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North Africa in antiquity: the Numidian Berber kings and their monetary iconography/ Norte da Africa na antiguidade os reis berberes numidas e suas iconografias monetarias.

Introducao

O Norte da Africa durante a Antiguidade e a questao dos povos berberes Norte da Africa representa um rico campo de estudos para as Ciencias Humanas, tendo sido, ao longo de varios milenios, objeto de inumeras transformacoes culturais impostas por mudancas historicas, ou seja, pela acao do homem. Apesar de fazer parte do continente africano, pode-se considera-lo, geograficamente, uma "ilha", pois se encontra separado da Europa pelo mar e do resto da Africa pelo deserto. (1) As pesquisas arqueologicas ha muito estabeleceram que desde os periodos mais remotos houve uma serie de importantes contatos com o Oriente, muito mais do que com a Africa central. Igualmente, o material arqueologico encontrado em varios sitios norte-africanos atesta uma serie de contatos com a Peninsula Iberica em particular, mas tambem com a regiao mediterranica central. (2)

Durante a chamada Antiguidade classica, a regiao foi colonizada primeiro pelos fenicios e depois pelos cartagineses, que estabeleceram um vinculo cultural permanente com os povos autoctones desta regiao, os chamados berberes. (3) No entanto, gregos e, principalmente, romanos, tambem ali aportaram. De fato, durante o Imperio Romano, todo o Norte da Africa, com excecao do Egito, o qual representava uma unidade imperial a parte, foi transformado em provincias especificas.

O processo de exploracao estrangeira do Norte da Africa nao se restringe ao periodo antigo. Em seguida aos romanos, atesta-se a presenca vandala e, na sequencia, islamica, da regiao. No periodo moderno, temos, por fim, a colonizacao, marcada por momentos de intensa violencia, dos europeus, especialmente franceses e italianos.

Neste contexto, os berberes perderam espaco e presenca politica. Historiograficamente, sua existencia terminou pautada e analisada a partir da perspectiva do outro, do estrangeiro. No Maghreb, o processo de independencia frente o jugo europeu, que levou a profundas rupturas, gerou uma reconstrucao das identidades nacionais. O passado islamico foi inicialmente sobrevalorizado, especialmente em relacao ao passado da Antiguidade classica.

Inseridos neste contexto, os berberes tambem ganharam voz, especialmente apos a chamada "primavera berbere", movimento que surge na Argelia, na decada de 70, alastra-se pela Franca, e prega a valorizacao da cultura berbere, de maneira geral, e particularmente das linguas e da poesia, lutando, inclusive, pela inclusao destas no quadro do ensino escolar argelino.

Entendemos que a determinacao da identidade etnica de um povo e uma criacao politicosocial, ativada e estruturada atraves de estrategias discursivas dentro do proprio grupo (Hall 1997: 41), ou seja, trata-se de uma construcao ditada pelas circunstancias historicas, de dificil percepcao na cultura material. Entretanto, o pesquisador que lida com o Norte da Africa encontra-se absolutamente familiarizado com a existencia de um grupo social especifico, os ja citados berberes, identificados por meio de aspectos culturais, desde o periodo proto-historico, isto e, desde o inicio da frequencia fenicia na costa maghrebina a partir dos seculos X-IX a.C..

Durante o protetorado frances na Argelia, a arqueologia preocupou-se, principalmente, com a redescoberta do passado romano do Norte da Africa. Entretanto, alguns pesquisadores franceses e franco-argelinos, como Gabriel Camps (1960, 1961, 1973, 1980, entre outros), Stephane Gsell (1927) e Jehan Desanges (1962, 1983) trabalharam intensamente na recuperacao da historia berbere. Ainda assim, estes povos nao possuiam a primazia nas pesquisas historiograficas que hoje em dia possuem.

Atualmente, a populacao berbere e minoria no Maghreb, mas a area onde a lingua berbere e falada, por outro lado, e imensa, o que pode ser considerado como indicador do tamanho original da populacao (Mapa 1). Deriva deste traco cultural especifico a definicao do povo berbere contemporaneo. Isto e, berberes sao identificados, principalmente, enquanto povos falando linguas berberes (Brett & Fentress 1996: 5). Acredita-se que os primeiros proto-berberes tenham surgido no Neolitico, da fusao de tres culturas pre-historicas originarias da propria Africa e do Oriente: os ibero-maurusienses, os capsienses e os neoliticos (Desanges 1983: 429430). Por outro lado, vestigios de uma linguagem comum nao sao inexistentes. A lingua libica, como e denominada a lingua berbere da Antiguidade, chamada de "escrita libico-berbere", referese a um sistema de escrita encontrado em inumeros documentos no Norte da Africa, no Saara e nas Ilhas Canarias. Os linguistas sao unanimes quanto a sua unidade original, depois fragmentada em alfabetos diferentes, mas correlatos, no periodo historico (epoca da colonizacao cartaginesa, isto e, a partir do seculo V a.C.) e que pertenceriam a grupos indigenas especificos (Galand 1989: 69).

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Conforme visto a nota 3, o termo berbere, por sua conta, nao e autoctone. Mesmo atualmente os povos berberes possuem outra auto-denominacao dialetal: tamazight, para a lingua, e imazighen, para o povo a utiliza-la. Este termo seria derivado da palavra amazigh, aparentemente o nome utilizado pelos proprios berberes como designacao etnica de seus grupos indigenas na Antiguidade. Este surge em inscricoes libicas na forma MSK e em inscricoes romanas nas formas Mazic, Masik, Mazix e Mazica (Gsell 1927, vol.V: 116; Camps 1960: 27).

Temos estabelecido, assim, a existencia de uma populacao autoctone norte-africana, para a qual a historiografia moderna adotou o nome berbere apesar de este nao ser o seu nome original. Mas como mencionamos no inicio de nossa introducao, o povo berbere nao se desenvolveu em um vacuo, sua historia necessita ser analisada dentro de um contexto historico maior, norte-africano. Ou seja, com relacao a Antiguidade, primeiro tendo-se em mente os contatos com a Bacia Mediterranica, depois em relacao aos colonizadores feniciocartagineses, e, por fim, aos romanos. No entanto, esta mesma necessidade basica originou duas distorcoes; primeiro, que a Historia do Norte da Africa tivesse a tendencia de ser uma historia a relatar os eventos de seus conquistadores; segundo, que os berberes tenham sido tratados quase como povos ahistoricos, sem historia.

Neste sentido, um grande empecilho e sem duvida a escassez de documentacao direta. A historia e a organizacao social dos berberes na proto-historia e praticamente desconhecida. Os dados que possuimos sobre eles sao, na sua imensa maioria, de ordem material e, mais especificamente, relacionados a esfera excepcional da morte. Ou seja, possuimos um quadro razoavelmente completo dos tipos de tumulos e areas de enterramento desses povos (Camps 1961). No entanto, as formas de ocupacao espacial e a cultura material a elas relacionadas ainda nao foram estudadas de maneira a formar um corpus documental consistente.

Sua lingua, a libica, so ganhou um formato escrito em torno do seculo IV a.C., ou seja, ja no periodo historico, apos contatos mais extensos com os fenicio-cartagineses e com a lingua destes, o punico.

Possuimos, por outro lado, relativamente poucos textos libicos da Berberia. A grande maioria deles sao inscricoes de carater religioso, bilingues com o punico ou neo-punico (forma cursiva do punico) (Galand 1989: 70). A lingua libica ainda nao foi totalmente decifrada.

As fontes escritas mais prolixas sobre os autoctones continuam sendo os textos de autores gregos como Herodoto, Diodoro da Sicilia, Ptolomeu e Polibio, e romanos como Salustio, Tito-Livio, Plinio, o Velho, Tacito e Apiano, entre outros. Deste modo, no que toca a documentacao textual o que possuimos sao informacoes por vezes anacronicas e parciais.

Assim, a Arqueologia e a Etnologia tem sido as duas ciencias que mais se aprofundaram no conhecimento acerca dos berberes. O paralelo etnologico tem sido muito utilizado e e, de fato, uma abordagem extremamente util. Mas e preciso escapar da crenca na "permanencia berbere", ideario que alcancou grande influencia na historiografia moderna (Brett & Fentress 1996: 6-7).

A ideia da permanencia berbere nasceu nao so da recorrencia, em relatos distribuidos ao longo do tempo, de certos temas que foram caracterizados como tipicamente berberes-- familia, cla, tribo, ausencia de estado, apego a liberdade, entre outros--, como tambem foi sustentada pelos proprios dados arqueologicos. Como mencionado, o material de estudo mais relevante da Arqueologia proto-historica no Maghreb sao os monumentos funerarios. Isto porque os locais de moradia protohistoricos ou sao desconhecidos, ou sao de dificil identificacao no meio de ruinas sem caracteristicas distintivas, de todas as epocas (de epoca romana ate muitos seculos anteriores), que, por comodidade, sao designadas como "ruinas berberes" (Camps 1960: 90-96). Gabriel Camps (idem: 96) chama de "permanencia berbere" justamente o fato de as tecnicas de construcao e a cultura material cotidiana, no grande espectro, nao terem se modificado significativamente ao longo dos seculos, o que dificultaria a diferenciacao por periodos.

A homogeneidade no tempo de parte significativa da documentacao material berbere levou, portanto, a crenca de que as instituicoes politicas, economicas e sociais tivessem igualmente permanecido homogeneas. Deste modo, um estudo etnografico acerca de uma populacao berbere da atualidade poderia ser transplantado para a Antiguidade. A circularidade desta proposta e evidente: se procurarmos por berberes, durante o periodo romano por exemplo, apenas em vilarejos nas montanhas, que e onde eles estao ainda hoje, sera facil, mas dificilmente legitimo, demonstrar que os berberes da Antiguidade eram identicos aos habitantes modernos dos Montes Aures ou da Kabilia.

No entanto, o cuidado no trato dos dados etnograficos, evitando-se a transposicao pura e simples, principalmente geografica, dos berberes medievais e modernos para a Antiguidade permite que as pesquisas etnologicas sejam de grande valia. Isto porque os berberes podem ser estudados a partir da chamada longa duracao, da Historia lentamente ritmada (Whittaker 1993 (1978): 331).

Na esteira dessa proposta, os berberes de todos os tempos sao mormente identificados como uma sociedade tribal, definicao que a Etnologia comprova. Com relacao a Antiguidade, entretanto, este dado vem notadamente das fontes textuais, onde as "tribos", isto e, os grupos indigenas, sao apresentados de forma antinomica, isto e, ou sao nomades ou sao sedentarios.

Ja a partir da IIa Guerra Punica, os grupos indigenas berberes aparecem mencionados nas fontes enquanto entidades historicas: Plinio afirma que 463 desses grupos juraram fidelidade a Roma (H. N. 5, 1). Baseados nos poucos dados socio-politicos que os textos gregos e latinos nos fornecem a respeito dos berberes, e aliando estes dados aos estudos etnograficos mencionados acima, ha uma forte tendencia na atualidade em visualizar os berberes enquanto organizados em grupos clanicos agnaticios, isto e, que descendem de linhagem masculina, transmitida de varao a varao (Whittaker 1993 (1978): 336). Vilarejos seriam compostos por estes grupos agnaticios, de familias extensas subdivididas em clas. A tendencia destes clas em entrar em desacordo impediria a formacao de unidades espaciais muito grandes, restringindoos a agrupamentos menores, vilarejos. A propria organizacao destes vilarejos seria dificil em razao desta falta de uniao (Brett & Fentress 1996: 33).

Entre os seculos IV e III a.C., as fontes textuais e parte da cultura material, notadamente no campo da numismatica, apontam para uma profunda mudanca no modo de viver berbere. Neste periodo, justamente, temos o inicio dos embates entre punicos e gregos na Bacia do Mediterraneo setentrional e tambem no Norte da Africa (guerra contra Agatocles, tirano de Siracusa), e das guerras com os romanos, as chamadas Guerras Punicas. Para esse periodo, portanto, a documentacao textual e material da conta da formacao de reinos proprios entre os berberes. Estes reinos teriam sido baseados em coligacoes de varios grupos indigenas, em uma dada area, sob a lideranca de um grupo agnaticio especifico, pertencente a um dos grupos indigenas da coligacao (Camps 1960; Desanges 1980; Fentress 1982).

Assim, tres linhagens sao tracadas: a dos mouros na Berberia Ocidental (atual Marrocos e oeste da Argelia) e parte ocidental da Berberia Central (Argelia); a dos masesilos na Berberia Central (Argelia) e a dos massilos nas Berberias Central e Oriental ate a fronteira com Cartago primeiro e depois com a provincia romana Africa (leste da Argelia e oeste da Tunisia). Esta ultima dinastia, a dos massilos, e a de Massinissa, o mais renomado dos reis berberes. Teria sido a mais bem sucedida, com uma linhagem de uma unica familia agnaticia dominando o poder do seculo III a.C. ate o seculo I a.C.. Massinissa foi um grande aliado romano, responsavel direto pela derrota e destruicao de Cartago na batalha de Zama, em 202 a.C., e o formador do grande reino numida, que acabou englobando sob esta denominacao os antigos reinos masesilo e o seu proprio, o massilo. A Numidia corresponde, de maneira geral, a area destes dois reinos.

Paralelamente aos extensos relatos de autores como Tacito, Livio, Salustio e outros, a documentacao material mais importante a atestar a presenca e influencia das dinastias berberes e, conforme mencionamos acima, a cunhagem monetaria propria destes reis. As moedas dos reis berberes podem ser encontradas nao apenas ao longo de todo o Maghreb, como tambem em terras mediterranicas setentrionais, notadamente nas regioes de origem dos mercenarios dos exercitos romanos e berberes (Kormikiari 2000: 304-367). Os reis berberes sao tratados como reis aliados dos romanos e serviram de apoio militar e economico nas incursoes romanas contra Cartago no Norte da Africa, como tambem tiveram papel importante no desenrolar das guerras civis romanas que culminaram com a ascensao de Otavio no seculo I a.C.. Mas nao apenas a moeda e testemunho, no campo material, dessa presenca: varias inscricoes libicas, muitas delas bilingues, e outras latinas e gregas mencionam os reis (Camps 1960: 216; Gsell 1927, vol.VI: 130-131; Carcopino 1943: 285); encontramos, ainda, grandes monumentos funerarios, que se acredita erguidos em sua homenagem, como a Tumba da Crista e o Medracen (Coarelli & Thebert 1988). Alem disso, os textos antigos mencionam diversas capitais e cidades reais berberes, Volubilis e Banasa na Berberia Ocidental, Siga, tambem na Berberia Ocidental, Iol (Cesarea, atual Cherchel) na Berberia Central, Cirta (atual Constantina) na Berberia Oriental, entre outras. Um aspecto muito importante da ocupacao romana no Maghreb foi assinalado pelo arqueologo de Volubilis, Andre Jodin (1987: 26): "No Marrocos, cada cidade romana esta localizada sobre uma cidade punico-moura e, ate o momento, nao houve excecao para essa regra".

A Arqueologia redescobriu, no Maghreb, diversas aldeias ou vilarejos berberes antigos. Muitos destes continuaram a ser habitados no periodo romano, e mesmo mais tarde. Muitas vezes, inclusive, sao usados ate os dias atuais, pois as fontes de agua--razao primordial para a criacao do assentamento naquele local especifico--continuam ativas.

No entanto, mesmo apos a descoberta arqueologica de importantes centros urbanos punico-berberes, a maioria dos estudiosos sustenta a teoria, apenas delineada pela Arqueologia, e basicamente sustentada pelos dados textuais da Antiguidade e pelos dados da Etnologia, de que a maioria da populacao indigena continuou a habitar as aldeias, principalmente nas regioes montanhosas da Kabilia e do Aures (Berberias Oriental e Central); e do Rif, do Medio e do Alto Atlas (Berberia Ocidental) (Gsell 1927, vol. V: 251; Camps 1960; Rossetti 1960; Isserlin 1983; Smadja 1983). (4)

Um redimensionamento possivel desta teoria foi apresentado por Andre Jodin (1987: 56-63). Este arqueologo acredita ser possivel lancar a hipotese de que cada cidade interiorana da Berberia Ocidental (a colonizacao feniciopunica tendo a caracteristica de se restringir a costa), antes de ser romanizada, foi um centro nevralgico ou um oppidum de um grupo indigena berbere. Volubilis, Gilda, Sala, Banasa, entre outras, longe de terem sido cidades isoladas no meio de uma populacao estranha, autoctone, mais e menos hostil, cidades fechadas dentro de suas muralhas e sem possuirem recursos definidos, eram, para Jodin, centros politicos, economicos e religiosos de seus "Estados" respectivos, nos quais uma administracao punicizada reinava sobre uma sociedade autoctone.

