Printer Friendly

OS EFEITOS AGUDOS DO EXERCICIO CARDIORRESPIRATORIO ANTES E DEPOIS DO EXERCICIO RESISTIDO, NO DUPLO PRODUTO EM INDIVIDUOS HIPERTENSOS.

INTRODUCAO

A Hipertensao Arterial Sistemica (HAS) e conceituada como uma sindrome multifatorial, caracterizada pela presenca de niveis de pressao arterial sistolicos (PAS) e diastolics (PAD) elevados (SBC, 2016).

Segundo a Organizacao Mundial da Saude (OMS), a hipertensao arterial e uma das dez maiores causas de mortalidade no mundo, alem de se configurar tambem como um problema de saude publica principalmente no Brasil, onde segundo dados do VI Diretrizes Brasileiras Hipertensao Arterial, 2010 houveram 91970 internacoes pelo SUS gerando um custo equivalente a R$165.461.644,33 (SBC, 2010).

Neste sentido fatores como o sedentarismo, a obesidade, o diabetes e as dislipidemias estao associados ao risco cardiovascular global. O sedentarismo por si so, ja e um grande fator de risco, onde pessoas que sao menos ativas apresentam um risco de 30% a 50% de desenvolver hipertensao (Whelton e colaboradores, 2002).

Contudo nos ultimos anos houve um aumento no numero de pessoas que estao procurando uma vida mais ativa (Brasil, 2014) e isso pode ser explicado pelos beneficios que o exercicio fisico pode causar, principalmente em pessoas hipertensas, onde ele serve como um coadjuvante nao medicamentoso no tratamento desta patologia (Whelton e colaboradores, 2002)

Dentre os exercicios mais recomendado podemos citar os exercicios visando a melhoria da condicao aerobia, porem para individuos hipertensos a intensidade do exercicio deve ser levada em consideracao, uma forma de verificar esta intensidade e pela frequencia cardiaca (Couto e Borges, 2010).

Outro meio que podemos analisar o aumento da intensidade e pressao arterial sistolica. Todavia se olharmos os valores isoladamente nao podem garantir seguranca para os individuos cardiopatas e Hipertensos. Mas a multiplicacao dos mesmos leva a um terceiro, o denominado duplo produto esse sim sendo um indicador do trabalho (consumo de oxigenio) realizado pelo miocardio (Farinatti e Assis, 2000).

Portanto o presente estudo tem o objetivo de investigar os efeitos agudos do exercicio cardiorrespiratorio antes e depois do exercicio resistido, no duplo produto em individuos hipertensos.

MATERIAIS E METODOS

O presente estudo foi caracterizado como estudo de casos multiplos. A amostra foi intencional, composta por dois individuos, ambos do sexo masculino, ativos e hipertensos controlados. Individuo A: 56 anos, faz uso de betabloqueador. Individuo B: 71 anos, nao faz uso de betabloqueador. Procedimentos eticos:

O presente estudo foi aprovado pelo comite de etica em pesquisa sob o CAAE no 0056.0.282.000-07 com o parecer 057-4/TCH/2007.

A Pressao Arterial foi aferida pelo metodo auscultatorio e o aparelho utilizado foi o esfigmomanometro de coluna de mercurio. A Frequencia cardiaca foi verificada pelo frequencimetro da marca Polar[R] Os individuos realizavam 20 minutos (20') de exercicio aerobios, como esteira, bicicleta ergometrica a uma intensidade de 60% da Frequencia Cardiaca de reserva (FCres) e exercicios resistidos como musculacao (triceps, biceps, ombro, costas, peito, abdomen e posterior da perna).

A ordem da realizacao do exercicio era invertida, ou seja, no primeiro dia o individuo A realizava primeiramente exercicio aerobio e depois a musculacao, enquanto o individuo B realizava musculacao e depois exercicio aerobio. No segundo dia era invertido.

Apos a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido e feito uma anamnese, para saber seu estado de saude e os remedios do qual faz uso.

A Pressao Arterial era aferida, em seguida realizavam atividades aerobias e exercicios resistidos, onde era verificada novamente a Pressao Arterial e monitorada ate 20' apos os exercicios, com intervalos de 5 minutos entre cada verificacao.

