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O processo de formacao do municipio de Santa Teresa (Espirito Santo) a luz de algumas teorias sobre migracoes.

The Formation of the Municipality of Santa Teresa (Espirito Santo) in Light of Some Migratory Theories

El proceso de formacion del municipio de Santa Teresa (Espirito Santo) a la luz de algunas teorias acerca de migraciones

Os fluxos migratorios internacionais ocorreram em diversos momentos da historia. Alguns deles foram responsaveis pela colonizacao e/ou povoamento de algumas areas da America. Varios fatores podem ser levados em conta na analise desses movimentos migratorios, dentre eles as condicoes de vida e oportunidades de emprego nos paises de origem e destino, alem da existencia de uma possivel tradicao migratoria. Assim, o objetivo deste artigo e, por meio de algumas teorias que explicam as migracoes, analisar o fluxo migratorio do Norte da Italia para o estado do Espirito Santo (Sudeste do Brasil), especificamente, para o municipio de Santa Teresa, a partir de 1874/1875 (1)-denominada, inicialmente, como Nucleo Timbuy. A analise do referencial teorico sera complementada por uma pesquisa bibliografica, documental e de campo (selecao de seis entrevistas com descendentes de imigrantes, oriundos das familias mais antigas que se estabeleceram e permaneceram em Santa Teresa).

Dentre as diversas teorias existentes ligadas as areas da Economia, Demografia e Sociologia que explicam esse complexo objeto de estudo que e a migracao, selecionamos aquelas que dialogam com o contexto de Santa Teresa em seu momento inicial de formacao, sao elas: 1) fatores de push e pull, 2) seletividade dos migrantes, 3) analises institucionais, 4) a cultura migratoria e as redes migratorias e 5) abordagem com foco na familia e no domicilio. Esse recorte nos permite averiguar a existencia de algumas caracteristicas marcantes no caso de Santa Teresa no que se refere as motivacoes para a migracao, ao perfil do imigrante, a formacao de redes sociais que favoreceram esse movimento e a atuacao de instituicoes para sua consolidacao.

Os fatores de push e pull

Ressaltamos, no contexto das teorias que explicam o fenomeno da migracao, o pioneirismo de Ravenstein (1980), que analisou as migracoes internas na Inglaterra a partir dos dados dos Censos de 1871 e 1881. Partindo de alguns pressupostos, Ravenstein postulou suas leis sobre a migracao, que, apesar das criticas de outros teoricos, representaram um primeiro passo na tentativa de se compreender os motivos que levam os individuos a migrarem. Lee (1980), partindo das proposicoes feitas por Ravenstein, propos que, em todo movimento migratorio, sempre havera um local de origem, um local de destino e uma serie de obstaculos intervenientes que deverao ser vencidos pelo migrante. Todo lugar para o migrante em potencial -incluindo o local de origem- apresentaria, segundo Lee, fatores de expulsao (push), que tenderiam a estimular as pessoas a deixa-lo; fatores de atracao (pull), que tenderiam a manter as pessoas nesse local, e fatores neutros. As pessoas tenderiam a nao migrar, pois existiria uma "inercia natural" que so seria vencida caso o saldo em favor da migracao fosse fortemente positivo. Depois de Lee, varios autores analisaram o fenomeno da migracao pautando suas analises nos fatores de push e pull nos locais de origem e destino (Lewis 1954; Ranis e Fei 1961, Sjaastad 1962; Todaro 1969; Harris e Todaro 1970), assim como conjugaram esse tipo de analise com abordagens motivacionais da tomada de decisao de migrar (Harbison 1981). Podemos levantar alguns fatores de push e pull responsaveis pela migracao do Norte da Italia para Santa Teresa, no Espirito Santo.

A partir desses pressupostos, podemos considerar uma serie de fatores de repulsao (push) que se configuraram no Norte da Italia, area de origem do fluxo migratorio estudado, e alguns fatores de atracao (pull) no Brasil e na Provincia do Espirito Santo. Esses fatores levaram parte da populacao do Norte da Italia a se deslocar para o Brasil e, especificamente, para Santa Teresa (Nucleo Timbuy), no Espirito Santo. Os autores que versam sobre essa tematica -dentre os quais destacamos Grosselli (2008), Trento (1989), Busatto (2002) e Derenzi (1974)-, abordam as causas que levaram milhares de italianos do Norte da Italia, principalmente das regioes de Trento e Veneto, a abandonarem sua terra e migrar para o Brasil. Os mesmos autores apresentam os interesses dos governos do Brasil e do Espirito Santo em atrairem esses imigrantes e as propostas de trabalho que lhes foram feitas.

Fatores de Push do Norte da Italia (seculo XIX)

A partir dos autores que trataram do tema imigracao italiana para o Brasil e, mais especificamente, para o Espirito Santo (Grosselli 2008; Trento 1989; Busatto 2002; Derenzi 1974), e possivel indicar que um cenario desfavoravel ao campones do Norte da Italia estava se configurando desde a segunda metade do seculo XIX. De um modo geral, esses autores apontam: o desenvolvimento do capitalismo que expulsou boa parte dos camponeses de sua terra; a superpopulacao; a falta de terras para cultivar devido ao reduzido tamanho dos terrenos; o relevo muitas vezes acidentado e o solo varrido por seguidas enchentes; os altos tributos; a inseguranca e o medo em meio as guerras pela unificacao; o redimensionamento das fronteiras com a Austria; a miseria, a fome e as doencas que atingiam muitas familias em regioes de fronteira mais ao norte da recem-unificada Italia.

