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O POEMA FORA DO LIVRO: JOAQUIM INOJOSA, MANUEL BANDEIRA E BENEDITO MONTEIRO NO MODERNISMO PERNAMBUCANO/THE POEM OUTSIDE THE BOOK: JOAQUIM INOJOSA, MANUEL BANDEIRA AND BENEDITO MONTEIRO IN PERNAMBUCO'S MODERNISM.

All so old, so familiar--so new now
William Carlos Williams, "The Wanderer"


Ao rememorar o roteiro de sua atuacao em Recife, como principal divulgador da Semana de Arte Moderna de 1922, Joaquim Inojosa (1968, p. 42) se refere ao distanciamento que existia entre os diferentes nucleos de producao cultural do pais: "O Brasil, sem aviao e sem radio, era um pais de compartimentos estanques...". Essa distancia era sentida de modo diferente e recebia respostas distintas dependendo da perspectiva do observador. Para o modernista paulista Rubens Borba de Moraes (apud INOJOSA, 1969a, p. 373), esse afastamento possuia efeitos deleterios, que precisavam ser sanados pelo dialogo, como escreve em carta a Inojosa de 19/10/1924:
E necessario que no Brasil haja mais relacoes intelectuais entre o
Norte e o Sul. E o nosso unico meio de estreitar os lacos frageis que
unem esse imenso pais, sem comunicacoes e sem unidade real. O Brasil e
um paradoxo. [...] nao nos entendemos, porque nao nos conhecemos.


No entanto, se por um lado a ideia de uma modernidade, cujo vetor iria do Sul para o Norte, despertava o entusiasmo de Inojosa, por outro ela recebia respostas defensivas que buscavam assegurar uma posicao nao subordinada a Pernambuco no cenario cultural brasileiro.

Em suas memorias sobre a Recife da decada de 1920, Souza Barros (1972, p. 152) aponta nao somente para a posicao de capital regional, de "centro de cultura e irradiacao da area" nordestina, mas igualmente para a relativa independencia intelectual de Recife em relacao ao restante do Pais, pois possuia "[...] livrarias que se orgulhavam de acompanhar o vient-de-paraitre de Paris e de outras Capitais europeias. Nao recebia os livros e as revistas, as ultimas informacoes por intermedio do Rio mas diretamente". Nesse sentido, haveria um cosmopolitismo proprio que propiciava uma relativa autonomia cultural a Recife e o protegia da influencia direta do Rio de Janeiro ou de Sao Paulo. Gilberto Freyre (apud D'ANDREA, 1992, p. 216), entretanto, acentua os aspectos negativos desse relativo deslocamento: "[...] eu era de uma parte do Brasil diferente das outras partes do Brasil. [...] de todas elas, talvez, a mais obscura, a mais submersa, a mais fora de foco". Dessa perspectiva decorre o esforco de Freyre nao apenas para revalorizar e reintegrar Pernambuco entre as principais regioes do pais, mas tambem para criar uma interpretacao do Brasil baseada na experiencia historico-social do Nordeste, particularmente de Pernambuco. Contudo, a intencao deste ensaio nao e analisar a grande realizacao de Freyre em Casa Grande & Senzala (1933), mas sim o ambiente cultural do Recife da decada de 1920, momento em que o peso da defesa do regionalismo feita por Freyre foi decisivo. O ponto de partida desta analise, entao, acompanha de certa forma o ponto de partida do proprio Freyre (apud D'ANDREA, 1992, p. 216), a seu modo amplamente compartilhado, como vimos nos depoimentos anteriores: "O Brasil nao era um todo monolitico, o Brasil era regionalmente diversificado".

O fato de o modernismo ter o seu inicio simbolico nao na Capital Federal mas na provincia, em Sao Paulo, tornava evidente e dava maior relevancia a diversidade de nucleos de producao cultural do Brasil. Desse modo, a difusao nacional do modernismo acentua e legitima a heterogeneidade dos ambientes em que ele se desenvolve e, com isso, por um lado complexifica a nocao de modernismo, por outro a propria nocao de literatura brasileira. O caso de Pernambuco se destaca nessa perspectiva porque, alem da forte marca regionalista que o caracteriza, ele tambem evidencia a tensa relacao entre grupos que compoem o modernismo, tendo em vista que e da simultaneidade de tres vertentes que se produz a dinamica local do movimento: o "futurismo" de Joaquim Inojosa, a mistura difusa de localismo e experimentacao formal da Revista do Norte (1923-1926), e o regionalismo programatico de Gilberto Freyre. (1) Contudo, se essa ramificacao em pequenos grupos mostra as arestas, os desencontros e os desentendimentos dentro do modernismo, ela tambem cria um solo comum estetico e social de um conjunto de obras contemporaneas e contraditoriamente entrelacadas.

Pensando especificamente na historia poetica do modernismo em Pernambuco, um tema que surge e o do veiculo material em que o poema se integra. Nesse contexto, e decisiva a presenca de Ascenso Ferreira, coroada pelo fato de ele ter publicado um livro de poemas, levando assim a conclusao de que Catimbo (1927), justificaria a insercao de Pernambuco (e por consequencia do Nordeste) na historia do modernismo brasileiro (AZEVEDO, 1986, p. 186; INOJOSA, 1969a, p. iii; BARROS, 1972, p. 170). Com efeito, Ascenso tem contato com Inojosa, adere ao modernismo apos a visita de Guilherme de Almeida a Pernambuco (1925), le poemas no 1 Congresso Regionalista do Nordeste (1926), corresponde-se com Mario de Andrade e publica o seu livro pela editora da Revista do Norte. Nesse sentido, ele e a figura que aglutina os diversos setores da intelectualidade pernambucana. Contudo, a enfase excessiva na forma do livro publicado simplifica a dinamica do processo literario e corre o risco de ofuscar as articulacoes singulares do modernismo em Recife. Joaquim Inojosa, Austro-Costa, Joaquim Cardozo, Benedito Monteiro, Manuel Bandeira e o proprio Gilberto Freyre tiveram uma producao poetica relevante nesse momento, publicada em jornais, revistas, edicao comemorativa, ou divulgada por correspondencia. No dizer de Souza Barros (1972, p. 176), "a epoca, a imprensa, como divulgacao, centralizava um poder muito maior que hoje". Por isso, e preciso tentar equilibrar o prestigio do livro em relacao aos demais espacos do poema, tendo em mente as diferentes formas de publicacao e divulgacao do poema fora do livro, bem como o seu peso estetico e historico-literario.

