do corpo, 10% enfatizaram o uso de formas simples para as letras, 5% julgaram que os itens em questao eram irrelevantes em qualquer etapa do aprendizado, e 2% mencionaram o espacejamento (Sassoon, 1993: 151).

Foi tambem pedido aos participantes que indicassem, entre tipografias com e sem serifa, e entre caracteres regulares e caracteres para criancas, quais julgavam mais adequados ao publico infantil.

Dois tercos dos professores julgaram a tipografia sem serifa mais adequada, e 39% deles mencionaram que deve haver uma correspondencia entre letra impressa e a escrita. A preferencia pelos caracteres alterados foi marcante, embora menos evidente considerando criancas de 7 anos de idade.

Durante o desenvolvimento do projeto Tipografia para Criancas (Rumjanek, 2003), que resultou na construcao de uma tipografia especifica para esse publico, buscou-se ouvir a opiniao de professoras alfabetizadoras sobre qual julgavam ser uma tipografia adequada para esses leitores.

Foi apresentada uma lista contendo o mesmo texto composto com tipografias diferentes comumente presentes em livros de literatura infantil encontrados em bibliotecas de escolas. A tipografia Futura, unica do grupo que possuia "a" e "g" cursivos, foi apontada pela maioria das professoras como sendo mais apropriada por possuir um desenho simples e alguns caracteres mais proximos da escrita manual realizada na escola. Entretanto, muitas estavam cientes das ambiguidades geradas por esse desenho geometrico.

Gusmao (2004: 75) tambem realizou testes de preferencia com desenhos tipograficos. Seus testes compararam quatro desenhos: AlphaBetica (3), Comic Sans, Avant Garde e Times New Roman (figura 1).

[FIGURE 1 OMITTED]

O teste foi realizado com 37 criancas, com idades entre 5 e 7 anos, e dez professoras de uma escola municipal em Recife, Pernambuco.

Foi perguntado as professoras se percebiam alguma diferenca entre os desenhos e, aquelas que percebiam, era pedido que indicassem qual daqueles consideravam mais apropriado para o publico em questao.

Todas as professoras participantes perceberam diferencas entre as pranchas. A maioria selecionou a tipografia Avant Garde como mais adequada ao publico infantil, alegando que as criancas estariam mais familiarizadas com suas formas de geometria simples.

3. Pesquisas com criancas

Zachrisson (1965: 131, 139) usou testes de opiniao para investigar a percepcao de criancas de 1a e 4a serie em relacao a desenhos tipograficos (figura 2) e tamanhos de corpos de letra diferentes. Os testes foram realizados com 72 meninos da 1a serie, oriundos de duas escolas distintas--em uma o material de leitura era composto com tipografia sem serifa, e na outra, com serifa--e 48 criancas (24 meninos e 24 meninas) da 4a serie.

Foi pedido aos participantes que ordenassem as tipografias segundo a que achavam mais facil de ser lida, convidativa, agradavel, entre outras caracteristicas. Apenas a hierarquia apontada por cada participante foi registrada. Entretanto, nao foi obtida uma diferenca significativa nos resultados.

Com o mesmo universo amostral, Zachrisson realizou um teste de opiniao onde comparou diferentes tamanhos de corpo de letra. Aos alunos da 1a serie, o material de texto para o teste foi apresentado nos corpos de letra de 10, 14 e 16 pontos, e aos alunos da 4a serie, nos corpos de letra de 8, 10 e 12 pontos. Segundo o pesquisador, houve uma diferenca significativa. No grupo de alunos de 1a serie foi identificada uma grande popularidade do corpo de letra de 16 pontos. A diferenca nao foi tao marcante no grupo de alunos da 4a serie, particularmente entre os corpos de 10 e de 12 pontos. Entretanto, houve uma diferenca grande na comparacao destes com o corpo menor, de 8 pontos (quadros 2 e 3).

[FIGURE 2 OMITTED]

Sassoon (1993) buscou avaliar a percepcao de criancas em relacao a desenhos tipograficos e espacejamentos diferentes. Sassoon relata que esteve envolvida com desenhos de letras por toda sua vida, mas se envolveu com questoes ligadas a projetos tipograficos apenas mais tarde, proximo a data de seu estudo (Sassoon, 1993: 152).