Desses males, as guerras talvez fosse o mais cruel. O processo de unificacao italiano, iniciado em 1848 e finalizado por volta de 1870, foi responsavel por uma serie de conflitos e guerras que deixaram em situacao precaria a populacao do Norte da Italia, local de origem da maioria dos imigrantes que se dirigiram para o Nucleo Timbuy (Nardi 2007; Cavati 1973; Derenzi 1974; Posenato 1997; Vieira 2008). Durante um longo periodo, a populacao do Norte da Italia viveu em meio a um campo de batalhas pelo fato de a regiao ser disputada por Franca e Austria (Cavati 1973, 13). O relato de AF (2) (2014, informacao verbal) ilustra como esses conflitos geraram certa confusao entre os registros de nascimento e as referencias do local de nascimento relatadas quando da entrada de varios imigrantes na entao Provincia do Espirito Santo. Nosso informante contou-nos que sua mae, Monica Corona, era natural do Trentino Alto Adige, regiao de fronteira com a Austria e possuia registro de nascimento como austriaca; entretanto, autodenominava-se italiana. Em seu registro de entrada no Arquivo Publico do Estado do Espirito Santo (Projeto Imigrantes, Arquivo Publico do Estado do Espirito Santo-APEES (3)), constou a nacionalidade italiana. Nesse mesmo relato, AF revelou que o medo da guerra levou um jovem a fugir para o Brasil e se instalar em Santa Teresa, antigo Nucleo Timbuy. "Tinha guerra e eles tinham medo. O irmao da mamae fugiu de la. Era o mais velho, o 'Gustim. Ele veio um ano antes pra ca. Ele tava na idade de ser chamado no exercito. Por isso, veio pra ca, para o Brasil. Depois de um ano, veio a familia" (AF 2014, informacao verbal). O fato pode ser comprovado com os documentos disponiveis no APEES. O documento indica a entrada de Agostino Corona e, quase um ano depois, a entrada de toda sua familia (Projeto Imigrantes, APEES (4)). A filha de imigrantes italianos, AC (2012, informacao verbal), contou que seu pai tambem emigrou para nao prestar servico militar em uma guerra.

Outro informante (I-01 2012, informacao verbal) relatou que ouvia historias sobre a inseguranca das familias e que, as vezes, o exercito italiano recolhia os estoques de alimentos e o gado das familias rurais para alimentar suas tropas envolvidas em guerras, e deixavam as familias em serias dificuldades. Ressaltamos que essa pratica do exercito italiano criava situacoes calamitosas tendo em vista que os estoques eram feitos como forma de sobrevivencia durante o inverno rigoroso, comum no Norte da Italia. Essa informacao tambem foi apresentada por Cavati (1973), quando o autor afirma que, na segunda metade do seculo XIX, "os exercitos nao so requisitavam os produtos agricolas, mas assolavam os campos" (Cavati 1973, 13). Biasutti cita o depoimento do poeta teresense Victor Biasutti, no qual claramente a inseguranca e retratada: "Dai, guerras, lutas de conquistas, nocivas sempre a maioria menos avisada, violentada, indefesa ... a ameaca da fome, acrescam-se sublevacoes, deportacoes, migracoes em massa e mortes" (Biasutti 1994, 36).

O entrevistado MM (2014, informacao verbal) ilustrou em seu depoimento a perda humana ocasionada pelas guerras. Ele contou que na familia eram quatro irmaos, um deles seu bisavo. "Surgiu uma guerra [...], entao dos quatro so sobrou meu bisavo, o pai da minha avo. Os outros morreram. Passado um tempo, a familia tornou-se dona de uma padaria, mas surgiu uma outra guerra" (MM 2014, informacao verbal). Entao, o avo e os seis filhos, dentre eles a avo do entrevistado, emigraram para o Brasil. A decisao de emigrar foi narrada pelo entrevistado da seguinte forma: "Eles falaram assim: Puxa vida! Perdemos tres da familia e agora serao os nossos filhos que vao enfrentar a guerra! Eles fizeram uma reuniao [e ponderaram] que aqui no Brasil era oferecida terra pra morar e pra viver. Vamos ficar la um tempo" (MM 2014, informacao verbal). A ideia, originalmente, era retornar quando a guerra terminasse, mas "acontece que eles vieram e nunca mais voltaram la. E a guerra nao ocorreu mais" (MM 2014, informacao verbal).

Talvez nao estivesse para comecar uma nova guerra, mas essa possibilidade amedrontava as familias (Cavati 1973, 13). E importante ressaltar que, na segunda metade do seculo XIX, o servico militar durava tres anos e a obrigatoriedade militar continuava por meio de servicos em milicias e perfazia um periodo total de 12 anos. Os homens de 19 a 36 anos que nao tivessem cumprido com essa obrigacao eram perseguidos pelas autoridades militares (Grosselli 2008, 61). Cumprir o servico militar significava estar a disposicao do exercito caso surgisse alguma guerra e isso nao era um fato raro naquela epoca. Nos dois relatos ja apresentados, servir ao exercito em tempos de guerra era uma ideia que apavorava nao somente os jovens, mas tambem suas familias, que nos casos ilustrativos emigraram para conservar sua unidade.

Mas, havia outros fatores que contribuiram para a expulsao de grandes levas populacionais. A regiao do Trento no Norte da Italia, local de origem de grande parte dos imigrantes que se dirigiram para Santa Teresa, e marcada pelas Dolomitas. As Dolomitas formam um relevo montanhoso de grande beleza com 70% do territorio acima de mil metros de altitude, o que torna grande parte das terras pouco apropriadas para a agricultura (Grosselli 2008). Alem das dificuldades do relevo montanhoso, no seculo XIX, as dimensoes das propriedades rurais dessa regiao eram tao reduzidas que se tornaram insuficientes para garantir a sobrevivencia familiar (Grosselli 2008; Nardi 2007; Saquet 2003). Este parece ter sido um aspecto relevante para a emigracao da familia da mae do entrevistado TN (2012, informacao verbal): "Achar um pedaco de terra, pra cada um trabalhar no que e dele. Por que la [Italia], a maioria era de pouca terra". AF (2014, informacao verbal) tambem confirmou essa condicao ao dizer: "A terra era pouca!" E cita ainda a superpopulacao como uma das causas da emigracao.