A poetica ardente de Inojosa e suas contradicoes

Joaquim Inojosa, que inicia uma ruidosa e confusa campanha a favor do modernismo do Sul, publica, entre 1923 e 1926, uma serie de prosas poeticas entremeadas de versos nas revistas A Pilheria, Mauriceia, Rua Nova, Revista de Pernambuco, Era Nova, A Rua e Vida Feminina, bem como no Jornal do Comercio. (2) Em certa medida, essa producao lembra os tracos do Inojosa polemista, sempre inclinado ao discurso inflamado e a pregacao, com frequencia indiferente aos elementos tecnicos e a concretude e singularidade das obras modernistas. Suas prosas poeticas apegam-se sistematicamente a exterioridades de imagens, de cores e de dancas, em um processo que poderia ser descrito a partir de um trecho de seu poema "Carnavalia": "num desequilibrio quase ritmico de roda sem eixo" (INOJOSA, 1969a, p. 214). Pode-se, no entanto, pensar em varios de seus poemas como expressao daquela categoria que Bandeira chamou de "ruim esquisito", em formulacoes como "de tao azul muita coisa desaparece" (1969a, p. 206) ou "essa mulher despertou em mim um bailado de emocoes verdes" (1969a, p. 229).

Parece-me que o seu melhor poema e "Bailado Rubro das Chamas", publicado originalmente na Revista de Pernambuco, ano III, fev. de 1926, pois nele o tom inflamado de sua escrita encontra um tema afinado ao seu gesto, o que, por um lado, lhe confere maior coerencia estetica e, por outro, ressalta os seus defeitos. Futurista em seu proposito de destruir o passado, "as chamas comecam a devorar o edificio antigo": agitadas ao jazz-band infernal do vento, destroem reliquias como retratos, santuario e um velho piano. O inicio do poema e agitado, com a onomatopeia dos sinos "Bao!... Bao!... Bao!... Bao!...", a inquietacao da cidade, a pressa dos bombeiros. A esse trecho inicial de dez versos segue-se a descricao das chamas tomando o edificio. E aqui que o poema se ressente da falta de um cuidado formal maior. A inflamacao discursiva, tao propria de Inojosa, que poderia ter neste +poema encontrado a sua forma poetica correspondente, esquece de destruir algumas expressoes pouco modernas: as chamas, alem de ageis e nervosas, sao "aligeras", "irosas", palavras que destoam um pouco do aspecto febril do texto. Contudo, os descompassos do lexico seriam pouco importantes se eles nao antecipassem a ruina do proprio poema no verso final: "[...] o velho piano da saudade do edificio da vida reduzido a cinzas ao bailado rubro do ideal!...". Uma frase longa, abstrata, entre reticencias e exclamacao, funcionando como um tipo de chave de ouro em que a destruicao febril se acalma na bem edificada e empoeirada contraposicao entre a melancolia da saudade e a pungencia do ideal.

O sentido estetico e historico da destruicao do passado perde o pe e se apega a formulas de sabedoria muito pouco novas, o que caracteriza a militancia um tanto fora do eixo de Inojosa. A atuacao de Inojosa em favor de um modernismo febrilmente idealizado e mal digerido, contrapunham-se duas forcas mais apegadas as tradicoes locais, a da Revista do Norte, que veremos em momento posterior deste texto, e o programa regionalista de Gilberto Freyre. Este ultimo sera abordado aqui na medida em que faz parte da discussao proposta, isto e, da poesia modernista em Recife, o que, se nao diminui a importancia da sua figura, enfatiza apenas um momento especifico de sua participacao na historia do modernismo pernambucano. Para tanto, e importante notar a posicao de Freyre diante da ideia de modernidade. Tendo em mente que Freyre tinha estudado nos Estados Unidos antes de voltar para Recife em 1923, Souza Barros, enquanto elaborava as suas memorias, lhe envia um questionario em que consta a seguinte pergunta: "Por que tendo estudado num pais que ja realizara o seu desenvolvimento industrial deu apenas enfase a um processo de renovacao cultural atraves da volta ao regionalismo tradicionalista?" (BARROS, 1972, p. 75-76). A pergunta e objetiva e se relaciona com o processo de modernizacao tecnica e cultural do mundo de entao. A resposta de Freyre indica o processo pelo qual ele mesmo se modernizava: "Porque atribuo importancia ao cultural que norteia o tecnologico e o economico" (apud BARROS, 1972, p. 305). A importancia dada a cultura, nesse contexto, nao se vincula a uma nocao de tradicionalismo; ao contrario, adere aos avancos da Antropologia que Freyre aprendeu com Franz Boas em Columbia. (3)

Nesse sentido, a concepcao da originalidade regional como criacao cultural singular a ser entendida e estudada na sua dimensao concreta nao se limita a uma expressao de saudosismo; ao contrario, ela tambem renova no contexto brasileiro a antropologia cultural que Boas levava a cabo nos Estados Unidos. Aqui e possivel tracar um paralelo estrutural entre o modernismo de Sao Paulo e o regionalismo de Gilberto Freyre. O grupo de Klaxon buscava atualizar a expressao artistica brasileira a partir da diretriz da vanguarda parisiense dos anos 1910, enquanto Freyre buscava atualizar o estudo da originalidade da regiao nordestina a partir da modernidade de matriz estadunidense. Nos dois pontos, a novidade recebida de um centro de producao se desdobrava na procura atualizada e modernizada de uma originalidade local que se expandia e englobava a ideia de nacao. Assim, para alem do confronto regional (que tambem existia), o que interessa aqui e o paralelismo dos processos, com suas divergencias e convergencias.