A pesquisadora conta que constatou a importancia de voltar seu estudo para tais questoes quando foi abordada por uma professora de alunos com dificuldades de aprendizado que disse nao entender porque eles eram capazes de ler uma pagina de texto e nao conseguiam ler a pagina seguinte, ja que as duas possuiam mesmo nivel de dificuldade. Sassoon notou rapidamente que o texto causando dificuldades estava alinhado de modo justificado, fato que a professora nao tinha sido capaz de perceber.

A principal questao levantada por Sassoon e a de que as decisoes sobre os parametros proprios para criancas sao feitas por adultos, sejam eles educadores, sem um conhecimento maior sobre desenhos de letras, ou designers, que, segundo a autora, tendem a privilegiar as questoes esteticas em detrimento dos interesses das criancas.

Seu estudo foi desenvolvido de modo independente, e nao foi definido um metodo especifico, dependendo da disponibilidade das professoras participantes. O problema foi abordado de maneira distinta por cada participante, e apenas uma professora produziu um estudo significativo. As professoras participantes nao tinham um conhecimento tipografico particular, o que, na opiniao da pesquisadora, pareceu adequado para que seus proprios pontos de vista nao interferissem em seus julgamentos.

Os testes da pesquisa foram realizados utilizando cinco variacoes de espacejamento e 4 tipografias diferentes: uma tipografia sem serifa inclinada, a Times, por ser uma tipografia amplamente difundida, a Times italico, por ser utilizada para criancas que apresentam problemas de aprendizado, e a Helvetica com caracteres para criancas (figura 3).

[FIGURE 3 OMITTED]

A professora que realizou um estudo completo utilizou 100 criancas, metade delas eram alunos com necessidades especiais de 8 a 13 anos de idade, e a outra metade, criancas de 8 anos de idade de turmas regulares. Para o primeiro grupo, eram mostrados todos os desenhos tipograficos e, em seguida, perguntado qual era o preferido. As variacoes de espacejamento, dentre as quais a crianca tambem deveria selecionar uma preferida, eram entao apresentadas todas na tipografia previamente apontada pela crianca. Para o grupo de alunos de turmas regulares, a professora apresentava todas as alternativas, variacoes de desenhos tipograficos e espacejamentos, e pedia para que a crianca selecionasse sua opcao preferida e aquela que julgava mais facil para se ler.

As escolhas variaram dependendo da habilidade de leitura dos participantes. Segundo a professora, as criancas com mais dificuldades preferiram espacejamento largo e tipografia neutra (sem serifa inclinada). As criancas com melhor desempenho de leitura gostavam de ler a tipografia com desenho mais proximo da cursiva (Times italico) e com menos espacejamento.

Foram identificadas algumas opinioes comuns, como o desejo por uma leve inclinacao e uma grande preferencia pelos desenhos sem serifa. Para Sassoon, os resultados da pesquisa indicam que as criancas sao capazes de fazer as diferenciacoes necessarias a avaliacao dos desenhos distintos.

As 37 criancas que participaram do estudo de Gusmao (2004: 74), foram feitas duas perguntas: se elas eram capazes de perceber diferencas entre os quatro desenhos e, nos casos em que isto se dava, qual dos desenhos a crianca preferia.

Do total de criancas, apenas 12 perceberam as diferencas entre as pranchas. Entre essas, seis optaram pela Comic Sans, quatro pela Alphabetica, duas pela Avant Garde e uma pela Times New Roman.

As criancas nao foram capazes de justificar suas preferencias. O autor questiona se a grande preferencia pela Comic Sans pode estar relacionada a sua linguagem proxima a de caligrafias e tipografias utilizadas em historias em quadrinhos.

O teste de desempenho de leitura da pesquisa coordenada por Walker (2005), que avaliou 11 tipografias (figura 4) e 12 variacoes de espacejamentos, nao obteve resultados significativos. Entretanto, segundo a opiniao da autora, informacoes importantes foram coletadas nas entrevistas de opiniao e preferencia realizadas com as mesmas 24 criancas participantes do teste. Foi perguntado aos participantes: se podiam identificar diferencas na aparencia da escrita, se havia algum estilo que preferiam e qual dos estilos achavam mais facil de ser lido.

