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Nothing quiet on the western front: a dialogue between literature and psychology/Algo de novo no front: um dialogo entre literatura e psicologia.

Introducao

Se escrevo o que sinto e porque assim diminuo a febre de sentir. (Fernando Pessoa, 1999, p. 54)

A escrita como oportunidade de (re)estruturacao psicologica

Como muito bem observado por Platao ha mais de dois mil anos, apenas quem morre conhece o fim da guerra. Tendo isso em mente, subestimar o significado e a dimensao da guerra e de seus sistemas de significacao dentro de todo o desenvolvimento da sociedade e do sujeito nela inserido seria, no minimo, improprio. Logo, parece-nos tambem pertinente que se observem os relatos de escritores que emergiram em contextos nos quais a tematica da guerra atingiu, ate aqui, talvez os seus maiores apices--no caso durante a primeira (1914 a 1918) e a segunda (1939 a 1945) guerra mundial--como forma de compreender nao so ate que ponto a experiencia do campo de batalha interfere no desenvolvimento da identidade do sujeito, mas tambem o papel que sua producao escrita desempenha no caminhar de todo esse processo.

Sendo assim, o contexto geral deste artigo concerne ao periodo historico da primeira e da segunda grande guerra, tendo em vista os impactos destas dentro dos momentos nos quais se inseriam e suas consequencias posteriores na experiencia daqueles cujas vidas sofreriam interferencia (direta ou indireta) daquilo que se passou dentro e fora dos campos de batalha. Como sugere Luciana de Lima Martins, em sua dissertacao Historia, Literatura e Memoria: Reflexoes sobre a Grande Guerra,

[...] a Primeira Guerra Mundial se caracteriza como um momento paradigmatico, do seculo XX, no qual a extensao, a duracao e a brutalidade do conflito colaboraram para a construcao de culturas historicas (Martins, 2008, p. 8).

Ainda segundo a autora, trata-se este de um momento paradigmatico porque ele se ve responsavel por permitir a articulacao dessas culturas historicas--manifestadas literariamente--que, "[...] independentemente dos caminhos percorridos, questionam e procuram compreender este momento" (Martins, 2008, p. 8). Como bem colocado por Laura Campos, no artigo Patrick Modiano e A Segunda Geracao Pos-Shoa, assim como a primeira guerra,

[...] a Segunda Guerra Mundial exerceu um impacto importante no campo estetico, repercutindo nas tematicas, nas formas de representacao e na recepcao; encontramos, desde o imediato posguerra, dezenas de textos sobre o conflito (Campos, 2008, p. 1).

Sao esses textos que reiterariam a importancia de que se reconsidere o impacto da segunda guerra na estetica literaria (na realidade, para muito alem dela), justamente na medida em que "[...] a grande maioria dos trabalhos enfatiza a impossibilidade de narrar o horror e de representar a tragedia no campo de batalha" (Campos, 2008, p. 2). Esse horror e tal tragedia parecem, para aqueles que se propoem a revisita-los, tao impossiveis de serem narrados justamente porque, dentro do canone historico (no qual as nocoes de honra e orgulho patriota sao utilizadas para mascarar a crueldade e a selvageria que tanto marcam periodos de guerra), a maior parte das experiencias das trincheiras nos e trazida a partir de perspectivas romantizadas, utopicas e redondamente falaciosas. Neste sentido, e tendo definido o contexto mais amplo deste artigo, passamos agora ao seu contexto especifico, que diz respeito a esse tipo de literatura que problematiza essas perspectivas normativas acerca da guerra--propondo novos olhares sobre o sujeito e sobre como a experiencia do campo de batalha interfere em sua insercao no mundo que o cerca.

Entendemos esse tipo de reflexao estetica como extremamente pertinente, ainda mais tendo em vista que, como observa Maria Cunha, no artigo A guerra contada: estudo de narrativas jornalisticas e historicas em diario e memorias, dentro da tradicao da analise literaria, ha relativamente "[...] poucos estudos sobre a narrativa de guerra e sao ainda mais raros os trabalhos que discutem tecnicamente a narrativa oriunda da guerra" (Cunha, 2011, p. 2). Entende-se aqui que a narrativa de guerra se configura nao so por relatos de memoria daqueles soldados que passaram materialmente pela experiencia nas trincheiras, mas tambem por quaisquer escritos que se inserem em tal realidade, ainda que subjetivamente. Sendo assim, o objetivo geral da nossa analise seria nao so o de relativizar ainda mais esses escritos--ja que, como visto, eles pouco ou nada revelam acerca da experiencia do sujeito que se insere no contexto da primeira ou da segunda grande guerra--como tambem o de identificar se, e de que maneira, a escrita surge como capaz de autorizar que o autor passe de sujeito passivo para ativo frente a narrativa hegemonica. Nesse sentido, entendemos que aquele que coloca em palavras a experiencia da guerra, seja atraves de diarios, poemas, romances ou memorias, se reconstroi narrativamente, ultrapassando as fronteiras entre escritor e personagem e se configurando nao apenas como aquele que escreve, mas tambem como aquele que reescreve a si mesmo.

