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O engajamento politico-social na poesia Bucolica de Virgilio, Calpurnio e Nemesiano.

O POEMA BUCOLICO

O poema bucolico e de origem muito remota, nascido num passado longinquo, quando o homem praticava a vida pastoril. Varios grupos de pastores e trabalhadores do campo habitavam as ferteis regioes da Sicilia e da Italia Meridional. Dai o bucolismo traduzir a esperanca de uma epoca de paz, um canto de saudade. O culto ao campo fazia parte da vida pastoril greco-romana. Nesse ambiente rustico, poetas como Virgilio (epoca de Augusto--63-14 d.C.), Calpurnio (periodo neroniano--54 a 68 d.C.) e Nemesiano (segunda metade do seculo III d.C.) foram capazes de unir temas ligados a natureza aos ideais politicos e sociais da epoca em que viveram. Virgilio, em seus poemas, visualizou a Idade de Ouro com todo o passado glorioso de Roma e louvou os meritos divinos do Imperador Otavio Augusto. Calpurnio fez alusoes ao Imperador Nero, louvando o reinado deste soberano como sendo o iniciador da Idade de Ouro em Roma. Seus poemas apresentam uma dimensao nacional, tendo como objetivo servir a causa de Roma. E, finalmente, Nemesiano, que dedica a sua obra aos filhos do Imperador Caro, sendo os seus poemas portadores de ecos de renovacao politico-social, aludindo tambem a Idade de Ouro.

TEOCRITO, PAI DO GENERO BUCOLICO

Teocrito, grande poeta grego, nascido em Siracusa, na Sicilia, provavelmente em 270 a.C., e considerado o pai do genero bucolico pelo fato de ter escrito, com grande mestria, poemas pastoris, onde camponeses, animais, campo foram "pintados" com perfeita naturalidade. Os poemas bucolicos de Teocrito foram chamados de Idilios. Nessas composicoes figuram cinco elementos primordiais que fundamentam toda a obra: o pastor, a natureza, o canto bucolico, o amor e a mulher. A maioria dos Idilios tem como cenario a paisagem siciliana. Portanto, a arte de Teocrito fundamenta-se diretamente na realidade objetiva da natureza.

VIRGILIO E SEU ENGAJAMENTO POLITICO-SOCIAL NA EPOCA DE AUGUSTO

Publio Virgilio Naro nasceu a 15 de outubro do ano 70 a.C., em Andes, perto de Mantua. Era filho de fazendeiro, tendo sido educado em Cremona.

O proprio poeta nos deixou pistas sobre o lugar do seu nascimento na IX Bucolica:
   Vare, tuom nomen, superet modo Mantua nobis,
   Mantua uae misere nimium uicina Cremonae,
   cantantes sublime ferent ad sidera cycni.

   (vv.27-29)

   Varo, se Mantua nos restar, Mantua demasiado proxima,
   ah!, da feliz Cremona, os cisnes, cantando levarao
   teu nome sublime ate os astros.


Virgilio foi um profundo conhecedor da terra que ele exalta, pois era filho de um pequeno proprietario de terras. Ele conhecia o outono com a maturacao das uvas; o odor da terra fendida pelos ganchos da charrua; o forte halito dos animais; os tosoes aquecidos durante o dia todo pelo calor do sol; o aroma do vinho doce e do mel destilado durante os quentes veroes.

O poeta tambem mostra a sua pretensao de ser o primeiro escritor latino a imitar a poesia pastoril de Teocrito:
   Prima Syracosio dignata est ludere uersu
   nostra, neque erubuit siluas habitare, Thalia.

   Buc. VI,1-2

   A minha Talia primeiro houve por bem divertir-se com
   o verso siracusano, e nao corou por habitar os bosques.


Em Roma, o poeta estabeleceu relacoes de amizade com importantes politicos como Poliao, Mecenas, Vario e Cornelio e outros personagens ligados as letras como Cina, Valerio Catao, Quintilio Varo, Propercio, Cornelio Galo, Horacio e outras importantes figuras do circulo literario.

