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New records of Callicebus cinerascens (Spix, 1823) with an extension of its geographical distribution/Novos registros com uma extensao da distribuicao geografica de Callicebus cinerascens (Spix, 1823).

O zogue-zogue cinza escuro, Callicebus cinerascens (Spix, 1823), atualmente alocado no grupo de especies Callicebus moloch, subgenero Callicebus (sensu Groves, 2005 e Silva Junior et al., no prelo) e uma das especies menos estudadas entre os primatas neotropicais. Observa-se a existencia de um equivoco historico no reconhecimento da identidade deste taxon. Spix (1823) havia assinalado como origem geografica do mesmo a regiao do rio Putumayo/Ica, tributario a esquerda do rio Solimoes. Contudo, Rylands (1982) e Hershkovitz (1988, 1990) reconheceram o fenotipo descrito por Spix (1823) como pertencendo a um taxon so encontrado na Amazonia central, a leste do rio Madeira. De acordo com Hershkovitz (1988, 1990) e van Roosmalen et al. (2002), os caracteres diagnosticos deste taxon incluem uma coloracao acinzentada a enegrecida em quase toda a pelagem, com uma mancha contrastante agouti-avermelhada ou castanha no meio do dorso.

A distribuicao geografica conhecida restringe-se ao interfluvio Madeira-Tapajos, mais precisamente entre os rios Tapajos-Juruena e Aripuana-Roosevelt-Madeira (Hershkovitz, 1988, 1990; van Roosmalen et al., 2002; Noronha et al., 2007; Veiga et al., 2008). As primeiras observacoes nesta regiao foram feitas por Rylands (1982) ao longo da margem direita dos rios Aripuana e Roosevelt. Ferrari et al. (2000) haviam indicado que a distribuicao de C. cinerascens se estenderia ate os limites entre os estados de Rondonia e Mato Grosso, fixando o registro mais meridional desta especie na margem direita do rio Cabaxi. Contudo, as observacoes de Ferrari et al. (2000) nao foram consideradas nos mapas de distribuicao apresentados por Hershkovitz (1988, 1990) e van Roosmalen et al. (2002). van Roosmalen et al. (2002) efetuaram uma serie de novos registros na margem direita dos rios Roosevelt, Aripuana e Madeira, e tambem na margem esquerda do rio Canuma, considerando este ultimo como representando o limite oriental da distribuicao de C. cinerascens. Posteriormente, Noronha et al. (2007) estabeleceram uma nova serie de registros a leste do rio Canuma, estendendo a distribuicao geografica desta especie ate a margem esquerda dos rios Tapajos e Juruena.

Apesar dos avancos consideraveis neste conhecimento, o mapa da distribuicao geografica de C. cinerascens, atualizado pela IUCN (Veiga et al., 2008), indica que os limites no sudeste da distribuicao geografica desta especie ainda sao imprecisos. No presente estudo, sao estabelecidos dez novos registros de C. cinerascens, expandindo os limites ao sul e sudeste de sua distribuicao geografica ate a fronteira sul do bioma Amazonia, nos estados de Mato Grosso e Rondonia. Sao apresentadas tambem algumas consideracoes sobre o estado de conservacao desta especie na area investigada.

Os novos registros apresentados neste trabalho foram obtidos em quatro inventarios independentes sobre a comunidade de primatas de cada area estudada nos estados de Mato Grosso e Rondonia (Fig. 1). Nesta regiao, a vegetacao natural e composta por florestas tropicais umidas, florestas de transicao e manchas de cerrado nas porcoes mais meridionais (RADAMBRASIL, 1978; Daly e Prance, 1989). Contudo, as atividades humanas nas ultimas decadas alteraram significativamente esta paisagem.

Para a coleta de dados, foi utilizada a metodologia da transeccao linear (MTL) (Cullen Jr e Rudran, 2003) nos sitios #1 e #3. Foram registradas a distancia animal-transeccao linear, o horario e altura dos primatas avistados. Devido ao reduzido numero de avistamentos registrados (< 30) nao foi possivel o calculo da densidade populacional nestes sitios, porem um indice de abundancia relativa foi calculado para as especies detectadas ao longo de rotas regulares de censo (numero de individuos/10 km), considerando censos diurnos e habitats terrestres. Nos sitios #2 e #4 os registros de primatas foram realizados por meio de buscas aleatorias.

