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Negociando o Destino dos Embrioes Humanos Produzidos na Reproducao Assistida: Criopreservacao, descarte, doacao e seus agentiamentos em uma clinica de Porto Alegre.

Introducao

A producao, manipulacao, preservacao e descarte de embrioes nunca foi um terreno tranquilo na reproducao assistida. Debates em torno da viabilidade e potencial de vida dos embrioes foram pautados dentro de circulos especializados e, em alguns contextos, tornaram-se tambem o ponto nevralgico das preocupacoes eticas da populacao leiga. Este artigo busca contextualizar, a partir da experiencia de pesquisa de campo, os diversos agenciamentos que situam os embrioes ora como uma substancia resultado de um grande investimento financeiro e emocional, ora como algo "descartavel" ou dispensavel. A discussao apresentada aqui sera conduzida a partir de uma breve revisao historica da fertilizacao in vitro e como se configurou ao longo de seu desenvolvimento a existencia de embrioes extranumerarios. Em seguida, exploraremos dos dados da producao e criopreservacao de embrioes no Brasil, comparando-os com os de outros paises e suas decisoes quanto a viabilidade de realizacao de pesquisas com embrioes. Tomamos a negociacao dos destinos possiveis dos embrioes a partir de uma abordagem etnografica que leva em consideracao o fator temporal para a elaboracao da viabilidade dos embrioes e do projeto parental neles inscrito. Nesse sentido, a negociacao do destino dos embrioes perpassa entendimentos do presente, passado e tambem de futuros possiveis. Parte desses futuros sao negociados a partir de uma disputa entre destinos "mais nobres": doacao para adocao ou pesquisa.

Fertilizacao In Vitro e Embrioes Extranumerarios

Quando retomamos a historia da reproducao assistida (RA), ela quase sempre se inicia no nascimento do primeiro bebe de proveta no Reino Unido--Louise Brown, em 1978. Desse emblematico caso muito se beneficiou a reproducao assistida, ja que esse foi o principal veiculo de propagacao da viabilidade dessas tecnicas. Acrescentam-se ai as controversias que relatam a corrida para a consagracao dos "pais" da FIV (fertilizacao in vitro)--os britanicos Edwards e Steptoe--e disputas acerca dos avancos e nascimento de outro bebe em 1978, dessa vez na India, com tecnica desenvolvida por Subhas Mukerji--que enfrentou inumeras imposicoes que impossibilitaram o reconhecimento de seus avancos e contribuicoes (BHARADWAJ, 2002). Retomamos a construcao da narrativa de desenvolvimento dessas tecnicas e controversias nelas muitas vezes invisibilizadas, pois acreditamos que essas politicas da ciencia dizem muito sobre os modos de agenciamento e relacoes de poder em que estao envoltas as praticas da RA. Desse modo, atentamos que os multiplos agenciamentos acerca do destino de embrioes sao disputas de poder, que envolvem aspectos tecnicos, cientificos, morais e governamentais.

Se a FIV foi uma tecnica resultado de uma corrida tecnologica, para compreendermos o seu salto no desenvolvimento das tecnologias reprodutivas, e preciso situar a centralidade da estimulacao ovariana e a passagem da manipulacao do material genetico de dentro para fora do corpo (STRATHERN, 1992). O desenvolvimento da embriologia e da estimulacao faz parte de um longo processo de experimentacao em mamiferos e sua transposicao tecnica para a reproducao humana (FRANKLIN, 2013). No entanto, foi a transicao do local de tratamento e intervencao que permitiu que novas possibilidades e agentes fizessem parte dessa esfera da reproducao. Com a passagem para fora do corpo e possivel que mulheres doem ovulos, como os homens doam esperma; e possivel que mulheres gestem bebes para outrem; e possivel analisar geneticamente os embrioes produzidos e criopreservar os excedentes (2). A possibilidade de doar ovulos e gestar para outrem criam na RA o que Cooper e Waldby (2014) chamam de "clinical labor". Trata-se do trabalho, em contexto clinico, de doadores de tecidos, como os gametas, que questiona as interseccoes entre o desenvolvimento da ciencia e direitos desses sujeitos numa "bioeconomia global".

"A industria farmaceutica demanda um numero cada vez maior de individuos para testes a fim de alcancar os imperativos da inovacao; o mercado da reproducao assistida continua a se expandir quando cada vez mais familias buscam servicos de reproducao assistida de terceiros--vendedores de gametas e agenciadores de gestacoes substitutas; e os setores da producao de celulastronco buscam mais tecidos. A industria das ciencias da vida precisa de uma extensa e, ao mesmo tempo, pouco reconhecida forca de trabalho, cujo servico consiste na experiencia visceral da experimentacao de farmacos, transformacoes hormonais e procedimentos biomedicos mais ou menos invasivos, como ejaculacao, retirada de tecidos e gestacao. [...] Com a expansao das tecnologias de reproducao assistida, a venda de tecidos como ovulos e espermatozoides, ou servicos reprodutivos, como a gestacao de substituicao emergem em um florescente mercado de trabalho, que e altamente estratificado no que diz respeito a classe e raca. Nos nos referimos a essa forma de trabalho como trabalho clinico." (COOPER; WALDBY, 2014, p.7 traducao minha).

Trata-se de um processo de reconhecimento nas ciencias sociais de que ha multiplos modos pelos quais processos biotecnicos centrados nas politicas da vida estao envolvidos em redes de transacao comercial e de acumulacao de capital. Nesse contexto, a producao de ovulos foi o aspecto da RA que mais se investiu de uma logica "bioeconomica". Dito de outro modo, com o objetivo de maximizar a "eficiencia" do tratamento, tornou-se necessario produzir mais embrioes por ciclo. Para tanto, fez-se necessario produzir mais ovulos. E a estimulacao ovariana que permite a maximizacao do capital biologico, pois, com a producao de mais ovulos, e possivel produzir mais embrioes e aumentar as chances de "sucesso" na transferencia de embrioes a cada ciclo. Nesse sentido, antes do embriao, a substancia que esta sendo produzida e almejada com maior capital ou "biovalor" sao os ovulos.