Virgilio realizou uma viagem a Brindisio e, mais tarde, tendo viajado para Megara, foi vitima de insolacao por causa do calor abrasante. Resolveu, entao, regressar a Atenas, mas por insistencia do Imperador Augusto, volta a Italia. Porem, alguns dias apos o seu desembarque em Brindisio, falece no dia 22 de setembro do ano 19 a.C., no consulado de Gneu Sencio e Quinto Lucrecio. O seu corpo foi transportado para Napoles e, antes de morrer, o poeta deixou redigido o seu proprio epitafio:
   Mantua me genuit, Calabri rapuere, tenet nunc
   Parthenope; cecini pascua, rura, duces.

   Mantua me gerou, a Calabria me arrebatou, Partenope hoje
   me possui; cantei as pastagens, os campos, os chefes.


O poeta ao falar em pascua esta se referindo as Bucolicas, em rura, aos campos cultivados, as Georgicas e em duces, a epopeia da Eneida.

Virgilio escreveu as Bucolicas aos 28 anos de idade, tendo levado tres anos para compo-las. Elas foram inspiradas nos Idilios de Teocrito, onde pastores e camponeses figuram com suas cancoes, amores e sentimentos. Alem de relatar a vida do campo, nelas aparecem projecoes sobre a vida politica e social, distanciadas do ambiente pastoril.

A poesia pastoril em Roma teve solido crescimento. A Sicilia, embora tenha sido provincia romana, nao ficou sendo a sonhada terra do poeta. Virgilio a substitui pela distante e imaginaria Arcadia, enquanto que Teocrito tinha diante de si o ambiente pastoril real. Neste ambiente criado por Virgilio, ele inclui a historia de Roma, a estrela de Cesar e Otaviano, como tambem suas ideias sobre a Idade de Ouro, expressando os seus sentimentos atraves dos pastores.

Virgilio, em suas Bucolicas I e IV, faz toda uma apoteose do reinado de Augusto, colocando-o na esfera divina. O poeta era partidario de Cesar; era atraido nao so pela gloria, mas tambem pela promessa de que poderia realizar o seu trabelho sob a paz de um regime politico.

Em sua primeira Bucolica, o poeta alude aos acontecimentos politicos e sociais desencadeados apos a vitoria de Filipos, em 41, onde foram repartidas aos veteranos de terras na Galia Cisalpina, Cremona e Mantua; dentre essas terras, estava a propriedade de Virgilio. Mas Asinio Poliao, amigo e protetor do poeta, conseguiu obter a revogacao da sua expropriacao, junto ao Imperador Augusto. Assim, o poeta, em seus versos, aponta para a triste situacao de seus conterraneos, a dor e a miseria dos deserdados e a sua feliz sorte de ter tido as suas terras poupadas.
   En unquam patrios longo post tempore finis,
   pauperis et tuguri congestum caespite culmen,
   post aliquot, mea regna uidens, mirabor aristas?
   Impius haec tam culta noualia miles habebit?
   Barbarus has segetes? En quo discordia ciuis
   produxit miseros! His nos conseuimus agros!

   Buc. I, 67-72

   Sera que um dia, apos longo tempo, reverei os territorios patrios,
   o teto da minha pobre choupana coberto de colmo e, mais tarde
   revendo os meus dominios, encontrarei, surpreso, algumas espigas?
   Um soldado impio possuira estas terras tao cultivadas? Um barbaro,
   estas searas? Eis ate onde a discordia levou os cidadaos infelizes!
   Para esses nos semeamos os campos!

   Fortunate senex, ergo tua rura manebunt!

   Buc. I, 46

   Velho afortunado, entao os teus campos permanecerao teus!


