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O processo de aprender fazendo na praxis educativa dos professores de artes visuais.

The process of learning by doing in the educative praxis of the professors of visual arts.
   No meio do caminho
   No meio do caminho tinha uma pedra
   tinha uma pedra
   no meio do caminho tinha uma pedra.
   Nunca me esquecerei desse acontecimento
   na vida de minhas retinas tao fatigadas.
   Nunca me esquecerei que no meio do caminho
   tinha uma pedra
   tinha uma pedra no meio do caminho
   no meio do caminho tinha uma pedra.

--Carlos Drummond de Andrade


1. No meio do caminho tinha que aprender fazendo

Relato algumas experiencias e percepcoes vivenciadas no Laboratorio Didatico Pedagogico de Ensino e Aprendizagem de Artes Visuais, que oferece o curso de extensao "Artes Visuais para Criancas" (7 a 12 anos), ministrado as tercas-feiras, no periodo da manha, vinculado a disciplina de graduacao "Metodologias do Ensino das Artes Visuais IV com Estagios Supervisionados", sob orientacao de Maria Christina Rizzi, oferecida pelo departamento de Artes Plasticas da Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo. Implantado desde 2008, esta sendo colocado em pratica no ambito do Programa de Formacao de Professores da USP. Visa proporcionar articulacoes entre ensino, pesquisa e extensao, de modo a garantir a qualidade da formacao dos futuros professores introduzindo os licenciandos em processos investigativos na area de artes e na pratica educativa.

O planejamento e realizado de acordo com os anseios dos estudantes e em consonancia com as aspiracoes das criancas, a cada semestre um novo curso e delineado, com o objetivo de estimular a producao artistica, discutir arte, cultura e vivenciar uma experiencia estetica. Aprendem a lecionar lecionando, num processo constante de acao, reflexao, pesquisa e criacao. Para Dewey a experiencia educativa e reflexiva e resulta em novos conhecimentos. A reflexao e acao interligadas sao partes de um todo indivisivel.

(...) Quando manipulamos, tocamos e sentimos; quando olhamos, vemos; quando escutamos, ouvimos. A mao move-se com o estilete de gravador ou com o pincel. Os olhos observam e relatam as consequencias do que foi feito. Por causa dessa intima conexao, o fazer subsequente e cumulativo e nao questao de capricho, nem tao pouco de rotina. Numa enfatica experiencia estetico-artistica, a relacao e tao intima que controla simultaneamente o fazer e a percepcao. Tal intimidade vital de conexao nao pode ser tida se apenas as maos e os olhos estiverem engajados. Quando eles nao podem, ambos, agir enquanto orgaos do ser em sua inteireza, ocorre apenas uma sequencia mecanica de sensacao e movimento, como no caso de se andar automaticamente.

(...) O oleiro modela seu barro para fazer um recipiente util para guardar graos; mas o faz de modo tao regulado pelas series de percepcoes que resumem os atos seriais do fazer, que o vaso fica caracterizado por graca e encanto duradouros.(...) O feito e o sofrido sao, portanto, reciproca, cumulativa e continuamente instrumentais um com respeito ao outro.

(...) O obra, por exemplo, pode ser uma exibicao de virtuosismo tecnico, e o sofrer um extravasar de sentimentos ou um devaneio. Se o artista nao produzir uma nova visao em seu processo de fazer, agira mecanicamente e repetira algum tipo de modelo fixado como padrao em sua mente (Dewey, 1974: 258-9).

O espaco proposto no laboratorio possibilita movimentos de acoes inventivas, sensiveis, inovadoras e libertarias.

Os fundamentos teoricos estao pautados na Abordagem Triangular do ensino da artes, impetrada por Ana Mae Barbosa, sob os pilares do fazer, da leitura de imagens e da contextualizacao; e nos conceitos de tecnica, poetica e praxis postulados pelo artista plastico Evandro Carlos Jardim. A partir destas premissas agregamos outros autores e conceitos de acordo com a proposta elaborada no momento. Apresentaremos duas experiencias que nos desafiaram a capacitar os alunos a ensinar na contemporaneidade por meio da multimidia. Segundo Pimentel:

O uso das novas tecnologias possibilita aos alunos desenvolver sua capacidade de pensar e fazer Arte contemporaneamente, representando um importante componente na vida dos alunos e professores, na medida em que abre o leque de possibilidades para seu conhecimento e expressao (Pimentel ap. Barbosa, 2008: 129).

