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Nature as attraction and repulsion in the city of Angra dos Reis--Rio de Janeiro state/A natureza enquanto atracao e repulsao no municipio de Angra dos Reis--RJ.

INTRODUCAO

O municipio de Angra dos Reis, pertencente ao litoral sul do Rio de Janeiro e inserido na regiao da 'Costa Verde', possui no turismo importante vocacao economica, impulsionado principalmente por sua paisagem mundialmente divulgada e conhecida. A beleza natural e o fator da grande atratividade, no entanto eventos de chuvas intensas que comumente ocorrem nesta area ocasionaram no inicio de 2010 uma serie de eventos de movimentos gravitacionais de massa, que sao resultantes tambem da elevada fragilidade natural da morfologia local. Turistas e moradores foram vitimados pelos efeitos desses eventos, e que foram recorrentes na area ate o mes de abril do referido ano. Em sua maioria, os locais mais afetados se localizaram ao longo da Rodovia BR101 (Rio-Santos), que e a principal via de acesso e que corta longitudinalmente toda a area.

O presente trabalho tem como meta trazer para o debate do turismo a questao da fragilidade ambiental da area. Alem disto, justificativa-se este estudo pelo fato de que em momentos de ocorrencia destes eventos evolutivos da paisagem se associarem uma desestruturacao da economia local, que tem na atividade turistica importante fonte de geracao de recursos. Para tanto, teremos como exemplo os eventos 'catastroficos' ocorridos tanto no ano de 2010, quanto os referentes ao ano de 2002.

O trabalho baseou-se nas seguintes etapas de pesquisa: uma contextualizacao de temas abordados, a fim de compor uma base teorico-conceitual; caracterizacao das unidades morfologicas presentes no municipio de Angra dos Reis atraves de consulta ao mapa geomorfologico realizado por Silva (2002); resgate nos arquivos fotograficos existentes no Nucleo de Estudos do Quaternario e Tecnogeno (NEQUAT/IGEO-UFRJ) das ocorrencias para o ano de 2002; levantamento sistematico dos atrativos turisticos, tendo como objetivo identifica-los para posterior avaliacao, empregando uma adaptacao da metodologia desenvolvida por AGB Engenharia e Meio Ambiente Ltda. (2008) e realizacao de campanhas de campo para o reconhecimento de feicoes morfologicas identificadas no mapa elaborado, aspectos geologico-geomorfologicos de susceptibilidades locais, etapas de acompanhamento e realizacao de documentacao fotografica dos aspectos de degradacao ambiental resultantes dos eventos desencadeados nos primeiros meses do ano de 2010 e consultas a dados secundarios e entrevistas com pesquisadores da Prefeitura Municipal.

A IMPORTANCIA DA PAISAGEM NATURAL PARA O TURISMO

A paisagem, onde em sentido amplo podemos definir como tudo que abarcamos com o olhar (GONTIJO e REGO, 2001), e um dos motores da atividade turistica. E o turismo e uma das industrias de maior peso economico em nossos dias, e que se encontra em continuo crescimento, com presenca ampla e ativa de distintos fatores economicos, relacionados a producao, circulacao e consumo de bens e servicos, e tendo, portanto, investimentos das mais variadas naturezas (MENESES, 2002).

Segundo Bolson (2004) a paisagem nao passou a existir apos o nascimento do homem, ela ja estava la, porem, so quando o homem presta atencao na paisagem e que surge o seu conceito. A paisagem e o que se ve. O real, o vivido, o sentido diferentemente para cada ser humano. Estes elaboram selecoes pessoais, julgamentos de valor de acordo com a analise individual da percepcao, e esta analise sofrem influencias sociais, culturais, ambientais, emocionais conforme o tipo de uso da paisagem para cada pessoa.

As paisagens turisticas para Cruz (2002; p.110) remetendo a Luchiari (1998) ressalta que "... so existem em relacao a sociedade. Elas nao existem a priori, como um dado da natureza [...] e a acao social que da sentido as paisagens, nao o contrario", portanto, toda paisagem poder ser turistica.

A imagem (induzida na paisagem) e um recurso para a economia do turismo porque e previamente definida por um valor social (CASTRO, 2002), podendo ai ser acrescido um valor cultural e mesmo historico, onde o turismo utiliza destes valores para atribuir valor comercial as areas turisticas. Estas areas normalmente sao preservadas, ou busca-se mante-las sem interferencia do homem, de modo que assim se atribua um valor, e onde se e pago para serem conhecidas (FONSECA, 2005).

Para Bertrand (2004; p.141) " ... a paisagem nao e a simples adicao de elementos geograficos disparatados. E numa determinada porcao do espaco, o resultado da combinacao dinamica, portanto instavel, de elementos fisicos, biologicos e antropicos que, reagindo dialeticamente, uns sobre os outros, fazem da paisagem um conjunto unico e indissociavel, em perpetua evolucao".

As paisagens estao carregadas de informacao e retratam os lugares, como afirma Yazigi (2002), definindo assim a paisagem na perspectiva do turismo, onde esta associada ao carater de mercadoria, passivel a ser consumida, valorizada e re- valorizada segundo o "modismo" da epoca, e onde Cruz (2002) acaba por complementar transcrevendo que para o turismo, e o valor estetico da paisagem que esta em pauta, e a estetica da paisagem e ditada pelos padroes culturais de uma epoca.