Uma das caracteristicas da epoca de Augusto foi a valorizacao de temas relacionados a natureza, a volta aos ideais religiosos da Roma Antiga, o apoio, por parte do imperador, aos escritores da epoca e a paz social e politica que pairava em todo o Imperio.

Na IV Bucolica, o poeta fala-nos da Idade de Ouro ligada ao nascimento de um menino. O poeta dirige-se ao consul Poliao, anunciando o nascimento de uma crianca, que governara e trara a Idade de Ouro a Roma.
   magnus ab integro saeclorum nascitur ordo.
   Iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna;
   iam noua progenies caelo demittitur alto.
   Tu modo nascenti puero, quo ferrea primum
   desinet ac toto surget gens aurea mundo,
   casta, faue, Lucina: tuus iam regnat Apollo.
   Teque adeo decus hoc aeui, te consule, inibit,
   Pollio, et incipient magni procedere menses
   te duce.

   Buc. IV, 5-12

   a grande serie de seculos recomeca.
   Ja tambem retorna a Virgem, voltam os reinos de Saturno;
   do alto ceu ja e enviada uma nova geracao.
   Tu somente, casta Lucina, favorece ao menino que nasce,
   sob o qual primeiramente desaparecera a raca de ferro
   e surgira no mundo inteiro a raca de ouro, ja reina o teu Apolo.
   E esta honra do tempo comecara e os grandes meses comecarao
   a suceder-se primeiramente sob o teu consulado, o Poliao,
   sob o teu comando.


A instituicao do culto ao Imperador, que muito influenciou a poesia da epoca de Augusto, foi o fundamento de toda politica cultural augustana. Era de suma importancia, para a coesao espiritual do grande imperio romano, a criacao de uma religiao estatal que fosse capaz de unir os diversos povos conquistados, principalmente os do Ocidente. Augusto desejava criar uma nova unidade cultural e religiosa entre os povos ocidentais e Roma.

Em 29 a.C., Augusto recebe oficialmente o titulo de deus e, em 27 a.C., o culto ao imperador torna-se publico.

Assim, conforme nos diz Garsey e Saller,

El culto al gobernante fue el unico culto romano que paso a ser mas o menos universal.

Cumplia tres funciones principales: la difusion de la ideologia imperial, la concentracion de la lealtad de los subditos en el emperador y el progreso social y politico de los provincianos que presidian su funcionamiento. (GARSEY et SALLER, 1991: 236)

Virgilio faz toda uma apoteose do reinado de Augusto, colocando-o na esfera divina:
   O Meliboee, deus nobis haec otia fecit;
   namque erit ille mihi semper deus; ...

   Buc. I, 6-7

   O Melibeu, um deus nos concedeu estes ocios;
   com efeito, ele sera sempre um deus para mim;


Enfim, Virgilio e um inovador do genero bucolico. Em seus versos alem de apresentar o culto da terra, o amor ao campo e discutir os problemas existenciais do homem, tambem focaliza as transformacoes politicas e sociais de sua epoca.

CALPURNIO, UM POETA A SERVICO DO IMPERIO NERONIANO (54-68 d.C.)

Virgilio teve grande influencia na obra de Calpurnio que, ao escrever as suas Bucolicas, tomou-o como modelo.

Tito Calpurnio Siculo, de quem quase nada sabemos, pois nao existe entre os autores antigos noticia alguma sobre a sua vida, foi o autor de sete Bucolicas. Nesta sua obra, o poeta faz alusoes ao imperador Nero, louvando o reinado deste soberano como sendo o iniciador da Idade de Ouro, em Roma. Dai colocarmos Calpurnio como tendo vivido na corte de Nero, conforme afirma a maioria dos criticos.

