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On the trail of Chicago women: organic and radical connections of classic american pragmatism/No encalco das mulheres de Chicago: conexoes organicas e radicais do pragmatismo classico americano.

Introducao: do pragmatismo ao feminismo

Num estimulante trabalho sobre os cruzamentos e ligacoes entre o pragmatismo e o feminismo Charlene Haddock Seigfried apela a "redescoberta das mulheres pragmaticas", defendendo que o "panteao branco e masculino do pragmatismo precisa de ser alargado de modo a incluir as contribuicoes das mulheres" (Seigfried, 1991, p. 8). O trabalho de Seigfried (1991, 1996, 1999) constitui um relato historico sobre a marginalizacao do trabalho das primeiras mulheres academicas e sobre as razoes que contribuiram para que o pragmatismo classico nao tivesse sido visto atraves de uma lente feminista. A memoria de Jane Addams e das mulheres que partilharam a sua visao reformista que se apresenta neste texto nao e apenas uma resposta ao seu apelo, considerando que elas, como muitas outras pessoas ja reconheceram, pertencem ao referido panteao do pragmatismo, mas e tambem uma tentativa de reforcar o conhecimento que temos da fase formativa da Universidade de Chicago, na sua contribuicao para o estabelecimento da sociologia e das ligacoes, nomeadamente comunicativas, que se estabeleceram entre o pragmatismo classico, o feminismo e a democracia (Elshtain, 2001; Levine, 1971).

Estas preocupacoes ligam, com efeito, mulheres como Jane Addams, Jessie Taft, Florence Kelley, Sophonisba Breckenridge, Edith e Julia Abbott, Alice Hamilton, Lucy Sprague Mitchell e Julia Lathrop, aos seus colegas de Chicago que o cannon imortalizou. Destes, John Dewey e certamente um dos mais imediatamente associados a essas mulheres invisiveis nao so porque foi amigo proximo de algumas delas, mas especialmente porque, em muitos aspetos, ele tanto as influenciou como sofreu a sua influencia.

Entre o pragmatismo e o feminismo em Chicago

Importa comecar por apresentar o trabalho feminista feito em Chicago, no final do seculo XIX e a sua relacao com o estabelecimento da sociologia nos Estados Unidos pois, embora as origens reformistas da disciplina estejam bem documentadas, o processo de transicao do ativismo social para a ciencia social nao e tao comumente discutido.

Comecamos por lembrar que na America do seculo XIX, para alem do predominio das ideias religiosas Calvinistas, o Capitalismo e o Liberalismo eram as duas principais ideologias dominantes, partilhando duas crencas entre si: primeiro, que o governo nao deve interferir com as forcas de mercado e, segundo, que a autonomia individual deveria ter como base as atitudes de responsabilidade pessoal e de autossuficiencia (Franklin, 1986). Essas ideias marcaram o surgimento de uma perspectiva que dirigiu a sua atencao para os problemas de determinados individuos e para as suas falhas de responsabilidade pessoal. A nocao liberal de democracia como um processo pelo qual os individuos procuram satisfazer as suas proprias necessidades sem ligacao aos outros, de quem se espera que protejam os seus proprios interesses, encontra, no entanto, um forte oposicao numa terceira perspectiva ideologica emergente: a do pragmatismo, que defendia um compromisso com a ciencia e o espirito empirico (Franklin, 1986). Na verdade, o modelo pragmatico de democracia e, em certos aspetos, muito diferente do modelo liberal. O pragmatismo classico (2), por detras das formas politicas da democracia, ve outra realidade. Em vez de assumir a forma politica como uma expressao de unidades isoladas de individuos egoistas, entende a democracia como uma forma comunicativa de associacao, especialmente apropriada para pessoas constituidas pelas multiplas relacoes e interacoes atraves das quais a consciencia se desenvolve e os valores se desenvolvem.

