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Narratives about the leprosarium on Pacuio Island or Aquariums in Porto Seguro: deforestation as sanitary-social vigilance and punishmen/Narrativas acerca do leprosario na Ilha do Pacuio em Porto Seguro: estruturas de poder sobre o Mal de Hansen, degredo e abandono socio-politico-sanitario/Narrativas sobre la leproseria en la Isla del Pacuio o de los Acuarios en Porto Seguro: el exilio como vigilancia y castigo socio-sanitario.

APRESENTACAO DO OBJETO DE ESTUDO

O conceito de territorio e discutido por uma gama de teoricos e pesquisadores de diversas areas do conhecimento como a Historia, a Geografia, a Sociologia, a Antropologia, dentre outras, e os campos conceituais que estas areas aportam sao imprescindiveis para a analise ensaistica em torno do objeto de estudo no que concerne as Narrativas acerca do leprosario na Ilha do Pacuio ou dos Aquarios a partir das estruturas de poder sobre a Hanseniase ou Mal de Hansen, o degredo e o abandono sanitario-socio-politico.

Diante de um arcabouco conceitual abrangente, para iniciar a discussao, foi necessario recorrer a autores pontuais como Raffestin (2010) que propoe, por exemplo, como as concepcoes de um territorio podem ser mudadas por meio das praticas ocorridas em um mesmo lugar ao longo do tempo, podendo ser alterada ou ate apagadas. Partindo-se desse pressuposto, durante os meses de julho e agosto de 2016, fez-se uma pesquisa de campo sobre as narrativas, memorias provocadas e empirias historico-discursivas de antigos moradores de Porto Seguro acerca da Ilha. Para a consecucao das visitas in loco, a equipe de pesquisadores, valendo-se de instrumentos de coleta via audio, recorreu a memoria da populacao local como dispositivo de compreensao e de analise das transformacoes diatopico-culturais que o espaco investigado sofreu no decorrer da historia.

Ao optar-se pelo registro oral com vistas ao resgate da memoria, levou-se em consideracao que para o acesso as empirias, as vivencias e aos sentidos da amostra populacional entrevistada, foi importante dialogar com o cotidiano do grupo investigado, com seus ajustamentos, taticas e conformismos situados no tempo-espaco, pois os fatos, por meio do discurso, se materializam nas memorias sobre o vivido/sentido/experienciado.

Para a compreensao dos dados/analises discursivo-memoriais sobre o leprosario como locus de degredo e punicao sanitario-politico-social, foi necessario observar o contexto socio-geografico-historico-politico-economico-sanitario-cultural no qual os atores entrevistados, antigos moradores porto-segurenses, se inseriam. Nesse bojo, tambem e importante descortinar os aportes semantico-semioticos sobre as mudancas ocorridas na paisagem-topos da ilha a partir da influencia dos atores internos e externos a comunidade, bem como identificar como se deram as mudancas fisicas e utilitarias do local ate a posmodernidade, e dialogar com o papel que a memoria coletiva e individual exerceu/exerce para o resgate historico-cultural. Ademais, foram elaboradas indagacoes que despontaram como norte para a construcao de toda a analise do resultado dos dados levantados em campo. Dentre os questionamentos, estao: quao prejudicial seria um panorama historico na utilizacao da ilha no passado aos interesses de quem a comanda hoje? As mudancas no espaco fisico apagam os fatos que ali ocorreram? Para assegurar os atuais modelos e, principalmente, a importancia financeira que o local atual representa como empreendimento turistico, em casos como esse, a memoria (e toda a cultura que um dia existiu no territorio) e remodelada, ignorada, esquecida e/ou ate mesmo guardada para que um dia possa ser redescoberta?

A escolha do tema pesquisado se deu em torno da importancia dos estudos da memoria, portanto, o texto em questao objetiva servir como leitura-reflexao critica acerca das memorias e das ressignificacoes locais, de forma que possa ser possivel registra-las com a devida importancia que elas possuem, alocando espaco no hall da historia de Porto Seguro, que teve uma mudanca estrutural na forma de pensar seus paradigmas sociais. Dessa forma, este trabalho destina-se aqueles que, de alguma forma, compartilham a manifestacao de desconforto ao saber que, a ilha estudada, que atualmente funciona como complexo de lazer, ja foi um complexo de reclusao que abrigava, acima de tudo, seres humanos acometidos por doencas, segregados, abandonados e conceituados da pior forma possivel atraves da forca da ignorancia humana e das caracteristicas politico-economicas do tempo no local.

Com o objetivo exploratorio e descritivo, buscou-se nesta pesquisa desvendar e compreender o objeto de estudo atraves de uma abordagem direta, a partir de uma pesquisa de campo com a aplicacao de entrevistas a antigos moradores da regiao sobre o fenomeno estudado.

As entrevistas realizadas, sem excecao, foram executadas de maneira bastante informal, em uma perspectiva dialogico-discursivo-polifonica, dando pleno espaco e liberdade para o entrevistado relatar tudo o que sentia e conhecia a respeito da ilha. Todo o processo de entrevista ocorreu sem questionarios programados, construidos no contato discursivo, a medida que os dialogos aconteciam entre os pesquisadores e os atores sociais entrevistados, dependendo da resposta apresentada e de questoes importantes que iam se desvelando no discurso. Porem, a informalidade das entrevistas nao deixou espacos para a falta de rigor cientifico, pois todos os integrantes foram a campo com metas e perguntas preestabelecidas para que o objetivo da pesquisa nao fosse desvirtuado nem ficasse confuso. Os pesquisadores, no ato das entrevistas, estavam atentos aos sentimentos, gestos e aos sinais expressos pelos entrevistados, passo importante para a compreensao da memoria pessoal que e tao trabalhada na pesquisa. Alem das entrevistas realizadas, houve tambem uma consulta a arquivos bibliograficos, tais como Museus e Cartorio de Registros da cidade de Porto Seguro, com o objetivo de encontrar dados e informacoes que fundamentassem os resultados da pesquisa.