O presente artigo, baseado em parte das conclusoes a que chegamos em nosso trabalho de doutoramento (Norte da Africa autoctone do seculo III ao I a.C.: as imagens monetarias reais berberes, 2000), apresenta uma analise da iconografia monetaria real berbere numida, a qual demonstra, tanto pela imagetica utilizada, quanto pelos metais e volume de emissao adotados, as relacoes ambiguas que pautaram o viver berbere frente os invasores estrangeiros, e as transformacoes socio-economicas que se processaram a partir destes contatos. (5)

A cunhagem norte-africana, excluindo a regiao de Cirene, que possui um percurso dissociado, e dividida em certos periodos chave. Entre esses momentos, cruciais para a historia do Norte da Africa na Antiguidade, os reinos indigenas emitiram as suas cunhagens. As diferentes emissoes estao ligadas umas ao primeiro periodo historico, e outras ao segundo. Essa ligacao e de cunho politico e economico e, portanto, cultural. A organizacao social berbere baseada em familias agnaticias, com chefias locais, data de muito antes da formacao dos reinos centralizados no final do seculo III a.C.. (6) Na pratica, a existencia desses reinos autenticamente berberes termina no reinado do mouro Boco II em 33 a.C., um pouco antes da ascensao ao poder do primeiro imperador romano, Augusto, e quase um seculo antes da anexacao definitiva e oficial de toda a Berberia por parte de Roma. O ultimo rei numida conhecido, Mastenissa II ou Arabion, havia sido deposto pelos romanos em 41 a.C.. De fato, entre a IIa Guerra Civil romana, em 49 a.C., e a subida efetiva ao poder de Augusto, em 27 a.C., a presenca politica das partes envolvidas nos assuntos africanos demonstra o quanto irreversivel era o caminho que ja vinha se delineando ha muitas decadas, atraves da presenca constante dos negotiatores italianos e tambem da comunidade grega na Berberia. Nossa proposta neste artigo e a de, por meio da analise iconografica dos tipos monetarios reais berberes numidas, analisar como se deu a evolucao interna das cunhagens, de um rei para o outro, e procurar o entendimento de como eles responderam a presenca cada vez mais marcante dos futuros poderosos da Berberia. Por fim, a luz dos dados que conseguimos coletar acerca da circulacao monetaria berbere, os quais apresentamos a medida que discutimos a analise dos tipos iconograficos, teceremos alguns comentarios sobre a relacao emissor e receptor.

Parte I

I. Berberia Punica

O primeiro periodo chave abarca quase tres seculos e corresponde aos inicios da monetarizacao da Berberia. As primeiras emissoes monetarias batidas em solo africano foram cunhadas, no final do seculo IV a.C., por Cartago. O mais recente artigo acerca do conjunto numerario cartagines, publicado pelo numismata Paolo Visona, que desenvolve, ha muitos anos, uma pesquisa sistematica sobre a localizacao das oficinas monetarias cartaginesas, propoe que a primeirissima cunhagem batida em solo africano seja uma emissao em bronze, extremamente difundida pelos territorios punicos da Sicilia, Sardenha e Berberia. Essas moedas trazem como tipo iconografico de anverso uma cabeca masculina enfeitada com grao de trigo e brinco (Triptolemos?), e no reverso um cavalo correndo livre (Visona 1998: 5).

Do seculo IV ate c. o inicio da IIa Guerra Punica (218-202 a.C.), apenas Cartago emite numerario na Berberia. Durante boa parte desse periodo, a capital africana instituiu um sistema monetario coeso e homogeneo por todos os seus territorios, tanto em bronze (unidades e fracoes), como em prata, ouro e eletro. No entanto, entre as duas guerras punicas (264 a.C. e 202 a.C.), padroes regionais de circulacao podem ser percebidos atraves da analise dos locais de achados monetarios. As moedas cunhadas nas oficinas espanholas, entre 237 e 206 a.C., nao sao normalmente encontradas no Norte da Africa, e muito poucas pecas cunhadas nas oficinas de Cartago, entre 238 e 220 a.C., aparecem em escavacoes ou achados esporadicos do outro lado do Mediterraneo (Visona 1998: 16).

O sistema de cunhagens adotado por Cartago a partir de c. 200 a.C. foi resultado de uma reforma monetaria, consequencia de sua derrota na IIa Guerra Punica. Cartago praticamente abandona a cunhagem em metais preciosos e passa a emitir apenas em bronze. Desse modo, sao batidas duas emissoes de c. 20 e 100 g, possivelmente representando uma unidade e um multiplo. As series mais leves trazem como tipo monetario de anverso a cabeca da divindade Core/Tanit, e no reverso um cavalo dando passo a direita. Ja nas series mais pesadas ha dois tipos de reverso: com o cavalo parado ou dando passo a direita, sempre com um disco solar, flanqueado pelo uraeus cobra. A hipotese mais trabalhada e que Cartago tenha feito uso das pecas de 100g como meio de substituicao das divisoes de prata menores que ela nao mais podia cunhar (Alexandropoulos 1989: 535).

Entre c. 200 a.C. e 146 a.C., a circulacao monetaria em Cartago estava baseada essencialmente nessas emissoes e em algumas series de bronze mais antigas que nunca sairam de circulacao (Visona 1998: 21, nota 64).

Apos 146 a.C. o numerario cartagines desaparece, em geral, da estratigrafia arqueologica, provavelmente porque foi derretido. No entanto, as ultimas emissoes cartaginesas de bronze, que discutimos acima, continuam sendo encontradas, ainda que em quantidades muito pequenas, em sitios norte-africanos, mas mormente em contexto tardio (Visona 1998: 23, nota 69; Fischer 1978: 37).

II. Berberia entre as Guerras Civis Romanas e o Principado de Augusto

O segundo periodo chave concerne a presenca dos exercitos romanos e de seus magistrados moedeiros em solo norte-africano, por ocasiao das disputas internas na Roma Republicana. Disputas, cujos combates militares foram, muitas vezes, travados em territorios estrangeiros, na Berberia, na Peninsula Iberica, no Egito.

A destruicao de Cartago e a criacao simultanea da provincia Africa em solo punico acarretaram uma mudanca decisiva na relacao entre as forcas politicas da Berberia. T. Kotula afirma que o estado cartagines havia, ja ha seculos, se tornado africano, isto e, berbere. No entanto, este estado foi, apos a destruicao da capital africana, o praedium populi Romani, o solo provincial do inimigo estrangeiro (Kotula 1976: 338). O reino numida faz, agora, fronteira com o territorio ocupado pelos romanos. Estudos recentes tem procurado demonstrar o complicado jogo politico e economico romano, a epoca dos Gracos e durante a derrocada da Republica, ao longo das acirradas disputas entre os optimates e os populares. T. Kotula defende a tese de que a Guerra de Jugurta, travada entre o autoproclamado rei numida Jugurta e Roma, teve como causa as incessantes intervencoes do poder romano nas sucessoes dinasticas berberes. Paralelamente, este interesse romano nas questoes politicas locais estava relacionado aos interesses economicos dos homens de negocio italianos, os negotiatores, atuando nas cidades fenicio/cartaginesas e berberes, incluindo nas chamadas "capitais" dos reinos, como em Cirta, a mais importante delas.

A vitoria de Mario, na Guerra de Jugurta, permitiu que o partido dos populares levasse a cabo sua politica de doacoes de terras ferteis, longe da Italia, aos veteranos. Uma serie de inscricoes africanas, encontradas em territorio numida, atesta que a lex Appuleia, de 103 a.C., que designava para cada veterano de Mario 100 iugera (c. 25 ha), utilizou terras nao pertencentes a provincia Africa, o que, na opiniao de T. Kotula significa que a Numidia estava cada vez mais submetida a Roma (Kotula 1976: 339). Essas anexacoes de terras numidas teriam sido feitas nas terras do rei Gauda. Entretanto, lembramos que a historiografia moderna nao chegou ainda a um denominador comum quanto a posse privada da terra entre os berberes. A partir dos estudos etnograficos a tendencia e acreditar-se em posse compartilhada, paralelamente a existencia de privilegios por parte do chefe, do rei (Whittaker 1993 (1978): 341). Outros pesquisadores (Gsell 1927, vol.V; Smadja 1983; Kotula 1976) defendem uma crescente privatizacao das terras por parte de uma elite berbere, que se constitui ao longo dos seculos III e II a.C. e que entra, desse modo, no mesmo ambito de atuacao das elites cartaginesas, dos libifenicios. E. Fentress acredita ainda que as populacoes numidas, tanto sedentarias quanto semi-nomades, eram contra as anexacoes de terras e as taxacoes feitas, seja pelos reis numidas, seja pelo poder romano (Fentress 1982: 333).

Acreditamos, de fato, ser mais plausivel manter a visao de uma sociedade multi-facetada: urbana ao longo do litoral mediterranico (a imensa maioria das cidades conhecidas do periodo fenicio-cartagines esta localizada ao longo da costa maritima); sedentaria e agricola para o interior; semi-nomade, principalmente em direcao a zona desertica (mas com uma grande variacao de percurso territorial, tanto na direcao norte-sul, como leste-oeste). E justamente no ambito urbano que os contatos entre autoctones e estrangeiros, notadamente os libifenicios, mas tambem iberofenicios, italianos, romanos e gregos foram mais intensos.

Os dinastas numidas da epoca (7) alinharamse com os diferentes partidos romanos em luta civil. A questao basica por detras desses apoios parece ser a da posse da terra. Gauda teria tido as terras, sobre as quais mantinha sua autoridade, confiscadas, pois conforme visto acima, o partido dos populares preconizava o uso dessas terras para Roma. Ja o partido dos optimates teria interesse em manter o status quo na Berberia, seja em razao do poder dos reis indigenas de arregimentar tropas; seja por interesses economicos--o comercio dos cereais nas maos dos negotiatores na Numidia e o comercio de produtos de luxo na Mauritania (Fentress 1982: 330). Quer tenham tido a posse real das terras ou as tenham compartilhado com os chefes menores dos vilarejos, com os membros da familia agnaticia a qual pertenciam, e/ou com as proprias populacoes numidas, acreditamos que os reis berberes efetivamente foram os mediadores entre estes agentes e o poder cartagines, primeiro, e romano, em seguida. No entanto, quando as disputas internas romanas foram transportadas para o territorio norte-africano, o interlocutor estrangeiro, com quem os reis tinham que se entender, deixa de ser claro e uno. Entra em cena o jogo politico externo, ao qual se aliam as questoes internas (tanto em relacao as populacoes das cidades, estrangeiras e locais-- incluindo os descendentes dos cartagineses, como as populacoes dos vilarejos, das planicies). Justamente acerca das questoes internas e que nossa documentacao e mais falha. A partir dos dados de circulacao que apresentamos adiante, cremos poder comprovar que a circulacao monetaria concentrou-se nas areas urbanas, litoraneas na sua maioria, e tambem nas maos dos componentes estrangeiros dos exercitos. Acreditamos que a circulacao entre os berberes ocorreu mais no nivel das chefias, e nao entre as populacoes propriamente ditas. A vitoria de Pompeu em 81 a.C. representou a sustentacao da politica dos optimates e retardou uma colonizacao romana mais acentuada no Norte da Africa, ao menos ate a vitoria, quase quarenta anos depois, de Cesar em Tapso. Nesse momento, entao, temos a anexacao definitiva das terras numidas, transformadas na provincia Africa nova. (8)

O periodo, portanto, que vai da destruicao de Cartago a anexacao da Numidia (146--46/ 41 a.C.) corresponde aos reinos de praticamente todos os reis numidas (incluindo o getulo Hiarbas), as unicas excecoes sao com relacao aos dois primeiros reis de que temos noticia, Sifax e Massinissa. E, portanto, um momento muito importante em nossa analise, principalmente porque, colocando-o em contraponto ao primeiro periodo exposto acima, percebemos que a economia monetaria da Berberia se transforma por completo. As antigas cunhagens punicas sao substituidas, com excecao dos bronzes dos reis e das excepcionais cunhagens em prata de alguns destes, pelo numerario romano (com um sistema monetario proprio e que sera copiado, posteriormente, pelos reis).

No que toca especificamente a questao da circulacao monetaria no Norte da Africa podemos dizer que apos a destruicao de Cartago, em 146 a.C., houve uma mudanca radical na circulacao de metais preciosos na Berberia. A cunhagem em ouro desapareceu e aquela em prata foi substituida pelos denarios romanos. Sabe-se que uma carga de denarios foi mandada para a Africa, oficialmente, em 111-110 e outra tambem em 82 a.C. (Amandry; Burnett & Ripolles 1988: 182).

Durante a Guerra Civil entre Cesar e Pompeu, ambas as partes cunharam moedas na Berberia. Denarios foram emitidos por Metelo Pio e Cato em 47-46 a.C. e pelo rei numida Juba I, talvez na antiga colonia fenicia de Utica, para ajudar a causa de Pompeu. Juba I tambem produziu sestercios e quinarios e sua contribuicao foi de tamanho mais que razoavel. Do outro lado, os que apoiavam Cesar tambem devem ter cunhado pecas. Bogud, rei mouro da Mauritania ocidental, o apoiou: suas moedas, apesar de produzidas em pequenas quantidades, sao denarios em todos os aspectos (metrologicos e iconograficos).

Depois da vitoria de Cesar em Tapso, a provincia romana Africa foi reorganizada, quando entao Roma se apoderou de parte da Numidia. Depois de 42 a.C., quando Q. Cornificio, governador da Africa vetus, cunhou aureos e denarios, nao se bateram mais pecas de prata no Norte da Africa, com excecao de uma pequena emissao da cidade fenicia de Leptis Magna, posterior ao ano 15 a.C. (Amandry; Burnett & Ripolles 1988: 182).

Por fim, um terceiro periodo, que acreditamos poder ser incluido como sequencia do periodo apresentado acima, pois em termos numismaticos corresponde a continuacao dos sistemas monetarios romanos, e representado pelo triunvirato de Otavio, Lepido e Marco Antonio, e culmina com a ascensao ao poder de Otavio, que assume o titulo de Augusto e se torna o primeiro imperador romano. No entanto, uma vez anexados os territorios orientais da Berberia, o unico reino berbere que sobreviveu foi o dos mouros. Dos soberanos mouros que pudemos assinalar, apenas os dois ultimos, Boco II e Bogud, cunharam numerario proprio. Este numerario e igualmente devedor, em termos ponderais, das cunhagens romanas, como mencionamos acima.

Augusto acelerou o processo de colonizacao das terras africanas. Este movimento populacional ja havia se iniciado desde a destruicao de Cartago (lembramos apenas a tentativa dos irmaos Graco em refundar Cartago, e os assentamentos de veteranos durante as Guerras Civis). Na Berberia Oriental, isto e, na provincia unificada que juntou a Africa vetus e a Africa nova, e para alem, na regiao das Sirtes (atual Libia), Augusto nao interferiu nos estatutos politicos das cidades livres, principalmente dos portos. Ja nas regioes interioranas, ele instalou veteranos da XIIIa legiao (C.I.L. VI, 36917, apud Lassere 1982: 415) em Thuburbu Minus, Thuburbi Maius, Suturnuca, Medeli, Assuras, Simithus, Thuburnica e Sicca Veneria. Outras cidades como Vaga e Cirta receberam mais colonos. Os habitantes berberes dessas regioes entravam em contato com essas novas instalacoes, principalmente nos dias de mercado, quando desciam de suas castella para se dirigir as nundinae (mercados periodicos).

Nas Berberia Ocidental e Central, regiao que ainda nao havia sido transformada em provincia romana, Augusto igualmente procedeu a instalacao de veteranos. Sao doze as colonias ali estabelecidas: 3 no oeste, com os nomes de Iulia, 9 no leste, com o nome de Iulia Augusta (Mackie 1983: 337-338).