Logo, ao se reconstruir enquanto personagem, aquele que escreve, consequentemente, tambem se reconstroi enquanto sujeito. Personagem e sujeito, logo, emergem como complementares; ambos sao subjetivos e ambos passam, atraves da escrita, pela ressignificacao.

Assim, o personagem nao e um dado a priori, mas sim uma construcao temporal, uma forma vazia que vai pouco a pouco sendo preenchida por diferentes predicados (Lima & Santiago, 2012, p. 98).

Novamente surge essa inversao de significados, na qual aquele que e construido tambem constroi, na qual aquele que assujeita o outro--neste caso, o seu eu literario--tambem e por ele assujeitado; atraves da descricao e ressignificacao de suas memorias na escrita narrativa "[...] o autor se reduz ao lugar de retorno do discurso que vem do Outro, como uma mensagem sempre invertida" (Lima & Santiago, 2012, p. 99). No caso da primeira guerra mundial, a nossa analise se dirige ao romance, Nada de Novo no Front (2004), de Erich Remarque, ex-combatente no front alemao. Na analise do romance originalmente escrito em 1929 feita por Carlos Paixao, em seu artigo No front, na fuga, no paraiso: visoes de Erich Maria Remarque sobre a Era da Catastrofe (2011), este argumenta que essa "[...] obra de Erich Maria Remarque se configura como uma bandeira frente ao belicismo, autoritarismo e perseguicoes de toda especie" (Paixao, 2011, p. 9). Sendo um dos primeiros autores a propor um novo olhar sobre a experiencia alema durante a primeira guerra--fato que lhe custou muita censura e recriminacao--em seu romance Remarque deixa de lado a honra e o patriotismo associados ao campo de batalha para trazer a tona "[...] a pequenez e a animalizacao do homem frente a barbarie da guerra, com suas perdas, traumas e frustracoes" (Paixao, 2011, p. 10).

E nesse sentido que propomos um paralelo entre o romance Nada de Novo no Front (2004) e talvez um dos diarios que acabou por se tornar o mais mundialmente conhecido: O Diario de Anne Frank (2007), com apontamentos que datam de 1942 ate 1944. Como aponta Marta Santos, na dissertacao intitulada Um Olhar sobre O Diario de Anne Frank (2006), o diario de Anne Frank

[...] e uma obra pessoal escrita durante a Segunda Guerra Mundial, passada em Amesterdao, tendo inicio a 12 de Junho de 1942 (dia em que Anne completa 13 anos de idade) e a ultima entrada data de 1 de Agosto de 1944 (Santos, 2006, p. 21).

Se Remarque escreve apos sua participacao na primeira guerra para relatar sua experiencia e reconstruir-se frente ao sofrimento pelo qual passou ou observou dentro do campo de batalha, Anne Frank nao se viu disposta a esperar. Foi justamente durante o periodo mais dificil de sua vida, segundo ela mesma nos relata, que "[...] Anne confiou a este diario os seus pensamentos, sentimentos, ideais, gostos, rotinas e filosofias de vida no anexo secreto" (Santos, 2006, p. 23). E justamente a maneira tal qual esta confianca no corpo narrativo, nas palavras, na configuracao textual acaba por resultar na propria reinsercao, reconfiguracao e ressignificacao tanto de Anne Frank quanto de Erich Remarque enquanto sujeitos--dentro do contexto das duas guerras mundiais--que nossa analise objetiva identificar.

Discussao

Narrativa de guerra e terapia narrativa nos textos de Frank e Remarque

Em Nada de Novo no Front (2004), Erich Remarque reconta aquilo que o soldado comum alemao teria vivido no front da primeira guerra mundial a partir do olhar do personagem Paul Baumer--curiosamente, nome que o autor possuia antes de se tornar escritor, mas que, apos a guerra, decidiu abandonar. As experiencias vividas por Paul sao um espelho daquilo que teria enfrentado o proprio Remarque quando soldado, sendo que ambos passam por um processo de ressignificacao frente ao cenario do campo de batalha (na medida em que sao desafiados a aceitar a realidade da guerra como necessaria e honrosa, ainda que seus companheiros e ideais aos poucos desfalecam irremediavelmente). A vontade de conquistar o mundo, nutrida anteriormente na mente juvenil de Baumer, se converte naquela de fugir de tal mundo, ja que o amor pelo simples gesto de viver e, sistematicamente, transformado em odio, transformado na indigencia de destruir--sintomatica das funcoes de todo soldado. O inicio da guerra, para o soldado, caracteriza tambem o termino de sua vida como antes ele a conhecia.

A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos coracoes. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambicao, do progresso. Nao acreditamos mais nessas coisas; so acreditamos na guerra (Remarque, 1929, p. 76).

Nesse sentido, e interessante que se dirija um olhar mais atento ao contexto de recepcao do romance de Remarque. Como bem aponta Modris Eksteins, no artigo All Quiet on the Western Front and the Fate of a War (Eksteins, 1980), Nada de Novo no Front (Remarque, 2004) foi lancado em janeiro de 1929 e, pouco depois, alcancou um sucesso ate entao desconhecido no mercado editorial para o que era, aparentemente, nada alem do que uma simples elaboracao literaria acerca de um relato de guerra. Logo, e tendo em vista a ampla divulgacao do romance, pode-se arriscar dizer que Remarque se viu na condicao quase de fundador do genero da narrativa de guerra, sendo que, entre outras coisas, sua participacao frente a ele gerou uma inquestionavel multiplicacao e popularizacao dos livros de guerra que passaram a ser publicados massivamente quando do aparecimento da estoria de Paul Baumer. Aquele que escreve, hoje sabemos, nunca pode estar seguro de possuir total controle acerca daquilo que escreve. Dessa forma, da mesma maneira que Remarque nunca poderia imaginar as consequencias que seu romance traria frente a toda uma forma de se pensar e significar a experiencia da guerra, tambem Anne Frank muito provavelmente nunca teve ciencia das implicacoes associadas aos seus relatos aparentemente inocuos. E quando, aos 12 anos de idade, ela se refugia com a familia das tropas nazistas (tropas estas que so puderam alcancar a dimensao que tiveram, tendo em vista o patologico nacionalismo alemao que se articulou quando do termino da primeira guerra) que Anne inicia sua narrativa, logo apos ser presenteada em seu aniversario com aquele que, em pouco tempo, se converteria em seu melhor amigo durante a segunda guerra: o seu diario.

Ao longo das paginas, entretanto, escrever suas memorias passa a se materializar, para Anne, como uma forma peculiar de aliviar seu coracao de todos os pesos. Enxergando o papel como mais paciente do que qualquer pessoa--muito provavelmente porque nele ela escreve o que quer sem precisar se esconder e nenhuma recriminacao recebe em troca--e no diario que ela passa a encontrar consolo, principalmente nos dias mais dificeis, naqueles momentos onde apenas sua ressignificacao atraves da escrita poderia ajuda-la a compreender a realidade que a cercava e, por conseguinte, a compreender a si mesma. Se a experiencia de Remarque se caracteriza como insuportavel na medida em que ele se viu obrigado a entregar-se as redes de sentido do front alemao, se o seu desespero emerge principalmente do fato de que ele foi escancarado a podridao da logica da guerra, o que aos poucos desespera Anne e o seu sofrimento oculto, abafado dentro de um esconderijo improvisado. E interessante notar como a guerra e capaz de, com muito exito, eliminar qualquer possibilidade de liberdade--seja para aqueles que dela participam ativamente ou para aqueles que se escondem da mesma.

Como observa Clara Belchior, no artigo O Discurso de Anne Frank (2010), o holocausto que se instaurou na Europa durante a segunda grande guerra "[...] fez definhar muitas raizes genealogicas, principalmente de descendencia judia, que foi o alvo principal da crueldade da Guerra" (Belchior, 2010, p. 136). O conhecimento de que tal crueldade se potencializava--e de que tudo aquilo que a acompanhava vinha acontecendo consecutivamente --fez com que muitos sujeitos--principalmente judeus--se vissem obrigados a fugir com suas familias para paises vizinhos (Holanda, Italia, Inglaterra etc.); esta se configura em uma situacao bastante corrente durante a segunda guerra quando podemos observar, em distintas partes da Europa, centenas de sujeitos que abandonam a Alemanha como unica chance de assegurar sua integridade fisica e psicologica. Tais sujeitos

[...] viviam como ilegais, em esconderijos, aguardando o final da guerra, como no caso da familia Frank, que esteve por dois anos num sotao de um escritorio de amigos do pai (Belchior, 2010, p. 137).

Tao incompreensivel parece ser a logica de tal realidade (na qual cidadaos comuns se tornam, do dia para noite, inimigos do estado--sem nada terem feito para isso) quanto parece ser para Paul Baumer a logica da realidade que ele aos poucos comeca a decodificar, principalmente quando resolve caminhar ao lado do campo de prisioneiros--combatentes das tropas adversarias.

Talvez este seja o climax do romance de Remarque, pois consiste no momento em que seu alter ego abandona sua funcao passiva de soldado para refletir ativamente acerca da questionavel sistematica da guerra--ja que no trecho ele identifica como impossivel determinar o que lhe faz diferente daqueles que sao, supostamente, seus inimigos. Assim como as vidas daqueles alemaes que dividem com Baumer suas vidas, fabulas e desgracas, as vidas de seus inimigos tambem lhe parecem anonimas e sem culpa. Nesse sentido, a terrivel melancolia da vida seria devida a falta de piedade daqueles que tracaram essas linhas entre oponentes que se desconhecem; devido a voz de comando que faz de alguns sujeitos nossos amigos e que faz de outros nossos mais mortais inimigos.

Em alguma mesa, e assinado um documento, por pessoas que nenhum de nos conhece, e entao, durante anos, o nosso objetivo supremo e aquilo que, em tempos normais, e objeto da abominacao universal e da mais energica reprovacao (Remarque, 2004, p. 154).

Tal objetivo, que Baumer deixa implicito, seria o objetivo de matar, destruir, eliminar; de retirar de outros sujeitos aquele bem que nos e mais precioso: a vida. Olhando novamente para os rostos de seus inimigos, Baumer se pergunta se alguem, de fato, poderia enxergar neles algo que os tornaria, inerentemente, inimigos.