CONSIDERACOES TEORICAS SOBRE O TURISMO E O PACUIO

A matriz de producao, geracao de emprego e de renda em Porto Seguro e o Turismo e pensar esta atividade requer visualiza-la como produto. Coriolano (2006) apresenta que este produto e abstrato, pois trata da venda da imagem de um local destituido de conteudo social em detrimento da construcao de um espaco-fantasia dos cartoes-postais. Partindo-se do pressuposto apresentado pelo teorico anterior, e possivel elaborar uma ponte conceitual com o que afirma Santana (2016) quando este pontua que os atores sociais envolvidos com o turismo na cidade de Porto Seguro desenvolveram praticas exploratorias do capital natural e essa concepcao tambem aparece no discurso do turista que concebe a regiao como pacote-objeto a ser consumido.

Diante do exposto acima, e oportuno recorrer a discussao que Cara (1996) faz quando pontua que o turismo ao se materializar em determinado espaco, pode tanto artificializa-lo como artificializar e criar imagens ilusorias e descaracterizar a identidade cultural da populacao hospedeira, criando desta forma, uma cadeia de processos que os geografos denominam "turistificacao". Ja a partir de Santos (2002) observa-se que para que estes mesmos espacos turisticos permanecam atrativos e preciso, constantemente, realcar suas virtudes (1).

Considerando-se as minucias que caracterizam a Ilha do Pacuio (2), sua desconstrucao e reconstrucao enquanto signo da cidade ate ser reconhecida como Ilha dos Aquarios, uma analise que se sustente na concepcao antropologica do turismo nas sociedades modernas e fundamental para compreender o tracado que visa a comunicar este conceito a definicao que Raffestin (2010) usa para territorio. Tal exercicio critico so e possivel mediante o emprestimo da linha de raciocinio usada por Michael Pollack, pois o referido autor credita ao efeito de reivindicacao social o resgate intacto das memorias inaudiveis que ele chama de 'clandestinas'. A problematica, e por que nao antitese, reside no conflito que o resgate dessas memorias causa ao efeito turistificacao. Ora, tendo ratificado o espaco turistificado como imagem na publicidade dos espacos da cidade, nao e coerente atribuir a imagem do produto qualidade que causa repulsa e, consequentemente, rejeicao (KOTLER, 2000). Convencionar a imagem ja internacionalmente vendida de entretenimento e diversao com a ciencia de que ali pode ter funcionado um sistema de reclusao e opressao social, pode dar resultados que tem potencial para resgatar memorias que a propria cidade marginalizou, justificando as ciclicas mudancas que Bloch (2002) reitera ao reconhecer que esse tempo verdadeiro e, por natureza, um continuum e tambem perpetua mudanca.

Le Goff (1992) apresenta um conceito sobre memoria coletiva que coaduna com o que foi mencionado no paragrafo anterior, (...) Do mesmo modo, a memoria coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forcas sociais pelo poder. Tornar-se senhor da memoria e do esquecimento e uma das grandes preocupacoes das classes, dos grupos, dos individuos, que dominaram e dominam as sociedades historicas. Os esquecimentos e os silencios da historia sao reveladores destes mecanismos de manipulacao da memoria coletiva.

Partindo-se do desafio de colher informacoes que corroborem os relatos locais, este recorte configura-se como cenario util para o emprego da linha pollakiana dos estudos da memoria. Justifica esta escolha a competencia do autor e sua vivacidade ao definir e estudar as memorias individuais e coletivas tratando-as como eventos pelos quais e possivel dialogar com o tema de pesquisa adotado. Porem, tendo reconhecido as diversas nuances que o tema proposto carrega e comporta, registra-se a ambicao de elencar outros autores que tambem tratam dos estudos da memoria e da identidade no ambito da Antropologia.

O problema que se coloca em longo prazo, para as memorias clandestinas inaudiveis, e o de sua transmissao intacta ate o dia em que elas possam aproveitar uma ocasiao para invadir o espaco publico e passar do nao dito a contestacao e a reivindicacao; o problema de toda memoria oficial e o de sua credibilidade, de sua aceitacao e tambem de sua organizacao. (POLLACK, 1989)

A VILA APOS A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E AS INFLUENCIAS DO POLICIAMENTO MEDICO SANITARISTA

Apos a Segunda Guerra Mundial, Porto Seguro inserida em uma regiao que ainda nao havia se descoberto para o turismo, a existencia deste lugar na rota dos principais destinos turisticos do mundo era algo que nem o mais gabiru (3) dos nativos imaginava. A atual cidade de Porto Seguro, na epoca, vila, encravada no Sul da Bahia, sem existencia no mapa politico (4) era cortada por rios, cercada pela Mata Atlantica, no litoral e distante do fluxo populacional.

A "Terra do Descobrimento" carregava os tracos de um local ainda nao descoberto, era de dificil acesso e quase nenhuma estrada possuia pavimentacao. Cerca de duas mil pessoas compartilhavam o que ha tempos vinha sendo o retrato fiel de um Brasil ainda reconhecidamente rural, de extrema pobreza, saude precaria e quase nada em educacao (5).

