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O sistema de subsistencia desenvolvido pelas sociedades tribais de filiacao linguistica tupi-guarani.

Resumo

O artigo apresentado e resultado parcial do projeto que esta sendo desenvolvido pelo Comite de Arqueologia do Instituto Panamericano de Geografia e Historia. A proposta do trabalho e fazer uma revisao dos conceitos teoricos utilizados na analise dos processos socio culturais americanos, partindo do estudo de casos especificos. O primeiro tema a ser estudado e a diversidade dos sistemas de producao das sociedades tardias pre-colombianas e suas implicacoes nas diferentes zonas americanas. O tema e comum a rodas as sociedades e poderemos ter uma visao de como os grupos solucionaram seu problema de subsistencia nos varios ambientes. Estamos chamando de sociedades tardias em cada regiao, as ultimas que existiram antes do contato com o europeu. Estaremos enfocando de modo especifico os dados arqueologicos provenientes do litoral sul de Sao Paulo, mas considerando que as caracteristicas gerais sao comuns para toda a costa brasileira.

Resumen

El sistema de subsistencia desarrollado por las sociedades tribales de filiacion linguistica tupi-guarani

El articulo presentado es resultado parcial del proyecto que esta siendo desarrollado por el Comite de Arqueologia del Instituto Panamericano de Geografia e Historia. La propuesta del trabajo es hacer una revision de los conceptos teoricos utilizados en el analisis de los procesos socio-culturales americanos, partiendo del estudio de casos especificos. El primer tema a ser estudiado es la diversidad de los sistemas de produccion de las sociedades tardias americanas. El tema es comun para rodas las sociedades y asi podremos tener una vision de como los grupos solucionaron su problema de subsistencia en los varios ambientes. Estamos llamando las sociedades tardias en cada region, a las ultimas que existieron antes del contacto con el europeo. Estaremos enfocando de modo especifico los datos arqueologicos provenientes del litoral sur de Sao Paulo, pero considerando que las caracteristicas generales son comunes para todo el litoral brasileno.

Abstract

Study the subsistence system developed by the linguistically affiliated tribal societies of the tupi-guarani

We present the partial results of a project of the Archaeology Committee of the Panamerican Institute of Geography and History. The proposed work consists of revising the theoretical concepts used in the analysis of American social-cultural processes, taking into account the study of specific cases. The first theme examined is the diversity of the production systems of later American societies. The theme is common to ail societies throughout the continent and we can compare how the groups solved their subsistence challenges in the various environments. We are calling "later societies" in each region, those present just before contact with European. The present article focuses on specific archaeological data from south of Sao Paulo's coast, bur considers the general characteristics common to ail of the Brazilian coast.

Resume

Le systeme de subsistance developpe par/es societes tribales affiliees au groupe linguistique tupi-guarani

Nous presentons les resultats partiaux d'un projet du Comite d'archeologie de rlnstitut panamericain d'histoire et de geographie. Ce projet consiste a revoir les concepts theoriques utilises lors de l'analyse des processus sociaux-culturels americains en tenant compte de cas specifiques. Le premier theme aborde est la diversite des systemes de production des societes tardives americaines. Ce volet est commun a toutes les societes du continent et nous comparons les moyens entrepris par les differents groupes pour resoudre les defis de la subsistance dans differents environnements. Nous appelons "societes tardives" celles presentes tout juste avant le contact avec les Europeens. Le present ouvrage se penche sur les donnees archeologiques de la cote bresilienne au sud de Sao Pau-lo, mais tient compte aussi des caracteristiques generales de l'ensemble de la zone littorale bresilienne.

Introducao

Quando os portugueses chegaram nas terras que hoje correspondem ao Brasil, encontraram grupos indigenas que habitavam todo o litoral e que posteriormente foram classificados como pertencentes a familia linguistica tupi-guarani. Esses habitantes foram os ultimos representantes da populacao originaria das novas terras que entraram em contato com o invasor europeu. Varias informacoes sobre o modo de vida dessas populacoes sao conhecidas atraves de descricoes e ilustracoes contidas na documentacao textual de cronistas e viajantes, que no seculo XVI encontraram ainda preservados os costumes culturais tradicionais.

O trabalho apresentado faz parte de um projeto mais amplo que esta sendo desenvolvido pelo Comite de Arqueologia do Instituto Panamericano de Geografia e Historia. A proposta do trabalho e fazer uma revisao dos conceitos teoricos utilizados na analise dos processos socios culturais americanos, partindo do estudo de casos especificos. (1) Com este projeto propomos a elaboracao de quadros de referencia e um posterior dialogo dos dados obtidos sobre os casos estudados.

Por ser um projeto panamericano, o objetivo final e criar condicoes que possibilitem a elaboracao de um panorama global atualizado do continente sobre determinados aspectos do processo cultural. Este quadro vai envolver tambem a equivalencia nos quatro idiomas americanos dos termos teoricos e metodologicos empregados.

O primeiro tema a ser estudado e a diversidade dos sistemas de obtencao de alimento das sociedades tardias pre-colombianas e suas implicacoes nas diferentes zonas americanas. O tema e comum a todas as sociedades e poderemos ter uma visao de como os grupos solucionaram seu problema de subsistencia nos diferentes ambientes. Estamos chamando de sociedades tardias em cada regiao, as ultimas que existiram antes do contato com o europeu. Teremos, portanto, momentos cronologicos diferentes para cada regiao americana, pois a chegada ao novo continente se deu em tempos diversos e com propositos variados.

Estaremos enfocando de modo especifico os dados arqueologicos provenientes do litoral sul de Sao Paulo, mas considerando que as caracteristicas gerais sao comuns para toda a costa brasileira.

O estudo do padrao de subsistencia em areas tropicais e uma tarefa complexa, pois os vestigios organicos que poderiam dar uma leitura direta nao permanecem no registro arqueologico. As inferencias estao baseadas nos dados da cultura material nao perecivel associada ao proceso de coleta ou processamento de alimentos e das informacoes provenientes da documentacao etnohistorica, principalmente dos cronistas do seculo XVI e inicio do XVII.

A literatura arqueologica tradicional tem classificado de maneira generica os grupos que habitaram as terras baixas americanas, do ponto de vista evolucionista como pertencendo a tradicao cultural de floresta tropical. A descricao recai em um nivel de integracao socio-cultural situado entre os cacadores-coletores nomades Marginais e dos Cacicados do Caribe (Steward,1948), postulado que foi seguido e reformulado por outros autores (Sanders e Marino, 1971; Meggers,1971) e que influenciaram a elaboracao de um esterotipo sobre a cultura de areas tropicais. Neste sentido, a proposta do projeto pretende um novo enfoque, questionando algumas afirmacoes que vem sendo repetidas automaticamente, sem considerar novas aboradagens e informacoes.

O enfoque desenvolvido considera as caracteristicas da sociedade tribal, nao de uma maneira evolucionista, mas como um conjunto de mecanismos desenvolvidos para a manutencao da sua estrutura igualitaria, que sera mudada a partir de contradicoes internas especificas e particulares da propria sociedade.

No caso da analise do padrao de subsistencia, estaremos considerando o modo de producao e o proceso de trabalho na manutencao da vida cotidiana.