Para analise dos dados foi utilizada a estatistica descritiva.

RESULTADOS

Individuo A

Em relacao a frequencia cardiaca do primeiro individuo quando o exercicio cardiorrespiratorio foi realizado primeiramente obteve-se um valor pre de 69bpm, pos 20' de exercicio aerobio 111bpm, depois do exercicio de musculacao 103bpm e nos 20' de repouso passou a ser 73bpm.

Quando foi realizado primeiramente o exercicio de musculacao a frequencia cardiaca pre foi de 68bpm, pos 20' de exercicio de musculacao 62bpm, depois do exercicio aerobio passou a ser 112bpm e apos os 20' de repouso 72bpm, como podemos observar na figura 1.

Ao comparar a FC nas sessoes pudemos perceber que apenas houve aumento na FC pos musculacao, quando a mesma sucedia o exercicio cardiorrespiratorio.

Em relacao a pressao arterial no dia em que foi realizado o exercicio cardiorrespiratorio a PAS(pre) foi de 174mmHg e 172mmHg no dia que foi realizado primeiramente o exercicio de musculacao, apos 20' de exercicio cardiorrespiratorio passou a ser 200mmHg e apos o exercicio resistido 192mmHg, no segundo dia apos o exercicio resistido passou a ser 168mmHg e depois do exercicio cardiorrespiratorio 184mmHg. Nos 20' em repouso no primeiro dia 160mmHg e no segundo dia 150mmHg. Como podemos observar na figura 2.

Ao comparar as sessoes pudemos perceber que quando o exercicio cardiorrespiratorio foi realizado primeiramente a pressao arterial sistolica do pos exercicio foi maior do que quando o exercicio cardiorrespiratorio foi realizado subsequente ao exercicio de musculacao.

Em relacao ao duplo produto(DP) pudemos perceber que ao realizar exercicio cardiorrespiratorio no inicio da sessao o DP pre foi de 12006 mmHg.bpm, pos 22200 mmHg.bpm, pos musculacao 19776 mmHg.bpm e apos 20' em repouso retornou a 11680 mmHg.bpm.

Quando invertemos a sequencia da sessao, primeira musculacao e depois exercicio cardiorrespiratorio o DP pre foi de 11696 mmHg.bpm, pos 10416 mmHg.bpm na musculacao, e o exercicio cardiorrespiratorio no pos apresentou como valores de DP 20608 mmHg.bpm e apos 20' de repouso passou a ser 10800 mmHg.bpm.

Ao comparar as sessoes, o DP apresentou maior aumento no pos exercicio quando o exercicio cardiorrespiratorio antecedia o exercicio de musculacao, e no pos 20' houve maior queda no DP quando o exercicio de musculacao foi realizado no inicio da sessao e seguido pelo exercicio cardiorrespiratorio.

Individuo B

Em relacao a frequencia cardiaca do segundo individuo, quando o exercicio cardiorrespiratorio foi realizado primeiramente obteve-se um valor pre de 82bpm, pos 20' de atividade aerobia 122bpm, depois do exercicio resistido 118bpm e nos 20' de repouso passou a ser 88bpm.

Quando foi realizado primeiramente o exercicio cardiorrespiratorio a frequencia cardiaca pre foi de 75bpm, pos 20' de exercicio contra resistido 84bpm, depois do exercicio aerobio passou a ser 118bpm e apos os 20' de repouso 78bpm, como podemos observar no grafico 4.

Ao comparar as duas sessoes pudemos observar que quando o exercicio de musculacao foi realizado primeiramente, a FC de 20' de repouso apresentou maior queda do que quando o exercicio cardiorrespiratorio antecedia.

Em relacao a pressao arterial no dia em que foi realizado primeiramente o exercicio de musculacao a PAS (pre) foi de 132mmHg apos 20' de musculacao passou a ser 142mmHg e apos o exercicio aerobio 158mmHg, nos 20' em repouso PAS 128mmHg.

