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Nature is the artwork: Project to Safeguard Stones/A natureza e a obra de arte: projeto para salvaguardar pedras.

Introducao

A distancia, reconhecemos a lenda que a totalidade desse rochedo concentra. Isolado, visto como fragmento ou detalhe, ele nao conseguiria encher a vista e, especialmente, a compreensao das coisas. So podemos percebe-lo como um "mundo". Nenhuma pedra, nenhum rochedo que seja pedra ou rochedo para Pausanias, mas signo para uma memorizacao de valor pedagogico ou apologetico. (Cauquelin, 2007: 48)

A proposta deste artigo e apresentar o trabalho artistico S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras), cujo trabalho trouxe para dentro do museu uma obra-prima natural: pedras de corpo mineral 11, bloco D. Formado por um conjunto contendo 15 pedras de tamanhos variados, materia mineral considerada unica no territorio brasileiro, as pedras foram recolhidas pelo artista Jose Viana e sua colaboradora Camila Fialho, ambos nortistas, para compor este projeto. Tais pedras correm o risco de serem extintas pelo projeto de mineracao S11D que esta sendo implementado na Serra Sul da Floresta Nacional do Caraja no Brasil (sudeste do Estado do Para).

Nesta investigacao serao apresentados o processo, o caminho e o resultado do trabalho artistico supracitado, alem da denuncia que o processo incitou acerca da falta de preservacao do ecossistema regional em projetos de desenvolvimento nacionais. O caminho visou ainda discutir tanto a proposta de preservacao da natureza quanto a questao da efemeridade de obras na arte contemporanea. A fim de debater questoes sobre ecossistemas contidos, preservacao ecologica e arte engajada. O resultado do projeto gerou, primeiramente, uma instalacao num salao de arte regional; posteriormente, houve a doacao das pedras para um acervo de arte estadual. Estas acoes serao apresentadas no decorrer deste artigo.

1. O processo: a informacao, a busca, a coleta

O trabalho de coleta do artista Jose Viana com sua colaboradora Camila Fialho comecou primeiramente pela busca da permissao para coletar um conjunto de pedras, evidenciando que foi mais facil a permissao quanto a conscientizacao do poder publico da necessidade de preservar nosso ecossistema. Para resguardar tal conjunto de pedras S11D que habitam numa terra vermelho-ocre, por vezes, sangrada com projetos de alto impacto ambiental, foi preciso vencer etapas do processo que o projeto exigiu.

Com a autorizacao do Instituto Chico Mendes de Conservacao da Biodiversidade (ICMBio) foi permitida a entrada da dupla na Floresta Nacional de Carajas para o recolhimento de pedras com alta concentracao de ferro (Figura 1) em locais definidos para a atividade de mineracao em areas de Canga, vegetacao de Savana Metalofila. Nesta regiao esta sendo implementado o projeto S11D, considerado um dos maiores projetos da industria da mineracao no mundo. Entretanto, a instalacao de seu complexo minerario, para a atividade de exploracao do minerio de ferro do bloco D de corpo geologico S11 (S de Sul), foi autorizada para uma area de preservacao ambiental.

Nao houve interferencia material nas pedras recolhidas no local original em que elas se encontravam, apenas um deslocamento espacial de uma galeria aberta chamada de paisagem natural para um espaco fechado chamada de espaco de preservacao ou museu destinado a salvaguardar determinada producao artistica. Nao obstante, a escolha estetica das pedras esteve presente no processo de constituicao do conjunto da obra de arte natural, como criacao de um objeto de ecossistema contido.

2. A conscientizacao da preservacao de fragmentos da natureza

O artista Jose Viana, idealizador e realizador do projeto, vivenciou a realidade social e economica da regiao dos municipios atingidos por grandes projetos de mineracao. A partir da convivencia direta com a regiao ao residir por uma temporada no sudeste do Para, Viana questionou a nossa falta de conhecimento acerca do assunto e o fato de nao discutirmos os impactos ambientais negativos de projetos de mineracao de dimensoes colossais da referida regiao.

Para prover a industria mundial, a saber, as pedras sao retiradas do solo brasileiro ininterruptamente para serem destinadas a manufatura em outros mercados fora do territorio brasileiro, por vezes, retornam ao pais para serem novamente vendidas no mercado nacional. Camila Fialho, tambem curadora da exposicao desta producao, justifica a motivacao para resguardar as pedras raras, assim como sua ressignificacao simbolica enquanto arte:

As pedras do S11D, interceptadas por este projeto, acabam por se deslocar sobre outra vereda. Emergem para o universo poetico desde um caminho truncado, depois de percorrerem pouco mais de 720km de estrada. Aportam em Belem e aqui ficam. Transfiguram-se em instalacao, adquirem novas dimensoes imageticas. Adentram o campo do sensivel. Valorizam-se. Sao doadas e ganham uma casa. Entram para o museu e assumem outra roupagem. Salvaguardadas tambem enquanto memoria de um tempo, sao o registro do presente (Fialho, 2015).

Foi no recolhimento e acolhimento de fragmentos da natureza das pedras raras que a obra formou-se com o objetivo principal de manter esta materia prima natural sem manipulacao humana. Logo, a ideia de preservacao prevalece e permanece sendo o principal objetivo do projeto explicitado. Por conseguinte, o projeto apresentou o conjunto das pedras recolhidas numa instalacao de ecossistema contido para preservacao (Figura 2 e Figura 3) no 33 edicao do Salao Arte Para (2014), trabalho apresentado por Jose Viana na sala do Museu Historico do Estado do Para--o maior salao de arte realizado na regiao Norte do Brasil. E por extensao, o ciclo do processo do projeto finalizou-se com a doacao do conjunto das pedras na exposicao "Registro do Presente--a doacao das Pedras ao Museu" realizada no Centro Cultural Casa das Onze Janelas em 2015 (Figura 4).

