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Nutritional and sociodemographic characteristics of nursing mothers: a systematic review/Caracterizacao nutricional e sociodemografica de lactantes: uma revisao sistematica.

Introducao

O ato de amamentar esta intimamente relacionado ao processo de doacao de leite humano (LH), visto que, quando a mulher vivencia a experiencia da maternidade e da amamentacao, ela pode ser doadora desse fluido vital. As doacoes de leite viabilizam e favorecem a manutencao do aleitamento materno (AM) para lactentes que, por motivos clinicos, nao disponham do aleitamento ao seio. Assim, a nutriz doadora exerce um papel fundamental enquanto agente de manutencao dessa pratica (1).

No que diz respeito a lactante que decide doar seu leite, essa e considerada apta quando possui excesso de leite materno (LM). Ainda, deve apresentar exames pre ou pos-natal sem alteracoes que impecam a doacao, nao fumar mais que dez cigarros ao dia, nao fazer uso de alcool e drogas ilicitas, nao usar medicamentos incompativeis com a amamentacao e possuir bom estado geral de saude (2).

Alem do adicional de LM disponivel para doacao, alguns fatores sociodemograficos podem afetar o AM e consequentemente impactar sobre a doacao. E conhecido que maes mais jovens amamentam mais seus filhos em comparacao as mais velhas. Adicionalmente nota-se tambem que as lactantes com menor grau de instrucao amamentam com mais frequencia do que aquelas com nivel superior, embora se observe uma tendencia crescente da pratica do AM entre as mulheres mais instruidas e com maior nivel socioeconomico (3).

Em contrapartida, o estado nutricional inadequado, a saber, a obesidade, parecem desfavorecer o processo de doacao. Esse agravo pode influenciar negativamente o estabelecimento da lactacao, em virtude de dificuldade de posicionamento do bebe na amamentacao e fatores hormonais, ja que mulheres com excesso de peso apresentam menor resposta a prolactina nas primeiras 48 horas pos -parto, culminando em atraso na lactogenese e maior probabilidade de desmame precoce. Tal situacao e preocupante, visto que o excesso de peso se tornou um problema recorrente apos o parto, resultado do exagerado ganho ponderal durante a gestacao e pelas elevadas prevalencias de excesso de peso no periodo pre-gestacional (4,5).

Ainda no ambito nutricional, outro problema frequente na lactacao sao as carencias nutricionais, pois a demanda de nutrientes neste periodo, indispensavel para a adequada producao de leite e manutencao da saude materna, e maior. Dentre os agravos mais comuns, estao a deficiencia de vitamina A (DVA) e anemia ferropriva, que compreende um dos maiores problemas de saude publica neste grupo (6-9).

Diante do exposto, torna-se relevante investigar o perfil de saude das lactantes de modo a subsidiar a formulacao de estrategias para melhoria da saude materna e acoes que possam contribuir para o incremento e qualidade das doacoes de LH. Assim, o presente trabalho objetivou realizar uma revisao sistematica acerca do perfil nutricional e sociodemografico de lactantes e seu possivel impacto sobre a doacao de LM.

Metodologia

Trata-se de uma revisao sistematica da literatura pautada em bases de dados do sitio da Biblioteca Virtual de Saude (BVS): Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciencias da Saude (Lilacs), Indice Bibliografico Espanhol de Ciencias da Saude (IBECS) e Scientific Eletronic Library Online (SciELO). Adicionalmente, foram pesquisadas publicacoes na base de dados Medline (National Library of Medicine) por meio do PubMed.

Para a pesquisa em ambas as bases de dados (BVS e Medline), foram adotados os descritores: Leite Humano e Bancos de Leite, e as palavras chaves: Perfil, Nutricional, Doadoras de leite, Nutriz e Nutrizes, bem como suas respectivas traducoes para a lingua inglesa e espanhola. Ressalta-se que nao foram utilizados operadores boleanos.

Inicialmente, a selecao dos manuscritos, realizada a partir da leitura do titulo e resumo, e a exclusao daqueles indexados em mais de uma base de dados foi realizada pela autora principal, respeitando os criterios de inclusao e exclusao pre-determinados. Em seguida, a leitura na integra dos artigos remanescentes, e a segunda analise dos estudos foi realizada por dois investigadores independentes. As eventuais discordancias foram avaliadas e posteriormente chegou-se a um consenso.

Foram selecionados artigos publicados na ultima decada (2004-2014) em idioma ingles, portugues ou espanhol, cujos resumos estavam disponiveis para consulta. Os investigadores contataram os autores dos resumos indisponiveis, a fim de se obter as informacoes necessarias. A partir disso, foi realizada uma leitura das sinopses dos manuscritos, selecionando-se aqueles compativeis com a tematica proposta. Foi realizada a exclusao de resumos em duplicata em ambas as bases de pesquisa e aqueles cujos autores nao retornaram o contato.

