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OFICIO DE ADIVINHOS: CARTOMANCIA E FICCAO EM MACHADO DE ASSIS, CLARICE LISPECTOR E LUCIA BETTENCOURT.

Introducao

A cartomancia, considerada uma arte de adivinhacao secular, ainda hoje tem grande interesse para a populacao e muito sucesso em todas as camadas do Brasil. Anuncios em jornais e televisao, noticias no radio, cartazes nas ruas, a publicidade de cartomantes e adivinhos e uma pratica comum na vida cotidiana brasileira. (1) Esse fato implica o consumo de um tipo de praticas esotericas ou ocultistas por parte do povo brasileiro que pode ser pensado como uma caracteristica de pre-modernidade ainda hoje no seculo XXI e que ficaria enquadrada no que tem sido chamado de neo-esoterismo contemporaneo (Esquenazi 8). (2)

Os naipes sao um instrumento de adivinhacao que "poe em contato a sensibilidade e a experiencia de um homem com a inacabavel colheita do imaginario" (Couste 53). O desejo por conhecer o futuro, ou repensar o presente, tem exercido grande fascinacao no humano desde o inicio dos tempos. Esse interesse pela adivinhacao ou predicao de fatos, e pela cartomancia como via possivel para entender presente e futuro, tambem tem repercussao dentro das humanidades e, especificamente, na literatura. No campo dos estados filologicos, ha uma grande variedade de pesquisas que se aproximam ao taro e que vao desde a linguistica (Aphek, "Image") ate a semiologia (Aphek, "Semiology") e a semiotica (Aphek, "Semiotics", Thibault). Os historiadores tem se preocupado em oferecer um relato dessas practicas (Rakoczi, Couste, Decker, Dummett "Tarot cortesano", History of the Occult) e dos jogos e leituras de cartas (Esquenazi; Dummett, History of Games; Jodorowsky).

O interesse pela cartomancia se reflete na obra de importantes escritores brasileiros. E por isso que, tomando como ferramentas teoricas estudos em intertextualidade, este trabalho faz uma abordagem de textos literarios que incorporam a cartomancia como tema na narrativa brasileira a partir do seculo XIX. Analiso o conto "A cartomante" de Joaquim Maria Machado de Assis--publicado inicialmente em 1884 na Gazeta de noticias e posteriormente em Varias historias (1896)--, no romance A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector e, finalmente, no conto "A cartomante" da coletanea A secretaria de Borges (2006), de Lucia Bettencourt. (3) Assim, tomando esse tema em transversalidade, este ensaio visa a analisar textos literarios brasileiros dos seculos XIX, XX e XXI para trazer a luz as relacoes de intertextualidade, metatextualidade e hipertextualidade entre eles. (4) Argumentase que essa relacao de intertextualidade e singular pois se estabelece atraves do uso dos naipes. A leitura que se apresenta mostra que os escritores usam os mesmos arcanos do taro como base para criar a ficcao, e que as tres ficcoes sao diferentes leituras onde se usam os mesmos elementos, as mesmas cartas, de forma similar.

Ligacoes textuais: intertextualidade, metatextualidade e hipertextualidade

Gerard Genette, acompanhando as teorias de Julia Kristeva, afirma que a intertextualidade e "uma relacao de copresenca entre dois ou varios textos, isto e, essencialmente, e o mais frequentemente, como presenca efetiva de um texto em um outro. Sua forma mais explicita e mais literal e a pratica tradicional da citacao (com aspas, com ou sem referencia precisa)" (14). N' "A cartomante" ja Machado estabelecera uma clara relacao de intertextualidade ao fazer uma referencia explicita, uma citacao (Genette 14) a Hamlet no inicio do texto: "Hamlet observa a Horacio que ha mais coisas no ceu e na terra do que sonha a nossa filosofia" (Machado de Assis, Varias 57). Machado relaciona seu conto, atraves da intertextualidade, com a tragedia de Shakespeare, uma das grandes tragedias da literatura ocidental. Se Machado recorre a autores classicos consagrados, Lispector apoia-se no conto de Machado para elaborar a cena final da cartomante n' A hora da estrela, (5) Por sua parte, Lucia Bettencourt tem como ponto de apoio os textos de Machado e de Lispector.

Segundo Genette a relacao metatextual e aquela "que une um texto a outro texto do qual ele fala, sem necessariamente cita-lo (convoca-lo), ate mesmo, em ultimo caso, sem nomea-lo" (17). Atraves da analise de elementos compositivos da narracao e da estrutura dos textos, este ensaio desvela que Lispector estabelece n' A hora da estrela uma relacao metatextual com "A cartomante" de Machado, e que n' "A cartomante", de Bettencourt, ha uma relacao metatextual com A hora da estrela, de Lispector, e com "A cartomante", de Machado de Assis.

E preciso lidar com o problema da tradicao literaria e da transmissao textual, conceitos intimamente ligados aos de intertextualidade e imitacao, para chegar a conclusoes fundamentadas sobre como Lispector e Bettencourt conduzem o conto de Machado a novas direcoes. Desde uma perspectiva intertextual os tres escritores estariam dentro de uma tradicao literaria secular de elaboracao de um mesmo tema, o da cartomancia, e, portanto, haveria uma relacao de hipertextualidade entendendo por tal "toda relacao que une um texto B (que chamarei hipertexto) a um texto anterior A (que, naturalmente, chamarei hipotexto) do qual ele brota de uma forma que nao e a do comentario" (Genette 18). Este estudo considera "A cartomante" de Machado como hipotexto e os textos de Clarice e Bettencourt como hipertextos daquele.

Cartomancia e ficcao na narrativa brasileira

Os autores que incorporam a cartomancia estabelecem sutilmente uma combinacao entre imagem e escrita dentro do texto literario. As combinacoes dos naipes sao ilimitadas, e cada carta e um elemento compositivo de uma narracao, um apoio visual da escrita. As cartomantes, narradoras singulares pois usam imagem, naipes para, atraves deles criar uma trama, elaborar um relato ou uma ficcao que mudara dependendo da posicao dos naipes em relacao aos outros. O naipe carrega uma informacao simbolica que variara dependendo da posicao entre outros naipes. Ao relatar tendo como ponto de partida os naipes e seus significados, as imagens sao levadas ao texto literario num processo ecfrastico singular. No caso da cartomancia, o leitor estaria perante a chamada ecfrase referencial que acontece "quando o objeto plastico tem uma existencia material autonoma [do texto]" (Pimentel 207) e ha descricao verbal de uma imagem.