O modo inicial com que Freyre avalia o movimento modernista pode ser observado no artigo "A Proposito de Guilherme de Almeida", publicado em 15/11/1925, no Diario de Pernambuco, quando este pronuncia a sua conferencia "A Revelacao do Brasil pela Poesia Moderna" em Recife:
O sr. Guilherme de Almeida nao distingue a tradicao que se vive da
tradicao que se cultiva a discurso e a fraque e a hino nacional e a
vivas a Republica. Ele nao distingue o regionalismo a Jeca Tatu,
caricaturesco e arrevezado, do regionalismo que e apenas uma forma mais
direta, mais sincera, mais pratica, mais viva de ser brasileiro (apud
INOJOSA, 1968, p. 151).


Segundo Freyre, entao, o nacionalismo cultural modernista nao saberia distinguir o pitoresco do tradicional, o folclorico visto como exotismo do que e a vida ao mesmo tempo imediata e secular de quem perpetua a originalidade regional da vida brasileira. Ambos, contudo, buscam um ideal de "naturalidade" nacional, so que para Freyre ela ja existe, precisa apenas ser cultivada e expandida, enquanto para o modernismo paulista ela precisa ser criada.

A militancia de Gilberto Freyre seguia, assim, um caminho de valorizacao consciente de todos os aspectos tidos como originais no ambiente pernambucano que, por sua vez, seria o resultado original dos seculos de colonizacao e mesticagem cultural, e que encontraria na culinaria o seu ponto de realizacao mais perfeito. Do ponto de vista literario, a principal realizacao de Freyre nos anos 1920 foi a incorporacao poetica de Manuel Bandeira ao contexto recifense, ao pedir-lhe um poema memorialista sobre a Recife da infancia do poeta para o Livro do Nordeste (1925), edicao comemorativa dos cem anos do Diario de Pernambuco. Manuel Bandeira, por sua vez, percebia a atuacao de Freyre em relacao as tradicoes regionais como algo mais concreto e produtivo do que a militancia abstrata de Inojosa. Em carta a Drummond de 03/02/1926, Bandeira fala sobre a sua relacao com a cena cultural pernambucana, tendo como referencia a sua principal contribuicao para ela, o poema "Evocacao do Recife":
Se voce nao fosse pau e tivesse querido ficar pra dormir no dia em que
jantou aqui com uma pressa tao grande que nem o vinho acabou de beber,
eu teria lido pra voce (era meu intento) a "Evocacao do Recife", coisa
que fiz por pedido e sugestao do Gilberto Freyre. (...) Gilberto Freyre
e um rapaz de 24 anos, creio. Informaram-me que ja esteve 4 anos nos
Estados Unidos. E inteligentissimo. Nao e modernista mas gosta muito de
nos. Esta fazendo no Norte uma campanha em favor das boas tradicoes
brasileiras. Parece que foi ele quem descobriu aquele desenhista meu
xara e o Joaquim Cardozo que tambem e pintor. Esses tres passadistas me
parecem muitissimo mais interessantes do que os "modernistas" de la,
todos muito fraquinhos (BANDEIRA, 1958, p. 1390-1391).


O Centro Regionalista do Nordeste, de que Freyre era o inspirador e a principal figura teorica, nao possuia um programa literario (AZEVEDO, 1986, p. 144). Entretanto, Gilberto Freyre demonstrou, por um lado, um ideal de escrita jornalistica fluida, clara e direta, sem ornamentacao ou retorica desnecessaria, por outro conhecimento in loco da moderna literatura anglo-americana, que teria inspirado o poema "Bahia de todos os Santos e todos os Pecados", publicado em 1926 na Revista do Norte. (4) Contudo, o "grande poema do Recife" para Freyre, do qual ele foi o inspirador e se considera de certa forma coautor, e "Evocacao do Recife", (5) de que passo a acompanhar a genese e a funcao na dinamica local do modernismo pernambucano.

"Evocacao do Recife": os caminhos de um poema

Antes de ser publicado no representativo Livro do Nordeste, "Evocacao do Recife" teve um percurso que evidencia, ao mesmo tempo, os diferentes caminhos e os diversos espacos de um poema. O contato de Gilberto Freyre com Manuel Bandeira comeca por carta, quando este lhe envia elogios pelos artigos sobre a cozinha pernambucana, publicados no Diario de Pernambuco, ao que Freyre responde com o pedido de um poema sobre Recife (HOMENAGEM, 1936, p. 87-88). Portanto, o percurso inicial do poema comeca pela correspondencia, apela ao memorialismo do poeta e se realiza em um tipo de almanaque. Desse modo, "Evocacao do Recife" atua dentro do modernismo mais como um poema solto (1925) no contexto pernambucano do que dentro do livro Libertinagem (1930) no contexto carioca. No entanto, ainda aqui o modernismo pernambucano se constitui pela confluencia entre Freyre e Inojosa, pois o despertar poetico-memorialistico de Bandeira e rastreavel na correspondencia deste com Inojosa. Em carta de 13/03/1925, Bandeira escreve: "Pernambuco, donde sou, mas onde vivi apenas 4 ou 5 anos, 3 deles porem na quadra em que as impressoes recebidas sao indeleveis, dos 6 aos 9 anos. A minha rua da Uniao! O sertaozinho de Caxanga! Monteiro! O engenho do Cabo!". Inojosa publica essa carta em A Pilheria, e Bandeira responde em 28/04/1925 "encalistrado" pela indiscricao de Inojosa, mas Ribeiro Couto o tranquiliza dizendo que a carta tinha "o encanto de minha saudade pelo Recife" (INOJOSA, 1969a, p. 355-356). (6)