No dia em que foi realizado primeiramente o exercicio cardiorrespiratorio PAS (pre) 126mmHg apos o exercicio cardiorrespiratorio passou a ser 142mmHg e depois da musculacao permaneceu 142mmHg, apos 20' em repouso 118mmHg. Como podemos observar no grafico 5.

Em relacao ao duplo produto (DP) pudemos perceber que quando a sessao foi iniciada pelo exercicio de musculacao o DPpre foi de 9900 mmHg.bpm, pos 11928 mmHg.bpm, pos cardiorrespiratorio 18644 mmHg.bpm e apos 20' em repouso retornou a 9984 mmHg.bpm.

Quando inicialmente foi realizado o exercicio cardiorrespiratorio, o duplo produto pre foi de 10332 mmHg.bpm, pos 17324 mmHg.bpm, pos musculacao 16756 mmHg.bpm e apos 20' de repouso passou a ser 10384 mmHg.bpm.

Ao comparar as duas sessoes de exercicios percebemos que o DP apresentou maior queda quando o exercicio de musculacao antecedia o cardiorrespiratorio.

DISCUSSAO

O aumento do trabalho do miocardio pode ser traduzido pela elevacao dos niveis de frequencia cardiaca (FC) e pressao arterial sistolica (PAS), porem a utilizacao destes parametros isoladamente, nem sempre podem garantir seguranca, mas a multiplicacao de ambos pode definir um terceiro: o denominado DP (Camara, Santos e Velardi, 2010).

Quando analisamos a queda do DP do pos exercicio em ambos os individuos foi menor quando o exercicio de musculacao foi realizado primeiramente, porem no individuo A essa queda se deve pela diminuicao da PA, e no individuo B o que significou essa queda foi a FC.

Em estudos de Whelton e colaboradores (2002) onde objetivou analizar os efeitos do exercicio aerobio para com a pressao arterial, e constatou uma reducao da PA, concluindo que exercicios aerobios sao importantes hipotensores.

Corroborando com estes estudos, Cunha e colaboradores (2013) revisando artigos cientificos pode concluir que a HPE decorrente de exercicio aerobio envolvem tanto fatores centrais como a diminuicao do DC em resposta ao decrescimo da atividade nervosa simpatica, que por sua vez relacionase com a diminuicao da atividade excitatoria dos neuronios da MVLR, resultando em reajuste do barorreflexo para baixo e na diminuicao da eferencia simpatica pos-exercicio, e efeitos perifericos como reducao da RVP em resposta a vasodilatacao local sustentada pela liberacao de NO, prostaglandinas e receptores da histamina H1 e H2.

Por outro lado, quando analisamos o treinamento de forca Cunha e colaboradores (2013) coloca que a HPE decorrente deste treinamento, pode ser ocasionada em grande parte por mecanismos centrais, dentre os quais a diminuicao do DC e VS. Esse declinio aconteceria em resposta ao decrescimo da perfusao miocardica determinada pelo aumento da RVP, em virtude de maior compressao sequencial dos vasos sanguineos.

Cunha e colaboradores (2013) destaca ainda que a combinacao das variaveis de prescricao do treinamento aerobio, de forca e concorrente otimizam a magnitude e duracao HPE e, por conseguinte, o efeito cronico do treinamento sobre a diminuicao PA.

No entanto, e possivel que o treinamento concorrente permita a ocorrencia do efeito hipotensivo pos-exercicio, permitindo ganhos simultaneos na funcao neuromuscular e cardiorrespiratoria.

Neste mesmo sentido quando Green e colaboradores (2004) estudaram os efeitos do treinamento fisico na funcao vascular do NO concluiram que o exercicio aerobio combinado com treinamento resistido melhorou a funcao endotelial mediada por NO, tendo como provavel mecanismo para explicar a queda da pressao arterial em ambos os individuos do presente estudo.