A leitura das cartas e uma narrativa sai generis; a cartomancia e um sistema semiotico particular em que uma serie de naipes funcionam como alicerce da historia que as cartomantes contam, essas cartas ajudam a relatar possibilidades sobre o futuro. (6) Ao introduzir a cartomancia dentro da narrativa, o leitor se encontra frente a um aparelho narrativo complexo, uma narrativa dentro doutra, parecido ao brinquedo das bonecas russas. Os naipes, meio fisico de um codigo cifrado, de uma escrita criptica, possibilitam uma leitura do presente e futuro por parte de uma pessoa capaz de decifrar um codigo: a cartomante. (7) Desde a ecfrase e a visualidade, a leitura desse codigo, dos naipes, gera uma representacao da realidade, um relato, uma ficcao. Nos textos analisados, o leitor pode imaginar quais sao as cartas que a cartomante le para melhor entender o acontecer narrativo. O aspecto esoterico da cartomancia tem levado importantes figuras das letras universais a criarem historias tomando as cartas como tema principal da ficcao. (8) Como foi mencionado, as letras brasileiras nao sao excecao nesse interesse por levar a cartomancia a literatura. (9)

Cartomancia em Machado de Assis, Clarice Lispcctor e Lucia Bettencourt

"A cartomante" de Machado tem sido estudada a partir de diversas perspetivas como a que oferecem Ravel G. Paz (184-88) ou Alcides Villaca, para quem o conto "Sao paginas das mais sugestivas que Machado se permitiu, no limiar de uma autorrevelacao a que altivamente se furtou" (4). Todavia, essas analises nao aprofundam sobre a possibilidade de que a cartomancia tenha um papel mais determinante no conto como avisaria o titulo. A analise de Villaca assinala que "a experiencia de vida de Machado projeta-se, muito mais poderosamente do que parece, em suas historias; esta por se fazer um estudo meticuloso dessas projecoes, em consequencia das quais estaria bastante relativizado o semidogma do distanciamento do narrador" (13). Numa tentativa de paliar essa carencia de estudos assinalada por Villaca, mostro que a pratica da cartomancia e a feiticaria foram temas que captaram a atencao do Bruxo do Cosme Velho e o instigaram a escrever algumas cronicas antes da publicacao de Varias historias em 1896. (10) Entre suas colunas de jornal. Machado recolheu as vicissitudes experimentadas por feiticeiras e cartomantes da epoca: "Relativamente as cartomantes, confesso que nao as considero como as feiticeiras. A cartomancia nasceu com a civilizacao, isto e, com a corrupcao, pela doutrina de Rousseau. A feiticaria e natural do homem" (Obra completa 647). O contexto no qual Machado publicou estes textos e de interesse para relaciona-lo com os textos. Machado escreve na segunda metade do seculo XIX num momento em que imperava o positivismo, no entanto o escritor carioca fica fora dessa orbita de influencia e propoe uma nova teoria de entendimento do mundo. Refiro-me ao humanitas ou humanitismo. (11) O humanitismo e tambem uma satira do positivismo de Auguste Comte e relativiza, embora na ficcao, a ansia pelas respostas cientificas das ultimas decadas do seculo XIX. Machado participou ate da chamada Sociedade Petalogica e interessa a origem do nome (12):
   A ideia era promover uma reuniao para o estudo da mentira, da
   lorota, da peta, dai o nome 'Petalogica'. Seus membros entendiam
   que atraves da profunda observacao da mentira poderiam penetrar com
   mais acuidade na alma humana. Pensavam, tambem, em prejudicar os
   mentirosos, fornecendo material para que estes fossem se
   desmoralizando a cada vez que repetissem, julgando ser verdades, as
   mentiras ouvidas dos membros da Sociedade. ("Voce sabe o que e a
   Sociedade Petalogica?")


Destaca-se, assim, a importancia da mentira, tema principal n'"A cartomante" de Machado junto com a infidelidade. Na segunda metade do seculo XIX outras correntes de pensamento nao cientificistas como o esoterismo, o ocultismo e a teosofia tiveram um auge sem precedentes na Europa e nos Estados Unidos. O Brasil nao ficou alheio a influencia dessas correntes. (13) Entre essas praticas esotericas estaria a cartomancia como uma manifestacao mais dentro das correntes ocultistas em auge na segunda metade do XIX. Numa cronica datada em 23 de agosto de 1884--mesmo ano da publicacao do conto--o escritor carioca afirma: "Cartomancia, heraldica, pindaiba de tatu, ou vinhos confeccionados no fundo do armazem, tudo isso vem a dar na lei de Darwin" e adiciona que "cito-lhes uma 'grande cartomante' (sic) da Rua da Imperatriz, que da consultas das 7 as 9 da manha". (14) Machado escreve sobre uma pratica que conhece de primeira mao. (15) Importa esse olhar atento de Machado ao acontecer cotidiano das classes populares em praticas como a cartomancia: "Machado tambem aceita a contribuicao do que nao e logicismo absoluto, do que nos vem atraves do conhecimento imediato, intuitivo, afetivo, respeita a parte de miseria que ha nos seres, particularmente no ser humano, e reconhece a contribuicao do irracional" (Coutinho, A filosofia 29). (16) Machado aceita o irracional como fator vital que influencia a vida das pessoas, a cartomancia pode ser considerada como um desses fatores. (17)

Resumidamente, o conto relata a historia de um triangulo amoroso entre Rita--"dama formosa e tonta [...] graciosa e viva nos gestos, olhos calidos, boca fina e interrogativa" (Machado de Assis, Varias 59)--, seu marido, Vilela--magistrado e advogado--, e seu melhor amigo, Camilo. O conto se inicia com uma conversa dos amantes: Rita e Camilo. Rita revela que foi visitar uma cartomante por medo de perde-lo, Camilo ri deixando claro que isso nao vai acontecer. Rita mostra-se como uma mulher que acredita na cartomante, o que para Camilo e bobagem. A cartomante se passa por uma charlata, so que Rita acredita nela e, quando o caso de Rita e Camilo esta quase para ser descoberto, Camilo, desesperado, recorre a pitonisa, que o ilude da mesma forma que a Rita. Confiando na cartomante, Camilo vai ao apartamento de Vilela e encontra Rita morta e depois e assassinado a queima-roupa por Vilela, ja que sabia da traicao deles. O conto lembra a Dom Casmurro e o possivel triangulo amoroso entre Bento, Capitu e Ezequiel.

N' "A cartomante" ha uma posicao dicotomica entre uma cultura escrita, hegemonica e racionalista--as cartas/missivas anonimas com textos caligrafados que avisam a Rita e Camilo do perigo pela infidelidade--frente a uma cultura popular irracional--as cartas/naipes nas quais Rita e Camilo acabam acreditando e que os conduzirao a morte. O que interessa nestes dois tipos de "cartas" e que seus leitores nao as sabem 1er. Desde uma perspectiva semiotica, nao ha diferenca entre carta/missiva e carta/naipe. (18) A interpretacao que os leitores, Camilo e Rita por uma parte, e a cartomante pela outra, fazem das cartas--missivas e naipes--sao erradas. Nessa equiparacao de texto/imagem, Rita e Camilo dinamitam o sistema logocentrico pois decidem ser antes guiados pelo sistema irracional da paixao amorosa, pelo naipe, do que pelo sistema racional/textual. No fim do conto, Camilo, que no inicio ria de Rita por acreditar na cartomancia, aceita a leitura da cartomante rejeitando assim as "outras cartas" que o avisavam do perigo pela traicao ao amigo. Para Paul Dixon: "O verdadeiro misterio no conto e a mentalidade de Camilo, que e seduzida por suas proprias esperancas" (Contos 11). Que leitura fazer da reviravolta narrativa que e o desenlace do conto? Em primeiro lugar, se rejeitam os avisos escritos, o logos positivista, e se aceita o irracional dos naipes que levam os namorados a morte. Assim, a teoria machadiana do humanitismo parece se impor neste conto, ou seja, "o imperio da lei do mais forte", de Vilela.

