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O TESTAMENTO AMOROSO MEDIEVAL E A QUERELA DA BELLE DAME SANS MERCY/LE TESTAMENT AMOUREUX MEDIEVAL ET IA QUERELLE DE LA BELLE DAME SANS MERCY.

Item, donne aux amants enfermes, Sans le laiz maistre Alain Chartier
Francois Villon


O Antigo e o Novo Testamento foram uma fonte inesgotavel de inspiracao para os poetas medievais. Um exemplo disso foi a criacao em vernaculo do testamento poetico no final do seculo XIII, que pode ser considerado como um sermao em verso no qual o poeta assumia o papel de pregador para glosar passagens sapienciais dos testamentos biblicos. Esse modelo religioso foi progressivamente substituido pela imitacao da forma do testamento juridico, utilizada seja pela poesia burlesca, seja pela lirica amorosa do final da Idade Media. No seculo XV, o testamento foi adaptado pela lirica para representar a figura do amante martirizado pela bela dama sem misericordia, no contexto da querela literaria da Belle Dame sans Mercy, de Alain Chartier.

O segundo tipo de testamento, o testamento juridico, foi objeto do estudo realizado pela medievista Jacqueline Cerquiglini-Toulet: L'ecriture testamentaire a la fin du Moyen Age (1999). Entre os principais testamentos poeticos do final da Idade Media, devem ser incluidos o Lais e o Testament atribuidos ao poeta frances Francois Villon (1431-?). Desde o final do seculo XX, a critica especializada tem cada vez mais insistido na vinculacao de Villon a poesia burlesca. Em La soif de Francois Villon, Roger Dragonetti (1993, p. 127) defende que os testamentos de Villon parodiam o lexico, as formas e as topicas do testamento amoroso por meio de uma "retorica autobiografica".

Embora os bens burlescos que constituem a industria dos legados sejam basicamente parodicos, a imitacao pelo Lais e pelo Testament do testamento amoroso desenvolvido na Franca na segunda metade do seculo XV tambem possui uma intencao grave. Pretende-se mostrar que, ao parodiarem a inteira estrutura do testamento amoroso da epoca e, em particular, a personagem do testador na pose de amante martir, os testamentos de Villon tomam uma posicao clara naquela querela do lado dos detratores da bela dama sem misericordia. Nesse sentido, os testamentos de Villon constituiriam uma mistura indissociavel do grave e do burlesco com vistas nao apenas a divertir, como tambem a ensinar.

O testamento como genero autonomo

Desde o final do seculo XII, foram escritos em vernaculo diversos poemas sobre a morte, que receberam a designacao de Vers de la Mort. Entre 1194 e 1197, o poeta Helinand de Froidmont, que se tornou monge de Froidmont, escreveu Le Vers de la Mort. Entre 1250 e 1270, foi escrito Li Ver de le Mor, de Adam de la Halle, e, entre 1266 e 1271, Les Vers de la Mort, de Robert le Clerc d'Arras. Em todas essas composicoes, o poeta assume o papel de pregador para glosar passagens sapienciais do Antigo e do Novo Testamento. Fundados no discurso religioso da epoca, esses poemas podem ser considerados como sermoes em verso.

Como o termo vers em frances e equivoco e pode designar tanto os versos quanto os vermes que devoram a carne, os titulos podem ser traduzidos como "versos da morte" ou "vermes da morte". Os Vers de la Mort dramatizam a transitoriedade dos bens temporais, segundo as topicas literarias do contemptu mundi (desprezo pelo mundo), carnes computruere (corrupcao da carne) e, sobretudo, vado mori (vou morrer). Construidos por meio de apostrofes a Morte (personificada), os versos sao "da" morte tanto em sentido objetivo quanto subjetivo, pois a Morte e nao apenas a personagem principal, como tambem o lugar de enunciacao do poeta.

Retomando esse lugar de enunciacao e encenando o poeta antes de morrer, a forma do testamento poetico pode ser considerada um desenvolvimento dos Vers de la Mort. Escrito em frances entre 1291 e 1296, Le Testament Maitre Jehan de Meun, (1) do autor da segunda parte do Roman de la Rose, (2) foi intitulado pelos escribas (GALLARATI, 1978). Ele e sucedido por um codicilo de oitenta e oito versos composto em quadras de rimas planas, como o testamento. O codicilo e o diminutivo do termo latino codex (livro) e designa um anexo no qual eram efetuadas alteracoes ou anulacoes de um testamento real.

A imitacao da estrutura juridica de um testamento real e uma constante nos testamentos amorosos compostos na segunda metade do seculo XV na Franca, como sera mostrado a seguir. A forma testamentaria permite conferir verossimilhanca ao lugar comum do vado mori, pois o poeta nao assume, como nos Vers de la Mort, o papel de pregador para invocar a Morte (personificada), mas o papel de testador moribundo para deixar seus bens aos legatarios. Em Le Testament Maitre Jehan de Meun, o poeta abandona a autoridade de pregador para assumir as caracteristicas particulares de uma personagem real no papel de testador.