Porto Seguro era o lar de poucos habitantes e o efeito direto foi observado pela alta taxa de endogamia (6). Pelas dificuldades de acesso, a saude era um dos servicos mais escassos. Hospitais e postos de saude surgiram apenas algumas decadas mais tarde. Nao havia medicos no territorio e somente em 1953, segundo um dos entrevistados, chegou ao municipio um profissional, que, por muito tempo, foi o responsavel pela saude de toda a regiao.

Em uma vila sem acesso a educacao, com defasada distribuicao de renda e sem estrutura medica, as pessoas que contraiam doencas para as quais nao era possivel dar um diagnostico clinico, e que ofereciam potenciais riscos a saude coletiva, eram retiradas do convivio social. Uma dessas doencas, a mais estigmatizada das enfermidades, a lepra, termo em desuso, pela carga de preconceito que carrega, atualmente, conhecida como Hanseniase ou Mal de Hansen. Cunha (2005) considera que o entendimento sobre este termo consistia em simbolo da impureza moral. Justa (apud Souza-Araujo, 1956 apud Feitosa et al 2014) avanca ao afirmar que a lepra significava:
   [...] mais do que uma doenca; vale uma condenacao; fere o ser
   humano desde os tempos biblicos, marcando o dedo com o ferro do
   pavor por parte dos outros; faz dele um reprobo, um banido; uma
   doenca-terror que horripila e segrega, porque desconhecida a
   natureza do agente provocador. E entao, o remedio e isolar o doente
   do convivio social.


Em uma acao que possibilita questionar a imagem que os brasileiros reproduziram a partir da identidade oriunda da Policia Medica (7) e fundada pela definicao freudiana do homem conflitivo e, sobretudo, impulsivo, afirma-se que a tentativa de erradicar os provaveis surtos das doencas que dificilmente poderiam ser combatidas foi socialmente convalidada mediante especime de simulacro de apartheid (8), uma clara reclusao social que configurou arquetipo de aplicacao do controle sanitario inerente a epoca. Dessa forma, analisa-se que a "segregacao obrigatoria desses doentes, que, no inicio, parecia autoritaria, detinha a intencao de preservacao da saude coletiva." (CASTRO, 2003).

Geralmente, locais de reclusao como o Pacuio eram escolhidos pela distancia da area urbana com o intuito de manter os enfermos totalmente isolados. E importante destacar que o isolamento insular como meio de reclusao de pessoas com doencas incuraveis para a epoca, como a hanseniase, se deram em varias partes do Planeta. Para a compreensao desse quadro historico, e oportuna a leitura de artigos e outros trabalhos como o de Zamparoni (2017), Lepra: doenca, isolamento e segregacao no contexto colonial em Mocambique e o de Ramos (2017), Hanseniase e estigma no seculo XXI: narrativas de moradores de um territorio endemico. No trabalho de Zamparoni, por exemplo, ha registros de ilhas utilizadas para o isolamento de pessoas com hanseniase, naquele contexto, nomeada como lepra, no Continente Africano.

Acerca desses espacos, com vistas a analise de que as praticas de isolamento insular se repetiram em varias partes do Planeta e nao somente no Pacuio, e proficuo recorrer ao que afirma Zamparoni (2017) ao discutir a hanseniase como doenca, isolamento e segregacao no contexto colonial em Mocambique:
   Essas sao evidencias da aplicacao em terras coloniais, em extremo,
   do termo "isolar": "isola", "ilha". Desconectados do mundo, na
   ilha, os internos eram quase abandonados a propria sorte; faltava
   alimentacao, e o fornecimento de medicamentos era parco e incerto.
   Em Massavelene, os doentes que nao estavam incapacitados eram
   obrigados aos trabalhos agricolas, mas, por diversas razoes, entre
   elas as climaticas, as colheitas eram insuficientes, e a escassa e
   pobre alimentacao que o Estado provia nao chegava no momento devido
   nem era suficiente para atender as necessidades.


Em Porto Seguro, o espaco escolhido foi a Ilha do Pacuio, principalmente, por ser separada da cidade pelo Rio Buranhem que se dividia em dois bracos de rios (9) conhecidos como Curitiba e Santo Antonio, e tinha como unica forma de acesso canoas que tornavam o isolamento eficaz.

Porto Seguro, naquele contexto historico, nao possuia medicos, ou seja, o isolamento dessas pessoas nao lhes garantia um tratamento, pelo contrario, a reclusao poderia ate agravar ou desencadear outras doencas. Na epoca, se acreditava que a lepra era transmitida pelo ar, os moradores tinham receio do contato com essas pessoas, mesmo sem o devido diagnostico da doenca, houve inclusive um caso em que a populacao quis enviar a ilha uma crianca (10) de cinco anos de idade, com catapora, por achar que estava com lepra.

Entende-se que a ilha foi adotada como estrutura de isolamento do tipo leprosario, com o objetivo de manter o controle de doencas transmissiveis. Ressalta-se o fato de que as pessoas reclusas na ilha nao recebiam nenhum suporte digno de moradia, ja que os proprios degredados tinham que construir suas moradias, na epoca, feitas de sopapo (11) e cobertas com palha.

A construcao coletiva de moradias pelos degredados imprime um sentido de coletividade e, acerca disso, e possivel compreender o conceito de comunidade apresentado por Bauman e May (2010). A partir destes autores, verifica-se que, para que seja possivel usar o termo comunidade, um grupo de pessoas deve comungar algum tipo de concordancia em algum tema (12).

Na ilha, por compartilharem similaridades tao intimamente sentidas enquanto sujeitos, rompe-se com qualquer hipotese cujo alvo seja a desconstrucao da ideia de que ali, para alem da definicao atual de leprosario ou ilha de quarentena, de fato funcionou uma organizacao com funcoes distribuidas, com membros nao arguidos da condicao em que se encontravam, porem, minimamente coordenados no sentido de se manterem vivos. De tal forma que, mesmo abandonados pela sociedade oficial da cidade, com pouco ou quase nenhum suporte, ao ponto de os proprios membros terem de construir suas moradias, nao ha duvidas de que a Ilha do Pacuio foi uma comunidade de leprosos mediante a sustentacao e interconexao entre seus membros. Nessa linha, Bauman e May (2010) fundamentam que: "os fatores unificadores sao valorizados como mais fortes e importantes do que qualquer coisa que possa causar divisoes, e as diferencas entre os integrantes". Nessa linha, e importante compreender que a maneira como um grupo, para manter-se e se proteger, pratica exclusoes, estabelece as formas de assistencia, reage ao medo da morte, recalca ou alivia a miseria, intervem nas doencas ou as abandona em seu curso natural (FOUCAULT, 1994, p. 16).

DIALOGOS DE MEMORIAS E ANALISE DAS ENTREVISTAS

Antes de qualquer resultado por meio dos audios dos entrevistados, e importante destacar que para a consecucao da analise do material discursivo dos entrevistados foram feitas intercalacoes entre os dados analisados a partir das entrevistas, dos aportes teoricos e das citacoes que fundamentem/ sustentam essa comunicacao cientifica.

Os fatos silenciados-apagados no que se refere a historia da Ilha do Pacuio sao, no minimo, instigantes, por isso, ao analisar em profundidade o papel da memoria para o tecido social porto-segurense, as funcoes em grupo ou em ambito individual, as circunstancias que despertam a utilizacao e os pontos da historia em que ela se aplica, na maioria das vezes, nao se compreende, com precisao, como se dao as transformacoes temporais, mesmo que se faca parte delas; os acontecimentos corriqueiros que constroem passo a passo a historia nao despertam o interesse social e isso implica em deduzir que a memoria esta diretamente atrelada ao passado, as lembrancas, aos sentimentos e as emocoes que um grupo ou um individuo viveu.

A unica forma de se reviver acontecimentos do passado e atraves da memoria, pois ela serve como um elo atemporal que e capaz de trazer o passado para o presente de forma efetiva, com o poder de, mesmo apos varios anos, despertar emocoes diversas nas pessoas. Nesse sentido, Ricoeur (1994, p. 41), valendo-se de um conceito sobre o tempo apresentado por Santo Agostinho, elucida a seguinte questao:
   O achado inestimavel de santo Agostinho, reduzindo a extensao do
   tempo a extensao da alma, e o de ter ligado essa distensao a falha
   que nao cessa de se insinuar no coracao do triplice presente: entre
   o presente do futuro, o presente do passado e o presente do
   presente. Assim, ele ve a discordancia nascer e renascer da propria
   concordancia entre os designios da espera, atencao e memoria.


Ao analisar, de forma objetiva, o que afirma o teorico acima, que tem como base os escritos de Santo Agostinho, fica nitido a funcao que a memoria desempenha na historia e isso ficou bastante evidente na recuperacao da memoria sobre a atual Ilha dos Aquarios a partir dos discursos memoriais das pessoas entrevistadas. Do total de cinco entrevistados, em todas as situacoes de dialogo, ao longo da aplicacao dos questionarios de entrevista, os dados, as imagens e os fatos foram apresentados e essas informacoes que ate hoje nao sao conhecidas por grande parte da sociedade porto-segurense contribuirao para a escrita de parte de outro capitulo da historia da cidade.

No processo de construcao dessa pesquisa, foi possivel vivenciar esse tipo de experiencia afetiva memorial que aporta novos sentidos e fatos historicos ao municipio de Porto Seguro. Em um determinado momento da entrevista, em uma das falas de uma das pessoas entrevistadas, constataram-se duas situacoes distintas: a principio, ela afirmou que nao possuia lembrancas sobre o assunto e, em outra situacao a frente, demonstrou uma reacao totalmente oposta quando nao conteve a emocao ao cantar um fado, cancao que se caracteriza pelos tons sentimentalistas e melancolicos. Naquele momento, presenciou-se a aplicacao da memoria ligando passado e presente.

Essa juncao entre passado e presente se deu em diversas situacoes nas entrevistas realizadas. Por exemplo, na gravacao realizada no dia 12 de agosto de 2016, um dos entrevistados ao ser questionado sobre qual o nome da Ilha dos Aquarios antes do lugar receber o referido nome, respondeu o seguinte: (...) ali foi uma colonia de leproso ... Um historiador bastante conhecido em Porto Seguro sempre fala que a Ilha dos Aquarios se chamava Ilha do Pacuio.

Em situacoes como as narradas acima, e possivel observar como a memoria pode exercer funcoes variadas dentro de um determinado grupo, e, dependendo da importancia historica dos fatos, havera diferentes formas de utilizacao da memoria. Muitas vezes, ela pode servir como objeto modelador de um passado que se deseja esquecer, ja em outras, ela servira como base para reacender lembrancas positivas. Sendo assim, compreende-se que a pluralidade das funcoes memoriais de um grupo relaciona-se de forma distinta com as questoes coletivas e individuais. Nessa perspectiva, e necessario recorrer ao que apresenta Nora (1993, p. 14): "porque e afetiva e magica, a memoria nao se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembrancas vagas, telescopicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbolicas, sensivel a todas as transferencias, as cenas, a censura ou projecoes".