Em meu campo de pesquisa (3), realizado em um centro de reproducao assistida na cidade de Porto Alegre, pude dialogar com os profissionais envolvidos na utilizacao dessa tecnica. Para o Dr. Alves (4), diretor da clinica, os avancos tecnologicos que estao aplicados a estimulacao ovariana, sobretudo no que diz respeito aos farmacos que sao introduzidos para intensificar a producao de ovocitos, sao seguros e precisos. Apesar dessa facilidade tecnica, ha uma fila para a obtencao de ovulos via doacao. Trata-se da pratica de doacao compartilhada de ovulos (eggsharing), regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina na Resolucao 2.013/13. Nesse sentido, o Dr. Alves afirma que a estimulacao ovariana nao e o principal problema que encontram para produzir bons embrioes (5), e nem sempre a producao de um "bom numero" de ovulos significa a producao de muitos embrioes.

No entanto, existem contextos em que a producao de mais ovulos e embrioes nao e necessariamente bem-vinda (6). Elisabeth Roberts (2007), antropologa especialista em RA no Equador, Mexico e EUA, mostra como no Equador a quantidade de ovulos produzida pode ser tencionada com questoes eticas e financeiras. A pesquisa de Roberts mostra que duas regioes do Equador operam em diferentes logicas no que diz respeito a producao de ovulos e, como consequencia, de embrioes. Em Quito, a autora observou uma forte hesitacao quanto a possibilidade de congelar embrioes, enquanto que em Guayaquil prevalece um entusiasmo diante dessa possibilidade tecnica.

Entre seus interlocutores, a autora destacou aqueles que hesitavam em congelar embrioes alegando impedimentos tecnicos. Eles afirmavam que as perdas no processo de conservacao e descongelamento desperdicariam a vida dos embrioes. Essa perspectiva compartilha a percepcao de uma crueldade terapeutica ja mencionada por outros autores e defendida por representantes da igreja catolica, como exemplo (BHARADWAJ, 2012; ROBERTS, 2007). Ja em Quito, seus interlocutores evitavam produzir embrioes excedentes por um entendimento particular acerca do parentesco, questionando um possivel descompasso quando um "membro" da familia esta congelado no tempo, fora de lugar. Para evitar o excesso de embrioes, as dosagens de medicamento para estimulacao da ovulacao eram cuidadosamente calculadas.

Roberts destaca ainda que, nesse mesmo contexto de pesquisa, entre os profissionais surgiu uma preocupacao com a possibilidade de criopreservar embrioes: o que fazer se a familia "abandona" essa substancia/pessoa/parente nos tanques de nitrogenio das clinicas? Acrescenta-se ai que as clinicas de Quito e Guayaquil tinham programas de doacao de embrioes frescos para evitar o descarte. A dificuldade de aceitar a doacao de embrioes evocava relacoes de parentesco e partilha de substancia que dificultavam a sua circulacao. E interessante notar que um mesmo sentimento que torna o embriao conectado ao contexto de sua producao tambem e evocado para a recusa de sua criopreservacao.

Contrariamente as preocupacoes encontradas por Roberts no Equador, no que diz respeito ao cuidado de nao produzir embrioes excedentes, a maioria dos centros de reproducao assistida com os quais tive contato na literatura e em minhas pesquisas no Brasil demonstram que a criopreservacao e lugar-comum (7) (CORREA, 2001; COSTA, 2001; TAMANINI, 2010; ALLEBRANDT; MACEDO, 2007; RAMIREZ-GALVEZ, 2003; NASCIMENTO, 2009). Consequencias dessa "acumulacao" serao objeto de reflexao apenas decadas apos o desenvolvimento da FIV e da possibilidade de criopreservacao.

Abundancia de Embrioes

Nos EUA, um survey publicado em 2003 suscitou preocupacoes acerca do numero de embrioes congelados nas clinicas de RA (ROBERTS, 2007). Segundo esse survey, cerca de 400 mil embrioes estariam congelados. Segundo Roberts, ha razoes para se acreditar que esse numero e um tanto inflado: estimativas apontam que o Reino Unido tem 52 mil embrioes congelados, enquanto que a Espanha contaria com 40 mil. No Brasil, reportagens veiculam a existencia de 150 mil embrioes congelados (8).

Por outro lado, o 9[degrees] relatorio anual do Sistema Nacional de Producao de Embrioes (SisEmbrio) afirma que em 2015 foram congelados pouco mais de 67 mil embrioes. Contabilizando os dados do SisEmbrio de 2012-2015, no Brasil ha registro de mais de 185 mil embrioes congelados (9).

A constatacao da existencia desse numero consideravel de embrioes congelados no Brasil nos remete as orientacoes do CFM, que ate a presente data, na ausencia de uma legislacao especifica sobre o tema, e o unico regulador das praticas de reproducao assistida. De 1990 ate 2010, as orientacoes dessa resolucao nao previam o descarte de nenhum embriao. Na resolucao de 2010 se fala no congelamento dos embrioes viaveis, e somente em 2013 abre-se precedente para que embrioes congelados ha mais de cinco anos sejam descartados (conforme Quadro 1, que sistematiza as principais mudancas da regulamentacao do CFM sobre esse assunto). Diante desse quadro de resolucoes, o numero de embrioes congelados parece ser, ao mesmo tempo, produto desse impedimento no descarte e tambem resultado do aumento da utilizacao dessa tecnica.

Desde 2013, quando ha, na utilizacao das tecnologias de RA, a producao de embrioes excedentes, os beneficiarios dessas tecnicas devem decidir qual destino desejam dar aos embrioes congelados em caso de nao pagamento da taxa anual e algumas situacoes previstas, como no exemplo seguinte, copiado do contrato de prestacao de servicos da clinica onde realizei esta pesquisa.
   "EM CASO DE NAO PAGAMENTO DA TAXA DE MANUTENCAO ANUAL, DE
   DESISTENCIA, DE MORTE, SEPARACAO OU INVALIDEZ DE QUALQUER UM DOS
   CONJUGES, O DESTINO DOS EMBRIOES CONGELADOS SERA (escrever de
   proprio punho o destino dos embrioes)". (Retirado de diario de
   campo de 19 de maio de 2014, letras garrafais e pontuacao conforme
   o contrato).


Segue esse paragrafo a escrita de proprio punho das pessoas que estao se submetendo aos tratamentos de RA. Ali redigem se desejam que os embrioes sejam doados para outros casais ou para pesquisa, descartados ou ainda que nada seja feito com esse material.

Determinar o destino dos embrioes nao e um assunto que se toma em consideracao apenas em contexto de abundancia, como os dados parecem apontar ser o caso do Brasil. Decidir sobre seu destino e um tema que envolve concepcoes e eticas muito variadas e que fundamentaram a propria viabilidade da RA. O Reino Unido foi pioneiro nesses debates (10).