A arqueologia americana atualmente debate uma multiplicidade de teorias, algumas substanciadas, outros apenas rotulos, que muitas vezes acaba se afastando do objetivo comum da disciplina que e estudar os processos historicos passados, atraves da explicacao da relacao existente entre a cultura material que constitui o registro arqueologico e o comportamento humano

O objetivo final do projeto e atraves da pesquisa de temas comuns, possibilitar um discurso frutifero que permita reconhecer e fazer uma equivalencia entre os diferentes conceitos e estrategias metodologicas.

Consideracoes teoricas e metodologicas

As premissas basicas que orientam este trabalho foram colocadas na formulacao do projeto Novas consideracoes no estudo da historia antiga americana (Scatamacchia e Fonseca, 2001).

Partimos do principio que a arqueologia e uma ciencia social, cujo objeto de estudo e parte do mundo factual que chamamos de passado da humanidade, que se caracteriza por um processo dinamico, estudado atraves da evidencia cultural material que permaneceu como resultado deste processo. Do controle de espaco e tempo cultural, atraves da analise morfologica, devemos ser capazes de inferir as caracteristicas da dinamica social dos grupos estudados.

Partindo da parcialidade que constitui o reglstro arqueologico, mas contando com um quadro conceitual e possivel descrever as maneiras de viver e as mudancas atraves do tempo, o que em ultima instancia vai requerer uma explicacao. Trata-se de acordo com Bate (1998) de uma "abordagem tridimencional", que enfoca o singular cultural, o particular da vida cotidiana e a explicacao geral da sociedade estudada.

Do ponto de vista teorico, se trabalhara com os diferentes niveis aceitos pela maioria dos arqueologos, "baixo, medio e alto". Os dois primeiros trabalham no estabelecimento das culturas arqueologicas e na inferencia das maneiras de viver, gracas a capacidade de produzir conhecimento a partir da observacao da formacao e transformacao do registro arqueologico e sua relacao com o comportamento humano. Para a explicacao da dinamica das sociedades, e necessario um terceiro nivel de teoria, aquele que possibilita hierarquizar e relacionar as diferentes variaveis envolvidas. E neste terceiro nivel que podem ser observadas a maior diferenca entre os arqueologos, mas ao mesmo tempo e o que permite uma maior riqueza de discussao e dialogo. Ele devera ser considerado em outra etapa do trabalho, quando poderemos atraves das variaveis observados em algumas regioes americanas, formular algumas explicacoes para os fenomenos estudados.

O ponto de partida da analise esta baseado em algumas categorias e conceitos operativos, como os de "cultura e sociedade", isto quer dizer, que a pesquisa deve englobar nao so os aspectos culturais como tambem as inferencias sociais.

Do ponto de vista metodologico, a proposta e iniciar com estudos de casos especificos sobre os sistemas de producao de alimentos e suas implicacoes em algumas regioes americanas.

O segundo passo e a selecao das variaveis relevantes para analise do fenomeno em questao, com a discussao das categorias e conceitos pertinentes. O resultado final do trabalho vai possibilitar uma discussao e uma visao ampla dos processos americanos relacionados a subsistencia.

No caso das sociedades tribais de filiacao linguistica tupi-guarani, as variaveis consideradas envolvem as seguintes questoes:

1. Caracterizacao do sistema de horticultura utilizado nas areas tropicais e as relacoes sociais e espaciais envolvidas nas diferentes regioes.

2. Identificacao dos elementos que caracterizam esta etapa de producao de alimentos e sua correlacao com o mesmo processo ocorrido em outras regioes americanas.

3. Localizacao das aldeias e definicao da area de captacao de recursos e das estrategias que garantem o modo de vida do grupo. Em relacao ao exemplo especifico do litoral sul de Sao Paulo estamos considerando mais uma questao a diferenca entre as aldeias localizadas no litoral aquelas que se encontram no interior.

4. Definicao do significado de area limitrofe e fronteira cultural e do papel do vale do Ribeira no quadro de distribuicao dos grupos ceramistas de filiacao tupi-guarani.

A metodologia de pesquisa arqueologica adotada para a area foi de levantamento geral dos sitios para visualizar a sua distribuicao na paisagem, sendo que a proposta de escavacao extensiva sera consequencia desta analise espacial. A pesquisa que esta sendo realizada procura responder algumas questoes fundamentais para entender a origem a distribuicao destas sociedades tribais:

* Eles se estabeleceram no baixo vale com a tecnica de horticultura ja desenvolvida? E possivel identificar um estagio transitorio entre a coleta e a producao?

* Quantas das aldeias identificadas na regiao foram contemporaneas?

* Quantas aldeias sao produto de migracao do mesmo grupo?

* As aldeias possuiam o mesmo tamanho? Existe uma hierarquia?

* A classificacao dos padroes decorativos da ceramica pode levar ao estabelecimento de uma distincao etnica?

* Podemos caracterizar o baixo vale do rio Ribeira como uma area cultural?

Os sitios escavados ate agora foram resultantes de interferencia de salvamento, pois estavam sendo destruidos por diferentes atividades antropicas, de exploracao mineral e imobiliaria. De maneira extensiva foi escavado apenas um sitio, dentro de uma perspectiva de arqueologia de salvamento, pois metade da aldeia ja tinha sido retirada no processo de extracao de areia. Deste modo, os dados arqueologicos sao na sua maioria provenientes de encontros casuais e resultantes de obras publicas de saneamento basico. O trabalho arqueologico mais detalhado e sistematico na regiao ainda esta por ser feito.

A principal fonte de informacao sobre esta cultura e a ceramica, pela grande quantidade, pela referencia funcional e pelos elementos decorativos que constituem o diagnostico para a sua identificacao cultural. Com relacao aos vestigios resgatados podemos tracar um quadro sobre a ocupacao dentro de uma visao de macrolestabelecimento, isto e, da distribuicao e relacao geral dos sitios com o meio ambiente. No que se refere a outros aspectos estruturais e de areas de atividades, as informacoes sao ainda restritas, pois resultam da escavacao extensiva de uma unica aldeia. Essa caracterizacao pode ser extensiva para toda a area de distribuicao do grupo.

De qualquer maneira, a natureza do registro arqueologico destes estabelecimentos esta diretamente relacionada com os metodos de producao de alimentos e com o proprio sistema tecnologico do grupo, guardando sempre a limitacao das areas tropicais.

O fenomeno sociocultural

A sociedade analisada possui o tipo de organizacao tribal igualitaria, semisedentaria, estruturada com base na linha de parentesco. (2) As diferencas sociais e a especializacao de trabalho estao relacionadas ao genero e idade. Ao homem cabe a tarefa de cacador e pescador, sendo que a mulher se dedica ao papel do cultivo da terra.

Apesar dessa conceituacao generalizada, os tupi da costa revelam uma nitida tendencia a constituicao de chefias poderosas, com nome de chefes e de aldeias importantes que aparecem mencionados nas principais cronicas. Deste modo a caracterizacao generica de cultura de Floresta Tropical deve ser particularizada em relacao aos grupos em questao. De acordo com Clastres (1978:53).
   A diferenca entre os tupi e as outras sociedades nao e de natureza,
   mas de grau; isso significa, portanto que, assim como realizaram
   melhor do que as outras, no plano da estrutura social, um modelo
   de organizacao que nao lhes e exclusivo, da mesma forma a dinamica
   imanente ao conjunto das culturas da Floresta encontrou nos tupi
   um ritmo e uma aceleracao mais rapidos do que em qualquer outro
   lugar.