Por fim, foi realizada a leitura completa dos manuscritos elegidos. Os artigos de revisao e aqueles que, apesar dos rigorosos criterios de selecao (periodo da publicacao, descritores, viabilidade), nao abordavam a tematica proposta ou se encontravam indisponiveis, foram excluidos.

No tocante a qualidade metodologica, todos os trabalhos fizeram uso de ferramentas validadas para avaliar as variaveis selecionadas e analises estatisticas adequadas.

Resultados e discussao

Foram encontrados 561 artigos, a partir da revisao inicial, dos quais 398 (70,9%) correspondiam a base de dados Medline e 163 (29,1%) a BVS. Identificou-se que 472 (84,1%) nao atendiam a tema tica em questao, abordando itens como a nutricao de animais e periodos que antecedem a lactacao, sendo excluidos. Alem disso, 42 (7,5%) nao foram avaliados em virtude da indisponibilidade dos resumos para consulta. Foram excluidos tambem os artigos de revisao (n = 10), que corresponderam a 1,8% de todos os manuscritos pesquisados. Para a analise final, foram incluidos 37 artigos que contemplavam lactantes, e, desses, 7 (18,9%) retrataram o perfil nutricional e/ou sociodemografico da nutriz doadora de LH (Figura 1).

Identificaram-se nos artigos selecionados as variaveis que se relacionam ao tema proposto por esta revisao: dados sociodemograficos e nutricionais, a saber, antropometria, consumo alimentar e avaliacao serica de micronutrientes (Quadro 1). Posteriormente, as principais caracteristicas acerca do perfil das lactantes foram descritas. Tabela 1.

Observou-se que as variaveis de maior abordagem nos artigos em estudo foram as sociodemograficas, sendo estas mencionadas em 91,9% (n = 34). As informacoes nutricionais foram analisadas em 78,4% (n = 29), enquanto 5,4% (n = 2) dos artigos analisados contemplaram todas as caracteristicas pesquisadas por esta revisao (Tabela 1).

Caracteristicas sociodemograficas

Do ponto de vista sociodemografico foram detectadas informacoes referentes a idade, escolaridade, renda e paridade.

Idade

Dos artigos analisados, 89,2% (n = 33) mencionaram a idade das lactantes e observou-se predominancia de adultas jovens (20 a 30 anos) (25). Em um hospital universitario de Maringa (PR), a maioria das nutrizes avaliadas (41,7%) tinha entre 20 e 29 anos (26). Tal resultado e semelhante aos achados de Santos et al. (27), que encontraram maioria das mulheres (28,6%) entre 24 e 28 anos e, tambem ao estudo de Mello-Neto et al. (28), no qual mais da metade das doadoras de LH (54,4%) tinha entre 20 e 26 anos de idade.

Alguns trabalhos investigaram a idade media, como os realizados por Nakamori et al.8, e Orun et al. (29), e esta foi de 25 anos em ambos. Em um estudo realizado com lactantes doadoras de um Banco de Leite Humano (BLH) na Espanha, encontrou-se media de 33,1 anos (30). Sanchez et al. (31), ja detectaram maiores medias de idade, 33,4 anos.

Apesar desta predominancia ja esperada de mulheres jovens, por se tratar do periodo do ciclo de vida mais propicio para a gestacao, cabe destacar que a idade parece nao influenciar dire tamente a doacao de LM (25,27). No entanto, essa e uma variavel importante a se considerar em acoes relacionadas a doacao, principalmente pelas outras variaveis a ela associadas, de maneira direta ou indireta, tal como a escolaridade e renda.

Escolaridade

O nivel de escolaridade foi mencionado em 32,4% (n = 12) dos artigos, sendo detectada ampla variacao em relacao ao grau de instrucao das lactantes com maior prevalencia de baixa escolaridade. O estudo realizado por Orun et al. (29), mostrou que a maioria das nutrizes tinha menos que 9 anos de estudo, similar ao encontrado por Galvao et al. (1). Adicionalmente, em outro estudo, com 312 lactantes do Uruguai encontrou-se media de escolaridade inferior a 9 anos, a saber, 7,7 anos para as nutrizes adolescentes e 8,1 anos para as adultas (32).

Em contraponto, alguns achados apontaram mais tempo de escolaridade, como o de Tavares et al. (33), e Quinn et al. (34), que encontraram medias de 10 e 9,8 anos de estudos, respectivamente. Alem disso, Colomina et al. (30) observaram que a maioria das lactantes (65,3%) apresentava educacao universitaria. Essas diferencas quanto ao nivel de educacao podem ocorrer em funcao da idade, visto que os achados que apontam maior grau de instrucao referem-se tambem a maiores medias etarias (30,34,35).