Assim, e possivel fazer um tipo de arqueologia do percurso externo de "Evocacao do Recife", que pode, por sua vez, ser complementado pela analise de seu percurso interno. A forma do poema de Bandeira se vincula a questao do nacionalismo literario em poesia. O "Manifesto da Poesia Pau-Brasil" (1924), de Oswald de Andrade, que defendia uma forma poetica simultaneamente experimental e conscientemente brasileira e complementada pelas pesquisas esteticas de Mario de Andrade. Este, em poemas como "Carnaval Carioca" (1923) e "Noturno de Belo Horizonte" (1924), compoe uma forma longa, que apreende um percurso por uma parte do territorio brasileiro, faz a incorporacao poetica da lingua falada, das impressoes sensiveis do ambiente e das efusoes do sujeito lirico em contato com a diversidade da materia nacional. Manuel Bandeira recebe com entusiasmo esses poemas de Mario, principalmente o "Noturno de Belo Horizonte", sobre o qual ele escreve em carta de 02/05/1925: "Voce descobriu o grande poema brasileiro. Todas essas coisas da terra que voce diz tao amendoim-torradamente [...], eu sufocava de dizer. Nao sabia como, Voce achou como" (MORAES, 2000, p. 195). Bandeira ja havia abordado essa questao com a mesma conclusao em carta a Drummond de 21/10/1924 sobre o problema do nacionalismo na arte brasileira: "[...] creio que no fundo estao todos de acordo e o problema e enquadrar, situar a vida nacional no ambiente universal. [...] O Mario de Andrade [...] parece ter resolvido o problema nos seus ultimos poemas, sobretudo no 'Noturno de Belo Horizonte'" (BANDEIRA, 1998, p. 583). (7)

Antes de proceder a uma leitura de "Evocacao do Recife", e preciso notar a heterogeneidade dos materiais de que se constitui uma historiografia materialista da literatura. Jornal, correspondencia, almanaque (edicao comemorativa), revista, entre outros, compoem um emaranhado de confluencias em diversos niveis que marcam a diversidade de manifestacoes modernistas. Os espacos do poema sao numerosos e configuram a dinamica literaria de modo paralelo a forma do livro, por vezes demarcando o espaco sem a presenca do livro, como e o momento historico do modernismo pernambucano, que estamos acompanhando. Ao resumir, entao, a historia da "Evocacao do Recife", temos o seguinte: apos a leitura de textos de jornal de Freyre, Bandeira e ele iniciam uma correspondencia e, por meio dela, Freyre pede um poema; o poema vai ter como base o nacionalismo poetico-experimental de Mario e o memorialismo da infancia recifense de Bandeira. Essa relacao entre nacionalismo poetico e memorialismo provinciano configura o poema, que e publicado em uma edicao comemorativa. Assim, a despeito de diferencas declaradas entre regionalismo e modernismo, provincianismo e cosmopolitismo, e em uma teia de dialogos composta de diversos elementos que se elabora a sintese poetica de Bandeira, em que convergem essas perspectivas diferentes. Podemos adiantar que, nesse ponto, a linguagem poetica modernista ao mesmo tempo se consolida e, de certa forma, se pacifica como a lingua geral dos setores atualizados esteticamente e/ou modernizantes das oligarquias locais brasileiras.

"Evocacao do Recife" comeca com a evocacao do nome da cidade seguido por uma serie de negativas:
Recife
Nao a Veneza americana
Nao a Mauritssatd dos armadores das Indias Ocidentais
Nao a Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que eu aprendi a amar depois--Recife das revolucoes
libertarias
Mas o Recife sem historia nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infancia


Com um verso solto, cujo ritmo acompanha a forma do memorialismo poetico, Bandeira busca um Recife sem adjetivo previo, despojado de toda monumentalidade e, com isso, aumentado em sua poeticidade modernista. Depois desse despojamento, o poema se compoe de versos longos como a memoria que se perde no tempo (a exemplo da estrofe seguinte a citada), entradas abruptas ("De repente/nos longes da noite", v. 22-23, ou "Cheia! As cheias! Barro boi morto arvores destrocos redomoinho sumiu", v. 47), travessoes, palavras que ocupam de forma livre o espaco da pagina (como "um sino", v. 24, no fim de uma linha que nao tem nenhuma outra palavra), contraposicao da liberdade da lingua falada a prisao artificial da metrica e da "sintaxe lusiada" (v. 62-69), entre outros recursos expressivos. No geral, o tempo verbal dominante no poema e o preterito imperfeito, apropriado ao passado cuja extincao cronologica se prolonga na temporalidade da memoria. O preterito perfeito foi usado em alguns poucos momentos em que a singularidade e a forca epifanica da experiencia impediam a sua continuidade no tempo ou repeticao, como em: "Um dia eu vi uma moca nuinha no banho/Fiquei parado com o coracao batendo/Ela se riu/Foi o meu primeiro alumbramento" (v. 42-46). Os unicos verbos no presente do indicativo se referem ao mau uso da lingua portuguesa pelos contemporaneos no momento de enunciacao do poema (v. 65-68).