As cartas do taro sao propicias para Rita, mas nao as cartas caligrafadas que chegam de forma anonima. A prestidigitacao de Machado faz com que cartas do taro se baralhem com as cartas textuais e se oponham: "Camilo recebeu uma carta anonima, que lhe chamava de imoral e perfido, e dizia que a aventura era sabida de todos" (Machado de Assis, Varias 60). Ha duas possibilidades de autoria da carta anonima: a cartomante ou Vilela. Temos aqui uma carta nova neste baralho de textos. Assustada, Rita volta a pitonisa que fala que os naipes sao positivos, lhe restituindo a confianca. Camilo recebe mais missivas de autoria desconhecida, alguem conhece o caso entre ele e Rita e pode contar a Vilela, por isso, decidem se afastar por um tempo. No dia seguinte Camilo recebe uma carta de Vilela que fala: "Vem ja, ja, a nossa casa; preciso falar-te sem demora" (Varias 61). Camilo fica muito preocupado com a urgencia dessa carta, esta com medo. Pega um tilburi--carro pequeno de duas rodas puxado por um cavalo--para ir a casa de Vilela, mas no caminho ha um acidente, uma carroca caira e ele tem que parar. Na espera para liberar a rua do acidente, o namorado Camilo repara que perto fica a casa da cartomante e "nunca ele desejou tanto crer na licao das cartas" (Varias 62). A cartomante mostra-se muito esperta, ela "tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, nao de rosto, mas por debaixo dos olhos [...]. Vejamos primeiro que e que o traz aqui. O senhor tem um grande susto" (Varias 63); a cartomante faz predicoes quanto ao futuro de Camilo, lhe fala que nao tenha medo, nada ia acontecer nem a ele nem a namorada. Nada sabemos das cartas especificas que marcam a sorte de Camilo, mas ele segue seu caminho aliviado. Ao chegar na casa de Vilela: "Camilo nao pode sufocar um grito de terror: ao fundo estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e com dois tiros de revolver, estirou-o morto no chao" (Varias 66). Camilo acredita antes no taro do que nas cartas que o avisaram de que a traicao a Vilela era moralmente reprovavel e teria graves consequencias.

A leitura da cartomante e positiva, mas, devido ao fim do conto, sabemos que a cartomante e um narrador nao confiavel, pois erra sua predicao. No conto, ha dois narradores: o narrador onisciente e a cartomante, marionetes em maos de Machado. Apresento um possivel texto que subjaz a narracao e que estaria composto pelos arcanos do taro e seus significados. (19) Na minha opiniao o conto oferece referencias ocultas a quatro cartas do taro ou arcanos maiores que estao fortemente ligadas a historia de Machado: Os namorados, O carro, O louco, e A torre. Como mostrarei, estes naipes sao elementos compositivos que, com algumas variaveis, se repetem nos tres textos literarios que se analisam. Assim, uma tirada que subjaz no conto de Machado seria: 1--Arcano VI--O Namorado (= triangulo amoroso entre Camilo, Rita e Vilela), 2--Arcano VII--O Carro (= tilburi e acidente da carroca antes de chegar a casa da cartomante, o tilburi que leva Camilo a casa de Vilela) 3--Arcano XXII--O Louco (= a cartomante) 4--Arcano XVI--A Torre, onde duas pessoas estao caindo (= a casa de Vilela onde morrem Rita e Camilo). Para Enrique Esquenazi a carta de 'Os namorados' no plano espiritual "indica a necessidade de escolha entre duas alternativas importantes e mutuamente excludentes. A escolha aparece como proba e os atrativos de ambos caminhos resultam sedutores. Porem, se atingiu um ponto onde ha que escolher. Isto indica tensao que e tambem oportunidade de progresso" (153). Sem duvida, o caminho que escolhe Camilo e o errado. 'O Louco' representa a cartomante: "E o inicio de um ciclo e, ao mesmo tempo, seu fim: e o caos previo ao cosmos [...] O Louco expressa o irracional, o inconsciente, o radicalmente outro. E a profusao das possibilidades nao realizadas" (Esquenazi 130-31).

Todas estas interpretacoes multiplicam exponencialmente as leituras que se podem fazer do texto analisado.

Cartomancia e intertextualidade n' A hora da estrela

A luz da analise feita, e do exposto por Maria J. Somerlate Barbosa e Paul B. Dixon no artigo "Olhos de ressaca: as alusoes literarias de Clarice Lispector a Machado de Assis" se estuda a fundo a influencia que "A cartomante" de Machado tem na cena da cartomante n' A hora da estrela (20) Clarice alude a essa cena estabelecendo uma ligacao com o conto de Machado. A alusao e um "enunciado cuja compreensao plena supoe a percepcao de sua relacao entre ele e outro enunciado ao qual remete" (Genette 14), ou seja, nao aponta diretamente um fato, apenas o sugere atraves de carateristicas secundarias ou metaforicas. Para Barbosa e Dixon "a alusao no texto lispectoreano exige uma nocao mais ampla do conceito de 'linguagem compartilhada', uma nocao que inclua uma gramatica de motivos, situacoes e justaposicoes" (49). No exemplo que analiso, as alusoes vao alem da tematica compartilhada. Para explicar minha tese, tomo como ponto de apoio essa "gramatica de motivos" que sugerem Barbosa e Dixon, que comentam os vinculos entre os dois textos da seguinte maneira:
   Outro exemplo da aproximacao entre os textos de Machado e Lispector
   encontra-se em uma narrativa de encaixe de A hora da estrela (a
   visita que Macabea faz a Madama Carlota). Ve-se ali o mesmo final
   ironico do conto A cartomante de Machado de Assis. Nas duas
   historias as cartomantes ganham a confianca dos clientes e predizem
   um final feliz para a historia amorosa deles. O desfecho da
   historia de Machado descreve a Camilo chegando a casa de Rita para
   encontra-la morta e, em seguida, ser assassinado pelo marido dela.
   Madame Carlota preve um casamento feliz para Macabea com Hans, um
   estrangeiro alto e louro que ela conhecera no futuro proximo. Logo
   depois que Macabea sai da casa da cartomante, ao atravessar uma
   rua, e morta por um homem que foge do local dirigindo um Mercedes
   Benz. As semelhancas entre o final do conto de Machado de Assis e
   do romance de Lispector sao obvias. (58)