Apesar da disparidade no que se refere a escolaridade das nutrizes, os estudos apontam tendencia crescente de amamentacao entre mulheres com maior nivel de educacao, provavelmente pelo maior suporte familiar e social, acesso facilitado aos servicos de atencao a saude e a insercao formal no mercado de trabalho. Ademais, o grau de instrucao da nutriz pode interferir na compreensao da mensagem sobre a pratica do AM e, portanto, na decisao de doacao do LM (27,36). Assim, estrategias de incentivo a doacao devem conseguir abarcar os diferentes niveis de escolaridade, com acoes de complexidade distintas.

Renda

A renda familiar foi mencionada por 10,8% (n = 4) dos autores que apontaram perfil predominante de nutrizes com baixo nivel socioeconomico (renda familiar mensal per capita de meio salario minimo e, no maximo, ate tres salarios minimos37). Em estudo realizado no Rio de Janeiro, Souza et al. (9), notaram que a renda familiar per capita era inferior a um salario em 52,5% da amostra. Ja em estudo conduzido por Galvao et al. (1), na cidade de Fortaleza, a maioria das nutrizes (45,5%) apresentava renda familiar entre 2 e 4 salarios minimos.

Em Sao Paulo, verificou-se que a maior parte (59,3%) das lactantes avaliadas tinha renda familiar de ate 2 salarios minimos. Tal situacao parece ocorrer em funcao do local do estudo, visto que a maioria (87%) das mulheres avaliadas residia na Zona Leste da cidade, que compreende uma das regioes mais pobres, de pior renda media familiar e menor nivel de atividade economica (38).

Diante disso, cabe ressaltar que o menor nivel socioeconomico pode determinar o acesso desigual aos servicos de saude. Mulheres de baixa renda sao mais desprovidas de assistencia durante o pre-natal e puerperio e, consequentemente, de informacoes basicas para o desfecho satisfatorio do ciclo reprodutivo. E nos servicos de saude tambem que lactantes recebem informacoes e devem ser sensibilizadas quanto ao processo de doacao de LH denotando, portanto, a importancia do acesso a esses locais (4,39). Adicionalmente, informacoes sobre a doacao tambem precisam ser veiculadas com frequencia nos meios de comunicacao mais acessiveis, a fim de alcancar todas as nutrizes, independente do nivel socioeconomico avaliado.

Paridade

Em relacao a paridade, 18,9% (n = 7) dos artigos a averiguaram e houve predominancia de primiparas (57,1%). Em estudo com 48 lactantes doadoras, 62,5% eram primiparas, enquanto em um Hospital Universitario de Londrina (Parana) este percentual era de 56% (27). Ja os achados de Ribeiro et al. (40), e Lira et al. (41), apontaram que 62,5% e 52% das lactantes eram multiparas, respectivamente.

As diferencas encontradas em relacao a paridade podem ocorrer em funcao da idade das lactantes, uma vez que, geralmente, mulheres com maior numero de filhos sao tambem mais velhas. Os estudos de Dias et al. (26), e Santos et al. (27), que encontraram alta prevalencia de primiparas, comprovam essas ideias, pois a maioria das nutrizes (64,6 e 60,5%, respectivamente) eram mulheres jovens. Ainda referente a paridade, em estudo revisado por Castro et al. (4) observou-se que as multiparas sao mais frequentes nas classes sociais mais baixas e com menor nivel de escolaridade.

No que tange ao numero de filhos, ha que se pensar que as mulheres multiparas ja vivenciaram a experiencia do AM, sentindo-se mais confiantes no processo da amamentacao. Por outro lado, cabe salientar que a primiparidade e fator de risco para as intercorrencias mamarias, em virtude da inexperiencia na pratica da lactacao. Diante disso, mulheres primiparas buscam auxilio nos BLH com maior frequencia, consequentemente tem mais acesso a informacao acerca dos beneficios da doacao e tornam-se, portanto, mais sujeitas a doarem o seu leite (26,27).

Em sintese, o perfil sociodemografico identificado denota a importancia de estrategias especificas, como a ampliacao da assistencia medica e de acoes politicas que aumentem a cobertura dessas mulheres, alem das existentes, que favorecam a homogeneizacao do acesso aos servicos de saude, independente das condicoes socioeconomicas. Nesse contexto, o maior acesso a esses locais determinara esclarecimentos importantes que podem viabilizar o incremento das doacoes de LH.