Sabe-se das diferencas que exercem a positividade e a negatividade dos sentimentos sobre os seres humanos. Relatar momentos de gloria e exito em louvor proprio, quase sempre e feito com riqueza de detalhes e orgulho, enaltecendo acontecimentos e o reconhecimento do outro sobre si, para que, dessa forma, sejam expostas as virtudes e as realizacoes como ser humano. Na contrapartida das boas emocoes, as vivencias negativas carregadas de sofrimento e de dor exercem influencia contraria nos autos relatos. Quando o ser humano e questionado sobre assuntos que possuem alguma carga afetiva negativa ou traumatica, esquivando-se, adiando, omitindo ou falando muito pouco sobre aquilo, permitindo, assim, um possivel resguardo das dignidades da visao coletiva. Acerca disso, e oportuno recorrer ao que pontua Pollack (1989):
   E algumas vitimas, que compartilham essa mesma lembranca
   "comprometedora", preferem, elas tambem, guardar silencio. Em
   lugar de se arriscar a um mal-entendido sobre uma questao tao
   grave, ou ate mesmo de reforcar a consciencia tranquila e a
   propensao ao esquecimento dos antigos [...], nao seria melhor se
   abster de falar?


A citacao acima coaduna com um dos mais interessantes e emocionantes relatos concedidos ao resgate memorial da Ilha do Pacuio, a partir das lembrancas de um dos entrevistados quando, ao ser indagado sobre seu possivel envio para o territorio da reclusao, se manifestou da seguinte maneira: "Eu nao tenho lembranca nao, eu tive foi catapora braba. Depois minha vo contou que uma amiga e outras pessoas se afastaram de casa, com medo que fosse lepra, que eu nao tive lepra, foi catapora braba".

Observa-se acima uma resposta direta que, automaticamente, intimidaria o grupo de pesquisadores a fazer perguntas mais incisivas que pudessem aflorar recordacoes desagradaveis. "Nao tenho lembranca nao, eu tive foi catapora braba" Em seguida, observou-se uma exteriorizacao mais tranquila sobre a experiencia do entrevistado com a catapora, doenca que, atualmente, e livre de preconceitos, o que nao ocorre com a hanseniase, enfermidade historicamente estigmatizada desde as passagens biblicas, "mal de Lazaro", ate as infelizes referencias aos caes leprosos que vagam pelas ruas. A sociedade da epoca, temerosa pelo contato direto com pessoas acometidas pela doenca, logo se afastava de seu entorno, de sua propria casa e, a partir disso, e possivel ter uma dimensao da consequencia que um possivel reconhecimento de "leproso" poderia desabar sobre uma pessoa, ou ate mesmo sobre uma familia na epoca.

O relato do entrevistado apresentado acima confirma o que pontua Nora (1981, p. 14): "Tudo que hoje e chamado de memoria, nao e, portanto, memoria, mas ja historia. Tudo o que e chamado de clarao de memoria e a finalizacao de seu desaparecimento no fogo da historia. A necessidade da memoria e uma necessidade da historia".

A inexistencia de lugares de memoria, de uma historia material e imaterial a respeito da cronologia territorial da ilha, como museus e memoriais, a exemplo dos hospitais psiquiatricos que, na segunda metade do seculo passado, tambem serviram como locais de reclusao para os mais variados tipos de grupos socialmente indesejados, ainda que, em maior escala, e uma causa provavel para que as vivencias ocorridas no Pacuio nao sejam narradas de modo a realimentar as memorias familiares das vitimas com um espirito reflexivo dos sofrimentos ali imputados.

Tais monumentos a memoria coletiva possibilitaram a devolucao da dignidade a todos aqueles que foram atingidos por processos de injusticas e exclusoes de toda ordem durante a historia da humanidade. Nesse ambito, Pollack (1989) menciona que as "lembrancas proibidas sao indiziveis e/ou vergonhosas; sao, zelosamente, guardadas e passam despercebidas pela sociedade". Ja Halbwachs (1990) coloca:
   Enquanto uma lembranca subsiste, e inutil fixa-la por escrito, nem
   mesmo fixa-la, pura e simplesmente. Assim, a necessidade de
   escrever a historia de um periodo, de uma sociedade, e mesmo de
   uma pessoa desperta somente quando eles ja estao muito distantes
   no passado, para que se tivesse a oportunidade de encontrar, por
   muito tempo ainda em torno de si, muitas testemunhas que dela
   conservem alguma lembranca.


Como mencionado anteriormente, todos os acontecimentos de hoje formam as memorias que a sociedade tera no futuro, mas a importancia do presente, muitas vezes, nao e percebida. Surge, entao, a necessidade de fixar a memoria atraves de algum mecanismo.

Sabe-se que antigamente a historia era toda construida de forma oral, que os fatos e os acontecimentos eram eternizados atraves da fala, mas, atualmente, essa preservacao possui como aliada impar a escrita. Sao raros os exemplos de grupos sociais que nao tenham, pelo menos, alguma pista de seu passado relatado.

O exito do estudo de um determinado grupo esta proporcionalmente ligado a quantidade de informacoes que se tem dele. Para que exista enriquecimento da pesquisa, e necessario que haja detalhamento informativo, porem, muitas vezes, os acontecimentos e lembrancas de um grupo sao propositalmente esquecidos, como e o caso da Ilha do Pacuio ou dos Aquarios.

A memoria ainda possui suas funcoes ligadas as boas lembrancas, mas e necessario descosturar essa cultura, pois os acontecimentos, mesmo que sejam desagradaveis, sao importantes para preservar a historia e marcos, entendendo que o presente constroi a historia e so assim a memoria podera, futuramente, cumprir suas funcoes.

Os resultados alcancados na pesquisa possibilitam a materializacao da historia oral atraves da escrita, pois a partir dos 5 sujeitos de pesquisa entrevistados, foi possivel fazer um levantamento discursivo-memorial que contribui para trazer a tona parte de uma historia silenciada no municipio.