Lispector explicou a origem do final de seu romance: "Peguei o ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro... Dai comecou a nascer a ideia de um... Depois eu fui a uma cartomante e imaginei... Ela me disse varias coisas boas que iam me acontecer e imaginei, quando tomei o taxi de volta, que seria muito engracado se o taxi me atropelasse e eu morresse depois de ter ouvido todas essas coisas boas. Entao dai foi nascendo tambem a trama da historia" (Lerner 26). Esta citacao nos deixa saber, primeiro, que Lispector nao menciona Machado ao falar da cena da cartomante. Segundo, Lispector praticava a cartomancia, acreditava nela e tinha conhecimentos do taro. (21) A escritora faz ficcao com uma realidade presente no mundo dela, nao inventa do nada. (22)

As semelhancas mostradas por Barbosa e Dixon entre o texto de Clarice e de Machado fazem dificil pensar que ela nao conhecia o conto de Machado. No periodo de publicacao entre os dois textos as condicoes sociais, politicas e economicas do Brasil mudaram radicalmente. A influencia da midia, do radio e da televisao, e fortissima na segunda metade do seculo XX. A inclusao da cultura de massas tem um papel fundamental na narrativa do pos-boom, onde situo A hora da estrela, romance em que a coca cola e a radio relogio sao exemplos claros da influencia da midia num texto escrito "sob o patrocinio do refrigerante mais popular do mundo" (A hora 23). (23) Lispector publicou grande parte de sua obra nos anos 60 e 70 do seculo XX quando a cultura pop tem um forte auge, nessa cultura estariam as praticas esotericas. (24) E sugestivo lembrar neste ponto que a pergunta de Macabea: "Que quer dizer cultura?" (A hora 50), "Cultura e cultura" (A hora 50) responde Olimpico. Sabemos hoje que so ha uma cultura e que a divisao entre alta e baixa cultura se deve a fatores socioeconomicos. Lispector incorpora uma pratica popular como a cartomancia tomando como referencia "A cartomante" de Machado.

A escritora nordestina se interessou pelas praticas esotericas como a cartomancia ou a leitura da palma da mao, praticas que podem ser entendidas como fornias de contar ao outro. (25) As raizes judias da escritora poem-na em contato, embora so seja por motivos culturais, com a cabala. O nome de Macabea e uma clara referencia a historia biblica dos macabeus; atraves do nome do personagem principal, se estabelece um vinculo intencional com o judaismo. (26) A critica tem atribuido aos textos clariceanos caracteristicas de hermetismo e feiticaria. (27) No romance ha uma problematica diferente em relacao as cartas: Rodrigo S.M., personagem e narrador, e responsavel por arquitetar uma narrativa que fale sobre Macabea, ou seja, tem o mesmo papel que Madama Carlota, a cartomante--tambem personagem e narradora--, "desvelar" o presente e o futuro de Macabea. O fato de contar e constantemente problematizado no relato: "Como e chato lidar com fatos, o cotidiano me aniquila, estou com preguica de escrever esta historia que e um desabafo apenas. Vejo que escrevo aquem e alem de mim. Nao me responsabilizo do que agora escrevo" (A hora 72). Conhecemos a Macabea pela leitura que Rodrigo S.M. faz dela, e sabemos de seu futuro atraves da leitura da cartomante, depois da qual Macabea e "Uma pessoa gravida de futuro" (A hora 79). Lispector reelabora aqui o conto de Machado onde, apos sair da casa da cartomante, "Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, ate onde a agua e o ceu dao um abraco infinito, e teve assim uma sensacao do futuro, longo, longo, interminavel" (Machado de Assis, Varias 65). Ao introduzir um novo sistema semiotico no texto, a cartomancia, se introduz tambem uma leitura plural: a cartomante propoe uma versao diferente, possivel, da que os leitores, nos, conhecemos atraves do narrador onisciente: Rodrigo S.M. As cartomantes sao narradoras incorporadas ao relato in media res que oferecem uma alternativa de desenvolvimento da ficcao que se mostrara errada. Machado e Lispector jogam com as expetativas dos leitores fazendo um jogo de prestidigitacao textual. Como no conto de Machado, a figura da cartomante n'A hora da estrela e um narrador nao confiavel.

Aprofundo em adiante em duas alusoes (Genette 14) entre os textos, e refiro-me ao triangulo amoroso em ambas narracoes e ao que vou considerar como "jogos de cartas" no duplo significado do termo, ou seja, como epistola e como cada um dos naipes que formam o baralho. Se, no conto de Machado, o triangulo amoroso e composto por dois homens e uma mulher, n' A hora da estrela, e composto por duas mulheres--Macabea e Gloria--e um homem: Olimpico de Jesus. (28) O que acontece n' A hora da estrela e conhecido: Macabea namora Olimpico de Jesus que, nao vendo em Macabea possibilidade alguma de ascensao social, a abandona para ficar com Gloria, colega de trabalho de Macabea, cujo pai e acougueiro e oferece possibilidade de melhora. Nos textos de Machado e de Clarice, as cartomantes sao mulheres, no de Bettencourt e um travesti. O assunto principal nos tres casos sao os relacionamentos intimos. Em Machado e em Lispector as consultas sao feitas por pessoas envolvidas nos triangulos amorosos--Rita e Camilo no conto de Machado, Gloria e Macabea no de Clarice--, eis outra conexao entre os dois textos. O acidente dos carros/ carrocas e tema fundamental nas tres historias. Ha aqui outro paralelismo, nos dois textos os personagens que vao morrer--Camilo e Macabea--chegam de carro ate a casa das cartomantes e, poder-se-ia dizer, ate a morte. Estamos aqui perante os dois tipos fundamentais de derivacao hipertextual: transformacao e derivacao. No conto de Machado "o tilburi teve que parar, a rua estava atravancada com uma carroca que caira" (Machado, Varias 62), n' A hora da estrela e o acidente do Mercedes--do carro--que termina com a vida de Macabea; no conto de Bettencourt "nem ouviu o som que seu corpo fez ao ser atingido pela kombi" (Secretaria 95). O acidente de carro e um elemento comum aos tres textos. Voltarei a ele pela sua relevancia.