John Dewey, por exemplo, reagindo aos pressupostos psicologicos do liberalismo e dos proprios economistas politicos, argumentou que nao sao os aspectos individuais que moldam os interesses e motivacoes das pessoas, mas as suas diferentes formas de associacao e que, por essa razao, nao se pode especular sobre a natureza humana a partir de analises dedutivas de um sistema de politicas sociais. Segundo Dewey ([1927]1991), todo o discurso intelectual esta sujeito as distorcoes e valores dos envolvidos. O conhecimento nao e a soma de algumas verdades fixas, mas o produto de investigacao que, em si, e um processo continuo. Estando todas as atividades humanas enraizadas na experiencia e na interacao, isto leva a um compromisso de ligar teoria e pratica. Estas ideias e tonicas na acao e na experiencia traduziam-se, em Dewey, na crenca pragmatica de que os individuos que viviam em situacao de pobreza nao eram necessariamente moralmente repreensiveis, mas influenciados por um sistema que afetava o funcionamento social e que necessitava ser analisado. Como um"metodo de inteligencia organizada", a democracia usaria a informacao espalhada disponivel na sociedade, a fim de tomar decisoes melhor informadas sobre assuntos de interesse publico (Dewey, [1935] 1987, p. 61).

Estas ideologias intelectuais, bem como as religiosas vigentes constituiram os quadros conceituais de dois movimentos sociais emergentes que procuravam aliviar os problemas associados a pobreza:

Os movimentos que aceitaram as ideias do liberalismo, com sua enfase na responsabilidade e na acao individual, tenderam a dar o seu apoio a Charity Organization Society. Os que adotaram a filosofia do pragmatismo, e que se preocupavam mais com os problemas de bairros e regioes geograficas, trabalhavam no Settlement House Movement (Franklin, 1986, p. 507).

Os e as fundadoras deste ultimo movimento, as Settlement House, viviam e trabalhavam nas vizinhancas mais pobres, procurando levar a sua educacao e boa vontade para apoiar os/as mais carentes definindo os problemas ambientais da pobreza e tendo como projeto a melhoria social. Aqui se desenvolvia, de modo muito concreto, a reciprocidade entre teoria e pratica, entre o conhecimento e a acao que ecoava, de modo quase perfeito, no feminismo. Essa ligacao, no entanto, parece ter-se perdido, como Seigfried (1996) muito bem mostra, pelo que havera que a retomar. A liga-los, uma nocao fundamental--a de que

feministas e pragmaticos nao acham que ter valores antecedentes a teorizacao que os explora seja um problema para um filosofar genuino. Lutar por um maior e mais livre crescimento das mulheres, ou lutar por florescentes comunidades humanas, nao parece de todo hostil a analises cuidadosas e logicas dos tipos de preocupacoes gerais e relacoes ligadas aos problemas que tentamos resolver. (Miller, 2013, p. 232).

Jane Addams e a primeira sociologia em Chicago

E na confluencias destes movimentos que encontramos Jane Addams (1860-1935), que fez parte da primeira geracao de mulheres americanas a obter um diploma universitario, no seu caso, de Rockford College, no Illinois. Depois de visitar Toynbee Hall, um social settlement universitario em Londres, Addams estabeleceu em 1889 a primeira casa semelhante, a Hull-House, em Chicago. Estes settlements eram geralmente casas de residencia para licenciados que quisessem viver em areas deprimidas e contribuir para a vida social da comunidade envolvente, atraves por exemplo do desenvolvimento da educacao de adultos, a recolha de dados sociais e para a melhoria das condicoes sociais e industriais locais. Inspirada pelo exemplo britanico, Jane Addams rapidamente convenceu a amiga Ellen Starr Gates a participar na sua experiencia de implementacao de uma destas casas, procurando beneficiar muitos dos novos imigrantes e classes operarias residentes em Chicago com uma acao reformista assente na etica e, nesse sentido, distinta da vigente. Com efeito, segundo Addams, os movimentos de reforma governamentais nao eram, em geral, a expressao de uma vida moral ou social:

[Os reformadores] estao quase totalmente ocupados na correcao da maquina politica e com uma preocupacao com o melhor metodo de administracao, em vez de terem como objetivo final a garantia do bem-estar do povo. Eles fixam a sua atencao tao exclusivamente nos metodos, que nao conseguem considerar os objetivos finais do governo da cidade [...]. Tentando melhorar a situacao, no entanto, eles [os reformadores] so tem em mente conquistas politicas que separam de uma forma curiosa do resto da vida, e falam e escrevem sobre a purificacao da politica como uma coisa distinta da vida. (Addams, 1902, p. 222-223).