O tempo de "Evocacao do Recife", entao, e "sem historia nem literatura", isto e, sem as convencoes da historia oficial, sem as convencoes da literatura oficial, convergindo em um espaco em que infancia, memoria, verso livre, lingua falada, gestualidade e ambiente social naturalizados pela visao desarmada da crianca constituem um momento de sintese dentro da poesia modernista em Pernambuco e no Brasil como um todo. Contudo, e justamente no entroncamento do ambiente a-historico da memoria infantil com o tempo historico socialmente marcado que se situa o ponto mais contraditorio do poema. D'Andrea nota que "Evocacao do Recife" "revela como a memoria poetica e familiar pode ser contaminada pelo solo historico dessa banda nordestina e, dessa maneira, realimentar determinada tradicao" (D'ANDREA, 1992, p. 45). Estaria nessa convergencia do tempo morto da memoria ("Meu avo morto/Recife morto...", v. 78-79) com o tempo presente da estrutura social de Pernambuco a ambivalencia de classe do poema, em que "[...] a marca idilica do Recife patriarcal [...] restabelece o tempo simbolico da hegemonia tradicional" (D'ANDREA, 1992, p. 45), e, nesse sentido, o lirismo de Bandeira afiancaria a interpretacao do Brasil de Freyre, em que as relacoes afetivas nao so atenuariam o escravismo e suas consequencias, como comporiam por meio desse mesmo mundo escravocrata sem culpa a primeira civilizacao original do continente americano, isso tudo com sinal positivo.

O nucleo contraditorio do poema se encontra nas diferentes temporalidades de Bandeira e de Gilberto Freyre. Bandeira recuperou o lirismo do tempo socialmente extinto captado pela memoria, libertado pela linguagem popular, pelo psicologismo da poesia modernista e pelo poema de imersao itinerante na materia brasileira de Mario de Andrade. O que da forca poetica a "Evocacao do Recife" e o fato de que ela diz respeito a um tempo que nao existe mais, cuja expressividade se deve ao lampejo fugaz de uma materia extinta, para a qual o modernismo confere um lirismo de libertacao. Contudo, a permanencia historica do patriarcado, a presenca objetiva da lei da "casa do avo", senao como dominacao efetiva, como perspectiva de interpretacao historica, como apologia patrimonial e como nostalgia cultural geram uma infiltracao gilbertofreyriana no poema, a despeito ou nao da concepcao de Bandeira. Profundamente ambivalente, "Evocacao do Recife" estabelece, entretanto, a alianca poetica entre o regionalismo de Gilberto Freyre e o nacionalismo de Mario de Andrade, ampliando nesse sentido o sistema literario modernista, conferindo-lhe a inflexao de Gilberto Freyre que, por sua vez, encontra a solucao poetica de sua militancia regionalista. A poesia modernista se expande, desse modo, como lingua geral dos nucleos de producao cultural do Brasil, que se modifica de acordo com a originalidade e as contradicoes de cada um desses nucleos, alem de manter os lacos visiveis de um sistema poetico com uma dinamica propria.

Benedito Monteiro: o extravio de um poeta

Paralelo a disputa entre Joaquim Inojosa e Gilberto Freyre, havia o grupo da Revista do Norte (1923-1926), editada por Jose Maria Albuquerque Mello, de periodicidade erratica e sem um programa definido. Embora a revista se propusesse a defesa dos valores tradicionais e locais, afinando-se, assim, ao regionalismo de Gilberto Freyre (AZEVEDO, 1996, p. 119), ela tambem abria espaco para manifestacoes poeticas mais livres, como as de seus dois principais poetas, Joaquim Cardozo e Benedito Monteiro. Do ponto de vista do poema fora do livro, e importante destacar a presenca de ambos e, sobretudo, daquele que nao voltou a publicar os seus poemas, devido a sua morte precoce: Benedito Monteiro. Dado o carater difuso, entre tradicionalista e moderno, da Revista do Norte, ela se tornou o espaco em Recife de uma boemia esteticamente criativa e descompromissada, para a qual o modernismo nao se transformou em programa, mas alcancou uma expressao original, que de certa forma reconfigura o modo de se conceber tanto o modernismo pernambucano em particular quanto o modernismo brasileiro de um modo geral.

A perspectiva pela qual pretendo abordar aqui dois dos poemas de Benedito Monteiro na Revista do Norte, "Knockout..." (publicado no ano 2, n. 5, out. 1924) e "Poema da Bolsa" (ano 3, n. 1, out. 1925) (8) e a de um momento em que uma modernidade difusa e nao ortodoxa (nem programatica) atinge um ponto de originalidade inesperado (e efemero) no quadro mais geral do sistema poetico-literario modernista da decada de 1920. A primeira caracteristica que singulariza o poeta e o seu apego ao Recife moderno, isto e, nao a modernidade abstrata de Inojosa nem a modernidade antropologica de Freyre, mas a modernizacao empirica da cidade, como nos informa Souza Barros: "O Recife da decada [de 1920] nao era mais, assim, o Recife do acucar; ele era talvez o Recife do emporio comercial [...] e da rede ferroviaria [...] do novo porto" (BARROS, 1972, p. 79). Alem disso, Benedito chegou a trabalhar em um escritorio comercial e costumava frequentar a Bolsa de Valores, onde pode acompanhar a logica financeira dos numeros e dos valores, dos cambios e das moedas, o que lhe teria inspirado um desaparecido "Poema dos Numeros" ou "Poema Numerico", de que trataremos mais adiante.

A essa dimensao moderna e mercantil, que aparece em alguns de seus poemas, some-se o dinamismo do boemio aglutinador do grupo, que ajudou a compor a cena literaria heterogenea que Souza Barros denomina "cenaculo da Lafayette". Foi Benedito Monteiro que levou Souza Barros a esquina da Lafayette, onde este conheceu Joaquim Cardozo, que por sua vez "constituia o centro das reunioes" (BARROS, 1972, p. 209). Nesse sentido, Benedito atuava como aglutinador, e Cardozo como centralizador do grupo (BARROS, 1972, p. 223). O proprio Joaquim Cardozo, entretanto, fora trazido por Benedito, que, alem disso, exerceu grande influencia sobre Ascenso Ferreira (apud CAVALHEIRO, 1944, p. 84). Benedito e descrito como dotado de constante inquietacao, poder comunicativo e gosto pela provocacao e pelo desafio, o que compoe o perfil de um espirito boemio e experimental, ludico e vitalista.