Antes de se transformar em um genero autonomo, a forma do testamento ja fora explorada pelos autores que compuseram os poemas narrativos em vernaculo chamados de roman (romance). Uma das primeiras utilizacoes do testamento poetico pela literatura medieval em frances remonta ao Roman d'Alexandre, (3) de Alexandre de Paris, escrito por volta de 1185. Esse poema narrativo e a mise en roman (traducao em vernaculo) da vida do celebre imperador Alexandre, o Grande, cujas primeiras versoes foram escritas em grego no seculo III d.C. A vida de Alexandre e, em sua maior parte, narrada em terceira pessoa, como o genero da historia, do qual a vita (vida) e um subgenero.

No Roman d'Alexandre, o maior imperador da historia e associado a figura de Cristo onipotente. No quarto livro, Alexandre realiza uma ceia com sua corte toda reunida quando e envenenado por dois servos. A cena retoma elementos da "ultima ceia" de Cristo, identificando seus dois servos a figura historica de Judas (ALEXANDRE DE PARIS, 1994, p. 782). Imediatamente depois de ser envenenado, o imperador inicia a narracao de seu testamento. No final do Roman d'Alexandre, o testamento de Alexandre e narrado em primeira pessoa pelo proprio imperador moribundo.

Para recompensar os servicos prestados pelos doze pares de Franca em suas numerosas conquistas, Alexandre partilha as terras conquistadas ao longo de sua vida. (4) As formulas juridicas "eu dou, eu lego" encarnam no presente da enunciacao as ultimas vontades do testador. Os diversos bens legados por Alexandre amplificam sua generosidade, considerada como a maior virtude de um rei. Composto no genero do Miroir des Princes, (5) o Roman d'Alexandre caracteriza a personagem do imperador por meio das virtudes dignas de serem emuladas pelos futuros reis como, por exemplo, as virtudes teologais e cardinais. Alexandre cumpre com os legados as obrigacoes terrenas e sua alma pode ir para o Paraiso. (6)

No Roman dAlexandre, o testamento narrado em primeira pessoa pelo imperador conclui a narrativa de sua vida em terceira pessoa pelo poeta. Ha uma oposicao entre as duas estruturas narrativas, pois a vida dispoe linearmente a sucessao de eventos de uma existencia, enquanto a escrita testamentaria dispersa ao bel prazer os bens acumulados durante a mesma. Como narracao da vida de uma personagem real, o genero do testamento permanece associado ao genero da vida. No entanto, ao se tornar um genero autonomo no final do seculo XIII, a forma do testamento poetico passa a prescindir de um contexto narrativo, pois fixa o momento derradeiro da vida do testador e enuncia no presente da narracao suas ultimas vontades.

Para suprir a necessidade de um contexto narrativo, a forma do testamento poetico procura oferecer, antes do inicio dos legados e das disposicoes finais, um exordio contendo elementos sobre a vida do testador. O testamento poetico--entendido como genero autonomo enunciado basicamente em primeira pessoa por uma personagem real no papel de testador--e, com frequencia, precedido por uma introducao (como, por exemplo, uma confissao ou um lamento) que permite contextualizar a causa da morte do testador e da escrita de seu testamento. Como sera visto a seguir, esse contexto tambem pode ser oferecido por outros poemas sobre as mesmas personagens representadas no testamento.

A querela da bela dama sem misericordia

O genero do testamento foi adaptado a lirica amorosa a partir de meados do seculo XV na Franca, no contexto da querela literaria da bela dama sem misericordia. O poema inaugural da querela, a Belle Dame sans Mercy, (7) foi escrito em 1424 por Alain Chartier. O poema narra a requete d'amour (demanda amorosa) de um jovem amante a uma bela dama. Antes de narrar em discurso direto o dialogo entre os dois protagonistas da lirica cortes, Alain Chartier se volta para a propria situacao de enunciacao do poeta. No exordio da Belle dame, esse lamenta a morte recente de sua amada e, sem esperanca de voltar a amar, enuncia sua renuntiatio amoris (renuncia ao amor):
Je laisse aux amoureux malades
Qui ont espoir d'alegement
Faire chansons diz et balades
Chacun a son entendement
Car ma dame en son testament
Prist a la mort Dieu en ait l'ame
Et emporta mon sentement
Qui gist o elle soubz la lame
(CHARTIER, 2003, p. 18). (8)


Nessa estrofe, o poeta deixa para os outros amantes compor poemas, como cancoes, ditos e baladas. Em frances medio, o verbo "deixar" (laisser) e equivoco e significa tanto "abandonar" quanto "legar". O verbo laisser condensa o ato de abandono da atividade poetica e, portanto, sua renuncia ao amor. A morte precoce de sua amada nao apenas a impediu de deixar seu testamento, mas ainda levou consigo o sentimento amoroso do poeta. Invadido pela tristeza depois da morte de sua amada, ele perdeu toda esperanca no amor. Assim, ele lega e abandona aqueles que possuem o sentimento amoroso a tarefa de compor poemas.