Associado a todo esse cenario desfavoravel, outro fator importante de push, a superpopulacao, levou as prefeituras do Norte da Italia a incentivarem a emigracao para o Brasil, como forma de reduzir os problemas do desemprego e o excesso de demanda por servicos publicos (Grosselli 2008). Dessa forma, a emigracao era uma estrategia para aliviar as tensoes sociais internas (Saquet 2003, 66).

Entretanto, as dificuldades enfrentadas pelos trentinos pareciam nao acabar. Outros problemas atuaram como fatores push: algumas doencas atingiram as lavouras de uvas e, pouco depois, as criacoes de bicho-da-seda, atividades de grande importancia para a economia local. No processo de formacao do Estado italiano (1859), os mercados trentinos foram pressionados por impostos e taxas de importacao e exportacao. O Estado italiano cobrava diferentes impostos, e os agricultores estavam entre os mais explorados (Saquet 2003; Nardi 2007). Alem disso, a queda dos precos dos produtos agricolas agravava ainda mais a situacao daquela populacao (Saquet 2003, 65).

Soma-se ao cenario o fato de a regiao ter sido atingida por tres enchentes em menos de dez anos (1882, 1885 e 1889), o que levou a destruicao de plantacoes e obras publicas. Os vales mais ferteis foram destruidos pela violencia da agua que deixou o terreno pedregoso e saibroso (Grosselli 2008). Essas enchentes deixaram muitos camponeses na miseria (Cavati 1973, 13).

Por outro lado, concomitante a Revolucao Industrial, novos valores tambem estavam chegando ao campo. Nas relacoes capitalistas, tudo podia ser comprado e vendido. A forca de trabalho e a terra tornaram-se mercadoria, e colocaram em crise o estilo e o modo de vida daquela sociedade (Grosselli 2008, 69). Com a industrializacao, o Norte da Italia tornou-se mais forte que o Sul, ainda agrario. Agricultores e artesaos eram expropriados do campo pela expansao das relacoes capitalistas de producao (Saquet 2003, 56; Filippon 2007, 18). A economia sofreu um rapido processo de redirecionamento, o que gerou um grande numero de miseraveis (Grosselli 2008, 52).

Diante de um cenario tao desfavoravel, e inegavel que muitos dos que emigraram viviam em uma situacao de extrema pobreza na Italia, fato que, atrelado a outros, foi ressaltado por diversos autores (Tamanini 1980; Cavati 1973; Derenzi 1974; Grosselli 2008; Ferreira 2008). Para Trento (1989, 30), entretanto, a pobreza foi a "unica e verdadeira" causa da emigracao transoceanica.

Nao podemos desconsiderar tambem que alguns poucos podem ter emigrado pelo desejo da aventura, do sonho de enriquecer, de encontrar ouro e a terra prometida --a Canaa (Tamanini 1980; Derenzi 1974). O certo e que, na segunda metade do seculo XIX, a America se tornou uma valvula de escape e uma possibilidade de reconstituir aquela sociedade, mesmo que em terras distantes onde, na epoca, figuravam fatores que atrairam inumeros italianos.

Os fatores de pull no contexto brasileiro

No mesmo periodo em que o Norte da Italia enfrentava tantos problemas, o Brasil apresentava um cenario favoravel. Nesse cenario atrativo (fatores pull), destacamos: a necessidade de mao de obra, disponibilidade de terras e a ausencia de guerras. Esses fatores se mostraram importantes para os imigrantes italianos e de outras partes da Europa na epoca. O Brasil de meados do seculo XIX era pouco povoado e ainda possuia muitas regioes que poderiam ser caracterizadas como vazios demograficos. A ocupacao era basicamente litoranea, situacao que preocupava o governo imperial brasileiro (Trento 1989, 19).

Em termos produtivos, a America Portuguesa apresentava um modelo de producao marcado pelo latifundio escravocrata, monocultor e exportador (Boni 1998, 11). Somente com a maioridade de D. Pedro II, em 1840, o pais conquistou a estabilidade politica, o que permitiu que projetos de longo prazo pudessem ser desenvolvidos (Vieira 2008). Esse periodo coincide tambem com a expansao do cafe (Ferreira Junior 2009, 21). A necessidade de substituir a mao de obra escrava tornou-se mais eminente a partir da extincao do trafico de escravos em 1850 e, posteriormente, com a Lei do Ventre Livre em 1871. Na decada de 1870, comecou a faltar bracos para as fazendas produtoras de cafe (Prado Junior 1998). A partir desse periodo, a imigracao estrangeira passou a ser prioridade nos projetos da monarquia brasileira. Outra justificativa seria a necessidade de mao de obra especializada que visava ao aumento e a expansao da producao agricola, principalmente em areas totalmente desabitadas (Nardi 2007).

Com o inicio da imigracao estrangeira para o Brasil, os primeiros grupos a se estabelecerem foram os alemaes, os suicos e os acorianos (Prado Junior 1998, 188). Na provincia do Espirito Santo, o inicio da imigracao foi marcado pelo estabelecimento de alemaes na Colonia Santa Isabel, a partir de 1848. Esse fato marcou o inicio da ocupacao das terras do interior, como alternativa para transformar economicamente a Provincia e expandir o cultivo do cafe (Dadalto 2006, 186).