Como salientamos acima, durante o reinado de Augusto na Berberia apenas o bronze era cunhado. E preciso lembrar, no entanto, que durante os reinos indigenas nao foram apenas os reis que emitiram numerario proprio, varias cidades fenicio-cartaginesas e berberes, igualmente o fizeram. Entretanto, trata-se de uma cunhagem com volume de emissao extremamente baixo (alguns tipos sao conhecidos por meio de exemplares unicos), de metal nao precioso, e produzida para circulacao apenas local (ao menos e o que se pode depreender a partir dos poucos dados de circulacao disponiveis) (Kormikiari 2000: 276304). Ainda assim, fazem parte, portanto, de um mesmo momento historico e se relacionam entre si. Conforme mencionamos anteriormente, o ultimo rei indigena numida conhecido, Arabion, e deposto em torno de 41 a.C.. A partir desta data, ate o principado de Augusto, somente as cidades vao manter sua producao monetaria na Numidia e na provincia Africa. No entanto, na Mauritania, alem das cidades, vao se manter as cunhagens dos dinastas mouros ate c. 33 a.C..

Antes de iniciarmos a analise das cunhagens reais propriamente ditas, gostariamos de tecer algumas consideracoes acerca das cunhagens citadinas. O primeiro dado marcante que temos e a dicotomia entre as cunhagens citadinas pre-romanas e as pos-Augusto. As diferencas nao sao apenas de ordem iconografica (ai incluindo estilo, textura de fabricacao e tipos), mas tambem no que toca aos sistemas monetarios. De maneira geral, as mesmas incertezas que possuimos com relacao ao sistema ponderal do bronze cartagines prevalecem com relacao as ditas cunhagens neo-punicas. Ja as pecas cunhadas nas colonias romanas e nas cidades elevadas a municipio por Roma seguem, de maneira geral, o sistema monetario romano, acompanhando inclusive as reformas monetarias instituidas por Augusto em c. 20 a.C..

Um outro ponto marcante diz respeito a iconografia e a epigrafia. As pecas mais antigas, da Berberia Central notadamente, parecem reproduzir um imaginario religioso de carater fortemente fenicio-punico. Constituem uma excelente fonte documental a respeito da imagetica religiosa, oferecendo uma alternativa a imensa maioria da documentacao religiosa cartaginesa que vem de contexto funerario. Por outro lado, os reversos costumam ser interpretados enquanto emblemata, isto e, apontariam as riquezas locais. Um tipo de explicacao que foi muito utlizado na interpretacao da iconografia monetaria da Grecia arcaica. No entanto, a recorrencia dos motivos (cacho de uva; grao de trigo; atum) pode ter significados mais profundos: aliancas politicas, religiosas ou economicas. No que toca a epigrafia, o neo-punico e corrente nas emissoes mais antigas, enquanto o latim torna-se regra a partir das anexacoes romanas.

A regiao de Cirta, antigo coracao massilo, e portanto, numida, parece ter se rendido a influencia da colonizacao romana de Sittius, a partir de 46 a.C., mais precisamente a presenca dos italianos. No entanto, pecas anteriores, apesar de nao poderem ser atribuidas com certeza a Cirta, possuem uma iconografia encontrada em cidades vizinhas, como Hippo Regius, que se aproxima dos tipos iconograficos numidas, notadamente a figura do cavalo a galope e dando passo. Alem disso, ha pecas que trazem as imagens de Heracles, do atum, e do javali, iconografia tambem existente em Lixus, cidade de origem fenicia localizada no extremo ocidente da Berberia (Lixus).

Por outro lado, a imagem de Livia, em algumas dessas cunhagens, tem seu papel redimencionado a partir da hipotese de essa figura ter sido reelaborada esteticamente de maneira a se enquadrar melhor na cultura religiosa local (Alexandropoulos 1987: 75). Este dado abre o precedente para a propria reanalise das imagens "tipicamente" romanas, tao frequentes nas colonias e municipios, apos a queda dos reinos numidas.

Por fim, uma interpretacao classica prega que as cunhagens citadinas, especialmente as pre-romanas, nao representaram, em termos economicos, uma efetiva insercao no mundo monetarizado da Antiguidade. Constituiram, de maneira analoga as cunhagens reais berberes, atos politicos de independencia, ja que somente estados autonomos e independentes emitiam numerario proprio (Mazard 1960: 115116). Entendemos que os argumentos a favor dessa interpretacao sao fortes. Concentram-se na pobreza numerica das emissoes e no metal utilizado (bronze na maioria das emissoes, mas o chumbo e tambem documentado). No entanto, acreditamos que possam igualmente ser a prova de uma tentativa em bloco de preenchimento tanto do vacuo monetario deixado por Cartago, quanto das novas redes de aliancas e associacoes que podem ter surgido entao. E fato que, no que toca as cunhagens citadinas, mesmo sob o Imperio, a imensa maioria do numerario era de uso cotidiano, de troco, isto e, de baixo valor. No entanto, o conhecimento deste carater local como dado de pesquisa e muito importante. A analise da iconografia e a sua contextualizacao devem levar em consideracao o raio de acao dessas cunhagens, por mais restrito que tenha sido.

Parte III--a cunhagem real

Dinastia masesila e massila: os numidas (incluindo a suposta dinastia getula) (9)

A cunhagem dos reis numidas e dividida entre as dinastias dos masesilos, dos massilos do oeste e dos massilos do leste. St. Gsell, ha oitenta anos ja havia compreendido o carater desta cunhagem: "Toda essa cunhagem dos reinos masesilo e massilo esta modelada a partir da de Cartago: o sistema metrologico parece ser o mesmo, o cavalo das moedas cartaginesas reaparece sobre as moedas numidas, as legendas sao em punico" (Gsell 1920, vol. IV: 158-159).

Veremos, no entanto, que a aproximacao com a cunhagem cartaginesa e uma conclusao correta com relacao as emissoes numidas mais antigas: de Sifax e Vermina; de Massinissa e seus sucessores, ate Jugurta e Hiempsal II. Apos o que, os elementos culturais e economicos romanos passam a, gradativamente, prevalecer. Lembramos, no entanto, que as atribuicoes a muitos dos sucessores de Massinissa sao feitas em razao de aproximacoes estilisticas com as pecas de Massinissa, pois nao possuimos legendas, mesmo abreviadas, com o nome desses reis--a escrita punica das cunhagens berberes teve como regra abreviar os nomes dos reis, entrando no campo monetario a primeira e a ultima letra. J Mazard, que depois de L. Muller e o grande nome da numismatica berbere, afirma que, tanto de maneira geral na Numismatica, quanto especificamente com relacao a cunhagem berbere que ele classificou, a atribuicao tem que ser realizada atraves de cinco coordenadas: legenda; retrato; tipo e estilo; metal e peso; e epigrafia (Mazard 1957: 154-162).

Sifax e Vermina

A primeira cunhagem que nos propomos a analisar e a do rei masesilo Sifax e a de seu filho e sucessor, Vermina. O reino de Sifax e datado do final do seculo III a.C., mais exatamente do periodo quase inteiro da IIa Guerra Punica (213-202 a.C.). Vermina, apesar de sofrer com os ataques massilos de Massinissa, teria reinado entre 202 e 192 a.C. As emissoes atribuidas a esses dinastas sao certas em razao das legendas que trazem, as quais nomeiam claramente esses reis.

As moedas de Sifax sao de bronze, ja as de Vermina sao de prata. No entanto, as de Vermina trazem apenas um tipo monetario, sem variacoes, e do qual so conhecemos tres pecas. Com excecao destas tres pecas de prata, e uma pequena serie, de estilo diferente, em prata e em ouro, que sao atribuidas tradicionalmente a Jugurta e a Hiempsal II, desconhecemos moedas de metal nobre que possam ser atribuidas aos reis numidas antes do reino de Juba I (60-46 a.C.). O achado monetario de Constantina (antiga Cirta), que contem 237 pecas de prata enterradas por volta de 79 a.C., so possuia moedas estrangeiras: atenienses, cartaginesas, marselhesas, espanholas e sobretudo romanas (Camps 1960: 206).

Conhecemos duas emissoes de Sifax. J. Mazard dividiu ainda as duas series por oficina. As do tipo 1 seriam de feitura local e as do tipo 2 teriam sido batidas em uma oficina espanhola (tipos 1 e 2). No entanto, nao possuimos dados que possam efetivamente corroborar tal hipotese. Atualmente, de fato, a tendencia e a de se atribuir a cunhagem do tipo 1 a oficina de Cirta (primeira capital de Sifax, portanto local das primeiras emissoes) e a do tipo 2 a de Siga (segunda capital de Sifax) (Manfredi 1995: 307-308).

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As ruinas de Takembrit (Siga) apresentam poucos vestigios, a maioria de epoca romana. Em 1953, G. Vuillemot publicou um conjunto de ceramicas de tradicao punica acompanhadas de uma moeda de Sifax (Vuillemot 1953, apud Camps 1960: 170). As moedas de Sifax encontradas em Siga sao em numero de seis: quatro estao no Museu de Oran. Em todas, o tema iconografico e o mesmo: retrato do rei no anverso (tipos 1 e 2) e cavaleiro galopando no reverso (tipos 3 e 4). O anverso e normalmente interpretado como sendo o retrato do rei em razao da legenda, a qual aparece no reverso da moeda nomeando-o (Mazard 1955: 17; Krings 1995: 175).

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Os detalhes da barba e do cabelo (diferentes de uma emissao para a outra), e principalmente, a inclusao do diadema ao tema iconografico do tipo 2, levaram alguns autores a proporem estarmos lidando com dois personagens diferentes (Mazard 1955: 17). No entanto, a legenda e a mesma: SPhQ HMMLKT. A traducao que acreditamos ser mais correta e "Pessoa real de Sifax" (Mazard 1960: 157). Veremos que o termo HMMLKT, por inteiro, ou HT, abreviado, aparece tambem nas cunhagens dos reis massilos. Assim, a razao para dois retratos diferentes tem que ser outra.

As series do tipo 1 sao consideradas mais antigas. Ao elaborar seu catalogo, L. Muller, no final do seculo retrasado, dispunha de apenas um exemplar para cada tipo de anverso. Setenta anos mais tarde, J. Mazard pode contar com um conjunto documental pouco maior. Ele trabalhou com doze exemplares do tipo 1. Em sua analise, o numismata verificou que tanto os anversos como os reversos destas doze moedas (particularmente os reversos) apresentavam pequenas variacoes, de modo que ele concluiu estarmos diante de uma cunhagem razoavelmente abundante. (10) Na opiniao de J. Mazard, havia, por parte da autoridade emissora, um cuidado especial na elaboracao destes retratos, dai as variacoes, mas a manutencao geral do tipo, dos tracos do rosto, e constante em todas as doze pecas, de modo que este autor acredita que este tipo estava calcado na realidade (Figs. 1, 1a, 1b). Com relacao ao tipo 2, por outro lado, J. Mazard acredita que este represente a figuracao idealizada do rei (Mazard 1955: 17). (11)

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Mencionamos acima como a cunhagem dos reis numidas e devedora do imaginario punico. Este e um fato incontestavel, como veremos na sequencia de nossa analise. No entanto, os anversos que acabamos de analisar representam justamente uma grande ruptura com esse imaginario. Acreditamos que a cunhagem emitida por Cartago, ao longo de c. trezentos anos, nao comportou nenhum retrato realista ou idealizado de um de seus governantes. Este e, de maneira analoga a questao da realeza cartaginesa, um ponto sobre o qual os pesquisadores vem debatendo ja ha algum tempo, pois uma serie de moedas batidas na Peninsula Iberica pelos Barca (particularmente por Anibal Barca), que trazem tres cabecas masculinas no anverso (tipo imberbe coroado, tipo jovem sem coroa e com a maca de Heracles sobre o ombro, e tipo barbado e com a maca de Heracles sobre o ombro), ainda hoje nao teve sua iconografia de anverso estabelecida de maneira absolutamente segura, de modo a satisfazer aos estudiosos como um todo. Ha quem acredite termos um exemplo do alto grau de helenizacao de Cartago no final do seculo III a.C., quando esta permite, pela primeira vez em sua Historia, que comandantes militares gravem seus retratos nas moedas (Hamilcar apareceria no tipo barbado com coroa de louros e maca; Asdrubal no tipo imberbe com coroa; e Anibal no tipo jovem com maca e sem coroa). Contrariamente, apesar de nao negar que o "imperio barca" na Espanha possuiu caracteristicas tipicamente helenisticas, notadamente da propaganda politica, outros pesquisadores tendem a ver nestes anversos a figura da divindade patrona de Tiro, Heracles-Melqart, e representacoes de Apolo, igualmente cultuado em Tiro. Ambas as divindades com cultos renovadamente fortalecidos durante o chamado periodo helenistico (Acquaro 1983-1984). A renovacao dos contatos com o Oriente, mais marcadamente com a metropole de Cartago, foi efetivada pelos Barca que ascendem ao poder em Cartago apos a Ia Guerra Punica.

A Historia politica cartaginesa e ainda mal conhecida. No entanto, mesmo G. Picard, um defensor dos retratos, trabalha com o conceito de que os Barca nao criaram um reino helenistico independente de Cartago na Peninsula Iberica (1983-1984: 75-76). Ainda assim, este autor sustenta que estes empreenderam uma politica de insercao na sociedade local (casando-se com filhas da nobreza ibera, por exemplo) com o intuito de tornarem-se "pessoas reais", o que teriam conseguido. Desse modo, visando fortalecer suas imagens entre os povos sobre os quais sustentavam seu poder militar, e mesmo entre os gregos e romanos, teriam gravado seus retratos seguindo as regras da propaganda politica helenistica (utilizando a iconografia de Heracles). No entanto, Picard nao explica porque apenas um dos retratos, do tipo imberbe, aparece coroado.

A iconografia monetaria dos Barca ainda aguarda uma analise definitiva. No entanto, nao acreditamos que as imagens que ali aparecem sejam retratos helenisticos. Anibal ao invadir a Italia pelo sul (no final do seculo III a.C.), cunha diversas series monetarias que sao postas em circulacao localmente (na verdade temos representado nestas series o esforco monetario maximo de Anibal). Estas possuem a tradicional iconografia cartaginesa (cabeca de Core, no anverso, e cavalo, nas mais diferentes posicoes, no reverso) (Jenkins 1987). Desse modo, a solucao sobre a iconografia monetaria barcida espanhola deve ser procurada na propria Peninsula Iberica. (12)

F. Coarelli e Y. Thebert elaboraram um detalhado estudo sobre a grande arquitetura funeraria berbere, majoritariamente numida, no qual defendem a tese de que o Norte da Africa participou das correntes culturais, comerciais e migratorias do mundo mediterranico desde o Neolitico, e que situa-la nessa corrente polimorfa, mas fundamentalmente unitaria, e perceber que este territorio nao foi um setor atrasado, incapaz de acompanhar as inovacoes economicas, tecnicas e culturais que vinham moldando o Mediterraneo ha milenios, e cujos impulsos vinham, frequentemente do Oriente Proximo (Coarelli & Thebert 1988: 770).

Acreditamos que, em termos teoricos e enquanto instrumento de pesquisa, esta tese nao apresenta problemas. No entanto, salientamos que com relacao a certos aspectos, por exemplo, a organizacao politica da sociedade berbere, a teoria da longa duracao nos parece mais produtiva do que a simples sobreposicao de um modelo real helenistico a esta sociedade. Os grandes monumentos funerarios berberes se enquadram na tese apresentada acima, pois possuem elementos, entre outros--inclusive autoctones--, mediterranicos ocidentais (os grandes monticulos do Rharb, por exemplo), e helenisticos (Medracen). Entretanto, a organizacao espacial, e sua arquitetura, na Berberia, nos periodos proto-historico, cartagines e helenistico ainda e hoje pouco pesquisada. Sabemos que cidades de pequeno porte como Tamuda, e outras maiores, como Volubilis, aliaram solucoes estrangeiras a locais, separando o mundo domestico e privado do publico e oficial. Os reinos centralizados do seculo III a.C. possuem diversos aspectos inovadores: a presenca do rei nas cidades, denominadas de "capitais" pelas fontes escritas gregas e latinas, e a emissao de numerario proprio sao os principais. Nao obstante, o culto ao rei possui raizes berberes (os proprios monumentos funerarios proto-historicos, de arquitetura diversa das tumbas e mausoleus dos seculos III e II a.C.), da mesma maneira que a essencia do poder real, ligada inexoravelmente a forca guerreira do chefe (Kormikiari 2000: 117-188).