A identidade entre a renuncia ao amor e a renuncia a poesia e um lugar comum da lirica cortes da epoca. O sentimento amoroso pode ser entendido nao apenas como o afeto presente na interioridade do poeta, mas tambem como sua propria expressao objetiva sob a forma do poema, que e entendido como instrumento imprescindivel do servico amoroso. Imitacao do sentimento amoroso do poeta por uma dama, a lirica cortes pode ser definida pela sinonimia entre a composicao poetica e o servico amoroso, como afirma Zumthor (1975). Retomando a elegia latina, a lirica amorosa se funda na equivocidade do termo amor, que designa tanto o sentimento amoroso quanto o poema que o manifesta.

Depois de sua renuncia ao amor, o poeta narra a demanda amorosa do jovem amante a sua dama durante um baile. Ele cede a palavra em discurso direto aos amantes, que sao escutados pelo poeta atraves de uma treille (trancado de videiras): "Assis, fors seullement les deulx/ Et n'y avoit aultre destour/ fors la treille entre moy et eulx" (CHARTIER, 2003, p. 28). (9) Alternando a cada estrofe a enunciacao em primeira pessoa do amante e da dama, aquele busca convence-la de seu amor, enquanto esta lhe opoe as resistencias prescritas pela castidade. A personagem da bela dama sem misericordia constitui um lugar comum da lirica amorosa desde as cancoes dos trovadores provencais.

A personagem da bela dama e descrita segundo as topicas do genero demonstrativo. Nas descricoes da dama na lirica cortes da epoca, era comum associar a beleza fisica e a nobreza de nascimento da dama suas virtudes morais. As qualidades visiveis no corpo da dama e na sua posicao hierarquica constituiam uma metafora de seus atributos morais (justica, temperanca, castidade e misericordia). Na descricao da bela dama, no entanto, nao ha correspondencia completa, mas oposicao parcial entre as qualidades fisicas ou exteriores e as morais, pois o poeta opoe a beleza fisica e nobreza de nascimento a crueldade moral da dama, segundo o dualismo cristao entre o externo e o interno.

A descricao da serie de qualidades fisicas ou exteriores da dama visa ressaltar sua crueldade. O amante ignora esse vicio moral de sua dama e, acreditando na aparencia enganosa de um amor verdadeiro, descobre tarde sua verdadeira natureza, colocando-se em dangiers (perigo). Uma das diversas personagens alegoricas da casuistica amorosa representada pelo Roman de la Rose, o perigo designa a possibilidade de colapso do amante incapaz de suportar as duras provas submetidas pela dama a seu servico amoroso, segundo a serie de metaforas guerreiras adaptadas ao vocabulario cortes.

A Belle dame nao imita o sentimento amoroso do poeta pela dama, como acontece na maior parte dos poemas liricos da epoca. Narrado pelo poeta em luto, a demanda amorosa e preenchida pela melancolia do poeta que, ainda que implicitamente, permanece presente por tras do dialogo como intermediario entre a demanda amorosa e o publico. A narracao da demanda amorosa e influenciada pelo luto do proprio poeta. Latente durante todo o poema na narracao pelo poeta do dialogo entre o amante e a dama, o desespero do amante com a impossibilidade do amor redunda em seu suicidio no final do poema.

A Belle dame pretende produzir a piedade do publico pela personagem do amante martir, que morre (literalmente) de amor pela bela dama sem misericordia. Da mesma forma que o testamento religioso do final do seculo XIII, o testamento amoroso nao visa apenas emocionar, como tambem ensinar. A personagem da bela dama serve como contraexemplo ao preceito da misericordia, ensinado pelas artes de amor da epoca. Esse carater exemplar do poema e explicito na exortacao final do poeta que, depois de anunciar o tragico desfecho, assume novamente a primeira pessoa da enunciacao para exortar o publico feminino:
Et vous dames et demoyselles
En qui honneur naist et s'assemble
Ne soyes mie si cruelles
Chacune ne toutes ensemble
Que ja nulle de vous ressemble
Celle que me oyes nommer cy
C'on peut appeler se me semble
La belle dame sans mercy
(CHARTIER, 2003, p. 82). (10)


A Belle dame foi imitada por diversos poetas do seculo XV, em uma querela literaria opondo os defensores e os detratores da personagem da bela dama sem misericordia. Acusa a bela dama de crueldade a Accusation contre la Belle Dame sans Mercy, (11) de Baudet Herenc, que, escrito em 1432, tambem foi intitulado o Parlement d'Amours e Le jugement de la Belle dame sans merci. Tambem a acusam os dois poemas de Achille Caulier: La cruelle femme en Amour (12) (tambem chamado Le jugement de la Belle dame sans merci) e L'Hospital d'Amours, (13) escritos entre 1425 e 1441. Como foi visto acima, o proprio Alain Chartier pode ser incluido do lado dos detratores da personagem da bela dama sem misericordia.