Quanto ao sobrenome Siculus, numa explicacao mais simples, indicaria a patria do poeta, pois no manuscrito de Gerhard Johan Voss (Vossius) (1577-1649), o seu nome e acompanhado do sobrenome Sicilien, nos fazendo crer que o poeta era originario da Sicilia; era costume dos autores de epocas remotas adotar como sobrenome, o nome de sua patria. Quanto as funcoes ocupadas por Calpurnio na Corte imperial, segundo Flavio Vopisco, na Historia Augusta, ele exercia o cargo de magister ou dictator memoriae, isto e, um dos secretarios e arquivistas do imperador. Este posto exigia grande honestidade e muita instrucao, e o titular devia estar sempre a disposicao do imperador.

Acredita-se que a I Bucolica tenha sido escrita no inicio do governo de Nero, por volta do ano 54 ou 57 d.C. Esse novo governante, a quem estavam confiados os destinos de Roma, prometia voltar aos ideais de Augusto:

Na ansia de dar uma ideia ainda mais nitida do seu carater, apos haver declarado "que reinaria de acordo com os principios de Augusto", nao perdeu nenhuma ocasiao de demonstrar a sua liberdade, sua clemencia e ate mesmo sua amabilidade. (SUETONIO, 1966: 187)

Nao conhecemos, portanto, muitos detalhes sobre a vida do poeta, porem podemos presumir que ele se identifica atras de seu personagem Coridao.

As Bucolicas I, IV e VII apresentam claramente a epoca de Nero, sendo, dentre as demais, as do carater politico.

Na Bucolica I, Fauno profetiza as glorias da Idade de Ouro, a qual estaria comecando sob um governo que traria as leis passadas e a ordem, nao importunaria o Senado e propiciaria uma pacifica religiosidade como nos dias de Numa Pompilio:
   Aurea secura cum pace renascitur aetas,
   Et redit ad terras tandem squalore situque
   Alma Themis posito, juvenemque beata sequuntur
   Secula, maternis causam qui lusit in ulnis.

   Buc. I, 42-45

   A Idade de Ouro renasce com tranquila paz,
   E finalmente, a propicia Temis volta as terras, acabada
   A aflicao e a miseria, e os seculos felizes seguem
   A um jovem, o qual mostrou com alegria a sua condignos
   [bracos maternais.

   Plena quies aderit, quae stricti nescia ferri
   Altera Saturni revocet Latialia regna,
   Altera regna Numae....

   Buc. I, 63-65

   Uma paz plena chegara, que, desconhecedora do ferro desembainhado
   Restabelecera os outros reinos latinos de Saturno, Os outros reinos
   de Numae ...


Alem disso, o novo imperador compromete-se a defender a causa da mae que deu origem a gens Iulia e o excentrico Nero e visto como um Iulius, que fala do povo de Ilion, referindo-se a legendaria vida de Eneias e seu filho. O poeta alude claramente ao discurso pronunciado por Nero em defesa dos habitantes de Ilion (Buc. I, 50-73):
   ... Nullos jam Roma Philippos
   Deflebit, nullos ducet captiva triumphos.
   Omnia Tartareo subigentur carcere bella,

   Plena quies aderit, quae stricti nescia ferri
   Altera Saturni revocet Latialia regna,
   Altera regna Numae....

   Jam nec adumbrati faciem mercatus honoris,
   Nec vacuos tacitus fasces, et inane tribunal
   Adcipiet consul: sed legibus omne reductis
   Jus aderit, moremque fori vultumque priorem
   Reddet, et adflictum melior deus auferet aevum.

   Buc. I, 50-52; 63-65; 69-73

   ... Agora Roma nao mais chorara Alguns Felipes, nao mais celebrara,
   cativa, quaisquer triunfos. Todas as guerras serao subjugadas na
   prisao do Tartaro,

   Uma paz plena chegara, que, desconhecedora do ferro desembainhado,
   Restabelecera os outros reinos Latinos de Saturno, Os outros reinos
   de Numa, ...

   Entao, a curia nao aceitara a aparencia de uma falsa cerimonia Nem
   o consul calado aceitara os feixes inconstantes, e o Tribunal
   inutil: aproximar-se-a, porem, toda justica Das leis feitas, e um
   deus melhor restituira o costume E a imagem antiga do Foro, e
   afastara a geracao aflita.