Ja a Hull House era

uma tentativa de aliviar, ao mesmo tempo, a sobreacumulacao num extremo da sociedade e a privacao no outro, mas ela [a casa] assume que esta sobreacumulacao e indigencia sao mais fortemente sentidas nas coisas que dizem respeito aos privilegios sociais e educacionais (Addams, [1910]1990, p. 86).

Deste modo, a Casa satisfazia a "necessidade subjetiva" de ajudar as pessoas a livrarem-se do sentimento de que andavam a deriva e parecia darlhes um sentido para as suas vidas dificeis.

Nao sendo uma obra de caridade, mas um local onde praxis e acao se reuniam na libertacao dos mais oprimidos, a Hull House constituia-se como um lugar para desenvolver e explorar a interdependencia entre as classes. Ai se desenvolveram programas educacionais e culturais, de arte, musica e desporto, numa tentativa de lidar e minorar os efeitos da pobreza. Mas, na sua interacao social e educativa com a vizinhanca, majoritariamente constituida por imigrantes muito pobres, a Hull House viria tambem a constituir-se como uma instituicao politica, um centro de onde emanavam posicoes de defesa de questoes como o aumento do salario minimo, os direitos sindicais, as leis de trabalho infantil, e a prestacao de melhores e nao discriminatorios servicos publicos. A Casa foi tambem uma especie de think tank do pragmatismo feminista, no qual o conhecimento individual e coletivo nao era alcancado atraves de crencas fixas, mas nas trocas entre ideologias concorrentes e testando as teorias pela experiencia mediada pela comunicacao. Por todas estas razoes, Addams defendeu que:

A unica coisa a recear no settlement e que ele perca a sua flexibilidade, o seu poder de adaptacao rapida, a sua disponibilidade para mudar os seus metodos se o ambiente o exigir. Deve ser aberto a conviccao e ter um profundo e permanente sentido de tolerancia. Deve ser hospitaleiro e pronto para a experiencia. Deve exigir dos seus moradores uma paciencia cientifica na acumulacao de fatos e a manutencao constante das suas empatias, como um dos melhores instrumentos para essa acumulacao. Deve basear-se numa filosofia cujo fundamento esta na solidariedade da raca humana, uma filosofia que nao vacila quando a raca passa a ser representada por uma mulher bebada ou por um garoto idiota. Os seus moradores tem de ser esvaziados de toda a vaidade de opiniao e de toda a autoafirmacao, e prontos para despertar e interpretar a opiniao publica do seu bairro (Addams, [1910] 1990, p. 127).

Mas, para alem do seu pioneirismo no movimento das Settlement House, Addams viria a ser uma proeminente oradora e escritora sobre um conjunto de outras causas: a profissao do trabalho social, o voto e outros direitos politicos das mulheres e o seu acesso a educacao e as profissoes. Alem disso, grande parte da sua vida foi dedicada ao movimento de paz: ela liderou a delegacao americana das primeiras mulheres ao Congresso sobre a paz em Haia, e foi a presidente fundadora da Liga Internacional das Mulheres para a Paz e Liberdade, formada nesse congresso, tendo recebido o Premio Nobel da Paz, em 1931, por este trabalho.

Mas o que nos ocupa neste texto e sobretudo a sua associacao com John Dewey. Addams conheceu-o mesmo antes de ele ter ido para Chicago e juntamente com George Herbert Mead, estiveram envolvidos no movimento das Settlement House (Simonson, 2001). Ambos partilharam uma serie de crencas, nomeadamente a valorizacao de uma democracia robusta e a importancia da educacao que envolvia a experiencia dos alunos. Dewey era um visitante frequente da Hull House e Addams muitas vezes dava palestras na Universidade de Chicago, onde ele era professor. Dewey tambem frequentemente usava os livros de Addams nas suas aulas e dedicou-lhe o seu texto de 1935, Liberalism and social action.

O Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago--o primeiro no pais--foi tambem criado em 1892. Mary Jo Deegan (1988), no livro Jane Addams e os homens da Escola de Chicago, argumenta que a tradicao dos estudos urbanos remonta a uma sociologia iniciada em Chicago comprometida com as reformas progressistas e cujo principal credito vai para a rede de mulheres sociologas reunidas em torno de Jane Addams. A principal razao para o posterior abandono desta contribuicao precoce viria a ser, segundo Deegan, a postura machista e cada vez mais apolitica e antirreformista desenvolvida pelos sociologos de Chicago, em 1920. Por isso, a autora argumenta que Jane Addams deve ser reintegrada na sua devida posicao como uma importante contribuinte para a sociologia da Escola de Chicago e do tempo que se lhe seguiu, o mesmo acontecendo com as muitas outras mulheres da epoca, particularmente as que estavam associadas a Hull-House, cujas contribuicoes foram esquecidas ou redefinidas como (simplesmente) trabalho social.

Deegan (1988) argumenta ainda que havia uma tradicao sociologica feminina diferenciada, baseada nas Settlement Houses e fortemente preocupada com a reforma social; essas mulheres muitas vezes nao estavam preparadas para aceitar as restricoes politicas dos empregos na universidade, e quando os tinham, eram discriminadas e rotuladas na area estereotipada como feminina, a do "trabalho social". No entanto, realizaram um forte corpo de pesquisa empirica sistematica, muita dela quantitativa, numa epoca em que isso era raro na academia masculina.

Os Mapas e Textos das Hull-House--um volume de investigacoes e reflexoes sociologicas originais publicadas em 1895--foram um trabalho pioneiro que teve um papel-chave--embora mais tarde nao reconhecido na tradicao de Chicago do mapeamento social. Na verdade, muito antes de Park e Burgess articularem o seu programa de pesquisa, as sociologas do sexo feminino estiveram envolvidas em pesquisa de campo, preparando o terreno para o que mais tarde se seguiria. Particularmente impressionante eram, como ja referimos, os mapas multicoloridos que retratavam a distribuicao demografica dos residentes na regiao vizinha--a tecnica que mais tarde se tornaria uma marca da sociologia de Chicago.

As mulheres da Hull House criaram uma sociologia distintiva fortemente infundida por um conjunto de teorias criticas, incluindo o marxismo, o feminismo e o "pragmatismo critico", como lhe chama Deegan. Metodologicamente, rejeitaram o modelo de investigacao/observacao distanciada, defendendo um discurso continuo entre todos os membros da comunidade, independentemente da sua classe, sexo, raca ou etnia, como um meio para a identificacao de problemas, investigacao, educacao e acao benefica. Alem disso, trabalharam como um coletivo sociologico na comunidade, rejeitando "distincoes entre teoria e pratica, publica e privada, profissional e quotidiana, no trabalho e em casa" (Deegan, 1988, p. 49).

Recordemos ainda que Addams, se nao tem um contributo direto para o desenvolvimento da comunicacao, foi uma das primeiras a comentar a influencia do cinema nas criancas e no seu desenvolvimento. Nesse sentido, devotou a esse tema todo um capitulo do seu livro The spirit of youth and the City Streer--um excerto do qual John Durham Peters e Peter Simonson incluem na sua antologia sobre comunicacao e pensamento social americano--numa analise a que ela chamou a "Casa dos Sonhos" ([1901] 2004). Ai, a autora mostrase bastante ambivalente sobre o assunto. Com efeito, reconhecendo o papel recreativo do cinema para a crianca da cidade, tambem se mostra receosa sobre os seus possiveis efeitos nefastos dizendo:

Deixar de fornecer recreacao a juventude nao e apenas priva-la da sua forma natural de expressao, mas e certo que alguns [jovens] se sujeitam a tentacao irresistivel do ilicito e dos prazeres destruidores da alma. Insistir que os jovens so devem ver o seu futuro cor de rosa numa casa dos sonhos, e priva-los do mundo real desse calor e tranquilidade de que eles tanto certamente necessitam e a que tem justamente direito (Addams, [1901] 2004, p. 29).