2. Tinha que aprender fazendo no caminho do Nosso Atelie Animado

No 2 semestre de 2009 contamos com as licenciandas: Cintia, Mariana e o aluno de Bacharelado: Tom, com experiencia em multimidia. Planejamos trabalhar com os conceitos de stop-motion e animacao, para isso, os estudantes elaboraram acoes envolvendo: light paiting, iluminacao, cor, sequencia, escala, ritmo, espacialidade, desenho, roteiro, continuidade, fotografia, pintura, tridimensionalidade e observacao. As criancas escolheram criar uma historia sobre o mar. Visitaram o museu de oceanografia como parte do processo de nutricao estetica. O resultado, como sequencia desses movimentos, deu origem a criacao de quatro curtas metragens (Soares, 2010: 82-7). Nesse contexto os movimentos se desdobraram na criacao de um blog para o atelie: www.nossoa-telieanimado.blogspot.com.

No decorrer do processo as criancas foram se identificando com as funcoes e areas com que tinham maior afinidade, algumas criancas preferiam desenhar o cenario, outras gostavam de fotografar, porem, experimentaram todas as etapas para aprender. Os professores alimentavam o processo apresentando videos de animacao e lendo imagens.

De acordo com Pimentel:

Devido a velocidade com que vemos as imagens, nem sempre podemos pensar sobre elas e selecionar as que devem fazer parte do nosso repertorio imagetico, isto e, da referencia visual que gostariamos de deixar registrada em nossa memoria. Nesse contexto, e importante desenvolver-se a competencia de saber ver e analisar a imagem, para que se possa, ao produzir imagens, fazer com que ela tenha significacao tanto para o @1 autor@ quanto para quem vai ve-la contemporaneamente, valorizar nossa heranca cultural e ter consciencia da nossa participacao enquanto fruidores e construtores da cultura do nosso tempo (ap. Barbosa, 2008: 114).

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Para finalizar, os curtas: Pinguim, Avestruz, Mario e Pizza foram apresentados para os convidados das criancas no CINUSP--Cinema da Universidade de Sao Paulo Paulo Emilio. A exibicao dos filmes foi uma experiencia indescritivel para os alunos. Sentiram a alegria e satisfacao de assistirem os curtas que haviam criado no cinema.

Depoimento dos arte-educadores Tom e Cintia, sobre a experiencia no atelie:

Tom: Lembro quando a professora me mandava desenhar um sol, uma cachoeira, minha familia e uma casinha. Lembro tambem que nao gostava muito desse tipo de desenho e que todos os desenhos da turma sempre ficavam parecidos. Quando pensei na aula que dariamos, pensei no que nunca aprendi e teria adorado aprender. Pensei na aula que nunca tive, mas sempre sonhei. E foi isso que fizemos. Ensinamos com base no processo audio-visual de curtametragem sobre proporcao, tempo, espaco, dinamica, desenho, cenario, cor, luz, fotografia, som, roteiro, historia em quadrinho, trabalho em grupo e muito mais. Um projeto novo e inovador, sem duvida, que deixa suas marcas na construcao de um Brasil mais consciente e, quem sabe, de um mundo muito mais sabio (Tom, comunicacao pessoal, julho de 2010).

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A fala do Tom demonstra a manifestacao de suas aptidoes, importantes para seu desenvolvimento, como ressalta Dewey: "(...) uma sociedade progressiva considera preciosas as variacoes individuais, desde que nelas encontre meios para seu proprio desenvolvimento. Por conseguinte, uma sociedade democratica deve (...) permitir a liberdade intelectual e a manifestacao das varias aptidoes e interesses" (Dewey, 1979: 337)

Cintia: 'Aquilo que fica': Ainda nao apaguei as fotos de minha camera. Algumas vezes, as revejo e as lembrancas voltam, como se nuncapudessem ser esquecidas. Pode parecer exagero, mas foi uma experiencia que me transformou. Descobri-me como professora e tambem como pessoa-aprendi napratica que naopreciso ser extrovertida, falante e agitada para que me entendam. Em conjunto com o Tom e a Mari, criamos um trio depersonalidades que se completavam, de educadores com a mesma sintonia na alma e de criancas que perceberam tudo isso e puderam conferir ao processo uma sensacao de fluidez, de um percurso limpido e forte, que nao reconhece barreiras, rumo a uma experiencia completa. E e isso que eu sinto. E e isso que fica (Cintia, comunicacao pessoal, julho de 2010).