Do ponto de vista arqueologico a sociedade esta relacionada a uma "tradicao ceramista", que possui uma ampla dispersao espacial, ao mesmo tempo em que tem uma longa duracao temporal. Vestigios arqueologicos desta tradicao foram encontrados em todo leste americano, sendo que seu habitat tipico e a floresta tropical, por onde estiveram por aproximadamente mil anos. De acordo com as fontes etno-historicas e etnograficas, os portadores desta tradicao pertenciam a familia linguistica tupi-guarani que se divide em Tupi e Guarani, cuja divisao tambem possui um diferencial cultural, que pode ser percebido no meio do padrao geral que caracteriza o grupo.

A tradicao ceramista foi primeiro definida em um primeiro momento das pesquisas arqueologicas no Brasil, tendo sido nomeada de tupiguarani, escrito em uma so palavra, para diferenciar da classificacao linguistica (PRONAPA, 1969). (3) O avanco das pesquisas e revisoes posteriores mostrou a necessidade de considerar as diferencas identificadas tanto no contexto arqueologico como no etno-historico (Brochado, 1984; Scatamacchia, 1981, 1990), que nos levaram a considerar duas facies: tupi e guarani.

No estudo de caso em questao estaremos analisando esta sociedade dentro de uma area geografica delimitada e que tem sido indicada pelas fontes textuais como de fronteira entre tupi e guarani. Levando em conta as caracteristicas de uma area de fronteira, talvez a regiao possa ser considerada como periferica ao complexo sistema tribal existente no inicio do seculo XVI.

A area geografica e suas caracteristicas

A distribuicao das sociedades tribais de filiacao linguistica tupi-guarani seguiu de um modo geral a Floresta Tropical.

A area geografica enfocada corresponde a zona litoranea do baixo vale do Ribeira, litoral sul do estado de Sao Paulo. O rio Ribeira de Iguape constitui o unico grande rio que nasce na vertente da Serra do Mar e desemboca no oceano Atlantico. Trata-se de uma regiao lagunar-estuarina e com um ecossistema bastante complexo. Pelas suas caracteristicas, esta regiao e um grande criadouro de especies marinhas, sendo atualmente uma area de conservacao ambiental permanente (APA).

Nesta regiao a serra do mar, que mais ao norte entende-se proximo a linha da costa, afasta-se formando um grande arco, que delimita toda a planicie sedimentar que constitui o baixo vale do rio Ribeira.

A vegetacao predominante e a Floresta Pluvial Tropical cuja caracterizacao e muito semelhante em todo mundo, porque esta condicionada aos mesmos fatores. Sao dois fatores principais que determinam as particularidades desta formacao, a area vegetal continua e a umidade. A biodiversidade, com um grande numero de especies e individuos representa uma rica fonte de recursos.

Os tipos de vegetacao mais significativos na area especifica pesquisada sao a floresta tropical, denominada de mata atlantica e o mangue. Este ultimo torna-se mais amplo na foz dos rios que desaguam no oceano e ficam menores a medida que diminui a salinizacao.

O mar nesta parte do litoral ha cerca de 5.000 anos avancava varios quilometros em direcao ao interior, mas mesmo considerando o processo continuo de deposicao, nos ultimos 2.000 anos nao houve alteracoes que resultassem em uma paisagem muito diferente da atual. Neste sentido, para fins de analise das relacoes passadas com o ambiente, estamos considerando basicamente as mesmas condicoes da paisagem atual em termos de disponibilidade de recursos.

O clima e quente e umido, tipico de areas tropicais, com grande densidade pluviometrica.

Ao longo do quaternario a regiao sofreu mudancas ambientais significativas e intervencoes antropicas que deixaram registradas na paisagem o processo de povoamento. A analise das condicoes ambientais, dos diferentes nichos ecologicos e os recursos disponiveis na regiao contribui para a compreensao das adaptacoes adotadas pelo grupo em questao.

No passado a regiao constituia o limite sul da Capitania de Sao Vicente, marcando a fronteira entre portugueses e espanhois estabelecida no Tratado de Tordesilhas. De acordo com a documentacao textual, foi um dos primeiros nucleos de povoamento europeu, anterior a colonizacao oficial do Brasil iniciada por Martim Afonso de Souza em 1532.

Por outro lado, e uma regiao onde os registros das varias ocupacoes humanas sao numerosos e remontam ha aproximadamente 7.000 anos.

[FIGURA 1 OMITIR]

[FIGURA 2 OMITIR]

Cronologia

Estes grupos estavam ocupando quase todo o litoral brasileiro, do Uruguai e nordeste da Argentina, quando chegaram os europeus. Ao longo da area de ocupacao do grupo estas transformacoes puderam ser identificadas ao longo de 1.000 anos de expansao por um vasto territorio, onde as datas mais antigas estao em torno do ano 500.

Para a regiao especifica analisada existe apenas uma datacao absoluta de C14 que comprova a relacao de contato cultural documentada no sitio por outros materiais. A maior parte da cronologia foi estabelecida tendo como base datacoes relativas, uma vez que todos os sitios que tiveram uma pesquisa arqueologica mais intensa possuem tracos e materiais decorrentes do contato com o europeu.

Nao foi possivel identificar o processo de mudanca e adaptacao das aldeias na regiao, pois os sitios estudados apresentam as caracteristicas conhecidas ja estabelecidas. Uma pesquisa futura mais extensa podera determinar o movimento que foi feito pelas aldeias ao longo do seu processo de adaptacao.

Natureza e disponibilidade dos dados

Para a cultura estudada existem dois tipos de fontes primarias: os dados etno-historicos contidos na documentacao textual do seculo XVI e os dados arqueologicos. A primeira se refere as principais cronicas do seculo XVI, que descrevem estes grupos, seus habitos e costumes. Como no seculo XVI eles dominavam a costa brasileira, informacoes sobre eles estao presentes em quase todos os textos.

Existe sobre estes grupos uma vasta literatura arqueologica, que pudemos sistematizar em dois trabalhos anteriores (Scatamacchia, 1981, 1990), que contribuem para a pesquisa na regiao e para a integracao do tema selecionado no contexto americano.

As fontes textuais sao ricas em detalhes sobre o modo de vida destes grupos, sendo que os principais cronistas foram testemunhas visuais e entraram em contato direto com as populacoes. As obras apresentam ilustracoes, alem das descricoes detalhadas dos fatos que mais chamaram a atencao. No caso do padrao de subsistencia, as informacoes estao presentes em todos os textos, desde o primeiro documento, que foi a carta de Pero Vaz de Caminha.
   Nem ha aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer
   outro animal que esteja acostumado ao convivio com o homem. E nao
   comem senao deste inhame, que de que aqui ha muito, e dessas
   sementes e frutos que a terra e as arvores de si deitam (Castro,
   1985:94).


O diario de navegacao feito em 1532, por Pero Lopes de Sousa descreve a expedicao colonizadora de Martim Afonso de Sousa, e relata o contato ja existente na regiao pesquisada entre portugueses, indios e espanhois e o fornecimento de viveres pela populacao local.

As descricoes sobre o plantio da mandioca, seu processamento e consumo estao presentes nas principais cronicas do seculo XVI (Gandavo, Anchieta, Thevet e Staden).