Quem ainda consegue fazer essa distincao, vendo estes rostos infantis? Apesar disso, atirariamos neles novamente e eles em nos, se estivessem livres. Fico assustado, nao posso continuar a pensar assim. E um caminho que leva ao abismo (Remarque, 2004, p. 155).

Ainda que coerente, a linha de raciocinio do soldado comeca a assusta-lo, ele sabe que esse tipo de pensamento dificulta ainda mais a sua tarefa no campo de batalha, que ja e significativamente abstrusa. Entretanto, e nessa breve reflexao que Remarque, atraves de Paul Baumer, identifica talvez sua grande motivacao para divulgar sua desconstrucao da narrativa de guerra. O personagem faz a si mesmo uma promessa: "[...] nao quero perder estes pensamentos, prometo guarda-los, conserva-los com cuidado, para quando a guerra terminar" (Remarque, 1929, p. 156). De fato, essa missao que Paul Baumer parece desejar assumir consiste na missao que Erich Remarque materialmente levou a cabo; aquilo que no romance fez o coracao do soldado palpitar e aquilo que, durante a primeira guerra, fez com que Remarque escrevesse. Segundo Matthew Bolton, no artigo Love and War in All Quiet on the Western Front and Hemingway's A Farewell to Arms (Bolton, 2011), Remarque emerge das trincheiras com uma compreensao muito mais conturbada acerca da narrativa de guerra se comparada com aquilo em que o autor acreditava antes de fazer parte do front alemao. Atraves dos documentos historicos, pode-se constatar que o escritor lutou durante praticamente toda a guerra no front ocidental, principalmente na fronteira entre Alemanha e Franca, ate que fosse ferido e enviado de volta para casa--curiosamente, exatamente como ocorre com Paul Baumer.

Os relatos de horror que caracterizam a experiencia da guerra estao presentes neste e em todos os outros publicados por Remarque, sendo que seu legado pode, com exito, destrinchar a vida do soldado comum no campo de batalha sem fazer com que sua morte significasse nada alem dela mesma, ensinando o seu leitor a deixar de ter fascinacao pela vida do soldado para passar a ter por ele, unica e simplesmente, respeito. A esperanca que tem Paul Baumer em expor a injusta condicao que lhe e imposta e que e imposta tambem aqueles que estao ao seu lado e contra ele passa a ser seu fio condutor, sua motivacao para nao enlouquecer frente a loucura com a qual o front alemao na primeira guerra o obriga a coexistir. No esconderijo de Anne Frank, um paralelo entre ambos os personagens pode ser tracado tambem na medida em que ela admite passar por uma experiencia similar quando reflete sobre a sua idealizacao dos mais distintos prospectos em meio a segunda guerra mundial. No entanto, ver-se livre das amarras da guerra parece, para Anne, cada dia mais dificil; mas talvez o que seja ainda mais interessante e o fato de que, para ela, o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo, ainda que a guerra terminasse. Isso simplesmente porque o impacto que a guerra causou nela colocou-a em um caminho sem volta, um caminho que fez com que ela, independentemente da sua idade, deixasse de enxergar nao so a possibilidade de se ressignificar como sujeito no futuro, como tambem, curiosamente, ate mesmo no passado.

Quando penso na nossa vida em casa, na escola, com todas as suas alegrias e sofrimentos, em tudo o que era 'antigamente'; tenho a sensacao de nao ter sido eu quem viveu essas coisas, mas sim uma estranha, alguem totalmente diferente (Frank, 2007, p. 90).

Sem lentes que lhe permitam enxergar nem passado nem futuro, Anne aos poucos se perde em seu presente, tendo na escrita sua unica aliada para tentar dar sentido aos seus pensamentos, pensamentos ricos em metaforas que as vezes beiram a premonicao daquilo que estava em vias de ocorrer.

Vejo-nos a nos aos oito do anexo, numa pequena, nuvem, clara e azul, no meio de outras nuvens, pesadas e escuras. O nosso lugar ainda e seguro, mas as nuvens estao a ficar cada vez mais densas e o circulo que nos separa do perigo tao proximo, vai-se apertando (Frank, 2007, p. 91).

Anne muitas vezes parecia estar ciente de que a hora chegaria, ate mesmo desesperada para que ela chegasse, ja que nao suportava mais aquele confinamento, o eterno medo que nao se concretizava: no final das contas, talvez morrer nao fosse tao pior do que temer diariamente a possibilidade da morte. E muito interessante notar nao so a riqueza das imagens que aos poucos Anne Frank se ve capaz de articular como tambem o impacto que tais imagens parecem ocasionar em sua propria condicao como sujeito naquelas quatro paredes do pequeno, mas ao mesmo tempo imenso mundo que a cerca.

No caso de Anne Frank, a nuvem e todos esses referentes simbolicos trazidos para metaforizar tal experiencia sao ferramentas que ela propoe para que possa posicionar-se frente ao mundo material atraves daquilo que e imaterial--se o fisico se provou incapaz de dar a ela as respostas, talvez seja o metafisico sua unica saida. A escrita literaria, nesse sentido, surge como fundamental, tendo em vista seu potencial em transcender o corpo objetivo em busca da subjetividade que tao pouco sentido parece fazer fora do texto, mas que dentro dele se configura como objeto de maior significancia. Seguindo esta linha de raciocinio, parece ser justamente nessa busca de significados tanto internos quanto externos que

[...] reside a profunda motivacao humana de criar criacao que nao surge apenas porque o criador o quer ou porque gosta, mas acima de tudo, porque precisa (Santos, 2006, p. 26).

Maior que o interesse literario, o homem sofre da necessidade literaria, da inerente falta pela sua reconstrucao atraves do fenomeno artistico, seja ele textual ou nao.

Como tal, ha uma necessidade e motivacao intrinseca no ato de criar que se deve muitas vezes a existencia de uma tensao psiquica que precisa de ser elaborada (Santos, 2006, p. 27).

Por meio da criacao e do desenvolvimento de seus personagens literarios, ambos, Erich Remarque e Anne Frank, se reconstroem, tambem, como sujeitos ao se reconfigurar frente a tais tensoes psiquicas citadas pela autora e que eles viveram em suas experiencias durante a primeira e a segunda guerra.

Curiosamente, e apesar de descrever sem restricoes sua experiencia no front, Paul Baumer parece estar ciente de que alcancar uma total compreensao por parte daqueles que estao prestes a entrar em contato com seus relatos seria, no minimo, impraticavel. Ao final do romance, ele reconhece para o leitor que, via de regra, suas memorias nao serao compreendidas devido a um intricado conflito de geracoes entre ele e aqueles que decodificam seus pensamentos.

Antes da nossa, cresceu uma geracao que [...] agora voltara para suas antigas colocacoes e esquecera a guerra; depois de nos, crescera uma geracao, semelhante a que fomos em outros tempos, que nos sera estranha e nos deixara de lado (Remarque, 2004, p. 229).

Ou seja, o soldado que nao venceu, mas sim foi vencido pela guerra, retorna com o sentimento de que nunca sera possivel se encaixar novamente em nenhum espaco; a primeira guerra resultou em sua incapacidade de se reinserir tanto na geracao anterior quanto na que esta por vir, pois nenhuma delas seria capaz de entender, justamente, esse periodo de transicao dentro do qual tais soldados foram obrigados a participar. Sua conclusao e macambuzia, mas bastante proxima daquilo que sentem muitos ex-combatentes quando se posicionam frente a possibilidade de retornar aquela realidade que nunca mais poderiam compreender da mesma maneira.

Seremos inuteis ate para nos mesmos. Envelheceremos, alguns se adaptarao, outros simplesmente resignar-se-ao e a maioria ficara desorientada; os anos passarao e, por fim, pereceremos todos (Remarque, 2004, p. 230).

Tudo aquilo que Paul Baumer aprendeu perde sentido e tudo aquilo que um dia ele teve interesse em aprender deixa, inexplicavelmente, de lhe parecer tao significante quanto um dia havia sido. O impacto da guerra e, portanto, inigualavel, pois ela consiste em um marco concreto que acaba por dividir epocas, povos, e ate mesmo por dividir o proprio sujeito entre aquilo que ele acredita e aquilo que passa a entender como acreditavel.

O significado da Guerra e tao marcante que historiadores como Hobsbawm e Remond consideram que foi ela que inaugurou o seculo XX, ou seja, o seculo passado deve ser entendido a partir dos temas provenientes de suas ressonancias diretas e indiretas (Paixao, 2011, p. 4).

E nao tem sido justamente assim que costumamos entender tais seculos? Como periodos e mais periodos de batalhas interminaveis e, como nos dizem os livros de historia, muitas vezes justificaveis? A guerra inaugura e afoga conceitos, assim como inaugura e afoga sujeitos; na Alemanha, ela foi capaz de fazer com que os soldados no front da primeira guerra enterrassem sua sanidade, ao mesmo tempo em que fez com que aqueles que acompanhariam Hitler na segunda articulassem sua loucura. Contra toda essa mesma loucura, Anne escreve e busca, com suas palavras, uma forma de respirar que nao seja apenas atraves da fresta de uma janela. A janela representa para Anne um martirio, uma lembranca de que a transicao que esta representa e, para ela, negada.

Estou irrequieta, ando de um quarto para o outro, ponho-me por tras da janela fechada e procuro respirar o ar de la de fora atraves das frinchas, sinto o coracao a bater como se me estivesse a pedir: satisfaz o meu desejo! (Frank, 2007, p. 119).

Respirar esse pouco ar que entra pelas frestas de uma janela fechada representa, para a menina, uma de suas poucas oportunidades de entrar em contato com o mundo, que continua a existir fora do esconderijo. Em desespero, ela tenta compreender sua angustia.

Creio que a culpa e da Primavera. Sinto-a despertar em todo o meu corpo e em toda a minha alma. Tenho de fazer esforcos para me conservar calma; sinto uma grande confusao, nao consigo ler, nem escrever, nem fazer seja o que for. So sei que tenho saudades (Frank, 2007, p. 120).

A primavera--talvez inclusive o simples fato de enxergar nas arvores a sua liberdade para se transformar, amadurecer, inovar--faz com que Anne veja, naquele mundo fora de sua janela, um espelho contrario aquilo que ela enxerga em si, dentro do sotao que compartilha com sua familia; seu desgosto, desmesurado, a impossibilita de querer fazer qualquer coisa--e somente seu diario, este reflexo dela mesma, merecedor de qualquer tipo de atencao maior--atencao que ela ja, nesse momento, nao consegue dar para ninguem mais. Pode parecer curiosa essa capacidade de relatar suas memorias em um diario, ainda que a vida se desenhe de maneira tao lugubre e funesta no seu cotidiano, mas e justamente a experiencia da escrita que auxilia Anne a encarar com menos pesar aquilo que aflige a ela e a seus familiares.

Podemos, logo, pensar em um paralelo entre o conflito de geracoes pelo qual passa Paul Baumer (que nao enxerga de que maneira aqueles que existiam antes da primeira guerra ou que existiriam apos ela poderiam compreender como viveram aqueles que participaram dela) e aquele pelo qual esta a passar Anne. A escrita de seu diario parece ser parte importante da sua propria escrita corporal como alguem que se ve na transicao entre aquilo que era e aquilo que viria a ser. E justamente em tal sentido que,

[...] nesse momento de passagem para o qual nao ha inscricao, a escrita do diario pode funcionar como possibilidade de situar essa passagem, como suporte da reconstituicao do corpo (Lima & Santiago, 2012, p. 110).

Apesar de nao haver inscricao, a escrita do diario, portanto, surge como uma oportunidade para tentar concretizar tal reconstituicao do corpo; para dar certo grau de objetividade para aquela subjetividade sintomatica da passagem me nina/mulher.

Enclausurada com sua familia em um cubiculo onde nenhuma individualidade e permitida, onde tudo e compartilhado, Anne se ve enjaulada dentro do proprio corpo de menina--corpo este prestes a atravessar um caminho que parece existir apenas do lado de fora da janela que com tanta ansia ela observa. Seu diario, sua amiga Kitty, aparece entao como uma oportunidade unica de recobrar aquilo que lhe foi tirado--de reencontrar um fio de liberdade dentro daquele antro de restricoes. Isso porque,

[...] nessa travessia, o diario permite a construcao de um percurso 'solitario', 'intimo', que leva ao reconhecimento de si mesmo como o principal personagem dessa historia. Assim, o romance, como 'escrita', e a condicao para esse percurso (Lima & Santiago, 2012, p. 111, grifo do autor).

A forca das palavras e, necessariamente, tao intensa quanto a forca das armas; entretanto, tudo o que compreende Baumer e acerca do que ele se propoe a refletir e, segundo ele, apenas compreensivel para aqueles que estao ao seu lado no front: seus amigos, ex-colegas de escola, meninos enviados a guerra em funcao de devaneios patriotas de terceiros. Depois da experiencia no front, Paul Baumer deixou de acreditar naquilo que havia convencido seus superiores, seus pais, todos aqueles que, quando crianca, lhe falavam sobre a guerra. Ele se convence de que esta certo e de que eles nao so estao errados como tambem encarregados de lhe dar respostas convenientes.

Que fariam nossos pais se um dia nos nos levantassemos e nos apresentassemos a eles, para exigir que nos prestassem contas? Que esperam de nos, se algum dia a guerra terminar? (Remarque, 2004, p. 210).

Sao perguntas para as quais, imagino, poucos de nos poderiamos dar respostas plausiveis; o soldado possui uma funcao durante a guerra, e e somente nela que ele parece ser configuravel. Ninguem se preocupa com sua vida antes ou depois do campo de batalha, afinal a logica hegemonica e a de que ele nasceu destinado a cumprir aquela funcao, o que acontece antes ou depois de ela ser cumprida pouco interessa para aqueles que a inventaram em primeiro lugar.

Durante todos estes anos, nossa unica preocupacao foi matar. Nossa primeira profissao na vida. Nosso conhecimento da vida limita-se a morte. Que se pode fazer, depois disto? Que sera de nos? (Remarque, 2004, p. 211).

Trata-se de uma pergunta que deveria ser articulada mais vezes, ainda que, para fins politicos, possa ter pouco ou nenhum fundamento para aqueles que criaram a guerra e que dela dependem para sustentar seu poder. E justamente esse tipo de pergunta retorica que fez do romance de Remarque uma das obras mais perniciosas para a visao tradicional acerca do sentimento pos-guerra de gloria nacional e orgulho patriotico. Como observaria Eksteins (1980), ao discutir a inversao de valores resultante dessa nova visao trazida por Remarque acerca da primeira guerra, o escritor foi muitas vezes compreendido como uma vivida ameaca a tudo aquilo em que acreditavam os nazistas (e em tudo aquilo que gostariam de convencer os outros alemaes).