Cronologicamente, um fato determinante para a atracao de imigrantes foi a promulgacao da Lei de Terras (Lei 601, de 18 de setembro de 1850), que regulamentou a aquisicao de terras devolutas por meio da compra, autorizou o Governo a promover a colonizacao estrangeira, demarcar prazos (lotes de terra), naturalizar estrangeiros estabelecidos a mais de dois anos, dentre outras disposicoes. Na pratica, apos a proibicao do trafico negreiro, a lei de terras incentivou a entrada de mao de obra livre e a ocupacao de terras devolutas, o que promoveu o desenvolvimento economico em varias areas do pais. Por outro lado, essa mesma lei manteve a posse da terra nas maos dos grandes proprietarios. Entretanto, nao garantiu, em grande parte dos casos, que os imigrantes encontrassem condicoes favoraveis de vida. Os inqueritos oficiais apontaram inumeras dificuldades e aspectos desfavoraveis que escaparam a politica de migracao praticada pelo governo brasileiro. Como consequencia, em 1859, a Alemanha proibiu a imigracao para o Brasil (Prado Junior 1998, 188).

Para a Provincia do Espirito Santo, a imigracao estrangeira representou a possibilidade de incrementar a economia local e ocupar as terras em direcao ao interior, ainda cobertas por mata densa. A partir dos anos de 1870, com o incremento da cafeicultura, a escassez de mao de obra e a necessidade de ocupar terras devolutas, o governo brasileiro continuou a estimular a vinda de imigrantes (Grosselli 2008, 137-138). Nesse mesmo periodo, os Estados Unidos passaram a impor restricoes a imigracao. Assim, o Brasil se tornou uma possibilidade consideravel para milhares de italianos devido a uma serie de medidas adotadas pelo governo brasileiro.

Segundo Prado Junior (1998), a partir de 1870, a imigracao para o Brasil tinha duas destinacoes: para as grandes lavouras e para a colonizacao em pequenos nucleos. Dessa forma, Sao Paulo atraiu mao de obra para a lavoura cafeeira e os estados do Sul e do Espirito Santo atrairam imigrantes para os nucleos coloniais, onde geralmente recebiam lotes de terra. "Nao podem ser desconsiderados tambem [...] os fatores geopoliticos -a necessidade de protecao das fronteiras e de garantia da integridade do territorio nacional frente as ameacas da expansao imperialista europeia, em curso no final do seculo XIX" (Colbari 1998, 130). Nesse sentido, a imigracao colonizadora foi, segundo Constantino (2011, 2), o maior processo de reforma agraria realizado no Brasil, que transformou o cenario politico, economico e social do Sul do pais. Assim, implantaram-se modelos de colonizacao semelhante la e no Espirito Santo.

Para atrair os imigrantes, uma serie de beneficios foi apresentada aos que optassem por se deslocarem para as terras brasileiras. O contrato que era oferecido aos imigrantes previa um lote de terras de aproximadamente 25 hectares (Posenato 1998, 236). O governo tambem oferecia trabalho remunerado em obras publicas por 18 meses e emprestimos em estabelecimentos fiscalizados pelo Estado (Nagar 1995). Entretanto, o que mais seduziu os imigrantes do Norte da Italia foi a possibilidade de conseguir um lote de terras: "Os meeiros da Italia nao tinham o menor interesse em abandonar o proprio pais para permanecer no mesmo sistema em terra estrangeira" (Posenato 1997, 80). No caso do Espirito Santo e, especificamente do Nucleo Timbuy, os numeros demonstraram que, do total de 36.663 imigrantes italianos que se estabeleceram nessa provincia, 4.197 fixaram-se na futura cidade de Santa Teresa.

Os entrevistados TN (2012, informacao verbal) e AF (2014, informacao verbal) realcaram a escassez de terras na Italia e o interesse de as familias em obterem um lote de terra no Brasil. A possibilidade da terra se constituiu evidentemente em um fator de pull determinante na tomada de decisao de emigrar. Conseguir um lote de terra significava obter uma fonte de renda para toda a familia. Especialmente, porque os filhos dos imigrantes, ao completarem 18 anos, tambem podiam requerer um lote de terra para trabalhar.

A seletividade de imigrantes

Os ja citados trabalhos de Ravenstein (1980) e Lee (1980) ocuparam-se de um tema que sera recorrente em outras abordagens: a seletividade dos migrantes. Ambos os autores apresentaram uma preocupacao em analisar quais atributos individuais seriam responsaveis pela selecao positiva dos individuos que migram (Santos et al. 2010). Lee (1980) ressaltou que as migracoes seriam sempre seletivas, e que os obstaculos intervenientes atuariam no sentido de eliminar a possibilidade da migracao para os mais incapazes. A migracao tenderia a ocorrer em certas etapas do ciclo de vida do individuo--o que tambem consiste em um fator de selecao dos migrantes--, e o migrante tenderia a possuir caracteristicas intermediarias entre a populacao do local de origem e a do local de destino (Santos et al. 2010). Alem das caracteristicas individuais dos migrantes--idade, sexo, educacao, atividade profissional, por exemplo--, no caso da imigracao italiana para o Espirito Santo, alguns criterios de seletividade dos imigrantes foram impostos pelo governo brasileiro.

A partir da analise das listas de imigrantes que se estabeleceram no Timbuy, publicadas por Muller (1925), e dos registros de entrada de imigrantes no APEES, percebemos que casais jovens com filhos eram praticamente um padrao. Observamos tambem a entrada isolada de jovens do sexo masculino; nao foi identificado nenhum caso de registro de mulheres que entraram sozinhas nesse nucleo.

O projeto imigratorio proposto pelo governo brasileiro, portanto, determinava uma serie de caracteristicas para aqueles que desejavam imigrar para o Brasil, dentre outras que "80% fossem agricultores, saudaveis, trabalhadores de boa moral, nunca menores de dois anos e nem maiores de 45 anos, salvo para os chefes de familia" (Grosselli 2008, 76).

Em sintese, alem da seletividade associada aos processos migratorios, no caso da imigracao de italianos para o Espirito Santo, novos criterios foram determinados pelo governo brasileiro, interessado em recrutar no exterior um tipo especifico de imigrante que pudesse atender as suas demandas. Nesse tipo de recrutamento, varias instituicoes agiram em conjunto.