Joaquim Cardozo viu nessas caracteristicas o poeta "que melhor compreendeu, no Recife, o sentido da poesia de 22" (apud BARROS, 1972, p. 147). Essa afirmacao levanta a questao sobre o modo como Cardozo e Benedito Monteiro receberam e interpretaram a poesia modernista de Sao Paulo e do Rio de Janeiro. Cardozo, que introduz a poesia de Bandeira no Livro do Nordeste, conta que teve contato com o modernismo no Rio em 1923 (apud BARROS, 1972, p. 139), e que Benedito tomou conhecimento do movimento pela Revista do Brasil no mesmo ano:
Em 1923, o movimento da Semana de Arte Moderna ja estava divulgado pela
Revista do Brasil, e, atraves dela, Benedito, que ja tinha inclinacao
modernista, comecou a fazer os seus versos e a declarar, bebendo bitter
e fumando cachimbo, versos de Mario e Oswald de Andrade, de Sergio
Milliet e Luis Aranha; isto, de mistura com versos de Raimundo Correia
[...], versos, assim, que no parnasianismo ja continham o germe da
poesia nova" (BANDEIRA apud BARROS, 1972, p. 139).


Ainda que o trecho apresente algumas falhas historicas, como apontar a poesia de Oswald em 1923 (ele comeca a publicar poemas de Pau-Brasil em 1924) e a presenca de Luis Aranha na Revista do Brasil (Luis Aranha so publica em Klaxon), ele vale por evocar a presenca da poesia modernista em Benedito e, principalmente, o nome de Luis Aranha, com quem o poeta pernambucano parece ter diversas afinidades, como se pode ler em "Knockout...".
    Knockout. Forcas estranhas.
    Sacos de 75 kilos. 6 1/4 a 6 7/8.
    O califa... A besta...
    No conjunto das impressoes se abismam.
 5  O movimento retrogrado. A self-induction.
    A reacao. O peso morto. A carne frigorificada.
    O pulsar dos motores dos hidroavioes.
    Os carburadores. As carretas. Os cilindros.

    O lirismo dos cilindros em estrela.
10  O zum-zum longinquo das helices.
    6000 rotacoes por minuto.
    As grandes linhas internacionais.
    Paris. Dakar. Buenos Aires. Punta Arenas...
    Seattle. As Aleutas.
15  Raid a volta do mundo.
    Integrei-me, explicitei-me
    Eu era uma funcao implicita.
    Respiro os ambientes de petroleo.
    Bebo as paisagens de 100 milhoes de hectares.
20  As retinas veem os focos de 1000 kilowatts.
    As retinas veem a musica silenciosa das catastrofes.


Sem titulo, o poema comeca com a forca do choque presente na primeira palavra "Knockout". (9) As referencias geograficas e sobretudo tecnologicas sao profusas, e nao poderei aqui proceder a uma exegese detalhada dos versos. Contudo, quero chamar a atencao a dois elementos constitutivos do poema: a sua logica formal e a sua impregnacao de numeros. O poeta aceita de modo enfatico as sugestoes da modernidade tecnologica e compoe os seus versos com ritmo acelerado, pondo enfase na simultaneidade das sensacoes acumuladas pela sequencia de nomes. E justamente desse elemento, no verso livre composto prioritariamente de substantivos, que o poema tira o seu elemento ritmico. Embora o terceiro verso: "O califa... A besta... " evoque o verso harmonico de Mario de Andrade em Pauliceia desvairada, Benedito Monteiro esta mais proximo das palavras em liberdade do futurismo com sua enfase nos substantivos, na onomatopeia, nos termos tecnicos e nos numeros. Note-se que os verbos aparecem pouco no poema: depois do segundo verso, eles so surgem nos ultimos cinco (v. 16-21). Ao contrario do "Bailado Rubro das Chamas", de Inojosa, Benedito funde o tema da modernidade tecnologica com as tecnicas modernistas da poesia levadas ao extremo. E nesse sentido que o poeta, a maneira de Luis Aranha, em "Aeroplano" (Klaxon, n. 2), mas com inflexao propria, se identifica a forca dinamica da maquina, que, levada ao ponto maximo de rendimento, conduz a catastrofe.

Benedito tira proveito proprio dessa poetica da maquina em uma imagem como "O lirismo dos cilindros em estrela", em que o motor do aviao envolto por cilindros se apresenta ao poeta com a evocacao lirica de uma estrela. Contudo, a principal originalidade compositiva do poeta esta no aproveitamento que ele faz da matematica ao longo dos versos. Nao apenas os numeros e sua funcao tecnologica e economica comparecem em "Knockout..." (v. 2, 11, 19, 20), mas a propria presenca do eu lirico evoca a logica do calculo, no qual, ate onde posso entender, a "funcao implicita" e algo que se deduz de uma expressao matematica, isto e, que esta presente na equacao sem que seja nomeado, enquanto "integrar-se" nao significa "fazer parte de", mas e uma especie de soma de valores de uma funcao. Embora seja dificil precisar em que medida a matematica esta em estado puro nos versos e em que medida ela e metaforica, pode-se concluir que os numeros e sua logica operam no poema como um tipo de ironia propria em relacao a linguagem verbal, gerando uma contradicao poetica consciente, que confere uma inquietante originalidade ao poema de Benedito Monteiro.

Se em "Knockout..." o poeta da volta ao mundo pelo pulsar de motores e helices, no "Poema da Bolsa" o foco e a modernidade financeira da Bolsa de Valores:
O POEMA DA BOLSA

    A Bolsa de mercadorias. As oscilacoes do mercado.
    A curva logaritmica da queda da arroba do acucar.
    Os magnatas sentados pelas mesas esperando o pregao dos corretores.
    Os especuladores baixistas esperando vender a prazo para recomprar
    com lucro.
 5  Os especuladores altistas esperando comprar a tres meses para
    revender depois.
    Os negocios firmes altamente perigosos.
    Os corretores, correntes eletricas entre as diferencas de potencial
    da oferta e da procura.
    Ah! A aristocracia dos senhores de engenho, acucar de 2 cruzados.
    A democracia dos fornecedores de cana e donos de bangues, acucar
    11$600
10  --11 horas.
    O pregao.
    --Vendo 4000 sacos de cristal a 12$900 para a entrega em Dezembro.
    --Compro a 12$000 reis.
    E a batalha incruenta esta travada com derramamento do sangue
    loiro das
    esterlinas!