Sobre as fontes textuais especificas para a regiao estudada, a mais rica em detalhe e a obra de Hans Staden, que em 1555, tendo sido prisioneiro dos Tupinambas por um ano, pode observar e descrever aspectos de todo ciclo de vida anual, fato que poucos cronistas tiveram a oportunidade de observar.

A pesquisa realizada junto as fontes textuais forneceu informacoes referentes aos varios aspectos do modo de vida destes grupos, inclusive sobre as tecnicas e praticas do cultivo, colheita e processamento da mandioca.

Padrao de subsistencia

A base da subsistencia dos grupos portadores desta cultura esta apoiada na producao de alimentos atraves do sistema de agricultura de roca, tambem chamado de horticultura.

Para entender o processo de producao de alimentos devemos pensar em dois aspectos basicos, um relacionado com a domesticacao das especies vegetais e outro com os sistemas agricolas desenvolvidos. No caso da arqueologia das areas tropicais, os vestigios referentes aos dois aspectos sao comprometidos pela umidade e consequente destruicao do material organico.

Antes de mais nada devemos ter em mente a premissa que existem produtos basicos na dieta dos grupos. Embora possam consumir uma ampla variedade de alimentos, usualmente poucas especies formam os principais elementos da dieta, sao os alimentos basicos, sendo os outros alimentos casuais.

Considerando que o objetivo primario da exploracao de recursos e a aquisicao de um suprimento adequado de alimentos o ano todo, certas preferencias devem obedecer a necessidade de satisfazer esta exigencia, isto e, recair sobre alimentos que estejam disponiveis o ano todo ou se complementam sazonalmente. No caso dos grupos horticultores, esta procura deve ser feita em direcao a complementacao de proteina animal, que pode ser conseguida com recursos marinhos ou atraves da caca. Portanto, estruturas ligadas a estas atividades e que devem ser buscadas dentro do territorio anual do grupo.

Gregg (1988) comenta que as estrategias de subsistencias de coleta e de producao tem sido consideradas incompativeis e, portanto examinadas isoladas. Entretanto, os grupos tribais que produzem alimentos continuam a ter uma dependencia na coleta de produtos. No caso das aldeias localizadas no litoral a coleta pode propiciar uma maior estabilidade dos estabelecimentos, fato que defendemos para a regiao do baixo vale do Ribeira. Alem da coleta de recursos marinhos, a presenca de varias especies selvagens tem sido mencionada pelos principais cronistas do seculo XVI informacoes estas sistematizadas por Tenorio (1994).

A principal especie vegetal consumida e a mandioca, de acordo com as informacoes etno-historicas. A caca e a coleta tambem devem ter tido um papel importante na dieta alimentar, sendo que alguns vestigios permanecem no registro arqueologico. Por se tratar de uma area umida tropical os vestigios organicos nao permanecem no registro arqueologico, sendo que os procedimentos de plantio e preparacao podem ser inferidos de maneira indireta com a analise da cultura material.

Descricoes genericas sobre a mandioca, o tipo de ptantio e a sua utilizacao aparecem na documentacao textual do seculo XVI relacionada as terras americanas.

Como mencionamos anteriormente, Hans Staden apresentou um relato detalhado sobre a plantacao da mandioca e do seu preparo.
   Quando querem plantar, derrubam as arvores do lugar que para isso
   escolheram, e deixam-nas secar por cerca de tres meses. Entao lhes
   deitam fogo e queimam-nas. Depois fincam as mudas da planta de
   raizes que usam como pao, entre as cepas das arvores. Este vegetal
   se chama mandioca. E um arbusto de uma braca de altura e que cria
   tres raizes. Quando querem preparalas, arrancam os arbustos,
   destacam-lhes as raizes e enterram de novo os pedacos das hastes.
   Estas pegam e se desenvolvem tanto em seis meses, que podem ser
   utilizadas (op. cit., 162).


No mesmo texto sao descritas a tecnica de processamento dos alimentos, com um enfoque principal no preparo da mandioca.
   Preparam a mandioca de tres modos. Primeiro: trituram sobre uma
   pedra as raizes totalmente, em pequenos grumos, extraindo o suco
   com um cone, feito de casca de palmas e chamada de tipiti. Deste
   modo se torna seca a massa, que depois passam numa peneira. Da
   farinha fazem bolos fininhos. A vacila na qual secam e torram
   sua farinha e feita de barro queimado e tem forma de uma grande
   travessa. Segundo: tomam as raizes frescas, deitam-nas nagua,
   deixando-as ai apodrecer; retiram-nas entao e secam-nas na fumaca
   sobre o fogo. Chamam a estas raizes secas carima. Conservam-se por
   muito tempo. Quando os selvagens querem utiliza-las, esmagam-nas
   em um almofariz de madeira. Isto da uma farinha branca. Co elas
   fazem bolos que se chamam beijus. Terceiro: tomam mandioca bem
   apodrecida, nao a secam, mas a misturam com seca e verde. Obtem
   assim, torrando, uma farinha que se conserva perfeitamente um ano.
   E boa tambem para comer.


A mencao a utilizacao da mandioca aparece em todas as cronicas, confirmando o seu papel como dieta basica entre todos os grupos. (4) A descricao de Gandavo feita em 1570 (1964:35) complementa as informacoes anteriores.
   Primeiramente tratarei da planta e raiz de que os moradores fazem
   seus mantimentos que la comem em logar de pao. A raiz se chama
   mandioca, e a planta de que se gera he da altura de hum homem pouco
   mais ou menos. Esta planta nam he muito grossa, e tem muitos
   nos;quando a querem plantar em alguma roca cortam-na e fazem-na em
   pedacos, os quais metem debaixo da terra, depois de cultivada, como
   estacas e dahi tomao arrebentar outras plantas de novo: e cada
   estaca destas cria tres ou quatro raizes e dahi pera cima (segundo
   a virtude da terra em que se planta) as quaes poem nove ou dez
   meses em se criar: salvo em Sam Vicente que poem tr6s annos por
   causa da terra ser mais fria.

      Estas raizes a cabo deste tempo se fazem mui grandes a maneira
   de Inhames de S. Thome, ainda que as mais dellas sam compridas,
   e revoltas de feicao de corvo de boi.


A descricao do processo de preparacao da mandioca tambem aparece como uma constante, com pequenas variacoes no tipo de artefato utilizado. (5)

O solo acido e umido das areas tropicais nao permite o estudo destes processos atraves da identificacao dos restos botanicos fossilizados ou carbonizados, mas por outro lado parte dos artefatos envolvidos tanto no plantio como na preparacao dos alimentos permanecem no registro arqueologico. Estes sao a base para a analise e inferencias sobre o padrao de subsistencia.

Estamos utilizando o termo horticultura e nao agricultura para descrever o sistema de producao de alimentos desenvolvido por estes grupos. De um modo geral o termo tem sido utilizado para designar os cultivadores de raizes, cujo sistema de plantio tem varias implicacoes em termos espaciais e consequente organizacao do grupo. (6)

A adocao do cultivo como a estrategia de alimentacao esta relacionada a uma serie de implicacoes para a organizacao social da populacao. Alguns mecanismos devem ser um pre-requisito para a producao de alimentos, e outros devem ser desenvolvidos para garantir todo o processo: planejamento, plantio, colheita, processamento, consumo, conservacao e estocagem. Alem daqueles necessarios para a mediacao dos conflitos internos e defesa do territorio.