Em Les erreurs du jugement de la Belle dame sans merci, (14) os herdeiros da dama protestam contra o julgamento que redundou em sua morte. Nesse poema, no entanto, a critica a crueldade da bela dama tambem esta presente, embora a punicao reservada a dama seja considerada excessiva. Entre os argumentos utilizados pelos seus herdeiros, ha uma mencao ao testamento deixado pelo amante depois da recusa daquela, no qual este nao a acusa de nada e perdoa a todos (PIAGET, 1904). No anonimo La dame loyale en Amour, (15) escrito no seculo XV, o poeta a defende diante do tribunal do amor contra a acusacao de ter cruelmente frustrado as esperancas do amante. Um dos argumentos utilizados pelo poeta contra a acusacao de crueldade e sua lealdade com outro amante (CHARTIER et al., 2003, p. 222).

A personagem do amante em luto pela morte de sua amada, utilizada na Belle dame, foi adaptada a forma do testamento poetico por La confession et testament de l'amant trespasse de deuil, (16) de Pierre de Hauteville, escrito por volta de 1447. Nesse que pode ser considerado como o modelo do testamento amoroso na epoca, o amante languido depois da morte de sua amada redige em primeira pessoa seu testamento antes de morrer. Composto por sextinas de decassilabos com duas rimas, o testamento amoroso de Hauteville retoma o exordio da Belle dame e apresenta a personagem do amante em luto no papel de testador, como afirma o incipit: "Je, povre amant, en amours maleureux" (HAUTEVILLE, 1986, p. 50). (17)

Em La confession et testament, o amante martir confessa seus pecados (os sete pecados capitais e os pecados dos cinco sentidos), os quais sao absolvidos pelo padre, depois de um dialogo entre as personagens do amante e do padre. No desenvolvimento, o testador realiza seus legados e deixa o amor a todos os tipos de amantes, (18) segundo a ambiguidade do verbo laisser como legar e abandonar, explorada no exordio da Belle dame. Por fim, o amante pede perdao, recomenda a alma a Deus e lega seus bens aos herdeiros da amada, para que rezem pela alma dela. Em La confession et testament, a renuncia ao amor e, ao mesmo tempo, uma despedida da vida, como evidencia o explicit: "Adieu, jamais ne vous verray/ Je vous recommande mon ame" (HAUTEVILLE, 1982). (19)

Em dois manuscritos (HAUTEVILLE, 1986), o testamento de Pierre de Hauteville e antecedido por La complainte de l'Amant trespasse de dueil (20) e seguido por L'Inventaire des biens demourez du deces de l'amant trespasse de dueil, (21) escritos entre 1441 e 1446. Composta por dezenove estrofes de dezesseis decassilabos com duas rimas, La complainte foi escrita para servir de introducao ao testamento e permite explicitar a razao que levou o amante a escrever seu testamento. O lamento do poeta desesperado depois da morte de sua amada e uma elegia funebre dirigida a Morte (personificada).

Composto por quadras de rimas cruzadas, Llnventaire desempenha a funcao de codicilo de La Confession et testament, pois permite conclui-lo com um retrato do amante morto de dor. Llnventaire e enunciado por um escrivao que, depois da morte do amante, enumera os bens deixados depois de sua dispersao fisica. O escrivao menciona (HAUTEVILLE, 1986, p. 70), entre os livros encontrados no interior da biblioteca deixada pelo amante, alguns poemas pertencentes a querela literaria da bela dama sem misericordia como, por exemplo, La Belle Dame sans Mercy e L'Hospital d'Amours. Os tres poemas podem ser considerados partes interligadas de uma unica obra representando o destino tragico da personagem do pobre amante depois da morte de sua dama.

A utilizacao da forma do testamento por Pierre de Hauteville permite fundir as duas personagens masculinas do poema de Alain Chartier: o poeta em luto e o amante martir. Na Belle dame, o poeta em luto narra, depois de renunciar ao amor, a demanda amorosa do amante martir a sua dama, enquanto que, no testamento de Pierre de Hauteville, o proprio poeta assume a personagem do amante, que morre de dor nao por causa da rejeicao da amada, mas por causa de sua morte. Por pressupor desde o inicio a morte da amada, esse testamento nao assume uma posicao definida na querela da bela dama sem misericordia. Francois Villon, ao contrario, utiliza seus testamentos amorosos para intervir nessa querela, como sera visto a seguir.

Os dois testamentos de Francois Villon

A parodia da forma testamentaria foi realizada por diversos generos comicos em vernaculo, como bestiarios burlescos, farsas e satiras. Na Idade Media, sao retomados os testamentos burlescos escritos desde a antiguidade que sao enunciados por animais como, por exemplo, testamentos de porcos, asnos e mulas. No Testament de l'ane, (22) de Rutebeuf, o asno deixa um saco de dinheiro para o bispo. Rutebeuf satiriza a avareza dos bispos, que constituia um lugar comum na epoca, retomando a satira contra avareza como o vicio de servidao ao dinheiro realizada, por exemplo, no Roman de la Rose. A critica a avareza e frequentemente realizada nos testamentos, que caracterizam os legatarios como pessoas interessadas pelos bens do testador.