Mas, para alem destas referencias mais explicitas as formas mediaticas, encontramos em Addams, como no pragmatismo da Escola de Chicago, um entendimento da comunidade como forma de comunicacao, em que esta tem o seu valor epistemologico de "por em comum", dando a comunicacao um papel central na definicao das nossas vidas individuais e coletivas e na consolidacao das nossas identidades e comunidades (Silveirinha, 2004).

Num controverso argumento, Mary Jo Deegan (1988) acusa a "ideologia patriarcal", o conservadorismo politico e o profissionalismo estupido de homens como Robert E. Park, de ter esmagado a tradicao "feminista cultural". E dificil, no entanto, dizer o que poderia ter acontecido se as mulheres pioneiras da ciencia social nao tivessem sido votadas a invisibilidade.

Em todo o caso, gracas a uma serie de sociologas e filosofas feministas, bem como a alguns sociologos comunicacao, nao apenas Jane Addams, mas muitas outras mulheres tem sido reintegradas na sua devida posicao como importantes contributos para a sociologia da Escola de Chicago, do seu tempo e do que se seguiu e, em especial, para o estabelecimento do pragmatismo comunicacional. Peter Simonson, por exemplo, inclui Jane Addams numa categoria de pragmatismo que, juntamente com George Santayana, W. E. B. Du Bois, Alain Locke, Walter Lippmann, and C. Wright Mills "levaram a tradicao para alem do establishment Yankee Protestante Branco e masculino e desenvolveram a estetica do pragmatismo, a critica, a sociologia, a politica e teoria racial" (Simonson, 2001, p. 2). A este grupo pertence certamente tambem Charlotte Perkins Gilman (Upin, 1993).

O trabalho de Addams deve, por fim, ser reconhecido por uma serie de razoes: ensinou cursos universitarios, era um membro ativo da Sociedade Americana de Sociologia, escreveu uma dezena de livros e inumeros artigos de filosofia social original, reconhecidos por seus contemporaneos como John Dewey, William James e George Herbert Mead. Na verdade, como ja referimos, Jane Addams mantinha estreitas relacoes intelectuais com estes primeiros sociologos em Chicago e a Hull-House era importante para eles. No entanto, de todas estas relacoes, as amizades com G. H. Mead, W. I. Thomas e John Dewey sao intelectualmente as mais importantes.

Por outro lado, a estreita associacao de Dewey com a Hull-House durante o seu tempo na Universidade de Chicago, bem como a sua amizade com Jane Addams, tem sido bem documentadas. De acordo com Christopher Lasch, e "dificil dizer se Dewey influenciou Jane Addams ou se Jane Addams influenciou Dewey. Eles influenciaram-se mutuamente e generosamente reconheceram as suas influencias mutuas" (Lasch, 1965, p. 176). Ou, como eloquentemente diz Knight (2005, p. 240), "a medida que os anos passaram, nao foi Dewey que influenciou Addams ou Addams que influenciou Dewey, mas a amizade que influenciou ambos"--e essa influencia e importante para o feminismo.

O contributo de John Dewey para uma etica feminista da comunicacao

E certo que quase nada se disse sobre os escritos de John Dewey sobre as mulheres porque, na verdade, ele escreveu muito pouco sobre o assunto e, mesmo tendo frequentemente reconhecido, em termos privados, a influencia das feministas, ele "nao as reconheceu na sua escrita academica", num silencio que seria perpetuado pelos pragmaticos que se lhe seguiram (Shuler; Tate, 2001, p. 213) . A ausencia do reconhecimento da influencia de autoras como Jane Addams da Hull House e de Lucy Sprague Mitchell na Bank Street e, como tambem refere Marjorie Miller (2013), um dos sinais do lado patriarcal de um John Dewey mais ostensivamente feminista, ja que os beneficios da associacao comum entre ele e essas mulheres nao resultaram em formas explicitas que permitam o reconhecimento pleno e publico da sua influencia sobre suas ideias.