O primeiro sitio estudado foi o Parque Nacional do Juruena (Sitio #1: 08[degrees]54'S, 58[degrees]33'W), uma Unidade de Conservacao Federal nos estados do Amazonas e Mato Grosso. Os registros foram feitos em novembro de 2007 e fevereiro-marco de 2008. Todas as transeccoes se localizavam proximo as margens de rios e cobriam um gradiente de varzea e terra-firme. O esforco de amostragem total foi de 52 km.

[FIGURE 1 OMITTED]

O segundo sitio estava localizado no municipio de Brasnorte (Sitio #2: 12[grados]32'S, 57[grados]52'W), Mato Grosso. Entre fevereiro e junho de 2009, foram feitas varias incursoes nos fragmentos florestais ao redor da Pequena Central Hidreletrica Bocaiuva. Um chamariz (playback) com vocalizacoes de Callicebus (Emmons et al., 1998) foi utilizado para facilitar as buscas. O esforco de amostragem foi de 456 km.

O terceiro sitio estava localizado entre as cidades de Vila Bela da Santissima Trindade e Pontes e Lacerda (Sitio #3a: 59[grados]37'W, 15[grados]01'S; Sitio #3b: 59[grados]57'W, 14[grados]50'S), Mato Grosso. Foram feitos registros em duas transeccoes de 5 km atraves da metodologia Rapeld (Magnusson et al., 2005), entre novembro e dezembro de 2009. O esforco de amostragem foi de 75 km.

O quarto sitio estava localizado no municipio de Vilhena (Sitio #4: 13[grados]01'S, 60[grados]30'W), Rondonia. Em abril de 2010, foram realizadas buscas aleatorias ao longo de estradas/ramais, e no interior e borda de fragmentos florestais dentro da fazenda Nossa Senhora de Lourdes. O esforco de amostragem foi de 15 km.

As identificacoes de C. cinerascens foram baseadas nas figuras e caracteres diagnosticos descritos na literatura. Esta especie foi fotografada na natureza pela primeira vez (Fig. 2), com imagens obtidas nos quatro sitios de pesquisa. Estas imagens foram utilizadas para confirmacao das identificacoes atraves de comparacao direta com dois especimes de C. cinerascens da colecao do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia (INPA 4085 e 5682). Todos os individuos observados apresentaram uma coloracao acinzentada escura em quase toda a pelagem, com uma mancha castanhoavermelhada na porcao distal da linha mediana do dorso.

No Sitio #1, C. cinerascens foi registrado em seis locais (Tabela 1; Fig. 1; Sitio #1af), totalizando 10 avistamentos. A abundancia relativa da especie foi de 1,91 individuos a cada 10 km. Nesta area, as distribuicoes de C. cinerascens e C. moloch estao claramente separadas pelo rio Juruena, com esta ultima sendo registrada a direita dos rios Tapajos e Juruena. Um macho adulto de C. cinerascens foi coletado no Sitio #1, sendo depositado na colecao de mamiferos do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG-41235). No Sitio #2, C. cinerascens foi registrado proximo ao rio Cravari, um afluente de segunda ordem do rio Juruena (Tabela 1; Fig. 1; Sitio #2). Em um fragmento florestal de 306 ha, localizado na margem direita deste rio, foram observados tres grupos, um com sete individuos (seis adultos e um juvenil), outro com tres adultos, e outro com 12 individuos (nove adultos e tres juvenis). C. cinerascens, no entanto, pode ocorrer tambem alem da margem direita do rio Cravari, pois vocalizacoes de Callicebus sp. foram registradas em area de vegetacao com influencia aluvial na margem esquerda deste rio. No Sitio #3, na primeira transeccao (Tabela 1; Fig. 1; Sitio #3a), somente vocalizacoes foram ouvidas, assumimos que estas vocalizacoes sao de C. cf. cinerascens, porem confirmacoes visuais ainda sao necessarias. Na segunda transeccao, no interior de uma floresta (campinarana) de galeria presente em ambas as margens do rio Guapore (Tabela 1; Fig. 1; Site #3b), cinco vocalizacoes foram ouvidas e gravadas, e dois grupos de C. cinerascens foram observados, um com tres individuos (dois adultos e um juvenil) e outro com cinco (quatro adultos e um juvenil), resultando em uma abundancia relativa de 1,1 individuos a cada 10 km. De acordo com van Roosmalen et al. (2002), especies de Callicebus do grupo Moloch nao ocorrem em simpatria, desta forma, assume-se que as vocalizacoes ouvidas na primeira transeccao do Sitio #3 foram emitidas por individuos de C. cinerascens. No Sitio #4, C. cinerascens foi registrado somente em uma area (Tabela 1; Fig. 1; Sitio #4), por meio de vocalizacao tipica e observacao direta de um individuo adulto.