Afirmamos anteriormente que as cunhagens reais e citadinas surgem no vacuo criado pela destruicao de Cartago. Neste contexto, apesar de poderem ser consideradas incipientes e de circulacao local, o Norte da Africa, que antes praticamente desconhecia o metal cunhado que nao fosse cartagines--e mesmo este circulou pouco ali--, ingressa em um periodo de exacerbada atividade monetaria (mesmo levando em consideracao o que colocamos acima com respeito as cunhagens citadinas e seu carater primordial de afirmacao institucional, enquanto entidades politicas autonomas, e igualmente tendo em mente que a troca de produtos persistiu). O fato de os reis berberes nao terem cunhado em metal nobre e de terem tido uma cunhagem pequena em quantidade, comparando-se com sociedades helenisticas, aliado a tese da longa duracao, levou G. Camps a afirmar que paralelamente a monetarizacao da sociedade berbere, as trocas entre produtos continuaram a ser um aspecto essencial da vida economica e social da Berberia. De fato, a medida do trigo ou da cevada, ou entao a cabeca do gado, foram, ate recentemente, produtos com valor monetario aceitos, no interior, tao facilmente quanto a moeda. Em 1953, G. Camps relata ter presenciado, na regiao de Babors, manteiga derretida sendo paga em trigo. Essas trocas eram correntes e existia um sistema de equivalencias estabelecido, conforme a epoca do ano, e que era aceito por todos. Este pesquisador acredita ser muito provavel que os impostos solicitados pelo rei na Antiguidade fossem pagos em produtos, em trigo ou em gado. Os recenseamentos anuais dos cavalos, dos quais Estrabao fala (XVII, 3, 19), permitiriam um certo controle dos recursos dos suditos numidas (Camps 1960: 209).

Neste contexto, a cunhagem real faz uso de uma arma propagandistica absolutamente disseminada pelo mundo mediterranico entao. O retrato do rei nas cunhagens foi utilizado, em nossa opiniao, como um diferenciador e um meio de afirmacao politica por parte dos reis berberes, todos eles. Assim, o proprio contexto geral, africano e mediterranico, influenciou essa solucao. Nao precisamos depender da existencia de uma cunhagem com retratos reais em Cartago para poder interpretar os retratos dos berberes. O historiador da Arte, J. J. Politt (1986:11) sustenta que as mudancas politicas que ocorrem durante o periodo de Alexandre III da Macedonia na bacia mediterranica oriental levam a profundas mudancas culturais (obsessao pela riqueza; mentalidade teatral, mentalidade academica, individualismo e visao cosmopolita). O mais claro desenvolvimento da visao individualista e percebido na arte do retrato. Escultores helenisticos de retratos produzem os mais belos exemplares de obras nos quais o carater pessoal, o temperamento, a natureza do individuo aparecem. Ao mesmo tempo, as artes visuais tornam-se um dos principais meios atraves dos quais os governantes incitavam a populacao a respeita-los e a aceita-los. Sua acao politica e suas conquistas (tanto pessoais quanto as que beneficiavam diretamente o povo) eram ali propagadas.

Alexandre e o precursor desse tipo de propaganda individual e sera seguido pelos seus sucessores. O proprio Imperio Romano herda as tradicoes helenisticas ligadas a imagem de Alexandre e varios sao os imperadores que utilizam os atributos e a construcao iconografica de sua propaganda.

Entretanto, apesar de ter sido o prototipo relembrado em momentos mais conturbados de afirmacao politica, a imagem de Alexandre nao poderia se manter indefinidamente em um mundo que, apos a sua morte, vai se reestruturar politicamente com a divisao do imperio helenistico pelos seus generais. Assim, o retrato real ganha em sofisticacao e o individualismo prevalece; surgem as representacoes dos diferentes reis (tanto em retratos monetarios quanto em outros suportes como esculturas) e surge tambem a criacao de monumentos comemorando o que o rei havia feito ou construido. Assim temos cenas de batalhas, cenas de cacas, procissoes militares ou religiosas. Nessas imagens as qualidades do rei eram destacadas: sua coragem, piedade, destreza, entre outras. O mundo helenistico, no que toca a representacao das imagens reais nas moedas, vai centrar forcas na reproducao individualizada do rei (por vezes irreal, pois era ditada por questoes propagandisticas). A importancia politica dessa representacao centrava-se no fato de que, devido as grandes extensoes de alguns dos reinos helenisticos, nao era raro que um determinado rei nao fosse fisicamente conhecido por todo seu povo, o retrato monetario supria essa falta.

O rei berbere nao possuiu o poder de um monarca helenistico, mas acreditamos que utilizou a gravacao de seu retrato nas moedas, inclusive o idealizado, a luz dos pontos apresentados acima.

Nao obstante tudo o que falamos a respeito do retrato real berbere, o cavaleiro galopando que aparece nos reversos das moedas de Sifax (tipos 3 e 4) e, em nossa opiniao e em termos propagandisticos, a composicao iconografica da cunhagem desse rei que mais impacto causa, a qual abre o precedente para as emissoes dos proximos reis berberes, seja do masesilo Vermina, seja dos dinastas massilos.

Para interpreta-la faremos uso de uma documentacao material posterior. Uma estela anepigrafa em alto-relevo, descoberta na Tunisia (Berberia Oriental), nas proximidades da cidade de Chemtou (antiga Smitthus) e datada de c. 50 - 46 a.C., mostra um personagem a cavalo, um numida, marchando a direita. A importancia da cavalaria numida na Antiguidade, entre o periodo cartagines, dos reinos numidas, e romano, foi minuciosamente detalhada por St. Gsell (1927, vol. V: 181-186). O pesquisador, que publicou pela primeira vez esta estela, acredita que estejamos frente a uma rara figuracao do cavaleiro numida (Bertrandy 1986: 58).

A estela de arenito encontra-se bem conservada, o que facilita sua analise. O cavaleiro aparece representado de 3/4, possui abundante cabeleira, disposta em penteado tipico numida (cachos ondulados) (Estrabao (II, 3, 7), Silio Italico (Punica III, 284, apud Bertrandy 1986: 58, nota 4). O personagem carrega ainda um diadema que lhe cai na fronte e nas orelhas. Sua barba espessa e igualmente ondulada (como o e a barba do retrato do tipo 2 de Sifax), veste uma tunica curta, com mangas compridas. Sobre esta esta jogado um manto, pregado ao ombro por uma fibula redonda. O manto cobre o cavalo. A perna direita do cavaleiro esta nua. Ele veste um tamanco com sola trancada, o qual, segundo Bertrandy, e um apetrecho nao habitualmente usado por um numida (idem). A mao esquerda mantem as redeas bem elevadas, ao mesmo tempo em que agarra a crina do cavalo. Na opiniao do pesquisador, as feicoes do rosto do personagem exprimem seguranca e firmeza (Bertrandy 1986: 60). Por fim, a direita desta cena, dando uma ilusao de perspectiva, aparece figurada um palmeira com sete folhas.

Representacoes de cavaleiros numidas, como ja mencionado, sao raras. Um dos poucos exemplos que possuimos e um medalhao de terracota (Fig. 2) encontrado em Cartago, cuja representacao ainda nao foi definitivamente definida (divindade-cavaleiro?). O personagem, portando um escudo e uma longa lanca (de maneira analoga a algumas variantes dos reversos de Sifax), cavalga sem sela e segura redeas presas a um freio. Este documento possui uma datacao alta: seculo VI ou IV a.C. De maneira analoga, uma estela do Museu de Alger tem como tipo iconografico principal um cavaleiro representado de frente, com rosto redondo e barba pontuda (desta vez a relacao pode ser feita com a forma da barba do tipo 1 de Sifax, mas tambem, como veremos adiante, com a de outros reis numidas). Este cavaleiro cavalga sem sela mas tambem sem redeas e freios. Carrega em sua mao um escudo e tres lancas, aos pes dele aparece uma avestruz (cacador?). Esta estela e datada do seculo II a.C. (Bertrandy 1986: 60-61).

Ainda uma pequena placa de terracota, pintada, traz a representacao de um cavaleiro atingido nas costas por uma flecha. Ele esta jogado sobre seu cavalo, que foge a galope (Fig. 3). O cavalo nao possui qualquer tipo de arreios ou redeas. Esta peca foi encontrada no sitio de Canosa (antiga Canusium), nas proximidades de Cannes, Italia. E datada do final do seculo III a.C.. Na opiniao de A. Bertrandy, a cabeleira espessa e ondulada, presa por um diadema, a barba pontuda do cavaleiro e o fato de o cavalo estar sendo montado sem arreios, permitem que qualifiquemos o personagem como um numida. Mas um chefe numida, e nao um simples cavaleiro (idem: 64).

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Por fim, um ultimo testemunho dos cavalei ros africanos e a figuracao da cavalaria moura na Coluna de Trajano, datada do seculo II d.C.. Aqui novamente, e seculos depois dos exemplos apresentados, vemos as mesmas caracteristicas ja assinaladas: cabeleira em cachos ondulados e cavaleiros montando seus cavalos sem os apetrechos de contencao do animal (as pernas o seguram). Uma diferenca marcante entre este quadro e o da estela de Chemtou e o fato de estes cavaleiros mouros estarem todos descalcos (Bertrandy 1986: 65).

Os autores gregos e latinos (Tito-Livio XXIX, 34, 5; Apiano, Lib, 71; Estrabao, XLVIII, 3, 7; Silio Italico, I, 215-217) assinalam inumeras vezes a maneira tradicional berbere de montar um cavalo: livremente, sem arreios, freios ou redeas.

Em seu levantamento iconografico, A. Bertrandy (1986: 67) encontrou algumas imagens de cavaleiros montando animais selados, e com arreios (a moda romana, com o ephippium). No entanto, estas estelas, representando tanto estrangeiros habitando o Norte da Africa, como o uso, por parte dos indigenas, do modo romano de cavalgar, sao todas datadas dos seculos I e II d.C..

A. Bertrandy conclui que o uso de sela e arreios torna-se comum no Norte da Africa apenas durante o Imperio Romano. A partir das placas de terracota encontradas na Italia, este autor propos, entao, que somente ao chefe numida era outorgado o direito de cavalgar um animal com os apetrechos de contencao e direcionamento. No que toca a estela de Chemtou, Bertrandy acredita estar ali representada a figura do rei numida Juba I. Apesar de entender que se trata de uma atribuicao incerta, pois nao ha nenhum tipo de inscricao sobre a peca, este autor faz comparacoes com esculturas conhecidas de Juba I (Bertrandy 1986: 70).

Com relacao aos reversos de Sifax, os quais, como vimos, apresentam um cavaleiro galopando, com ou sem arreios, e carregando uma vara para melhor conduzir o animal, ou entao, uma longa lanca, podemos interpretar essa imagem a luz do que foi exposto acima, e igualmente baseandonos no carater de chefe guerreiro que, acreditamos, foi um dos pilares de sustentacao do rei berbere.

Assim, Sifax anuncia em seus reversos que ele era um rei, como a propria legenda afirma (ela esta colocada no reverso e nao no anverso, de maneira analoga a cunhagens dos reis helenisticos orientais). Mas era um rei guerreiro, um cavaleiro.

Esta propaganda, em nosso entender, servia tanto para os chefes menores (e para os proprios suditos), como para as comunidades libifenicias da regiao costeira de Siga, e aquelas de Cirta.

Neste momento a cunhagem de Sifax e a unica nao cartaginesa da Berberia. Este dado por si so demonstra que a ascensao dos chefes berberes locais estava se consolidando, ao mesmo tempo em que um imaginario proprio ja comecava a se formar.

As moedas de Vermina (=Verminad), seu filho, tambem feitas com cuidado, mostram o jovem rei imberbe e diademado (tipo 5), no anverso, (13) e um cavalo livre galopando (tipo 6), no reverso. As moedas deste rei masesilo seriam contemporaneas a segunda emissao de Sifax (Camps 1960: 189). (14) Vermina reina em condicoes obscuras e precarias, por poucos anos. St. Gsell propos que pai e filho haviam se associado no final do reino de Sifax, baseado no anverso das moedas de Vermina. O rosto imberbe demonstraria juventude. Todos os retratos dos primeiros reis numidas que possuimos sao rostos com barba (Gsell 1927, vol.V: 125).

O tipo iconografico do cavalo aparece nas cunhagens seguintes, dos reis massilos. Trataremos todas essas imagens em conjunto, pois acreditamos que possam ser interpretadas a luz de uma mesma contextualizacao.

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Massinissa e seus sucessores

A atribuicao de numerario proprio aos sucessores de Massinissa, os quais conhecemos pelas fontes textuais e epigraficas, e baseada apenas nas legendas abreviadas de reverso. Alguns dos exemplares sao classificados por Mazard como RRR, isto e, extremamente raros.

Os tipos iconograficos, em termos de conteudo, sao basicamente os mesmos, tanto para Massinissa quanto para seus sucessores: retrato barbado, laureado ou diademado, e cavalo dando passo, ou galopando livre (tipos 7 a 15).

As moedas ora analisadas podem ser divididas em dois grupos, um com cabeca laureada e legenda MSNSN HMMLKT (tipo 7) e outro com cabeca diademada (tipo 10) e laureada (tipo 11) e legendas abreviadas. As moedas do primeiro grupo possuem uma metrologia, um peso, que as aproxima dos ultimos bronzes punicos discutidos no inicio deste artigo. Por outro lado, as pecas com cabeca diademada, posteriores, tem peso menor. Na opiniao de J. Alexandropoulos, estamos diante de duas emissoes distintas. O numerario com cabeca laureada e o mais antigo e foi cunhado a partir dos bronzes cartaginesas de 100 e 20 g. Ja as series com cabeca diademada sao representadas por duas denominacoes. Provavelmente seguiam a metrologia das emissoes barca da Peninsula Iberica, a qual seguia um padrao 10-12 g, e compreendia uma unidade e uma meia-unidade (Alexandropoulos 1989: 538). (15)

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No que concerne aos retratos, o tipo laureado (tipo 7) e atribuido apenas a Massinissa, quando a legenda do reverso e bem especifica: MSNSN HMMLKT. De maneira analoga a legenda de Sifax, a traducao aqui e "Pessoa real de Massinissa". Ja os tipos anepigrafos, e com legenda bilateral, sao normalmente atribuidos aos sucessores imediatos de Massinissa. Estas legendas bilaterais sao sempre abreviacoes do nome de Massinissa ou Micipsa--MN (por vezes a legenda MN aparece sozinha nas moedas, inclusive na do grupo 2, da cabeca diademada. Entao, a atribuicao e feita apenas para Massinissa); do termo pessoa real--HT; dos sucessores Gulussa ou Gauda (Gulussan e Gaudan em punico)- GN e Aderbal--AL. Devido ao mau estado de conservacao das pecas, J. Mazard conseguiu ler apenas estes nomes. E possivel que os outros sucessores tenham numerario proprio entre as series que possuimos. Em termos de variacao de cunho, a quantidade e muito grande, de modo que, apesar de ainda termos que considerar essa cunhagem massila dos primeiros tempos como incipiente, um esforco grande em emitir numerario proprio foi mobilizado. Por fim, a legenda H (he neo-punico), sozinha, e utilizada como unica base para a atribuicao de numerario especifico a Jugurta e a Hiempsal.

Em um primeiro momento, a primeira efigie destas series (tipo 7), que aparece laureada e cuja emissao e atribuida apenas a Massinissa, era tida como o retrato de Massinissa, o qual foi transformado em um retrato padrao, tradicional. Teria sido usado por seus sucessores de maneira analoga as primeiras emissoes dos diadocos helenisticos, que bateram suas primeiras moedas utilizando o retrato de Alexandre, o grande (Mazard 1957: 157).