Apesar disso, ha evidencias nos seus escritos--bem como na sua vida--de que ele acreditava que o lugar das mulheres na sociedade era determinado pelo seu ambiente e nao apenas pela sua biologia. Portanto, como recorda Jane Upin (1993), ao contrario de muitos dos seus contemporaneos do sexo masculino, ele foi capaz de ver alem de alguns dos estereotipos sobre as mulheres vitorianas e comecar a fazer um "diagnostico" das dificuldades que as mulheres enfrentam. No inicio de sua carreira, fez notar que "a teoria predominante da natureza essencialmente conservadora de inteligencia da mulher [e apenas] uma ficcao da inteligencia masculina, mantida a fim de manter sob controle o [seu] radicalismo inconveniente" (Dewey,1894, citado por Upin, 1993, p. 51).

Comentando sobre costumes primitivos, destacou a forma como os homens mantiveram "a ocupacao da caca para si mesmos" e atribuiram as mulheres "todo o tipo de trabalho penoso", e especificamente chamou a atencao para as consequencias continuas dessa divisao sexual precoce do trabalho (Dewey, 1902, citado por Upin, 1993, p. 51). Alem disso, apoiou a batalha pela coeducacao, em 1902, na Universidade de Chicago e reconheceu o seu "endividamento fundamental" para com as mulheres que haviam trabalhado na escola-laboratorio (Dewey, [1910] 1978, p. 179). Em 1930, fez notar que

as atuais ideias sobre o amor, o casamento e a familia sao construcoes quase exclusivamente masculinas. Como todas as idealizacoes dos interesses humanos que expressam uma experiencia unilateral, sao romanticas em teoria e prosaicas no seu funcionamento (Dewey, [1930] 1984, p. 276).

Preve ainda que "a crescente liberdade das mulheres nao pode ter outro resultado que nao a producao de uma moral mais humana e mais realista"(Dewey, [1930] 1984, p. 276). Esta previsao de Dewey sobre a influencia das mulheres nos futuros destinos da etica, no entanto, nao seria tao facilmente traduzida quanto ele previa. Com efeito, muitas feministas--em especial as influenciadas por Carol Gilligan (1982)--continuam a acusar as abordagens eticas tradicionais de conterem uma distorcao masculina, contrapondo-lhe frequentemente a "voz do cuidado", como uma alternativa legitima a "perspetiva de justica" da teoria liberal dos direitos humanos, que pode ser igualmente equacionada para o campo da comunicacao e dos media (Camponez, 2014). Por outro lado, mesmo que haja diferencas significativas entre as eticistas feministas de hoje, todas elas concordam que ha algumas nocoes morais, esferas e problemas que tem sido desvalorizados, negligenciados ou ignorados na etica ocidental tradicional. Entre essas questoes estao o afetivo (emocoes), a estetica, e a primazia das relacoes pessoais (por exemplo, relacoes maternais, familia, amizade).

Apesar das diferentes direcoes que a etica viria a tomar, importa registrar que John Dewey fornece bases que sao aceitaveis do ponto de vista feminista e que podem ser importantes para a transformacao feminista da etica. Para alem de argumentar contra a desvalorizacao do afetivo, a estetica e as relacoes concretas, a sua etica contem uma apreciacao cuidadosa de como e porque essas coisas sao essenciais para a nossa vida moral, numa perspetiva que nunca perde o pragmatismo de vista. Por isso, Charlene Haddock Seigfried sugeriu que nos so recentemente comecamos a explorar "os beneficios mutuos de um pragmatismo feminista e de um feminismo pragmatico" (Seigfried, 1991, p. 2). Por outro lado, como Gregory Fernando Pappas (1993, p. 79) argumenta, o pragmatismo contemporaneo deve ter presente"de quao serio e o compromisso de Dewey com os aspetos da experiencia que tem sido associados com as mulheres (ou o 'feminino')".

