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O tragico sofrimento dos retirantes do sertao nordestino brasileiro nas obras de Candido Portinari.

The tragic suffering of the retreatants of the brazilian northeastern backlands in the works of Candido Portinari

Introducao

Candido Portinari (1903-1962), filho de imigrantes italianos, nasceu numa fazenda de cafe perto de Brodowski, interior do Estado de Sao Paulo. Seu primeiro contato com as artes foi aos 14 anos de idade, quando pintores e escultores italianos que atuavam em restauracoes de igrejas no interior do estado, o convidaram para trabalhar como ajudante (Filho, 1996).

Durante os anos de 1928 e 1930, Portinari viaja para a Europa, estabelecendo-se em Paris. Nesse periodo teve contato com outros artistas como os fauvistas Van Dongen (1877-1968) e Othon Friesz (1879-1949). Tambem teve contato e influencias de varios movimentos da Arte Moderna.

Em 1931, ao regressar ao Brasil, Portinari poe em pratica a decisao de retratar nas suas obras o Brasil--a historia, o povo, o homem negro e os retirantes fugindo da seca. Suas obras em pinturas, desenhos, afrescos e murais revelam a alma do trabalhador rural brasileiro. Preocupado, tambem, com aqueles que sofrem, Portinari mostra a pobreza, as dificuldades, a dor do sertanejo nordestino fugindo da seca e da miseria humana (Fabris, 1990).

A visao de Portinari sobre arte e de compromisso com o social, ele resumia esse seu conceito em uma frase: "Estou com os que acham que nao ha arte neutra. Mesmo sem nenhuma intencao do pintor, o quadro indica sempre um sentido social" (Capistrano, 2010:1).

Assim, o objetivo desta pesquisa qualitativa e analisar as obras do paulista Candido Portinari, buscando evidenciar o sertao retratado pelo artista nas telas: Os Retirantes, Crianca Morta e Enterro na Rede. Para atingir o objetivo proposto foi realizada uma analise documental e iconografica, pois sao as imagens que transmitem a ideia, nao de pessoas ou objetos concretos e isolados, mas nocoes gerais--a fe, a pobreza, o sofrimento, a tristeza--que se chamam personificacoes ou simbolos.

1. A trajetoria artistica e politica de Portinari

Aos 15 anos, ja decidido a aprimorar seus dons artisticos, Portinari deixa Sao Paulo e parte para o Rio de Janeiro para estudar na Escola Nacional de Belas Artes. Um dos principais premios almejados pelo artista era a medalha de ouro do Salao da Escola Nacional de Belas Artes.

Nos anos de 1926 e 1927, o pintor consegue reconhecimento, mas nao foi premiado. Mais tarde, Portinari chegou a afirmar que as suas telas com linguagem modernista escandalizaram o juri do concurso. Em 1928 Portinari, objetivado, prepara uma tela com elementos academicos tradicionais e finalmente ganha a medalha de ouro e uma viagem para a Europa.

Como grande parte dos intelectuais brasileiros da sua epoca, era ligado ao Partido Comunista do Brasil, era militante comunista. Candidatou-se a deputado em 1945 nao sendo eleito, em 1947 foi o candidato do PCdoB ao senado pelo estado de Sao Paulo, apesar de fazer uma boa campanha, e um grande comicio que contou com a presenca do poeta comunista, o chileno Pablo Neruda, Portinari perdeu a eleicao por uma pequena margem de votos. Em 1948, por motivos politicos se exila no Uruguai e viaja pela America Latina.

Em 1950, Portinari foi agraciado com a medalha de ouro do "Premio Internacional da Paz", mas, por ser comunista, nao pode comparecer por causa da proibicao do governo americano de entrar nos Estados Unidos. Ja no ano de 1951, expoe com destaque na 1 Bienal de Sao Paulo. Em 1955, recebeu a medalha de ouro da Internacional Fine-Arts Council de Nova York, na categoria de melhor pintor do ano, e em 1956 recebeu o premio concedido pela Solomon Guggenheim Foundation de Nova York. Realizou outros trabalhos nos Estados Unidos, inclusive na Biblioteca do Congresso, em Washington.