No entanto, esta interpretacao foi modificada a partir de analises realizadas nos conteudos de alguns achados monetarios contendo moedas numidas dos tipos ora estudados. Assim, M. Troussel (1948, apud Camps 1960: 44), relatando uma noticia dos arredores de Constantina, em Tiddis, (16) verifica a existencia de mais de 25 retratos com feicoes diferentes, e G. Thomas (1949, apud Mazard 1957: 157 nota 2), tambem analisando um achado monetario de Constantina (com mais de 2 mil pecas numidas--IGCH 2304), identifica mais de dez retratos em seu lote. Em suma, apesar de o retrato laureado e diademado apresentar uma composicao geral homogenea (cabelos curtos e ondulados, barba pontuda) podemos identificar, mais uma vez, uma analogia com as pecas de Sifax, isto e, uma possivel preocupacao com a representacao realista.

A questao dos atributos destes retratos e outro ponto que merece uma breve argumentacao. A primeira e mais imediata explicacao para o diadema, originariamente simbolo real persa, e, enquanto marca do poder real, imagem que vemos no tipo divinizado de Alexandre com os cabelos presos pelo diadema, usado na cunhagem de Demetrio Poliorcetes (Jenkins 1972: 215, n. 518). Ja na cunhagem dos Barca, mencionada acima, a figura barbada carrega nos cabelos uma coroa de louros, simbolo da vitoria. Como complemento destes atributos reais, podemos mencionar os cetros que aparecem tanto no anverso como no reverso destas moedas numidas. Acreditamos que a escolha de denominacoes estrangeiras, como as que aparecem nas legendas, e entendida por nos enquanto manipulacao e apropriacao de um ideario que, mesmo nao condizente com a realidade da realeza berbere, serviu como meio de auto-afirmacao tanto frente os chefes menores quanto frente os estrangeiros. O mesmo tipo de raciocinio seguimos com relacao a esses simbolos iconograficos.

O tipo do cavalo, no reverso destas moedas, no entanto, e o que mais nos interessa. Acreditamos que nao apenas os numidas copiaram o tipo monetario cartagines mais tradicional, como igualmente se apoderaram do seu imaginario, cuidadosamente criado por Cartago ao longo de sua Historia, como pretendemos mostrar a seguir. Desse modo, abrimos um parentese para apresentar uma analise do cavalo nas moedas cartaginesas. Em seguida, retomamos os numidas.

Um simples folhear de qualquer catalogo de moedas cartaginesas e suficiente para verificarmos que o motivo iconografico do cavalo, juntamente com a palmeira e a cabeca feminina (na maioria das vezes lida como CoreTanit), e a imagem mais utilizada na cunhagem punica ao longo de toda sua historia monetaria, isto e, do final do seculo V a.C., quando inicia sua cunhagem, ate a sua destruicao final, em 146 a.C.. Ao contrario da palmeira e da deusa, no entanto, o cavalo aparece sempre como tipo principal do reverso.

Sinteticamente expondo, o cavalo e representado de variadas formas: por inteiro, onde pode estar parado, galopando, empinando, com a cabeca voltada para tras, e/ou dando um passo com uma das patas dianteiras; ou apenas a cabeca/protomo do animal, neste caso, na maioria das vezes, dentro da mesma concepcao estetica que rege a representacao das cabecas humanas (Figs. 4, 5, 6).

De uma maneira geral, e em consequencia do problema metodologico de se analisar uma documentacao com origem oriental unicamente a partir de dados greco-latinos, a interpretacao mais comum desta imagem utiliza, como base de estudo, o relato lendario da escolha do terreno para a fundacao de Cartago, que nos foi apresentada pela historiografia greco-latina. Justino (XVIII, V, 15-16) e a fonte textual que registra o relato mais completo: "Ao se cavar, entao, nos fala ele, encontramos uma cabeca de boi; foi um pressagio de terra fertil, mas de uma cidade trabalhadora e sem descanso de escravos. Assim, eles levam a cidade para um outro local. La, fazemos tambem uma descoberta, a de uma cabeca de cavalo, significando um povo guerreiro e poderoso: sobre esse auspicio a cidade foi fundada" (traducao nossa do frances).

A partir da ideia de poder e beligerancia trazida pela imagem do cavalo, que o texto revela, acreditou-se, entao, que este animal havia sido escolhido como simbolo da cidade e por isso teria sido tao empregado na iconografia monetaria (Jenkins & Lewis 1963: 12).

Apesar de esta interpretacao ser defendida por pesquisadores tao conceituados quanto Kenneth Jenkins, ela vai contra nossa proposta de analise geral da civilizacao punica (Kormikiari 2000: 326). Mais uma vez nao se trata de, forcosamente, passarmos a dar valor apenas ao dado oriental, mas sim, de procurar nas fontes, nao esquecendo as semiticas, pistas que possam apontar novos caminhos ou confirmar os ja tracados e aceitos. O numismata Jean Bayet, em seu artigo "L'Omen du cheval" (1941), procura demonstrar o caminho inverso. Isto e, os relatos greco-latinos teriam se inspirado na imagistica monetaria punica para incluir na descricao da lenda de fundacao a cabeca de cavalo significando forca guerreira.

Seu estudo e feito a partir da analise iconografica das moedas punicas que trazem como figura de reverso o cavalo, e tambem com base em um trecho da Eneida de Virgilio (441-445) no qual uma determinada frase-- caput acris equi--e interpretada por ele como "cavalo prestes a morder" (Bayet 1941: 176). Bayet faz mencao especial aos desenhos das cabecas de cavalo, que aparecem especialmente em algumas das emissoes dos tetradracmas, e que mostram o animal em "movimento", prestes a morder (Fig. 4). Esta mesma acao e igualmente detectada desde os primeiros bronzes punicos anepigrafos, datados da metade do seculo IV a.C., que tem como figura de reverso cavalos livres, ou seja, sem arreios, empinando ou galopando. Por outro lado, as moedas cunhadas nas oficinas de Cartago trazem sempre o cavalo por inteiro (jamais apenas a cabeca) e quase nunca em movimento. No entanto, quando novamente o fazem vemos o cavalo em posicao ameacadora, como nas pecas em que ele, por inteiro, aparece com a cabeca voltada para tras, muitas vezes dando um passo, como se estivesse pronto a atacar (Fig. 6).

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Se analisarmos as oficinas de cunhagem das pecas acima mencionadas, veremos que a maioria foi emitida na Sicilia, inseridas no contexto de disputa territorial e destinadas a paga dos mercenarios dos exercitos cartagineses. Seria valendo-se delas--primeiras moedas batidas por Cartago--que a figura do cavalo, como tipo monetario punico, adquire seu significado.

Particularmente os retratos dos cavalos em algumas destas moedas, sempre em 3/4 de perfil e em movimento--arreganhando os dentes -, so tiveram sua execucao possivel a partir da transformacao nas tecnicas da escultura que ocorre no periodo helenistico; periodo de datacao destas pecas siculo-punicas em especial.

Ao incluir em nossa analise as legendas que estes tetradracmas trazem, significando os locais de cunhagem ("campo/exercito") e quem as emite ("as pessoas do acampamento militar/os eleitos de Melqart/os controladores financeiros") (Mildenberg 1957), fica definido o carater militar e o contexto especifico de emissao destas pecas. Ao aliarmos o contexto de emissao com a leitura dos textos mencionados acima e com a analise das proprias imagens do cavalo, a ideia de uma intencao, por parte de Cartago, de transmitir simbolicamente seu poder guerreiro, e portanto, sua alta capacidade de sair vitoriosa nos embates, dificilmente pode ser negada. Em algumas destas representacoes, os reversos trazem como tipo secundario pequenas Nikes que coroam os cavalos.

Ao lado da palmeira, o cavalo sempre foi considerado como o tipo monetario representativo de Cartago, nas moedas da capital africana, em contraponto a figura da deusa feminina (Core-Tanit), desenhada com os mesmos tracos das moedas gregas de Siracusa. No entanto, baseados apenas nos dados acima, sera possivel ir alem e considerar o cavalo como verdadeiro simbolo de Cartago, de maneira analoga a coruja de Atenas, por exemplo?

De maneira geral, esse ponto e assumido pela maioria dos numismatas que tratam do assunto. O interessante da posicao de Bayet e a argumentacao que ele apresenta: o cavalo foi escolhido como simbolo de Cartago, para passar a imagem de cidade guerreira e vitoriosa nos seus contatos com os gregos, e foi uma escolha tao bem sucedida, como pode ser visto pelas imagens da iconografia monetaria, que a lenda em torno da fundacao de Cartago surgiu tomando-se por base essas imagens, e nao o contrario, como normalmente se assume.

Assim, Timeu, que morre em Siracusa em c. 260 a.C., e e a fonte de Justino, teria utilizado o relato local para escrever sua obra. Retomando, a historia belica da cidade africana, o imaginario dos cavalos furiosos nos reversos (tanto apenas a cabeca como tambem por inteiro), teria levado o mundo grecoromano a concepcao greco-latina do cavalo como simbolo de fundacao de Cartago, pressagio do carater conquistador da colonia fenicia.

Entendendo-se, pois, o cavalo como tipo escolhido para passar uma mensagem especifica, de forca e beligerancia da cidade, algumas hipoteses para as origens do tipo foram levantadas por Bayet (1941: 178).

Mantendo-se na analise do Oriente, Bayet apresenta a possibilidade de o cavalo ter sido adotado com base no conceito de forca, ferocidade e rapidez que este animal possui entre os povos orientais (semitas, assirios e filisteus). Atraves da analise do texto biblico e possivel recuperar a importancia do cavalo para as populacoes semiticas. Eles teriam um carater de forca, rapidez e ardor nos combates (Cheyne & Sutherland, apud Bayet 1941: 183). Assim, temos o cavalo de guerra dos assirios e dos filisteus (Livro de Jo, XXXIX, 18, 26 = com os dentes arreganhados e as narinas abertas).

A teoria que liga o cavalo a imagem de forca guerreira, em nossa opiniao, e a que mais se adequa as questoes que foram aqui apresentadas. Este animal, que nao aparece comumente na iconografia geral punica, deve ser visto como uma imagem simbolica da forca de Cartago, e ate podemos aventar a hipotese de ele ter sido escolhido para representar a cidade africana perante aos outros povos com os quais manteve contato, na maioria das vezes, belicosos. Assim, podemos aventar a hipotese de ter ocorrido uma revitalizacao de um aspecto cultural especifico oriental que, em termos evolutivos, alcancou a posicao de simbolo de um estado perante aos povos greco-romanos.

Desta maneira, devemos analisar o tipo do cavalo dentro do contexto do periodo classico, quando a iconografia monetaria foi usada na afirmacao politica da autonomia da cidadeestado. No periodo helenistico, epoca das emissoes reais berberes, havera uma transformacao na escolha dos tipos monetarios que irao passar, gradativamente, nao mais a representar as poleis e sim os individuos governantes dos grandes estados que serao formados. Contudo, a forca dessa transformacao ja se faz sentir anteriormente em Cartago, quando estes reproduzem o tipo monetario com a figura de Heracles que aparece pela primeira vez na cunhagem de Alexandre, o Grande, ou ao imprimir as imagens do protomo de cavalo em 3/4. Ou seja, a sagacidade cartaginesa e o seu pleno entendimento das possibilidades de uso propagandistico da cunhagem nao podem ser negados. Eles vao cunhar utilizando imagens gregas (Core e Heracles) aliadas a outras, orientais e africanas: o proprio cavalo como simbolo cartagines maximo, mas tambem a palmeira e os pequenos simbolos religiosos, entre outros. Alem disso, temos aliadas a essas imagens legendas em punico que, mesmo nao inteligiveis para a populacao grega da Sicilia, representam uma marca cultural muito forte.

Como interpretar as imagens do cavalo livre, galopando, dando passo e ou com arreios das cunhagens numidas de Massinissa e de seus sucessores (tipos 9, 12, 13, 14, 15)? Tendo em mente o que discutimos com relacao a figura do cavaleiro numida, cujo imaginario aparece tao fortemente construido na estela de Chemtou e nas placas de terracota italianas, acreditamos que um contexto alimentou o outro. Isto e, Cartago foi um poder militar que fez valer essa reputacao em sua propaganda politica, essencialmente porque sabemos que a capital africana passa a produzir um numerario proprio muito tarde em sua Historia, pressionada pela necessidade de insercao economica e politica na Sicilia.

Este contexto semitico-cartagines, por seu lado, alimentou e foi alimentado pela propria forca guerreira que esta implicita nas chefias berberes (Kormikiari 2000: 117-188). Cartago dependia dos chefes berberes menores e mesmo dos grandes agellids (reis) centralizados para a manutencao de seus contigentes e, principalmente, para formar a temida cavalaria numida. Assim, acreditamos ser exequivel supor que este imaginario, que como bem fundamentou J. Bayet, foi perpetuado historica e culturalmente em ambiente grego atraves do relato mitico da fundacao de Cartago, esteve igualmente presente no ambiente norte africano berbere. Desse modo, ganha sentido a reproducao, na cunhagem numida, do cavalo cartagines. O cavalo dando passo (tipo 9) pode ser considerado quase como uma copia direta do tipo de reverso dos ultimos bronzes punicos. A metrologia e a tipologia demonstrariam, a nao ser pela figura de anverso e pela legenda do reverso, uma preocupacao em tornar assimilavel a cunhagem.

Massinissa possui ainda em sua cunhagem propria (emissao cabeca laureada) um tipo iconografico novo entre os numidas: o elefante caminhando (tipo 8). Este tipo aparece na cunhagem cartaginesa, justamente nas emissoes dos Barca, com as imagens masculinas laureadas, coroadas e imberbes. Os tipos cartagineses de anverso: cabeca masculina barbada, maca e coroa de louros; e cabeca masculina imberbe tem como reverso um elefante africano caminhando, com seu cornaca. Este e, sem duvida alguma, o celebrado elefante de guerra de Anibal, animal que junto ao leao, representa o proprio Norte da Africa. No entanto, o tipo do elefante aparece apenas na emissao laureada (tipo 7), atribuida a Massinissa. Esta e considerada mais antiga, do final da IIa Guerra Punica. Isto e, o contexto politico da epoca, a posicao politica contraria a Cartago que Massinissa adota, seu auxilio em Zama, a derrota de Anibal, podem servir como pano de fundo para a escolha do elefante na primeira cunhagem de Massinissa. (17)

Com relacao a circulacao desse primeiro numerario numida, a partir de achados monetarios, notadamente da area de Cirta e do vale do Medjerda (IGCH 2304 e 2305-- achado de 1000 pecas de bronze, cartaginesas e numidas, das quais apenas uma e de chumbo, nas proximidades de Teboursouk, Berberia Oriental) percebemos a grande quantidade de moedas numidas com o cavalo galopando que foram emitidas. Ainda no Vale do Medjerda, G. Camps assinala pecas encontradas fortuitamente e em escavacoes na Tunisia (Gabes, Bulla Regia, Ain el-Hout), no resto da Argelia (Tipasa, Cherchel, Siga), e ate no Marrocos (Banasa, Tamuda). Mas nesse ultimo caso sao, mais constantemente, exemplares isolados ou em pequenos grupos. Ja ao redor de Constantina e para o norte da cidade, ate Philippeville, essas pecas abundam: e seu estado deteriorado demonstra que estiveram durante um longo tempo em circulacao (Camps 1960: 207). O Cel. Baradez encontrou pecas de chumbo em contexto arqueologico do seculo I d.C., nas tumbas de Tipasa, cidade entre Iol e Icosium, na costa mediterranica da Berberia Central (Baradez 1957: 226, apud Camps 1960: 206).

Apos uma serie de trabalhos arqueologicos realizados no sitio da Cartago romana em 1896, A.-L. Delattre encontrou c. 300 moedas, 2/3 destas eram ou punicas ou numidas, estas ultimas, menos numerosas (Fischer 1978: 38). Todas possuiam modulos grandes (c. 27 mm). Trata-se dos grandes bronzes punicos e de Massinissa. O arqueologo acreditava que estas moedas se encontravam em contexto funerario por terem ganho significado religioso apos terem saido de circulacao. Um outro pesquisador propos o contrario. As moedas anteriores ao Imperio haviam permanecido em circulacao, para transacoes diarias de pequeno porte, em razao de terem mantido um valor fiduciario (Cagnat 1909: 202, apud idem). Por fim, em Lambese, campo militar edificado durante o principado de Adriano, no seculo II d.C., para abrigar a IIIa Legiao Augusta, ao lado de diversas moedas imperiais romanas foram encontradas, em escavacoes arqueologicas, 11 pecas cartaginesas e 24 numidas (Fischer 1978: 39). O arqueologo considera que todas as moedas pertenciam aos legionarios ou a pessoas ligadas a Legiao, e reafirma sua opiniao anterior, que estas moedas cartaginesas e numidas eram utilizadas ainda nos seculos II e III d.C. para pequenas transacoes comerciais.

Por outro lado, em Cirta pecas estrangeiras tambem circulavam a partir do reino de Micipsa, isto e, 148 a.C.. Micipsa foi o primeiro sucessor de Massinissa. Ali foram encontradas, em grande quantidade, pecas de Rodes, Cartago, Cirene, Massalia e Roma: segundo Estrabao--XVII, 3, 13--Micipsa incentivou o assentamento de estrangeiros em Cirta (apud Burnett 1987: 177). O tesouro de Constantina, que contem 237 pecas de prata enterradas por volta de 79 a.C., so possuia moedas estrangeiras: Atenas, Cartago, Massalia, Iberia e sobretudo Roma (Camps 1960: 207) mas, em razao de sua datacao, reflete a continuidade da presenca estrangeira no interior da Numidia

G. Camps ja havia assinalado a descoberta de dois achados monetarios encontrados nos Balcas, um em Kula (Bulgaria) e o outro em Mazin (Croacia) (Camps 1960: 208-209). Este ultimo nao continha menos de 328 moedas numidas. E nesta regiao da Iliria que foi encontrado o conjunto mais importante de pecas numidas. As moedas de Ptolomeu X Soter, associadas as numidas no achado, permitem que o deposito seja datado do ano 80 a.C.. Uma outra moeda numida foi descoberta na Armorica, perto do estuario de Leguer.

E justamente da Franca que vem o maior numero de achados monetarios numidas. Foram elencados onze achados monetarios numidas de Massinissa e seus sucessores (Fischer 1978: 108-129). A autora acredita que estas moedas estejam relacionadas a penuria monetaria da Galia neste periodo, que dura das guerras galicas ate o reino de Augusto. Entao, as tropas de mercenarios de Massinissa e dos reis berberes teriam movimentado a economia com seus soldos, e insuflado as populacoes locais a utilizarem este numerario estrangeiro (idem: 142-149).

Desse modo, a nosso ver, o quadro que surge e um bastante concreto. Massinissa suplanta Sifax e colabora para sua expulsao de Cirta. O reino massilo surge tendo como centro justamente esta regiao. Trata-se de uma area berbere tradicional, no interior da atual Argelia, mas que recebeu, desde a epoca cartaginesa, um grande influxo de estrangeiros que ali vinham habitar. As aldeias indigenas, nos sopes das montanhas, entre estas dos Aures, os vales dos rios locais, a propria bacia do Hodna e de Constantina foram densamente habitados para os padroes da Antiguidade. Massinissa e seus sucessores tiveram que sustentar seu poder tanto entre os berberes, e neste sentido os chefes menores eram os grandes mediadores das relacoes, mas tambem entre os estrangeiros que ja comecavam a chegar. Igualmente nao podemos esquecer os proprios cartagineses, isto e, os libifenicios. Neste contexto, tanto a iconografia quanto o esforco de producao monetaria dos primeiros reis numidas ganham coerencia. Inicialmente as moedas de Massinissa sao devedoras do sistema ponderal cartagines e igualmente de sua iconografia. Nesta iconografia foram introduzidas inovacoes, adequacoes necessarias em razao da estrutura social da qual este numerario era produto e na qual ele devia atuar. Estamos falando particularmente dos retratos e das variacoes nas feicoes, em nosso entender uma busca da autenticidade.

Sifax inicia o processo. Mais significativamente, ainda que sua cunhagem tenha sido incipiente, e tendo ou nao se associado a seu filho, Vermina, Sifax e o unico soberano berbere que foi capaz de emitir numerario proprio enquanto Cartago ainda era uma forca atuante. Os pormenores deste contexto nos escapam, mas acreditamos que a representacao do cavaleiro numida, senao do proprio chefe dos cavaleiros numidas, no caso o proprio Sifax, demonstra sobre quais bases esteve assentado esse poder. A iconografia de Vermina e voltada para o imaginario propriamente cartagines, apesar de nao podermos negar que o cavalo, enquanto simbolo de rapidez e forca, adequava-se perfeitamente ao ideario das chefias berberes. E justamente este imaginario que e adotado por Massinissa e seus sucessores, o cavalo galopando, parado, dando passo. A escolha dessa iconografia buscava, naturalmente, uma aceitacao. A escolha de tipos familiares, entao, era necessaria. O vasto raio de penetracao da cunhagem de Massinissa, nesse sentido, como vimos pelas noticias da circulacao monetaria, demonstra que estas pecas, junto com as cartaginesas, que ademais traziam os mesmos tipos de reverso (cavalo galopando, cavalo dando passo), foram aceitas pelas comunidades as mais diferentes (os achados vem de sitios berberes como Tiddis e romanos como Lambese, e fenicio-cartagineses como Gightis). Seu carater cotidiano e localizado tambem aparece nos metais empregados, bronze e chumbo. Seria este um sinal da pobreza dos reinos berberes ou o metal mais precioso saiu de circulacao para ser entesourado como propoe G. Camps (1960: 210)?

As imagens mais fortes desse imaginario de poder militar (o cavalo virando para atacar) nao aparecem nas moedas numidas. No entanto, entendemos que este e um aspecto natural do processo, uma vez que as pecas mencionadas (os mais belos exemplares aparecem nos tetradracmas cartagineses cunhados na Sicilia no seculo IV a.C.) fazem parte do momento inicial de transformacao da imagem em mensagem. Uma vez conseguida a associacao, o cavalo por si so ja comportava o significado completo.

Jugurta (?)/Hiempsal II (?)/Hiarbas (?)

A atribuicao de um numerario a Jugurta e Hiempsal II, entre os numidas, e Hiarbas, o suposto usurpador getulo, e hipotetica.

No caso de Jugurta, segundo J. Mazard, baseia-se na tradicao. O proprio autor duvidava dessa atribuicao. Assim, L. Muller acreditava que o unico tipo conhecido e atribuido por ele a Jugurta (tipos 16 e 17) possuia uma iconografia e um estilo (na textura da fabricacao) tipicamente africanos (1861: 34). Na verdade, Muller estava apenas seguindo um numismata anterior, Duchalais, o qual pretendia ligar esta serie de prata a um denario cunhado em honra a Sila (Mazard 1955: 44). Mais recentemente, A. Burnett invalidou categoricamente a atribuicao de uma cunhagem em prata a Jugurta, que era a unica que conheciamos (Burnett 1987: 176). Este numismata argumenta que arqueologicamente nao foram recuperados tracos numismaticos da Guerra de Jugurta. Alem disso, de acordo com Salustio (Jugurthinum, XXIX, 6: LXII, 5), Jugurta efetuou pagamentos em barras de prata. Como ja mencionamos, Salustio relata tambem (Jugurthinum XXVII, 5; XXXVI, 1) que, em 111 e 110 a.C., os romanos mandaram dinheiro, stipendium, com seus exercitos para a Africa.

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Assim, a informacao negativa (falta de achados arqueologicos) impede que possamos atribuir efetivamente uma cunhagem a Jugurta. As series que Mazard elenca trazem uma letra punica (A) e o elefante caminhando, sem cornaca, no reverso (tipo 17). Estes seriam os unicos elementos "africanos" desta peca. A cabeca masculina do anverso (tipo 16) difere totalmente dos retratos numidas que acabamos de analisar. Os numidas sao descritos pelas fontes com cabelos ondulados, e, aparentemente, a barba pontuda tornou-se uma marca dos primeiros reis numidas. A iconografia nao parece, portanto, incentivar uma atribuicao a Jugurta. A nao ser pelo unico elemento que poderia ser ligado a propaganda africana, o elefante, o qual poderia significar uma tentativa, por parte de Jugurta, de associar-se a imagem de Massinissa, mais precisamente, ao culto real. Por outro lado, a opcao em nao utilizar o tradicional tipo do cavalo seria facilmente compreensivel, uma vez que Jugurta guerreou, igualmente, contra seus primos.

A atribuicao da cunhagem a Hiempsal II baseia-se na legenda H HT de reverso (Mazard 1957: 155). Partimos do pressuposto de estarmos, de fato, diante da cunhagem de Hiempsal II, numida que ascende ao poder enquanto sucessor de seu pai, Gauda (Hiempsal e tido como "rei aliado e amigo" do povo romano--Mazard 1955: 45), apos 105 a.C.. Gauda, por sua vez, havia sido colocado no posto pelos romanos, por obra de Mario, a nos fiarmos nas fontes, apos a Guerra de Jugurta. Desconhecemos uma cunhagem de Gauda, de maneira analoga a outros reis numidas.

No entanto, seguindo o metodo de divisao do poder entre varios irmaos herdeiros, o que parece ter acontecido em certos momentos mesmo sendo uma deturpacao da sucessao agnaticia berbere, na qual o membro mais velho da familia ascendia ao poder, Gauda divide o reino da Numidia (ja territorialmente diminuido em razao da anexacao do rei mouro Boco I), supostamente entre seus dois filhos, Hiempsal II e Masteabar. Este ultimo reinou na parte ocidental dessa nova Numidia.

Desconhecemos series monetarias que possam ser atribuidas a Masteabar. Por outro lado, Hiempsal II supostamente cunhou em prata, ouro e bronze, ou seja, no conjunto completo de denominacoes. No entanto, o mesmo argumento utilizado por Burnett para negar uma cunhagem em prata a Jugurta se aplica igualmente para Hiempsal. Entretanto, a legenda das pecas de prata e bronze, H HT, pode ser traduzida como "Pessoa real de Hiempsal". As duas series em ouro foram classificadas por J. Mazard para Hiempsal a partir de ligacoes tipologicas e de estilo subjetivas.

Acreditamos, nao obstante, poder interpretar as moedas de Hiempsal II a luz da contextualizacao ja realizada acerca da Historia da sucessao numida e dos dados que uma estela dedicada a Hiempsal, descoberta em Rodes, oferece. Hiempsal fica com a parte mais rica do reino, a parte oriental. O vale do Medjerda e a regiao de Cirta. Esta area era excelente produtora de graos. Por outro lado, uma dedicatoria a Hiempsal II, encontrada em Rodes, e um documento unico que atesta pela primeira vez a presenca, mesmo que apenas comercial, desse rei numida em terras gregas (Kontorini 1975: 96-97). Isto posto, acreditamos que os tipos 18 e 19, constituidos por divindades no anverso (Ceres? Triptolemos? Ou seus correspondentes numidas?), ornadas com coroas de graos, e o cavalo com coroa de louros no reverso, facam referencia explicita a riqueza das terras sob controle de Hiempsal. (18) Nao obstante, a falta de uma datacao mais precisa para as series torna nossa segunda proposta conjectural. Sabemos que Hiempsal II foi deposto pelo getulo Hiarbas (c. 108 a.C.) e depois retornou ao poder com a ajuda dos romanos e do rei mouro Boco I. Assim, os tipos 20 e 21, com a efigie da Vitoria no anverso e o cavalo livre no reverso, pode ter um carater comemorativo, de retorno ao reino e deposicao do usurpador. De maneira analoga, a coroa de louros comemoraria esta mesma vitoria. Temos, entao, a inclusao de tipos iconograficos claramente estrangeiros. Partindo para uma explicacao inerente a sociedade berbere, a vitoria sobre Hiarbas deve ter movimentado clas e familias, e essa vitoria seria, entao, nao um simbolo do poder individual do rei, mas do grupo como um todo.

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Os reversos de todas essas series e o tradicional cavalo punico e, desde Massinissa, numida. Ao inves de estar pregando seu carater guerreiro, o cavalo e um retorno imagetico a concepcao da familia massila. As moedas com o cavalo galopando sao as mais difundidas em termos de circulacao monetaria. Assim, enquanto Jugurta pode ter querido se ligar ao poder real atraves somente de Massinissa, Hiempsal teria querido se associar a familia agnaticia como um todo.

Hiarbas, esse usurpador desconhecido (getulo? chefe menor de alguma faccao numida, mesmo massila?) possui duas emissoes que lhe foram atribuidas por Mazard (tipos 22 e 23). J. Mazard considerava Hiarbas o primeiro rei dos massilos do ocidente (Mazard 1955: 53). As legendas IL e TWS, TVZ ou TWN, e TN foram lidas como nomes de cidades da Berberia central (Iol e Tuniza). A leitura de Iol (IL) e hipotetica e efetivamente nao faria sentido sendo Hiarbas um getulo vindo da regiao meridional dos Aures, isto e, da Berberia Oriental, e estando Iol localizada na costa central argelina. A area de Iol, neste momento, estava sob o poder do rei mouro Boco I, o qual havia recebido as terras numidas ate o rio Ampsaga, localizado a leste de Iol. Ja a outra legenda, com mais variacoes e portanto mais frequente, nao apresentaria este tipo de problema porque a area de Tuniza (atual La Calle) esta na fronteira entre a Africa vetus, antiga regiao cartaginesa, e o reino da Numidia Oriental tomado por Hiarbas de Hiempsal II, por alguns anos.

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J. Mazard, seguindo L. Muller, acredita que a imagem masculina, com longos cabelos em cachos regulares seja o retrato de Hiarbas (tipo 22). No reverso, por vezes, temos novamente o cavalo dando passo, mas um tipo novo na iconografia monetaria real berbere aparece: a personificacao da Africa atraves da imagem de uma cabeca feminina vestida com a pele de elefante (tipo 23). (19) Em 71 a.C., Pompeu manda bater, na oficina de Roma, aureos com a personificacao da Africa no anverso (RRC 402). Estas series foram batidas para comemorar seu triunfo. A escolha de um tipo "pompeiano", na verdade, de um simbolo do territorio conquistado pelos romanos, pode ser interpretada enquanto afirmacao politica ou, justamente o contrario, enquanto concessao ao poder maior romano?

O contexto de emissao dos supostos numerarios de Jugurta, Hiempsal II e Hiarbas e o de embates com o poder romano (Guerra de Jugurta) e o da transferencia das lutas internas romanas para solo estrangeiro, africano. A sociedade norte-africana, como um todo, as populacoes das cidades, das aldeias, os grupos indigenas, seus chefes menores e os reis berberes foram todos obrigados a se posicionarem diante dos acontecimentos. As cunhagens destes reis berberes, aparentemente, nao deixaram rastro no registro arqueologico. Duzentos anos mais tarde e possivel encontrar ainda moedas cartaginesas e dos primeiros numidas em localidades as mais variadas. No entanto, a rica cunhagem de Hiempsal, por exemplo, parece ter ficado presa a seu periodo especifico.

Este momento tambem e marcado pelo aumento das emissoes citadinas locais. O uso da moeda no Norte da Africa torna-se restrito em certas areas. Os romanos ainda nao estao batendo moedas em solo africano e continuavam despachando dinheiro direto de Roma para sustentar os diferentes partidos em guerra (Plutarco, Pompeu, II, apud Burnett 1987: 176).

Surpreende-nos apenas a falta de vestigios, no Norte da Africa, da Guerra de Jugurta. (20) Se este efetivamente possuia em seu exercito mercenarios, ou como acreditamos, paralelamente ao menos, dependia da coesao dos chefes menores e de sua adesao tanto ao rei quanto a causa, a necessidade de pagar os mercenarios e de prestigiar os chefes indigenas teria sido feita apenas com metal em barras como conta Salustio? Nos parece incoerente a opcao pelo nao uso do metal cunhado enquanto meio propagandistico. No entanto, a falta de dados e muito grande e a conjectura apenas nao nos esclarece acerca das reais causas dos acontecimentos.