Cada pessoa tem um julgamento de valor diferente ao se deparar com uma determinada paisagem. Se um turista decide passar um final de semana em um hotel fazenda vai passear no campo em dia ensolarado, nas montanhas, provavelmente o que o chamara mais a atencao serao as diferentes coloracoes dos campos, as flores, o verde, a natureza e os animais. Ja trabalhador rural, que cultiva a horta do hotel sua preocupacao e com a limitacao do espaco cultivado, a protecao contra as pragas e animais e se o clima estiver muito quente podera comprometer seu trabalho. Para a familia desse trabalhador, atravessar as montanhas a pe ou a cavalo para ir a escola, ou comprar algo na venda da cidade mais proxima e um incomodo. Ja no ponto de vista de um motorista de caminhao que passa de fazenda em fazenda para apanhar a producao de leite e leva-la para a cooperativa na cidade, a paisagem pouco importa. Mas se o perguntarmos sobre o melhor trajeto e as condicoes da estrada certamente ele sabera informar com precisao. Ou seja, para cada observador a paisagem tem um sentido, seja de contemplacao, utilitarista, estetica e ate mesmo indiferente (BOLSON, 2004. Disponivel em: http://www.revistaturismo.com.br/artigos/paisagem.html)

Para a realizacao do turismo e necessario a apropriacao dos lugares e o consumo de suas paisagens, promovendo assim relacoes e interacoes temporarias e mesmo permanentes, estabelecendo articulacoes entre o local turistico e o mundo atraves da inclusao dessas localidades em uma rede complexa e ampla que evolvem inumeros atores, tais como a populacao local, governos e setores privados especializados nessa atividade.

A paisagem e subjetiva e nesta concepcao envolve para sua construcao inumeros fatores que estao diretamente relacionados com o modo de vida de cada individuo, onde este a percebe de maneira particular, acrescendo ou abstraindo elementos que lhe e pertinente ou nao, tornando desta forma uma importante ferramenta dentro do turismo, pois esta pode ser manipulada de acordo com interesses mercadologicos, se tornando assim uma mercadoria turistica.

Segundo Bolson (2004), o turista na verdade e um colecionador de paisagens. Meneses (2002; p.32) descreve que " ... a paisagem, portanto, deve ser considerada como objeto de apropriacao estetica, sensorial". O primeiro contato do turista com o local visitado acontece atraves da visao da paisagem. Durante um tour o viajante se depara com uma diversidade enorme de paisagens, sejam naturais, culturais ou construidas, essas imagens e que permanecem no seu inconsciente e ao voltar para casa o turista se recorda dos lugares, das pessoas e das paisagens visitadas. Isso gera uma sensacao de nostalgia alem de acrescentar conhecimentos, e tambem leva as pessoas a cada vez mais buscarem o novo e neste sentido Boullon (2002) afirma que por mais diferente que seja o resultado de uma viagem e o acumulo de experiencias e lembrancas dos lugares por que passou.

A relacao do turista com o lugar visitado e sempre transitoria, passageira, e na maioria das vezes, fugaz e superficial. A paisagem e a primeira instancia do contato do turista com o lugar visitado e por isso esta no centro da atratividade dos lugares para o turismo (CRUZ, 2002).

Os lugares ainda nao degradados pelas atividades humanas e que possuem uma paisagem agora valorizada passam a ser objetos de consumo por parte de uma parcela da populacao que paga para poder desfrutar desses espacos, que se tornam cada vez mais raros. Essa raridade implica sua valorizacao, conforme uma das leis basicas do sistema economico, e o consumo desses espacos passarem a ser desejado por parcelas cada vez maiores da populacao (FONSECA, 2005; p. 29).

O crescimento da atividade turistica traz consigo uma preocupacao crescente, que e a "artificializacao" dos lugares, o sentido de estranhamento da populacao local, a nao-identidade ou mesmo uma perda de identidade, cria-se lugares vazios, nao lugares (CARLOS, 1999).

A industria do turismo transforma tudo o que toca em artificial, cria um mundo ficticio e mistificado de lazer ilusorio, onde o espaco se transforma em cenario, "espetaculo" para uma multidao amorfa [...]. Aqui o sujeito se entrega as manifestacoes desfrutando a propria alienacao. Esse dois processos apontam para o fato de que ao se vender o espaco, produz-se a naoidentidade, e com isso, o nao-lugar (CARLOS, 1999; p.26).

Bolson (2004; Disponivel em: http://www.revistaturismo.com.br/artigos/paisagem.html) complementa: "O poder de atracao de determinadas paisagens levam a sua reproducao construida artificialmente. Um bom exemplo disso sao os grandes parques tematicos. Essas verdadeiras "ilhas da fantasia" simulam e reproduzem replicas identicas as originais e levam os visitantes a sentirem a sensacao de que realmente presenciaram o original. Reproduzem nao so as imagens, mas os costumes, a culinaria, a raca, o cheiro. Esse mundo magico, perfeito e divertido e um atrativo turistico bastante procurado".

A invasao dos espacos turisticos, principalmente localidades rurais ou litoraneas, faz com que o turista defronte seus habitos, costumes, ou seja, sua cultura, com a cultura local ou do local, onde por meio desse "confronto" pode se notar a falta de preparo da maioria dessas comunidades no sentido de receber o turista sem absorver sua cultura, seus habitos, perdendo assim a caracteristica da comunidade, demonstrando muitas vezes a falta de dialogo entre estrategias de planejamento turistico e as acoes sociais cotidianas pertinentes ao espaco turistico.

A preocupacao com essa perda de identidade fez surgir e crescer uma nova segmentacao no setor turistico, que e o turismo local, que possui enfase no lugar, na comunidade, onde temos a preservacao da cultura, do popular, trazendo o turista a realidade local, nao a realidade do turista sendo levada a area visitada, o turista como um "novo" morador, nao mais o invasor, permitindo dessa forma uma troca mutua de experiencias, tornar o turismo uma atividade socio-cultural, nao mais apenas economica.

TURISMO E GEOGRAFIA

O turismo e uma atividade complexa que se baseia no consumo do espaco geografico como sugere Fonseca (2005), e possui multiplas relacoes economicas, sociais, politicas e culturais que vem se difundindo de forma acelerada, movimentando capitais de enormes proporcoes e superando atividades tradicionais como a agricultura e a industria. Guerra e Marcal (2006) complementam com a colocacao que a atividade turistica pode estar intimamente relacionada com o meio fisico, em especial aquela vinculada a exploracao das belezas naturais de uma determinada area, demonstrando, desta forma, o crescente interesse da Ciencia Geografica em seu estudo.