No teatro burlesco medieval, e comum encontrar parodias da forma testamentaria, como, por exemplo, o Testament de Pierre Pathelin. (23) Esse testamento retoma a personagem do advogado charlatao Pierre Pathelin, da Farce de Pierre Pathelin, para imitar o Testament, de Villon, mas, diferentemente desse, nao e um monologo dramatico, e sim uma farsa com quatro personagens. A poesia palaciana tambem utilizou a forma testamentaria para satirizar os vicios como, por exemplo, no Testament de la Guerre, (24) de Jean Meschinot. Nesse testamento satirico, a Guerra (personificada) assume o papel de testador para deixar legados antes da morte. Ao realizar sua confissao, as consequencias da guerra sao dramatizadas pelo poeta.

Nos dois poemas longos em forma de testamento atribuidos ao poeta frances Francois Villon (1431-?), confluem estes tres modelos do testamento poetico medieval: o testamento religioso, o amoroso e o parodico. Mais do que qualquer outro testamento poetico da epoca, os dois testamentos de Villon imitam rigorosamente a estrutura de testamentos reais da epoca, como demonstrou Van Zoest (1974). O desenvolvimento do Lais e do Testamento e constituido por sequencias de legados introduzidos pela formula juridica item ao inicio de cada estrofe. Essas sequencias sao construidas com base na enumeracao dos bens deixados aos seus legatarios, segundo a formula juridica je laisse (eu deixo).

O desenvolvimento do Lais e do Testament e estruturado pela enumeracao dos bens deixados aos legatarios pela personagem real de Francois Villon no papel de testador. No entanto, a insistencia nas formulas juridicas visa apenas intensificar o efeito ironico, pois os "bens" legados pelo celebre malfeitor da epoca sao sempre falsos ou derisorios, escondendo insinuacoes sobre os vicios dos seus beneficiarios. Nas sequencias de legados, Villon se refere a conhecidas personagens da epoca (como a amada, os amigos, a familia, rivais e inimigos). Nos nomes proprios dos legatarios de Villon, cujas identidades historicas foram reconstituidas por Pierre Champion (1913), figuram frequentemente seus atributos, segundo a topica do nome.

O Lais e inteiramente constituido pela oitava quadrada, que e a forma poetica utilizada pela Belle dame, de Alain Chartier. Ao longo das sequencias de oitavas, o Testament intercala dezesseis baladas, se for tomada como referencia a primeira edicao de seu corpus, realizada por Pierre Levet (1489). A estrutura da balada foi fixada por Eustache Deschamps, antes de se tornar uma das formas mais utilizadas pela lirica amorosa do seculo XV, inclusive pelo proprio Alain Chartier. Assim, as formas poeticas utilizadas no Lais e no Testament de Villon sao exatamente aquelas encontradas na lirica amorosa de Alain Chartier, em particular na Belle dame.

No Lais, Villon vincula a escrita de suas ultimas vontades a sua experiencia amorosa. O titulo do primeiro poema de Villon, o Lais, faz referencia nao apenas ao termo juridico lais (legado), como tambem ao ato de laisser (deixar) a cidade de Paris. No Lais, o testador abandona as pessoas que conheceu e, em particular, a amada, como acontece no genero do conge (despedida), oriundo de Arras e retomado por Adam de la Halle e Michault Taillevent. Os conges d'amour adaptaram a lirica amorosa esse genero, a que pertence, por exemplo, La departie d'Amours en balades, de Charles d'Orleans (1992).

Na segunda estrofe, o testador utiliza imagens e metaforas utilizadas pela lirica cortes para introduzir a cena amorosa, como, por exemplo, a natividade e o carvao em brasa. Na Belle dame (CHARTIER, 2003), o carvao em brasa e utilizado como metafora para o sentimento do jovem amante pela sua dama. Na lirica amorosa medieval, a contemplacao da beleza fisica da dama frequentemente ocorre na primavera, a estacao do renascimento, quando o sentimento amoroso nasce ao som dos passaros e das fontes, segundo o lugar comum do locus amoenus (lugar ameno). Em um poema de Bernard de Ventadourn, por exemplo, a contemplacao da amada e associada a natividade. (25) No entanto, a cena descrita por Villon e de desolacao:
En ce temps que j'ay dit devant
Sur le Noel, morte saison
Que le loups se vivent du vent
Et qu'on se tient en sa maison
Pour le frimas, pres du tison
Me vint ung vouloir de briser
La tres amoureuse prison
Qui faisoit mon cuer debriser
(VILLON, 1974, p. 11). (26)


Enquanto os lobos agonizam de fome, o poeta se aquece em casa junto a lareira durante o inverno, por volta do Natal. A casa com lareira protegendo o amante contra o inverno e os lobos famintos sao utilizados como metafora para a prisao amorosa. No rondo XV de Alain Chartier (1949, p. 57), o poeta assume a personagem do "pobre prisioneiro", segundo o lugar comum do servico amoroso como prisao. Na estrofe citada, o Natal e chamado de "morta estacao", pois, como nos conges d'amour, metaforiza o fim do amor (D'ORLEANS, 1992, p. 241). A cena de desolacao fisica permite introduzir a intencao do poeta de romper o servico amoroso. Por sua vez, o poeta decide se expor ao frio e ao perigo porque seu coracao foi partido pela amada.