As leituras das cartomantes influenciam fortemente as pessoas que as procuram, dao conforto para o futuro e tomada de decisoes. Rita, Camilo e Macabea confiam cegamente nas predicoes. Ao le-las, o leitor esta perante a leitura de uma leitura. As cartas sao uma antiga tecnica narrativa que trabalha com os mesmos elementos compositivos. N' A hora da estrela, Gloria aconselha a Macabea visitar a cartomante ao falar do fim do namoro com Olimpico: "Olimpico e meu mas na certa voce arranja outro namorado. Eu digo que ele e meu porque foi o que minha cartomante me disse e eu nao quero desobedecer porque ela e medium e nunca erra. Por que voce nao paga uma consulta e pede para ela por as cartas?" (A hora 70). As vidas de Gloria e Olimpico estao unidas por causa da cartomante, nao porque assim o queira Rodrigo S.M. Madama Carlota dita a vida dos personagens. Macabea, desprezada por Olimpico, decide consultar a cartomante. Uma vez la, Madama Carlota "mandou-a cortar as cartas com a mao esquerda [...] Macabea separou um monte de cartas com a mao tremula: pela primeira vez ia ter um destino" (A hora 75). O futuro de Macabea e uma tabula rasa que deve ser escrita por alguem. Rodrigo S.M. cede a voz a Madama Carlota que se torna narradora da vida de Macabea, marionete nas maos destes narradores. (29) Eis mais um paralelismo entre os textos de Machado e Lispector, nas duas narracoes ha uma sintaxe narrativa que usa o encaixe como tecnica.

Madama Carlota da uma olhada no passado de Macabea: "Mas, Macabeazinha, que vida horrivel a sua! Que meu amigo Jesus tenha do de voce, filhinha! Mas que horror! [...] Macabea empalideceu: nunca lhe ocorrera que sua vida fora tao ruim" (A hora 76). Madama Carlota le o passado e o futuro de Macabea. As cartas nao sao favoraveis respeito ao presente: "Quanto ao presente, queridinha, esta horrivel tambem" (76). Sem que saibamos por que, Madama Carlota muda essa leitura para falar que: "Macabea! Tenho grandes noticias para lhe dar! [...] sua vida vai mudar completamente! E digo mais: vai mudar a partir do momento que voce sair da minha casa! Voce vai se sentir outra [...] seu namorado vai voltar e propor casamento" (76). Nesse momento Rodrigo S.M. fala que "E eu estou tambem com esperanca enfim" (77). Madama Carlota tem agora em suas maos o roteiro do futuro de Macabea, sua leitura das cartas descreve uma felicidade tao grande que "Macabea comecou a tremelicar toda por causa do lado penoso que ha na excessiva felicidade" (77). Depois da leitura de cartas, Rodrigo S.M. afirma: "Madama Carlota havia acertado tudo" (79). Se Madama Carlota acerta tudo, e Rodrigo S.M. quem decide que erremos a leitura, que Macabea morra, Rodrigo S.M. tira a voz de Madama Carlota para rescrever a historia predestinada a Macabea, criando um conflito com a leitura das cartas.

Atendendo a narracao, ha aqui duas possibilidades sobre o que acontece, uma e que Madama Carlota confunde as cartas de Macabea com as da moca que sai chorando antes de ela entrar e vice-versa: "acabei de ter a franqueza de dizer para aquela moca que saiu que ia ser atropelada" (A hora 77). Apos a cartomante 1er o futuro de Macabea, Rodrigo S.M. tem o destino dela, agora "gravida de futuro" (79), nas maos: "E enorme como um transatlantico o Mercedes amarelo pegou-a--e neste mesmo instante em algum unico lugar do mundo um cavalo como resposta empinou-se em gargalhada de relincho" (A hora 79). (30) Por que "um cavalo como resposta"? Acho que aqui se oferecem dicas para uma nova interpretacao do texto. Proponho neste ponto, atraves do taro, o que acho ser uma novissima leitura do romance, ate agora nao desvelada. Olhemos embaixo o arcano numero VII do taro, 'O Carro' ou 'A Carroca', e uma descricao dele: "Dois cavalos arrastram uma sorte de caixa, montada sobre duas rodas e coberta por um baldaquino, na qual ha um homem coroado e levando um cetro na mao direita. As rodas e a caixa sao de cor carne com excecao do reborde superior desta ultima, que e amarelo-, um escudo com as letras S.M. esta inscrito na sua cara frontal (unica visivel)" (Couste 135, grifos meus). Os cavalos, as rodas, a cor amarela e, principalmente, as letras S.M. levam a pensar que Lispector se inspirou nesta carta do taro para planejar a cena. Esta carta, de suma importancia no conto de Machado, aparece novamente e de forma contundente n'A hora da estrela estabelecendo uma relacao intertextual sui generis.

As similitudes com a citacao de acima (A hora 79) sao claras: a cor amarela, o carro e o cavalo sao elementos que aparecem no romance. Ainda mais significativo e evidente e o fato das letras da carta, S.M., eis o possivel motivo do sobrenome do narrador: Rodrigo S.M. (31) Levando a leitura deste achado ao limite, proponho que, como mostra a carta, o motorista do carro que atropela e mata Macabea nao e outro que Rodrigo S.M. Assim, esta leitura faz de Rodrigo S.M.--"Na verdade Clarice Lispector" (A hora 9)--o assassino de "Macabea [que] ao cair ainda teve tempo de ver, antes que o carro fugisse, que ja comecavam a ser cumpridas as predicoes de Madama Carlota" (A hora 80). (32) Ha certo tom ironico do narrador na morte de Macabea que e apresentada como uma boneca em suas maos: "Eu ainda poderia voltar atras em retorno aos minutos passados e recomecar com alegria no ponto em que Macabea estava de pe na calcada" (80). S.M. rejeita um destino de felicidade para Macabea.

Segundo a leitura de Couste o carro estaria ligado a "Dominacao, triunfo. Talento, capacidade. O maestro que se faz obedecer. Progresso, harmonia" (59). Para Alejandro Jodorowsky a ideia principal desta carta e "acao no mundo" (189). (33) Efetivamente, Rodrigo S.M. controla a acao no mundo ficcional de A hora da estrela. O leque de possiveis interpretacoes que oferece a leitura das cartas em relacao a narrativa e inesgotavel.

E sabido que a estrela do titulo do romance, A hora da estrela, tem sido interpretada em relacao ao simbolo do Mercedes que atropela a Macabea, ou seja, a hora do atropelo, da morte. A leitura que aqui proponho e que a estrela faz referencia, no contexto da cartomancia do fim do romance, ao arcano XVII do taro: A estrela.

Segundo Couste a estrela estaria ligada a "Predestinacao, esperanca. Confianca na imortalidade. Idealismo. Estetica. Amor pela beleza" (58). Jodorowsky salienta que a ideia principal deste arcano seria a de "atuar no mundo, achar o lugar" (253), ideia que encaixa com a constante procura de Macabea no romance. (34) A tirada de cartas que subjaz no fim do romance seria a seguinte:

Sao quase os mesmos elementos compositivos do conto de Machado. N'^4 hora da estrela a tirada de cartas com os arcanos do taro e similar: 1--Arcano VI--O Namorado (= triangulo amoroso Macabea, Olimpico, Gloria) 2--Arcano XXII--O Louco: (= Madama Carlota) 3--Arcano VII--O Carro (= o Mercedes que atropela e mata a Macabea) 4--Arcano XVII--A Estrela: a moca do naipe representa a propria Macabea e a estrela acima o simbolo do Mercedes, elemento diferenciador com o conto de Machado.