Ainda que o poema nao a nomeie, provavelmente estamos na Bolsa do Recife, acompanhando o preco do acucar e a sua correspondente movimentacao social. No entanto, os numeros da riqueza (e da pobreza) do acucar nao apresentam o dinamismo de "Knockout...". Ao contrario, os versos longos e muito longos, descritivos e quase burocraticos compoem um ambiente modorrento, habitado por tipos sociais como especuladores, corretores e senhores de engenho. O poema e dividido claramente pelo cenario antes e depois da abertura do pregao e da movimentacao do dinheiro, quando os versos ficam mais curtos, com travessoes e valores. Antes do pregao, domina a inatividade, todos estao sentados, esperando; e energia, quando ha, e a do calculo, como a dos corretores: "correntes eletricas entre as diferencas de potencial da oferta e da procura" (v. 7). A aristocracia dos senhores de engenho, que fundamenta a interpretacao do Brasil de Gilberto Freyre e a infancia de Bandeira em "Evocacao do Recife", e posta diante da sua base economica, da "curva logaritmica da queda da arroba do acucar". Nesse sentido, trata-se aqui de um grupo que e menos sujeito de uma historia regional ou nacional do que objeto de um sujeito maior e mais dinamico: o preco.

O poeta, entao, nao estrutura o seu poema a partir das caracteristicas locais, como a cultura historica, rural, urbana, senhorial etc. de Pernambuco; antes, e a propria producao material da ideia de local que sustenta o poema, isto e, os numeros que valorizam ou desvalorizam o produto regional. A aristocracia dos senhores de engenho e medida pelo seu valor no mercado internacional: "acucar de 2 cruzados", afiando a observacao socioeconomica pelo procedimento poetico da justaposicao. A poesia da modernidade cosmopolita descobre n'o "Poema da Bolsa" uma nova mediacao: a transformacao do acucar em numero e do numero em cambio. A metafora literaria se une a matematica para que o acucar se torne o cruzado, que, por sua vez, se transformara em libra esterlina. Diante desse quadro, o poema se encerra com um tipo de verso de ouro, uma especie de sopro epico caricato e, no entanto agudo, em que o "sangue loiro das esterlinas" sustenta com a sua sangria os conflitos e a cultura local, bem como o seu internacionalismo.

A poetica modernista de absorcao da modernidade tecnica e de apreensao do dado brasileiro atinge nesses dois poemas outra dimensao, pois se configura a partir do elemento numerico, seja nas maquinas de "Knockout..." ou no mercado financeiro de "O Poema da Bolsa".

Conclusao: "Poema dos Numeros", ou "Poema Numerico"

O poema fora do livro, conforme verificamos em "Bailado Rubro das Chamas", de Inojosa, "Evocacao do Recife", de Bandeira, "Knockout..." e "Poema da Bolsa", de Benedito Monteiro, pode funcionar como um prisma, em que a linguagem poetica de um movimento publico e coletivo se estrutura e adquire originalidade. Assim, o poema fora do livro permite tambem recompor os fios soltos do modernismo brasileiro, caminhos que despontaram e nao foram levados a cabo, convivendo com outros projetos que se consolidaram, mas que deixaram um espaco aberto para repensar o movimento, a exemplo da relacao entre o que foi realizado e o que foi perdido.

No contexto pernambucano, temos um caso de perda que ilumina as possibilidades de interpretacao do movimento. Souza Barros nos conta o seguinte: "Tomei conhecimento e talvez tivesse recebido copia, do proprio Benedito, de um 'Poema Numerico' ou 'Poema dos Numeros', onde, baseado no seu gosto matematico, explorava as oscilacoes cambiais, a subida e descida da moeda, o impacto da crise" (BARROS, 1972, p. 276). E dificil nao pensar em como seria esse poema e de que modo ele se relacionaria com os dois poemas lidos aqui, ambos construidos com forte presenca dos numeros. Contudo, a ausencia desse poema nao precisa necessariamente conduzir a melancolia de sua perda. Ao imaginar como ele seria, e possivel ultrapassar as fronteiras locais e nacionais do modernismo e estabelecer formas imprevistas de conexoes com diversos modernismos. Assim, o inexistente "Poema dos Numeros", ou "Poema Numerico", evoca este outro, de um poeta igualmente fascinado pelos numeros, Velimir Khlebnikov, embora Benedito Monteiro os olhasse em seu funcionamento tecnico e materialista, e o poeta russo pelas suas sugestoes de interpretacao mistica da historia:
NUMEROS

Eu vos contemplo, o numeros!,
vestidos de animais, em suas peles,
as maos sobre carvalhos destrocados.
Mostrais a uniao entre o serpear
da espinha dorsal do universo e o bailado da balanca.
Permitis a compreensao dos seculos, como os dentes
numa breve gargalhada.
Meus olhos se arregalam intensamente.
Aprender o destino do Eu, se a unidade e seu dividendo. (10)


Referencias bibliograficas

AZEVEDO, N. P. de. Modernismo e Regionalismo: os anos 20 em Pernambuco. Joao Pessoa: Edufpb, 1986.

BANDEIRA, M. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1958. v. 2.

--. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

BARROS, S. A decada 20 em Pernambuco. Rio de Janeiro: [s./n.], 1972.

CAVALHEIRO, E. Testamento de uma geracao. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1944.