A atividade do turismo sempre esteve atrelada a ideia de viagens, de deslocamento, surgindo oficialmente no seculo XVII, na Inglaterra, referindo a um tipo especifico de viagem. Pela analise da origem do termo, que esta ligada a palavra tour, que quer dizer volta e tem origem francesa, com seu equivalente no ingles turn ou no latim tornaire (BARRETO, 1995), esta sempre ligada a ideia geral da ocorrencia de um deslocamento pela busca do novo ou de se conhecer o novo.

Dentro deste contexto, pode-se articular a importancia do turismo para a Ciencia Geografica a partir de dois pilares: um primeiro que esta relacionado a necessidade de se conhecer as potencialidades dos lugares para a implantacao desta atividade, procurando vincular as benesses para a area que venha trazer neste segmento da economia; e um segundo que se refere a busca do entendimento da "fragilidade" dos lugares para que os mesmos nao sejam afetados negativamente, que por muitas vezes, tem trazido alteracoes ambientais degradantes e/ou alteracoes culturais ou perda de identidade cultural para comunidades locais.

Por esta razao, Rodrigues (1996) define a atividade turistica como um fenomeno economico, politico, social e cultural dos mais expressivos das sociedades ditas posindustriais, onde movimenta, em nivel mundial, um enorme volume de pessoas e de capital, inscrevendo-se materialmente de forma cada vez mais significativa ao criar e recriar espacos diversificados.

Cabe ressaltar ainda que essa atividade se adapta bem ao contexto de valorizar as "belezas paradisiacas" produzidas pela natureza, especialmente em regioes pouco habitadas e de dificil acesso (OLIVEIRA, 2001) e, portanto, o turismo pode ser considerado como uma das formas de lazer que se distingue das demais pelo fato do individuo ter que se deslocar de seu local de cotidiano para pratica-lo. Fazer turismo implica uma ruptura com o cotidiano uma vez que o individuo tem necessariamente que viajar para que possa ser considerado turista (FONSECA, 2005). Sendo a atividade turistica considerada uma quebra do cotidiano e o "consumo" do espaco, este deve possuir atrativos para tal, sendo a paisagem de grande importancia, pois normalmente esses deslocamentos veem em busca do novo, em busca muitas vezes das paisagens ditas exoticas.

Segundo Molina (2001) o turismo se relaciona com as necessidades fundamentais do ser humano, como por exemplo, a educacao, e nesse contexto, com o aprendizado e identificacao com outras culturas e grupos etnicos e a diversidade de recursos naturais. O autor afirma ainda que o turismo proporcionar experiencias emotivas e cognitivas de grande riqueza e valor, ja que oferece aos individuos a possibilidade interacao com o meio que o cerca.

Coriolano (2003) disserta que os pressupostos basicos para a aplicacao do turismo em um pais ou regiao, passam pela construcao do real (como espaco da oferta turistica) e pela construcao do espaco virtual (objeto do imaginario formado de imagens, sonhos e mitos de um povo, grupo ou individuo) demonstrando que a construcao do imaginario turistico esta relacionado com a (re)construcao da paisagem do local a qual se pretende visitar, sendo que estas representacoes ocorrem a partir do momento da intencao da viagem, onde vai sendo desvelado na realizacao da viagem.

Esta mesma autora demonstra ainda que dentro desta concepcao do turismo, duas realidades distintas sao formadas, a primeira situando-se no plano do real e revelando os lugares turisticos cheios de potencialidades e fortalezas, mas tambem com fragilidades e ameacas e a segunda onde se situa o plano da imagem, do imaginario e do simbolico, revelando as representacoes que se fazem desses lugares e enfocando questoes virtuais que nem sempre coincidem com o real.

TURISMO E FRAGILIDADE AMBIENTAL EM ANGRA DOS REIS

A paisagem, principalmente a vinculada a elementos naturais e um dos maiores motores do turismo em todos os niveis (nacional e mundial) e o municipio de Angra dos Reis nao foge a essa regra, visto que seus principais atrativos consistem em seus elementos naturais, sendo os mais expressivos as praias, ilhas e tambem a "interacao" intima da serra com o mar, que e parte essencial neste local. Portanto, e inegavel que a configuracao geomorfologica que tanto atrai o turista para Angra dos Reis tambem se mostra fragil e mesmo "perigosa", haja vista os aspectos evolutivos naturais da area, como os processos geomorfologicos ocorridos nos anos de 2002 e 2010 que se tornaram um transtorno para o municipio.

O planejamento turistico se faz, portanto, necessario principalmente em areas que apresentam uma fragilidade ambiental elevada, devendo ser levado em consideracao nao so a preservacao do local, mas tambem a localizacao de pontos fixos, no que se refere aos pontos turisticos, abrangendo pousadas, hoteis, areas de lazer em geral como clubes, bares, entre outros, e ate mesmo as residencias de moradores, que de forma direta ou indireta sao responsaveis pela movimentacao do turismo em seu local de moradia.

O turista deve poder usufruir de todos os atrativos disponiveis, mas em seguranca para que o ciclo do turismo nao seja interrompido, e cidades que possuem boa parte de sua arrecadacao, como no caso de Angra dos Reis, possam sempre contar com esta fonte de renda. E importante ressaltar que o turismo praticado neste municipio e quase em sua totalidade vinculado a elementos da natureza e esta nao pode vir a se tornar elemento de repulsao turistica, portanto, ressalta-se novamente a importancia do entendimento e compreensao da fragilidade local e da busca de mitigacao dos impactos negativos que possam vir a ser desencadeados na area.

A exuberante paisagem da Costa Verde (RJ) e as questoes de "instabilidade " ambiental

A regiao denominada Costa Vede (Figura 1) e composta por mais de 2.000 praias e 350 ilhas, protegidas das intemperies do mar aberto pela barreira formada pela Restinga de Marambaia. As cores da agua nessa parte do litoral fluminense, que variam em distintas tonalidades de verde, constituem-se atrativo especial e ideal para a pratica de qualquer modalidade de esporte aquatico. Esse trecho da costa brasileira reune excelentes condicoes para a navegacao desportiva e concentra aproximadamente 90% da frota de embarcacoes de lazer do pais (MINISTERIO DE RELACOES EXTERIORES--Disponivel em: www.dc.mre.gov.br/imagens-e-textos/revista1mat9.pdf). E grande o numero de praias desertas com aguas calmas e transparentes e areias brancas, que so se tem acesso pelo mar; e correntes maritimas generosas que trazem grande quantidade de lagostas e varias especies de peixes as redes dos pescadores. Estes se encarregam de narrar aos visitantes as lendas da regiao, que remontam aos tempos em que a cidade de Angra dos Reis era esconderijo de corsarios.

Prolongando-se a partir de Angra dos Reis se tem um dos municipios mais antigos da regiao que e Parati, tendo sua ocupacao ainda no seculo XVI, em decorrencia da abertura de caminhos que ligassem as Provincias de Sao Paulo e Minas Gerais a do Rio de Janeiro. Fazendeiros e comerciantes foram aos poucos se estabelecendo na regiao, gerando significativo dinamismo economico na epoca do imperio. Em 1844, a Vila de Parati foi elevada a categoria de cidade. Nesse periodo, Parati, juntamente com Angra dos Reis e Mangaratiba, eram importantes nucleos para o escoamento da producao de cafe do Vale do Paraiba. E, em fins do seculo XIX, inicia-se o declinio da regiao de Parati, resultado de inumeros fatores, como: a abolicao da escravatura, em 1888, que provocou o exodo rural dos libertos; a mudanca da rota da producao cafeeira, que passava a ser transportada por via ferrea, nao mais utilizando as estradas que tinham em Parati um dos pontos de desembarque; e a obstrucao dos rios, resultando em surtos epidemicos, como o da malaria. E no inicio do seculo XX, a populacao local nao passava de 10.000 habitantes (MINISTERIO DE RELACOES EXTERIORES Disponivel em: www.mre.gov.br/dc/textos/revista1-mat9.pdf).

Especificamente no municipio de Angra dos Reis, localizado entre as coordenadas geograficas 23[degrees]00'24"S e 44[degrees]19'05"W, a ocupacao urbana se distribui ao longo da BR-101 (que corta o municipio longitudinalmente e serve de ligacao entre os nucleos urbanos existentes), concentrando-se nas reduzidas planicies costeiras e avancando em direcao as encostas. Nestes segmentos do relevo a ocupacao ultrapassa a altitude de 60m, que foi estabelecida pelo Plano Diretor Municipal (Lei no. 162/91) como cota limite para edificacoes (FRANCISCO e CARVALHO, 2004), e gera inumeros problemas ambientais ao municipio pelo ritmo acelerado de ocupacao, sem politicas de controle e manejo do uso do solo. Esta pequena faixa litoranea que se entrelaca com a escarpa da Serra do Mar, e possui aproximadamente 819 [Km.sup.2] de extensao e esta a seis metros de altitude ao nivel do mar, possui atualmente uma populacao de aproximadamente 150 mil habitantes e e um local unico no estado do Rio de Janeiro.

Por fim, ressalta-se que a denominacao Costa Verde e bastante conhecida e utilizada por diversos orgaos de turismo do estado do Rio de Janeiro, tais como: a) a proposta da Companhia de Turismo--RJ (www.turismo-rj.gov.br), que e um orgao privado e tem como objetivo a divulgacao de areas com potencial turistico para o estado; b) o zoneamento proposto pelo Instituto Virtual de Turismo (IVT), organizado pela COPPE-UFRJ (www.ivt-rj.net), que objetiva promover o desenvolvimento da interdisciplinaridade e do estudo do Turismo; c) da Associacao Brasileira da Industria de Hoteis--ABIH (www.abih.com.br), que e uma entidade que congrega as empresas de hospedagem com sede e estabelecimentos no estado; e d) o zoneamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica--IBGE (www.ibge.gov.br). Todas estas propostas ressaltam as caracteristicas do ambiente Serra e Mar como de destaque para atrativo dos turistas e, alem destas, a tipologia proposta para o estado, elaborada por Ribeiro (2003), apresenta um maior detalhamento das unidades turisticas por relacionar tanto aspectos fisico-ambientais como as funcoes turisticas e destaca a area como "funcao/tipo litoranea" e subdivida ainda em "praia-nautica e "praia-nautica/historica", onde no primeiro subtipo predominariam atividades turisticas que conjugam o trinomio sol-ceumar com diversas modalidades nauticas e o segundo conjugariam as atividades de praia e nautica, bem como apresentariam fixos historicos que marcam suas paisagens, atraves de casarios coloniais, igrejas, fortes, entre outros. Para finalizar, a proposta apresentada por Soares e Silva (2009) classifica a area como subunidade turistica de Praias e Escarpas Serranas (Figura 1), sendo os criterios utilizados voltados a valorizacao das caracteristicas geomorfologicas e, na qual, foram utilizados o mapa geomorfologico do Rio de Janeiro elaborado em escala de detalhe por Silva (2002). Esta subunidade turistica, constituida pelos municipios de Mangaratiba, Angra dos Reis e Paraty, foi morfologicamente caracterizada pela ocorrencia de praias e planicies estreitas constituidas de sedimentos quaternarios, que se encontram espremidas entre a escarpa da serra da Bocaina e o oceano, e em que ha a presenca de manguezais ao longo dos principais canais fluviais que desembocam na Baia de Ilha Grande.