Grande parte do debate britanico envolveu impasses acerca do entendimento de quando se da o inicio da vida e se ha no embriao um momento em que se possa limitar uma passagem entre conjunto de celulas e vida potencial (CESARINO, 2007; MULKAY, 1994). A decisao que compoe o texto legal foi da criacao de uma outra categoria para esse conjunto de celulas--o "pre-embriao". No entendimento do parlamento, o pre-embriao e a categoria que permite a manipulacao e experimentacao desse conjunto de celulas ate 14 dias apos a fertilizacao. Segundo Cesarino, que comparou o caso britanico e brasileiro, o debate que ocorreu no Reino Unido se centrou em um ponto:

[...] a tensao central que envolve a definicao de regras para o uso do embriao na pesquisa cientifica diz antes respeito a se (ou quando) ele e sujeito humano ou nao. Se ele resta no reino dos humanos plenos de direitos e dignidade ou se, ao contrario, e absolutamente objetificado, transferido para o reino da natureza nao-humana. (CESARINO, 2007, p.348-349)

Inspirada pela discussao sobre o vinculo lancada por Latour (2004), a autora discute o estatuto do embriao a partir da sua capacidade de agenciar e vincular-se, alertando para a sua provisoriedade, a politicas da natureza e ontologias naturais. Outros autores tem preferido tratar essas tensoes a partir do conceito de "coreografia ontologica" elaborado por Charis Thompson (2005; 2014). Nesse sentido,

"Limites na pesquisa com celulas-tronco sao continuamente redesenhados. Esse processo envolve uma elaborada "coreografia ontologica" cercada de interfaces tecnicas, biogeneticas e humanas com as "conexoes ontologicas entre a tecnologia e o eu" tornando-as autoras de experiencias e resultados [...]. Celulastronco, no entanto, estao implicadas no status ontologico de muito mais do que a forma embrionaria [...]. O apagamento dos limites entre humano/animal e a criacao de uma intersecao interespecie estao entre os muitos desenvolvimentos cientificos corolarios da emergencia das celulas-tronco. Isso e especialmente verdade pelo fato de os avancos na pesquisa com celulas-tronco serem desafiadores e redesenharem os limites entre nocoes culturais do natural e artificial, vida e morte, materialidade e potencialidade senciente, etica e imoralidade, sagrado e profano, limpo e sujo". (BHARADWAJ, 2012, p.306 traducao minha)

Em Portugal, uma legislacao publicada em 2006 regulamenta a RA (Lei 32/2006) e preve dois destinos para os embrioes baseados na sua classificacao de viabilidade--aqueles embrioes que estao envolvidos num projeto parental e devem ser transferidos ou doados para outro casal e aqueles sem possibilidade de envolvimento em um projeto parental, cujo destino pode ser a investigacao cientifica. Para essa ultima possibilidade e preciso que a pessoa/casal de seu consentimento. Silva et al. (2016) problematizam o lugar do consentimento informado para a doacao de embrioes para fins cientificos. Segundo os autores, o consentimento emerge como um simbolo da escolha e na negociacao do destino dos embrioes; essa escolha revela a nao rigidez dos parametros e conceitos que envolvem o embriao. Os autores nos lembram tambem que diferentemente das praticas que encontraram em suas pesquisas, na legislacao portuguesa esta previsto que se crie um sistema para doacao de embrioes que funcionaria como o sistema de doadores de orgaos biologicos. Nesse caso, aqueles que nao desejassem doar seus embrioes para a investigacao cientifica deveriam declarar sua posicao.

No Brasil, a ausencia de um debate publico sobre os limites e politicas da RA e do uso de embrioes para pesquisa intrigou varios pesquisadores (ALLEBRANDT, 2009; ALLEBRANDT; MACEDO 2007; CESARINO, 2007; LUNA, 2012; ROCHA, 2015). Cesarino (2007) relata com precisao como a pesquisa com celulas-tronco entrou no debate do Projeto de Lei da Biosseguranca. A necessidade de se legislar acerca dos embrioes foi embalada com estimativas da existencia de 20 a 30 mil embrioes congelados e o lobby pro-pesquisa contou com uma audiencia publica em 2004.

Segundo o estudo realizado por Diniz e Alvelino (2009) comparando 25 paises diante da pesquisa com embrioes, a legislacao brasileira tem particularidades e semelhancas com a legislacao portuguesa que exploramos.

"Uma particularidade da Lei brasileira n.[degrees] 11.105/2005 foi determinar que a pesquisa deve ser preferencialmente conduzida com embrioes inviaveis. Nenhum dos 25 paises analisados estabelece a diferenciacao legal entre embrioes congelados viaveis e inviaveis para a pesquisa cientifica, exceto, com outros termos, o art. 9[degrees] da Lei 32/2006 de Portugal. A tendencia internacional e demarcar a distincao entre embrioes congelados remanescentes de projetos reprodutivos e embrioes produzidos para fins exclusivos de pesquisa cientifica, havendo uma maior harmonia em reconhecer como legitima a investigacao com embrioes congelados, nao autorizando sua producao exclusivamente para pesquisa". (DINIZ; AVELINO 2009, p.545)

Ambas regulamentacoes preveem a doacao de embrioes viaveis para pesquisa quando eles estiverem congelados ha mais de tres ou cinco anos, respectivamente. O controle e gestao dessas prerrogativas passa no quadro legislativo brasileiro junto da Lei de Biosseguranca (Lei no 11.105/2005), pela criacao do SisEmbrio.

A criacao desse sistema faz parte do esforco estatal em implementar um controle dos embrioes que foram produzidos no pais. Tal sistema entrou em vigor atraves da Resolucao da Diretoria Colegiada (RDC) numero 29, parte da Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (ANVISA).

Em 2008, esse sistema realizou a publicacao de seu primeiro relatorio anual contabilizando os embrioes produzidos e congelados no Brasil. Pensado como um banco de dados acerca da manipulacao dos tecidos germinativos em todo o Brasil, o SisEmbrio depende dos dados que as clinicas e centros de reproducao assistida deverao fornecer anualmente. Trata-se de numero de ovulos que foram produzidos, fecundados, transferidos, criopreservados, descartados e doados para a pesquisa. Segundo o primeiro relatorio do SisEmbrio, ate 28 de marco de 2005--data da promulgacao da Lei de Biosseguranca (Lei no 11.105/2005)--, existiam no Brasil 25.120 embrioes disponiveis para a pesquisa. Alem disso, o relatorio contabiliza outros 20.062 embrioes nao disponiveis para pesquisa. E importante notar que apenas 50 dos estimados 120 Bancos de Gametas e Tecidos Germinativos (BCTG) enviaram seus dados para compor o relatorio. O relatorio seguinte contou com os mesmos entraves, apesar do alerta de que o nao fornecer tais dados incorre uma infracao sanitaria que possibilita penalidades e ate mesmo o fechamento de tais centros.

