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Notas sobre morfologia, distribuicao geografica, historia natural e citogenetica de Cryptonanus guahybae (Didelphimorphia: Didelphidae).

Notes on morphology, geographic distribution, natural history, and citogenetics of Cryptonanus guahybae (Didelphimorphia: Didelphidae).

INTRODUCAO

O genero Cryptonanus foi originalmente estabelecido por Voss et al. (2005) a partir de taxons previamente inclusos em Gracilinanus Gardner and Creighton, 1989. Atualmente, e representado por cinco especies distribuidas do Nordeste do Brasil ate a Provincia de Buenos Aires, Argentina (Voss and Jansa, 2009) Destas, duas especies foram descritas a partir de exemplares coletados no territorio brasileiro: Cryptonanus agricolai (Moojen, 1943) com ocorrencia nos estados do Ceara (bioma Caatinga), Goias e Minas Gerais (bioma Cerrado) e Cryptonanus guahybae (Tate, 1931) com ocorrencia no estado do Rio Grande do Sul (bioma Pampas) (Fig. 1). Uma terceira especie, Cryptonanus chacoensis (Tate, 1931) foi descrita a partir de exemplares do norte da Argentina e Paraguai, sendo posteriormente registrada no norte do Pantanal, Centro-Oeste do Brasil (Rossi et al., 2006). Gardner (2008) tambem aponta o registro de C. chacoensis para o Rio Grande do Sul, com base em cranios de egagropilas coletados no municipio de Bage e previamente identificados como Gracilinanus agilis por Gonzalez et al. (1999).

Diferencas anatomicas entre os especimes de Gracilinanus (stricto sensu) e aqueles alocados no genero Cryptonanus foram apresentadas por Voss et al. (2005). Estes autores apontam uma maior frequencia de ocorrencia do foramen oval secundario, do processo rostral e das fenestras ou vacuidades maxilares em Gracilinanus. Ja em Cryptonanus, observaram uma maior frequencia de ocorrencia de cuspides acessorias nos caninos superiores e o terceiro pre-molar superior mais alto do que o segundo premolar superior (Voss et al., 2005: Table 3). Quanto aos aspectos ecologicos, informacoes disponiveis sobre os habitats de coleta de alguns exemplares de Cryptonanus indicam sua ocorrencia em areas abertas, como areas de savanas, interior e borda de areas alagaveis e formacoes arbustivas em meio a campos inundaveis. Sobre estes exemplares tambem constam informacoes sobre capturas somente em estrato terrestre (Voss et al., 2005).

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Informacoes sobre os marsupiais sao escassas no Estado do Rio Grande do Sul (Vieira e Iob, 2003). Neste estado registra-se a ocorrencia de 14 especies de marsupiais didelfideos (Silva, 1994; Vieira e Iob, 2003; Voss et al., 2005; Gardner, 2008; Rossi et al., 2010), sendo que informacoes pontuais podem ser encontradas em levantamentos regionais (e.g. Voss, 1973; Avila-Pires, 1994; Wallauer e Albuquerque, 1986; Kasper et al., 2007; Santos et al., 2008). Carvalho et al. (2002) descreveram o cariotipo de 19 especies de marsupiais brasileiros, das quais cinco especies (Gracilinanus microtarsus, Micoureus paraguayanus citado como M. demerarae, Monodelphis dimidiata, Philander frenatus e Lutreolina crassicaudata) estao representadas por exemplares procedentes de nove localidades do Rio Grande do Sul.

No entanto, apesar dos esforcos ja realizados, dados a respeito da taxonomia, ecologia e biogeografia das especies de didelfideos com ocorrencia no Rio Grande do Sul continuam escassos. O presente estudo apresenta dados ineditos referentes a morfologia, citogenetica, distribuicao geografica e ocupacao de habitats de C. guahybae.

MATERIAL E METODOS

Os caracteres cranio-dentarios de 15 exemplares de C. guahybae procedentes de seis localidades do Estado do Rio Grande do Sul (RS) foram analisados, os quais se encontram tombados na colecao de mamiferos do Museu de Ciencias Naturais da Universidade Luterana do Brasil (MCNU).