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Sob o ponto de vista de Dewey, Cintia teve a experiencia verdadeira: "A experiencia, em seu sentido vital, define-se por aquelas situacoes e episodios que chama-mos espontaneamente de 'experiencias reais;' por aquelas coisas das quais dizemos, quando as lembramos, 'aquela foi uma experiencia.'" (Dewey, 1974: 247-8).

Participamos da III Jornada das Licenciaturas da USP: Ressignificando a Formacao de Professores, em Ribeiro Preto com um banner (Figura 5) sobre o atelie de animacao. Os estudantes se sentiram realizados por poderem visualizar um trabalho consumado. Puderam partilhar a experiencia adquirida: seus saberes, pensares e sentires.

3. No caminho do "Condominio Magico" tinha que aprender fazendo

No primeiro semestre de 2012 a equipe do atelie era formada pelas licenciandas: Cristina, Diana, Silvia e Suellen; com o apoio das pesquisadoras e doutorandas Margarete e Jurema; da monitora mestranda Fabricia, e da Professora Christina Rizzi. A proposta era que os arte-educadores fizessem uso da lousa digital no processo de ensino-aprendizagem da arte com as criancas, a fim de refletirem sobre a criacao artistica por meio dos procedimentos tecnologicos e consequentemente sobre o ensino contemporaneo de arte. Pesquisamos a virtualidade conforme Pierre Levy e os tres paradigmas da imagem de Lucia Santaella.

Inicialmente, questionou-se o uso da lousa em detrimento dos recursos das linguagens artisticas tradicionais. Para Dewey:

(...) E bem penosa labuta e a de alterar velhas crencas. (...) Medos inconscientes tambem nos arrastam a atitudes puramente defensivas, que funcionam como cota de armas, nao apenas para barrar novas concepcoes, mas para impedir a nos proprios o acesso a nova observacao. O efeito cumulativo dessas forcas e o de enclausurar o espirito e promover o afastamento de novos contatos intelectuais, necessarios a aprendizagem (Dewey, 1959: 39).

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Quando os estudantes perceberam que tinham seguranca quanto as linguagens conhecidas, mas resistiam ao que desconheciam,e reconheceram que o uso da tecnologia e importante na contemporaneidade se lancaram ao desafio. Segundo Freire:

Minha seguranca se funda na conviccao de que sei algo e de que ignoro algo que se junta a certeza de que posso saber melhor o que ja sei e conhecer o que ainda nao sei. (...) Testemunhar a abertura aos outros, a disponibilidade curiosa a vida, a seus desafios, sao saberes necessarios apratica educativa. (...) Seria impossivel saber-se inacabado e nao se abrir ao mundo e aos outros aprocura de explicacao, de respostas a multiplas perguntas. (...) O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relacao dialogica em que se confirma como inquietacao e curiosidade (Freire, 1996, p. 135-6).

Os educadores perceberam que era possivel por meio do uso da lousa trabalhar concomitantemente com imagens visuais e escritas, com videos e sonoridade. Alguns conceitos foram explorados como: sombra, realidade-virtualidade, ausencia-presenca, memoria, luz e projecao. As criancas visitaram com os arte-educadores a exposicao IndiaLado a Lado no Sesc Belenzinho; e Emocao Art. ficial no Itau Cultural.

Todos se encantaram com a instalacao "Elevador do Subconsciente", de She-ba Chhachhi. Inspirados nesta obra as criancas criaram a instalacao "Condominio Magico". Realizaram intervencoes sobre os fragmentos da "realidade" (fotos das casas) utilizando as ferramentas tecnologicas (lousa, projecao, filmagem, fotografia). A ideia era criar um lugar onde todos moram juntos e onde tudo pode existir. Simularam um elevador onde as pessoas entravam e viam projetadas as fotos. Sobre apreciacao e criacao, Rizzi diz:

E importante que seja trazida para esta atividade educativa a dimensao de criacao que ela pode possuir tanto para os alunos quanto para os professores. (...) Reflexao, intencao, mediacao, flexibilidade e criacao compartilhada sao palavras e acoes--chave nesse processo (Rizzi, 2013: 146).