Analises institucionais: o governo provincial do Espirito Santo e a politica imigratoria

As analises institucionais do fenomeno da migracao ressaltam que, a partir do momento em que se estabelece um determinado fluxo migratorio, varias instituicoes surgem com o intuito de contrabalancar o desequilibrio entre o numero de imigrantes que tem interesse em se dirigir para uma dada regiao e o numero de imigrantes que essa regiao esta efetivamente disposta a receber. Essas instituicoes-que podem ser privadas, publicas (como e o caso da imigracao analisada) ou assistenciais-atuariam de forma legal ou ilegal (Massey et al. 1993; Santos et al. 2010). Piore (1979), com sua Teoria do Mercado Dual de Trabalho, e o pioneiro nesse tipo de analise do fenomeno migratorio. Segundo Piore, a migracao internacional nao teria como causa fatores de expulsao nos paises de origem, mas sim fatores de atracao nos paises de destino, com os fluxos migratorios sendo estabelecidos a partir do recrutamento -realizado por instituicoes privadas ou publicas- de imigrantes nos paises em desenvolvimento para atender as necessidades do mercado de mao de obra dos paises desenvolvidos.

A proposta divulgada pelo governo brasileiro na Italia era atraente e aparentemente nao oferecia grandes riscos para o migrante. Observamos que, no caso da Provincia do Espirito Santo, o governo nao mediu esforcos para atrair imigrantes, a fim de ocupar terras devolutas. Segundo o Consul italiano Nagar (1995), seriam oferecidos, dentre outros, a passagem, estadia nos primeiros tempos, um lote de terras de 25 hectares e emprestimos para iniciar os trabalhos de construcao da casa e da lavoura. Apesar de a estrutura oferecida para os imigrantes ser precaria, o governo continuou com os trabalhos de abertura de estradas, demarcacao de lotes e construcao de barracoes, que visavam efetivar o projeto de povoamento da provincia, oferecer melhores condicoes aos imigrantes e tornar os nucleos coloniais focos de imigracao espontanea (Prado, 1876, 43). Uma outra tatica importante, utilizada pelo governo imperial, era enviar encarregados para recrutar imigrantes. No caso do projeto migratorio para o Espirito Santo, o primeiro a visitar as terras do Norte da Italia foi Pietro Tabacchi, "enviado pelo governo capixaba com o objetivo de agenciar imigrantes que deveriam ocupar lotes de terras onde seria inserido o cultivo do cafe, ou ainda, optar por um emprego nas cidades ou trabalhar em fazendas privadas" (Grosselli 2008, 76). Porem, como o proprio Nagar confirmou em sua visita ao Espirito Santo em 1895, na pratica, o processo nao se desenvolveu dessa forma. Os alojamentos eram barracoes, as estradas muitas vezes nao passavam de picadas abertas no meio da mata e os lotes de terra estavam cobertos por uma densa floresta que impunha muitas dificuldades a sobrevivencia (Nagar 1995; Busatto 1990; Gasparini 2008).

A partir da contextualizacao historica, feita anteriormente, dos locais de origem e destino do fluxo migratorio, abre-se um cenario, a partir de 1873, propicio ao surgimento de instituicoes agenciadoras que passaram a atuar como "cacadoras" de migrantes (Grosselli 2008, 76). Alem de Tabacchi, muitos outros agenciadores atuavam no Norte da Italia. O irmao de Pietro Tabacchi, Carlo Tabacchi, tambem trabalhou agenciando imigrantes e, por vezes, trabalhou como tradutor no Nucleo Timbuy (Grosselli 2008). Em 1874, Caetano Pinto assinou um contrato com o governo brasileiro e foi incumbido de atrair italianos do Norte da Italia e da regiao de Trento. "Este contrato previa o compromisso de introduzir no pais, no curso de uma decada, 100.000 europeus [...]. Pinto receberia uma quantia consideravel por cada imigrante que, atraves da organizacao, tocasse o solo brasileiro" (Grosselli 2008, 76).

Muitos administradores municipais, na Italia, tambem contribuiram para o agenciamento de emigrantes. O intuito era o de livrar o municipio de uma grande massa de miseraveis e, para isso, contaram com o apoio das igrejas cristas que enviaram representantes religiosos para auxiliar os imigrantes no processo de adaptacao no novo territorio (Grosselli 2008).

No caso dos imigrantes que se dirigiram para Santa Teresa (Nucleo Timbuy), primeiramente os agenciadores e depois parentes e amigos forneciam informacoes sobre o destino. Os custos da viagem eram muitas vezes custeados pelo governo do brasileiro. Ao chegarem, os imigrantes primeiramente ficavam alojados em barracoes e depois eram enviados para seus proprios lotes de terra, onde teriam a possibilidade de cultivar a terra e obter seu sustento. Ja as ligacoes com a parte da familia que ficou na Italia eram minimas, restringiam-se as cartas trocadas no decorrer de anos (Rasselli s/a).

Dessa forma, para que se estabelecesse um fluxo migratorio, foi necessario ocorrer uma migracao inicial a partir da qual um primeiro grupo de migrantes se dirigiu para locais desconhecidos e suportou os possiveis choques e custos da ino vacao (Guilmoto e Sandron 2001, 140). Assim, para os imigrantes que chegaram nas primeiras expedicoes, o sofrimento foi maior, como descreveu a escritora Virginia Tamanini em seu romance Karina. Ja para os imigrantes que chegaram anos depois, as dificuldades foram bem menores que as dos pioneiros, pois encontraram no local uma rede social que os auxiliou, como veremos a seguir.