Os seguintes caracteres cranio-dentarios diagnosticos de Cryptonanus (citados em Voss et al., 2005) foram analisados: 1) ocorrencia do foramen oval secundario (ver Voss e Jansa, 2003: carater 45, figura 8); 2) ocorrencia das vacuidades maxilares (perfuracoes nao vascularizadas na regiao do palato inseridas no osso maxilar entre as vacuidades maxilo-palatinas e a serie molar, em geral na altura do primeiro (M1) e segundo molares (M2) superiores, (ver Voss e Jansa, 2003: carater 40, figura 5); 3) ocorrencia de cuspides acessorias nos caninos superiores; 4) relacao entre as alturas do segundo (P2) e terceiro (P3) pre-molares superiores. Todos os especimes analisados enquadram-se na classe etaria dental 7 de Tribe (1990), apresentando P3 e M4 totalmente erupcionados, com variacoes nos desgastes de M4.

As seguintes medidas utilizadas por Voss et al. (2005) e ilustradas em Voss et al. (2004) foram analisadas: comprimento condilo-basal (CCB), medida do condilo occipital ate a extremidade anterior do pre-maxilar; largura zigomatica (LZI), medida entre a extremidade externa dos arcos zigomaticos; comprimento palatal (CPL), medido entre a extremidade anterior do pre-maxilar e o torus pos-palatino; largura palatal (LPL), medida entre as margens labiais das coroas do M4 direito e esquerdo; distancia minima interorbital (DMI), medida entre o ponto mais estreito entre as orbitas, sobre os frontais; largura nasal (LN), medida entre as suturas triplas dos ossos nasal, maxilar e frontal em cada lado do cranio; comprimento da serie dentaria maxilar (CMA), medida entre a margem anterior do canino e a margem posterior do M4; comprimento da serie molar (CMO), medida entre a margem anterior do M1 e a margem posterior do M4; comprimento M1-M3 (M1-M3), medida entre a margem anterior do M1 e margem posterior do M3. As medidas foram expressas em mm e realizadas com auxilio de paquimetro digital com precisao de 0.01 mm.

Medidas de morfologia externa, como comprimento da cabeca-corpo (CC), comprimento da cauda (CA), tamanho da orelha (O) e comprimento do pe com unha (P) expressas em mm; e massa corporea (M) expressa em gramas, foram extraidas apenas dos exemplares procedentes do municipio de Rio Grande (localidade 6--8 especimes), assim como informacoes sobre habitat e estrato da captura. Nessa localidade, as amostragens foram realizadas sazonalmente em sessoes de captura com duracao de 14 noites consecutivas em dois fragmentos florestais. Noventa armadilhas metalicas dos tipos trampa e isca suspensa de quatro diferentes tamanhos (medio: 78 x 32 x 36 cm e 43 x 21 x 20 cm; pequeno: 32 x 15 x 15 cm e 30 x 11 x 10 cm) foram instaladas ao longo de um transecto linear de 900m de extensao, distantes dez metros entre si. Os transectos cobriram os biotopos de interior e borda do fragmento de mata arenosa ciliar (Waechter, 1985) e interior e clareiras do fragmento de mata palustre (Waechter, 1985). Um total de 30 armadilhas pequenas foi instalado em troncos e galhos de individuos arboreos no sub-bosque, a uma altura de 0.50 a 3.5 m. As armadilhas foram arranjadas em uma sequencia repetida de duas armadilhas pequenas (uma em solo e outra em sub-bosque) e uma media no solo. Uma linha de armadilhas de queda (pitfall traps) foi instalada no interior do fragmento de mata palustre e na borda do fragmento de mata arenosa ciliar. Cada linha constitui-se de seis baldes de 52 litros distantes 5 m entre si, conectados por uma tela plastica de 50 cm de altura e 30 m de extensao. As armadilhas de queda permaneceram abertas durante toda a sessao de capturas (14 noites consecutivas), sendo verificadas diariamente. O esforco de captura por amostragem sazonal foi de 2520 armadilhas-noite e 168 baldes-noite (1260 armadilhas-noite e 84 baldes-noite em cada fragmento), sendo o esforco de captura total 10 080 armadilhas-noite e 672 baldes-noite (5040 armadilhas-noite e 336 baldes-noite em cada fragmento. Dados cariotipicos (coloracao convencional e posicao Ag-RON) foram extraidos dos especimes MCNU1564 e MCNU1617, tambem desta localidade. Os demais exemplares foram encontrados mortos nas armadilhas, nao sendo possivel, portanto, a obtencao dos dados cariotipicos.

As preparacoes cromossomicas foram obtidas a partir da medula ossea (Ford e Hamerton, 1956). As regioes organizadoras de nucleolo (Ag-RON) foram obtidas segundo os metodos de Howell e Black (1980), com modificacoes. A classificacao cromossomica foi baseada em Levan et al. (1964) para apresentar o numero diploide (2n) e o numero fundamental (NF = numero de bracos autossomicos, como considerado por Gardner e Patton, 1976).

RESULTADOS

C. guahybae teve registro para as seguintes localidades e unidades geomorfologicas do Rio Grande do Sul: 1) Area de abrangencia da Usina Hidreletrica de Ita-UHI (27[grados]17'S -52[grados]23'W); 2) Venancio Aires (29[grados]60'S 51[grados]19'W); 3) Derrubadas (27[grados]15'S--52[grados]51'W), 4) Tapes (30[grados]40'S-51[grados]23'W); 5) Esmeralda, Estacao Ecologica (ESEC) de Aracuri, (28[grados]13'S -51[grados]09'W); 6) Rio Grande, Area de Protecao Ambiental (APA) da Lagoa Verde e em torno (32[grados]02'S-52[grados]05'W) (Tabela 1, Apendice).

Medidas cranianas e corporais sao apresentadas nas Tabelas 1 e 2. Todos os 15 exemplares analisados apresentaram P3 notavelmente mais altos do que o P2 (Tabela 1, Fig. 2). O exemplar MCNU1519 apresentou P2 ligeiramente maior do que P3 no maxilar esquerdo, o que pode ser consequencia de um processo abrasivo do P3 no maxilar esquerdo, uma vez que no maxilar direito o P2 apresentou medida inferior. A ausencia de processo rostral foi observada em todos os exemplares, exceto no MCNU1522 em decorrencia da extremidade pre-maxilar estar danificada. A ausencia do foramen oval secundario foi observada em 12 especimes, estando presente de maneira completa em MCNU1522, MCNU1567 e MCNU1717. A ausencia das fenestras ou vacuidades maxilares foi observada em 11 especimes, estando presente em MCNU1523 e MCNU1524 em apenas um lado do palato e em ambos os lados do palato em MCNU1526 e MCNU1567. Sete exemplares (MCNU1519, MCNU1521, MCNU1522, MCNU1523, MCNU1525, MCNU1566, MCNU1716) apresentaram cuspides acessorias nos caninos (ver Tabela 1).

A analise citogenetica realizada em dois especimes de C. guahybae coletados no municipio de Rio Grande em janeiro e maio de 2008 mostrou 2n = 4 e NF = 24 (Fig. 3A). O par sexual e o menor do complemento, sendo o cromossomo X um submetacentrico e o Y acrocentrico. O pares 1, 2 e 3 sao submetacentricos, o par 4 metacentrico e os pares 5 e 6 subtelocentricos. Todo o conjunto autossomico foi considerado como possuindo dois bracos. O par 6 apresentou marcacao Ag-RON nos telomeros de seus bracos curtos (Fig. 3B). Para a determinacao do cariotipo foram contadas 10 metafases para cada especime, enquanto que a marcacao Ag-RON aconteceu em aproximadamente 50% das metafases analisadas.

Os exemplares procedentes de Rio Grande (n = 8) foram coletados nas seguintes condicoes: sobre tronco de Erytrina crista-galli L.(trampa) com epifitas (altura = 1,20 m) em clareira de mata palustre com predominancia de Eryngium pandanifolium Cham. & Schltdl. (MCNU1521) (Fig. 4A); no solo (isca suspensa) na borda de clareira de mata palustre, proximo a area alagada e com predominancia de Scirpus giganteus Kunth e vegetacao arborea (MCNU1564); no solo (pitfall) no interior de mata palustre (Fig. 4B), com predominancia de vegetacao arborea e graminea (MCNU1567); no solo (isca suspensa) em interior de mata arenosa ciliar (Fig. 4C), com predominancia de Bromelia antiacantha Bert. e vegetacao arborea (MCNU1617); no solo (isca suspensa) no interior de mata arenosa ciliar proximo a arroio, com predominancia de B. antiacantha e vegetacao arborea (MCNU1716); no solo (pitfall) na borda de mata arenosa ciliar (Fig. 3D), com predominancia de E. pandanifolium e Tradescantia sp. L. (MCNU1566); sobre tronco de Erytrina crista-galli (altura = 0.5 m; trampa) na borda de mata arenosa ciliar alagada (profundidade = 0.19 m), com predominancia de E. pandanifolium e Tradescantia sp. (MCNU1616); sobre galho de E. crista-galli (trampa) com epifitas (altura = 1.55m) em borda de mata arenosa ciliar, com predominancia de E. pandanifolium e Tradescantia sp. e Hydrocotyle bonariensis Lam. (MCNU1717). Outras especies de didelfideos capturadas em simpatria foram Didelphis albiventris (n = 16) e Lutreolina crassicaudata (n = 4) na mata palustre e Didelphis albiventris (n = 18) na mata arenosa ciliar. Considerando-se as capturas de todas as especies de pequenos mamiferos registradas (didelfideos e roedores sigmodontineos), o sucesso de captura total foi 1.8% para armadilhas metalicas e 2.6% para armadilhas de queda na mata palustre e 2.8% para armadilhas metalicas e 4.1% para armadilhas de queda na mata arenosa ciliar, sendo capturado um total de 40 individuos na clareira e 49 no interior da mata palustre, 108 individuos no interior e 37 individuos na borda da mata arenosa ciliar.

[FIGURA 2 OMITIR]

[FIGURA 3 OMITIR]

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A contribuicao percentual de C. guahybae foi de 2.5% e 6.1% para a clareira e interior de mata palustre, respectivamente, e 2.7% e 5.4% para o interior e borda de mata arenosa ciliar, respectivamente.

DISCUSSAO

Os caracteres diagnosticos apresentados por Voss et al. (2005) que melhor permitiram diferenciar Cryptonanus de Gracilinanus dentre os especimes aqui analisados foram: a altura relativa entre o segundo e terceiro pre-molar superior e a ausencia de processo rostral. Segundo esses autores, a altura relativa entre o segundo e terceiro pre-molar representa o carater mais consistente para os diagnosticos genericos, uma vez que as variacoes intraespecificas sao minimas. Todos os exemplares de Gracilinanus analisados por Voss et al. (2005) para esse carater (n = 68), apresentaram alturas semelhantes entre P2 e P3 ou P2 maiores que P3, enquanto que nos especimes classificados como Cryptonanus (n = 32), P3 apresentou altura distintamente superior a P2. O processo rostral esteve presente em todos os especimes de Gracilinanus analisados por Voss et al. (2005) (n = 40), estando ausente em todos os exemplares classificados como Cryptonanus (n = 17). Dentre os especimes de C. guahybae analisados no presente estudo, todos apresentaram P3 notavelmente maiores do que P2. Todos os exemplares tambem apresentaram ausencia de processo rostral (a excecao do MCNU1522, cuja extremidade do pre-maxilar foi danificada; Tabela 1). Em comparacao, especimes de G. microtarsus procedentes do Rio Grande do Sul (MCNU1042, MCNU1385, MCNU1520, MCNU1718) apresentaram todos processo rostral, foramen oval secundario e P2 relativamente mais altos que P3, enquanto que MCNU1385 e MCNU1520 apresentaram fenestra palatal maxilar e MCNU1718 apresentou cuspides acessorias nos caninos.

Os demais caracteres diagnosticos (ausencia/ presenca de foramen oval secundario, vacuidades maxilares e cuspides acessorias nos caninos superiores) nao foram consistentes na amostra analisada por nos, visto que foram encontrados em diferentes combinacoes em especimes distintos (ver Tabela 1). O foramen oval secundario esteve presente em 76 dos 77 exemplares de Gracilinanus analisados por Voss et al. (2005), sendo a excecao um especime de G. agilis. Esse mesmo carater esteve ausente em 33 dos 35 exemplares incluidos em Cryptonanus, estando presente em dois especimes de C. agricolai. As fenestras maxilares estiveram presentes em 74 dos 76 exemplares de Gracilinanus analisados para esse carater, enquanto que apenas tres dos 34 especimes classificados como Cryptonanus apresentaram essas perfuracoes. Sete dos 53 exemplares de Gracilinanus apresentaram cuspides acessorias nos caninos, estando as mesmas ausentes em seis dos 31 exemplares classificados como Cryptonanus (Voss et al., 2005)-ou seja, foram consistentes numa amostragem incluindo mais especimes de taxons distintos. Ressalta-se que as cuspides acessorias presentes nos caninos em individuos jovens podem vir a desaparecer ao longo do desenvolvimento ontogenetico (Voss et al., 2005). Uma vez que todos os individuos analisados no presente estudo foram enquadrados na classe etaria dental 7 (Tribe, 1990), tais variacoes observadas podem representar polimorfismos das populacoes naturais de C. guahybae.

Quanto as medidas cranianas, os valores encontrados para os exemplares analisados aproximam-se dos valores apresentados por Voss et al. (2005) para a especie C. guahybae. Medidas ligeiramente superiores para a distancia minima interorbital (DMI), largura zigomatica (LZ), comprimento palatal (CP) e comprimento da serie maxilar (CSM) foram encontradas por Voss et al. (2005) para o especime BMNH 82.9.30.42, superando as registradas nos exemplares do presente trabalho. As medidas morfologicas externas do unico especime medido por Voss et al. (2005) (BMNH 82.9.30.42) situam-se dentro da amplitude das medidas encontradas para os especimes analisados no presente estudo.

Especimes de Cryptonanus analisados por D'Elia e Martinez (2006) no Uruguai foram classificados apenas com base na presenca de um a quatro dos cinco caracteres diagnosticos estabelecidos por Voss et al. (2005), nao sendo demonstrada a combinacao desses caracteres nesses exemplares. D'Elia e Martinez (2006) reconhecem apenas o status generico, nao atribuindo status especifico aos especimes analisadas, mencionando que os exemplares do Uruguai devam ser comparados a C. chacoensis do Paraguai e litoral da Argentina, e a C. guahybae, do Rio Grande do Sul. Com a ampliacao das amostras no sul do Brasil em direcao ao Uruguai criam-se condicoes para que num estudo proximo reconheca-se o status especifico das amostras procedentes do Uruguai.

Os unicos registros confirmados de C. guahybae anteriores ao presente estudo sao aqueles relativos ao holotipo e a serie de paratipos procedentes da "Ilha de Guahiba", nas proximidades de Porto Alegre (Tate, 1931) e aos dois exemplares analisados por Voss et al. (2005), procedentes de Taquara (coletado por H. von Ihering, data desconhecida), na Encosta Inferior da Serra Geral (coordenadas geograficas obtidas em Paynter e Traylor, 1991) e Sao Lourenco do Sul (coletor e data desconhecidos), na Planicie Costeira Interna (coordenadas geograficas obtidas em Paynter e Traylor, 1991). No presente estudo, a identificacao dos especimes em nivel especifico foi baseada na procedencia dos mesmos, sendo a distribuicao geografica de C. guahybae apontada por Voss et al. (2005) como restrita ao Estado do Rio Grande do Sul, e nao sendo indicada nenhuma area de simpatria entre esta e as demais especies congenericas. Nesse caso, os cranios de egagropilas procedentes do municipio de Bage assinalados como C. chacoensis por Gardner (2008) merecem atencao, uma vez que diferencas diagnosticas entre C. guahybae e C. chacoensis descritas por Voss et al. (2005) sao relativas ao numero e posicao das mamas. Futuras investigacoes, no entanto, poderao ampliar as distribuicoes geograficas conhecidas e revelar zonas de simpatria entre as especies de Cryptonanus.