[FIGURE 2 OMITTED]

Os resultados do presente estudo ampliaram consideravelmente o numero de registros conhecidos para C. cinerascens, contribuindo para o estabelecimento de um corpo de dados capaz de auxiliar um estudo da distribuicao potencial desta especie atraves de modelagem. Os registros aqui apresentados tambem indicaram uma extensao consideravel da distribuicao geografica deste taxon, confirmando a sua presenca na margem esquerda dos rios Tapajos e Juruena (Sitio #1) e na regiao das cabeceiras do rio Roosevelt, mais precisamente na margem direita do rio Cabaxi (Sitio #4). Os dados aqui apresentados tambem estenderam esta distribuicao ate a margem direita do alto rio Guapore (Sitios #3a-b), assim como a uma area distando mais de 70 km a leste do alto rio Juruena (Sitio #2), no interior do interfluvio Juruena-Teles Pires. Os limites desta nova area de ocorrencia carecem de mais investigacoes, uma vez que os dados sobre a distribuicao de Callicebus nesta regiao ainda sao parcos. A descoberta de C. cinerascens nesta area indica que o interfluvio Juruena-Teles Pires abriga duas especies aparentadas, com C. moloch ocorrendo na margem direita do baixo Juruena. Esta ultima tambem ja havia sido registrada na margem esquerda do rio Teles Pires como testemunhado por dois especimes da colecao do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG-24590 e 24591), oriundos da regiao de Alta Floresta (Mato Grosso). As informacoes atualmente disponiveis sao insuficientes para se afirmar se os limites entre estas especies sao determinados por uma descontinuidade de paisagem como indicado por Ferrari et al. (2000) e van Roosmalen et al. (2002) para Rondonia, se coincidem com algum rio da regiao, ou se devem a exclusao competitiva entre taxons aparentados.

De acordo com Noronha et al. (2007), C. cinerascens ocorre em 16 areas protegidas nos estados do Amazonas e Mato Grosso. Atualmente, mais duas reservas podem ser somadas a lista: a Estacao Ecologica de Ique e a Estacao Ecologica do Rio Flor do Prado, ambas em Mato Grosso. No entanto, se a distribuicao geografica desta especie for maior do que o assumido aqui, outras reservas, como a Floresta Estadual Rio Mequens e o Parque Estadual Corumbiara (sudeste de Rondonia) tambem podem conter populacoes desta especie. Alem disso, existem fragmentos de floresta proximos a estas novas ocorrencias, representados por Terras Indigenas (TI), tais como as TI de Enawene Nawe, Nambiquara e o complexo de TI Paresi-Utlariti-Tlrecatinga, em Mato Grosso, e tambem TI menores, tais como as TIs Vale do Rio Guapore, Sarare e Irantxe/Manoki (Mato Grosso) e a TI Tubarao-Latunde (Rondonia), as quais podem tambem apresentar grande valor de conservacao para esta especie. Frente as altas taxas historicas de desmatamento nesta regiao (Fearnside, 2005), a sobrevivencia de populacoes viaveis em longo prazo, nao somente desta, mas tambem de outras especies de vertebrados que habitam os remanescentes florestais nao protegidos por lei, dependerao do grau de conectividade entre estes estes pequenos remanescentes de vegetacao e as grandes areas protegidas, como as Unidades de Conservacao e Terras Indigenas (Sampaio et al., 2010), bem como de efetivos planos de manejo e acao para a protecao da vida selvagem em toda a paisagem.