No exodio do Lais, a seducao da amada e expressa pelas metaforas visuais de "doulx regars et beaux semblans" (VILLON, 2000, p. 64). (27) Essas metaforas fazem referencia as personificacoes de "Doce Olhar" e "Belo Semblante" que, oriundas do Roman de la Rose, foram retomadas pela poesia amorosa da epoca como, por exemplo, La Dame loyale en Amour. No entanto, o olhar por meio do qual Villon foi seduzido pela amada e qualificado de "traidor e duro": Le regart de celle m'a prins/ Qui m'a este felonne et dure" (VILLON, F. 2000, p. 62). (28) Com efeito, Villon acusa sua amada, identificada a bela dama sem misericordia do poema de Alain Chartier, de ser a responsavel pelo colapso existencial em que se encontra.

No Lais, Villon assume a personagem do amante martir: "Par elle meurs, les membres sains/ Au fort, je suis amant martyr/ Du nombre des amoureux saints" (VILLON, 2000, p. 62). (29) Essa personagem e tipica da lirica amorosa da epoca, podendo ser encontrada em diversos poetas contemporaneos a Villon como, por exemplo, Charles d'Orleans. (30) Nas passagens citadas, Villon explora a hiperbole, em locucoes como "quebrar o coracao" e "por ela morro". Ele nao assume a personagem do poeta em luto, como o testador de La confession et testament, mas a personagem do amante rejeitado, como o jovem amante da Belle dame. O sofrimento provocado por essa rejeicao e tal que Villon decide romper o servico amoroso.

Incapaz de suportar as duras provas submetidas pela dama a seu servico amoroso, Villon decide fugir de Paris e exilar-se em Angers, segundo o lugar comum do exilio como remedio ao amor. A justificativa para a fuga e o perigo de morrer (literalmente) de dor, como o amante da Belle dame. Colerico de odio, Villon insinua que sua amada dedica a outro amante seus favores. Como foi dito acima, a referencia a outro amante tambem e utilizada em La Dame loyale en Amour para defender a dama contra a acusacao de crueldade. Villon utiliza o mesmo argumento para acusar sua amada nao apenas de crueldade, como tambem de trair seu servico amoroso com outro.

Injusticado e traido, o poeta amaldicoa a amada, invocando a justica divina: "Dieu en vueille ouir ma clameur" (VILLON, 2000, p. 64). (31) Ele cita as palavras de Jo (32)--exemplo de homem justo que, depois de sofrer as duras provas da Fortuna, foi recompensado por Deus e seus inimigos foram punidos. Como nao esta certo de voltar do exilio, Villon assume o papel de testador para deixar seus legados, como La confession et testament. No testamento amoroso da epoca, o legado do coracao e uma metafora da renuncia do amor depois da morte da amada. Villon deixa seu coracao para a amada, mas conclui seu primeiro legado com uma ironia, pedindo que Deus conceda a ela a misericordia que esta nao foi capaz de lhe conceder: "Mais Dieu lui en face mercyi" (VILLON, 200, p. 66, grifo nosso). (33)

Escrito cinco anos mais tarde, o Testament tambem e enunciado pela personagem de Villon no papel de testador, que nao e mais jovem como no poema anterior. Nas quatorze estrofes do Testament que se seguem aos Regrets de la belle Heaulmiere, Villon reflete sobre sua propria experiencia amorosa na juventude e relembra a epoca em que rompeu o servico amoroso, como foi visto no exordio do Lais. Ele maldiz o amor e conclui que a dor provocada pela rejeicao da amada e a causa de sua morte iminente. No Testament, Villon nao esta mais prestes a fugir da cidade, como o Lais, mas esta prestes a morrer de dor, como o amante martirizado pela bela dama sem misericordia.

Na Ballade de conclusion (Balada de conclusao), a ficcao poetica do Testament e encerrada com o convite ao publico para o enterro do "pobre Villon" (povre Villon), que e descrito como o amante martir da lirica amorosa da epoca. Como em La Confession et testament, que os convidados ao enterro estejam vestidos de vermelho--referencia ao costume que prescreve que os padres se vistam de vermelho para rezar missas solenes aos santos martires. No Testament, Villon assume novamente a personagem do amante martir, como no Lais, ao jurar que morreu por amor--o juramento ironico "por seus testiculos" brinca com a etimologia de testamento, do latim testis (testiculos):
Icy clost le testament
Et finist du povre Villon
Venez a son enterrement
Quant vous orez le carrillon
Vestuz rouge com vermeillon
Car en amours mourut martir
Ce jura il sur son couillon
Quant de ce monde voult partir
(VILLON, 1987, p. 166). (34)


Na Ballade de conclusion, o poeta e a personagem do testador nao coincidem mais, pois aquele nao utiliza mais a mascara deste, que ja morreu. Da mesma forma que L'Inventaire, a Ballade desempenha a funcao de codicilo do Testament. O Lais e o Testament de Villon parodiam a inteira estrutura das tres partes do testamento amoroso de Pierre de Hauteville. No entanto, a amada dos testamentos de Villon nao esta morta, como neste ultimo, mas e cruel, como na Belle dame. A rejeicao de sua amada e apresentada como a responsavel por sua fuga de Paris, no Lais, e por sua morte, no Testament. Os dois testamentos de Villon podem ser considerados como as duas partes de um unico poema que, iniciado com o rompimento do servico amoroso, e concluido pela morte de dor do poeta.