O presente estudo expande os limites da distribuicao geografica de C. guahybae cerca de 250 km em direcao ao norte (Derrubadas --localidade 3) e 100 km em direcao ao sul (municipio de Rio Grande--localidade 6), alem de apontar outras quatro novas localidades com registros confirmados (Usina Hidreletrica de Ita e municipios de Tapes, Esmeralda e Venancio Aires). O registro no municipio de Derrubadas tambem expande o limite de distribuicao geografica de C. guahybae cerca de 180 km em direcao ao oeste. C. guahybae, portanto, parece ser um taxon bem distribuido no territorio riograndense, ocorrendo em diferentes fisionomias e em gradiente altitudinal que varia de 3 m na APA da Lagoa Verde ate 984 m na ESEC de Aracuri. Pode tambem ser numericamente representativo, uma vez que os 15 exemplares aqui apresentados foram identificados dentre 19 exemplares previamente classificados como Gracilinanus sp., sendo os outros quatro identificados como G. microtarsus. Nesse contexto, tambem cabe ressaltar que D'Elia e Martinez (2006) identificaram 23 exemplares do genero Cryptonanus em meio a 25 especimes anteriormente classificados como G. agilis procedentes do Uruguai.

Informacoes sobre os habitats de coleta das especies de Cryptonanus sao raras. Os poucos dados compilados por Voss et al. (2005) indicam uma predominancia de capturas em areas savanicas e em outras formacoes abertas, sendo poucos exemplares capturados em areas com predominio de formacoes florestais. Todos os registros tambem indicam capturas em estrato terrestre, sendo que quatro descricoes de habitats mencionam areas umidas tais como pantanos e campos alagados. Exemplares procedentes do municipio do Rio Grande foram coletados em formacoes florestais originais (matas de restinga), indicando a ocupacao da borda e do interior da mata arenosa ciliar e do interior e clareiras da mata palustre (Fig. 4). Nessas formacoes, o dossel apresenta uma altura media de 20 m, com arvores esparsas e presenca significativa de vegetacao graminea e herbacea cobrindo o solo. No entanto, cabe aqui ressaltar que a fisionomia da regiao sul da Planicie Costeira do Rio Grande do Sul, onde se localiza o municipio de Rio Grande, e caracterizada principalmente por formacoes campestres (Vieira, 1983), onde os fragmentos florestais estao inseridos em um mosaico de campos emersos e sistemas palustres. Os fragmentos de mata palustre e de mata ciliar onde os exemplares foram coletados sofrem alagamentos durante a estacao chuvosa (maio a novembro), sendo que nessa ocasiao um exemplar foi capturado sobre vegetacao arborea em uma secao alagada de mata ciliar (altura = 50 cm). Nessa mesma area, um segundo exemplar foi coletado em arvore (altura = 1.55 m) apos o periodo de alagamento, enquanto que um terceiro exemplar foi capturado em arvore (altura = 1.20 m) na clareira da mata palustre durante a estacao seca. Esses dados indicam a utilizacao do sub-bosque pela especie mesmo durante a estacao seca, periodo em que o solo nao se encontra alagado, o que sugere que este taxon utiliza o ambiente de um modo mais abrangente do que se acreditava.

Os especimes analisados sob o enfoque citogenetico possuem um cariotipo similar aquele apresentado por Carvalho et al. (2002) para exemplares classificados como G. microtarsus. Os especimes analisados por Carvalho e colaboradores foram coletados em tres localidades do Rio Grande do Sul: Tainhas, Charqueadas e Mostardas e compartilham com os especimes deste estudo, o mesmo 2n, NF, padrao de coloracao Ag-RON e tambem a morfologia dos cromossomos sexuais. O cariotipo de G. microtarsus coletado no estado de Sao Paulo (Pereira et al., 2008), diverge consideravelmente do cariotipo de C. guahybae aqui analisados. Embora G. microtarsus apresente o mesmo 2n e NF de C. guahybae, o seu par cromossomico numero 4 e um submetacentrico (metacentrico em C. guahybae), os seus cromossomos 5 e 6 apresentam um centromero menos terminal do que aqueles de C. guahybae e o seu cromossomo X e metacentrico (submetacentrico em C. guahybae). Essas diferencas citogeneticas corroboram a hipotese de que C. guahybae apresenta, considerando-se os dados disponiveis ate o momento, uma distribuicao exclusiva ao Rio Grande do Sul e que se trata de um taxon diferente de G. microtarsus. Considerando-se a descricao do cariotipo apresentada por Carvalho et al. (2002) e as localidades de procedencia, consideramos que os exemplares analisados por esses autores sejam representantes de C. guahybae.

Utilizamos nesse artigo informacoes citogeneticas e caracteres cranio-dentarios qualitativos e quantitativos com o objetivo de identificar especimes de um genero re centemente proposto por Voss et al. (2005), usando amostras da especie C. guahybae, o que resultou na expansao dos limites de sua area de distribuicao. Alem disso, relatamos os ambientes de captura de alguns exemplares, contribuindo com dados a respeito da ecologia de uma especie que e conhecida de modo incipiente. Assumimos uma posicao mais conservadora com relacao a identificacao de Cryptonanus e na sua distincao em relacao ao genero Gracilinanus, sendo classificados como Cryptonanus apenas especimes onde verificamos a ausencia do processo rostral combinado a maior altura do P3 em relacao ao P2, entendendo que os outros caracteres providos por Voss et al. (2005) apresentaram-se frageis para a distincao generica na amostra aqui analisada.

APENDICE

Lista dos especimes examinados e respectivas localidades (os numeros entre parenteses correspondem as localidades assinaladas na Fig. 1). Todos os especimes encontram-se tombados na colecao de mamiferos do Museu de Ciencias Naturais da Universidade Luterana do Brasil (MCNU), sendo os meios de conservacao: cranio (C), pele e cranio (P/C).

Brasil: Rio Grande do Sul: 1) Area de abrangencia da Usina Hidreletrica de Ita (MCNU1523) (P/C); 2) Venancio Aires (MCNU1522 (C), MCNU1524 (C), MCNU1525 (C)); 3) Derrubadas (MCNU1526) (C); 4) Tapes (MCNU1519) (P/C); 5) Esmeralda, Estacao Ecologica de Aracuri (MCNU1725) (C); 6) Rio Grande, Area de Protecao Ambiental da Lagoa Verde e entorno (MCNU1521 (P/C), MCNU1564 (P/C), MCNU1566 (P/C), MCNU1567 (P/C), MCNU1616 (P/C), MCNU1617 (P/C), MCNU1716 (P/C), MCNU1717 (P/C)).

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Chyntia Ibarra, Mauro C. L. de Oliveira e Rafael M. Pinheiro pelo auxilio em campo, a Renato Z. Silva pelas fotografias, a Eduardo L. Coelho pela preparacao dos exemplares e elaboracao do mapa, a Yuri L. R. Leite pelo fornecimento de bibliografia, a CAPES pela concessao de bolsa ao primeiro autor e a ICMBIO pela licenca de coleta e captura concedida (processo no. 325-1).

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Fernando M. Quintela (1), Mauricio B. Santos (2), Adriana Gava (2) e Alexandre U. Christoff (3)

(1) Programa de Pos-graduacao em Biologia de Ambientes Aquaticos Continentais, Universidade Federal do Rio Grande, Av. Italia km 8, Caixa Postal 474, CEP 96201-900, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil [Correspondencia: Fernando M. Quintela <fmquintela@yahoo.com.br>]. (2) Laboratorio de Genetica, Instituto de Ciencias Biologicas, Universidade Federal do Rio Grande, Avenida Italia km 8, Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil. (3) Departamento de Biologia, Museu de Ciencias Naturais, Universidade Luterana do Brasil--Ulbra, Av. Farroupilha 8001, CEP 92420-280, Canoas, Rio Grande do Sul, Brasil.

Recibido 17 mayo 2010. Aceptado 31 enero 2011. Editor asociado: D Flores
Tabela 1

Caracteres analisados dos especimes adultos (classe etaria
dental 7) de Cryptonanus guahybae procedentes do estado do
Rio Grande do Sul, sendo: (+) carater presente, (-) carater
ausente, (?) caracter indeterminado, (M) macho, (F) femea,
(P2e) segundo pre-molar superior esquerdo, (P3e) terceiro
pre-molar superior esquerdo, (P2d) segundo pre-molar
superior direito e (P3d) terceiro pre-molar superior direito.