D'ANDREA. A tradicao re(des)coberta: o pensamento de Gilberto Freyre no contexto das manifestacoes culturais e/ou literarias nordestinas. Campinas: Edunicamp, 1992.

DIAS, S. M. V. Cartas provincianas: correspondencia entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira. 2007. Tese (Doutorado em Teoria Literaria e Literatura Comparada)--FFLCH--USP, 2007.

FREYRE, G. Casa-grande & senzala: introducao a historia da sociedade patriarcal no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2000.

--. (org.). Livro do Nordeste. Recife: Arquivo Publico Estadual de Pernambuco, 1975. [Edicao fac-similar do livro original, de 1925].

--. Manifesto regionalista. Recife: FUNDAJ--Ed. Massangana, 1996.

HOMENAGEM a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Officinas typographicas do Jornal do Commercio, 1936.

INOJOSA, J. O movimento modernista em Pernambuco. Rio de Janeiro: Grafica Tupi, 1968. v. 1.

--. O movimento modernista em Pernambuco. Rio de Janeiro: Grafica Tupi, 1969a. v. 2

--. O movimento modernista em Pernambuco. Rio de Janeiro: Grafica Tupi, 1969b. v. 3

KHLEBNIKOV, V. Poemas de Khlebnikov. Niteroi: Cromos, 1993.

MORAES, M. A. (org.). Correspondencia Mario de Andrade & Manuel Bandeira. Sao Paulo: Edusp, 2000.

Leandro Pasini e graduado, Mestre e Doutor em Letras (Teoria Literaria e Literatura Comparada) pela Universidade de Sao Paulo (USP). E professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Sao Paulo (UNIFESP) e autor do livro A apreensao do desconcerto: subjetividade e nacao na poesia de Mario de Andrade (Sao Paulo: Nankin, 2013). E-mail: leandro.pasini@unifesp.br

Recebido em: 06/02/2018

Aceito em: 30/07/2018

Leandro Pasini

Universidade Federal de Sao Paulo

Guarulhos, SP--Brasil

ORCID 0000-0001-6231-3860

(1) Note-se que e o memorialismo dessas tres vertentes que constitui as principais linhas narrativas do movimento modernista em Pernambuco: Inojosa (1968, 1969a, 1969b), Souza Barros (1972) e Freyre (1996). Azevedo (1986) procura equilibrar em sua narrativa historiografica essas tres tendencias, buscando sanar enganos propositais e, sobretudo, omissoes (p. 11). Em proporcoes menores, ha igualmente depoimentos de Joaquim Cardozo (apud BARROS, 1972) e Ascenso Ferreira (apud CAVALHEIRO, 1944).

(2) Todos reproduzidos, com suas respectivas referencias em Inojosa (1969a).

(3) No prefacio a 1 (a) edicao de Casa Grande & Senzala, Freyre diz que Boas lhe ensinou a diferenca entre raca e cultura, e que "Neste criterio de diferenciacao fundamental entre raca e cultura assenta todo o plano deste ensaio" (2000, p. 45).

(4) "E evidente que, de modo desajeitado, foi um poema imagista que procurei escrever ao evocar a Bahia como cidade 'de todos os santos e de todos os pecados'" (FREYRE. "Amy Lowell: uma revolucionaria de Boston" apud DIAS, 2007, p. 390).

(5) "Ninguem pode hoje falar de Manuel Bandeira sem ter lido esse poema; nem falar do Recife, de sua historia--de sua historia no sentido mais logico, e ate no mais cronologico e mais convencional--sem saber quase de cor a 'Evocacao'. // E o grande poema do Recife" (apud HOMENAGEM, 1936, p. 89). Quase 50 anos depois, Freyre reitera a sua participacao no poema: "o poema de Manuel Bandeira--'Evocacao do Recife'--e de forma modernista, valorizando, entretanto, valores regionais e tradicionais. Uma inspiracao minha'" (apud D'ANDREA, 1992, p. 42).

(6) Algo da atmosfera do poema ja despontava em carta de 21/10/1924 a Drummond: "sou provinciano tambem--um provinciano, de Pernambuco, que vive desde menino na corte, com uma burra saudade dos engenhos" (BANDEIRA, 1998, p.584).

(7) Sobre a relacao poetica de Mario e Bandeira, leia-se ainda essa passagem do mesmo Bandeira em carta de 26 de junho de 1925: "Acho mesmo que convem que nos imitemos, que nos plagiemos, que nos influenciemos para firmar cada vez mais essa caracteristica racial que ja e patente e bem definida" (MORAES, 2000, p. 219).

(8) Embora eu nao tenha tido acesso a uma colecao completa da Revista do Norte, ha a seguinte descricao de Azevedo (1996) sobre a presenca de Benedito Monteiro na revista: "Suas colaboracoes--seis textos em prosa e cinco poemas. [...] Nos textos criticos deve ser ressaltada a modernidade do seu estilo, feito de frases curtas e incisivas, usando imagens originais, tudo aliado a uma postura irreverente e critica. [...] Nos poemas, Benedito Monteiro passa do soneto a experimentacao formal, na linha preconizada pelo modernismo do primeiro momento" (p. 116). Cumpre ressaltar que Benedito Monteiro foi reconstruido historicamente pelo trabalho de pesquisa e memorialismo de Souza Barros (1972), cujo capitulo a respeito do poeta (p. 263-281) e a principal fonte de consulta. Benedito Monteiro morre em 18/07/1925.

(9) Souza Barros (1978, p. 273) acrescenta ao poema o titulo "10-1000-1000000".

(10) Traducao de Marco Lucchesi (KHLEBNIKOV, 1993). Reproduzo o original, publicado no almanaque Dokhlaia Luna. Moscou, 1913: [phrase omitted]

https://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/203179200

[Please note: Some non-Latin characters were omitted from this article]
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Pasini, Leandro
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:Sep 1, 2018
Words:7609
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