Em contrapartida, quando comparamos a sequencia dos exercicios o individuo A ao realizar o exercicio resistido primeiramente obteve um duplo produto menor. Ja no individuo B quando foi realizado primeiramente o exercicio resistido, houve uma maior queda do duplo produto final, vindo ao encontro do estudo realizado por Okamoto, Masuhara e Ikuta (2007), que observaram uma melhora na funcao vascular apenas no grupo em que o treinamento aerobio foi realizado apos o resistido, nao havendo diferencas quando o exercicio aerobio foi realizado antes do resistido. E complementa dizendo que o exercicio cardiorespiratorio realizado apos o exercicio resistido pode evitar o enrijecimento das arterias.

CONCLUSAO

Ao analisar os efeitos agudos do exercicio cardiorrespiratorio antes e depois do exercicio resistido no duplo produto, conclui-se que quando o exercicio resistido e realizado por primeiro houve uma maior queda no DP final, assim sendo mais benefica para individuos hipertensos.

REFERENCIAS

1-Brasil. VIGITEL. 2014. Disponivel em: <http://www.brasil.gov.br/saude/2014/05/pesquisa-revela-aumento-na-pratica-de-atividades-fisicas>

2-Camara, F. M.; Santos J. A. B.; Velardi, M.; Valores de referencia do duplo produto na ergometria e exercicio resistido: uma revisao da literatura. EF de portes Revista Digital. Ano 14. Num. 141. 2010.

3-Couto, P. C. A. F.; Borges, G. C. Exercicio fisico como meio de prevencao, tratamento e controle da hipertensao arterial. EFDeportes. Revista Digital. Ano 15. Num. 149. 2010.

4Cunha, F.A.; Santos, L. M.; Massaferri, R. O.; Monteiro, T. P. L.; Farinatti, P. T. V. Hipotensao pos-exercicio induzida por treinamento aerobio, de forca e concorrente: aspectos metodologicos e mecanismos fisiologicos Revista HUPE. Vol. 12. Num. 4. 2013.

5-Farinatti, P.T.V.; Assis, B.F.C.B. Estudo da frequencia cardiaca, pressao arterial e duplo produto em exercicios contra Resistencia e aerobio continuo. Atividade fisica e saude. Vol. 5. Num. 2. 2000.

6-Green, D.J.; Walsh, J.H.; Maiorana, A.; Burke, V.; Taylor, R.R.; O'driscoll, J.G. Comparison of resistance and conduit vessel nitric oxide-mediated vascular function in vivo: effects of exercise training. J Appl Physiol. Vol. 97. p. 749-755. 2004

7-Okamoto, T.; Masuhara, M.; Ikuta, K. Combined aerobic and resistance training and vascular function: effect of aerobic exercise before and after resistance training. Combined training and vascular function. American Physiological Society. 2007.

8-Sociedade Brasileira de Cardiologia; VI Diretrizes Brasileiras Hipertensao Arterial. Arq Bras Cardiol. 2010.

9-Whelton, S.P.; Chin, A.; Xin, X.; He, J. Effect of Aerobic Exercise on Blood Pressure: A Meta-Analysis of Randomized, Controlled Trials. American College of Physicians-American Society of Internal Medicine. 2002.

Luana Beatriz Backes (1) Carlos Kemper (2)

(1-) Bacharel em Educacao Fisica, Universidade Regional Integrada do alto Uruguai e das Missoes (URI), Santo Angelo-RS, Brasil.

(2-) Mestre em Educacao Fisica, Universidade Regional Integrada do alto Uruguai e das Missoes (URI), Santo Angelo-RS, Brasil.

E-mail dos autores:

luanabackes2010@hotmail.com

ckemper@santoangelo.uri.br

Recebido para publicacao 27/04/2017

Aceito em 25/06/2017
COPYRIGHT 2018 Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercicio. IBPEFEX
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2018 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Backes, Luana Beatriz; Kemper, Carlos
Publication:Revista Brasileira de Prescricao e Fisiologia do Exercicio
Date:Jan 1, 2018
Words:2471
Previous Article:EFEITOS DE 12 SEMANAS DE TREINAMENTO DE FORCA E GINASTICA EM CIRCUITO NA AUTONOMIA FUNCIONAL EM IDOSAS.
Next Article:PASSAMOS DE 1 MILHAO DE VISUALIZACOES DE PAGINAS DESDE 2013.
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters