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Nunes, L.H. 2015. Urbanizacao e desastres naturais, abrangencia America do Sul. Sao Paulo, Brasil: Oficina de Textos.

Este livro traz um texto academico publicado em primeira edicao no ano de 2015 pela geografa Dra. Luci Hidalgo Nunes. A autora atua na Universidade Estadual de Campinas, no estado de Sao Paulo. A obra conta com a apresentacao da Dra. Cleusa Aparecida Goncalves Pereira Zamparoni, da Universidade Federal de Mato Grosso em Cuiaba, estado do Mato Grosso. Apos o desenrolar dos elementos pre-textuais: apresentacao, prefacio e introducao, a tematica do livro e desenvolvida em tres capitulos e nas conclusoes.

O capitulo inicial e intitulado: "Os desastres naturais--condicionantes socioeconomicos e fisicos". Nele a autora menciona a priori como diversas sociedades e religioes buscaram explicar os fenomenos naturais de grande magnitude a partir de mitos, folclores, acao de divindades, etc. Ela argumenta tambem que os fenomenos de desastres sao recorrentes a humanidade desde a antiguidade.

E importante ressaltar que a autora deixa claro que ao longo da obra, ela nao tem por objetivo distinguir os conceitos de desastres, catastrofes e calamidades, sendo os tres tratados como sinonimos. Assim sendo, o seu enfoque nao e conceitual, porem tambem nao e neutro. Nunes afirma que seu entendimento desses fenomenos se da "como uma construcao social, produto da interacao conflituosa entre uma organizacao social e processos naturais (como chuvas, ventos, terremotos), revelando desequilibrio brusco e significativo entre forcas compreendidas pelo sistema natural, contrariamente as forcas do sistema social" (Goncalvez, 2003).

Apos esse posicionamento, ainda no primeiro capitulo ela aborda dois subitens: "a urbanizacao e a globalizacao na desarticulacao socioambiental contemporanea", que enfatiza como a producao desses fenomenos ignora a dinamica natural dos lugares e sujeita os povos --em especial os menos abastados--para as areas ambientalmente mais vulneraveis. Este item, tambem trata dos diferentes papeis dos paises na globalizacao e como os paises que nao lideram o processo de globalizacao ficam mais sujeitos aos desastres naturais.

Na segunda parte do primeiro capitulo, e descrito sucintamente os "indutores das catastrofes naturais", denominados eventos fisicos ou hazards. O objetivo nao e abordar sistematicamente esses indutores, mas e sim apresentar os extremos de temperatura, as tempestades, os abalos sismicos e o vulcanismo como indutores das secas, incendios, inundacoes, movimentos de massa e epidemias.

O segundo capitulo com o nome: "A America do Sul em perspectiva", caracteriza elementos da America do Sul de modo a ajudar a compreender a geografia dos desastres ocorridos nesta porcao continental. O capitulo dois e subdividido em quatro subitens. No primeiro, a autora descreve sumariamente "o ambiente natural da America do Sul", citando caracteristicas marcantes do continente no que tange a diversidade do relevo sul-americano, desde as planicies ate as montanhas andinas, e a distribuicao da agua e das formacoes vegetais. Contudo, a autora se debruca com maior avidez na descricao climatica e dos fenomenos atmosfericos. Em alguns momentos desse subitem, Nunes busca relacionar as caracteristicas naturais e a ocupacao dos diferentes lugares. A autora foca as potencialidades que a natureza sul-americana fornece para as populacoes humanas e conclui o subitem enfatizando a desestruturacao dessas paisagens pela ocupacao acelerada oriunda da urbanizacao, bem como, a relacao dessa urbanizacao com a globalizacao.

Dado o enfoque nas caracteristicas naturais, Nunes passa a enfatizar no segundo subitem --"aspectos socioambientais e economicos da America do Sul"--as mudancas ocorridas a partir do crescimento e incremento populacional. Sua analise trata primeiramente das mudancas do uso da terra entre 1700 e 2000. Posteriormente, examina o crescimento populacional dos paises sul-americanos, sobretudo entre 1960 e 2010. Ela tambem analisa o aumento das areas urbanas e de suas populacoes, principalmente via industrializacao tardia. Isso se da por meio de processos excludentes a qual grande percentual populacional concentra-se nas areas de habitacoes precarias. Dois pontos a destacar sao: (i) o bom uso de tabelas e mapas agregando o conteudo explicativo da secao, (ii) o carater especial do topico ao tratar de como a mobilidade urbana influencia no aumento das populacoes sob risco em episodios chuvosos por falta de modais de transporte coletivos e eficientes, gerando pressao sobre a utilizacao de meios de transporte particulares, inchando as vias publicas.

No terceiro subitem do segundo capitulo a discussao passa para as relacoes entre as nacoes sul-americanas, e as relacoes delas com os demais paises. A autora discute entraves que dificultam o aprofundamento dessas relacoes, como o diferente aporte de investimentos estatais nos distintos paises que acaba por aprofundar as desigualdades entre as nacoes. Isso, associado a crescente transformacao das paisagens no subcontinente pode acarretar o aumento dos desastres.

Para finalizar o segundo capitulo, a autora trata de como os investimentos decorrentes do crescimento economico da America do Sul acabam por cobrir prejuizos oriundos de desastres naturais em funcao das mudancas climaticas, mas nao em melhorias sociais a populacao. Tais investimentos, se aplicados nas melhorias sociais, poderiam minimizar o acontecimento dos desastres.

O terceiro capitulo que recebe o nome de: "Os desastres naturais na America do Sul", e o mais extenso. Ele ocupa quase metade do livro. Nele a autora vai se debrucar em apresentar por meio de fontes, qual e a expressao dos desastres na America do Sul. Para facilitar o entendimento e enriquecer o trabalho do ponto de vista analitico, a autora emprega inumeras tabelas, mapas e graficos. Este capitulo e de qualidade excepcional. Da mesma forma que no inicio do primeiro capitulo, a autora enriquece o trabalho apresentando exemplos de como as populacoes tradicionais amerindias se relacionavam aos desastres, buscando explicacoes por meio de suas crencas. Cita exemplos dos incas, tupi-guaranis, mapuches e chimus. Cita tambem, alguns desastres ocorridos no periodo colonial.

O enfoque seguinte recai sobre a metodologia de levantamento dos dados de eventos de desastres naturais. Aqui, a autora aborda a deficitaria base de dados sobre desastres naturais na America do Sul e os diferentes criterios para sua consolidacao nos paises sul-americanos. Para tentar transpor estes obstaculos, ela opta pela utilizacao do banco de dados EM-DAT (International Disaster Database) do Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres, situado na Universidade Catolica de Louvain em Bruxelas, na Belgica. Para que um desastre seja catalogado pelo banco de dados, ele deve possuir uma das seguintes caracteristicas: dez ou mais vitimas fatais, cem ou mais pessoas afetadas, declaracao de estado de emergencia ou chamada de assistencia internacional (Guha-Sapir et al., 2010 apud Nunes, 2015). Ao examinar o panorama dos desastres naturais ocorridos na America do Sul entre 1960 a 2009, a autora foca inicialmente nas tendencias espaciais dos desastres, posteriormente as suas tendencias temporais e por fim, realiza uma comparacao da geografia dos desastres naturais na America do Sul com o restante do planeta.

Todo o terceiro capitulo e dotado de muitos dados, sempre enfocando quais foram os desastres ocorridos entre 1960 e 2009. Os inumeros desastres naturais foram divididos no livro em tres categorias: os fenomenos hidrometeorologicos, os geofisicos e os biologicos. Busca-se tambem relatar o montante de pessoas atingidas, incluindo o numero de obitos e os prejuizos economicos decorrentes dos fenomenos. As informacoes sao apresentadas do ponto de vista espacial e temporal, por paises e por decadas. Parte do capitulo se desdobra em enfatizar os dados de desastres naturais ocorridos nas aglomeracoes urbanas superiores a 750.000 habitantes.

Como a autora utiliza o banco de dados EM-DAT para quantificar e qualificar os desastres naturais, ela discute os problemas existentes nesse banco de dados. Ainda que ele compile muitas informacoes, fica evidente que faltam dados para oferecer maior consistencia. A autora explica:

A fonte de informacao tambem indica que haveria dois aglomerados na America do Sul com populacao acima de 750 mil pessoas que nao apresentariam perigo a esses tipos de hazards: Salvador e Manaus, ambos brasileiros. Entretanto, essa informacao nao reflete a realidade dessas duas cidades, sabidamente expostas a inundacao e secas e, no caso de Salvador, tambem a escorregamentos de encostas (p. 66).

A finalizacao do capitulo tres propoe comparar os desastres naturais ocorridos na America do Sul com os de outras areas do mundo, ainda que sucintamente. Isso oferece um importante panorama da situacao dos paises sul-americanos no mapa mundial dos desastres naturais. O panorama nao e agradavel, enfatiza a situacao critica da America do Sul, que somado aos desastres das Americas do Norte e Central, fica atras apenas do continente asiatico. Um continente muito mais populoso e detentor de uma area territorial mais expressiva que a americana.

O quarto e ultimo capitulo articula as discussoes dos capitulos anteriores e fecha o texto com algumas conclusoes. Nunes tece consideracoes importantes como: os desastres naturais sao relatados por povos que habitavam originalmente a America do Sul; o aumento dos desastres tem ocorrido de maneira cada vez mais crescente no espaco urbano; a globalizacao, ao nao colaborar para o maior protagonismo das nacoes sul-americanas, tem contribuindo para o crescimento do numero de desastres, em funcao das politicas neoliberais; a falta de um banco de dados padronizado para todas as nacoes sul-americanas dificulta o conhecimento dos fenomenos e a criacao de formas de enfrentamento aos desastres.

A utilizacao do banco de dados EM-DAT e eficaz para alguns levantamentos, porem, apresenta inumeras carencias quanto a outras informacoes. Conforme o banco de dados, os terremotos sao os desastres mais destrutivos; porem, as inundacoes sao as ocorrencias mais frequentes. Em termos proporcionais, Colombia, Peru e Equador sao os paises que apresentam os dados mais preocupantes. A aglomeracao urbana de Quito, no Equador e o local que apresenta maiores riscos em diferentes tipos de hazards.

O capitulo de conclusoes chega ao fim de modo esplendoroso. Destaca que e preciso conhecer da maneira mais detalhada possivel a ocorrencia dos fenomenos, para que sejam criadas formas eficazes de combate aos seus efeitos. Deixa-se claro que as cidades ao concentrar a maior parte da populacao sul-americana, crescerem em nivel acelerado sob a otica da globalizacao, e sao os locais de maior ocorrencia dos desastres. Cabe pois as nacoes da America do Sul, articularem o combate aos desastres por meio de conhecimento e criacao de redes que possibilitem a reducao destes fenomenos e dos seus efeitos. Nas palavras da autora:

E fato, porem, que sendo os desastres tao comuns e centrais, e preciso desenvolver novas formas para seus entendimentos e combates, mesmo que eles sejam parciais por definicao. E, dialeticamente, e dos seus adventos que vem suas compreensoes (aprender com as tragedias para que elas nao se repitam, ao menos no mesmo patamar). Dialeticas, tambem, sao suas manifestacoes, pois se eles geram destruicao e sofrimento, tambem suscitam solidariedade tanto por sentimentos verdadeiramente nobres perante o sofrimento alheio como no sentido de estar presente para aprender com aquela tragedia. Se hoje uma catastrofe acontece ali, amanha pode acontecer algo semelhante aqui, mesmo que as calamidades sejam desencadeadas por distintos hazards que, dessemelhantes em suas essencias, sao iguais fisicamente, ao concentrarem energia, e socialmente, ao trazerem perdas de todas as ordens, principalmente aquelas que sao incomensuraveis e insubstituiveis (p. 105).

De maneira sintetica, este livro traz uma importante contribuicao para os estudos geograficos por tracar um rico panorama dos desastres naturais na America do Sul desde 1960. A autora enfatiza os desastres naturais ocorridos em areas urbanas, em especial nas grandes cidades sul-americanas. Trata-se de uma obra solida, de facil leitura, enriquecida por uma vasta gama de mapas, tabelas e graficos. A obra nao prioriza a explicacao da ocorrencia dos diversos tipos de desastres, mas sim a argumentacao de que o crescimento do numero de desastres se da concomitante ao acelerado processo de transformacao das paisagens e ao crescimento populacional urbano.

O livro visa atender em especial aos estudiosos da geografia e areas afins, mas serve tambem de apoio a gestores de orgaos publicos, principalmente para aqueles que trabalham em entidades voltadas aos estudos e combate de desastres naturais. Recomendo a leitura em especial aos estudantes de graduacao, por causa do seu trato didatico, principalmente para aqueles que buscam entender nao so os desastres naturais, mas ainda, fomentar agendas ambientais para a America do Sul.

DOI: 10.25100/eg.v0i17.7919

Referencias bibliograficas

Goncalvez, N. M. S. (2003). Impactos pluviais e desorganizacao do espaco urbano em Salvador. In C. A. de F. MONTEIRO, F. de A. MENDONCA, F. de A. (Orgs.). Clima urbano (p. 192). Sao Paulo: Contexto.

Nunes, L. H. (2015). Urbanizacao e Desastres Naturais: abrangencia America do Sul. Sao Paulo: Oficina de Textos.

Autor de la resena

Leandro Neri Bortoluzzi Doutorando em Geografia pela Universidad Estatal Paulista "Julio de Mesquita Filho" -Campus de Presidente Prudente/ Faculdade de Ciencias e Tecnologia, estado de Sao Paulo, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7308-8432 Correio eletronico: bortoluzzi_@hotmail.com
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Author:Neri Bortoluzzi, Leandro
Publication:Entorno Geografico
Article Type:Resena de libro
Date:Jan 1, 2019
Words:2356
Previous Article:Linda McDowell. 1999. Genero, identidad y lugar: un estudio de las geografias feministas.

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