A cultura migratoria e as redes migratorias

A cultura migratoria tende a contribuir para uma futura migracao. Com a migracao, o individuo, tem a possibilidade de promover a sua mobilidade social e adquire o gosto por um padrao de vida que sua comunidade nao pode oferecer (Massey et al. 1993, 452-453). Assim, algumas populacoes europeias como as do Trento e Veneto, regioes do Norte da Italia, ja estavam acostumadas a migrar dentro do proprio continente em busca de empregos temporarios que possibilitassem garantir o sustento de suas familias (Grosselli 2008; Truzzi 2008; Saquet 2003). A tradicao de migrar contribuiu para a migracao em cadeia (MacDonald e MacDonald 1964, 82) e, no caso do Espirito Santo, foi responsavel pela chegada de um grande contingente de imigrantes italianos. "Chain migration can be defined as that movement in which prospective migrants learn of opportunities, are provided with transportation, and have initial accommodation and employment arranged by means of primary social relationships with previous migrants" (MacDonald e MacDonald 1964, 82) (5).

A migracao em cadeia move grupos de individuos, muitas vezes parentes, de um lugar para outro (Tilly 1976, 8). Esse tipo de migracao favoreceu a vinda dos imigrantes italianos para o Brasil. Parentes, conterraneos e agentes de propaganda forneciam informacoes da nova terra e estimulavam novas migracoes (Truzzi 2008, 201; Nagar 1995; Grosselli 2008). Ao se estabelecer uma migracao em cadeia, a vinda de amigos, parentes e vizinhos foi facilitada, pois os pioneiros ajudavam na insercao social, trabalho e adaptacao a nova situacao (Germani 1974, 162).

Segundo Massey (1988, 396), "migrant networks are sets of interpersonal ties that link migrants, former migrants, and non migrants in origin and destination are through the bonds of kinship, friendship, and shared community origin" (6). As redes de migracao, ja instituidas, "sao o meio mais solido de manter os fluxos migratorios" (Guilmoto e Sandron 2001, 149). Depois de alguns anos de estabelecida a cadeia migratoria, o deslocamento e facilitado devido ao fato de grande parte da comunidade ja haver emigrado; portanto, o processo de instalacao e adaptacao ao novo territorio torna-se menos doloroso. O informante AF (2014, informacao verbal), conforme relatado no inicio deste artigo, afirmou que, assim que o seu tio se estabeleceu no Nucleo Timbuy, enviou noticias a familia na Italia. Os parentes logo se organizaram para migrar tambem. Outro caso foi relatado pela senhora MS (2014, informacao verbal): a historia de um jovem, amigo de sua familia, que fugiu da Italia para nao se casar e partiu em direcao ao Brasil. O rapaz foi acolhido pelo avo da senhora MS e estabeleceu-se em Santa Teresa. MS (2014, informacao verbal) tambem afirmou que a familia de seu avo, nos primeiros tempos no novo territorio, tambem recebeu ajuda de outros italianos que ja estavam estabelecidos na regiao: "Eles ajudaram, ate com comida pra eles comerem" (MS, 2014, informacao verbal).

Apos alguns anos do inicio do fluxo migratorio para a Colonia Santa Leopoldina e para o Nucleo Timbuy, um dos engenheiros chefe desta colonia, reconheceu que faltava propaganda para atrair os imigrantes; no entanto, os que aqui ja haviam se estabelecido continuavam a chamar seus parentes (Fundo de Agricultura, Livro 27, 49).

As informacoes eram trocadas por meio de cartas. O envio dessas cartas foi reconhecido, em 1874, pelo Diretor Interino da Provincia do Espirito Santo:

Cachoeiro de Santa Leopoldina, 17 de novembro de 1874.

Ao diretor da Secretaria da Agricultura Comercio e Obras Publicas remetendo a pretensao de uma familia de italianos que para esta Colonia se querem emigrar.

Tendo essa diretoria em suas maos um abaixo-assinado de cem familias de italianos tiroleses que desejam emigrar para esta colonia e pretendem estabelecer-se juntamente com seus parentes no Timbuy, mas que por intermedio dos mesmos solicitarao um prospecto dos favores aqui concedidos aos emigrantes, a fim de poderem resolver definitivamente sobre sua vinda [...] dos que para aqui vieram ja muitos estao estabelecidos e segundo todas as probabilidades os que vierem de hoje em diante, ja encontrando um nucleo de parentes e patricios, com muito mais facilidade se fixarao. [...] Assinado o Diretor interino Pedro Albuquerque Rodrigues. (Fundo de Agricultura, livro 13, 25).

Esses casos ilustram a importancia das familias e do domicilio no processo migratorio. As redes sociais forneceram certa seguranca ao migrante e facilitaram a adaptacao ao novo territorio. Lancar-se a uma aventura migratoria podia ser algo perigoso, mas o apoio de amigos e/ou parentes podia minimizar esse risco.

Por diversas vezes, observamos em oficios enderecados a Comissao de Terras e Colonizacao da ex-colonia Santa Leopoldina (Fundo de Agricultura, Livro 27, 27v, 34v, 46v, 60, 73v), a qual pertencia o Timbuy, italianos estabelecidos nesse nucleo, que oficializavam peticoes de passagens do Reino da Italia para o Nucleo Timbuy ou Porto de Vitoria.

Comissao de Terras e Colonizacao do ex-nucleo Santa Leopoldina

Vila do Cachoeiro de Santa Leopoldina, em 19 de marco de 1888

No. 18

Passo as maos de V. Sa. as inclusas peticoes de dois colonos que pedem ao Governo Imperial passagem para parentes seus, desde o Reino da Italia ate o Nucleo Timbuy, desta colonia. (Fundo de Agricultura, Livro 27, 60).

Os primeiros imigrantes confiaram em propagandas e migraram rumo ao desconhecido. No entanto, a viagem de seus parentes foi facilitada pelo apoio e informacoes fornecidas pelos que ja estavam estabelecidos no Nucleo. Se inicialmente os recem-chegados foram obrigados a se alojarem em barracoes insalubres, os imigrantes que chegaram posteriormente puderam contar com a ajuda de parentes e amigos, o que minimizou consideravelmente o sofrimento inicial e demonstrou a importancia dos lacos familiares.