Por se tratar de uma area que possui a morfologia de serras, o municipio possui, em sua maioria, elevadas declividades e uma concentracao significativa de depositos de encosta, composto essencialmente por depositos de talus entremeados a coluvios, e que se traduzem como aspecto de fragilidade e, portanto, como importantes fatores condicionantes para a ocorrencia de movimentos gravitacionais de massa. Como coloca Fernandes e Amaral (2006; p.159-160):
   Em geral, uma das principais caracteristicas desses materiais e a
   grande heterogeneidade interna, a qual e resultante direta da
   descontinuidade espacial dos processos formadores desses depositos.
   Os depositos de talus sao geralmente, mal selecionados e se
   formaram em segmentos mais basais das encostas, tal como a base de
   paredoes rochosos, ja os coluvios sao, em geral, melhor
   selecionados e recobrem muitas encostas de ambientes de menor
   energia.


Esses depositos de encosta no municipio se encontram muitas vezes sobre rocha sa, o que facilita a ocorrencia de deslizamentos de terra por conta de fatores como: descontinuidades das propriedades fisicas entre os materiais, que associados a eventos chuvosos elevados, como os ocorridos em dezembro de 2002 e no inicio de 2010 no municipio de Angra dos Reis, correspondem a aspectos inerentes ao desencadeamento destes processos de encosta, ou seja, demonstram a enorme fragilidade ambiental das caracteristicas naturais locais. No mapeamento apresentado pela figura 1 pode-se perceber que Angra dos Reis possui apenas 7,45% de areas planas e 73,26% area serrana, ou seja, areas que pelo aspecto relacionada as declividades do terreno seriam naturalmente instaveis. Desta forma, a natureza que e a maior aliada do turismo no municipio mostra-se tambem muito fragil, constituindo um serio obstaculo para o bom funcionamento da economia local.

[FIGURE 1 OMITTED]

A calamidade de Angra dos Reis em eventos chuvosos nos anos de 2002 e 2010 e os impactos sobre o patrimonio natural

Os processos de movimentos gravitacionais de massa e os respectivos aspectos de calamidade vivida pelo municipio de Angra dos Reis nos dois anos fatidicos (2002 e 2010) serao aqui exemplificados como eventos que alteraram substancialmente a atividade turistica e, por consequencia, desestabilizou, em parte, a economia local.

Mesmo que a populacao e, principalmente, a imprensa em geral associar a ocorrencia de movimentos gravitacionais de massa a ocupacao humana, temos com frequencia a observacao de eventos relacionados a causas estritamente naturais, nao so na area em estudo como em todo sudeste brasileiro, em especial nas encostas da Serra do Mar.

O evento ocorrido em 09 de dezembro de 2002 e um exemplo onde as encostas do segmento a montante da bacia de drenagem do rio Japuiba, em que se localizam os bairros de Areal, Japuiba e Grande Belem, levou a destruicao da linha ferrea, de varias construcoes e o obito de cerca de quinze pessoas em Areal. Estes episodios erosivos foram resultado de eventos pluviometricos extremos que afetou, principalmente, os trechos a montante da bacia e desencadeou em uma corrida de detritos que chegou a atingir a ocupacao localizada no segmento mais a jusante da referida bacia. Fato interessante e que a maior parte dos deslizamentos ocorreu em area com floresta preservada, demonstrando que a vegetacao nao impede a ocorrencia de tais processos, mas que outros fatores de ordem geologica, geomorfologica e/ou climatica assumem papel fundamental, levando a uma diminuicao da estabilidade das encostas e resultando na ruptura das condicoes de 'equilibrio'. Embora este movimento gravitacional de massa nao tenha sido como os ocorridos ao longo da BR-101, seu mecanismo e tambem bastante representativo para o municipio.

Segundo a Defesa Civil do municipio (www.angra.rj.gov.br/defesacivil), o indice pluviometrico foi de 275 mm apenas neste dia (09/12) e corresponderia ao total esperado para todo mes de dezembro, levando a situacoes inesperadas e alarmantes para os bairros de Areal, Japuiba e Grande Belem como: quarenta vitimas fatais, mais de 100 feridos e, por volta, de 2.500 pessoas desabrigadas. Alem disto, apos vistorias realizadas por tecnicos da Prefeitura Municipal houve ainda a interdicao de 600 residencias, bem como em outros estabelecimentos.

Ja os eventos de movimentos gravitacionais de massa registrados na madrugada do dia 1[degrees] de janeiro de 2010, epoca de grande movimentacao turistica no municipio, tiveram efeito de dimensoes catastroficas. Este evento foi resultante de uma combinacao de elevado indice pluviometrico concentrado, chovendo o equivalente a 417 mm em apenas tres dias, com as condicoes de susceptibilidades locais. Houve dois eventos de movimentos gravitacionais de massa de dimensoes significativas: um localizado na enseada de Bananal, Ilha Grande--definido pelo Prof. Nelson Ferreira Fernandes (2010; Comunicacao verbal) como do tipo escorregamento raso, tambem denominado como escorregamento translacional, onde acompanha, de modo geral, descontinuidades mecanicas e/ou hidrologicas existentes no interior do pacote de material existente na encosta. Este tipo de processo geralmente sao compridos e rasos, onde o plano de ruptura encontra-se, na maioria das vezes, em profundidades que variam entre 0,5 e 5,0 (FERNANDES e AMARAL, 2006). Alem disso, na enseada de Bananal ha a presenca de inumeras cicatrizes de antigos eventos, que demonstram a recorrencia de movimentacoes anteriores, e que poderiam e podem, por sua vez, servir de indicativo para geracao de possiveis eventos; alem de tambem ser constatada a presenca notoria de fraturas de alivio de tensao. Outro evento registrado ocorreu no Morro da Carioca (Figura 2), localizado na area continental de Angra dos Reis e nos arredores do Centro da cidade, tambem classificado por este mesmo professor como sendo um escorregamento raso, e onde tambem pode se observar a existencia de antigas cicatrizes que poderiam ter servido como indicativo das condicoes de fragilidade fisicoambientais locais.