4. Nunca me esquecerei do que aprendi fazendo

(...) se imaginarmos uma pedra, a qual esteja rolando por uma colina, para ter uma experiencia. Sua atividade e seguramente "pratica". A pedra parte de algum lugar, e movimenta-se, conforme o permitam as condicoes, para um lugar e para um estado onde possa permanecer imovel-para um fim. Agreguemos, pela imaginacao, a tais fatos externos, as ideias de que a pedra rola para diante desejando o resultado final; que se interessa pelas coisas que encontra pelo caminho, condicoes que aceleram e retardam seu movimento em relacao a seu termino; que atua e sente com respeito a elas de acordo com a funcao de impulsiona-las ou dete-la que lhes atribua; e que a chegada final ao repouso seja relacionada com tudo o que aconteceu antes enquanto a culminancia de um movimento continuo. Entao a pedra teria uma experiencia, e dotada de qualidade estetica (Dewey, 1974: 250).

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O laboratorio tem propiciado aos alunos a oportunidade de colocar em pratica os saberes construidos durante a Graduacao. Descobrem que inventar e possivel e que nao precisam se ater a modelos padronizados de aulas, o que torna a pratica educativa uma nova e estimulante descoberta a cada dia. No embate com a dinamica educativa adquirem novos saberes, sentires e pensares.

Aprender fazendo neste contexto foi importante para vencer desafios de ordem pessoal, por incentivar a pesquisa, a investigacao e a utilizacao das novas tecnologias.

O fazer articulado a apreciacao possibilitou aos educadores e educandos se tornarem produtores e apreciadores da cultura.

Segundo Rizzi, a autonomia do arte-educador para escolher a exposicao e o momento adequado de levar seus alunos e imprescindivel. Sistemas educacionais que impoe um programa previo impossibilitam a "maior aproximacao ao programa do ensino e a criacao de estrategias significativas de mediacao cultural. Uma perda!" (Rizzi, 2013: 139)

Ao abordarmos a configuracao complexa do ensino da arte, podemos perceber a riqueza dos conteudos, dos caminhos e das possibilidades articulatorias que a construcao do conhecimento em artes pode oferecer aos educadores, alunos e suas comunidades. Podemos ainda perceber que, para operar neste universo de caminhos e combinacoes, educadores, alunos e instituicoes tem que se abrir apossibilidade do acaso, do desconhecido e da incerteza. Perceber que esta configuracao de processos de trabalho inclui atitudes de pesquisa, atencao e flexibilidade e que a dinamica resultante, e ao mesmo tempo impulsionadora deste trabalho de carater computacional, traz a dimensao entropicapara o ensino da arte (Rizzi: 346).

Os caminhos metodologicos de capacitacao de futuros professores pelo processo de aprender fazendo tem propiciado experiencia artistica estetica educativa e significativa. Temos vivenciado o que e formar e nao "enformar" os futuros professores.

No meio do caminho tinha uma pedra. --Carlos Drummond de Andrade.

Referencias

Barbosa, Ana Mae (Org.). (2008) Inquietacoes e mudancas no ensino da arte. SP: Cortez.

Cano, Rogerio (Cord.) (2013) Rizzi, M.C.S.L., Rosenthal,D. (orgs.). Sao Paulo: Blucher.

Dewey, John (1959) Como Pensamos. Sao Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.

Dewey, John (1974) Tendo uma experiencia. Cap. 3. Sao Paulo: Abril Cultural. (Col.: Os pensadores).

Freire, Paulo (1996). Pedagogia da Autonomia--saberes necessarios a pratica educativa. Sao Paulo: Paz e Terra.

Soares, Margarete Barbosa Nicolosi. (2010) Atelie de artes visuais para criancas: buscando fundamentos, compreendendo o essencial. Dissertacao de Mestrado. Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo. Sao Paulo.

MARGARETE BARBOSA NICOLOSI SOARES

Brasil, pesquisadora, artista plastica, foi professora no ensino basico, fundamental I e II, ensino medio e universitario. Frequenta o doutorado do Departamento de Artes Visuais da Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo, ECA/USP. Licenciada em Educacao Artistica com Habilitacao em Artes Plasticas (ECA/USP), Mestre em Artes Visuais (ECA/USP).

Artigo completo submetido em 3 de junho e aprovado a 10 de junho de 2013.

Contactar a autora: margaretebarbosa@usp.br
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Nicolosi Soares, Margarete Barbosa
Publication:Materia-Prima
Date:Jul 1, 2013
Words:2831
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