Caracteristicas Nutricionais

Antropometria

Dos 37 estudos selecionados, 45,9 % (n = 17) avaliaram o estado nutricional por meio do Indice de Massa Corporal (IMC). Destes, 29,4% (n = 5) relataram IMC medio na faixa de classificacao para excesso de peso. Entre esses achados estao Tavares et al. (33), que investigaram mulheres a partir do 28 [grados] dia pos parto e encontraram IMC medio de 26,4 kg/[m.sup.2]. Alem deste, Lopes et al. (42) e Sanchez et al. (31), que incluiram lactantes a partir de um mes apos o parto, encontraram IMC medio de 27,4 e 26,2 kg/[m.sup.2], respectivamente.

Cabe ressaltar que a interpretacao desses dados deve ser realizada com cautela. O tempo de seguimento desses estudos sao considerados curtos (ate 6 semanas pos parto), sendo este o periodo em que ocorre o reequilibrio hidroeletrolitico gradual, em que a agua extracelular e extravascular aumentada na gestacao diminui, e o volume circulante retorna a valores pre-gravidicos. Somente depois desse periodo, e que a retencao de peso pos-parto pode ser atribuida ao aumento de gordura corporal materna adquirida durante a gestacao, bem como ao aumento do tecido ma mario (43).

Apesar das limitacoes para a avaliacao desses dados, destaca-se que o pos-parto e um periodo que vem sendo associado ao excesso de peso em virtude do elevado ganho ponderal durante a gestacao. No que concerne a isso, estudos longitudinais revisados por Castro et al. (4) apontaram valores elevados de retencao ponderal pos-parto, sendo as frequencias entre 14% e 25,6%, nas populacoes estudadas.

Assim, o acompanhamento adequado da gestante durante o pre-natal e essencial para o controle ponderal durante a gestacao, visto que este e um preditor para obesidade futura, alem de favorecer o processo de doacao de LH pela interferencia na lactogenese (5,6).

Ingestao energetica e de macronutrientes

Dos 15 artigos que avaliaram o consumo alimentar, 33,3% (n = 5) analisou a adequacao da ingestao de carboidrato (CHO), 33,3% (n = 5), de proteina (PTN), 40% (n = 6), de lipidio (LIP) e 26,7% (n = 4), o consumo calorico (Tabela 1).

Quanto aos estudos que avaliaram a ingestao de macronutrientes, em sua maioria encontraram valores medios dentro da faixa de recomendacao: 10 a 35%, para PTN; 45 a 65%, para CHO; e 20 a 35%, para LIP (44).

Adicionalmente, de acordo com o Institute of Medicine (44), o consumo alimentar da nutriz deve oferecer, no minimo, 1800 kcal ao dia. Dos artigos que mencionaram a ingestao energetica, 75% (n = 3) encontraram resultados superiores a esta recomendacao. No entanto, dietas com menos de 1500 kcal sao desaconselhadas (44), por nao atenderem as necessidades nutricionais da mulher nesse periodo (34).

Entre 75 nutrizes paulistas avaliadas, por meio de Recordatorio Alimentar de 24 horas e Questionario de Frequencia Alimentar, o valor energetico medio ingerido por dia foi de 2.233 kcal (33). Sanchez et al. (31) investigaram o consumo calorico utilizando os mesmos inqueritos nutricionais e encontraram media de 2.340,5 kcal/dia. Esses valores se aproximam das necessidades energeticas de uma nutriz de referencia, com peso e altura apropriados, que e de aproximadamente 2.300 kcal (44).

Resultados divergentes, no entanto, foram observados por Quinn et al. (34) e Lopes et al. (42), que referiram medias de 1411,3 kcal e 3392,1 kcal, respectivamente. Tais discrepancias demandam atencao, pois, na lactacao, ha necessidade de maior aporte energetico visando garantir a producao de LM, porem o excesso nao e desejavel. Recomenda-se em media um adicional de 500 kcal/dia nos primeiros seis meses e de 400 kcal/ dia nos meses subsequentes. O consumo calorico insuficiente pode acarretar danos a saude materna, como, por exemplo, a deficiencia de nutrientes, enquanto o excessivo pode favorecer o acumulo de gordura e retencao ponderal pos-parto (4).

A dieta materna sofre influencia de fatores demograficos, socioeconomicos, culturais e sociais. A idade, por exemplo, interfere no consumo energetico, visto que mulheres mais velhas apresentam menor consumo de calorias em relacao as mais jovens (33). Isso aponta a demanda por atencao individualizada, no que se refere a avaliacao nutricional e orientacoes especificas para uma alimentacao equilibrada a fim de estimular a doacao de LH.