Segundo dados obtidos pela Defesa Civil municipal, dos 118 bairros existentes no municipio, sessenta e um foram atingidos por algum tipo de ocorrencia, alem de movimentos gravitacionais de massa, quedas de arvores, muros, postes, casas e muitos alagamentos, e diversos trechos da BR-101 foram interditados por causa da queda de barreiras, totalizando trinta e sete pontos. O numero de vitimas atingiu um total de cinquenta e tres pessoas, entre turistas e moradores locais. Neste periodo, moradores da localidade conhecida como 'Estrada do Contorno' ficaram totalmente isolados, sem nenhum tipo de comunicacao e energia eletrica, e o acesso so se fazia pelo mar atraves de lanchas particulares ou de embarcacoes disponibilizadas pela Prefeitura. Ainda foram registrados pela Defesa Civil mais de 5.500 pessoas desabrigadas, 1.200 interdicoes, dentre outras ocorrencias, sendo necessario utilizar cinco escolas municipais, uma estadual e uma Fundacao como abrigo durante dois meses. Todos estes aspectos fizeram com que a Prefeitura Municipal decretasse estado de calamidade publica.

[FIGURE 2 OMITTED]

O municipio ainda se deparou com pontos de movimentos gravitacionais de massa, principalmente ao longo da rodovia BR-101, que permaneceu fechada por dois dias no mes de abril de 2010, por conta de novas quedas de blocos ocorridas na altura de Conceicao de Jacarei, distrito que faz divisa entre os municipios de Angra dos Reis e Mangaratiba. Nas incursoes de campo foram verificados inumeros pontos de deslizamentos, ocasionados por fatores distintos ou por uma associacao de fatores tais como: fraturas de alivio de tensao, descontinuidade hidraulica, presenca de raizes extensas, entre outras caracteristicas. Todos estes aspectos associados as chuvas fortes e concentradas favoreceram o desencadeamento destes processos nas encostas.

A setorizacao turistica de Angra dos Reis: os "Corredores Turisticos ": breve descricao

Em realidade, o turismo no municipio de Angra dos Reis ganhou grande dinamismo a partir da construcao da rodovia BR-101 na decada de 1970, tendo-se nesta atividade uma forma de implementar a receita local, que antes do boom economico causado pelos projetos federais, tais como o Estaleiro Verolme (atual Brasfels), Usinas Nucleares e o Terminal da PETROBRAS, tinha sua economia baseada no setor agricola e pesqueiro e que apos estas implementacoes, houve um crescimento na area por prestacao de servicos, e dentre elas, atividades que visam atender ao turismo.

Assim sendo, a Prefeitura Municipal de Angra dos Reis realizou na decada de 1990 um zoneamento turistico denominado de Corredores Turisticos, que sao subdivididos pela posicao geografica que ocupam: Corredor Turistico do Centro, Corredor Turistico da Estrada do Contorno, Corredor Turistico da Ponta Leste, Corredor Turistico Ponta Sul e Corredor da Ilha Grande (Figura 3).
   Para Ignarra (2003: p. 20), corredores turisticos sao "... vias de
   inter-relacao entre varias areas turisticas, ou entre centros
   historicos, ou entre portoes de entrada e os centros turisticos. O
   conceito de corredor turistico nao e unicamente uma via de acesso a
   uma determinada area, mas sim de uma faixa de territorio que serve
   de ligacao entre varios elementos turisticos e que se constitui ela
   propria em um atrativo".


Neste sentido, o autor demonstra a ideia do corredor como uma ligacao fisica entre os varios elementos ou potenciais turisticos de uma localidade, permitindo desta forma um aprimoramento do atendimento ao publico, ou seja, ao turista, uma valorizacao do local turistico, onde teremos uma re(valorizacao) de areas e ainda a possibilidade de melhoria da comunidade local. A implementacao de um corredor turistico pode vir a se tornar uma importante oportunidade de geracao de divisas para as comunidades ou municipios englobados. Exemplificando este conceito, o autor coloca como exemplo uma rodovia litoranea, podendo esta ter utilidade para ligar duas cidades costeiras, alem de afirmar que a propria estrada pode se constituir um atrativo turistico, por conta de sua beleza cenica.

Este zoneamento foi elaborado pelo SEBRAE junto a outras entidades envolvidas no ramo, tais como a Associacao de Turismo da Costa Verde (ATCV) e um forum de empresarios, alem da parceria com a Prefeitura Municipal e nao teve nenhuma regulamentacao ate os dias de hoje (Sra. Rita Carreira--Agente de Informacoes Turisticas da Gerencia de Projetos, Comercializacao e Marketing da Prefeitura Municipal de Angra dos Reis; Comunicacao verbal). E teve tambem como finalidade a criacao de um plano de marketing para ordenar o municipio e criar argumentos para a venda imobiliaria segundo diferentes caracteristicas de cada corredor.

Os criterios para a realizacao desta setorizacao se relacionam aos principais atrativos turisticos existentes que podem ser observados pela figura 3, onde sao enfatizados os atrativos Historico/Culturais e Naturais em cada setor discriminado.

Cada Corredor possui sua particularidade e a partir da realizacao dos trabalhos de campo, busca em sites especializados na tematica turistica, tendo como fonte- base o site da Fundacao de Turismo/TurisAngra (www.turisangra.rj.gov.br) e aplicacao de metodologia proposta e adaptada pela ABG Engenharia e Meio Ambiente Ltda. (2008) foram levantados pontos e atrativos turisticos especificos de cada Corredor da parte continental do municipio.