A combinacao de cultivos, com instrumentos basicos de trabalho e as tecnicas de conservacao do solo formam o sistema agricola.

Uma primeira indagacao a ser feita, deve envolver o tipo de energia utilizada. No caso do leste da America do sul onde nao houve a domesticacao de animais de grande porte, toda a energia utilizada foi a humana.

Deste modo, sao tres os principais fatores criticos do sistema de pousio de longa duracao, mais conhecido como roca ou swidden ou slash and burn, como deve ter sido empregado pelos primitivos horticultores:

1. Disponibilidade de terra.

2. Disponibilidade do trabalho exigido para produzir a cultura principal.

3. Extensao da estacao de crescimento da plantacao durante a qual a cultura ou culturas principais podem ser produzidas.

Desta forma, o sistema envolve: estrategias de obtencao, organizacao e tecnologia. Podemos para facilitar a nossa sistematizacao de dados considerar as seguintes variaveis que envolvem o emprego de energia e do modo de trabalho:

* Manufatura e manutencao dos artefatos envolvidos no cultivo e processamento dos alimentos

* Transporte, percurso para a area de cultivo

* Cultivo e os passos para preparacao do solo

* Processamento das especies cultivadas

* Estocagem das especies produzidas.

Todas as acoes acima mencionadas envolvem um custo de energia, que deve ser medido em relacao ao retorno obtido, que esta relacionado com tipo de organizacao e de dominio tecnologico.

Pensamos que a identificacao arqueologica destas variaveis representa um importante passo para a caracterizacao do sistema e consequentemente da organizacao social dos grupos envolvidos

Os horticultores da costa do Brasil, de acordo com os dados identificados ate agora, ja chegaram na regiao com o processo de domesticacao desenvolvido, devendo sua origem ser buscada em outra regiao. Provavelmente na Amazonia, de acordo com as teorias migratorias aceitas para os grupos de filiacao Tupi-guarani.

Para caracterizar o sistema de subsistencia das sociedades tribais, fizemos a analise das possibilidades de captacao de recursos, tendo como exemplo uma aldeia. Para a pesquisa foi feita uma adaptacao da abordagem de "site catchment analysis" de Vita-Finzi e Higgs, 1970 (Scatamacchia, et ai., 1991). (7) Trata-se do sitio Mineracao, de um unico componente, com um extrato arqueologico de 40 cm localizado sobre uma area elevada proxima do corrego Cajuva, que desagua no Mar Pequeno. A area do sitio e rodeada de elevacoes montanhosas com cobertura vegetal de Mata Atlantica.

Como nos ultimos 2.500 anos nao ocorreram modificacoes significativas no ambiente, consideramos as disponibilidades atuais para inferir os recursos que poderiam ter sido utilizados pelo grupo que habitou o sitio ha 500 anos atras.

No caso dos grupos horticultores as possibilidades de transformacao do ambiente podem ser verificadas atraves da analise dos artefatos e ecofatos, que como ja mencionamos se resume em dados bem reduzidos. Isto significa ceramica, pedra, alteracoes da coloracao do solo e modificacoes da cobertura vegetal. A area hipotetica a ser considerada para a captacao de recursos levou em conta a quantidade de recursos necessarios a sobrevivencia do grupo e a manutencao do seu sistema de organizacao.

Atraves da aplicacao do metodo foi possivel elaborar alguns quadros de referencia com o recurso disponivel, a informacao textual das especies utilizadas pelo grupo e a informacao contida no registro arqueologico. Neste sentido alguns termos relacionados a esta metodologia foram utilizados:

-- Home-base- identificada como a area do sitio em si;

-- Site territory-territorio ao redor do sitio cotidianamente pelos seus habitantes;

-- Annual territory-area total explorada pelo grupo atraves do ano. Pode conter um ou mais territorio de sitio.

No processo de observacao do ambiente e dos aspectos considerados na nossa analise, achamos importante conceituar precisamente os aspectos que foram observados para reconstituir o sistema de captacao. Esta posicao partiu do alerta dado por Gandara (1987) da necessidade de formular uma teoria da observacao em arqueologia, que possibilite uma analise critica do conhecimento produzido e a sua utilizacao como dado empirico.

Retomando o que ja foi colocado em trabalho anterior (op. cit., 1991), foram identificadas algumas unidades de observacao de onde foram tirados os dados referentes a disponibilidade de recursos alimentares e a materia prima necessaria para a realizacao das atividades de cultivo e processamento. No raio de 5 km em volta do sitio considerado como exemplo foram consideradas as seguintes unidades de observacao:

Mata Atlantica, com recursos disponiveis de caca e coleta. Neste tipo de floresta tropical existe uma grande diversidade de especies vegetais e animais, inclusive de grande porte. Constitui, portanto, uma unidade de captacao por excelencia.

Mata de Galeria, abriga algumas especies frutiferas e animais de pequeno porte, sendo que no local foi identificada a presenca de argila, utilizada como materia prima para a fabricacao de artefatos.

Riacho possui recursos faunisticos fluviais e periodicamente tambem maritimos, pois a sua localizacao margeando o sitio arqueologico esta a aproximadamente 1,5 km do mar.

Oceano Atlantico, o sitio esta localizado proximo ao Mar Pequeno, que e um braco interior do oceano e um repositorio de inumeros recursos faunisticos.

Mangue, com vegetacao e recursos faunisticos disponiveis para a coleta.

Terra Cultivavel, identificada hipoteticamente com as areas disponiveis na proximidade do sitio e apropriadas para o cultivo da mandioca.

Afloramentos litologicos e Jazida de ceramica, identificados no entorno do sitio e que devem ter servido como materia prima para a producao de artefatos.

Partindo destas unidades com potencial para captacao e producao de alimentos, foi efetuado o levantamento dos recursos disponiveis atualmente. O resultado foi correlacionado com aquele fornecido pela documentacao textual do seculo XVI e com os dados resgatados do registro arqueologico. Nesse trabalho foi possivel propor um modelo de ciclo anual sobre a subsistencia do grupo, a partir da distribuicao dos principais recursos disponiveis durante o ano.

[FIGURA 3 OMITIR]

[FIGURA 4 OMITIR]

Os quadros a seguir constituem uma tentativa de sistematizar as informacoes sobre a disponibilidade de recursos ao longo do ano tendo.

Complementando a dieta basica, a coleta, caca e pesca, supre as proteinas necessarias. O levantamento atual feito nas unidades de observacao no entorno do sitio foi correlacionado com as indicacoes da documentacao textual e dos vestigios que permaneceram no registro arqueologico. Partindo destas unidades foi efetuado o levantamento dos recursos disponiveis atualmente, que foram correlacionados com aqueles fornecidos pela documentacao textual do seculo XVI e os dados resgatados do registro arqueologico.

A caca e a pesca foram descritas de maneira detalhada na obra de Hans Staden:
   Para onde quer que vao, seja no mato ou nagua, sempre levam consigo
   arco e flechas. Quando andam pela floresta, voltam o rosto
   fixamente de tempos em tempos para o alto das arvores. Percebendo
   algum indicio de passaros grandes, macacos ou outros animai, que
   nelas vivem, dao-lhes caca, esforcando-se por atira-los e
   perseguem-nos ate consegui-los. Raras vezes vem de maos vazias
   aquele que vai a caca.