Ingestao dietetica e niveis sericos de micronutrientes

Em relacao a avaliacao de micronutrientes, poucos estudos referiram essas informacoes 10,8% (n = 4) com dados dieteticos e 32,4% (n = 12) com parametros sericos. Quanto a ingestao, os estudos selecionados por este trabalho investigaram ferro, zinco e calcio (Tabela 2), possivelmente pelas implicacoes destes nutrientes para a saude da nutriz.

A media de ingestao de ferro, zinco e calcio foi aquem da recomendada em todas as investigacoes (8,34,42). Porem, nao ha evidencias de que os niveis desses micronutrientes no LH dependam da dieta materna, em vista da manutencao da homeostase realizada pelo organismo. Assim, para esses nutrientes a qualidade da dieta da mae nao afeta a qualidade de seu leite, mas e importante que a nutriz tenha niveis adequados para manter a sua propria saude, favorecendo o processo de doacao do LH (45).

Tavares et al. (33) avaliaram a ingestao de calcio e esta foi abaixo da recomendacao em 64% das participantes. Lopes et al. (42) tambem observaram valores inferiores as recomendacoes para este nutriente, com media de 659,8 [+ or -] 307,1 mg. Atencao especial deve ser dada a este nutriente, porque adaptacoes fisiologicas ocorrem no corpo durante a lactacao, a fim de assegurar uma transferencia adequada de calcio para a glandula mamaria. Tais adaptacoes podem levar a perda temporaria de massa ossea, a elevacao da absorcao de calcio e reducao da excrecao urinaria (46).

A perda de massa ossea durante a lactacao pode ser transitoria e nao aumenta o risco de osteoporose ou fraturas. Porem, essas situacoes podem ocorrer se a ingestao materna de calcio for inferior a 500 mg/dia. Assim, a nutriz deve-se ater para o consumo de alimentos fonte desse micronutriente, como leite e derivados (45).

O calcio serico foi analisado por 1 (2,7%) estudo, conduzido por Correia Santos et al. (46), e a concentracao media encontrada estava dentro do intervalo normal (entre 2,2 e 2,5 mmol/L), denotando a forte regulacao homeostatisca deste mineral.

O nivel serico de outros nutrientes tambem foi mensurado. Do total, 5 artigos (41,6%) avaliaram o retinol, indicador que tem sido amplamente utilizado para identificar as populacoes em risco de DVA. De acordo com a Organizacao Mundial da Saude (OMS), concentracoes abaixo de 0,7 [micron]mol/L indicam risco de hipovitaminose A, e a carencia desse micronutriente altera sua concentracao no LM (28,40,47).

Um dos principais fatores que leva a DVA e uma ingestao insuficiente de alimentos de origem animal, como leite e derivados, ovos e figado, bem como os de origem vegetal ricos em provitamina A, tais como manga, mamao, cenoura, abobora e moranga (40,48).

Lira et al. (41) realizaram uma analise individualizada dos niveis sericos de retinol em 97 puerperas, em Natal (RN), e detectaram prevalencia de deficiencia subclinica em 15% da amostra. Ja Ribeiro et al. (40) e Soares et al. (47) encontraram frequencias de inadequacao de 9,3% e 7,5%, respectivamente. Mello-Neto et al. (28), por sua vez, realizaram o estudo em Sao Paulo e observaram maior prevalencia de DVA: 25,7% das nutrizes avaliadas, o que corrobora os achados que identificaram maior prevalencia dessa deficiencia na regiao Sudeste do pais (7,48). Esses resultados denotam que a DVA nao e um problema restrito a regioes de extrema pobreza do Brasil, e que o consumo inadequado esta mais relacionado a fatores culturais e habitos alimentares do que a questoes economicas. Por este motivo, o Programa Nacional de Suplementacao de Vitamina A, que antes se concentrava na Regiao Nordeste, municipios do Vale do Jequitinhonha e Mucuri (Estado de Minas Gerais) e alguns municipios da Amazonia Legal, foi ampliado para todo o Pais (todos os municipios da Regiao Norte e Distritos Sanitarios Especiais Indigenas e municipios prioritarios do Plano Brasil Sem Miseria das regioes Centro-Oeste, Sudeste e Sul) (49).

Adicionalmente, destaca-se que a idade materna e a paridade apresentam uma relacao positiva com os niveis de vitamina A sericos. A lactacao previa proporciona maior mobilizacao das reservas de retinol, estimulada tambem pela maior adiposidade materna em multiparas, com posterior transferencia a glandula mamaria (40,41).