As abordagens com foco na familia e no domicilio

Ha uma consideravel quantidade de trabalhos sobre o tema migracao que utilizaram modelos de analise com maior foco no ambito da familia e do domicilio como locus da tomada de decisao de migrar (De Jong e Gardner 1981; De Jong, Warland e Davis Root 1998; Fawcett 1989; Harbison 1981: Mincer 1978). O grupo de teoricos que ficou conhecido como Novos Economistas da Migracao do Trabalho (Stark e Bloom 1985; Stark e Taylor 1989; 1991; Taylor 1986) apresentou, como pressuposto basico de sua teoria, que a decisao de migrar e tomada por um grupo maior de pessoas que estao de alguma forma ligadas--familia, domicilio, ou outra unidade de producao ou consumo que e culturalmente definida--e nao por individuos isolados. Outro ponto destacado por esses teoricos e o fato de que os individuos, ao decidirem migrar, agiriam coletivamente visando minimizar os riscos e nao apenas maximizar os seus ganhos (Taylor 1986).

Harbison (1981) tambem discute os diferentes aspectos relacionados a familia que podem afetar a migracao. Harbison ressalta que a estrutura familiar: "Pode incluir nao apenas pessoas com lacos de parentesco, presentes ou ausentes, mas a natureza das relacoes entre elas, definidas por direitos e deveres, status relativo e padroes de autoridade" (Harbison 1981, 228). A familia "e frequentemente dispersa geograficamente e a rede social criada pelos parentes em diferentes regioes e um importante componente no processo de tomada da decisao de migrar" (Harbison 1981, 251). O fato de receber informacoes sobre a area de destino, provenientes de membros familiares que tenham migrado anteriormente, aumentaria a expectativa de sucesso com o movimento migratorio, e a rede social constituida por esses familiares tinha um papel fundamental no suporte ao migrante recem-chegado ao local de destino, como vislumbramos em alguns relatos.

Em propriedades de terra com dimensoes reduzidas, que ja nao eram suficientes para manter o sustento das familias de agricultores (Grosselli 2008), a possibilidade de conseguir um lote de terra seria uma oportunidade de trabalho para toda a familia. No caso dos imigrantes que vieram colonizar as areas rurais do Espirito Santo, a decisao de migrar foi uma decisao familiar (Truzzi 2008, 204). Em cinco das seis entrevistas selecionadas, observamos que toda a familia migrou. A partir de listas de imigrantes divulgadas por Muller (1925), Ruschi (1976) e outras disponiveis em acervos organizados em comunidades locais e no proprio APEES, percebemos ser mais comum a entrada de familias do que de jovens sozinhos.

Como ja ressaltado anteriormente, a busca pela paz e a manutencao da integridade da familia foram tambem um importante motivador da decisao de migrar. Mais do que maximizar ganhos, as familias italianas, que povoaram o Nucleo Timbuy, queriam fugir das ameacas das guerras pela unificacao do pais, encontrar a paz e a seguranca para seus filhos em idade para servir o exercito.

Como dito anteriormente, esses e outros fatores, como o reduzido tamanho das propriedades rurais, os altos impostos, as dificuldades financeiras e os novos valores capitalistas que estavam chegando no campo, estavam colocando em crise a velha estrutura familiar (Grosselli 2008). Migrar representava, nesse contexto, a preservacao da estrutura e da unidade familiar, alem, e claro, de promover a melhoria do padrao de vida desta.

Consideracoes finais

Os documentos pesquisados e os depoimentos apresentados apontam caracteristicas do contexto historico italiano e brasileiro na epoca de formacao do Nucleo Timbuy, atual municipio de Santa Teresa (ES). A bibliografia indica uma populacao italiana amedrontada pelas guerras e um Brasil com uma economia em expansao, que disponibilizava terras para a colonizacao com imigrantes europeus. Os relatos mostram tambem que muitos imigrantes, mesmo em uma conjuntura favoravel, preferiram abrir mao dessa condicao para manter a unidade familiar e evitar a perda de outros parentes proximos. As historias de fuga do Norte da Italia pareciam ser comuns naquele periodo, quando jovens e familias inteiras emigraram, algumas delas fugindo das autoridades locais. O servico militar, em muitos casos, gerava o medo e a miseria as familias, que nao so perdiam mao de obra trabalhadora nos campos, mas seus proprios filhos para as forcas armadas (Grosselli 2008, 59-68). Especificamente no caso de Santa Teresa (Nucleo Timbuy), os relatos nos revelam uma Italia com dimensoes de terras agricultaveis reduzidas, que nao fornecia em suas fronteiras condicoes de comportar tantos habitantes. Para o campones que garantia seu sustento a partir de sua propriedade, um terreno com pequenas dimensoes dificultava sua sobrevivencia. Assim, conquistar seu lote de terra em uma terra distante era algo importante (Zanini 2007; Saquet 2003).

Em resumo, para Guilmoto e Sandron (2001, 135), "na escala global, a migracao resulta do desequilibrio estrutural entre os sistemas produtivos que entram em contato pela extensao historica de trocas". Assim, se por um lado, o Norte da Italia enfrentava crises e o governo nao encontrava solucao para resolver os problemas de milhares de trabalhadores, por outro, no Brasil, o governo do Espirito Santo disponibilizava terras para os imigrantes. Entretanto, para alem dessa perspectiva dos fatores de push e pull, outras perspectivas encontraram dialogo com o contexto estabelecido no caso da imigracao que configurou o territorio de Santa Teresa (Nucleo Timbuy).

Os depoimentos trouxeram informacoes significativas sobre as redes sociais. Elas deram certa seguranca ao migrante e facilitaram a adaptacao ao novo territorio. Lancar-se a uma aventura migratoria tornou-se menos arriscado com o apoio de amigos e/ou parentes. Em varios momentos, os entrevistados revelaram a importancias dos lacos familiares e da formacao do domicilio no local de destino. Cada imigrante estabelecido tornou-se um ponto de referencia e de amparo para aqueles que pretendiam iniciar o processo migratorio, agenciados de diversas maneiras.