Tal referencia e encontrada em Tacito e em Suetonio:

No consulado de D. Junio e Q. Haterio, Nero, aos dezessete anos de idade, casou-se com Otavia, filha de Claudio; e para que tambem com a gloria da eloquencia e de honrosos estudos se ilustrasse, tomou a causa dos habitantes de Ilio, donde era provindo o povo romano e Eneias, estirpe da familia Julia; e memorando fatos quase fabulosos por sua antiguidade, obteve para eles isencao de quaisquer encargos publicos. (TACITO, 1964)

Conduzido ao "Forum" para ai tomar a toga, prometeu uma distribuicao ao povo e uma gratificacao aos soldados. Numa revista aos pretorianos, colocou-se a frente destes com um escudo na mao. Depois, solicitou ao Senado, acoes de graca para seu pai adotivo. Defendeu, diante dele, entao consul, em latim, os habitantes de Bolonha e, em grego, os de Rodes e de Ilion. (SUETONIO, 1966: 187)

Enfim, um cometa aparece no ceu, o qual foi assinalado por Suetonio e Plinio e interpretado como anunciador da morte de Claudio, em 13 de outubro do ano 54:
   Cernitis, ut puro nox jam vigesima coelo
   Fulgeat? ut placidum radianti luce cometem
   Proferat? ut liquidum mittat sine vulnere sidus?

   Buc. I, 77-79


Ves, como ja a vigesima noite brilha no ceu Sereno? como mostra o faiscante cometa com radiante Luz? como esteja enviando um astro limpido sem [desgraca?

Os maiores pressagios da sua morte foram: a aparicao duma dessas estrelas de cabeleira a que chamam de cometa. A queda dum raio no tumulo do seu pai Druso. E a morte, no mesmo ano que a dele da maior parte dos magistrados. (SUETONIO, 1966: 183)

Calpurnio termina o poema na esperanca de que os seus versos cheguem aos ouvidos do principe, atraves do pastor Melibeu:
   Forsitan Augustas feret haec Meliboeus ad aures.

   Buc. I, 94

   Talvez Melibeu leve estes (poemas) aos ouvidos Augustos.


A IV Bucolica (escrita, provavelmente, na mesma epoca da I Bucolica) se apresenta como uma poesia essencialmente politica. Calpurnio, disfarcado no personagem Coridao, deseja que seu protetor Melibeu leve sua obra a Corte de Nero e agradece a Melibeu por te-lo tirado da pobreza e evitado seu exilio ate os confins do mundo. Toda a segunda parte do poema consiste num elogio a Nero, apresentando os seus divinos poderes.
   COR. Carmina jam dudum, non quae nemorale resultent,
   Volvimus, o Meliboee; sed haec, quibus aurea possint
   Secula cantari, quibus et deus ipse canatur,
   Qui populos urbemque regit, pacemque togatam.

   Scilicet extremo nunc uilis in orbe iacerem,
   Ah dolor! et pecudes inter conductus Iberas,

   At mihi, qui nostras praesenti numine terras,
   Perpetuamque regit juvenili robore pacem,
   Laetus, et Augusto felix adrideat ore.

   AM. Dii, precor, hunc juvenem, quem vos (nisi fallor) ab [ipso
   Aethere misistis, post longa reducite vitae
   Tempora, vel potius mortale resoluite pensum,
   Et date perpetuo coelestia fila metallo:
   Sit deus, et nolit pensare Palatia coelo

   Buc. IV, 5-8; 43-41; 84-86; 137-141

   COR. Ja ha muito tempo, o Melibeu, meditamos em versos, nao os que
   Ressoam de forma pastoril; mas naqueles, pelos quais os Seculos de
   Ouro Possam ser celebrados, e pelos quais possa ser cantado o
   proprio deus, Que rege os povos e a cidade, e a paz romana

   Naturalmente eu agora jazeria desprezivel num longinquo mundo, Ah
   dor! e conduzido entre as ovelhas Iberas,

   A mim, porem, agrada (cantar) aquele que governa as nossas terras,
   Com a divindade propicia e dirige com a sua forca juvenil uma paz
   Perpetua, alegre, e feliz com face Augusta.