"Segundo informacoes cedidas pela Sociedade Brasileira de Reproducao Assistida (SBRA) existem cerca de 120 BCTG no Brasil. Cabe enfatizar que este ano os BCTG que nao informaram no SisEmbrio os dados de producao requeridos pela RDC no 29/08 serao notificados pela Gerencia de Tecidos, Celulas e Orgaos--GETOR/ANVISA e incorrerao em infracao sanitaria, sujeitos a penalidades previstas na Lei no 6.437, de 20 de agosto de 1977. (4 Relatorio Sis Embrio).

Considerando que o universo estimado para os Bancos de Celulas e Tecidos Germinativos no Brasil e de 120 servicos, o percentual de adesao dos mesmos ao SisEmbrio (77-65%) ainda e baixo. (5 Relatorio SisEmbrio)."

Notamos que apenas no 8 e 9 Relatorios o SisEmbrio parece conseguir obter as informacoes necessarias ao seu funcionamento. Tais entraves sao bastante emblematicos da dificuldade do estado em estabelecer qualquer pratica de governanca, politica de controle e acompanhamento com relacao as clinicas de RA e seus procedimentos (11) (ACERO, 2011; JASANOFF, 2005). 11

Apesar dessa inercia em fornecer dados, o CFM parece aguardar uma legislacao a respeito da RA e demonstra-se ansioso nessa espera em um anexo da reformulacao de sua resolucao sobre o tema em 2013. Cabe notar que a primeira resolucao acompanhou movimentos reguladores em todo o mundo no inicio da decada de 90. Tal resolucao veio a ser reescrita apenas em 2010, seguida por modificacoes em 2013 e 2015 (conforme Quadro 1).

Entre as principais mudancas, vemos que, na resolucao do CFM de 2010 (CFM 1.957 / 2010), entra em vigor um novo entendimento de quais embrioes devem ser congelados. Segundo essa resolucao, somente embrioes viaveis devem ser congelados. Essa orientacao inviabilizaria grande parte das pesquisas desenvolvidas com embrioes, ja que elas teriam sua base em embrioes inviaveis.

Na resolucao de 2013 (CFM 2.013 2013) ha um anexo a nova redacao: "EXPOSICAO DE MOTIVOS DA RESOLUCAO CFM no 2.013/13". Nesse documento, Jose Hiran da Silva Gallo, Coordenador da Comissao de Revisao da Resolucao CFM no 1.358/92 afirma:

"A Resolucao CFM no 1.957/10 mostrou-se satisfatoria e eficaz, balizando o controle dos processos de fertilizacao assistida. No entanto, as mudancas sociais e a constante e rapida evolucao cientifica nessa area tornaram necessaria a sua revisao. Uma insistente e reiterada solicitacao das clinicas de fertilidade de todo o pais foi a abordagem sobre o descarte de embrioes congelados, alguns ate com mais de 20 (vinte) anos, em abandono e entulhando os servicos. A comissao revisora observou que a Lei de Biosseguranca (Lei no 11.105/05), em seu artigo 5, inciso II, ja autorizava o descarte de embrioes congelados ha 3 (tres) anos, contados a partir da data do congelamento, para uso em pesquisas sobre celulas-tronco. A proposta e ampliar o prazo para 5 (cinco) anos, e nao so para pesquisas sobre celulas-tronco". (grifo meu).

Segundo essa carta, os embrioes congelados nas clinicas se encontram entre abandono e entulho. O medo do abandono foi um dos argumentos encontrados por Roberts para evitar o congelamento de embrioes (ROBERTS, 2007; ROBERTS, 2011). Falar em abandono de embrioes remete a um discurso muito evocado nas relacoes familiares e praticas de adocao (FONSECA, 2012; FONSECA, 2009). Fonseca (2012) nos chama atencao para os multiplos significados do termo abandono e como ha nele polarizacoes que extremam a uma indiscriminada criminalizacao de maes que dao seus filhos em adocao. Fonseca (2009) afirma que esta implicito na palavra abandono uma rejeicao emocional, que nao corresponde as praticas de adocao, sobretudo quando explora o contexto em que estao implicadas a maioria das maes que abriram mao de seu poder familiar. Na nota do CFM, o abandono tambem aponta para uma rejeicao emocional, ja que esses embrioes esquecidos ha 20 anos, provavelmente, nao fazem mais parte de um projeto familiar.

A segunda relacao evocada para o entendimento dos embrioes e que eles seriam entulho. Trata-se de uma imagem dificilmente associada aos assepticos tanques de nitrogenio das clinicas de RA. No entanto, os embrioes representam um acumulo indesejavel. Eles sao lixo. Mas como nao sao produto de apenas uma categoria, descarta-los implica a necessidade de autorizacao por parte dos "genitores"(LUNA, 2007).

Durante minha pesquisa de campo, o que fazer com os embrioes congelados que se acumulavam nos tanques de nitrogenio da clinica que comemorava 10 anos de existencia foi apresentado como um problema cotidiano. Vamos examinar mais de perto os usos e a flexibilidade com que sao tratados os embrioes nesse cotidiano.

Passado e Presente de Embrioes: Tempo, Memoria e Imagens de Viabilidade

Na fala do Coordenador da Comissao de Revisao da Resolucao CFM no 1.358/92, o tempo e um fator importante para a negociacao do destino dos embrioes. "Alguns ate com mais de 20 (vinte) anos" e frase que nos ajuda a situar os modos de tratamento "abandono" e "entulho", que fundamentarao a possibilidade de descarte desses embrioes. Nesta secao, quero explorar dois aspectos que considero importantes para negociar o significado e destino dos embrioes: o passado e o presente.

Durante minha pesquisa de campo, despertou meu interesse uma nova pratica que passou a fazer parte da rotina da clinica. Enquanto me familiarizava com os prontuarios, via com frequencia a presenca de imagens de embrioes, relatando a data da transferencia, a tecnica utilizada e um numero abaixo dessas imagens. Quando perguntei ao Dr. Alves o que eram aqueles numeros, ele me explicou que era uma tecnica, o Graduate Embryo Score (12), que havia sido implementada pela embriologista da clinica, me recomendando que, se eu tivesse interesse em saber mais, que a procurasse. Entusiasta das novas tecnologias, Dr. Alves afirmou que essa tecnica estava surtindo bons efeitos, de modo que ele nao deixava mais as pacientes entrarem na sala de transferencia sem ter visto os embrioes.