Tanto n' "A cartomante" quanto n'A hora da estrela ha duas propostas narrativas: por uma parte a dos narradores, por outra a das cartomantes. A leitura das cartomantes, para desgraca dos personagens, e errada. Elas, narradoras singulares, optam por fazer uma leitura positiva do destino dos personagens, mas nao Rodrigo S. M. e o narrador de "A cartomante" de Machado. Vejamos, finalmente, como a proposta de Bettencourt e uma leitura diferente de uma tirada de cartas similar. O oficio de escritor se mostra assim como um oficio de adivinhos.

Recolher as cartas: emulacao e intertextualidade n' "A cartomante" dc Lucia Bettencourt

Comeco este apartado com as palavras de Bettencourt que situam a Machado como uma influencia central na producao da autora:

Eu nao tenho nenhuma restricao a Machado, acho Machado um genio da literatura, acho que ele e um grande escritor que merecia muito mais estudo e conhecimento do que ele tem, ele e extraordinario. Clarice... ela e uma escritora que eu nem li todos os romances de Clarice nao, eu nao sou uma clariceana [...] os contos eu acho que li todos, mas os romances... A hora da estrela eu li, A paixao segundo G.H. tambem li, mas eu acho que foi so, nao li mais. O que eu acho que existe em Clarice que algumas historias dela sao tao fortes e sao tao dialogais com Machado... porque a Clarice e machadiana tambem. As pessoas podem ate nao reconhecer, mas a Clarice tem muita coisa de Machado. Atraves de Machado eu cheguei a Clarice e entao e essa simbiose, claro que existe uma admiracao. ("Lucia Bettencourt at San Diego State University")

Ha aqui um triangulo literario: Machado, Lispector e Bettencourt. Interessa o fato de Bettencourt chegar a Lispector atraves de Machado pois, como assinalo a seguir, ha mais semelhancas entre os textos de Bettencourt e Lispector que entre "as cartomantes" de Bettencourt e Machado. A escritora carioca tem falado em varias ocasioes sobre a ligacao de sua tecnica de escrita com a literatura: "Sou uma pessoa muito ligada a literatura, sempre gostei muito de literatura. E os meus contos tem uma especie de dialogo com livros, com autores e com situacoes literarias" ("Lucia Bettencourt"), Bettencourt avisa de que para fazer uma analise de sua obra sera preciso olhar com atencao questoes de intertextualidade. Essa ligacao com a literatura e obvia na coletanea A secretaria de Borges, a qual pertence "A cartomante", cujo titulo faz referencia a Borges, escritor extremamente complexo em questoes de intertextualidade se pensarmos, por exemplo, em "Pierre Menard, autor do Quixote" de Ficcoes (1944). (35) Ao estabelecer essa ligacao com Borges, Bettencourt cria, de forma proposital, uma rede potencial de conexoes com outros textos literarios que vai fazer ao leitor redimensionar os limites da interpretacao do texto. No conto "A cartomante" ha uma clara tentativa de filiacao por parte da autora com os trabalhos de dois dos mais grandes escritores brasileiros: Machado e Lispector.

No caso de Lispector e Bettencourt, sugere-se que as cartomantes sao prostitutas, fato que nao acontece no conto de Machado. Embora a autora afirme ser mais machadiana do que clariceana, o texto de Bettencourt tem muito mais a ver com A hora da estrela do que com o texto de Machado apesar de o titulo ser uma alusao (Genette 14) clara ao relato do autor de Dom Casmurro. Todavia, o argumento e a situacao descrita e uma emulacao de A hora da estrela. A descricao kitsch de Madama Carlota (A hora 72) e a vida ligada a prostituicao--"Ai que saudade da zona! Eu peguei o melhor tempo do Mangue que era frequentado por verdadeiros cavalheiros. Alem do preco fixo, eu muitas vezes ganhava gorjeta [...] quando eu ja estava ficando muito gorda e perdendo os dentes, me tornei caftina" (A hora 75)--reflete no conto de Bettencourt onde a cartomante, Mme. Olenska, e um travesti que se prostitui (36): "Ele nao devia ter vindo. 'Que vergonha!' Uma cartomante travesti, a vizinha do lado julgando que ele era um 'amigo'" (A secretaria 91). A descricao feita de Mme. Olenska e, como n' A hora da estrela, kitsch: "Mme. Olenska voltou. Tinha passado um batonzinho basico, vestido um penhoar cheio de babados, inspirado em alguma fantasia rumbeira dos anos 50" (92). O jeito de desenhar a cartomante emula claramente o texto de Lispector.

Apesar do fim tragico, o conto tem um forte componente humoristico apos conhecer que Mme. Olenska e um travesti, informacao omitida pelos amigos que tinham aconselhado a visita: "Os amigos diziam que ela era extraordinaria. 'Parecia ate que me conhecia' foi o comentario de uma colega" (90). Ao saber que a cartomante e travesti e se prostitui a leitura dos conselhos se torna ambigua: "ela era extraordinaria" em que sentido? Ha aqui uma possivel brincadeira dos amigos que o enviam nao se sabe se a cartomante ou ao travesti que se prostitui.

No conto de Bettencourt, o personagem anonimo parece querer saber sobre seus relacionamentos intimos, a tirada de cartas e a seguinte: "Faca o favor de partir o baralho em tres [...] e agora parta este montinho do meio mais duas vezes, e coloque assim, em formato de cruz" (93). Tirar as cartas em formato de cruz e uma das fonnas mais populares de leitura, e conhecido como o Metodo de Peladan, Guaita e Wirth. (37) Nesse metodo cada carta esta ligada a uma ideia:

Assim, as cartas que aparecem no conto de Bettencourt ficariam da seguinte forma:

A rainha de copas e a rainha de espadas. Uma e mais distante do que a outra [...] infelizmente [...] Tem esse valete de paus que se intromete entre voce e uma delas [...] Mas, veja. Olhe bem este rei de ouros. Ele esta numa posicao benevola, e pode lhe abrir muitos caminhos. [...] Cuidado com o dois de paus. Muito cuidado, pois e uma carta malefica. Simboliza alguma catastrofe: perda, roubo, ate morte. (A secretaria 93-94)

O dois de paus final e a carta que sintetiza a leitura feita pela cartomante. Poucas linhas depois, saberemos que, por primeira vez, a cartomante esta certa na predicao do que acontecera com o personagem: a morte.