Foi um dos principais nomes do Modernismo brasileiro cujas obras alcancaram renome internacional, como os dois grandes paineis Guerra e Paz (1952-1956), no edificio sede da ONU--Organizacao das Nacoes Unidas em Nova Iorque/EUA, oferecido pelo governo brasileiro em 1956 e a serie Emigrantes (1944) do acervo do Museu de Arte de Sao Paulo (MASP).

E importante ressaltar que Portinari foi o unico artista brasileiro convidado para exposicao "50 Anos de Arte Moderna", no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas, no ano de 1958. Apesar disso, Candido Portinari sofreu perseguicoes por parte do governo na epoca, justamente por pintar e chocar representando a miseria dos retirantes nordestinos em seus quadros, ao mesmo tempo nos faz perceber que a natureza e um elemento vivo. Na otica do artista, o exodo rural faz com que as pessoas deixem suas casas no campo e migrem para as cidades motivadas pela esperanca de uma vida melhor, o que nos faz perceber que a natureza natural mesmo sofrida e um elemento ativo, vivo.

2. A seca e os retirantes

A seca principalmente no nordeste brasileiro entre os anos de 1934 e 1936 marcou um periodo de estiagem, nao ficando restrita ao nordeste, mas tambem aos estados de Minas Gerais e Sao Paulo que sofreram com a falta de chuvas. Neste contexto, diversos artistas passaram a retratar a seca e o sertao em suas obras, dentre os quais, o escritor Graciliano Ramos (1892-1953)--com dois romances (Sao Bernardo, de 1934 e Vidas secas, de 1938) e o pintor Candido Portinari com a Serie Retirantes de 1944, composta pelas seguintes pinturas: Retirantes, Enterro na Rede e Crianca Morta.

Portinari, buscando evidenciar a tragedia e o sofrimento do povo nessas pinturas, e utilizando de elementos pictoricos com influencia expressionista, registrou nas telas a dura realidade de familias de retirantes, bem como todo o seu sofrimento, fazendo com que essas obras se tornassem um importante instrumento de denuncia social como na tela Os Retirantes (Figura 1).

A pintura apresenta duas familias, uma com um casal onde ha um homem idoso e uma mulher com mais idade que carrega uma crianca desnutrida, quase um cadaver e uma familia com seis personagens cadavericos, maltrapilhos, sofridos caminhando sob sol escaldante, sem rumo e em busca de uma vida prospera.

Na tela e possivel identificar um homem idoso sem camisa, aparentemente o personagem mais velho que segura um cajado como seu apoio de caminhada. Uma mulher com o olhar distante, transmite tristeza e solidao, sustenta uma crianca apoiando-a em seu quadril. Na outra familia, percebemos uma mulher aparentemente mais jovem, com cabelos longos e negros, e olhar triste, cansa do, expressando em seu rosto o sofrimento vivido e a dor do que ainda estara por vir dessa tragedia humana. Esta mulher segura com seu braco esquerdo uma trouxa branca na cabeca que certamente contem as poucas coisas que restaram. No braco direito uma crianca aparentemente como sendo uma recem-nascida. Ao seu lado, esta o seu pressuposto marido e pai das criancas segurando a mao de uma crianca e com a outra mao segura um pequeno pedaco de pau, com uma trouxa de tecido na sua ponta, apoiada sobre seu ombro esquerdo. Ao seu lado, se encontram duas criancas, uma seminua, apresentando um abdomen bastante avantajado, o que pode ter sido feito propositalmente pelo artista ao querer mostrar que no periodo da producao da obra o pais enfrentava serios problemas com as questoes de saneamento basico e tratamento da agua, o que fazia com que grande parte da populacao fosse atingida pela esquistossomose e outros vermes.