A concentracao de ferro no sangue foi analisada por 3 (8,1%) estudos. Mello Netto et al. (28) e Correia Santos et al. (46) encontraram valores medios de acordo com a normalidade (> 7,2 mmol/L). Na pesquisa conduzida por Nakamori et al. (8), com lactantes entre 6 e 12 meses pos-parto, a anemia foi encontrada em 39% das participantes, consequencia da ingestao de ferro aquem do recomendado, conforme informacoes acerca do consumo alimentar investigadas por este estudo.

Esses dados corroboram a deficiencia de ferro e a anemia como sendo um grande problema de nivel mundial. Existem programas governamentais para ameniza-los, como o Programa Nacional de Suplementacao de Ferro que fornece administracao profilatica de suplementos desse mineral para, alem de criancas de 6 a 24 meses de idade, gestantes e mulheres ate 30 mes pos-parto (49). Todavia, sao necessarias mais estrategias para o diagnostico e tratamento da anemia durante o periodo da lactacao. Sabe-se que as orientacoes dieteticas constituem intervencoes essenciais para estimulo ao consumo de alimentos que contenham ferro de alta biodisponibilidade. Portanto, o acompanhamento nutricional nesse periodo torna-se fundamental.

A concentracao sanguinea de zinco foi investigada em 10,8% (n = 4) dos estudos. Correia-Santos et al. (46) e Mello Netto et al. (28) encontraram os niveis medios adequados (> 9,2 |imol/L). Severi et al.32 relataram que a prevalencia de hipozincemia foi relativamente baixa, sendo 7,3% em adolescentes e 12,3% em adultas. Isso pode ser justificado pela maior ingestao de zinco em funcao do alto consumo de produtos carneos no Uruguai, local onde o estudo foi realizado. Entretanto, Nakamori et al. (8) encontraram percentual de inadequacao em 55,4% das participantes do estudo, ocorrido em funcao da baixa ingestao de alimentos fontes de zinco.

Sabe-se que as deficiencias de vitamina A, ferro e zinco frequentemente coexistem. Isso acontece, pois ha uma interacao entre o metabolismo desses micronutrientes. O zinco e um elemento importante para sintese de Retinol Binding Protein (RBP), uma proteina responsavel pelo transporte de vitamina A. Assim, niveis sanguineos reduzidos desse mineral acarretam baixa concentracao do retinol serico. A deficiencia de ferro, por sua vez, compromete o funcionamento da mucosa intestinal, resultando em menor absorcao da vitamina A (50).

Correia-Santos et al. (46) e Nakamori et al. (8) tambem avaliaram a concentracao de cobre no plasma. Em relacao ao primeiro, foi encontrada media acima dos niveis sericos normais (> 10 [micron]mol/L). Ja Nakamori et al. (8) constataram que 21,4% das lactantes apresentavam niveis sericos insuficientes.

A ingestao de cobre parece nao comprometer sua concentracao no LH, mas o estado nutricional de zinco pode afetar a presenca de cobre no leite. Isso ocorre porque a ingestao marginal de zinco durante a lactacao aumenta os transportadores de cobre da glandula mamaria e altera sua localizacao, resultando, portanto, em aumento de cobre no LH (8).

Em relacao aos 2 (5,4%) estudos que avaliaram alfa-tocoferol, conduzidos por Dimenstein et al. (51), os valores medios encontrados foram adequados, de acordo com a referencia adotada pelo estudo (> 16,2 [micron]mol/L). Esses resultados indicam um bom estado nutricional em vitamina E, reflexo de uma ingestao satisfatoria dos alimentos fonte como vegetais verde-escuros, oleaginosas e oleos vegetais.

Em sintese, os resultados encontrados apontam uma condicao preocupante em relacao ao perfil nutricional da lactante e possiveis impactos para a doacao de LM. Apesar de entre todos os nutrientes apresentados apenas a vitamina A ter associacao com a concentracao no LH, e importante que a nutriz apresente niveis adequados de todos os micronutrientes, para o funcionamento apropriado do seu organismo e para manutencao de bom estado geral da sua saude, que pode favorecer o processo de doacao. Diante disso, destaca-se a importancia de realizar acoes de educacao alimentar e nutricional neste periodo do ciclo reprodutivo, principalmente no que se refere a qualidade nutricional da dieta, aproveitando o momento em que as mulheres procuram os servicos de saude para acompanhamento de seus filhos (33).

Conclusoes

Os achados apontaram que entre as lactantes avaliadas ha predominancia de adultas jovens, primiparas, nivel de escolaridade variado, devido as diferentes regioes estudadas, de baixa renda, com maior propensao ao excesso de peso e carencias nutricionais, demandando intervencoes direcionadas a fim de favorecer melhoria da saude da nutriz e oportunizar incremento da doacao de LH.