No fim do conto, apos o personagem principal, como Macabea, ser atropelado por um carro e que uma nova carta vai finalizar a tirada: "A ultima coisa que notou foi o letreiro luminoso de um bingo, onde se destacava, piscando, o desenho de uma carta de baralho. Mas era um as de ouros" (95):

Se pensarmos nos elementos compositivos do conto, sao os mesmos elementos achados n'"A cartomante", de Machado, e A hora da estrela, de Lispector, embora aparecam em ordens diferentes: namorados, cartomantes, tilburi/carroca/carro, morte. Assim, voltando as cartas do taro temos praticamente os mesmos naipes, com a diferencia final do as de ouros, a moeda dourada que representa o sol. Esquenazi assinala que a estrela "pode ser guia que dirige ao reino do sol" (180), ha aqui um vaso comunicante entre o romance de Lispector e o conto de Bettencourt:

O as de ouros tem a equivalencia com o arcano XVIII do taro: o Sol. Assim, se no romance de Lispector o final se liga a estrela, no conto de Bettencourt a ligacao e com as de ouros: o sol. Segundo Jodorowsky, nessa carta "O calor do sol esta sempre disponivel para todos. Contudo, nao esquecamos que um excesso de sol produz a morte, a sequidao" (269). (38) Como n' "A cartomante" de Machado en 'A hora da estrela de Lispector os elementos compositivos n' "A cartomante" de Bettencourt sao praticamente os mesmos.

Conclusao

Ao interpretar os textos a luz das cartas e as cartas a luz dos textos e mostrar que Machado, Lispector e Lucia Bettencourt conheciam e tiveram contato direto com a cartomancia, nao e disparatado pensar que poderiam ter trabalhado com os arcanos do taro na genese textual de suas ficcoes, esses naipes parecem ter sido o baseamento primigenio dos textos analisados. (39) Concluo salientando, primeiro, a importancia dos temas esotericos dentro da literatura brasileira; em segundo lugar e preciso, como mostrei, fazer analises de carater transversal entre escritores de epocas diferentes, pois possibilita um entendimento geral da materia tratada. Finalmente, apos examinar o taro como subtexto nas tres narracoes e mostrar que tem uma repercussao de primeira ordem na analise literaria deles, proponho leva-lo em consideracao para futuros analises. O papel da cartomancia na literatura brasileira desde uma perspetiva mais abrangente e uma pesquisa ainda por fazer.

Rafael Climent-Espino

Baylor University

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(1) Fatima R. Gomes Tavares elaborou um estudo sociologico sobre o taro na cidade de Rio de Janeiro onde relata o processo pelo qual uma pessoa chega a ser vidente. Um estudo informativo sobre o taro, sua historia e elementos compositivos e O taro ou a maquina de imaginar de Alberto Couste.

(2) Sobre a historia e influencia dos conceitos de ocultismo e esoterismo interessa o estudo de Mircea Eliade (69-96).

(3) O pano de fundo das tres historias e o Rio de Janeiro. Tanto Machado como Bettencourt sao cariocas. Como e sabido, Lispector morou no Rio grande parte de sua vida.

(4) Importantes e recentes pesquisas abordam questoes ligadas a intertextualidade (Salomao 37-92) e a emulacao (Rocha A roda de Machado de Assis) como tecnicas centrais na obra de Machado de Assis.

(5) O tema da cartomancia e da adivinhacao e antiquissimo, pode-se relacionar com a literatura classica que introduz o oraculo no argumento como, por exemplo, no Amphitruo de Plauto (Climent-Espino "Tradicion clasica"). Sobre a influencia de Machado em Lispector, interessa o detalhado estudo de Catia Castilho Simon.

(6) Segundo Mattia Thibault, desde uma perspetiva semiotica: "Fortune telling always involves two people of differing status. The first one (A) is the fortune teller, and the second one (B) is the person whose future is being told. For A, if the signs on the cards only pertain to a code, B replaces the variable signifiers with specific meaning issued from his personal situation. In order to make cartomancy work, therefore, the meanings of the cards have to cover every possible life situation. In other words, according to a Saussurean conception of signs, A only has access to the signifier and the signified, while the referent is only accessible to B. The distribution of cards in fortune telling determines that some sentences will focus on the past and present of B" (3).

(7) Na semiotica, entende-se por meio um sistema de signos qualquer usado para transmitir informacao.

(8) Entre as figuras do seculo XX destacam o italiano Italo Calvino com O castelo dos destinos cruzados (1969), romance onde o relato e contado em paralelo com uma tirada de cartas do taro. Tambem o argentino Manuel Puig introduz um capitulo em Boquitaspintadas (1969) que e representativo de todo o romance e onde a cartomancia tem um papel fundamental como analisei em Del manuscrito al libro (Climent-Espino Del manuscrito 81107).

(9) Na introducao de O castelo dos destinos cruzados, Italo Calvino define o taro como "multiplicidade potencial do narravel" e como "maquina narrativa combinatoria" (3).

(10) Algumas cronicas de Machado (Obra completa) publicadas originalmente na Gazeta de noticias (Rio de Janeiro entre o 24/04/1892 e o 11/11/1900) mostram interesse pela cartomancia e a feiticaria. Assim, nas cronicas do 24 de Junho de 1894 e do 10 de Marco de 1895 ha referencias a cartomancia e a adivinhacao do futuro.

(11) A teoria do Humanitas se acha principalmente no capitulo VI de Quincas Borba (16-21) onde se encontra a famosa frase "Ao vencedor, as batatas" que tem sido ligada com a lei do mais forte. Eis o paragrafo com a explicacao do conceito de humanistismo: "Nao ha morte. O encontro de duas expansoes, ou a expansao de duas formas, pode determinar a supressao de uma delas; mas, rigorosamente, nao ha morte, ha vida, porque a supressao de uma e principio universal e comum. Dai o carater conservador e benefico da guerra. Supoe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forcas para transpor a montanha e ir a outra vertente, onde ha batatas em abundancia; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, nao chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanicao. A paz nesse caso, e a destruicao; a guerra e a conservacao. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Dai a alegria da vitoria, os hinos, aclamacoes, recompensas publicas e todos os demais efeitos das acoes belicas. Se a guerra nao fosse isso, tais demonstracoes nao chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem so comemora e ama o que lhe' aprazivel ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma acao que virtualmente a destroi. Ao vencido, odio ou compaixao; ao vencedor, as batatas." (Machado de Assis, Quincas 19-20). Com menor intensidade, o humanitismo tambem aparece no capitulo 157 de Memorias postumas de Bras Cubas.

(12) Para as dinamicas internas da Sociedade Petalogica interessa o ensaio de Bruno Martins. Sobre a Sociedade Petalogica, Francisco de Paula Brito afirma que: "A verdade, que parece criada para felicidade do homem, as vezes e tao nociva que emprega-la pareceria um crime. Tambem a mentira, que parece criada pelo genio do mal, tem as vezes salvado a vida, a honra ou a fortuna..." (Martins 8). Esta citacao resume a perfeicao o que acontece com a mentira no conto de Machado.

(13) Como prova o fato de que a primeira sociedade teosofica brasileira foi fundada no Rio em 1919.