Para Dewey o afetivo nao e periferico ou um subproduto da vida etica. Nos seus escritos, encontramos uma rica nocao de inteligencia em que o afetivo e fundamental para uma explicacao adequada de investigacao moral e de um bom carater moral, sendo geradora das qualidades esteticas da experiencia. Isto contraria a nocao tradicional de como o afetivo foi concebido: como um obstaculo ou como apresentando perigos para a objetividade necessaria e universalidade do conhecimento moral. A perspetiva pragmatica, tal como a de algumas feministas, nao pode fazer sentido de um ponto de vista imparcial e universal que nada e em particular. Dewey, como recorda Gregory Pappas (1993, p. 83) de novo, "nao descarta qualquer emocao como moralmente irrelevante, mas da razoes pelas quais a empatia e o afeto mais importante para a investigacao moral e para um bom carater". Com a ajuda da empatia podemos chegar mais perto de um ponto de vista intelectual, que pode ser util para a deliberacao moral. Colocar-nos emocionalmente no lugar do outro e a unica forma de ampliar o nosso horizonte intelectual e determinar de forma eficaz o que os outros precisam e valorizam. Mas Dewey tambem compreende os perigos de isolar e enfatizar excessivamente a empatia, o cuidado ou qualquer outra emocao altruista na moral. Essas emocoes precisam ser balizadas por outras dimensoes da nossa personalidade (Pappas, 1993). Por isso, apenas o cuidado inteligente e fundido com outros tracos de personalidade nao caindo no tipo de cuidado prejudicial que embrutece o crescimento das pessoas cuidadas. Temos que abrir espaco na etica nao apenas para a emocoes altruistas, mas para a interacao organica entre elas e as outras virtudes de carater.

O que torna Dewey tao radical e ao mesmo tempo tao importante para o pensamento feminista e que, para ele, as reformas necessarias a democracia nao se devem limitar ao social, ao politico e ao economico, mas devem tocar tambem as proprias relacoes humanas. Diz Pappas:

O questionamento etico precisa comecar com a experiencia como a encontramos. O que se encontra na experiencia moral e a interacao e nao a imagem tradicional de uma consciencia moral isolada com deveres e desejos como suas posses. Para Dewey a moral e 'social' na medida em que a interacao e um fato primordial da experiencia moral quotidiana (Pappas, 1993, p. 88).

E portanto necessaria uma democratizacao do quotidiano e das relacoes humanas que o preenchem, incluindo a familia, mas tambem outras instituicoes do "cuidado". E e tambem isto que constitui a chave da Grande Comunidade: "Inclino-me a acreditar que o coracao e a garantia final da democracia esta nos encontros livres de vizinhos na esquina da rua [...] e nas reunioes de amigos nas salas das casas e apartamentos" (Dewey, [1939] 1988, p. 227).

Notas conclusivas

Concluimos voltando a Hull House e as suas mulheres residentes. Ai, podemos compreender o sentido de etica, mas tambem o de comunidade como Dewey o defendeu, na sua ideia cultivada de grupos e individuos que tem uma dependencia mutua, entendendo-se como elementos de um organismo social maior.

Judy D. Whipps (2004) recorda-nos que no seu primeiro ensaio publicado em 1892, Addams refere-se ao mundo social que partilhamos juntos como um "organismo social", uma entidade viva composta por individuos como elementos organicos de um todo. Este termo refere-se a uma compreensao da inter-relacao viva: nos, como seres humanos estamos unidos de uma forma em que uma parte afeta o todo. Tais metaforas organicas para a sociedade eram comuns nas discussoes politicas e filosoficas final do seculo XIX e encontramolas na filosofia inicial de Dewey, bem como no trabalho de outros escritores neo-hegelianos da epoca. Mas nos primeiros anos da Hull House, o foco era na interdependencia: nomeadamente, a que unia as classes sociais e economicas, fazendo sentir que os homens e mulheres das classes mais elevadas precisavam do settlement tanto ou mais do que as subclasses pobres no gueto.

Addams alegou que as condicoes de interdependencia realizavam a promessa de civilizacao, cooperacao e convivencia e trabalhou para construir comunidades que promoveram essas associacoes. As suas comunidades eram ricas, plurais, organicas. Como refere Marjorie Miller:

As comunidades que Addams construiu ou em que estava envolvida foram sempre diversas, e sempre criticas e criativas. Elas nao eram ninhos de tradicao quentes, distorcidos. Eram ousadas e experimentais e visavam melhorar problemas mutuamente reconhecidos e a criacao de possibilidades partilhadas. Nem todas eram locais ou face a face. Mas foi o seu engajamento na comunidade de Hull House que deu a Addams a base para desenvolver a inteligencia social que lhe permitiu reconhecer continuamente novos problemas--nao apenas para gerar novas solucoes. (Miller, 2013, p. 243).