Adicionalmente, a escassez de dados exclusivos das doadoras de LM apontam a necessidade de mais estudos que investiguem as caracteristicas sociodemograficas e nutricionais desta populacao, de modo a detectar os fatores associados ao processo de doacao e incentiva-lo desde o periodo pre-natal.

Por fim, salienta-se a importancia da atencao integral a saude da lactante como agente preponderante para a doacao de LH e cuidado com a saude infantil.

DOI: 10.1590/1413-81232018232.05542016

Colaboradores

Todos os autores contribuiram para a concepcao, estruturacao, analise e interpretacao dos dados, e desenvolveram ou realizaram a revisao critica do artigo, com o objetivo de obter um conteudo intelectualcondizente com esta revista.

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Artigo apresentado em 11/12/2015

Aprovado em 02/03/2016

Versao final apresentada em 04/03/2016

Larissa Bueno Ferreira [1]

Ingrid Tatiana Oliveira de Nea [1]

Taciana Maia de Sousa [1]

Luana Caroline dos Santos [1]

[1] Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Alfredo Balena 190/324, Santa Efigenia. 30130-100 Belo Horizonte MG Brasil. labuenoferreira@gmail.com

Caption: Figura 1. Fluxograma do processo de selecao dos artigos.
Quadro 1. Sintese dos artigos conforme perfil estudado.

Autores                    Publico alvo

Antonakou et al.           Nutriz nao doadora (n=64)

Azeredo et al.             Nutriz nao doadora (n=50)

Bachour et al. (10)        Nutriz nao doadora (n=66)

Cherop et al. (11)         Nutriz nao doadora (n=384)

Colomina et al.            Nutriz doadora (n=168)

Correia-Santos et al.      Nutriz nao doadora (n= 36)

Dias et al.                Nutriz doadora (n=48)

Dimenstein et al.          Nutriz nao doadora (n=30)

Dimenstein et al. (12)     Nutriz nao doadora (n=72)

Ettyang et al. (13)        Nutriz nao doadora (n=10)

Galvao et al.              Nutriz doadora (n=11)

Harit et al. (14)          Nutriz nao doadora (n=299)

Lira et al.                Nutriz nao doadora (n=97)

Lopes et al.               Nutriz nao doadora (n=46)

Lubetzky et al. (15)       Nutriz nao doadora (n=55)

Marin et al.               Nutriz nao doadora (n=46)

Maru et al. (17)           Nutriz nao doadora (n=45)

Mello-Neto et al.          Nutriz doadora (n=136)

Nakamori et al.            Nutriz nao doadora (n=60)

Neves et al.               Nutriz doadora (n=4)
                           Nutriz nao doadora (n=3)

Olafsdottir et al. (18)    Nutriz nao doadora (n=77)

Orun et al.                Nutriz nao doadora (n=144)

Qiao et al. (19)           Nutriz nao doadora (n=90)

Quinn et al.               Nutriz nao doadora (n=102)

Ribeiro et al.             Nutriz nao doadora (n=86)

Sanchez et al.             Nutriz nao doadora (n=39)

Santos et al.              Nutriz doadora (n=91)

Severi et al.              Nutriz nao doadora (n=312)

Shashiraj et al. (20)      Nutriz nao doadora (n=200)

Soares et al.              Nutriz nao doadora (n=40)

Souza et al.               Nutriz nao doadora (n=196)

Szlagatys-Sidorkiewicz     Nutriz nao doadora (n=156)
 et al. (21)

Szlagatys-Sidorkiewicz     Nutriz nao doadora (n=24)
et al. (21)

Tavares et al.             Nutriz nao doadora (n=75)

Tokucoglu et al. (22)      Nutriz nao doadora (n=92)

Valentine et al. (23)      Nutriz doadora (n=21)

Zhixiong Shi et al. (24)   Nutriz nao doadora (n=103)

Autores                    Caracteristicas
                           Sociodemograficas   Antropometricas

Antonakou et al.           X

Azeredo et al.             X                   X

Bachour et al. (10)        X                   X

Cherop et al. (11)         X

Colomina et al.            X

Correia-Santos et al.      X                   X

Dias et al.                X

Dimenstein et al.          X                   X

Dimenstein et al. (12)     X

Ettyang et al. (13)        X                   X

Galvao et al.              X

Harit et al. (14)                              X

Lira et al.                X

Lopes et al.               X                   X

Lubetzky et al. (15)       X                   X

Marin et al.               X                   X

Maru et al. (17)           X                   X

Mello-Neto et al.          X                   X

Nakamori et al.            X                   X

Neves et al.               X

Olafsdottir et al. (18)    X                   X

Orun et al.                X

Qiao et al. (19)

Quinn et al.               X                   X

Ribeiro et al.             X

Sanchez et al.             X                   X

Santos et al.              X

Severi et al.              X

Shashiraj et al. (20)      X                   X

Soares et al.              X

Souza et al.               X

Szlagatys-Sidorkiewicz     X                   X
 et al. (21)

Szlagatys-Sidorkiewicz     X
et al. (21)

Tavares et al.             X                   X

Tokucoglu et al. (22)      X                   X

Valentine et al. (23)      X

Zhixiong Shi et al. (24)   X                   X

Autores
                           Consumo     Avaliacao
                           alimentar   serica de
                                       micronutrientes

Antonakou et al.           X

Azeredo et al.