"Eu nao deixo mais que uma paciente faca a transferencia sem ver os embrioes. [....] Eu uso essa folhinha [pega uma pilha de folhas com imagens de embrioes, nome das pacientes, data e o tipo de procedimento no armario atras de sua mesa], porque voce sabe, e um tratamento caro e voce nao ve sempre o resultado ... isso ajuda tambem a explicar por que nao esta dando certo. Olha esse aqui por exemplo [mostra a imagem acima] ... ela, com ela esta tudo certo. A estimulacao foi um sucesso. Mas o esperma, ele, ele e o problema. Ai voce tem aquele monte de ovulos que viram esses embrioes aqui ... tudo ruim...". (Fala do Dr. Alves em diario de campo).

Esse tipo de visualizacao do tratamento ajuda a mostrar o que e feito no laboratorio e explicar, em parte, que o grande investimento realizado nao foi somente para a injecao de um "liquido transparente" (GRUDZINSKI, 2009). Ver os embrioes pode ajudar a produzir um bom resultado no tratamento, deixando os clientes mais otimistas em relacao a bons resultados, alem, e claro, de mediar a escolha de quais embrioes transferir e se e interessante criopreservar ou doar para a pesquisa os embrioes supranumerarios. Nesse sentido, a imagem dos embrioes ajuda a fundamentar a viabilidade dos embrioes. Por outro lado, ver os embrioes e receber explicacoes que atestam sua "qualidade ruim" e uma ferramenta que os profissionais tentam utilizar para o esclarecimento dos casais para a necessidade de utilizacao de tecnicas complementares.

Como ja afirmei em trabalhos anteriores (ALLEBRANDT, 2015; 2017), as dinamicas que envolvem o uso da Graduate Embryo Score sao muitas e envolvem diversas camadas de complexas relacoes e conexoes. Tomo neste artigo o GES como uma ferramenta que permite o agenciamento no presente daqueles que fazem uso das tecnologias de reproducao assistida.

No inicio desta pesquisa, realizei um longo trabalho de levantamento de dados em prontuarios clinicos e documentos de registro da clinica. Ficou reservado pelo Dr. Alves o meu acesso a clinica nas segundas-feiras a tarde, quando ele se encontrava em seu outro local de pratica medica. Habitualmente, segunda-feira era um dia muito tranquilo na clinica. Apenas um dos medicos costumava atender suas clientes, e no turno da tarde nao aconteciam procedimentos de RA, que estavam concentrados nas manhas.

Numa dessas segundas-feiras, enquanto lia os prontuarios, comeco a ouvir dialogos repetitivos que me distraem da leitura dos prontuarios. Reproduzo uma das interacoes que registrei no meu diario de campo.
   Boa tarde, eu poderia falar com Joana? [pausa]
   Oi Joana, aqui e a Roberta da clinica "Fertilizar", tudo
      bem?[pausa]
   Entao, Joana. Eu estou te ligando pra falar sobre os embrioes que
   voce tem congelados aqui na clinica. [longa pausa].
   Sei. Sei [longa pausa].
   A taxa custa hoje R$500,00. [pausa]
   o.k., certo. [pausa curta]
   Voce quer descartar? [pausa curta] Certo.
   Entao fazemos assim: eu preciso que voce assine um formulario.
   Voce quer passar aqui na clinica? [pausa]
   Entao eu te envio o formulario por e-mail e voce me entrega ele
   assinado, pode ser? [pausa curta]
   Otimo. Entao, confirmando o teu e-mail e joana@gmail.com.
   [pausa]
   Otimo. Eu te envio o formulario agora. Muito obrigada! Tchau.


Logo em seguida ouco o mesmo tom cordial e alegre refazendo a ligacao para outra cliente. O mesmo roteiro se repetia. Fiquei curiosa, e com a desculpa de buscar um copo com agua, fui ver quem estava fazendo essas ligacoes. Pergunto para a simpatica secretaria--que mesmo depois de meses de pesquisa de campo ainda acredita que sou representante de um laboratorio--, quem e a moca que esta ligando e ela me responde que e a Julia, nova na clinica.

Julia esta confortavelmente sentada em um diva, com as pernas casualmente cruzadas. Ela tem um computador portatil em seu colo, no qual faz anotacoes sobre as ligacoes que acaba de fazer. As cortinas da sala estao abertas, e ela aproveita o sol depois de dias de muito frio do inverno gaucho na bela sala que acolhe as pacientes da clinica que irao transferir embrioes ou extrair ovulos. Ela esta usando um jaleco branco e sobre o seu sapato pantufas protetoras, ja que esta em uma sala limpa (13). Entre uma ligacao e outra, vou ate a porta e me apresento. Explico o que estou fazendo ali e digo que me interessei pelas suas ligacoes. Ela, por outro lado, parece entediada, exatamente o contrario do que me dava impressao ao ouvi-la falando alegremente ao telefone com os clientes.

Ela me diz que esse e um trabalho enfadonho. Comenta que nesse dia teve sorte. Muitas vezes as pessoas nao querem falar sobre o assunto e desligam na sua cara. Mas pondera dizendo que faz parte do trabalho. Volto para meus prontuarios lentamente enquanto ouco Julia resolver em minutos o destino de outros embrioes. Depois de tanto estudar a ausencia involuntaria de filhos, essa foi a primeira vez que ouvi embrioes serem tratados de uma maneira tao pragmatica, quase como substancias livres de conexao e passiveis de descarte/doacao.

Em outro momento, comento com Dr. Alves que conheci Julia e a ouvi fazendo essas ligacoes. Dr. Alves e enfatico na sua avaliacao desse ritual anual de acompanhamento dos embrioes congelados:

"Isso e infernal, mas temos que fazer! E um horror! Veja so, muitas das nossas pacientes se desiludem com a RA. A gente nao promete o que nao pode cumprir, todos sabem das taxas de sucesso, mas ha aqueles que ficam amargurados ... nao querem mais falar disso, tem raiva da clinica. Outros ja tiveram seus filhos e esqueceram dos embrioes. ou nao conseguem decidir se vao utilizar ou nao. Enquanto isso nossos tanques [de nitrogenio] estao cheios [de embrioes]. O que voce tem que ver e que a gente nao pode fazer nada sem o consentimento por escrito. Precisamos disso pra fazer qualquer coisa." [Fala do Dr. Alves, registrada em diario de campo].