[FIGURE 4 OMITTED]

No primeiro teste, onde foram utilizadas as tipografias Gill Sans, Century, Gill Schoolbook e Century Educational, dentre as 24 criancas, 15 foram capazes de detectar diferencas entre os estilos apresentados. Oito criancas preferiram a Gill Sans, tres, a Gill Schoolbook, duas, a Century, tres, a Century Educational, e oito criancas nao demonstraram preferencia alguma.

Com relacao ao grupo de tipografias sem serifa, foram feitas afirmacoes pelas criancas tais como: "as letras aparecem mais e sao bem maiores para se ler" ou "parece facil para eu ler". Com relacao ao grupo com serifa, foi dito por uma das criancas: "e bastante facil de se ler, e tem uma aparencia diferente".

Considerando os caracteres para criancas e os caracteres regulares, a maior parte das criancas estava atenta quanto a diferenca de formas das letras e muitas fizeram a observacao de que o desenho alternativo (com caracteres para criancas) e para quando se escreve e o desenho original, para quando se le. Algumas criancas julgaram o "g" romano como sendo mais dificil para se ler, mas leram ambos com a mesma fluencia nos testes de desempenho.

No segundo grupo de testes, que comparou as 4 tipografias anteriores com a Flora e a Sassoon Primary Infant, as criancas acharam o desenho da Flora mais "arredondado",

"sofisticado" e "adulto". Ainda segundo suas opinioes, a Century foi descrita como "normal" e a Sassoon como "se alguem a tivesse escrito, fluindo".

Foi testado ainda um terceiro grupo de tipografias. Algumas das expressoes utilizadas pelas criancas para avaliar as tipografias foram:

Comic sans: "escrita de bebe" e "como a escrita de quadrinhos"

French script: "estrangeira", "de menininha", "como nos dias de antigamente" e "escrita de cartao de aniversario"

Fabula: "escrita de verdade" e "como um livro comum"

Lucida handwriting: "a moda antiga" e "especial"

Sand: "facil porque nao tem letras ligadas"

Algumas descricoes utilizadas pelas criancas indicam que algumas tipografias podem afetar a motivacao, como "mais inteligente" e "mais rapida". Algumas opinioes dizem respeito a adequacao, pois determinadas tipografias foram consideradas como menos apropriadas para uso em livros de literatura infantil e, ao mesmo tempo, como sendo atraentes. Segundo uma crianca, a respeito da French Script, "eu nao consigo le-la muito bem, mas gosto de sua aparencia".

Nos testes tambem foram apresentadas quatro variacoes de espacejamentos entre letras, palavras e de entrelinhas. Um numero maior de criancas conseguiu perceber os diferentes espacejamentos entre letras, em relacao ao grupo capaz de identificar os diferentes espacejamentos entre palavras. Tanto para o espacejamento entre letras quanto para o espacejamentos entre palavras, as alternativas preferidas pelas criancas variaram entre as normais e as mais afastadas. Segundo a percepcao de algumas criancas, o espacejamento entre letras mais apertado foi responsavel por tornar o texto mais dificil de se ler, e fez com que as letras parecessem mais escuras, grossas e pequenas.

Considerando as diferentes entrelinhas, as alternativas que variavam entre normais e mais espacadas tambem foram apontadas como preferidas pelas criancas. Algumas das qualidades destas alternativas apontadas por elas foram: clareza, facilidade de leitura e proximidade com a realidade.

Assim como no estudo de Sassoon, as respostas das criancas que participaram do estudo de Walker demonstram que elas sao capazes de perceber diferencas nos desenhos e possuem opinioes a respeito dos mesmos. Alem disso, e possivel observar que desde cedo os desenhos tipograficos diferentes sao associados como sendo proprios a universos especificos. Para Walker, os comentarios das criancas sobre as variacoes tipograficas sugerem que as questoes abordadas tem um efeito consideravel sobre suas motivacoes para escolher um livro e, de fato, le-lo.

4. Consideracoes sobre pesquisas de opiniao e preferencia

Tendo em vista os estudos apresentados neste trabalho, e possivel destacar

duas questoes de fundo: [a] as diferencas de experiencias e pontos de vista entre criancas e professoras alfabetizadoras; [b] a falta de um conhecimento mais amplo a respeito de aspectos tipograficos por parte tanto de professores quanto de alunos. As diferencas entre desenhos de letras estao, fundamentalmente, em detalhes, com poucas excecoes, o desenho basico das letras e bastante proximo. Por isso, uma avaliacao eficaz exige uma grande atencao a pequenos detalhes, como acabamentos ou variacoes na espessura de tracos.