Sendo assim, travou-se--nao so na Alemanha, mas em todas as regioes onde se dependia (ou se depende) do interesse por fazer a guerra--uma batalha politica contra nao so o legado de Remarque como tambem toda a onda de livros denominados que tratavam a guerra de maneira supostamente negativa--quando no fundo tratava-se, nada mais, do que uma maneira realista de enxerga-la. O que escreviam tais autores foi taxado de absurdidade, ainda que, na realidade, a absurdidade fosse a propria guerra e, por que nao, o proprio nascimento de nocoes questionaveis e sem o menor fundamento que advogavam a favor dela como aquelas do nazismo e do fascismo--em amplo desenvolvimento naquele momento historico apos a publicacao do romance de Remarque. O fascismo, de fato, tinha como maxima basilar a glorificacao da experiencia no front--algo completamente desmitificado por Remarque em sua visao crua acerca de tal experiencia. Posteriormente, os defensores de tal pensamento enxergariam nos judeus os piores inimigos de sua (ir)racionalidade xenofobica e segregacionista; pobre desse grupo que tanto sofreu na mao dos nazistas, talvez como nenhum outro, e pobre daquelas familias que, como a de Anne Frank, precisou se alojar nos mais inospitos recintos para retardar sua inexoravel morte e a daqueles que estimavam. Entretanto, a mesma esperanca que Anne compartilha com sua amiga Kitty--pseudonimo de seu diario e extensao de si mesma--ao olhar pela janela e, de modo quimerico, imaginar toda a suposta magnificencia e opulencia atmosferica que ali se multiplica e que por ela espera naquele mundo externo ao seu, e tambem evidenciada quando esta reflete acerca da guerra e de como se daria a sua resolucao.

Em um dos seus dialogos finais com o diario, Anne defende assertivamente que, apesar de tudo o que vinha acontecendo, ainda

[...] ha de chegar o dia em que esta guerra medonha acabara, ha de chegar o dia em que tambem nos voltaremos a ser gente como os outros e nao apenas judeus (Frank, 2007, p. 159).

Aqui ela parece estar completamente ciente do constante fardo--fardo este que ela se via obrigada a carregar junto com seus familiares, amigos e conhecidos (mortos ou ainda vivos)--que pesava em suas costas simplesmente pelo fato aparentemente abnoxio, de ser judia. Ela sabia que ser judia era uma condicao que, por definicao, nao a tornava pior que ninguem, uma condicao que nao a predispunha a fazer nada que justificasse toda aquela perseguicao. Mas essa nostalgia por aquele tempo no qual ainda se podia ser gente como todos os outros, se aos poucos traz amargor para sua jovem experiencia de mundo, tambem a faz questionar com veemencia esse sofisma que acompanhava o pensamento nazista. Assim como parece ter feito Remarque ao conceber uma segunda chance aquele seu alter ego, Paul Baumer, de retextualizar sua experiencia durante a primeira guerra, foi tambem Anne Frank aos poucos se acostumando a utilizar sua escrita como uma maneira de colocar em palavras nao apenas suas mais obumbradas consternacoes, mas tambem seus mais ingentes adagios. Nesse sentido, o texto sobressai como uma extensao do sujeito, uma forma de exprimir em palavras os mais opostos sentimentos, aquilo que so um momento de pura reflexao e reorganizacao atraves da escrita seria capaz de proporcionar.

No caso de Anne Frank, principalmente, parece, portanto, claro que ela encontra justamente neste processo de dar corpo aquilo que sentia por meio das palavras colocadas em seu diario

[...] uma forma de poder exprimir os seus sentimentos, ideais, valores e opinioes como se de uma melhor amiga se tratasse e acabou por utilizar a expressao escrita como uma ferramenta terapeutica, uma forma para o seu mundo interno nao se desorganizar (Santos, 2006, p. 54).

A melhor amiga nada mais e que uma extensao da propria Anne Frank, uma parte dela que so podia ser alcancada atraves da escrita, necessaria para reorganizar aquele imbroglio de pensamentos que a deixavam tao confusa. Outrossim, cabe salientar que, apesar de ela ficar triste por nao poder contar com essa amiga no mundo real, e possivel que talvez nao houvesse, naquele momento, amiga melhor do que ela mesma; afinal, e a partir do processo de tratar diretamente com tantos conflitos internos que a afligiam que Anne acaba, atraves de sua experiencia com o diario, por arrumar aquilo que havia se desarrumado, por trazer certo grau de ordem para a desordem que se agigantava dentro do complexo secreto. Pode-se, logo, entender o texto de Anne como sintomatico de alguem que busca um caminho para reparar a si mesmo atraves das palavras.

Com este caminho percorrido, podemos inferir, tambem, que a escrita pode ser catalisadora em contexto psicoterapeutico, principalmente em casos de sujeitos que tenham dificuldade em expressar-se falando (Santos, 2006, p. 55).

Consideracoes finais

A historia oficial e a historia do sujeito a ela sujeitado

As analises literarias do romance Nada de Novo no Front (2004), de Erich Remarque--escrito por ele logo apos o termino da primeira grande guerra--e dos relatos de Anne Frank em seu livro postumo O Diario de Anne Frank (2007)--escrito durante a segunda guerra--expoem a necessidade de se olhar com cuidado e apreco para as narrativas de guerra. Ainda que sejam dois generos distintos naquilo que concerne a seus sistemas de funcionamento tradicionais, ambos podem ser considerados, ate certo ponto, como livros de memoria tendo em vista que

[...] as memorias sao relatos que um(a) escritor(a) faz de acontecimentos fundamentados em sua vida, ou mesmo de eventos historicos dos quais participou ou foi testemunha (Cunha, 2011, p. 3).