Nesses procedimentos anuais, que me chocaram inicialmente por seu pragmatismo, existem conflitos e expectativas que, apreendemos na fala de Dr. Alves, sao resultado de uma historia com a RA (14). A possivel ineficiencia das tecnicas pesa em muitas das ligacoes, e as exigencias formais de controle fazem com que muitas vezes a clinica se veja amarrada com um material indesejavel. Tomo o ritual de negociacao das taxas de manutencao dos embrioes como um modo de aferir o passado e lidar com a memoria do uso da RA. E nesse deslocamento temporal que os embrioes podem ser tratados como "descartaveis", ja que estao associados a "sonhos do passado" e nao a um projeto presente (COSTA, 2002). Cabe entao perguntarmos: quais sao os futuros possiveis para os embrioes produzidos na RA?

Futuros Possiveis? Qual e o Destino dos Embrioes Doados para Pesquisa e para Doacao?

Diante dos dados que quantificam a vida em potencial refrigerada em tanques de nitrogenio, emergem debates de grande efervescencia que fundamentam posicionamentos pro-vida e pro-pesquisa (15). Nas iniciativas pro-vida, programas de "adocao de embrioes", na maioria deles encampados por organizacoes religiosas, sobretudo nos EUA, buscam oferecer um "destino melhor" aos embrioes (COLLARD; KASHMERI, 2011; ROBERTS, 2011).

No Brasil, a adocao de embrioes e incipiente e parte de iniciativas pontuais de clinicas de RA. Algumas pesquisas tem comparado adocao e reproducao assistida, apontam um conservadorismo com relacao a praticas de adocao e pode dar pistas da dificuldade de adesao a adocao de embrioes (FONSECA, 1995; RAMIREZ-GALVEZ, 2011; ALLEBRANDT, 2007; ALLEBRANDT, 2013; ABREU, 2002). Alem disso, questoes relativas a circulacao do material genetico daqueles que tem seus embrioes congelados e os modos como a genetica tem se tornado um fator importante para a identidade tambem devem ser considerados (LUNA, 2005; GIBBON, NOVAS 2008; KLOTZ, 2015; BESTARD, 2012).

Do outro lado do debate, estao aqueles que defendem que a pesquisa com celulas-tronco embrionarias garante um "destino nobre" a essas celulas. Esse uso garantiria o "futuro" de todos, no sentido em que, utilizando esse material para pesquisa, estariamos avancando rumo ao bem comum. A doacao de embrioes e toda a retorica de um "destino nobre" parece interessar grande parte dos clientes da clinica em que realizei meu campo. Nos documentos e contratos com os quais tive contato durante a pesquisa de campo, o descarte e a doacao para pesquisa eram os destinos mais comuns redigidos nos campos apropriados.

Roberts (2007) mostra atraves da comparacao das preocupacoes com o uso e destino de embrioes no Equador e EUA o quanto existe um debate sobre eticas (do parentesco e da vida) que visam problematizar o futuro. Em 2005, nos EUA, o governo Bush fez um pronunciamento aliando-se aos lobbies pro-vida para barrar o financiamento de pesquisas com celulastronco com uma campanha para que os embrioes disponiveis tivessem um destino "mais nobre": o da adocao. Com tal apelo associado ao vasto numero de embrioes supostamente disponiveis para tal fim, parece contraditorio quando Roberts se confronta com outros contextos que mostram que "nao e tao facil quanto parece adotar um embriao". Isso se deve, sobretudo, ao fato que muitos casais nao conseguem desconectar os embrioes da substancia marcadora de transmissao, que sao os genes.

Diante de tal dificuldade, devemos observar que, desde a resolucao de 1992 do CFM, ha espaco para a doacao de embrioes no Brasil. No entanto, sao raras as ocasioes em que essa possibilidade e considerada. No entanto, o marco da eventualidade de doacao de embrioes para a pesquisa data por volta 2005, com os debates e aprovacao da Lei de Biosseguranca.

O SisEmbrio revelou um importante erro no entendimento do que e doar embrioes para pesquisa. Ate o 7 Relatorio do SisEmbrio eram contabilizados todos os embrioes com intencao de serem doados como se eles efetivamente tivessem sido doados para a pesquisa. Desse modo, ao inves dos 5.131 embrioes doados para pesquisa, a contabilidade das doacoes e completamente diferente. Trata-se de 1.110 embrioes efetivamente doados para pesquisa.

Tal constatacao e reforcada por uma conversa que tive com o Dr. Alves, quando comentei estar impressionada com o numero de pacientes que havia declarado desejar doar os embrioes para pesquisa. Rindo de minha ingenuidade, Dr. Alves me dizia que isso nao queria dizer nada. "Aqui[no Brasil] ninguem tem coragem de mexer com isso [embrioes humanos]. Todos esses que tu viu ai [apontando para os prontuarios] continuam aqui! Nenhum deles saiu daqui da clinica!"

Os diversos agenciamentos dos embrioes nos assinalam que ha uma transformacao e flexibilidade dos significados e entendimentos do que e o embriao. Ele aparece como a prova da eficiencia da tecnica; sua imagem e utilizada para fundamentar a escolha dos tratamentos; sua imagem e utilizada para discutir chances de nidacao e escolha de quais embrioes devem ser implantados e/ou congelados; uma regulamentacao datada faz com que todos embrioes sejam congelados, posteriormente permite seu descarte/doacao; lobbies pro-vida procuram ganha-los para adocao, lobbies pro-pesquisa procuram engaja-los na descoberta de um futuro melhor. Ora familia, linhagem; ora entulho; ora materia-prima para o futuro. Apesar disso, parece que a sua circulacao permanece hipotetica.

Podemos entender embrioes e celulas-tronco como entidades que sao conceituadas na intersecao da biologia, ontologia e epistemologia (BHARADWAJ, 2012). Embrioes sao parte do idioma da familia. Evocam parentesco de modo tao direto que podemos pensar em seu abandono e posterior adocao. Quando suas fotografias sao ritualmente apresentadas antes dos procedimentos de RA, eles representam o futuro, a esperanca. Duas semanas depois, podem estar esquecidos em meio ao luto de uma perda e misturados no sangue que pode ser significado como menstrual (MANICA, 2016; MANICA, 2011; CARSTEN, 2013).

Embrioes tambem sao entulho, muitas vezes sao tomados como "feios" (ROCA, 2004), estao estragados, sao descartados independentemente da lei/regulamentacao. Mas eles tambem sao vistos como o futuro da ciencia, portas para um mundo melhor, e nesse processo em que sao super-herois (SILVA et al., 2016), serao transformados e/ou descartados.

Consideracoes Finais

Busquei neste artigo percorrer alguns dos caminhos que circundam a discussao acerca do destino de embrioes no campo da RA, abordando, especialmente, a criopreservacao, o descarte e a doacao. Tratei a construcao da criopreservacao como uma ferramenta tecnica que, aliada aos avancos da estimulacao ovariana, produziu valores negociados em uma bioeconomia que reflete o desejo de filhos. A partir da difusao de ideias de abundancia, foram capitalizadas nocoes de desperdicio. Ela serviu tanto para enfatizar os embrioes congelados que "entulham" tanques de nitrogenio e foram "abandonados" por aqueles que os construiram como projeto parental, quanto para lembrar que esses embrioes podem ter um destino nobre e ser a chave de um futuro melhor, atraves de ineditas terapias com celulastronco.

Nota-se aqui um movimento que transforma os agenciamentos eticos em relacao aos entendimentos do que sao embrioes. Na emergencia da RA, o debate britanico deu o tom do cuidado para com o uso de embrioes criando uma categoria anterior--o pre-embriao. Essa categoria, que serviu para acalmar os animos do acalorado debate britanico, foi tacitamente transportada para a Resolucao 1.358 de 1992, que delimitou os limites eticos da RA e permaneceu como unica referencia ate 2005, quando vem a tona os debates da Lei de Biosseguranca. E justamente em 2005, no contexto narrado como de abundancia de embrioes disponiveis para pesquisa e diante do grande desperdicio que se aliava a seu potencial congelado, que os embrioes passam a ser potencialmente utilizados em pesquisa.

Desse grande interesse em doacao para pesquisa, o futuro dos embrioes parece estar tracado por deslocamentos de fins e meios. No entanto, dados do SisEmbrio demonstram que no proprio entendimento da doacao havia um dissenso. Ora, doar embrioes para pesquisa aparece nos relatorios ate 2013 como "intencao" de doar. Somente em 2014 que a contabilizacao passou a somar embrioes efetivamente doados para pesquisa. De todo modo, o numero inflado das pretendidas doacoes e das doacoes concretizadas esta muito distante do numero de embrioes tomados como abandonados, desperdicados e entulhando os centros de RA --aqueles que motivaram a inclusao na lei de biosseguranca dos termos para pesquisa com embrioes e informam tambem a nova escrita da Resolucao do CFM. A suposta abundancia de embrioes em tanques de nitrogenio nao e equacionada automaticamente como embrioes para pesquisa. Eticas distintas e maleaveis agenciam tanto o entendimento de quantos embrioes se deve produzir por ciclo como qual e o maximo de embrioes que pode armazenar um dado pais.

Em ambos os contextos o tempo figura como um elemento-chave. E com o tempo que alguns projetos parentais deixam de ter sentido quando os embrioes foram congelados. Nessa logica, um embriao criopreservado por 20 anos foi abandonado ou e um entulho? A resposta a essa pergunta depende de muitas eticas. O pragmatismo cientifico pode afirmar que a resposta esta na viabilidade desse material. Hoje sua viabilidade e disputada entre possibilidades de seu uso para adocao e para pesquisa. O descarte nao parece ser um destino consideravel para embrioes e impoe sua permanencia. No impasse, os embrioes permanecerao em tanques de nitrogenio ate se tornarem um entulho, ou uma nova categoria que ajude e atribuir-lhe um novo destino como um "pos-embriao" ou um "nao-embriao".

Todas essas concepcoes nos assinalam o quanto os embrioes nao sao fixos e sao frequentemente desestabilizados e negociados a luz de novas e velhas eticas. Fisicamente eles podem permanecer num tanque de nitrogenio em um canto qualquer de um pequeno laboratorio, mas debates eticos como o que intentamos realizar aqui nao se esgotam, permitem que esses embrioes circulem e tambem seus significados.

DOI: 10.12957/irei.2018.35863

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Recebido em outubro de 2017

Aprovado em marco de 2018

Debora Allebrandt *

* Debora Allebrandt e professora do Programa de Pos-Graduacao em Antropologia Social da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). E-mail: debora.allebrandt@ics.ufal.br.

(1) Agradeco a meus interlocutores na clinica de reproducao assistida pela confianca em mim depositada e ao financiamento dessa pesquisa atraves da bolsa de pos-doutorado junior (PDJ) concedida pelo CNPq de dezembro de 2013 a novembro de 2014 e da Bolsa Jacques Gutwirth--CAPES, de dezembro de 2014 a marco de 2015.

(2) Em outra ocasiao desenvolvi as transformacoes dessa passagem de dentro para fora do Corpo a partir da reflexao de Rose (2007) acerca da molecularizacao / molarizacao da ciencia e sua interface com a saude.

(3) O trabalho de campo se desenvolveu de marco a dezembro de 2014. Durante esse periodo tive acesso a relatorios e documentos de acompanhamento dos ciclos de reproducao assistida, bem como pude entrevistar formalmente alguns dos profissionais que atuam na clinica.

(4) Todos os nomes utilizados aqui sao pseudonimos.

(5) Ja discuti a importancia do fator masculino para a producao de "bons embrioes" em Allebrandt (2015 e 2017).

(6) Segundo Jasanoff (2005), a regulamentacao alema de protecao aos embrioes proibe embrioes supranumerarios. Na Noruega tambem existem preocupacoes com o congelamento prolongado de embrioes--cujo limite permitido e de tres anos (MELHUUS, 2005).

(7) Nos meus diarios de campo encontro apenas um relato em que um medico comentava as dificuldades de negociacao do uso da RA com um cliente que era pastor de uma religiao neopentecostal. Toda a discussao girou em torno do inicio da vida e do entendimento do que o embriao representava em sua forma celular.

(8) Ver, por exemplo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/07/jn-mostra discussao-delicada-sobre-destino-dos-embrioes-congelados.html.

(9) Diante da implementacao do SisEmbrio, os primeiros relatorios apontavam a pouca adesao das clinicas de RA no envio de seus relatorios. Com base nesses dados, podemos compreender a dificuldade de aferir o numero real de embrioes congelados no Brasil.

(10) E preciso notar que a utilizacao de embrioes humanos em pesquisas teve um importante marco nos anos 1990, quando o Parlamento Britanico aprovou a regulamentacao de procedimentos de RA e pesquisa embriologica atraves do Human Fertilisation and Embriology Act (HFEA). Esse relatorio tambem ficou conhecido como Warnock Report, nome da filosofa Mary Warnock que presidiu os debates do comite interdisciplinar que embasou os Parametros dessa lei.