   AM. Deuses, eu suplico, reconduzi este jovem, que vos (se eu nao me
   engano)

   Do proprio Eter enviaste, apos longos tempos De vida, ou antes
   cortai o fio mortal, E dai-lhe fios celestes com um metal
   duradouro: Que ele seja um deus, e nao queira trocar seus Palacios
   pelo ceu


Alem disso, o poeta faz referencia a nova legislacao que seria implantada pelo novo soberano. Tacito, nos seus Anais, descreve um pressagio ocorrido nessa epoca:

Nesse ano a figueira Ruminal, na praca dos comicios, que oitocentos e trinta anos antes abrigara a infancia de Romulo e Remo, perdeu toda ramagem, secando-se-lhe o tronco; mas tornou a brotar depois, o que foi tido como prodigio. (TACITO, s.d.: 209-210)

Na VII Bucolica, o pastor Coridao e o proprio Calpurnio que esteve em Roma e faz uma grande descricao da cidade, a fim de mostrar a beleza e a majestade que pairavam em Roma no tempo de Nero. O poeta descreve de modo maravilhoso o anfiteatro de madeira construido por Nero no ano 57 d.C., no Campo de Marte (vv. 37-38). Dai acreditar-se que esta bucolica tenha sido escrita nessa epoca.

Tacito e Suetonio fazem alusao a este edificio:

Do consulado de Nero, pela segunda vez, e L. Pison pouco ha de narrar, a nao ser que se apraza alguem em encher volumes com elogios aos fundamentos e armacoes de um anfiteatro construido por Cesar no Campo de Marte; ... (TACITO, s.d.: 199)

E quando do combate de gladiadores, que se verificou num anfiteatro de madeira, construido no espaco dum ano, no bairro, do Campo de Marte, nao mandou matar ninguem, nem mesmo entre os criminosos. (SUETONIO, [s/d]: 188)
   ... Stabam defixus et ore parenti
   cunctaque mirabar nec dum bona singula noram.

   Buc. VII, 37-38

   ... Permanecia imovel e boquiaberto
   e admirava todas as coisas em conjunto, e nao percebendo
   [cada uma dessas belas coisas em particular.


A datacao desta bucolica tambem pode ser dilatada para o ano 63, devido a alusao aos lugares reservados aos cavaleiros romanos, segundo uma lei estabelecida por Nero neste mesmo ano:

Designou para os cavaleiros romanos lugares adiante dos da plebe, no circo; ate aquela data, eles ficavam confundidos, porquanto a lei Roscia nao dispunha senao a respeito das quatorze primeiras filas de lugares no teatro. (TACITO, s.d.: 244)
   Nam quaecumque patent sub aperto libera coelo,
   aut eques aut niuei loca densauere tribuni.

   Buc. VII, 28-29

   No entanto, todos aqueles lugares que se apresentam livres
   [sob o ceu aberto,
   ou os cavaleiros os ocuparam ou os tribunos vestidos de branco.


Alem dos versos acima, temos uma belissima descricao do anfiteatro e dos jogos patrocinados pelo imperador, o qual, segundo o texto (vv. 23-72; 82-84), se fazia presente nos espetaculos:
   ... utcumque tamen conspeximus ipsum
   longius; ac nisi me decepit uisus, in uno
   et Martis vultus et Apollinis esse putaui.

   Buc. VII, 82-84

   ... de qualquer maneira, porem, nos o vimos
   muito longe; e se a minha vista nao me iludiu, ao mesmo tempo
   julguei ver nao so o rosto de Marte mas tambem o de Apolo.