      Assim tambem seguem os peixes, perto da praia. Tem a vista
   agucada. Quando algures vem um peixe a tona, atiram-no, e poucas
   setas falham. Logo que um peixe e alcancado, saltam nagua e nadam
   atras. Muitos peixes grandes afundam, quando sentem em si a flecha.
   Mergulham ao seu encalco, ate cerca de seis bracas de profundidade,
   e trazem-nos para fora.

   Alem disso, tem pequenas redes ... (op. cit., 159).


A analise dos quadros mostra de maneira clara a parcialidade da cultura material que permanece no registro arqueologico nas areas tropicais umidas. Uma grande quantidade de artefatos que foram confeccionados em madeira e palha, nao e preservada. Multas vezes, eles constituem o instrumental basico para a realizacao de determinadas tarefas, sendo que sem a informacao etnografica, direta ou atraves da analogia, seria dificil a reconstituicao de muitas atividades.

No trabalho realizado, foi possivel propor um modelo de ciclo anual sobre a subsistencia do grupo, a partir da distribuicao dos principais recursos disponiveis durante o ano.

Este esquema generico suporta algumas hipoteses sobre a exploracao do territorio de sitio, com um primeiro parametro para a regiao em termos de area necessaria para a exploracao, e os possiveis periodos de saida para explorar o territorio mais amplo. A partir dos dados obtidos neste estudo foi possivel montar uma proposta hipotetica do ciclo anual, tendo como base a mandioca, sob a forma de farinha esta disponivel todo o ano, diminuindo no periodo que antecede a colheita, isto e, janeiro, fevereiro, junho e julho.

Os recursos do mar, e da floresta, mesmo estando disponivel praticamente o ano todo, possuem periodos de maior abundancia e de facilidade de coleta.

Levantamos a possibilidade do periodo de facilidade de obtencao e de abundancia de recursos coincidirem com os periodos de festas e dos rituais de guerra. Esta situacao foi estabelecida em um trabalho anterior ja citado (op.cit.:61).
   Os meses que podemos considerar como de maior escassez seriam junho
   e julho, com o fim do periodo dos periodos agricolas, antecedendo a
   colheita da mandioca e tendo como complementacao apenas a pesca,
   visto que a coleta de produtos vegetais tambem sofre uma diminuicao
   no inverno.

      Estes periodos de abundancia e escassez estao ligados as
   atividades e a organizacao do grupo. Se no periodo de abundancia
   estao concentradas as atividades sociais de carater grupai e
   cerimonial, provavelmente seria no de escassez que parte do grupo
   se deslocaria para a exploracao de um territorio mais amplo. Estes
   deslocamentos podem estar ligados tanto a exploracao de outros
   territorios em busca de recursos alimentares ou materia prima, como
   a incursoes guerreiras, ou os dois.

      No caso da captura de prisioneiros, o retorno a aldeia
   coincidiria com a colheita e com a piracema, que proporcionariam
   recursos abundantes para a comemoracao.

      Esta saida de parte da populacao diminuiria a quantidade de
   pessoas na aldeia para alimentar, possibilitando a sua permanencia
   por um periodo mais longo dominando a area ao seu redor capaz de
   fornecer recursos para a sua manutencao.


Estamos reproduzindo a seguir o ciclo anual de subsistencia, que deve ser considerado como um ponto de partida para o estudo e caracterizacao do padrao de subsistencia das sociedades tribais de filiacao linguistica tupiguarani, localizadas no litoral. (12)

O balanco das variaveis disponIveis vai orientar as novas pesquisas, na busca dos dados necessarios para conseguir chegar ao nivel explicativo.

Resumindo, considerando a natureza dos dados disponiveis, a maioria das informacoes sobre o "padrao de subsistencia" dos grupos de filiacao linguistica tupi-guarani, portadores da "tradicao ceramista" tupiguarani sao provenientes das fontes textuais do seculo xvJ. Algumas especificas para a regiao, outras tomadas por "analogia".

Os dados empiricos resultantes das pesquisas arqueologicas sao produto de trabalhos parciais e a ampliacao dos dados sera feita a partir do quadro atual.

O padrao de subsistencia esta baseado na producao de alimentos atraves do sistema denominado de Horticultura, que e uma agricultura de carater extensivo, tambem conhecido como roca, complementada pela coleta, caca e pesca. A area de captacao de recursos diaria pode ser realizada em um raio de 1,5 km em torno da aldeia que estao situadas na proximidade do mar.

[FIGURA 5 OMITIR]

Caracterizacao do sistema de producao desenvolvido no Baixo Vale do Ribeira

A tentativa de caracterizar o modo de vida dos grupos produtores de alimento que ocuparam o Baixo Vale do Ribeira ate a chegada dos europeus e uma construcao teorica deste processo na costa brasileira visando uma correlacao com os outros processos que ocorreram em outras partes da America.

A reconstituicao de um sistema de producao significa entender os mecanismos das atividades, procedimentos, organizacoes e tecnologias que o grupo usou para extrair materia e energia do meio ambiente em que ele esta instalado. Significa identificar o modo de producao e de trabalho do grupo e os meios.

Producao e consumo sao processos comuns a toda sociedade. O modo de producao tem dois elementos inseparaveis, o processo de producao que envolve tecnica e instrumentos e a relacao de producao, que e especifica historicamente. No caso dos grupos enfocados estas inferencias so podem ser feitas atraves da analogia com as informacoes textuais e iconograficas do seculo XVI, que podem ser correlacionados tambem com dados etnograficos atuais.

Nas sociedades igualitarias, como a sociedade tribal analisada, os produtores detem diretamente o controle dos meios para a realizacao do trabalho. Existe a divisao entre os generos e uma sobreposicao entre os membros da producao e as unidades de consumo, pois o controle dos meios de producao e comum.

Para entender como funciona e as possibilidades ambientais especificas, temos que levar em conta o sistema agricola empregado para a producao do elemento basico da dieta e as estrategias de procura para os elementos complementares, que no caso, corresponde a coleta de plantas selvagens, pesca e caca. Esta procura sempre focaliza em particular alguns produtos que sao uteis, levando-se em conta a sua producao de calorias.

Early (1980:4) sintetiza bem esta relacao de produtos com organizacao de estrategias:
   To summarize, the subsistence economy with its component procurement
   strategies links a cultural group with its environment. All three
   sectors--the environment, the subsistence economy, and the
   culture--are involved in a complex set of feedback relationships.
   A desired resource in the environment imposes requirements for
   procurement strategies, which may, in turn, select for particular
   organizational and cultural changes. Conversely, a human
   population, with its specific cultural forms, selects particular
   procurement strategies that in turn alter the environment, both
   purposefully and incidentally.


As estrategias de procura podem ser tentativamente pensadas tendo como base as informacoes etnograficas atuais de procedimentos de grupos indigenas ainda vivos e as informacoes dos cronistas do seculo XVI sobre os grupos que encontraram na costa, que no caso fornecem a maioria dos dados utilizados. As estrategias envolvem instrumentos para a execucao, deslocamento para a area de coleta e em alguns casos processamento e estocagem. No caso da coleta nao foram encontrados artefatos especificos para as funcoes caca ou pesca, apenas algumas pedras perfuradas que podem ter sido utilizadas como pesos. (13)

Examinando o mapa de captacao de recursos com a delimitacao das areas possiveis de exploracao diaria do sitio Mineracao pode-se verificar que a uma pequena distancia varios recursos estao a mao. Os recursos selvagens mencionados sao produto de um primeiro levantamento generico e corresponde mais a um quadro do que e possivel na regiao do que a um quadro de especies realmente que foram consumidas. Um trabalho multidisciplinar podera complementar e precisar estes dados.