Para detalhar parte das memorias sobre a Ilha do Pacuio ou dos Aquarios, abaixo serao apresentadas tabelas com especificacoes discursivas de transcricoes a partir de respostas apresentadas pelos moradores entrevistados ara alguns dos questionamentos elaborados nas entrevistas feitas em julho e agosto de 2016.

No Quadro 1, e possivel compreender o que era a Ilha dos Aquarios antes de receber esse nome, bem como entender se eram enviadas para a Ilha somente as pessoas com Hanseniase ou Mal de Hansen. De acordo com as falas listadas abaixo do entrevistado 1, podese perceber que, para a cultura da epoca, a segregacao de individuos, quer pela doenca em si, ou por outro motivo justificado para a epoca, era considerada normal e aceita por estes individuos. Na entrevista tambem ficou evidente que na ilha nao ficavam somente pessoas com Hanseniase ou Mal de Hansen, mas, tambem, outras pessoas que contraiam doencas consideradas contagiosas ou incuraveis para a epoca.

No Quadro 2, abaixo, a partir das transcricoes da entrevista com o entrevistador 2, importante historiador do municipio de Porto Seguro, pode-se analisar se a atual Ilha dos Aquarios era uma Colonia de pescadores, quem era enviado ao leprosario e o porque do nome Ilha do Pacuio e como as pessoas eram enviadas para la.

A fala do entrevistado no quadro 2, corrobora a informacao apresentada no quadro 1 no tangente ao fato de que nao somente pessoas com Hanseniase eram enviadas para o degredo na Ilha. O fragmento discursivo que aparece no quadro abaixo, o entrevistado cita um caso de uma pessoa enviada para a Ilha sem hanseniase "Ele teve aquelas bexigas de "berna", coisa que da em animal, boi. Como as pessoas nao sabiam que doenca se tinha se colocava la", corrobora que a Ilha serviu como espaco de isolamento para qualquer doenca que fosse vista como contagiosa ou incuravel.

No Quadro 3, a seguir, o entrevistado 2, como mencionado, historiador de Porto Seguro, responde se e fato o que se ouve por ai que quando as mulheres nao conseguiam casar, eram enviadas para a Ilha, tambem, se so ia para a Ilha quem tinha Hanseniase ou Mal de Hansen e se a pessoa que era enviada e nao possuia uma familia economicamente privilegiada ficava a merce da sorte.

As falas apresentadas por cada entrevistado que aparecem nos quadros 1, 2 e 3 sao cruciais para um novo capitulo sobre a historia de Porto seguro no que se refere ao silenciamento sobre os fatos ocorridos na Ilha do Pacuio, atual Ilha dos Aquarios.

ALGUMAS CONSIDERACOES FINAIS

A Ilha do Pacuio, provavelmente, comecou a ser usada como leprosario a partir do seculo XIX, conforme mencionou um dos entrevistados que e um dos mais importantes historiadores da cidade, estendendo-se ate o inicio de 1950. Ao longo do tempo, passou por inumeros processos que alteraram suas caracteristicas fisicas e conceituacao identitaria, principalmente no que concerne as memorias que lhe sao atribuidas.

Pesquisar acerca de um tema tao delicado, que se dissipou historicamente, nao constitui tarefa facil, de forma que nem sempre as pessoas estao dispostas a falar sobre esse tipo de situacao. Contudo, tais acontecimentos nao devem ficar soterrados no tempo, dado a importancia que comportam.

A partir das falas dos entrevistados nos quadros 1, 2 e 3, foi possivel analisar como se deu a atuacao da memoria na vida dos antigos moradores de Porto Seguro no tocante a Ilha do Pacuio ou dos Aquarios. Alem disso, atraves dos relatos de cada ator social entrevistado pode-se descortinar como e quando aconteceram as transformacoes territoriais da ilha, detentora no passado de um territorio mais amplo que foi reduzido devido aos processos de dragagem em seu entorno. Cada fragmento de fala reconta parte da historia que foi silenciada sobre a Ilha dos Aquarios, talvez, para nao interferir na semantico-semiotico-pragmatica das atividades de turismo e lazer desenvolvidas atualmente no espaco em baila.

Constatou-se que, ao longo da historia, que o Pacuio foi utilizado como caieira (13), leprosario e ilha de fantasia sexual (14), ate se tornar empreendimento turistico e festivo, semantica que a caracteriza atualmente (outra semiotica que precisa ser estudada e analisada mais a frente).

Para que a Ilha dos Aquarios adquirisse relevancia no cenario turistico atual, foram necessarias transformacoes consideraveis na topografia/geografia/historia do Pacuio para novos imaginarios semiotico-semiologico-semanticos societarios dos nativos e dos turistas que visitam o espaco. Nessa linha, cabe destacar que, ao longo da pesquisa, descobriu-se que as reconfiguracoes territoriais da Ilha ocorreram devido a acao de atores externos ao territorio com vistas a turistificacao do topos em questao. Entretanto, tais mudancas nao apagaram as vivencias ocorridas no referido locus, dado que a historia encontra-se registrada na memoria de cada individuo que viveu ou tomou conhecimento acerca do proposito da Ilha do Pacuio enquanto local destinado a reclusao social.

E importante relatar que os entrevistados forneceram informacao que sustentam a ideia de que o processo de envio dos doentes nao diagnosticados para o Pacuio era feito pela sociedade que exigia da familia do "leproso" a sua retirada do convivio social, ato considerado normal para a epoca.