Dinastia massila ocidental: Capussa, Mastenissa e Arabion

J. Mazard nao atribui cunhagem a Capussa. No entanto, em 1978, um achado monetario em pessimo estado de conservacao foi resgatado, a partir de escavacoes arqueologicas subaquaticas na Baia de Cavalaire, em Lavandou (Var). Das onze pecas encontradas, cinco sao moedas de Massalia, uma de Corteia (Betica) e cinco do reino numida. O tipo monetario destas ultimas e o tradicional cabeca masculina laureada com barba, no anverso (tipo 7), e cavalo livre galopando, no reverso (tipo 12). A diferenca destas pecas e a nova legenda que foi, entao, descoberta. No reverso, em punico, aparecem duas letras KN. Seguindo a tradicional leitura do nome abreviado berbere, G. Camps leu Capussan (Camps 1984: 29-30). O modulo da peca, 27 mm, os tipos iconograficos e o metal no qual foram cunhadas, chumbo, parecem confirmar que pertencam a um membro da familia de Massinissa, Capussa, o qual ensaiou ascender ao poder um pouco antes de Massinissa, mas que aparentemente morreu logo apos o inicio de seu reinado em 207 a.C., sem que saibamos exatamente como.

As pecas em questao, no entanto, parecem apontar uma nova hipotese de trabalho. Sabemos que os sucessores imediatos de Massinissa (Micipsa, Gulussa, Aderbal, e outros) emitiram numerario seguindo a tipologia iconografica de Massinissa, apenas com variacoes nas denominacoes. As moedas do modulo das encontradas com legenda KN costumam ser atribuidas a Massinissa e sao datadas do inicio de seu reino (c. 207 a.C.), pois seguem o padrao monetario das ultimas emissoes cartaginesas de bronze. Nos perguntamos quanto a possibilidade de Capussa ter reinado junto com Massinissa, ou entao, de Massinissa ter se apossado da iconografia monetaria do herdeiro autentico da familia massila (Capussa era, provavelmente, o filho mais velho de Oezalces, por sua vez, o parente mais velho por ocasiao da morte de Gaia, o lider massilo entao). Quando Capussa morre, somos informados pelas fontes textuais que a ordem das coisas e momentaneamente subvertida, pois quem ascende e um irmao de Capussa, Lacumazes, ainda uma crianca. Massinissa tem que guerrear para obter o lugar que seria seu por direito, visto que, entao, ele passa a ser o familiar mais velho. Lacumazes igualmente morre e, assim, nos perguntamos se a escolha iconografica da cunhagem de Massinissa nao teria a intencao de reafirmar a sua legitimidade enquanto herdeiro. Assim sendo, o segundo tipo de reverso das moedas de Massinissa, o elefante (tipo 8) ganha novas conotacoes. Este seria, definitivamente, um simbolo da vitoria de Massinissa em Zama.

Capussa foi identificado como um dinasta dos massilos ocidentais porque, em 207 a.C., Sifax estava ativo e possuia Cirta, na regiao oriental, dentro de seus territorios. Somente com as conquistas territoriais de Massinissa e que veremos o reino dos massilos se estender para o oriente da Berberia Central.

Mastenissa e Arabion reinaram na Numidia Ocidental enquanto Hiempsal II e Juba I estavam no poder na Numidia Oriental. A iconografia destes dois reis da Numidia Ocidental liga-se tanto a estas localidades quanto a suposta cunhagem de Hiarbas, o usurpador. Os tipos de anverso masculinos seriam os retratos dos reis (tipos 24 e 25, Arabion e tipo 26, Mastenissa). Estilisticamente seguem o retrato das moedas de Hiarbas. Se Hiarbas cunhou suas pecas em Tuniza, na costa oriental da Berberia, e possivel tentarmos estabelecer algum tipo de contato entre as suas cunhagens. No entanto, igualmente para esses reis nao possuimos achados monetarios que possam nos auxiliar a elaborar hipoteses de trabalho. As fontes textuais latinas e gregas tambem nao nos auxiliam, pois de acordo com os relatos, Mastenissa e Arabion apoiaram a causa de Pompeu, e Hiarbas a de Mario. Por que os massilos ocidentais teriam querido se apoderar da construcao imagetica do rosto do soberano getulo? Uma boa saida seria retirarmos a atribuicao a Hiarbas das pecas de cabeca masculina com cabelos longos e personificacao da Africa, e transferi-las para Mastenissa. Desse modo, Hiarbas ficaria sem cunhagem, mas nao seria o primeiro rei berbere a ficar, assim, despossuido.

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No que concerne aos reversos destas moedas de Mastenissa (tipo 27) e Arabion (tipo 28) acreditamos estar diante de duas iconografias locais. Os cachos de uva e os graos sao encontrados nas cunhagens contemporaneas de cidades como Gunugu, Timici, Camarata, Tamuda, Sala, Rusadir. Isto e, ao longo de toda a costa berbere (o sitio de Gunugu foi localizado na Berberia Central, proximo a Iol, e o de Sala, por exemplo, esta na costa atlantica, extremo oeste da Berberia Ocidental). A interpretacao imediata destas imagens diz respeito as condicoes basicas da vida social: agricultura, plantio, riqueza da terra. A imagem da divindade feminina velada que aparece nas moedas de Arabion, por outro lado, liga-se, em nosso entender, ao panteao local. Mais especificamente de Thabraca, pois uma legenda de reverso, em neo-punico, traz provavelmente o nome da cidade (TBRS). O simbolo de Tanit que aparece em algumas pecas de Arabion, no anverso, e, em nossa opiniao, uma contramarca e nao deve ser lido a partir de uma possivel conexao com a divindade do reverso. Praticamente desconhecemos a construcao imagetica da propria figura de Tanit entre os punicos (afora os atributos crescente, simbolo de Tanit--com ressalvas--, e caduceu, os quais aparecem profusamente nas moedas cartaginesas, punicas e neo-punicas nao possuimos qualquer imagem fisica da divindade, de modo que nao podemos associa-la a figura velada do reverso de Arabion).

A cunhagem de Arabion comporta ainda uma legenda de dificil leitura, em neo-punico, colocada ao redor do campo monetario: Balmuzelan, filho de Cabirzo, filho de Muzelan (?). Acreditamos estar diante, talvez, de uma referencia ao moedeiro responsavel pela cunhagem. De maneira analoga as longas inscricoes da Republica Romana, as quais muitas vezes tomam boa parte da face monetaria, teriamos aqui um rarissimo exemplo de uso tao extenso da lingua punica em uma moeda.

A partir dos dados que apresentamos acima, sobre as dinastias numidas de Jugurta a Arabion, cremos ser possivel estabelecer alguns fatos importantes para o entendimento das transformacoes na cunhagem real entre os berberes. Mesmo tendo cunhado em ouro e prata (confirmando-se a atribuicao das moedas de Jugurta e Hiempsal II, o que parece nao ser a tendencia), os reis, atraves dos dados que a iconografia monetaria nos fornecem, nao mais nos parecem deter o mesmo poder guerreiro, do agellid. Jugurta moveu uma guerra local forte o suficiente para chamar a atencao de Roma e faze-la mobilizar suas forcas militares. Mas nao encontramos nos vestigios numismaticos a mesma repercussao. A cunhagem parece ter sido usada enquanto meio de afirmacao politica muito claramente com Sifax e Massinissa, mas nao tanto com Jugurta e Hiarbas. A cunhagem de Hiempsal II, ao contrario, se destaca, tanto iconograficamente quanto pela riqueza das denominacoes, mas com um outro carater, o da riqueza da terra (divindades com com graos) e nao tanto da forca guerreira (na verdade foram os romanos que subjugaram Hiarbas, o uso da Vitoria, mesmo sendo de origem grega, e da coroa de louros parece-nos "inconscientemente" declarar o verdadeiro vencedor). Por outro lado, os reinos massilos do Ocidente demonstram uma total sujeicao a sociedade urbana e a imagistica regional. Fica claro nesses ultimos que, apesar da manutencao da legenda especificamente designando-o como "pessoa real", o rei numida nao possui o mesmo poder dos seus pares orientais. A questao nao resolvida da posse da terra entre os berberes volta com forca aqui. Hiempsal II, Mastenissa e Arabion, em ultima instancia, sao os unicos a apregoarem produtos agricolas, nao militares, em sua iconografia monetaria. A sujeicao a iconografia local, das cidades, insere tanto a apreensao da mensagem iconografica quanto a circulacao monetaria dentro de limites fisicos especificos. A nao ser que venhamos a encontrar, em escavacoes arqueologicas e em noticias esporadicas, dados que nos permitam estabelecer uma vasta rede de trocas monetarias entre os reis (os territorios dos reinos mouros comecavam no rio/oued Ampsaga, isto e, na fronteira com os massilos do Ocidente) e entre as cidades, em nosso entender, Mastenissa e Arabion foram mais provavelmente chefes menores do que reis berberes autenticos. Ainda que devamos sustentar a classificacao de rei e a existencia de uma divisao no reino numida a partir de Hiempsal II, em razao das legendas monetarias de Mastenissa e Arabion.

Juba I

Ate o momento, isto e, meados do seculo I a.C., podemos afirmar que a cunhagem dos reis berberes esta inserida, economica e culturalmente, em ambiente punico. As legendas sao sempre em escrita punica, bem como as contra-marcas, e os sistemas metrologicos igualmente sao punicos. A partir de Juba I, veremos uma mudanca radical deste quadro. A Guerra Civil, entre Cesar e Pompeu, tomou proporcoes grandes o suficiente no Norte da Africa, de sorte a levar a emissao de moedas na propria Africa, pelos dois lados. Uma quantidade razoavel de denarios (incluindo alguns quinarios) foram batidos por Metelo Pio e Cato, em 47/6 a.C. (RRC 459-462), e tambem, provavelmente, pelos partidarios de Cesar (RRC 458). Conforme mencionamos acima, os numismatas acreditam que somente neste momento foram cunhadas pecas reais berberes em metal nobre (Burnett 1987: 176). Apesar de termos mantido, com ressalvas, as atribuicoes de moedas a Jugurta e Hiempsal II, concordamos que a cunhagem em prata de Juba I foi batida para ajudar a causa pompeiana. Possuimos inumeras noticias de achados monetarios com moedas de Juba I, encontrados no Mediterraneo setentrional (da cunhagem de Juba I estavam representadas apenas seus denarios). (21) Estas noticias sao datadas, em geral, de meados do seculo I a.C., de modo que a emissao do numerario de prata deste rei e igualmente datada do final de seu reino (Juba morre em 46 a.C.). Assim entre 47/46 a.C. Juba I empreende um grande esforco na producao de seu numerario de prata.

Estas emissoes em prata demonstram, no que toca aos metais nobres, a adequacao economica africana ao sistema romano. Os denarios de ambos, romanos e de Juba I, podiam ser utilizados em transacoes comuns, como o seu entesouramento conjunto em dezenas de exemplos assim o comprova. (22) Iconograficamente as moedas de Juba I ligamse tambem a Roma. Elencamos cinco tipos de anverso (29 a 33) e cinco de reverso (34 a 38). As legendas, em punico e em latim, aparecem uma de cada lado. No anverso, REX IVBA ("Rei Juba") e, no reverso, SYWB'Y HMMLKT ("A pessoa real de Juba").

Os tipos iconograficos de Juba apesar de se aproximarem fortemente da imagetica republicana romana (anverso: tipos 29--cabeca de Africa; tipo 30--templo octostilo; tipo 31- busto alado de Vitoria; reverso: tipo 34- palacio; tipo 35--templo octostilo), mantem ainda lacos com a iconografia monetaria real berbere ate aqui descrita (anverso: tipo 32- busto de Juba com os tipicos cabelos encaracolados e barba pontuda numidas; reverso: tipo 36--leao caminhando; tipo 37--elefante caminhando; tipo 38--cavalo livre galopando). Afora estes, temos pela primeira vez a cabeca de Amon (tipo 33) como tipo principal de anverso. Outro dado pertinente e o fato de as moedas de prata trazerem as legendas duplas e as de bronze nao, apenas em punico.

Com relacao ao retrato, Juba I e um dos poucos soberanos numidas com os quais podemos fazer estudos comparativos a partir de diferentes suportes de figuracao: moeda e escultura. Ha, com efeito, uma cabeca em marmore, atualmente no Museu de Cherchel (Fig. 7), que representa o retrato deste rei. Nos dois documentos, escultura e denarios batidos em Utica pouco antes do desembarque de Cesar na Africa, vemos os mesmos cabelos encaracolados e a barba cheia, igualmente crespa. (23) Encontramos nessa cunhagem "romana" do rei numida um primeiro simbolo africano, o penteado berbere, que conforme mencionamos ao falar do cavaleiro numida, e um traco etnico. No entanto, ao mesmo tempo em que se apresenta enquanto berbere, Juba manda gravar uma legenda em latim, no nominativo, que e tipicamente romano, e nao no genitivo, que seria tipicamente grego (Bertrandy 1980: 12). Alem disso, todos os soberanos numidas tiveram suas legendas designativas gravadas no reverso (de fato, a versao em punico do titulo real aparece nos reversos desse mesmo tipo monetario com o retrato). Estas pecas apresentam uma grande novidade na numismatica numida: construcoes. A primeira e um templo octostilo (tipos 30 e 35). As colunas, agrupadas de quatro em quatro, estao sobre um podio. No centro, uma entrada pode ser vista, inclusive o acesso, o qual e feito por quatro degraus (neste espaco foram colocadas contra-marcas diferentes para cada serie, um, dois ou tres globulos). O entablamento horizontal sustenta uma edicula de dimensoes reduzidas. Esta e coberta por um telhado de duas aguas, e em frente deste, um frontao. Bertrandy chama a atencao para o fato de que este frontao nao e tipicamente greco-romano, pois ele nao cobre todo o entablamento.

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A segunda e um palacio (tipo 34), edificio cujo centro e composto por uma fachada pentastila. Tres atlantes, separados uns dos outros por duas colunas sobre base, sustentam um entablamento no qual aparecem tres nichos, ornados com esculturas, e limitados por colunas jonicas.

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A. Bertrandy propoe, baseando-se apenas em documentacao textual mencionando construcoes em capitais berberes, que vejamos nestas representacoes monumentos numidas do tempo de Juba (1980: 13). Ja E. Acquaro elabora uma comparacao entre estas construcoes e os monumentos das cidades fenicias dos emporia (Acquaro1983, apud Manfredi 1995: 199). Posteriormente, Bertrandy rende-se as evidencias. Por um lado, a organizacao social berbere se refletia em estruturas urbanas e arquitetonicas especificas (sao as kasbas, as aldeias, os santuarios a ceu aberto--cf. G. Picard 1954: 6), as quais nao foram ainda arqueologicamente estudadas. Por outro, apesar dos avancos feitos nas pesquisas de arqueologia punica, conhecemos a grande arquitetura cartaginesa mormente atraves de outros exemplos, textuais e arqueologicos, como representacoes em estelas. De modo que a aproximacao dos tipos iconograficos de Juba I a hipoteticas construcoes numidas nao se sustenta. O mesmo vale para a iconografia dos grandes bronzes deste rei, que nao foram batidos no sistema ponderal romano, como a prata foi. Estas pecas lembram os grandes bronzes e chumbos de Massinissa, e os ultimos bronzes de Cartago (sao moedas de modulo grande--37 mm--e peso alto--52 g). Nestes, ao templo octostilo, no anverso, corresponde o palacio dos atlantes no reverso (tipos 30 e 34). Bertrandy busca, entao, na cunhagem da Roma republicana, rica em tipos semelhantes, isto e, na figuracao de construcoes publicas, religiosas e adminstrativas, os possiveis modelos para os tipos de Juba I.

Bertrandy elencou como candidatos a Villa Publica e a basilica Aemilia, as quais aparecem em denarios de prata de 55 a.C. e 61 a.C. (RRC 429/2a e 419/3b) (Bertrandy 1980: 14). Entretanto, trata-se de aproximacoes, nao podemos assumir que Juba I tivesse tido acesso a essas cunhagens especificas e que as tivesse imitado.