Em relacao a primeira questao, pode-se destacar os julgamentos de professores baseados no ensino da escrita. Para alguns deles, as letras maiusculas, por exemplo, representam uma escrita que exige menos da coordenacao motora de seus alunos, parecendo, deste modo, apropriada para aqueles que estao no processo inicial da alfabetizacao. Do mesmo modo, ha um entendimento de que as formas de um desenho sem serifa, por serem mais simples, facilitam a leitura realizada por criancas. Esses desenhos tambem sao considerados como sendo mais proximos da escrita da propria crianca, por nao possuir os acabamentos ou detalhes especificos dos desenhos com serifa ou suas formas mais rebuscadas. Este fato tem relacao com outra questao discutida com frequencia sobre a relacao entre o desenho de letra impresso e da escrita manual. Muitos professores acreditam que a maior proximidade entre os dois desenhos facilita tanto o aprendizado da escrita, quanto o da leitura, o que parece apontar uma dificuldade de percepcao de que a leitura e a escrita sao processos distintos. Isto, por sua vez, pode levar a recomendacao de uso, por parte de professores, dos mesmos desenhos de letras tanto para a escrita quanto para materiais impressos.

Um dos motivos que leva pesquisadores a buscarem ouvir a opiniao de professores e a quantidade pequena de estudos realizados especificamente com criancas e, ainda, os resultados pouco conclusivos obtidos nos mesmos, especialmente naqueles que consideraram diferentes desenhos tipograficos. O que acaba por impossibilitar a utilizacao dos resultados de pesquisas previas para definir parametros tipograficos, dentre outros criterios, para um novo experimento.

Quanto a segunda questao, pode-se observar que em qualquer experimento e necessario um grande cuidado na selecao das variaveis a serem medidas. No tipo de pesquisa em questao, essa selecao nao deve ser feita de modo diferente. Alem disso, deve haver uma busca pelo entendimento do olhar do leigo, e pelos significados que um determinado desenho tipografico pode ter para tais participantes.

Em paises como a Inglaterra, onde ha uma cultura tipografica mais consolidada, questoes tipograficas tecnicas nao ficam necessariamente restritas ao meio profissional do design. Conforme pode ser observado nos estudos descritos e segundo Walker, educadores e editores de livros infantis possuem uma forte opiniao sobre o desenho tipografico apropriado para criancas leitoras. O que nao significa, entretanto, que por isso suas recomendacoes sao de fato as mais adequadas. No Brasil esta cultura tipografica fora do meio profissional e praticamente inexistente como pode ser observado a partir da pesquisa Tipografia para Criancas (Rumjanek, 2003), as professoras alfabetizadoras demonstraram ausencia de uma relacao previa e sistematica com os desenhos de letras.

Diferentemente do designer ou tipografo, o julgamento de educadores em relacao as tipografias nao e influenciado por questoes como suas classificacoes usuais, contraste, eixo de estresse, acabamentos, entre outros, mas por outras questoes, como suas relacoes com a escrita, conforme descrito anteriormente. Deste modo, torna-se importante buscar, sobretudo, uma definicao de variaveis adequadas as experiencias de percepcao da tipografia pelos participantes. Alem disso, um dos problemas com o qual as pesquisas de opinioes e preferencias precisam lidar e a subjetividade dos termos utilizados para classificar o que estiver sendo avaliado pelos participantes. Um mesmo adjetivo, por exemplo, pode ter significados diferentes para pessoas distintas, embora grande parte de seu sentido esteja contido nele mesmo, uma parte depende da experiencia individual.