Ambos os livros estao submetidos a interpretacao e vivencia especifica dos autores naquele dado momento, ja que

[...] essa narrativa depende muito da propria memoria que, em psicologia cognitiva, e a faculdade de conservar e lembrar estados de consciencia passados e tudo quanto se ache associado aos mesmos (Cunha, 2011, p. 4).

Para retornar a tais estados de consciencia passados, Remarque se submete a uma viagem de volta a primeira grande guerra, enquanto Anne Frank retextualiza a segunda no momento exato em que ela se da. Nesse sentido, assim como se confundem as memorias na mente de qualquer individuo, a estrutura narrativa de ambos os livros segue um padrao proprio, que nao se submete ao arcabouco literario utilizado de praxe para fundamentar o texto--status quo, conflito, climax, retorno ao status quo.

Literatura e historia: trata-se, de fato, de uma complexa dualidade, com a qual aquele que entra em contato com obras como o romance de Remarque ou as memorias de Anne Frank, sem sombra de duvidas, se ve obrigado a lidar. E importante ter em mente, entretanto, que nem toda definicao de relatos literarios e relatos historicos impoe uma supressao de sentidos entre tais categorias. Por sinal, nos parece coerente que se pense

[...] nesta relacao entre a historia e a literatura a partir de dois caminhos, que mesmo representando perspectivas diferenciadas de analise, nao se excluem e que foram fundamentais para o desenvolvimento de ambas (Paixao, 2011, p. 2).

Trata-se, portanto, nao de escolher um caminho, mas de aceitar mais de um, de enxergar uma gama de possibilidades para que se fale daquilo que e supostamente real e daquilo que e supostamente apocrifo de maneira menos ingenua e mais frutifera, como pensamos ser viavel quando se articula uma leitura das duas obras trazidas para esta analise. Grande parte dos arremates que tantos debates sobre o historico e o ficcional suscitaram foi justamente acerca da capacidade que a literatura tem de contar aquelas historias que tais documentos nunca se deram ao trabalho de discutir, historias nao de figuras politicas e sociais, mas do homem e da mulher comum; para a literatura, quem importa nao sao os rostos que figuram nas paginas dos livros de historias com suas coroas ou tropas de soldados, mas sim, majoritariamente, aqueles que falecem sem nome, orgulho ou prestigio, em valas sujas e escuras.

O que Anne Frank e Erich Remarque nos trazem da primeira e da segunda guerra nao sao as historias de Kaiser e de Hitler, e sim daqueles que sofreram, em grande parte, por culpa deles, mas para quem talvez nem um terco da atencao tenha sido direcionado. Logo, dividir o real e o imaginario acaba se tornando uma tarefa inutil, ja que ambos informam um ao outro, o que nao aconteceu poderia ter acontecido, e vice-versa.

A literatura e uma representacao do real; a partir dela se pode acessar, ler, o imaginario social. Neste caso e a literatura que fornece os indicios para pensar em como e porque as pessoas agiam desta e daquela forma (Paixao, 2011, p. 6).

A historia de Paul Baumer esta proxima da historia de centenas de soldados, e a de Anne Frank daquela de centenas de refugiados, nada mais digno de ser representado do que o sofrimento daqueles para quem sobram estatisticas, mas falta compreensao. Apesar disso, ainda que a narrativa de guerra, de fato, nos carregue para mais perto do contexto dessas duas obras, imagino ser demais imaginar que um dia seriamos capazes de entender como as pessoas agiam desta ou daquela forma quando o contexto foi capaz de produzir figuras tao asquerosas quanto aquelas que assombravam os dias e as noites de Erich Remarque e de Anne Frank. Se as narrativas-mestras tendem a desprezar as historias particulares, torna-se urgente uma busca por outros canais discursivos. A literatura, nesse sentido, nos leva para mais perto daqueles sujeitos cujas estorias talvez mais se aproximam das nossas. Afinal, as figuras mais lembradas pela historia sao precisamente aquelas cujas vidas pouco (ou nada) tem a ver com a de quem foi por ela esquecida.

Doi: 10.4025/actascihumansoc.v38i1.30900

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Santos, M. (2006). Um olhar sobre 'O Diario de Anne Frank' (Dissertacao de Mestrado). Instituto Universitario de Sao Paulo, Sao Paulo.

Received on December 2, 2015.

Accepted on April 27, 2016.

Davi Silva Goncalves * e Luisa Goncalves Santos

Universidade Federal de Santa Catarina, Rua Engenheiro Agronomico Andrei Cristian Ferreira, s/no., 88040-900, Trindade, Florianopolis, Santa Catarina, Brasil. * Autorpara correspondencia. E-mail: goncalves.davi@hotmail.com
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Author:Goncalves, Davi Silva; Santos, Luisa Goncalves
Publication:Acta Scientiarum. Human and Social Sciences (UEM)
Date:Jan 1, 2016
Words:6700
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