(11) E importante lembrar que ate 2005 nao havia nenhuma legislacao nacional que interferisse nas praticas de RA para alem das resolucoes do CFM. Pode-se dizer, portanto, que o controle de tecidos e celulas germinativas e a primeira investida do estado para esse fim.

(12) Ja discuti essa questao durante a XI Reuniao de Antropologia do Mercosul. Agradeco a Fabiola Rohden e Alejandra Roca, coordenadoras do instigante grupo de trabalho no qual pude apresentar uma primeira versao desse artigo, pelos seus preciosos comentarios e sugestoes.

(13) A limpeza do ar do laboratorio e sala de transferencia e um ponto central no Funcionamento das clinicas de RA. A sala aonde esta o diva e uma sala de espera, considerada limpa, nela so se pode entrar usando as vestes e sapatos laboratoriais. Na sala de transferencia e no pequeno laboratorio nao ha circulacao de pessoas.

(14) Dedico-me ao estudo da RA e de dinamicas familiares ha mais de uma decada. Meu estranhamento durante esse periodo de tempo constituiu-se em muitas frentes. Construi com empatia pelo sofrimento que a ausencia involuntaria de filhos pode causar, a compreensao e o respeito das escolhas daqueles que utilizam a grandes custos e empenho emocional e financeiro as tecnicas de RA. Foi justamente a compreensao desse grande esforco que produziu um novo estranhamento. Quando ouvi as narrativas de "desapego" diante dos embrioes tao arduamente produzidos, fiquei chocada, pois nao conseguia encaixar na narrativa de importancia e essencialidade dos embrioes um lugar tao pragmatico para seu descarte. No entanto, a retomada da historia de cada pessoa que fez uso desses procedimentos, suas tentativas, frustracoes e pesares ajuda a colocar uma nova luz diante desse pragmatismo que pode estar associado nao somente ao custo financeiro da manutencao desses materiais, mas tambem a mudancas nos projetos individuais e familiares.

(15) Existe ainda uma possibilidade que esta para alem dos lobbies pro-pesquisa e pro-vida Que aparece no trabalho de campo de Roberts (2007), que e a ideia de "boa morte"--que significa retirar os embrioes do processo de criopreservacao e deixa-los perecer naturalmente.

Caption: Procedimento: ICSI--Semen fresco. Bordas e cabecalho da imagem foram retirados para nao identificacao da clinica.
Quadro 1--Resolucoes do CFM e sua deliberacao quanto
ao descarte e doacao de embrioes

                           Descarte de Embrioes

                       Art. V 2--O numero total de
                       pre-embrioes produzidos em
                       laboratorio sera comunicado aos
Resolucao              pacientes, para que se decida
  CFM                  quantos pre-embrioes serao
1.358 1992             transferidos a fresco, devendo
                       o excedente ser criopreservado,
                       nao podendo ser descartado ou
                       destruido.

                       Art. V-2--Do numero total
Resolucao              de embrioes produzidos em
  CFM                  laboratorio, os excedentes,
1.957 2010             viaveis, serao criopreservados.

                       O numero total de embrioes
                       gerados em laboratorio sera
                       comunicado aos pacientes para
                       que decidam quantos embrioes
                       serao transferidos a fresco. Os
                       excedentes, viaveis, devem ser
Resolucao              criopreservados.
  CFM                  4--Os embrioes criopreservados
2.013 2013             com mais de 5 (cinco) anos
                       poderao ser descartados
                       se esta for a vontade dos
                       pacientes, e nao apenas para
                       pesquisas de celulas-tronco,
                       conforme previsto na Lei de
                       Biosseguranca.

                       4--Os embrioes criopreservados
                       com mais de cinco anos poderao
                       ser descartados se esta for
Resolucao              a vontade dos pacientes. A
  CFM                  utilizacao dos embrioes em
2.121 2015             pesquisas de celulas-tronco nao
                       e obrigatoria, conforme previsto
                       na Lei de Biosseguranca.

                           Doacao de Embrioes

                       3--No momento da criopreservacao,
                       os conjuges ou companheiros devem
                       expressar sua vontade, por escrito,
Resolucao              quanto ao destino que sera dado aos
  CFM                  pre-embrioes criopreservados, em
1.358 1992             caso de divorcio, doencas graves ou
                       de falecimento de um deles ou de
                       ambos, e quando desejam doa-los.

Resolucao
  CFM                  Mantem a escrita do Art V-3
1.957 2010

                       Mantem a escrita do Art V-3
                       Acrescenta: Art. IV
                       [...]
                       4- Sera mantido,
                       obrigatoriamente, o sigilo sobre
                       a identidade dos doadores de
Resolucao              gametas e embrioes, bem como
  CFM                  dos receptores. Em situacoes
2.013 2013             especiais, informacoes sobre
                       os doadores, por motivacao
                       medica, podem ser fornecidas
                       exclusivamente para medicos,
                       resguardando-se a identidade
                       civil do(a) doador(a).[...]

Resolucao
  CFM                  Mantem a escrita dos Art. IV e V
2.121 2015

Fonte: Conselho Federal de Medicina--grifos da autora.

Quadro 2--Total de embrioes doados para
pesquisa 2007-2013

Ano           Numero de embrioes doados

2007                   643
2008                   382
2009                   490
2010                   748
2011                  1322
2012                   315
2013                  1231

Total                 5131

Fonte: SisEmbrio/Anvisa (2014). Dados
obtidos em 27 de marco de 2014.

Quadro 3--Total de embrioes doados para
pesquisa 2007-2014

Ano           Numero de embrioes doados

2007                    -
2008                   220
2009                    74
2010                   194
2011                    29
2012                    -
2013                   366
2014                   227

Total                  1110

Fonte: SisEmbrio/Anvisa (2015). Dados obtidos
em 20 de fevereiro de 2015.

Grafico 1--Numero de embrioes congelados nos
anos de 2012, 2013,2014 e 2015

Numero de Embrioes congelados

2012                   32.181
2013                   38.062
2014                   47.812
2015                   67.359

Fonte: SisEmbrio/Anvisa (2016). Dados obtidos
em 18 de fevereiro de 2016.

Note: Table made from bar graph.
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Author:Allebrandt, Debora
Publication:Intersecoes - revista de estudos interdisciplinares
Date:Jan 1, 2018
Words:8726
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