Acreditamos que um jogo de imagens africanas se contrapondo a outro de romanas foi utilizado por Juba I. Uma outra serie dos grandes bronzes, por sua vez, traz figurados dois elementos africanos: cabeca de Amon no anverso e elefante no reverso, com legenda em punico (tipos 33 e 37). A cabeca de Amon e novidade na iconografia, mas o culto desta divindade era ja muito antigo no Norte da Africa. Plinio, o Velho (V, 31) menciona um oraculo de Amon, a c. 500 km de Cirene, no oasis de Syouah, na Libia atual, e PseudoCilax assinala um santuario de Amon proximo as Arae Philaenorum, isto e, na fronteira entre o territorio grego e o punico, igualmente na Libia atual (Periplo, 109, G.G.M. I: 85, apud Desanges 1980: 351). Grupos indigenas berberes, como os nasamoes, estiveram associados a seu culto (Kormikiari 2000: 21116). Em seu acurado estudo do Saturno africano e sua associacao com Baal Hammon, M. Le Glay apontou para dados que levam a interpretacao que igualmente o Baal fenicio teve seu culto e imagem sincretizados na figura de Amon (Le Glay 1960-1966, apud Manfredi 1995: 163). Isto e, para uma serie com iconografia essencialmente romana, e de circulacao garantida (a nao ser que tenha sido utilizada enquanto "medalhao de prestigio", no seio da hierarquia berbere), segue outra duplamente africana. De maneira analoga, as moedas de prata com anverso de Vitoria tem o cavalo livre no reverso (tipos 31 e 38); e a cabeca de Africa, no anverso, aparece com o leao, no reverso (tipos 29 e 36).

No entanto, estas pecas sao as divisionarias e nao foram encontradas nos achados monetarios que elencamos acima. Isto e, as pecas que mais estiveram em circulacao, essencialmente porque foram usadas para a paga dos exercitos, sao as que trazem o retrato de Juba I e a legenda em latim, no anverso, e o templo octostilo e legenda em punico, no reverso. Talvez Juba efetivamente quisesse estampar uma imagem de grande rei edificador. E possivel que o avanco das pesquisas arqueologicas consiga, eventualmente nos esclarecer sobre o significado verdadeiro do termo "capital" berbere, que as fontes apresentam.

O ultimo grande agellid numida, Juba I, foi morto em 46 a.C. a mando de Cesar.

Acreditamos

poder visualizar o "nacionalismo" que as fontes assinalam com relacao a Juba I tanto em suas cunhagens, quanto no seu apoio a Pompeu. Conforme discutimos acima, a posse das terras, no nosso entender, esteve intrinsecamente ligada aos apoios que os reis numidas concederam aos partidos romanos em disputa.

A medida que o processo de penetracao romana se intensifica na Berberia, inclusive atraves das guerras internas travadas em solo africano, os reis berberes criam mais tipos e tornam mais elaboradas suas cunhagens, alem de passarem a utilizar, paralelamente a lingua "oficial" do Norte da Africa (punico e neopunico), o latim, afinal o essencial de uma iconografia monetaria e conseguir passar a mensagem pretendida. Acreditamos que os reis berberes mantiveram constante o discurso independencia e autonomia, em suas moedas, adequando-o--afinal eles foram tanto agentes quanto pacientes do processo que se desenrolava ao seu redor--as mudancas politicas e consequentemente culturais que se seguiram na regiao a partir da queda do imperio cartagines.

Conclusoes

O primeiro rei a cunhar, Sifax, o faz ainda quando Cartago era uma potencia, mas ja abalada pelas Guerras Punicas. A escolha dos tipos iconograficos de Sifax, retrato do rei e cavaleiro, demonstra fortemente o seu intuito propagandistico, e mais alem, insere-se no contexto cultural e politico do mundo helenistico. Tanto Sifax, como Massinissa que o suplantou (e seus sucessores), tiveram que sustentar seu poder frente as populacoes da Berberia: sedentarios e semi-nomades. Entre estes havia as "elites", os chefes berberes menores e os cartagineses e libifenicios. Neste contexto, tanto a iconografia quanto o esforco de producao monetaria dos primeiros reis numidas ganha coerencia. Inicialmente as moedas de Massinissa sao devedoras do sistema ponderal cartagines e igualmente de sua iconografia. Nesta iconografia foram mantidas as inovacoes elaboradas por Sifax--o retrato e o imaginario guerreiro. No entanto, Massinissa toma posse do simbolo maior do poder cartagines, o cavalo (ou entao simplesmente copia a atitude que havia sido de Capussa, mas sempre com a intencao de auto-afirmacao). A cunhagem de Massinissa, tao calcada na cartaginesa, utilizou da simplicidade e da repeticao simbolica (retrato do rei/cavalo galopando), para marcar seu territorio.

O vasto raio de penetracao da cunhagem de Massinissa, nesse sentido, como vimos pelas noticias da circulacao monetaria, demonstra que estas pecas foram aceitas e utilizadas para alem do periodo de reino deste rei e seus sucessores, o que nao ocorreu, aparentemente, com os ultimos reis numidas, com excecao, talvez, de Juba I. A imagem do cavalo e, assim, um dos elementos mais fortes da cunhagem real numida de Massinissa e seus sucessores (Micipsa supostamente ficou no poder por quase 30 anos, de 148 a 118 a.C.). Ela sustenta a hipotese de que o poder real era sustentado pela forca guerreira do soberano.

Por outro lado, mesmo tendo cunhado em ouro e prata, os reis numidas que se seguiram, atraves dos dados que a iconografia monetaria nos fornecem, nao mais nos parecem deter o mesmo poder guerreiro, do agellid. Como vimos, Jugurta moveu uma guerra local forte o suficiente para chamar a atencao de Roma e faze-la mobilizar suas forcas militares. Mas nao encontramos nos vestigios numismaticos a mesma repercussao. A cunhagem de Hiempsal, ao contrario, se destaca, tanto iconograficamente quanto pela riqueza das denominacoes, mas com um outro carater, o da riqueza da terra e nao tanto da forca guerreira. O exemplo dos reinos massilos do Ocidente e o mais significativo. Suas cunhagens demonstram uma total sujeicao a sociedade urbana e a imagistica local. Fica claro nesses ultimos que, apesar da manutencao da legenda especificamente designando-o como "pessoa real", o rei numida nao possui o mesmo poder dos seus pares orientais. Hiempsal II, Mastenissa e Arabion, em ultima instancia, sao os unicos a apregoarem produtos agricolas, nao militares, em sua iconografia monetaria. Mas Hiempsal II supostamente propagandeava suas riquezas pessoais, se ele efetivamente era o dono das terras, ou coletivas, se estas eram trabalhadas a partir de relacoes de reciprocidade. Ja os massilos ocidentais, aparentemente, apenas se sujeitaram a iconografia local.

Juba I, por outro lado, aparece como o derradeiro rei numida de fato. Sua cunhagem de prata provavelmente foi patrocinada pelos romanos. De qualquer forma ele so emite em bronze ate c. 47/46 a.C., quando entao bate denarios em Utica para Pompeu. No entanto, tanto o numerario de prata quanto o de bronze elaboram um sofisticado jogo entre o imaginario romano e o africano. Principalmente sua caracterizacao pessoal, nos anversos, com a tipica cabeleira numida, representa uma propaganda pessoal muito forte. Lembramos que e justamente nas pecas de prata que este retrato aparece e nao nas de bronze. Os achados monetarios do Mediterraneo setentrional demonstram que a intencao era a de difundir a propaganda pessoal para alem da Berberia.

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Recebido para publicacao em 12 de setembro de 2007.

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(1) A palavra Maghreb, de origem arabe, atualmente usada para designar a regiao ocidental do Norte da Africa, significa literalmente "o tempo e o lugar do por-do-sol--o oeste". Para os conquistadores arabes representava a regiao que era "a ilha do oeste", isto e, a terra entre o "mar de areia"--o deserto do Saara--e o Mar Mediterraneo. Esta designacao abrange as atuais Tripolitania, Tunisia, Argelia e Marrocos.

(2) Nas atuais Argelia, Tunisia e Marrocos temos exemplos destes contatos para o periodo do Ferro e do Calcolitico (ver Camps 1960: 127-145).

(3) O uso da palavra berbere, descrevendo os habitantes indigenas do Maghreb, surge no seculo VII d.C. com a chegada dos arabes na regiao. E possivel que a palavra tenha se originado a partir de uma corruptela da palavra latina barbari. Durante o periodo de ocupacao colonial europeia sedimentou-se como denominacao dos habitantes locais originais. Apesar de poder ser considerada anacronica foi adotada pela historiografia moderna para designar os habitantes autoctones, visto que foi este o sentido dado a ela pelos arabes. De maneira analoga, a historiografia denomina Berberia o Maghreb, identificando tres areas distintas: Berberia Ocidental (Marrocos e Argelia ocidental); Berberia Central (Argelia central) e Berberia Oriental (leste da Argelia e Tunisia).

(4) A falta de uma precisao espacial estabelecida pelos dados materiais, costuma-se utilizar, para a analise do padrao de assentamento dos berberes, dados retirados das fontes textuais. De maneira geral, percebemos o uso indiscriminado de termos significando aldeia e/ou vilarejo: castellum (Salustio, Jug., LIV, 6; LXXXVII, 1; Bell. Afric., II, 6; Vi, 6; Tito-Livio, XLII, 23; Justino, XXII, 5, 5; e outros), vicus (Tito-Livio, XXIX, 30, 7) e chomi (Apiano, Lib., 12). O termo oppidum, que por vezes acompanha castellum, e interpretado como designando cidades fortificadas (Tito-Livio, XLII, 23).

(5) Sao conhecidos, a partir das fontes textuais e epigraficas, 26 reis berberes. No entanto, nem todos possuem cunhagem propria identificada. O dado negativo, aqui, nao significa, necessariamente, que estes reis nao emitiram numerario, e sim, que suas moedas ou perderam-se ao longo dos seculos ou ainda nao foram recuperadas arqueologicamente. Apresentamos, neste artigo, as moedas da dinastia mais duradoura e poderosa, a dos numidas.

(6) Apesar de crermos em uma centralizacao lassa, a emissao de numerario proprio e o dado mais significativo da transformacao das chefias nessa sociedade berbere tribal. Lembramos que a moeda tem como caracteristica principal a de ser um produto oficial, garantido pelo estado ou governo que a cunhou. Na Antiguidade, na imensa maioria das vezes (as excecoes ocorreram em momentos especificos, de crise politico-economica profunda), ela possui um valor intrinseco, e e esse valor que e garantido pelo poder emissor.

(7) Incluindo o usurpador Hiarbas, que se acredita ter sido, provavelmente, de origem getula, grupo berbere habitante da zona meridional do Maghreb (Kormikiari 2000: 189-225).

(8) Os dois ultimos reis numidas, Arabion e Juba I, ficaram do lado dos pompeianos. Na opiniao de T. Kotula (1976: 339), Cesar agia a luz do carater cada vez mais expansionista da Republica Romana e teria seguido, de maneira geral, a linha do partido dos populares, e no que toca as questoes norte-africanas, a politica marianista.

(9) Parte das ponderacoes ora apresentadas aparecem em nosso artigo "O rei berbere e seu aparato iconografico: o testemunho monetario", em A linguagem das moedas: tres leituras sobre iconografia numismatica, 19o Encontro Internacional Imagem e Ciencia. CNRS--Centro Nacional de Pesquisas Cientificas / Franca e Museu Paulista da Universidade de Sao Paulo, 2003, p. 33-58.

(10) As moedas na Antiguidade, de modo geral, eram cunhadas a martelo. Podemos afirmar que, em media, de 5 a 10 mil moedas eram produzidas por cada cunho de anverso, e de 30% a 50% a menos para cada cunho de reverso.

(11) O tipo 2 e composto por um retrato de homem com os cabelos ondulados e enfeitados por um diadema. G. Picard assinala que este tipo de penteado e o proprio diadema sao atributos essenciais da composicao imagetica dos reis helenisticos (Picard 1983-1984: 77).

(12) Um renomado numismata espanhol, L. Villaronga, realizou uma analise especifica destas moedas e, em sua opiniao, elas representam diferentes imagens do Heracles de Gades, antiga colonia fenicia localizada no extremo oposto de Lixus (Villaronga 1973, apud Picard 1983-1984: 76-77).

(13) J. Mazard identificou tres retratos diferentes, mas todos sao rostos jovens, imberbes, com cabelos curtos presos por um diadema. E possivel visualizar o manto drapeado em seu colo. Este tipo de retrato nao aparece na cunhagem republicana da epoca.

(14) Este autor propoe que a cunhagem de Vermina tenha sido batida enquanto este comandava os exercitos de Sifax, entao prisioneiro dos romanos (Camps 1960:190).

(15) Massinissa emite apenas em bronze e chumbo, por vezes coberto com cobre. As pecas em chumbo sao todas posteriores aos bronzes legendados. Apesar do pessimo estado de conservacao parecem portar sempre a legenda MN (Massinissa). A raridade de ligacao de cunho (que avalia a quantidade de cunhos utilizados em uma emissao, e, consequentemente, o numero de pecas produzidas) leva a crenca de que a emissao desse numerario tenha sido consideravel (Gerin 1989: 510).

(16) Tiddis e uma localidade nos arredores de Constantina (antiga Cirta), na qual foram encontrados importantes documentos berberes, notadamente vasos ceramicos e moedas de Massinissa e seus sucessores. A area ao redor desta antiga aldeia massila (onde coabitavam, provavelmente, varios grupos numidas alem dos massilos) e rica em bazinas (grandes estruturas funerarias circulares protohistoricas, tidas como sepulturas de chefes berberes) (Camps 1960: 43, 144).

(17) Na opiniao dos pesquisadores do santuario de ElHofra, em Cirta (Constantina), que analisaram a iconografia das estelas punicas deste, o elefante de Massinissa estaria ligado aos ritos do simbolo solar, ao mesmo tempo em que estaria consagrado a Eternidade (Berthier & Charlier 1952: 198, apud Voisin 1983: 32).

(18) Cesar vai bater denarios na Africa, em 46 a.C., nos quais ele manda colocar no anverso a figura de Ceres, simbolizando a carga anual de trigo que ele havia conseguido garantir para Roma (Perez 1989: 96).

(19) A pele de elefante (exuviae elephantis) e o leao sao considerados atributos da dea Africa sob o Imperio por M. Le Glay (1964, apud Voisin 1983: 34).

(20) Denarios batidos em Roma, em c. 56 a.C., recuperam a memoria dessa guerra. O anverso traz a imagem de Diana e o lituus, o bastao dos que praticavam os augurios (relambrando, aqui, o sacerdocio exercido por Sila). No reverso, Sila aparece sentado em posicao de magistrado romano (em uma cadeira curul e com sua toga), de cada lado ha um personagem: a esquerda, Boco I, rei da Mauritania, decretado amicus populi Romani, estende ao ditador um ramo de oliveira; a direita, Jugurta, rei do numidas, cabeca abaixada e maos presas as costas, demonstra pela sua atitude, sua aflicao e sua derrota. O ramo de oliveira, o qual Boco estende a Sila, evoca a oferenda do ramo simbolico em ouro, consagrado por este rei ao Capitolio (Perez 1989: 76).

(21) A listagem completa foi compilada em Kormikiari 2000: 282, nota 42.

(22) Um raro achado monetario romano contendo sestercios de prata, encontrado na Berberia oriental, em Tunis, demonstra claramente este intercambio (Caronni 1805, apud Burnett 1987: 183).

(23) Cicero teria ficado surpreendido com essa vasta cabeleira, tao diferente do modelo romano, ao encontrar Juba I em Roma (Cicero, De lege agraria, II, 22, 59, apud Mazard & Le Glay 1958: 15).

KORMIKIARI, M.C.N. Norte da Africa na antiguidade: os reis berberes numidas e suas iconografias monetarias. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, Sao Paulo, 17: 251-292, 2007.

Maria Cristina Nicolau Kormikiari *

(*) Museu de Arqueologia e Etnologia. Pesquisadora do Laboratorio de Estudos da Cidade Antiga--LABECA. Professora de Arqueologia ligada ao Archeologos. tanit@usp.br
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Author:Kormikiari, Maria Cristina Nicolau
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jan 1, 2007
Words:21204
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