Em suma, com o referencial teorico apresentado, podemos confirmar que o processo imigratorio para o Espirito Santo foi impulsionado por fatores de repulsao no Norte da Italia no seculo XIX e fatores de atracao no territorio capixaba. Com o auxilio de instituicoes agenciadoras, milhares de camponeses trentinos foram trazidos para o estado com o intuito de suprir a necessidade de mao de obra e ocupar terras ate entao com pouca ou nenhuma ocupacao.

Por fim, foram destacados outros fatores tambem importantes para o estabelecimento desse fluxo migratorio, com destaque para a existencia de uma cultura migratoria --muitos italianos ja estavam acostumados a migrar dentro da Europa para conseguir trabalho--; a formacao de redes sociais que davam informacoes de Santa Teresa para familiares e compatriotas, alem de, em muitos casos, fornecer auxilio nos momentos iniciais do estabelecimento dos novos imigrantes; por fim, o fato de a migracao representar a possibilidade de manter a unidade familiar e impulsionar melhorias financeiras.

Deve ser destacado que a analise do fluxo migratorio que se constituiu no final do seculo XIX entre o Norte da Italia e o estado do Espirito Santo, no Brasil, ilustra bem o quao complexo e a migracao enquanto objeto de estudo, com as abordagens escolhidas para o dialogo neste artigo representando apenas uma das inumeras formas possiveis de se abordar o fenomeno.

DOI: http://dx.doi.org/10.7440/antipoda25.2016.06

Articulo recibido: 6 de agosto de 2015; aceptado: 12 de diciembre de 2015; modificado: 21 de enero de 2016

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* Este artigo e parte de um projeto de pesquisa amplo que abarca a formacao historica do territorio da Bacia do Rio Doce. Essa tematica, entre outras, compoe a linha de pesquisa Territorio, Migracao e Cultura do Mestrado Interdisciplinar Gestao Integrada do Territorio/Univale (MG/Brasil). O assunto especifico do processo migracional que formou o territorio da cidade de Santa Teresa foi tema da pesquisa de mestrado da co-autora Simone Zamprogno Scalzer e integrou o projeto de pesquisa A Logica territorialista e os desmembramentos municipais na Bacia do Rio Doce, coordenado pela co-autora Patricia Falco Genovez e contribuicao de pesquisa do co-autor Mauro Augusto dos Santos, com financiamento da FAPEMIG.

(1) Os primeiros imigrantes italianos se estabeleceram no Nucleo Timbuy em 1874, apos abandonarem a fracassada Colonia Nova Trento, de Pietro Tabacchi. Contudo, a primeira leva oficial de imigrantes ocorreu em 1875.

(2) Nome nao divulgado para garantir o anonimato do informante.

(3) Disponivel em: http://www.ape.es.gov.br/imigrantes/Imigra.aspx. Acesso em: 25 outubro 2013.

(4) Registro de Entrada de Imigrante. Disponivel em: http://www.ape.es.gov.br/imigrantes/Imigra.aspx. Acesso em: 25 outubro 2013.

(5) "A migracao em cadeia pode ser definida como o movimento em que potenciais migrantes sao informados de oportunidades, lhes sao fornecidos meios de transporte, alojamento inicial e emprego arranjado por meio de relacoes primarias com emigrantes anteriores" (traducao livre).

(6) "Uma rede de migrantes, ou seja, conjuntos de lacos interpessoais que ligam migrantes, ex-migrantes e nao migrantes nos lugares de origem e de destino por meio do parentesco, amizade e origem comunitaria compartilhada" (traducao livre).

Patricia Falco Genovez **

Mauro Augusto dos Santos ***

Simone Zamprogno Scalzer ****

Universidade Vale do Rio Doce, Brasil

** Doutora em Historia. Universidade Federal Fluminense, Brasil. Dentre as ultimas publicacoes destaca-se: co-autor em "Itueta-MG e a singularidade de seus tempos e espacos: Narrativas da erradicacao de uma cidade". Anthropos. 110:99-117, 2015. "Entre o territorio comunitario e territorio societario: os impactos da realocacao de Itueta-MG". Geografia 22:139-158, 2014. epatricia.genovez@superig.com.br

*** Doutor em Demografia. Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil. Dentre as ultimas publicacoes destaca-se: Co-autor em "Os italianos e seus descendentes no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais: a chegada dos italianos e a emigracao dos descendentes para Italia". Em Narrativas de Genero-Relatos de Historia Oral: experiencias de italo-brasileiros na Italia Contemporanea, compilado pelo Luis Fernando Beneduzi e Glaucia de Oliveira Assis, 191-215. Vitoria: EDUFES. Co-autor em "Minas Gerais e o marco inicial da ocupacao do cerrado brasileiro: o papel do Estado". Redes 19: 261-275, 2014. emauroasantos@gmail.com

**** Mestre em Gestao Integrada do Territorio. Universidade Vale do Rio Doce, Brasil. Dentre as ultimas publicacoes destaca-se: O Nucleo Timbuy/Santa Teresa (ES) entre a Memoria e a Historia. Rio de Janeiro: Multifoco, 2015. Co-autor em "Visoes e Percepcoes da Imigracao Italiana para o Espirito Santo: o caso da configuracao territorial do Nucleo Timbuy (atual Santa Teresa)". Revista de Economia Politica e Historia Economica 35: 224-245, 2016. ezamprognos@yahoo.com.br
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Title Annotation:PANORAMICAS
Author:Falco Genovez, Patricia; dos Santos, Mauro Augusto; Zamprogno Scalzer, Simone
Publication:Revista Antipoda
Date:May 1, 2016
Words:9130
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