No ceu azul ha "passaros pretos"--urubus, simbolizando a morte que os rodeia como, tambem, a foice carregada pelo anciao. Ha um horizonte claro, diferenciando-se de toda tensao predominantemente escura da cena, com uma fosca lua do lado superior direito. No canto inferior esquerdo, percebem-se algumas montanhas e atras dos personagens, quatro pequenas elevacoes de terra, que supostamente seriam covas.

Na terra ha um pedaco de osso e pedras. Um embate entre a vida e a morte representado neste cenario de sofrimento pelo ciclo da vida que se inicia com uma crianca e ira terminar com a figura do personagem mais velho da cena. As carcacas, os cactos, os urubus em revoada, as covas que quebram o achatamento do solo, sao o dramatico cenario no qual se situam figuras de diferentes consistencias e expressividades.

Os personagens--mulheres, velhos e criancas, sao os herois, famintos e sem sorte, que, Portinari fixa em suas telas. De acordo com Fabris (1990): "Preocupando-se com aqueles que sofrem, mostra a pobreza, as dificuldades e a dor do sertanejo nordestino fugindo da seca e da miseria humana". E impossivel nao se perturbar com a situacao decrepita e ate cadaverica dos personagens. Os cenarios retratados pelo artista mostram uma falta de esperanca, com animais mortos e nenhum verde ou algo que denote a vida para o sertanejo.

3. O sofrimento das criancas

A crianca morreu! Vitima da inanicao, da terra improdutiva, desertificada pela falta de agua. Segundo Sobrinho (1982:8), quando o sertanejo consegue escapar precariamente da seca, migrando para os grandes centros, tem sua familia reduzida, com a morte de seus filhos, devido a precariedade das condicoes de retirada.

Na obra Crianca Morta (Figura 2), a tragedia dos retirantes continua a ser retratada por Portinari atraves de uma familia. Familia esta, constituida por seis pessoas--pais e irmaos que seguram uma crianca morta nos bracos onde se percebe a tragedia humana, a morte, o desespero, o desamparo, a perda. Eles choram, e com o choro, representando as lagrimas, jorram dos olhos dos personagens pequenas pedras que simbolizam as pedras encontradas no caminho.

Portinari pintou as lagrimas muito maiores do sao na realidade para mostrar o quanto e grande o sofrimento dessas pessoas famintas, desnutridas, cansadas e sem saberem para onde irao, qual destino terao. A figura central da tela, segura com as suas maos exageradamente grandes e desproporcionais anatomicamente o corpo de uma crianca. Os adultos, cabisbaixos, olham para a crianca morta direcionando o nosso olhar para a tragedia acometida. Pelo predominio cromatico dos tons de terra que marcam a parte inferior da tela, principalmente, pelo aspecto tenebroso das figuras humanas, que oscila do cadaverico ao fantasmagorico, observamos um quadro comovente de luta entre a vida e a morte. Esses seres cadavericos carregam o peso do destino. Essa obra e um exemplo do vigor e da critica contundente que o pintor registrou nas telas da serie.

4. Morte e vida

A tela Enterro na Rede (Figura 3) apresenta quatro personagens, sendo dois masculinos e dois femininos carregando as suas dores fisicas e da alma. Dois homens carregam a rede com o morto, enquanto uma mulher ajoelhada de costas para o observador ergue os bracos para os ceus, em visivel desespero, ocupando a parte central da composicao. Um pouco a frente, ajoelhada e com as maos em forma de prece, encontra-se uma segunda mulher com o seu sofrimento pela perda de um ente querido e pela falta de esperanca.

A rede pendurada em um pau e carregada por dois homens, um em cada extremidade. O volume e o formato da rede nao aparentam transportar um corpo normal, parece desprover de materialidade, levando a crer que se trata daquilo que dele sobrou, em razao da miseria vivida. Os dois homens, embora gigantescos, apresentam cabecas miudas, desproporcionais ao tamanho do corpo, o que leva o observador a deduzir que se trata de trabalhadores rurais, munidos de muita forca, mas de pouca sabedoria. Enquanto o primeiro deles segura o fardo com as duas maos, o segundo retem a rede no ombro, deixando a mao direita cair sobre o corpo, em sinal de cansaco, e, com a esquerda, segura no meio o pau que a sustem, marcando o meio exato da composicao.