Se para Robert Smithson museus eram vistos como asilos e prisoes que possuem alas e celas que podem ser chamadas de salas neutras, ou seja, galerias (Smithson 1979); para S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras) ele ainda e o local mais seguro para tentar preservar a arte e a natureza contra o projeto de desenvolvimento do capitalismo em sua permanente fase vil, cruel e imperialista. Ainda precisamos desse cubo branco enquanto podemos te-lo, e uma questao de dupla preservacao, reciproca necessidade.

O resultado do projeto apresentado nos leva a arte engajada pensada como responsabilidade artistica, segundo Ferreira Gullar. O critico de arte e poeta brasileiro acreditava que para considerar a funcao social de uma artista ou de um artista, e assim denomina-los de artistas "comprometidos", primeiramente devemos examinar se na proposta da obra contem um sentido revolucionario sob o ponto de vista social. Do contrario, artistas que prezam apenas pela valorizacao estetica da obra estao fadados a serem considerados "descomprometidos" (Gullar, 2006: 37).

Para Jose Viana e Camila Fialho o exercicio da arte engajada de sublimidade social, leva-os ao compromisso de preservacao ecologica. Ao passo que a validade do projeto foi dada pela recepcao, apreciacao e resguardo da obra natural atingindo do publico ao museu. Portanto, tal producao analisada ainda nos chama a atencao para a producao artistica engajada em questoes ambientais ainda parca em nossos tempos.

Conclusoes

S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras) expande o conceito de ecossistemas contidos em galerias da Land Art ao usar como exemplo de escultura um elemento da natureza, neste caso de um material nunca usado antes pela arte brasileira; porem, com o objetivo de preservacao deste elemento da natureza como ja ressaltado. Neste sentido, o ecossistema contido sera preservado num museu sob a guarda de uma colecao tecnica e nao mais desfeito apos o fim da exposicao como algumas obras de instalacao estao sujeitas.

Arrisco-me a denominar a obra S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras) de ecossistema contido positivo, vou ainda mais longe para chama-la de exemplo de duplo positivo. Sua importancia recai no resultado desta producao artistica brasileira por ser tao simbolico ao servir de alerta para a situacao de ameaca de destruicao constante que o Brasil sofre, sobretudo a regiao Norte. A pedra de toque desta obra de arte, sua questao mais revelante, e a propria preservacao material da arte contemporanea que expande seu campo de atuacao e sua dimensao por salvaguardar, como objeto de arte, uma escultura ou objeto natural milenar sem limites de deterioracao temporal.

A guisa de uma conclusao, S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras) esta para alem da arte ambiental e da arte da terra, sendo tanto de conduta de conscientizacao quanto de impeto de preservacao. Doa ao museu do presente seus elementos da natureza que nao existirao mais num futuro proximo. Este artigo teve como fim, trazer a tona a arte com responsabilidade social ao evidenciar por intermedio da arte contemporanea as questoes ecologicas presentes em nosso seculo. Alem de incutir na consciencia de quem me le: a necessidade de termos conosco a premente ansiedade de resolver os problemas ecologicos que atingem o planeta.

Referencias

Cauquelin, Anne (2007) A invencao da paisagem. Sao Paulo: Martins.

Fialho, Camila (2014) "Sobre o deslocamento de pedras" [Consult. 2015-12-22] Disponivel em URL: http:// projetoparasalvaguardarpedras.tumblr.com

Gullar, Ferreira (2006). Cultura posta em questao. Vanguarda e subdesenvolvimento: ensaios sobre arte. 2a ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio.

Smithson, Robert (1972) "Cultural Confinement". Holt, Nancy The Writings of Robert Smithson. New York: New York University Press, 1979. [Consult. 201512-21]Disponivel em URL: http://www.robertsmithson.com/essays/cultural.htm

SISSA ANELEH BATISTA DE ASSIS *

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

* Brasil, documentarista, apresentadora, atriz e professora.

AFILIACAO: Universidade Catolica de Brasilia (UCB/Brasil). Endereco: QS 7--Taguatinga, Brasilia--DF, CEP: 71966-700, Brasil. E-mail: sissadeassis@yahoo.com.br

Caption: Figura 1 * Jose Viana com colaboracao de Camila Fialho, S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras), 2014. Registro fotografico de areas de Canga, vegetacao de Savana Metalofila. Floresta Nacional do Carajas, Estado do Para, Brasil.

Caption: Figura 2 * Jose Viana, S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras), 2014. Instalacao de ecossistema contido Pedras S11D. Exposicao Salao Arte Para, Belem, Estado do Para, Brasil.

Caption: Figura 3 * Jose Viana, S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras), 2014. Instalacao de ecossistema contido Pedras S11D. Exposicao Salao Arte Para, Belem, Estado do Para, Brasil.

Caption: Figura 4 * Jose Viana, S11D (ou projeto para Salvaguardar Pedras), 2014-2015. Objeto, Pedras S11D. Exposicao Registro do Presente--a doacao das Pedras ao Museu, Acervo Casa das Onze Janelas, Belem, Brasil.
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Title Annotation:2. Original articles/Artigos originais
Author:De Assis, Sissa Aneleh Batista
Publication:CROMA
Date:Jan 1, 2019
Words:1646
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