Conclusao

Desde o final do seculo XX, a fuga de Paris foi frequentemente interpretada como um sintoma do fim do amor cortes. Roger Dragonetti (1983, p. 598) interpretou a fuga em sentido programatico, como o abandono da "antiga tradicao da retorica cortes". Mazzariol e Carminati retomaram essa interpretacao: "Finisce qui la finzione dell'amante martire che si sottrae con la fuga a un destino di morte: [...] si consuma cosi la fine di una secolare tradizione della quale il poeta si spoglia per ricostituire "altrove" la sua riomanza, o nuova identita" (VILLON, 2000, p. 356). (35) Dessa perspectiva, esse abandono--anunciado no Lais e concretizado no Testament--expressaria de maneira aguda a crise daquela tradicao literaria.

Procurou-se restituir os dois testamentos poeticos de Francois Villon ao contexto em que foram compostos na segunda metade do seculo XV na Franca. No Lais e no Testament, Villon retoma lugares comuns--a renuncia ao amor e o exilio como remedio ao amor--e personagens--o amante martir e a bela dama sem misericordia--utilizados pela lirica amorosa desde os trovadores provencais, como testemunha, por exemplo, a cancao iniciada por Merces es perduta per ver, (36) de Bernart de Ventadorn. Embora seus dois poemas longos parodiem a inteira estrutura do testamento amoroso da epoca, essa parodia nao representa uma recusa completa da tradicao poetica medieval, representada pelo testamento amoroso (DRAGONETTI, 1993).

Diferentemente de La confession et testament, o Lais e o Testament tomam posicao definida naquela querela literaria do lado dos detratores da personagem da bela dama sem misericordia. A parodia realizada por Villon visa ridicularizar a personagem do amante martir, incapaz de suportar a rigorosa disciplina imposta pelo servico amoroso, bem como denunciar a crueldade e a volubilidade da personagem da bela dama sem misericordia ao trair o servico amoroso com outro amante. Portanto, os dois poemas longos de Villon nao deixam de perpetuar a tradicao do testamento religioso e amoroso, pois visam criticar, nao o amor cortes enquanto tal, mas as diferentes formas de inconstancia do amor.

Referencias

ALEXANDRE DE PARIS. Le Roman dAlexandre. Paris: Librairie Generale Francaise, 1994.

CERQUIGLINI-TOULET, J. Lecriture testamentaire a la fin du Moyen Age: identite, dispersion, trace. Oxford: Legenda, 1999.

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Daniel Padilha Pacheco da Costa. Professor do curso de Traducao e do Programa de Pos-graduacao em Estudos Literarios do Instituto de Letras e Linguistica da Universidade Federal de Uberlandia (UFU). Doutor pelo Departamento de Letras Modernas da USP (Programa de Estudos Linguisticos, Literarios e Tradutologicos em Frances), com um estagio doutoral de um ano na Universite Paris-Sorbonne (Paris IV). Graduado em Filosofia pela Universidade de Sao Paulo e em Letras Francesas pela Universite Sorbonne Nouvelle (Paris III), com proficiencia em Lingua Francesa. Integrante de grupos de pesquisa sobre traducao e antiguidade classica. Tradutor profissional do frances, com enfase em Filosofia Francesa Contemporanea.

E-mail: dppcosta@hotmail.com

Recebido em: 16/09/2018

Aceito em: 01/04/2019

Daniel Padilha Pacheco da Costa

Universidade Federal de Uberlandia Uberlandia, MG, Brasil

ORCID 0000-0003-4947-1295

(1) O testamento de mestre Jean de Meun.

(2) Romance da Rosa.

(3) Romance de Alexandre.

(4) Alexandre designa os doze pares pelos seus nomes proprios e, cada vez que faz um legado, lembra os servicos prestados pelo legatario ao imperador. Alexandre lega as terras conquistadas aos doze pares: depois de confiar a mulher a Perdicas, Alexandre lega: a Grecia e a Macedonia ao proprio Perdicas; o Egito a Tholomeu; a Persia a Clin; a Nubia da Arcagia a Emenidus; a India Maior a Aristeu; a Siria a Antiochus; a Cilicia a Antigonus; a Cesaria a Filote; a Alenia e a Esclavonia a Licanor; a Hungria e o reino de Ansoi a Festion; Cartage a Arides; a Armenia a Caulus da Macedonia (ALEXANDRE DE PARIS, 1994, p. 762-776).

(5) Espelho dos Principes.