No Corredor Turistico do Centro p.ex., dezenove atrativos foram identificados, onde apenas um se insere na categoria atrativo natural, a Praia do Anil, que mesmo sendo impropria para banho se encontra em uma posicao privilegiada do municipio, e e palco da maioria dos grandes eventos da cidade, tais como o ja consagrado FITA (Festival Internacional de Teatro), Expo Crista, Costa Verde Negocios, o Reveillon, alem de nela esta localizado o Centro de Informacoes Turisticas (CIT) da TurisAngra. Os demais atrativos estao segmentos entre casarios, pracas, monumentos e igrejas, onde podemos citar a Biblioteca Municipal, Casa de Cultura, Casa Laranjeiras e Mercado do Peixe, ambos localizados na Praca Zumbi dos Palmares, igrejas como a Matriz Nossa Senhora da Conceicao, N. S. do Carmo, N. S. da Lapa ou Boa Morte, que abriga um importante museu de arte sacra, alem de pracas, onde se destaca a Praca Amaral Peixoto, mais conhecida como Praca do Porto, que e a mais movimentada e que exerce a funcao de ponto de encontro nas noites da cidade. E nesta praca onde ocorrem eventos tais como "Noites Angrenses", que conta com uma gama diversificada de atracoes, tais como apresentacoes teatrais e shows com artistas locais e convidados.

O Corredor Turistico do Contorno possui um total de quatorze atrativos levantados, sendo apenas dois inseridos na categoria historico/cultural e compondo um dos principais em grau de atratividade, que sao respectivamente Colegio Naval e Igreja do Bonfim. Os atrativos naturais sao compostos por praias que vao desde movimentas, com presenca de quiosques, bares e restaurantes, como a Praia Grande, a praias praticamente desertas e de dificil acesso com e o caso da Praia da Gruta. Nesse Corredor se encontram ainda os resorts mais caros e procurados do municipio, tais como o Vila Gale, localizado na praia do Tangua e Angra Inn, na Praia Grande.

[FIGURE 3 OMITTED]

Ja o denominado Corredor Ponta Sul possui belas praias, tais como a Praia Secreta, Praia Brava, Guariba e Mambucaba, esta tem como principal atratividade a Vila Historica, que mescla belezas naturais com historico-culturais se tornando importante motivador turistico. Outros atrativos sao as cachoeiras localizadas em bairros como Ariro, Zungu e Bracuhy, este possui uma reserva indigena que ainda preserva boa parte de sua cultura, possuindo ate mesmo uma escola indigena para os moradores dessa reserva, a Escola Estadual Guarani Karai Kuery Renda, localizada na aldeia Sapukai e o belo vale do rio Mambucaba, que e o mais extenso do municipio. Ressalta-se ainda como atrativo as Usinas Nucleares Angra I, II e III que se encontram tambem nesse Corredor Turistico. E de um total de doze atrativos levantados, apenas dois se enquadram na categoria historico-cultural.

O Corredor Ponta Leste nao foge a regra do Corredor Ponta Sul e possui nas praias seu principal atrativo, sendo a Praia das Eguas, Biscaia e Macieis as mais conhecidas. Os Canhoes do Forte do Leme e o Monumento aos Naufragos do Aquidaba sao pontos de atratividade, alem de inumeras cachoeiras no bairro da Caputera e das praias da Tartaruga, Paraiso, da Fazenda, Garatucaia. Neste corredor foram levantados vinte e dois atrativos turisticos, sendo desde total, dezenove naturais e apenas tres na categoria de historico-culturais.

A Ilha Grande, que se constitui por um unico Corredor Turistico, possui uma area de 192 [km.sup.2], com 106 praias, inumeras cachoeiras e muitas areas para realizacao de trilhas, que vao desde o nivel mais leve--que sao para as praias proximas a area central, praia do Abraao, e que e a area mais bem equipada da ilha, com existencia de mercadinhos, lan house, posto medico e um grande numero de estabelecimentos de hospedagem--, a percursos mais pesados, como as trilhas pra o Pico do Papagaio e Dois Rios, onde se localiza as ruinas do antigo presidio. Entre os locais mais conhecidos deste 'Corredor' estao as praias de Lopes Mendes, Aventureiro, Parnaioca, Saco do Ceu, Abraao e Dois Rios.

Ressaltando que a metodologia de hierarquizacao turistica foi aplicada apenas nos corredores da parte continental do municipio, sendo o Corredor Ilha Grande avaliado a partir de pesquisa em sites especializados na tematica turistica e que pode ser verificado a partir da descricao dos corredores, os elementos naturais formam a maior parte dos atrativos, tornando a eventos naturais, tais como chuvas de grande intensidades e MGMs interferem de forma significativa no funcionamento da pratica turistica municipal, sendo visualizado desta forma a necessidade de melhor compreensao desde segmento economico assim como a compreensao de processos evolutivos locais.

Os corredores turisticos em Angra dos Reis e a desestruturacao local

Os trabalhos de campo realizados nos meses de janeiro a maio de 2010 consistiram na identificacao das caracteristicas discriminadas em cada setor proposto por este zoneamento para a parte continental, sendo avaliados tanto os atrativos quanto os problemas de cada corredor em especifico e, principalmente, aqueles voltados para os processos de encosta que cada setor destes foi afetado nos primeiros meses de 2010.