Dentro do circulo de 5 km de diametro e possivel ter acesso aos recursos necessarios para a manutencao do grupo no local. Ainda dentro desta area delimitada pudemos identificar a presenca de afloramentos de materia prima que constituem o aparato tecnologico do grupo: pedra e argila.

Cada uma das unidades de captacao observadas exerce um papel importante. Tanto na mata Atlantica como na de Galeria, puderam conseguir caca de varias dimensoes, alem de frutas e vegetais silvestres. O corrego Cajuva deve ter fornecido peixes e moluscos, o abastecimento de agua doce e constitui o meio mais rapido de se chegar ao Mar Pequeno, navegando. O oceano, como enorme fonte de recursos possibilitou um maior grau de sedentarizacao dos estabelecimentos Iocalizados nas areas litoraneas.

A repeticao do circulo com o mesmo diametro para os sitios Iocalizados nas proximidades e ao longo da linha costeira apresenta a mesma adequacao.

Com referencia ao possivel processamento das especies selvagens temos alguns procedimentos fornecidos pelos cronistas. Gandavo continuando a sua descricao sobre a plantacao de mandioca comenta sobre a coleta (op. cit.:58).
   Alem disto ajudam-se de carne de muitos animais que matam, assi com
   frechas como por industria de seus lacos e fojos onde costumam
   cacar a mor parte delles.

      Tambem se sustentam de muito marisco e peixes que vao pescar
   pela costa com jangadas, que Saro huns tres ou quatro paos ...


Mas, sao as informacoes de Hans Staden que dao o detalhes sobre as tecnicas de coleta.
   Assim tambem seguem os peixes perto da praia. Tem a vista agucada.
   Quando alguns vem um peixe a tona, atiram-no, e poucas setas
   falham. Logo que um peixe e alcancado, saltam nagua e nadam-lhe
   atras. Muitos peixes grandes afundam, quando sentem em si a flecha.
   Mergulham ao seu encalco, ate seis bracas de profundidade e
   trazem-nos para fora.

      Alem disso tem pequenas redes. O fio com que as emalham,
   obtem-no de folhas longas e pontudas, que chamam tucum. Quando
   querem pescar com estas redes, juntam-se alguns deles e colocam-se
   em circulo na agua rasa, de modo que a cada um cabe um determinado
   pedaco de rede. Vao entao uns poucos no centro da roda e batem na
   agua. Se algum peixe quer fugir para o fundo, fica preso a rede.


Tambem se refere aos procedimentos em relacao a caca:
   Quando andam pela floresta, voltam o rosto fixamente de tempos em
   tempos para o alto das arvores. Percebendo algum indicio de
   passaros grandes, macacos ou outros animais, que nelas vivem,
   dao-lhes caca, esforcando-se por atira-los e perseguem-nos ate
   consegui-los. Raras vezes vem de maos vazias aquele que vai a caca
   (op. cit.:159).


Com base nas informacoes levantadas podemos resumir que a coleta foi ampla e constituia uma parcela representativa na alimentacao. (14)

Frutos e palmeiras eram consumidos em natura ou utilizacao para fabricacao de bebidas.

Vegetais e ervas eram consumidos para fumar, como remedio ou alucinogeno.

Os animais obtidos atraves da caca ou da pesca eram consumidos cozidos ou sobre a forma de farinha. Esta ultima parece ter sido a mais comum.
   Quando querem preparar uma comida de peixe ou de carne, que deve
   durar muito tempo, deitam o peixe ou a carne sobre pequenos paus a
   altura de quatro palmos acima do fogo, que fazem em baixo, de
   formato adequado, deixando o alimento assar e defumar ate que fique
   completamente seco. Quando mais tarde querem come-lo, cozinham-no
   de novo. Chamam esta comida de moquem


Quando a estocagem, parece nao ter havido uma preocupacao para grandes quantidades, dada a abundancia de recursos, sendo que eram utilizadas basicamente as cabacas e as vasilhas ceramicas produzidas para conservar e guardar os alimentos. (15) Nao foram encontrados outros tipos de artefatos ou estruturas que pudessem estar ligados a alguma funcao de estocagem.

[FIGURA 6 OMITIR]

[FIGURA 7 OMITIR]

[FIGURA 8 OMITIR]

[FIGURA 9 OMITIR]

Informacoes iconograficas e artefatos

Assim, para uma primeira caracterizacao do padrao atividade de producao do grupo procuramos sistematizar os dados referentes aos artefatos relacionados com cada etapa do plantio.

Derrubada das arvores feita pelos homens com machados de pedra, sendo que a etapa posterior de plantacao e colheita cabe as mulheres.

Os artefatos utilizados sao de pedra polida, machados utilizados no primeiro momento do plantio e, batedores com almofariz alem de outros artefatos de pedra lascada que sao usados para descascar e preparar a mandioca.

Nas descricoes de Staden (op. cit.:162) podemos obter essas informacoes sobre o processo de trabalho.
   Quando querem plantar, derrubam as arvores do lugar que para isso
   escolheram, e deixam-nas secar por cerca de tres meses. Entao lhes
   deitam fogo e queimam-nas. Depois fincam as mudas da planta de
   raizes que usam como pao, entre as cepas das arvores. Este vegetal
   se chama mandioca. E um arbusto de uma braca de altura e que cria
   tres raizes. Quando querem preparalas, arrancam os arbustos,
   destacam-lhes as raizes e enterram de novo os pedacos das hastes.
   Estas pegam e se desenvolvem tanto em seis meses, que podem ser
   utilizadas.


Em um trecho anterior comenta sobre o trabalho das mulheres.
   Dirigimo-nos para uma praia, aberta ao mar. Bem perto trabalhavam
   as mulheres numa cultura de plantas de raizes, que eles chamam
   mandioca. Estavam ai muitas delas, que arrancavam raizes... (op.
   cit.:87)


Sobre a preparacao de bebidas existe mencoes em varios textos, mas a descricao feita por Hans Staden (op. cit.:165) apresenta todos os detalhes para se conhecer a sequencia de procedimentos.
   As mulheres fazem as bebidas. Tomam raizes de mandioca e cozinham
   grandes paneladas cheias. Uma vez cozida, retiram a mandioca da
   panela, passam-na em outras, ou em vasilhas, e deixam-na esfriar um
   pouco. Entao se assentam as meninas perto, mascam-na, colocando-a
   numa vasilha especial.

      Quando rodas as raizes cozidas estao mastigadas, poem de novo a
   massa na panela, deitam-lhe agua, misturam ambas, e aquecem de novo.

      Tem para tal vasilhas adequadas, que enterram a meio no chao, e
   que empregam como aqui os toneis para vinho e cerveja. Despejam
   dentro a massa e fecham bem as vasilhas. Isto fermenta por si e
   fica forte. Deixam-na assim repousar dois dias ...


A comparacao das imagens contidas nas fontes textuais com a documentacao material que tem sido resgatada em toda a area de ocupacao do grupo, mostra uma concordancia em termos de forma e utilizacao, guardando as possiveis diferencas de carater regional.