Por fim, este trabalho, alem de trazer a tona parte da historia silenciada sobre a Ilha, contribui para ampliar saberes acerca da arte do fenomeno de pesquisa no que concerne as narrativas acerca do leprosario do Pacuio a partir da analise do degredo como vigilancia e punicao sanitario-social.

http://dx.doi.org/10.12957/sustinere.2017.29590

REFERENCIAS

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KOTLER, Philip. Administracao de Marketing. 10a Edicao, 7a reimpressao--Traducao Bazan Tecnologia e Linguistica; revisao tecnica Arao Sapiro. Sao Paulo: Prentice Hall, 2000.

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Elissandro dos Santos Santana

Professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes

Colunista Socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato

Revisor da Revista Latinoamerica

Membro do Conselho Editorial da Revista Letrando

[mail] lissandrosantana@hotmail.com

Huillte Barbosa Jardim dos Santos

Graduando do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades--UFSB

[mail] hbjvix@gmail.com

Moreno Fernandes do Nascimento

Graduando do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades--UFSB

[mail] fernandesmoreno53@gmail.com

Nicholas Lula Dias Ralile

Graduando do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades--UFSB

[mail] diasnicholas3@gmail.com

Radharani Cabrera Teixeira de Arruda

Graduanda do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades--UFSB

[mail] radha.ufsb@gmail.com

Recebido em 18 de junho de 2017 Aceito em 13 de julho de 2017

(1) Na ilha, os simbolos foram forjados para o turismo, mas nao herdados de sua historia real.

(2) Segundo o historiador Romeu Fontana, a ilha recebeu esse nome em funcao dos peixes presentes naquele ecossistema por nome Pacus.

(3) Assim eram chamados os nativos de Porto Seguro.

(4) Adaptacao da transcricao de audio do historiador Romeu Fontana.

(5) Adaptacao da transcricao de audio de morador idoso.

(6) Endogamia e um sistema em que os acasalamentos se dao entre individuos aparentados, relacionados pela ascendencia.

(7) Oficializada em 1808 pela Familia Real, o termo vem do original Medizinichepolizei e significa "policia medica". Foi utilizado pela primeira vez na Alemanha, em 1764, por Wolfong Thomas Rau, em seu livro "Reflexoes sobre a utilidade e a necessidade de um regulamento de policia medica para um Estado".

(8) Significa "vidas separadas" na Lingua Africaner.

(9) Informacao obtida na transcricao de audio de morador idoso.

(10) Adaptacao da transcricao de audio de morador idoso.

(11) Termo utilizado pelo entrevistado, importante historiador da cidade de Porto Seguro, a partir das transcricoes dos dialogos da entrevista (2017), significa casa feita de varas cobertas de barro na parede, mais conhecida tambem como pau-a-pique.

(12) Na redacao oficial, alem do ja citado, e tambem concordar "[...] com algo que outras rejeitem e que, com base nessa crenca, atestar alguma autoridade." (Adaptacao) (BAUMAN e MAY, 2010, p. 75)

(13) Local de fazer cal.

(14) No inicio desse processo eram trazidas garotas de outros lugares, algumas inclusive de marcas famosas para movimentar o lugar e incentivar o fluxo de pessoas. E preciso entender que os tempos eram outros e que as praticas que ocorriam ali eram acoes de uma sociedade que via a mulher apenas como objeto sexual.
Quadro 1--Memorias narradas acerca de como se chamava a Ilha dos
Aquarios anteriormente

QUESTIONAMENTOS                        ENTREVISTADO 1
ELABORADOS PELOS
PESQUISADORES

O que era a Ilha dos   Na realidade, e uma coisa engracada, ne? Nao
Aquarios antes de      sei se voce sabia, mas ali foi uma colonia de
receber este nome?     leproso e meu pai ... Ele foi medico aqui ha 63
                       anos. (...) la foi uma ilha de leproso. Tem ate
                       um escritor e historiador aqui em Porto Seguro
                       muito conhecido, nao sei se voces conhecem ...
                       Ele sempre fala sobre a Ilha dos Aquarios. La
                       chamava Ilha do Pacuio.

O senhor sabe          Nao so os leprosos ou tinha mais alguma coisa
informar se na ilha    que nao se encaixava no perfil da epoca. Nao, e
ficavam somente        porque o seguinte, naquele tempo a lepra nao
pessoas com            era como hoje, so que hoje 99,99% dos casos ela
Hanseniase ou Mal de   so e contagiosa naquele estagio em que esta bem
Hansen?                avancado, mas naquele tempo nao tinha medicacao
                       e tinha tambem estigma muito grande ne, entao
                       quando a pessoa (ficava doente) a propria
                       familia (mandava pra ilha), ai meu pai uma ia
                       la uma vez por semana pra atender o pessoal e o
                       barqueiro levava os mantimentos; as outras
                       familias levavam, mas o Barqueiro ia morrendo
                       de medo po diz que ele nao descia da canoa de
                       jeito nenhum, o que era natural e o meu pai
                       dizia que nao tinha problemas que a lepra era
                       so contato pela saliva, mas vai voce dizer
                       isso.

O senhor mencionou     Ele era o unico medico que tinha nessa regiao
que seu pai foi        toda. Ele atendia de Porto Seguro ate Caraiva e
medico la. Pode        Guaratinga. Naquele tempo, pra ir para
falar um pouco sobre   Guaratinga ele tinha que ir de cavalo ate Vera
isso?                  Cruz. De Vera Cruz pegava o rio ate Eunapolis.
                       Em Eunapolis outro cavalo ate aquele rio que
                       passa por Guaratinga e ai descia pra ir. Na
                       Ilha do Pacuio era ele que ia, o barqueiro
                       ficava apenas ali, ele que descia.