O poeta canta, portanto, a Roma neroniana, embriagada pelo luxo imperial; descreve de modo maravilhoso o anfiteatro de madeira construido pelo soberano, no ano 57 d.C.

Todo esse lirismo em tom politico e explorado por Calpurnio, imitando Vergilio, que com grande sensibilidade soube louvar os meritos divinos do imperador Augusto. E Calpurnio apresenta nas Bucolicas I, IV e VII um Nero tambem divinizado que, ao assumir o poder, prometeu seguir os passos de Otavio Augusto. Assim, na I Bucolica, Calpurnio assemelha Nero ao Sol soberano e, as vezes, aos deuses Apolo e Jupiter.

As composicoes de Calpurnio fazem parte da "descendencia do lirismo latino" (GRIMAL, 1978: 163), cujas raizes vem desde Virgilio, com uma linguagem nova, numa tentativa de colocar-se como uma obra que representaria a epoca de um soberano que traria uma nova politica ao interior de Roma.

NEMESIANO, UM POETA DO SEU TEMPO

Marco Aurelio Olimpio Nemesiano viveu na segunda metade do III seculo de nossa era, aproximadamente no tempo do Imperador Caro. Epoca de grandes transformacoes e acontecimentos, quando o Imperio Romano vive em meio a turbulencias politicas externas e internas.

Nesse ambiente, surge Nemesiano, nascido em Cartago (Africa), o qual assume um lugar de relevancia nesta fase, pois foi o mais notavel poeta deste seculo tao pobre de poesia.

Tal reputacao foi favorecida quando Numeriano, considerado bom poeta na epoca, filho do Imperador Caro, ocupa o Imperio e promove um concurso poetico, no qual participa Nemesiano.

A vida de Nemesiano e obscura, no entanto, o melhor testemunho que temos e o de Flavio Vopisco, em sua Historia Augusta, onde o historiador nos diz:
   Ele (Numeriano) tinha, diz a fama, um tal talento que o elevou
   sobre todos os poetas de seu tempo. Com efeito, rivalizou com
   Olimpio Nemesiano, autor das Helieuticas, Cinegeticas e Nauticas,
   que se distinguiu pelo brilho de todas as cores de sua poesia.

   Caro, 11-2


Assim, e certo que o poeta viveu no III seculo, ja que o Imperador Numeriano morreu em 284. Porem, nao podemos precisar a data de seu nascimento ou de sua morte, embora haja indicios de que o poeta tenha nascido no ano 258, sob o reinado de Valeriano, e falecido no de Diocleciano.

Quanto ao sobrenome Nemesiano, este tinha sido herdado de seus antepassados, que eram de Nemesio, cidade da Libia. O seu nome de familia, segundo a opiniao de alguns criticos, e Olimpio. Ja Marco Aurelio, e provavel que seus pais tenham lhe dado esse nome, por ser comum, em Roma, dar aos filhos nomes de pessoas famosas.

Seguindo os passos de Virgilio, escreveu quatro Bucolicas e um poema didatico em homenagem aos filhos de Caro--Numeriano e Carino.

As quatro bucolicas apresentam reminiscencias Classicas, fineza de gosto e estilo, utilizacao de recursos helenisticos como o hexametro, motivos mitologicos e cultos campestres.

As Bucolicas incorporam temas pastoris tradicionais: o lamento pela morte de um velho pastor poeta, pastores rivais cantando louvores a seus respectivos amores, Pa aparecendo a alguns pastores e uma competicao de canto entre dois pastores.

Muitos estudiosos tem visto estes poemas como certa referencia aos programas de restauracao do Imperio atribuidos ao Imperador Caro e a seus filhos.

A primeira Bucolica parece apresentar um elogio a certa personalidade politica, que conseguiu instalar o direito e a paz em toda a provincia que, na epoca, pertencia a Roma; pairava, entao, o ideal da paz romana.
   Sub te ruris amor, sub te reuerentia iuris
   floruit, ambiguos signauit terminus agros

   Buc. I, 54-55

   Sob tua autoridade floresceu o amor ao campo, sob teu poder,
   a reverencia da justica, o limite marcou os campos duvidosos.