Bachour et al. (10)

Cherop et al. (11)

Colomina et al.

Correia-Santos et al.                  X

Dias et al.

Dimenstein et al.                      X

Dimenstein et al. (12)                 X

Ettyang et al. (13)                    X

Galvao et al.

Harit et al. (14)

Lira et al.                            X

Lopes et al.               X

Lubetzky et al. (15)

Marin et al.               X

Maru et al. (17)

Mello-Neto et al.                      X

Nakamori et al.            X           X

Neves et al.

Olafsdottir et al. (18)    X

Orun et al.                X

Qiao et al. (19)           X

Quinn et al.               X

Ribeiro et al.                         X

Sanchez et al.             X

Santos et al.

Severi et al.                          X

Shashiraj et al. (20)

Soares et al.

Souza et al.

Szlagatys-Sidorkiewicz     X
 et al. (21)

Szlagatys-Sidorkiewicz
et al. (21)

Tavares et al.             X

Tokucoglu et al. (22)      X

Valentine et al. (23)      X

Zhixiong Shi et al. (24)   X

Tabela 1. Principais caracteristicas nutricionais referentes
as lactantes.

Variavel          Percentual (%)   Sintese dos resultados
Estudada          de numero de
                  Estudos

Antropometria     45,9 (n=17)      35,3% encontraram media na faixa de
                                   eutrofia (n=6) e 17,6% na faixa de
                                   sobrepeso (n=3) 23,5% encontraram
                                   maior prevalencia de classificacao
                                   para excesso de peso (n=4) e 23,5%
                                   para eutrofia (n=4).

Ingestao Media    10,8 (n=4)       50% encontraram media > 2000kcal
de Energia                         (n=2), 25% media <1500kcal (n=1) e
                                   25% media entre 1500 e 2000kcal
                                   (n=1)

Ingestao Media    13,5 (n=5)       100% encontraram percentual medio
de Proteina                        dentro da recomendacao (10 a 35%)
                                   (n=5)

Ingestao Media    13,5 (n=5)       80% encontraram percentual medio
de Carboidratos                    dentro da faixa recomendada (45 a
                                   65%) (n=4) e 20% abaixo (n=1)

Ingestao Media    16,2 (n=6)       50% encontraram percentual medio
de Gorduras                        dentro da faixa recomendada (10 a
                                   35%) (n=3), 16,7% abaixo (n=1) e
                                   33,3% acima (n=2).

Carencia          13,5 (n=5)       40% encontraram DVA (n=2); 40%
Nutricional                        anemia (n=2); 20% hemoglobina
                                   abaixo da faixa adequada (12 a 16,5
                                   g/100ml) (n=1).

DVA: Deficiencia de Vitamina A.

Tabela 2. Ingestao Diaria Recomendada (RDA) e niveis
sericos de micronutrientes recomendados

Micronutrientes   RDA (lactantes)
                  14-18 anos           19-50 anos

Vitamina A        1200 [micro]g/       1300 [micro]g/
                  [d.sup.11]           [d.sup.11]

Ferro             10 mg/[d.sup.11]     9 mg/[d.sup.11]

Cobre             1300 mg/[d.sup.11]   1300 [micro]g/
                                       [d.sup.11]

Zinco             13 mg/[d.sup.11]     12 mg/[d.sup.11]

Calcio            1300 mg/[d.sup.21]   1000 mg/[d.sup.21]

Vitamina E        19 mg/[d.sup.14]     19 mg/[d.sup.14]

Micronutrientes   Niveis sericos

Vitamina A        >0,7 |mol/[L.sup.37]

Ferro             >7,2 mmol/[L.sup.43]

Cobre             >10 [micro]mol/
                  [L.sup.43]

Zinco             >9,2 [micro]mol/
                  [L.sup.43]

Calcio            2,5-2,5 mmol/
                  [L.sup.43]

Vitamina E        >16,2 [micro]mol/
                  [L.sup.48]
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Author:Ferreira, Larissa Bueno; de Nea, Ingrid Tatiana Oliveira; de Sousa, Taciana Maia; dos Santos, Luana
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Feb 1, 2018
Words:6931
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