Fonte: Elaborado pelos autores da pesquisa a partir de transcricao de
fitas de audio com os entrevistados (2017).

Quadro 2--Dialogo com historiador local para historicizar questoes
sobre a atual Ilha dos Aquarios

PERGUNTAS DOS                   ENTREVISTADO 2 (HISTORIADOR)
PESQUISADORES

Algumas pessoas        Foi colonia de pescadores coisa nenhuma; gente
contam que a atual     que morou sim, mas nao teve nada de colonia de
Ilha dos Aquarios      pescadores. Eu to falando de antes, bem antes.
anteriormente era      Ai e Ilha do Pacuio que era um leprosario, sabe
uma Colonia de         o que e ne?
pescadores. O senhor
poderia discorrer
sobre essa questao?

O senhor saberia       Quando as pessoas, ate a minha geracao mesmo,
dizer quem era         sabe, tem um rapaz aqui, que ta vivo; ele tem
enviado a esse         uns 68, 69 anos, entao nao e tanto tempo assim.
leprosario?            Ele teve aquelas bexigas de "berna", coisa
                       que da em animal, boi. Como as pessoas nao
                       sabiam que doenca se tinha se colocava la.
                       Quando a pessoa tinha uma doenca natural, nos
                       estamos falando de uma cidade (Porto Seguro)
                       que nao e essa que voce conhece ne, e nao foi
                       tambem a que eu conheci. As pessoas que tinham
                       alguma posse eram enterradas nas igrejas, mas
                       quando tinham uma doenca que nao se sabia,
                       entao nao podia enterrar porque ora, enterrava
                       na igreja, na igreja CA-TO-LI-CA, so pra voce
                       entender que era a igreja Catolica que mandava
                       no mundo. Aqui nao tinha evangelico, era tudo
                       catolico. Entao a pessoa que tinha uma doenca
                       que nao se sabia o que era, quando morria era
                       enterrada na igreja.  {...} Morreu de que? Nao
                       sabe. Nao sabe? Entao, enterra no mato. Onde e
                       o mato? O mato e aqui, por isso, Rua Cova da
                       Moca. Quando eu era menino, essa rua que nos
                       chegou aqui, pra pegar a rodovia ela foi
                       enterrada ali, por nao se saber qual doenca ela
                       tinha, a mesma coisa acontecia com Pacuio,
                       quando voce tinha uma doenca, ela era
                       transmissivel, e nao tinha medico pra
                       diagnosticar, entao voce mandava prum lugar
                       deserto, onde era o lugar deserto? La.

E Ilha do Pacuio,      Por causa dos Pacus. Pacu e um peixe. Pacus. E
por que este nome e    essa ilha foi comprada no final da decada 70/
como as pessoas eram   80 por uma pessoa do Rio de Janeiro. E
levadas para la?       importante dizer que quando voce botava as
                       pessoas la, elas tinham que ficar la. Voce
                       pegava uma canoinha, ia pra la, levava
                       mantimento, as coisas e deixava la. Eu nao
                       peguei isso, mas tinha um amigo meu mais novos
                       do que eu 2, 3 anos, que as pessoas queriam que
                       ele fosse pra la, porque ele tava com aquelas
                       coisa berna, aquele negocio que da em cavalo
                       que na epoca nao se sabia o que era. Hoje se
                       sabe, tem medicos.

Fonte: Elaborado pelos autores da pesquisa a partir de transcricao de
fitas de audio com os entrevistados (2017).

Quadro 3--Somente pessoas com Hanseniase ou Mal de Hansen eram
enviadas para a Ilha?

                                ENTREVISTADO 2 (HISTORIADOR)

Um dos entrevistados   Nao e verdade. Isto nao passava de uma
mencionou que quando   brincadeira da epoca. Essa cidade e endogamica,
as mulheres nao        quer dizer, por ter poucos habitantes existia
conseguiam casar,      constantemente o casamento de pessoas do mesmo
elas eram enviadas     sangue, principalmente de primos e isso se
para a Ilha. Isto e    chama endogamia; entao, nem toda mulher
verdade?               conseguia casar, isso era uma desonra naquele
                       tempo. Eram denominadas como "as que ficaram
                       para titia", vale ressaltar que aqui, naqueles
                       tempos, muitas mulheres morreram virgens. Entao
                       por isso, por a mulher nao ter casado, diziam
                       que ela iria pra la. Mas na verdade era tudo
                       uma brincadeira.

Entao, so ia para a    Nao, a pessoa que tinha alguma doenca que
Ilha quem tinha        aparentava ser contagiosa e deveria se afastar
Hanseniase ou Mal de   da sociedade, faziam isso mandando pro Pacuio.
Hansen?

A pessoa que era       Olhe bem, na epoca, a cidade era pequena, as
enviada para la e      familias eram basicamente de pescadores, ou
nao possuia uma        seja, foram poucas as pessoas que foram
familia                mandadas para la, nao era aquela coisa de
economicamente         leprosario de grande porte. Utilizava-se o
privilegiada ficava    espaco para leprosario, mas era pouca gente, e
a merce da sorte?      nao precisava ser lepra, qualquer doenca
                       desconhecida que apresentasse algum risco a
                       populacao.

Fonte: Elaborado pelos autores da pesquisa a partir de transcricao de
fitas de audio com os entrevistados (2017).
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Author:Santana, Elissandro dos Santos; dos Santos, Huillte Barbosa Jardim; do Nascimento, Moreno Fernandes;
Publication:Sustinere - Revista de Saude e Educacao
Date:Jan 1, 2017
Words:7121
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