(6) Por fim, Alexandre ordena que o seu corpo seja transportado para Alexandria, no templo de Josue, onde deve ser enterrado sob uma lapide reservada a ele. As disposicoes testamentarias para o enterro de seu corpo depois da morte finalizam o "testamento de Alexandre" (ALEXANDRE DE PARIS, 1994, p. 760).

(7) Bela dama sem misericordia.

(8) Deixo ao amante apaixonado/ Que espera alivio ao tormento/ Criar cancao, dito e balada/ Conforme o seu entendimento/ Pois levou o testamento/ Consigo a amada defunta,/ Junto com meu sentimento/Que jaz com ela sob a tumba (traducao nossa).

(9) Sentados sozinhos os dois/ Nenhum obstaculo havia entre nos/ Senao um tracado de videiras (traducao nossa).

(10) E voce, donzela ou dama/ Que a honra nutra e reuna/ E de cruel evite a fama/ Dada a todas ou a so uma/ A fim de que nenhuma/ Por toda a cidade/ Seja chamada de "uma/ Bela dama sem piedade" (traducao nossa).

(11) Acusacao contra a Bela dama sem misericordia.

(12) A mulher cruel no amor.

(13) Hospital do Amor.

(14) Os erros do julgamento da bela dama sem misericordia.

(15) A dama leal no Amor.

(16) Confissao e testamento do amante morto de dor.

(17) Eu, pobre amante, infeliz no amor (traducao nossa).

(18) Entre os diferentes tipos de amantes, estao os pobres, gravemente doentes, ardentes, sofredores, prisioneiros, pobres indigentes, galantes gentis, jovens, temerosos, atonitos, desassossegados, pensativos e nobres vassalos.

(19) Adeus, nao vos verei nunca mais/ E vos recomendo minha alma (traducao nossa).

(20) Lamento do amante morto de dor.

(21) O inventario dos bens deixados depois da morte do amante morto de dor.

(22) Testamento do Asno.

(23) Testamento de Pierre Pathelin.

(24) Testamento da Guerra.

(25) "Pois parece a natividade o dia em que seus olhos espirituais me contemplam; porem faz ela assim tao raras vezes comigo, que um dia parece cem" (SPINA, 1991, p. 134).

(26) Neste referido momento/ Pelo natal, morta estacao,/ Quando os lobos vivem de vento/ E ficamos na habitacao/ Pelo frio, junto ao ticao,/ Deu-me vontade de quebrar/ A tao amorosa prisao/ Que o peito soia quebrantar (traducao nossa).

(27) Tao doce olhar e belo semblante (traducao nossa).

(28) O olhar dela me capturou/ Mas era traidor e duro (traducao nossa).

(29) "E em membros saos, morro, um dos tantos/ amantes martires a vir/ no rol dos amorosos santos" (traducao de Sebastiao Uchoa Leite).

(30) "Au fort martyr on me devra nommer/ Se Dieu d'Amour fait nuls amoureux saints" (D'ORLEANS, 1992, p. 80); "Des amoureux sera moult haut assis/ Comme martir et treshonnore saint" (D'ORLEANS, 1992, p. 118); "Prisonnier suis, d'Amour martir" (D'ORLEANS, 1992, p. 146).

(31) Queira Deus ouvir meu clamor (traducao nossa).

(32) "Domine, exaudi orationem meam, et clamor meus ad te veniat" (apud VILLON, 1923, p. 11).

(33) Que Deus lhe seja misericordioso (traducao nossa).

(34) "Aqui se encerra o testamento/ Pelo pobre Villon deixado/ Vinde ao enterro quando lento/ Ouvirdes do sino o dobrado,/ Com roupa em vivo avermelhado/ Que ele e martir de amor profundo/ Sobre o culhao tal foi jurado/ Quando quis partir deste mundo" (traducao de Afonso Felix de Sousa).

(35) Termina aqui a ficcao do amante martir que se subtrai com a fuga a um destino de morte: [...] consuma-se assim o fim de uma tradicao secular da qual o poeta se livra para reconstituir "em outro lugar" seu romance, ou nova identidade (traducao nossa).

(36) "Nao ha duvida, a misericordia esta perdida--e eu sempre o ignorei; se nela, onde havia razoes para encontra-la, nao encontro, onde a buscarei? Ah! Como e dificil crer, depois que a viu, ser ela capaz de deixar morrer sem recurso a este pobre cativo que sem ela nao pode viver! Desde que com minha dama nao me podem valer as minhas solicitacoes, nem sua misericordia, tampouco os direitos que tenho, nem lhe apraz o amor que lhe voto, mais nada lhe direi. E a ser assim, separo-me dela e ao seu amor renuncio; matou-me, e como morto lhe respondo; visto que ela nao me detem, irei, miseravel, em exilio, pelo mundo e sem rumo. Tristao, nao tereis mais nada de mim, porque me vou desgracado, nao sei para onde; nao mais haverei de cantar, a alegria e ao amor renunciarei" (SPINA, 1991, p. 147).

https://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/212238254
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Author:da Costa, Daniel Padilha Pacheco
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:May 1, 2019
Words:7269
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