(14) Em Comentarios da semana (63) aparece uma cronica de 1861 em que Machado, sob o pseudonimo de Gil, faz referencia ao oraculo e as sibilas, o que mostra uma reflexao precoce sobre o tema da adivinhacao.

(15) Miecio Tati (149-55) oferece uma amostra da grande frequencia em que os jogos de cartas aparecem na ficcao de Machado. Atendendo a esses dados, parece que Machado os praticava.

(16) Afranio Coutinho (A filosofia) salienta que a forte influencia de Pascal em Machado e pertinente para contextualizar a producao machadiana no ambito filosofico e para compreender, grosso modo, as linhas de pensamento dentro da ficcao do autor carioca.

(17) Paul Dix on assinala como nos contos de Machado ha "uma refutacao dos aspectos identificados com o positivismo; o discurso machadiano satirizara o pensamento enciclopedico, destruira hierarquias, glorificara a alinearidade e o subjetivismo, e proclamara as verdades relativas" (Os contos 14).

(18) Se entendermos por semiotica um sistema de signos, seja qual for, que possibilita uma comunicacao entre individuos.

(19) Para este trabalho uso as pesquisas e a interpretacao que sobre o taro tem sido feitas por Basil Rakoczi, Enrique Esquenazi, Michael Dummett ("Tarot cortesano") e Alejandro Jodorowsky, as mais serias entre as inumeras publicacoes sobre o tema.

(20) Uma analise minuciosa e de interesse de A hora da estrela e a de Edgar Cezar Nolasco. Nela relacionam-se pontos da escrita de Lispector com a de Machado (Nolasco 18, 48), com Humilhados e ofendidos de Dostoievski (59-69) e com Alice no pais das maravilhas (1865) de Lewis Carroll (103-05).

(21) Lygia Fagundes Telles fez uma viagem de aviao com Clarice a Colombia, houve algumas turbulencias e ante o medo de Lygia, Lispector disse: "Fique tranquila porque a minha cartomante ja avisou, nao vou morrer em nenhum desastre!" (Telles 14).

(22) A biografia de Lispector escrita por Benjamin Moser envolve a vida da autora em um halo de misticismo, misterio, onirismo e clarividencia tendo como pano de fundo as raizes judias da familia Lispector. Nolasco (21-31) problematiza e questiona o que criticos como Nelson Vieira (100-150) tem dito a respeito da importancia da heranca judaica da escritora para entender sua obra.

(23) Nolasco (103-26) reflete sobre a importancia que os produtos da cultura popular tem no romance. Marilena Chaui oferece um estudo essencial sobre a cultura popular no Brasil.

(24) Surpreende o grande interesse que Clarice Lispector, como figura ficcional, tem para outros literatos brasileiros. Ha varias biografias ficcionais da autora como Claricianas (2006) e Quem tem medo de Clarice Lispector? (2014) de Edgar Cezar Nolasco, ou Clarice (1996) de Ana Miranda.

(25) A quiromancia e uma pratica esoterica do gosto de Clarice sobre a qual fala na correspondencia com Fernando Sabino (apudMoser 1). O problema da alteridade em Clarice tem sido analisado em varios estudos (Climent-Espino, "Jogos de alteridade")

(26) Ha um metodo de leitura do taro relacionado com a cabala e com a arvore da vida como explicam Rakoczi (38-43) e Couste (41-47). Tambem Jodorowsky (13-17) liga seu interesse pelo taro com seus antepassados judios.

(27) Clarice foi convidada ao Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria em Bogota, Colombia em 1975, dado de importancia se pensarmos que nessa altura Clarice estaria imersa na escrita de A hora da estrela. Nesse congresso, "O ovo e a galinha" foi lido ao publico. A escritora refletiu sobre o fato da critica considera-la hermetica (Lispector, Descoberta 79), tambem em Borelli (65-88) se acha certa preocupacao por nao ser entendida.

(28) Giordano Paz Ravel (99) sublinha a importancia do triangulo amoroso na narrativa de Machado. No caso de Clarice Lispector, o triangulo amoroso e frequente, aparece em Perto do coracao selvagem, O lustre, A maca no escuro, en 'A hora da estrela. Neste romance os tres nomes (Macabea, Olimpico de Jesus e Gloria) remetem a um campo semantico de tematica biblica.

(29) E possivel que o nome de Madama Carlota venha de uma empregada de Clarice (A descoberta 88), que parece ter tido uma cozinheira vidente (A descoberta 48).

(30) E provavel que Clarice pegue a cor do carro dos taxis amarelos do Rio de Janeiro. A figura do chofer de taxi aparece com alguma recorrencia n' A descoberta do mando (25152,458). Esquenazi (156) assinala que a cor amarela e uma correlacao esoterica de "O carro".

(31) Sobre o significado de S.M. ha varias possibilidades. A primeira, que considera S.M. como siglas de "Sua Majestade". Uma segunda leitura alquimica em relacao aos tres componentes basicos: Sulfeto ou enxofre, Mercurio e Sal. Assim S.M. seria Sulfeto (enxofre) e Mercurio, na alquimia o enxofre e o mercurio sao sustancias opostas, o sal e o termo meio, nexo entre elas. O enxofre (masculino, quente, fixo, ativo) e a forma enquanto o mercurio (feminino, frio, volatil, passivo) e o movimento. Segundo Enrique Esquenazi nas correlacoes esotericas 'O carro': "e o sendero que liga a Binah (Entendimento. Saturno) com Gerubah (Severidade. Marte). Entendimento da severidade" (156). Aqui temos outra possibilidade de S.M.: Saturno e Marte.

(32) Esta leitura oferece uma nova possibilidade de interpretacao e questiona a proposta de Silviano Santiago com a que parece concordar Nolasco (70) em relacao ao significado das letras S. M.

(33) Para mais informacao sobre O Carro, remito a Jodorowsky (188-193), Couste (135-140) e Esquenazi (155-57).

(34) Para mais informacao sobre o arcano XVII, A Estrela, remito a Jodorowsky (25257), Couste (186-90) e Esquenazi (179-82).

(35) O titulo do ultimo romance de Bettencourt tambem tem um apelo a outro conhecido escritor: O regresso, a ultima viagem de Rimbaud (2015).

(36) E possivel que a autora tenha escolhido o nome da cartomante de Eilen Olenska, mulher fatal e protagonista do filme A epoca da inocencia (1993), interpretada por Michelle Pfeiffer.

(37) Para mais informacao sobre este metodo se pode consultar Couste (68-73) e Jodorowsky (556-57). Sobre o metodo da cruz celtica remito a Enrique Esquenazi (246-49).

(38) Sobre o arcano do Sol remito a Jodorowsky (265-69) e Couste (196-99).

(39) Ha recentes textos literarios brasileiros que incluem cartas do taro desenhadas como elemento compositivo, e o caso do poemario A mao esquerda de Venus (2016) de Fernanda Young.
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Author:Climent-Espino, Rafael
Publication:Chasqui
Date:May 1, 2019
Words:10465
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