   Longa tibi cunctisque diu spectata senectus
   felicesque anni nostrique nouissimus aeui
   circulus innocuae clauserunt tempora uitae.
   Nec minus hinc nobis gemitus lacrimaeque fuere
   quam si florentes mors inuida carperet annos,
   nec tenuit tales communis causa querelas.

   Buc. I, 43-48

   Uma velhice longa, por muito tempo, notavel para ti
   e para todos os anos felizes e o ultimo circulo
   de nosso tempo encerram as etapas de uma vida irrepreensivel
   Nao tivemos desde entao menos gemidos e lagrimas
   do que se a morte invejosa te arrancasse os anos em flor,
   a sorte comum nao reteve tais querelas.


Enfim, Nemesiano, como seus precursores, recebeu influencias da poesia helenistica, pois escrevia nos moldes classicos. Apresenta linguagem clara, perfeicao na utilizacao do hexametro e do canto amebeu, dando importancia aos deuses campestres e, atraves de uma linguagem metaforica, apresenta um ideal politico onde sobrevivia lado a lado a paz romana e o otium poetico.

CONCLUSAO

Virgilio, Calpurnio e Nemesiano sao poetas liricos, pois utilizaram o mesmo processo de estruturacao, ou seja, o discurso lirico. Contudo, cada um deles vai apresentar uma manifestacao diferente do mesmo discurso, atraves das diferentes imagens de mundo.

Virgilio, em suas Bucolicas I e IV, faz toda uma apoteose do reinado de Augusto, colocando-o na esfera divina. Neste ambiente pastoril, o poeta inclui a historia de Roma, a estrela de Cesar e Otaviano, como tambem suas ideias sobre a Idade de Ouro. Otavio simbolizava um mundo novo. Roma sera a primeira Vrbs a afirmar sua dignitas. E Virgilio se une aos valores tradicionais do espirito romano, colocando as suas Bucolicas na esfera politico-social. Toda politica de revalorizacao dos antigos costumes e posta em sua obra, de maneira a fazer ressaltar as qualidades do governante. Em sua exaltacao a Augusto, o poeta esta celebrando o povo romano em meio a vida no campo.

Calpurnio, em suas Bucolicas, esta muito ligado a vida politica e esta acha-se presente, principalmente, nas Bucolicas I, IV e VII, que louvam as qualidades do Imperador Nero. Estas composicoes anunciam que a nova Idade de Ouro havia chegado a Roma, trazendo a paz, a justica e a ordem; o "deus", de que Calpurnio fala, regera o povo romano conforme os tempos de Numa e do "divo" Augusto. Estes poemas apresentam um vinculo entre a Natureza e o Imperador que ascende. Em torno dessa apoteose, Calpurnio abre as suas Bucolicas com um Nero "em majestade". Esse novo soberano prenunciava um sentimento de renovacao que vinha satisfazer os ideais de um "novo seculo".

Finalmente, Nemesiano fecha a tradicao das Bucolicas, colocando seus poemas como um marco de renovacao do Imperio que surgia sob o comando do Imperador Caro e seus filhos Numeriano e Carino.

Sabemos, pois, que os fatos historicos influem na obra literaria pelo simples fato de nao poder esta existir fora do tempo.

Em suma, esses tres poetas da Literatura Latina exploraram com grande habilidade os canones do lirismo bucolico, dando a eles um tom politico-social.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

ALFOLDY, Geza. A historia social de Roma. Traducao de Maria do Carmo Cary. Lisboa: Editorial Presenca, 1989.

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Ivone da Silva Rebello(PC-Rio)
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Author:Rebello, Ivone da Silva
Publication:Soletras
Date:Jan 1, 2004
Words:4720
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