Complementando as descricoes anteriores e como contraponto ao ciclo anual de subsistencia, o comentario sobre as bebidas, que sao feitas duas vezes ao ano, sendo que uma delas e novembro.
   Uma destas epocas e em novembro, quando amadurece o milho, que
   chamam abati, e com o qual preparam uma bebida chamada cauim.
   Empregam tambem ai a raiz de mandioca, de que misturam um pouco.
   Logo que voltam da sua excursao guerreira com abati maduro, preparam
   a bebida e devoram nesta ocasiao os seus inimigos (op. cit.:72).


O ritual antropofagico aparece descrito e ilustrado em multas cronicas assim como todo o aparato utilizado.

Os exemplos apresentados retratam a riqueza de informacoes indiretas que existem para a analise do padrao de subsistencia das sociedades tribais da costa do Brasil. (12)

A situacao criada pelo sistema agricola adotado reflete no padrao de assentamento do grupo que sera analisado na sequencia do projeto em desenvolvimento.

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(1) Esta proposta e consequencia de um projeto mais amplo de Uniformizacao da Terminologia Arqueologica Americana, que esta sendo desenvolvido pelo Comite de Arqueologia do Instituto Panamericano de Geografia e Historia.

(2) Para algumas regioes mais densamente povoadas, como por exemplo, a baia de Guanabara e a regiao do Guaira, podem ser apontadas algumas alteracoes, com o aparecimento de hierarquias de aldeias e de personagens (Clastres, 1978).

(3) Estamos nos referindo ao conjunto que tem sido classificado dentro da tradicao ceramista "tupiguarani", estabelecida pelo Programa Nacional de Pesquisa Arqueologica, na decada de sessenta: "Apos consideracoes de possiveis alternativas, nao obstante suas conotacoes linguisticas, foi decidido rotular como tupiguarani (escrito numa so palavra) esta tradicao ceramista tardia amplamente difundida, considerando ja ter sido o termo consagrado pela bibliografia e tambem a informacao etno-historica estabelecer correlacoes entre as evidencias arqueologicas e os falantes de lingua tupi e guarani, ao longo de quase todo territorio brasileiro" (PRONAPA, 1969:10).

(4) Os grupos Guarani Iocalizados nas areas meridionais, Uruguai e noroeste da Argentina, tambem utilizavam o milho.

(5) Processo que ainda e utilizado pelas populacoes atuais.

(6) Este tipo de cultivo se inclui dentro do que na literatura tradicionalmente tem sido definido como "agricultores da floresta tropical ou ainda agricultores incipientes".

(7) Este trabalho foi feito no sitio Mineracao, situado na localidade de Icapara, municipio de Iguape, litoral sul de Sao Paulo, Brasil.

(8) Os dados tem como base as informacoes das cronicas da primeira metade do seculo XVI, por conterem informacoes sobre os costumes dos grupos indigenas antes do processo de catequese e aculturacao.

(9) Os dados arqueologicos sao provenientes de pesquisa sistematica realizada em um sitio e a coleta superficial de material nos sitios localizados.

(10) As especies apontadas nas cronicas ainda existem na regiao e integram o levantamento atual das especies.

(11) As especies apontadas nas cronicas ainda existem na regiao e integram o levantamento atual das especies.

(12) Para as aideias localizadas no interior a area de captacao e os segmentos do ciclo de subsistencia deve ter outra dimensao, sem a disponibilidade dos recursos do mar.

(13) Grande numero destas pedras foram encontradas no sitio Toca do Bugio, mas como o sitio foi destruido, nao temos como afirmar com seguranca em que periodo foram utilizadas.

(14) Um inventario de especies e de tecnicas de obtencao estara compondo a publicacao final, assim como um estudo mais detalhado sobre o consumo e rentabilidade da mandioca. Esses dados vao permitir inferencias sobre a densidade demografica dos grupos nas diferentes regioes.

(15) De acordo com as informacoes etno-historicas e os dados arqueologicos, muitas das grande vasilhas que foram fabricadas para a fabricacao de bebidas, foram posteriormente utilizadas como urnas funerarias.

(16) Um inventario completo sobre a cultura material estara presente na publicacao final do projeto ao qual este artigo esta relacionado.

Maria Cristina MINEIRO SCATAMACCHIA, Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Sao Paulo, Bolsista do CNPq.
Quadro 1

Relacao entre os dados relativos ao cultivo da mandioca contidos
na documentacao textual e a cultura material que
permanece no registro arqueologico

   Dados Etnograficos (8)             Dados Arqueologicos (9)

                                   Cultura material
                                   envolvida para o
    Especie         Mandioca        processamento

Cultivo-tecnica   Derrubada e     Enxadas e machados   Lamina de
                  queima-roca                          machado
                  (slash and      Bastao de madeira    de pedra
                  burn)                                polida
Colheita-         Colheita cada
periodicidade     seis meses
Preparacao        Ralar           Ralador-madeira e    Micro lascas
                  Espremer        lascas               de pedra
                  Torrar
                                  Tipiti de fibra      Pratos com
                                  vegetal              fundo chato de
                                  Torrador de          ceramica
                                  ceramica             Grandes vasos
                  Fermentar       Vasos de ceramica    de ceramica
                  para a bebida

Quadro 2

Relacao entre os dados relativos a caca, contidos na documentacao
textual e a cultura material que permanece no registro arqueologico

Dados Etnograficos                Dados Arqueologicos

                                      Cultura
Especies              Penodicidade    material

Mamiferos:                                         Fragmentos de
                                                   carapaca de tatu
Tatu                                  Flecha
Veado                                 Armadilha    Ossos longos de
Porco do mato                                      mamiferos
Gamba                                              s/identificacao de
Capivara                                           especie
Macaco
Aves:                 Disponivel      Flecha       Ossos de aves
Especies nao          todo o ano                   s/identificacao de
identificadas                                      especie
Repteis:                              Flecha
Lagarto                               Armadilha

Quadro 3

Relagao entre os dados relativos a pesca, contidos na documentagao
textual e a cultura material que permanece no registro arqueologico

      Dados Etnograficos              Dados Arqueologicos

                                  Cultura          Vestigios
Especies (10)    Periodicidade    material        faunisticos

Parati             Ano todo        Canoa           Vertebras
                                                    de peixe
                  Maiolagosto                   s/identificacao
                                                   de especie
Tainha
Sargo                                         Mandibula de  sargo
Manjuba

(10) As especies apontadas nas cronicas ainda existem na regiao e
integram o levantamento atual das especies.

Quadro 4

Relacao entre os dados relativos a coleta, contidos na documentacao
textual e a cultura material que permanece no registro arqueologico

      Dados Etnograficos                  Dados Arqueologicos

                                       Cultura         Vestigios
Especies (11)    Periodicidade         material        faunisticos

                                                       Ostra
Ostra            Ano todo-menos        Canoa           Cassostrea
                 junho a agosto                        rhizophorae
                                       Artefatos de    Berbigao
                                       pedra
                                                       Anomalogardia
                                       Cestaria        brasiliana
                 Ano todo-menos
Caranguejo       novembro/dezembro
Siri             Ano todo-menos
                 novembroldezembro
Mel              Ano todo                              Resina de
                                                       Jatoba
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Author:Mineiro Scatamacchia, Maria Cristina
Publication:Revista de Arqueologia Americana
Date:Jan 1, 2006
Words:10540
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