Recibido 26 setiembre 2011. Aceptado 28 diciembre 2011. Editor asociado: G Zunino

Agradecimientos. Ao IBAMA e ICMBio pelas autorizacoes para conduzir o estudo e a coleta no Sitio #1 (SISBIO #12171). Aos curadores das colecoes de mamiferos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonica (Maria Nazareth Ferreira da Silva) e Museu Paraense Emilio Goeldi (Suely Aparecida Marques Aguiar) por permitirem o exame dos especimes de C. cinerascens e C. moloch. Ao pesquisador Stephen Francis Ferrari, que gentilmente forneceu as coordenadas geograficas de seu registro de C. cinerascens e a DM Construtora de Obras Ltda., que forneceu apoio logistico no Sitio #2.

LITERATURA CITADA

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MAGNUSSON WE, AP LIMA, R LUIZAO, F LUIZAO, FRC COSTA, CV CASTILHO, VF KINUPP. 2005. Rapeld: A modification of the Gentry Method for biodiversity surveys in long-term ecological research sites. Biota Neotropica 5(2):1-6.

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Ricardo Sampaio (1), Julio C. Dalponte (2), Ednaldo C. Rocha (3), Robson O. E. Hack (4), Almerio C. Gusmao (5), Kurazo M. O. Aguiar (6), Adriana A. Kuniy (7), Jose de Sousa e Silva Junior (8)

(1) Colecoes Zoologicas & Coordenacao de Pesquisas em Ecologia, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia (INPA), CP 478, 69011-970, Manaus, Amazonas, Brasil [Correspondencia: <rcosampaio@ gmail.com>]. (2) Instituto para a Conservacao dos Carnivoros Neotropicais (PRO-CARNIVOROS), Atibaia, Sao Paulo, Brasil. (3) Universidade Estadual de Goias (UEG), Ipameri, Goias, Brasil. (4) Consultor Ambiental, Curitiba, Parana, Brasil. (5) Faculdade de Ciencias Biomedicas de Cacoal--FACIMED, Cacoal, Rondonia, Brasil. (6) Instituto de Pesquisas Cientificas e Tecnologicas do Estado do Amapa (IEPA), Macapa, Amapa, Brasil. (7) JGP Consultoria e Participacoes, Ltda., Sao Paulo, Sao Paulo, Brasil. (8) Coordenacao de Zoologia, Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), CP 399, 66040-170, Belem, Para, Brasil.
Tabela 1

Novos registros de Callicebus cinerascens.

Sitio #         Sitio            Coordenadas

1a        PN do Juruena (1)   8[grados]54'34"S
                              58[grados]33'29"W
1b        PN do Juruena (1)   8[grados]56'19"S
                              58[grados]33'41"W
1c        PN do Juruena (1)   8[grados]50'59"S
                              58[grados]28'19"W
1d        PN do Juruena (1)   7[grados]17'21"S
                              58[grados]10'41"W
1e        PN do Juruena (1)   6[grados]58'44"S
                              58[grados]21'58"W
1f        PN do Juruena (1)   6[grados]58'17"S
                              58[grados]23'40"W
2             Fragmento        12[grados]32'S
            florestal (2)      57[grados]52'W
3a            Fragmento        59[grados]37'W
            florestal (3)      15[grados]01'S
3b           Floresta de       59[grados]57'W
             galeria (4)       14[grados]50'S
4             Fragmento        13[grados]01'S
            florestal (5)      60[grados]30'W

Sitio #         Habitats         Metodo de deteccao

1a        Floresta semidecidua   Observacao direta
                 aberta               e coleta
1b        Floresta semidecidua   Observacao direta
                 aberta
1c        Floresta semidecidua      Vocalizacao
                 aberta
1d        Floresta semidecidua   Observacao direta
                 aberta
1e        Floresta semidecidua      Vocalizacao
            aberta com liana
1f        Floresta semidecidua   Observacao direta
            aberta com liana
2         Floresta semidecidua   Observacao direta
3a        Floresta semidecidua      Vocalizacao
3b            Campinarana        Observacao direta
4         Floresta semidecidua   Observacao direta
                /cerrado

(1) 1.9 milhoes de hectares; (2) 306 hectares;
(3) 400 hectares; (4) rio Guapore; (5) 1050 hectares.
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Author:Sampaio, Ricardo; Dalponte, Julio C.; Rocha, Ednaldo C.; Hack, Robson O.E.; Gusmao, Almerio C.; Agui
Publication:Mastozoologia Neotropical
Date:Jun 1, 2012
Words:2760
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