Especime   Sexo    Procedencia     2o foramen   Processo
                                     ovale      rostral

MCNU1519    F         Tapes            -           -
MCNU1521    M       Rio Grande         -           -
MCNU1522    ?     Venancio Aires       +           ?
MCNU1523    F        UHE Ita           -           -
MCNU1524    ?     Venancio Aires       -           -
MCNU1525    ?     Venancio Aires       -           -
MCNU1526    ?       Derrubadas         -           -
MCNU1564    M       Rio Grande         -           -
MCNU1566    F       Rio Grande         -           -
MCNU1567    M       Rio Grande         +           -
MCNU1616    M       Rio Grande         -           -
MCNU1617    M       Rio Grande         -           -
MCNU1717    M       Rio Grande         +           -
MCNU1716    F       Rio Grande         -           -
MCNU1725    ?       Esmeralda          -           -

Especime   Fenestra   Cuspide    P3d > P2d   P3e > P2e
           palatal     canino
           maxilar

MCNU1519      -          +           +           -
MCNU1521      -          +           +           +
MCNU1522      -          +           +           +
MCNU1523      +          +           +           +
MCNU1524      +          -           +           +
MCNU1525      -          +           +           +
MCNU1526      +          -           +           +
MCNU1564      -          -           +           +
MCNU1566      -          +           +           +
MCNU1567      +          -           +           +
MCNU1616      -          -           +           +
MCNU1617      -          -           +           +
MCNU1717      -          -           +           +
MCNU1716      -          +           +           +
MCNU1725      -          -           +           +

Tabela 2

Medidas cranianas e externas (mm) e massa (g) dos especimes de
Cryptonanus guahybae (classe etaria dental 7) procedentes do Estado
do Rio Grande do Sul, Brasil.

Especime   Sexo    CCB     LZ      CPL     LP    DMI     LN     CMA

MCNU1519    F     26.35   14.48   13.94   8.41   4.89   3.34   9.58
MCNU1521    M     27.38   14.49   14.79   8.30   4.74   3.51   10.03
MCNU1522    ?     25.33   14.05   13.42   8.25   4.54   3.04   9.70
MCNU1523    F     26.31   15.06   13.88   8.02   4.63   2.78   9.36
MCNU1524    ?     24.64   13.97   13.57   8.36   4.63   2.86   9.63
MCNU1525    ?     26.07   14.24   13.92   8.27   4.55   2.85   9.73
MCNU1526    ?     26.47   14.07   14.44   7.42   4.41   2.96   9.72
MCNU1564    M     23.60   12.17   12.92   7.42   4.29   2.83   9.34
MCNU1566    F      --     12.83   12.97   8.26   4.51   2.23   9.38
MCNU1567    M     24.81   13.50   13.62   8.02   4.64   3.12   9.38
MCNU1616    M     25.48   13.34   13.85   7.96   4.70   3.38   9.67
MCNU1617    M     25.40   13.55   13.51   7.90   4.56   3.10   9.61
MCNU1716    F     25.25   14.25   13.57   8.19   4.63   3.13   9.46
MCNU1717    M     26.63   14.75   14.22   8.27   4.82   3.41   9.78
MCNU1725    ?     24.57    --     13.31   7.58   4.28   2.66   9.64

Especime   CMO    M1-M3    CC       CA               P     M

MCNU1519   5.22   4.51     --       --      --      --     --
MCNU1521   5.07   4.24    72.51   118.42   16.72   16.61   14
MCNU1522   5.17   4.42     --       --      --      --     --
MCNU1523   5.05   4.12     --       --      --      --     --
MCNU1524   5.34   4.56     --       --      --      --     --
MCNU1525   5.32   4.40     --       --      --      --     --
MCNU1526   5.25   4.62     --       --      --      --     --
MCNU1564   5.07   4.46    71.65   95.98    14.03   13.01   17
MCNU1566   5.21   4.45    82.47   101.09   14.06   14.57   14
MCNU1567   5.01   4.36    83.68   110.57   14.63   16.40   15
MCNU1616   5.15   4.79    88.07   119.55   16.15   16.71   22
MCNU1617   5.33   4.50    88.15   118.11   17.12   15.35   19
MCNU1716   5.14   4.51    91.28   111.77   16.99   15.33   18
MCNU1717   5.30   4.50    93.18   117.20   16.62   15.38   25
MCNU1725   5.23   4.44     --       --      --      --     --
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Title Annotation:Texto en Portuguese
Author:M. Quintela, Fernando; B. Santos, Mauricio; Gava, Adriana; U. Christoff, Alexandre
Publication:Mastozoologia Neotropical
Date:Dec 1, 2010
Words:5788
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