A interdependencia, como condicao de comunidade, fez as mulheres da Hull House reconhecerem as obrigacoes comunitarias e agirem em funcao destas obrigacoes por meio de acoes tao variadas como serem inspetoras de lixo, produzirem investigacoes sobre saneamento, evasao escolar, tuberculose, mortalidade infantil e uso de cocaina em Chicago, provocar mudancas nas leis e programas publicos, apostar na investigacao sobre seguranca industrial, ou pessoalmente, ajudando nos partos. E foi este sentido de interdependencia com os outros que as levaria a participar na defesa internacional do sufragio e, mais tarde, nas organizacoes pacifistas.

Hoje, o contributo das mulheres para a ciencia social e para a comunicacao em particular vai sendo crescentemente conhecido (ver, por exemplo, a recente contribuicao de Rowland e Simonson, 2014) (3). As pioneiras da ciencia pratica da comunidade organica parecem hoje esquecidas, nos tempos individualistas e neoliberais que levaram, por exemplo, em 2012, ao fecho da Hull House Association, tempos em que o politico parece ter se esvaziado e a comunicacao parece equivaler a pouco mais do que ruido no imperativo economico. Vivemos num mundo orientado por valores corporativos e mediaticos materiais, atravessado de tentativas concorrenciais para alcancar a vida individual quantificada que nos e apresentada como ideal, necessaria, logica e imperativa. Mas talvez por isso mesmo, hoje, mais do que nunca, devamos fazer eco das palavras de Addams:

Estamos todos envolvidos nesta corrupcao politica, e como membros da comunidade, indiciados. Esta e a pena de democracia--que somos obrigados a seguir em frente ou para tras, juntos. Nenhum de nos pode ficar de lado, os nossos pes estao atolados no mesmo solo, e nossos pulmoes respiram o mesmo ar (Addams citado por Seigfried, 1999, p. 226).

Quando comecamos a ligar os pontos deste tipo de envolvimento e acao permitimo-nos viver como seres que se sentem e percebem como conectadosem-geral. Mas aqui, a conexao que tendencialmente percebemos hoje apenas como mediaticamente global ganha contornos etico-politicos: seja atraves da conexao radical de Dewey ou dos todos organicos de Addams e dos feminismos que se lhe seguiram, trata-se de colocar a comunicacao e a comunidade no cerne de todos os envolvimentos pragmaticos das nossas vidas individuais e coletivas.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2016.3.22744

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Recebido em: 27/12/2015

Aceito em: 2/3/2016

Endereco do autor:

Maria Joao Silveirinha <mjsilveirinha@sapo.pt>

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, FLUC.

Largo da Porta Ferrea.

3004-530--Coimbra--Portugal.

Maria Joao Silveirinha

Professora Associada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, FLUC, Portugal

<misilveirinha@sapo.pt>

(1) Investigacao produzida no contexto do projeto "Genero e producao noticiosa: uma analise da producao e das organizacoes noticiosas em termos de genero'; financiado pela Fundacao para a Ciencia e Tecnologia (PTDC/IVC-COM/4881/2012).

(2) Utilizamos a expressao "pragmatismo classico" para nos referirmos ao grupo de "filosofias que foram desenvolvidas a partir do final do seculo XIX ao inicio do seculo XX, e foram muito influentes na Era Progressista (1890-1915) e ate a Segunda Guerra Mundial. Pragmaticos, como John Dewey, William James e Jane Addams interessavam-se pela interseccao entre teoria e pratica, trazendo o pensamento filosofico para a sua relacao com o ambiente social e politico" (Whipps, 2008).

(3) Ver tambem o site: <http://www.outofthequestion.org>.
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Title Annotation:Ciencias da Comunicacao
Author:Silveirinha, Maria Joao
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Sep 1, 2016
Words:5719
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