Desmet (2002), em sua tese Designing Emotions, procurou minimizar ao maximo essas diferencas de interpretacao. O pesquisador buscou criar um sistema para avaliar produtos por meio das emocoes que estes evocam. O sistema final consiste de um personagem animado que representa emocoes diferentes, e pode ser utilizado para avaliar qualquer aspecto que envolva emocoes, de produtos e situacoes, a obras de arte e tipografias, por exemplo. Para selecionar as palavras que representam emocoes para seu estudo, foi tracado um percurso cuidadoso que visava a eliminar palavras que representassem emocoes ambiguas ou duplicadas. Foi feita uma serie de testes com participantes para avaliar o entendimento do significado das palavras. Os testes realizados eram capazes de medir, por exemplo, se a palavra felicidade possui aproximadamente o mesmo significado para pessoas distintas, ou se as emocoes representadas pelas palavras tristeza e melancolia podem ser diferenciadas com clareza uma da outra.

A vantagem do sistema gerado nesse estudo e sua menor probabilidade de utilizar termos que suscitem diferentes interpretacoes, podendo assim quantificar, com maior precisao, opinioes de participantes sobre aspectos diversos. O mesmo tipo de aproximacao aplicado aos testes que envolvem opinioes e preferencias acerca de tipografias poderia gerar resultados mais confiaveis. Alem disso, o sistema permite que o pesquisador selecione as qualidades que utilizara em suas classificacoes, nao dependendo apenas do repertorio dos participantes de sua pesquisa.

O problema deste tipo de abordagem esta em sua propria natureza, a tentativa de criar um repertorio delimitado de criterios de avaliacao, que acaba desconsiderando qualquer posicionamento mais particular de determinado participante.

De um modo geral, as pesquisas de opiniao e preferencia relacionadas a tipografias proprias para serem utilizadas em material de literatura infantil nao utilizaram uma metodologia que tentasse prever e minimizar questoes que sao afetadas por uma diferenca de interpretacao entre individuos.

Ovink (1938 apud Zachrisson, 1965: 69), em sua pesquisa, tambem buscou minimizar as dificuldades implicitas na investigacao de aspectos subjetivos. Seu estudo e um exemplo ainda mais extremo de delimitacoes desta natureza. Ele realizou uma pesquisa de opiniao a respeito de desenhos tipograficos com 139 participantes. A unica qualidade avaliada em seu teste foi a clareza dos desenhos. Foi pedido aos participantes que atribuissem um valor a partir de uma escala com tres gradacoes (entre claro e nao claro) a cada um dos desenhos apresentados. Uma hierarquizacao de muitos itens similares (outras qualidades) acarretaria dificuldades de execucao mesmo para especialistas. Se, por um lado, o pesquisador precisou limitar as possibilidades de seu estudo, por outro, alcancou resultados, provavelmente, mais confiaveis, por meio de um teste que gerou menos dificuldades e confusoes para seus participantes.

Uma outra solucao utilizada para este tipo de questao, pode ser encontrada no livro de Spiekermann e Ginger (1993: 40) destinado a pessoas que estao iniciando o contato com tipografia. O livro busca utilizar estereotipos para tornar a aproximacao de questoes relacionadas a desenhos de letras mais acessivel. No exemplo, uma tipografia deve ser associada a um estilo de calcado, essa associacao e feita de modo intuitivo, pois nao existe uma regra pre-estabelecida sobre esse aspecto. Esta aproximacao exige um entendimento maior sobre as associacoes que sao feitas nestas relacoes, e sobre como ocorrem de maneira coletiva.

Um ultimo aspecto referente ao desenvolvimento de pesquisas de opiniao e preferencia tendo em vista o universo de criancas leitoras iniciais diz respeito a possivel consolidacao de novos criterios que sejam adequados a uma nova ordem de objetivos. Nas pesquisas de desempenho de leitura, por exemplo, privilegia-se as leituras realizadas em menor tempo e com menor numero de erros cometidos, sem prejuizo de compreensao do conteudo, quando este criterio tambem e avaliado. Pesquisas de opiniao e preferencia parecem apontar para fatores mais subjetivos, como a motivacao e o prazer da leitura, que podem nao estar associados a uma maior velocidade ou qualquer outro aspecto que normalmente define o melhor desempenho. A observacao de aspectos de ambas as naturezas pode propiciar uma compreensao mais ampla sobre o tema.

Agradecimento

A Rosemary Sassoon por ter gentilmente cedido o relatorio da pesquisa de Bridie Raban.

Referencias

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DESMET, P. 2002. Designing Emotions. Tese de doutorado apresentada a Delft University of Technology. Holanda.

GUSMAO, G. 2004. AlphaBetica: familia tipografica para leitores iniciantes. Monografia apresentada ao Curso de Design da Universidade Federal de Pernambuco. Recife.

KOLERS, P. A. 1969. Clues to a letter's recognition: implications for the design of characters. The Journal of Typographic Research, v. 3, n. 2: 145-168.

RABAN, B. 1984. Survey of teachers' opinions: children's books and handwriting styles. In: Dennis, D. (Ed.) Reading: meeting children's special needs: 123-129. Londres: Heinemann.

REHE, R. F. 1974. Typography: how to make it most legible. Connecticut: West Port.

SASSOON, R. 1993. Through the eyes of a child: perception and type design. In: Sassoon, R. (Ed.). Computers and typography: 150-177. Oxford: Intellect Books.

RUMJANEK, L. 2003. Tipografia para criancas. Monografia apresentada ao curso de graduacao de desenho industrial da ESDI/UERJ. Rio de Janeiro.

SPIEKERMANN, E. & GINGER, E. M. 1993. Stop stealing sheep and find out how type works. California: Adobe Press.

TINKER, M. A. & PATERSON, D. G. 1940. How to make type readable. Nova Iorque: Harper & Brothers Publishers.

--1942. Reader preferences and typography. Journal of Applied Psychology, v. 26: 38-40.

WALKER, S. 2005. The songs the letters sing: typography and children's reading. National Centre for Language and Literacy: Reading.

ZACHRISSON, B. 1965. Studies in the legibility of printed text. Stockholm: Almqvist & Wiksell.

Leticia Rumianek. Mestre, graduada em Desenho Industrial pela ESDI/UERJ (2003) com habilitacao em Projeto de Produto e Comunicacao Visual. Mestre tambem pela ESDI/UERJ, com a pesquisa Tipografia para criancas: estudos de legibilidade (2009).

<lerumjanek@gmail.com>

Washington Dias Lessa, Doutor, graduado pela ESDI/UERJ, e professor desta instituicao desde 1977, integrando, atualmente, o seu programa de pos-graduacao. E mestre em Educacao pelo IESAE/FGV, e doutor em Comunicacao e Semiotica pela PUC/SP.

<wdlessa@esdi.uerj.br>

[artigo recebido em 20/09/2010, aprovado em 19/12/2010]

(1) Alunos que cursam o ano que antecede a serie escolar de apresentacao formal da leitura e da escrita, esta serie ou os dois anos seguintes.

(2) Em ingles, infant characters, refere-se a caracteres alternativos, que tem formas mais proximas as da escrita manual, como o "a" e o "g" cursivos.

(3) A tipografia AlphaBetica foi desenvolvida por Gusmao especificamente para leitores iniciais.
Quadro 1: Sintese dos testes de opiniao e preferencia considerando
criancas leitoras iniciantes

                  1965                   1980

autor /           Bror Zachrisson        Vera Coghill Ensino
atuacao           Educacao /Design       (professora de
                                         escola primaria)

origem da         Estocolmo, Suecia /    Londres, Inglaterra
pesquisa /        Instituto Grafico de   Central School of
instituicao       Estocolmo e Escola     Art and Design
                  de Educacao de
                  Estocolmo

universo          72 meninos de 7 a 8    50 professores
amostral          anos de idade da 1a
                  serie, e 48 criancas
                  da 4a serie

objetivo geral    Investigar a opiniao   Gerar subsideos para
do teste de       das criancas quanto    teste de leitura com
opiniao e         a alguns parametros    criancas
preferencia       tipograficos

parametros        Grupos tipograficos    Desenhos
tipograficos      com e sem serifa e     tipograficos
testados          tamanhos de corpo de   diferentes
                  letra diferentes

o que foi         Grupos tipograficos    Avaliar desenhos
pedido aos        com e sem serifa e     tipograficos como
participantes     tamanhos de corpo de   adequado ou
                  letra diferentes       inadequado para
                                         leitura de criancas

                  1984                   1993

autor /           Bridie Raban           Rosemary Sassoon
atuacao           Educacao (educacao     Educacao/
                  inicial,               tipo-grafia (ensino
                  desenvolvimento da     da escrita)
                  linguagem e
                  aprendizado da
                  escrita e da
                  leitura)

origem da         Reading, Inglaterra    Inglaterra Pesquisa
pesquisa /        School of Education    independente
instituicao       da University of
                  Reading

universo          270 professores dos    100 criancas, 50
amostral          anos escolares         alunos com
                  iniciais               necessidades
                                         especiais (8 a 13
                                         anos), e 50 alunos
                                         de turmas regulares
                                         (8 anos)

objetivo geral    Investigar a opiniao   Investigar a opiniao
do teste de       de professores sobre   das criancas quanto
opiniao e         livros de literatura   a alguns parametros
preferencia       infantil               tipograficos

parametros        Caracteristicas        Desenhos
tipograficos      presentes em livros    tipograficos e
testados          de literatura          espacejamentos
                  infantil, tanto        diferentes
                  formais quanto de
                  conteudo

o que foi         Ordenar 5              Apontar desenhos e
pedido aos        caractericticas de     composicoes
participantes     livros de literatura   preferidas
                  infantil, a partir
                  de urna lista
                  contendo 14, que
                  julgassem
                  importantes

                  2003                   2004

autor /           Leticia Rumjanek       Gustavo Gusmao
atuacao           Design                 Design

origem da         Rio de Janeiro,        Recife, Brasil
pesquisa /        Brasil Escola          Universidade Federal
instituicao       Superior de Desenho    de Pernambuco
                  Industrial da
                  Universidade do
                  Estado do Rio de
                  Janeiro

universo          6 professoras          37 criancas, com
amostral                                 idades entre 5 e 7
                                         anos, e 10
                                         professoras

objetivo geral    Levantar subsideos     Avaliar tipografia
do teste de       para desenvolvimento   desenvolvida para
opiniao e         de tipografia para     criancas
preferencia       criancas

parametros        Desenhos               Desenhos
tipograficos      tipograficos           tipograficos

testados          diferentes             diferentes

o que foi         Indicar, a partir de   Indicar se percebiam
pedido aos        uma lista, os          diferencas entre
participantes     desenhos               composicoes, e
                  tipograficos que       selecionar um
                  julgassem mais         desenho preferido,
                  adequados para serem   no caso das
                  utilizados em livro    professoras, tendo
                                         em vista criancas em
                                         processo de
                                         alfabetizacao

                  2005

autor /           Sue Walker Design
atuacao           (diretora do projeto
                  Typographic Design
                  for Children)

origem da         Reading, Inglaterra
pesquisa /        /Department of
instituicao       Typography and
                  Graphic
                  Communication, da
                  University of
                  Reading

universo          24 criancas entre 6
amostral          e 7 anos de idade

objetivo geral    Investigar a opiniao
do teste de       das criancas quanto
opiniao e         a alguns parametros
preferencia       tipograficos

parametros        Tipografias com e
tipograficos      sem serifas,
testados          caracteres para
                  criancas, maiores ou
                  menores espacos
                  entre linhas, letras
                  e palavras

o que foi         Indicar se percebiam
pedido aos        diferencas entre
participantes     composicoes e
                  selecionar desenhos
                  que julgassem ser
                  mais faceis de serem
                  lidos

Quadro 2: Opiniao de leitores (media da hierarquizacao) referente aos
desenhos tipograficos. (Zachrisson, 1965: 132)

                               COM SERIFA 1    COM SERIFA 2
                                  (BEMBO)        (NORDISK)
1a SERIE

material escolar sem serifa    2,4             2,6

material escolar com serifa    2,6             2,6

4a SERIE

idades 8-11                    2,3             2,3

                               SEM SERIFA 1    SEM SERIFA 2
                                  (MAGER)         (GILL)
1a SERIE

material escolar sem serifa    2,7             2,3

material escolar com serifa    2,6             2,4

4a SERIE

idades 8-11                    2,5             2,9

Quadro 3: Opiniao de leitores referente aos tamanhos de
corpo de letra. (Zachrisson, 1965: 140)

TAMANHO (PONTOS)    PRIMEIRA OPCAO (NUMERO DE VEZES)

1a SERIE

10                   5
14                  25
16                  42
                    72
4a SERIE

8                   11
10                  33
12                  28
                    72
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Author:Rumjanek, Leticia; Lessa, Washington Dias
Publication:Brazilian Journal of Information Design
Date:Jan 1, 2010
Words:5361
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