Pes descalcos e aparentemente rachados sao comuns entre os personagens. O artista notadamente usa os joelhos dobrados dos personagens para reforcar o pesar da morte. A paisagem ao fundo e confusa, sem uma forma definida e o contraste entre as cores traz um sentido funebre.

Conclusao

Os problemas dos nordestinos brasileiros foram retratados com vigor por Portinari na serie Retirantes, que, assolados pela seca, abandonam suas terras em busca de melhores condicoes de vida. O exodo rural faz com que as pessoas deixem suas casas no campo e migrem para as cidades motivadas pela esperanca de uma vida melhor. A esperanca de uma vida melhor parte de uma preocupacao fundamental que desemboca em uma decisao de partir para o desconhecido, mesmo que esse desconhecido seja pior que o conhecido, e que a morte esteja presente em sua caminhada.

A serie Retirantes e uma face do Brasil, e a sensibilidade do pintor usada para denunciar a cruel realidade do pais, e uma imagem que fica para a historia, e para a humanidade. Portinari ao se expressar atraves de suas telas ocasionou forte repercussao publica na epoca, visto que a sociedade, na decada de 1944, nao estava preparada para a fruicao das pinturas fortemente realistas. Por conta da pintura-denuncia Candido Portinari sofreu perseguicoes por parte do governo, justamente por retratar a miseria em seus quadros, e desnudar em sua obra que a falta de politicas publicas empurra as pessoas para outros locais, inclusive a morte.

Referencias

Capistrano, Antonio (2010) "Candido Portinari, um grande Comunista." [Consult. 2018-12-27] Disponivel em URL: http:// www.vermelho.org.br/noticia/143624-1.

Fabris, Annateresa (1990) Portinari, pintor social. Sao Paulo: Editora Perspectiva.

Filho, Mario (1996) A infancia de Portinari. Rio de Janeiro: Edicoes Bloch.

Projeto Portinari (2009) "Cronobiografia de Candido Portinari." [Consult. 2018-1227] Disponivel em URL: https://rl.art.br/ arquivos/3100215.pdf.

Sobrinho, Thomaz Pompeu (1992) A historia das secas seculo XX. Mossoro: Fundacao Guimaraes Duque.

NORBERTO STORI * & ROMERO DE ALBUQUERQUE MARANHAO **

Artigo completo submetido a 02 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

* Brasil, artista visual.

AFILIACAO: Centro de Educacao, Filosofia e Teologia, Universidade Presbiteriana Mackenzie. Rua da Consolacao, no. 930, Bairro: Consolacao, Sao Paulo--SP, CEP: 01302-907 Brasil. E-mail: nstori@uol.com.br

** Brasil, escritor.

AFILIACAO: Marinha do Brasil--Diretoria de Administracao da Marinha. Ilha das Cobra --S/No.--Edificio Almirante Gastao Motta, 2 andar, Bairro: Centro, Rio de Janeiro--RJ, CEP.: 20091-000 Brasil. E-mail: ram060973@gmail.com

Leyenda: Figura 1 * Pintura a oleo sobre tela, 181 x 192 cm. "Os Retirantes" Candido Portinari, 1944. Fonte: https://www.culturagenial.com/quadro-retirantes-decandido-portinari/

Leyenda:Figura 2 * Pintura a oleo sobre tela, 180 x 190 cm. "Crianca Morta" Candido Portinari, 1944.Fonte: http:// www.portinari.org.br/#/acervo/obra/2735/detalhes

Leyenda: Figura 3 * Pintura a oleo sobre tela, 180 x 220 cm. "Enterro na Rede" Candido Portinari, 1944. Fonte: http:// www.portinari.org.br/#/acervo/obra/2734
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Title Annotation:Artigos originais
Author:Stori, Norberto; de Albuquerque Maranhao, Romero
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2598
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