Observou-se que o Corredor Turistico do Contorno foi o mais afetado pelas chuvas de 2010. Este corredor e cortado por uma unica e estreita estrada de acesso, que possui condicoes de trafego bastante complicadas em situacao de dias normais, onde sao agravados em alguns periodos tais como feriados prolongados e durante todo o verao, tendo esta situacao ficado insustentavel neste periodo do ano de 2010. Diversos trechos sofreram interdicoes, deixando moradores de bairros localizados ao longo deste corredor isolados por mais de 72 horas, so sendo possivel o deslocamento por meio de embarcacoes disponibilizadas pela Prefeitura Municipal em horarios pre- definidos, e que transportaram tanto moradores, proprietarios de hoteis e pousadas, quanto turistas. Bairros como Bonfim, que teve casas destruidas, Vila Velha e condominios como os localizados na praia da Figueira sao exemplos de areas afetadas neste setor (Figura 4). Hoteis, resorts e pousadas tiveram que realizar esquemas especiais durante o inicio de janeiro de 2010, assim como durante todo o periodo do verao de 2010, a fim de minimizar os prejuizos, tais como: disponibilidade de embarcacoes para hospedes e funcionarios, descontos em suas tarifas e propagandas "positivas" sobre a area. No entanto, marcas dos deslizamentos ainda sao visiveis ate os dias atuais, sejam por meio de obras de contencao ou pela cicatrizes dos movimentos gravitacionais ainda presentes nas encostas.

[FIGURE 4 OMITTED]

O Corredor do Centro foi afetado indiretamente pelos processos de encosta ocorridos nas comunidades que circundam o Centro do municipio, tais como aqueles nos morros Gloria (I e II) e Perez, assim como no morro do Carioca, onde se registrou obitos de moradores locais, como supracitado, alem de alagamentos e concentracao de detritos nas ruas ocasionado pelos movimentos gravitacionais de massa de encostas proximas. No Corredor Ponta Sul as consequencias do intenso regime pluviometrico foram bem proximos ao do Corredor Centro, sendo que pelo fato de ser diretamente cortado longitudinalmente pela BR-101, teve interrupcoes de trafego por conta dos MGMs ao longo da via. Nesta area, as ocorrencias mais expressivas foram os inumeros alagamentos nos bairros Parque Mambucaba (antigo Pereque) e Santa Rita (I e II), que ja possuem um historico desses acontecimentos que estao associados ao aumento da vazao fluvial e/ou a variacoes da mare (Salgado et al., 2007). E ao longo do Corredor Ponta Leste, tambem ocorreram processos de encosta em inicio de janeiro, no entanto os eventos mais graves foram desencadeados em momentos posteriores, mais especificamente no mes de abril em que ocasionou o fechamento da BR-101 por inumeras vezes, na altura do condominio Porto Galo.

CONCLUSAO

Ao longo deste trabalho pode-se observar que situacoes passadas de forte desestruturacao local, bem como os eventos de 2010, demonstram a necessidade urgente de estudos detalhados que permitam o reconhecimento tanto da fragilidade da morfologia local, quanto da susceptibilidade de caracteristicas geologicogeomorfologicas e pedologicas dos terrenos, em busca da minimizacao dos aspectos de degradacao ambiental frente a ocorrencia de eventos chuvosos extremos.

Foi observado que no intervalo de oito anos, entre 2002 e 2010, processos de encosta ocorreram sem que os dirigentes locais dessem a devida atencao e a implementacao de procedimentos que evitassem tais catastrofes. Desta forma, estes episodios acabam sendo um fator de repulsao turistica, e que desestabiliza a economia local que tem no turismo um dos principais fatores de arrecadacao de divisas. Torna-se, portanto, necessario respeitar e conhecer as reais condicoes de fragilidade ambiental da area para que se possam realizar medidas para um planejamento consciente e adequado de uso do solo na area.

Em relacao aos tipos de movimentos gravitacionais de massa com potencialidade de ocorrencia na area, existem tanto os do tipo corridas de massa (ou de detritos)--em locais de elevada declividade e topografia convergente, os movimentos de massa que se iniciam nos segmentos superiores das encostas se propagam em direcao ao fundo dos vales, assumindo velocidade e caracteristicas de corridas de detritos. Tais processos possuem um elevado poder de destruicao, carregando 'tudo que esteja a sua frente', com alto poder de destruicao nos segmentos localizados na base das encostas e ate mesmo mais a jusante das bacias e sub-bacias de drenagem e, consequentemente, desestabilizando os processos produtivos locais. Tambem sao notorios os do tipo escorregamentos rasos em setores das encostas que possuem pequena espessura de solo sobre rochas impermeaveis, e que ocorrem nos mais diversos pontos do municipio, desde ao longo das estradas e de ocupacoes que cortam as encostas, quanto em areas coberta pela vegetacao.

Estudos que procurem conhecer melhor a fragilidade local e seus eventuais riscos se mostram necessarios para o municipio, visto que muitos aspectos desta "fragilidade natural" ainda precisam ser compreendidos no intuito de evitar ou minimizar novos eventos catastroficos de magnitude tao elevadas como foram estes eventos aqui trazidos. A paisagem nesta area e simbolo de atratividade, por estar carregada de belas informacoes e que retratam muito bem este lugar, como se refere Yazigi (2002) ao mencionar a importancia da paisagem para o turismo, e deve, portanto procurar afastar os aspectos duvidosos ao turista que tanto deseja conhecer uma area tao bela e constituida de inumeros atrativos. Alem deste aspecto a populacao local tem o direito, e tambem o dever, de contribuir atraves do conhecimento e conscientizacao das fragilidades ambientais do municipio, que deve ser encaminhada por uma politica seria e informativa da Prefeitura Municipal.

Enviado para publicacao em julho de 2011.

Aceito para publicacao em dezembro de 2011.

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Eluan Alan Lemos Pocidonio

Graduando em Geografia/UFRJ Bolsista PIBIC-CNPq/UFRJ

eluanlemos@yahoo.com.br

Telma Mendes da Silva

Doutora em Geografia/UFRJ Profa. Adjunta--Depto. Geografia/UFRJ

telmendes@globo.com
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Author:Pocidonio, Eluan Alan Lemos; da Silva, Telma Mendes
Publication:Geo Uerj
Date:Dec 1, 2011
Words:7986
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